Durante a composição do livro, Rodrigo Rosa, o editor, me pediu pra fazer um texto homenageando alguém que eu admirasse, dedicando o livro. Eu disse que não queria fazer isso, não via porque dedicar o livro a ninguém além das pessoas que o lessem. Ele insistiu, disse que não precisava ser ninguém vivo e aí eu lembrei do meu pai, da nossa história inacabada, interrompida por sua morte inesperada. Então fiz o texto, que foi colocado na abertura do livro.
A meu pai
Senti a dor que lhe impus. Lamentei cada fração dessa dor. Ninguém acreditou. Eu me tornei o agressor, o ingrato, aquele que desprezou todos os esforços feitos em meu próprio benefício. Um traidor da família.
Lamentei cada grão da dor que minhas atitudes provocaram. Ninguém viu, ninguém sabe, ninguém acredita. Durante muito tempo, minha família de origem deixou de existir em minha vida, eu deixei de existir na vida dela. Creio que em meu pai a dor foi mais profunda, pelas projeções a meu respeito que ele viu desmoronar.
Ah, meu pai! Esperei, na certeza de um dia você entender que foi minha busca por justiça, minha inconformação com a situação absurda da nossa sociedade, o que moveu minhas atitudes, depois de várias tentativas de me enquadrar em alguma posição convencional – apenas para não ferir, pois tais conquistas já não me empolgavam, ao contrário, me pareciam uma espécie de rendição, de conformação, de injustiça.
Quando soube da sua morte, tive o sentimento de que o nosso abraço tinha sido adiado, "agora só quando eu chegar do outro lado, também”. Lá deve ser mais fácil compreender os valores que me guiaram, pois aqui os valores sem sentido são impostos e têm base na forma, no aspecto, no externo. Nosso entendimento talvez já se esboçasse, nos últimos tempos, mas não seria nesse plano. A casa onde moro foi comprada por ele, em decisão própria e para minha surpresa, três meses antes da sua partida. Agradeci pela casa e lhe desejei boa viagem e boa chegada. No vazio que senti naquele dia, diante da ausência, da carência, do amor distante e pleno, escrevi na última página de um caderno, sem pensar, apenas sentindo, muito, esse pequeno texto de despedida e esperança que exponho mais abaixo.
É preciso explicar que, quando nasci, meus pais tinham, ambos, 39 anos. Nos meus 19, quando me expus ao sol do mundo, estavam nos 59 anos. Quando tornei a encontrá-los, os sinais do tempo eram bem marcantes, quinze anos haviam se passado. Eu lhes ficara tão estranho que a distância permaneceu grande – agora menos física, mais sensorial, ideológica, vibracional. A visão de mundo desenvolvida na vivência em pleno chão da sociedade é francamente rejeitada, hostilizada, negada raivosamente não só por eles, mas por toda aquela classe, à qual eu já não pertencia.
“Tivemos tão pouco tempo...
acabei nascendo tarde
e pensando diferente.
Tivemos tão pouco tempo...
e o pouco tempo que tivemos
foi sem muita intimidade.
Cresci tão distante,
fiquei tão estranho,
estivemos tão longe
tanto tempo...
O pouco que tivemos
jamais intimidade
e, no entanto,
eu o amo, tanto, tanto...”
Amor incondicional. Lamento sua visão da minha pessoa e dos meus valores, mas respeito inteiramente, mesmo discordando. Não tenho verdades, mas impressões, opiniões, intuições. O tempo se encarrega das mudanças que não pudemos realizar e que são inevitáveis. Formar a própria visão de mundo e as opiniões é direito e responsabilidade de cada um.
Grande amor, grande respeito e vontade de encontrá-lo, quando chegar o momento.
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Noutra ocasião, Rodrigo comentou a necessidade de fazer correções, ortográficas, gramaticais, de concordância. Eu disse a ele que não devia corrigir nada, tudo estava escrito como eu queria. Ele argumentou, muita coisa estava fora das regras e eu expliquei porquê não queria correções. Compreendendo minhas razões ele pediu pra escrever o que tinha acabado de falar. Foi o segundo texto do livro, pra já prevenir os leitores do que vinha pela frente...
Tomando as rédeas das regras
- ou Declaração -
- ou Declaração -
No princípio era o verbo, disseram. Não acredito. No princípio, nem havia ser humano. Se é que houve algum princípio, assim como a gente entende. Eles dizem um monte de coisas, mentiras a rodo, e nós vamos acreditando na vida de gado. Ê boiada, luta, luta e não arruma nada. A língua escrita quer ditar as normas pra língua falada.
A língua que manda é a falada. A escrita veio depois e anda atrás, toda metida, dando as ordens que a gente não cumpre. A fala vai na frente, mutante, dançante, flutuante, os novos chegando e formando suas mudanças, sem levar regras em conta. A escrita vem atrás, negando, apontando erros que com o tempo vai engolir, impotente diante da força do uso, no dia a dia. O dicionário está cheio de palavras que foram desprezadas como ignorância. A prática se impõe à teoria.
Recentemente, intelectuais de vários países lusófonos se reuniram para definir regras gerais e “unificar” a língua portuguesa no mundo. Aqui da minha ignorância, eu acho um disparate essa iniciativa. Passei os olhos nas tais regras e meu coração repeliu grande parte delas. Esses caras, parece que não conhecem a realidade, não perdem a mania de querer impor de cima pra baixo o que só nasce de baixo pra cima. Deve ser a cegueira da arrogância, não sei.
Não escrevo para receber louvores acadêmicos ou qualificações literárias. Escrevo na forma comum de entendimento da maioria dos que podem entender o que lêem (o que já é minoria, embora numerosa). Pra entrar nos corações e mentes e mexer com alguma coisa lá dentro. Pra causar questionamentos e reflexões sobre a sociedade e a vida.
Enquanto as elites intelectuais arrotam regras, em sua costumeira soberba e idiotia, nós vamos falando por aí, construindo a língua com o falar, inventando palavras e significados, sons e expressões, com os pés na realidade, não nos pedestais.
Declaro meu descompromisso com as regras gramaticais. Uso a escrita como achar melhor, meu foco é o receptor e a recepção é a parte mais importante da comunicação. Não há controle sobre a fala. Os meus escritos tentam falar na linguagem comum, usada e entendida por qualquer um. Lido em voz alta, quero soar como a fala e seu cantar.
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| Desenho original para a capa do Crônicas e Pontos de Vista |
No alto à esquerda, a imagem do sertão, presente nos meus primeiros anos de estrada, sem casa nem paradeiro. Uma realidade forte, difícil, grandiosa, um povo resistente e solidário, duro e carinhoso ao mesmo tempo. Acima, ao centro, simbolizo as praias onde morei e vivi, a maior parte do nordeste. À direita, a cidade, a floresta e a montanha, onde vivi depois, já com filhos. No meio, à esquerda, uma feira de artesanato vista de trás das bancas, as mochilas e bolsas no chão, as pessoas olhando as bancas, a parte de trás dos painéis, imagem que vivenciei por tantos anos. A estrada infinita simboliza não só a vida, mas a própria infinidade. As palafitas são uma imagem que registrei com força no recôncavo baiano, em Maragogipe, onde fui recebido e hospedado por pouco tempo, mas que deixou marcada na memória a vida precária dessa gente sofrida e abandonada à própria sorte. Embaixo, o menino jogando bola com a arma na mão, uma reprodução livre de uma situação acontecida no Rio de Janeiro, embora eu não tenha sido fiel ao cenário. Fiz um desenho mais elaborado desta situação, "Ninguém nasce bandido", que tá no blog com a explicação da história, lá no comecinho, é uma das primeiras postagens. Situado no Rio, com o Corcovado e o Cristo ao fundo, alusão à área de Santa Teresa, onde vi a cena.
É possível adquirir o livro pelo meu endereço - arteutil.em@gmail.com - no sistema depósito bancário e entrega pelo correio. Fica em 25 paus, 20 do livro e 5 do correio. A cada vinte livros, posso pegar cinqüenta com o Rodrigo, da Navilouca, e vender na mão, direto ao leitor, que é a melhor maneira, olho no olho. Se não é possível, vai pelo correio, mas pelo menos rola umas palavras, nem que seja pela internet, entre o autor e o leitor, sendo por imeio (e-mail).
É possível adquirir o livro pelo meu endereço - arteutil.em@gmail.com - no sistema depósito bancário e entrega pelo correio. Fica em 25 paus, 20 do livro e 5 do correio. A cada vinte livros, posso pegar cinqüenta com o Rodrigo, da Navilouca, e vender na mão, direto ao leitor, que é a melhor maneira, olho no olho. Se não é possível, vai pelo correio, mas pelo menos rola umas palavras, nem que seja pela internet, entre o autor e o leitor, sendo por imeio (e-mail).












"Vocês não deixem esse lugar. Cuidem com coragem essa terra. Essa terra é nossa. Ninguém vai tirar vocês... Cuidem bem de minha neta e de todas as crianças. Essa terra deixo na tua mão (Valmir). Guaiviry já é terra indígena". Nestes termos se expressou o nhanderu Nisio, baleado, agonizante. Isso foi relatado aos membros do Conselho da Aty Guasu, que foram levar apoio ao grupo e se inteirar do bárbaro ataque. Conforme o relato, três tiros foram disparados em Nisio - nas pernas, no peito e na cabeça. Além do corpo de Nisio, mais três crianças que estavam chorando ao seu redor, foram jogadas na carroceria de uma camionete.