sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ninguém nasce bandido





Tempos atrás, para chegar em casa, eu passava pelo meio do "movimento", no morro do Fogueteiro, subindo da rua Itapiru em direção a Santa Teresa. Todos me conheciam, morei por ali um ano. Uma vez, eu vinha subindo devagar, de noite, carregado de compras, mais o material de trabalho, quando de um beco sai um moleque pequeno e escuro, com uma bolsa atravessada e uma pistola cromada na mão. No escuro, o cromado aumentava o tamanho da arma e a desproporção com o garoto. Não o conheci e, por instinto, atentei em seus movimentos. Ele caminhou com desenvoltura em direção à turma do "plantão", falou com uns caras da boca, entregou ou pegou alguma coisa que tirou ou colocou na bolsa - não reparei - e saiu andando na direção de uma escada. Dois garotos pequenos jogavam bola perto de um poste mais acima e, nesse momento, deixaram a bola escapar pro lado de cá. Junto com a bola veio o grito - "pega aê!" A bola rolava na direção do menino com a arma e ele virou, levantou a bola com habilidade, matou no peito, fez uma embaixada com os dois joelhos, com os dois pés e devolveu pros meninos no exato local onde eles estavam.


Foi durante esse ato que percebi, meio espantado, ser um menino da idade do meu filho, talvez um pouco mais ou menos. E aí eu pude me dar conta da humanidade dele e da situação em que se encontrava. Tanto que morreu algum tempo depois, como outros que conheci, em tantos lugares.

No desenho eu pretendi inverter o processo de percepção, e escondi a pistola sobre um fundo escuro de uma cerca, para mostrar primeiro a humanidade do menino. Depois, o risco e as opções que lhe são postas, na vida, além de abstrações inatingíveis para a esmagadora maioria, roubada no ensino, na cidadania, na dignidade, nas oportunidades de desenvolvimento real, nos serviços "públicos" e em consciência.

Um outro menino, que chega da escola, de mochila, carregando compras com a mãe, que vem logo atrás, passa tranqüilo pelo fuzil encostado na mesa de sinuca, enquanto os caras do movimento se arrumam com suas mercadorias, funcionários do tráfico nas posições mais expostas e arriscadas, sujeitos a extermínios constantes, mas facilmente substituíveis em meio à miséria circundante. Nesses locais de exclusão, o Estado só se apresenta com a polícia e é quando o terror se implanta na forma mais aguda, pondo em risco a vida de todos na área, matando com triste freqüência envolvidos ou não com o tráfico.

Na birosca rola uma cerveja, uma cana, uma idéia, enquanto as mulheres penduram as roupas lavadas nos varais. Há algo de antigo na favela, de quando as casas ainda tinham quintais e espaço.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Relato de um morador do Alemão





O som no momento ainda é de tiro, talvez de calibres menores, pois aparentemente o confronto maior já cessou, se bem que eu aprendi que quando os tiros diminuem é que o perigo aumenta, porque essa é a hora que o morador da favela sai de baixo de suas camas, ou de seus abrigos de variações diversas, achando que a situação acalmou, e quando menos espera, bum! Volta o tiroteio de novo, sendo que agora os corpos estão de pé nos barracos, e o pior, despreocupados, e quando se está despreocupado é que o pior acontece, pelo menos no morro é assim, e já vi muito conhecido tomar tiro por causa dessa falsa sensação de paz. Ou seja, para se andar pelas vielas é preciso estar com o alerta ligado a todo tempo, independe do céu estar repleto de estrelas, ou infestado de balas traçantes.

Ah, perdão, nem me apresentei, é o nervosismo por causa da trilha sonora do horror. Para quem não sabe a trilha sonora do horror não consiste apenas em barulho de tiros; mixado junto aos tiros se encontram os latidos de cachorros, a gritaria (geralmente das crianças), e às vezes alguma voz gritando. Por conta desses fatores, comecei euforicamente a escrever e me esqueci de dizer quem sou, se bem que isso não tem muita importância, já que sou apenas mais um no meio da multidão favelada; igual a mim com certeza existem milhares, de mesma cor, de mesmo histórico familiar, de mesmos sonhos não realizados. Mas por questão de educação irei me apresentar mesmo assim.

Meu nome é Sebastião, é nome de velho, mas eu sou jovem, tenho 19 anos, herdei esse nome do meu finado pai, por isso os amigos e familiares me chamam de Júnior, me soa melhor, e para falar a verdade eu não tenho nenhuma cara de Sebastião, quando me chamam de Tião então, aí é que eu fico mais puto, minha mãe tem mania de me chamar assim quando faço algo que ela não gosta, mas não há nada que me tire mais do sério do que a guerra da hipocrisia, tipo essa que está rolando atualmente, e por isso resolvi escrever, não sei direito o porquê, mas como eu também não sei direito o porquê de tantas coisas, resolvi escrever assim mesmo.

Sou morador do morro do alemão, onde atualmente explodiu uma guerra, antes nunca vista no Rio, digo nunca vista, porque aparentemente dessa vez o objetivo é outro, e a causa também; afinal, por que antes de se falar em Copa no Brasil e olimpíada no Rio, nenhum Governo se preocupou em pacificar favelas? Antes o pensamento era: deixa esse povo se matar. Agora, pelo visto, a situação está um pouco diferente, pelo menos um pouco.

Nasci aqui, cresci aqui e vivo nesse morro até hoje, não sinto orgulho disso, mas também não sinto vergonha, afinal, teria eu, orgulho de quê? Vergonha de quê? É o que me resta morar aqui, é a única herança que tenho, o barraco que foi de minha avó e que hoje é uma humilde, porém aconchegante casa.

Por enquanto ainda não dá para morar no asfalto, mas não me sinto mais ou menos gente do que eles que moram lá em baixo; porém, me sinto mais digno do que alguns membros fardados que se dizem representantes do Estado, e que atualmente estão sendo aclamados como heróis por grande maioria da sociedade, aliás, nunca consegui entender direito os critérios que a sociedade em que vivo usa para escolher os seus heróis, talvez eu vá morrer sem entender.

Agora pouco fui à janela dar uma espiada no movimento do morro e pude ver alguns deles caminhando e ostentando seus armamentos e suas caras de mau, pude até ver alguns com os rostos pintados, como se tivessem preparados para uma verdadeira guerra do Vietnã, mas dessa vez os vietcongs a serem caçados não tinham cabelos lisos muito menos olhos puxados.

Pude ver no meio deles alguns conhecidos, eram poucos é verdade, já que a tropa invasora é formada em sua grande maioria por policiais de fora da área, mas os que puder reconhecer são frequentadores assíduos do morro, vira e mexe estão aqui para vender armas e até mesmo drogas que apreenderam em morros rivais, alguns eu vejo toda sexta-feira, pois é o dia que eles religiosamente comparecem ao morro para pegar a propina para que o baile funk possa rolar na paz. Eu sei disso tudo pois minha casa fica em uma área estratégica, posso dizer que moro numa linha imaginária do morro, pois a partir dali a polícia sabe que não pode subir, e desde que moro aqui poucas vezes vi eles passarem daquele local, a não ser em casos extremos, como quando morria algum repórter, e a mídia fazia pressão até encontrar o assassino, ou então agora, nessa guerra copeira e olímpica. E é por essas e outras que eu não consigo achar heroísmo nesses homens fardados que se dizem representantes do Estado, já que a maioria das armas que atualmente está sendo mostrada na TV como sendo apreendidas por eles não estaria aqui se os próprios não tivessem trazido e vendido para os próprios traficantes que agora estão caçando.

Às vezes a sociedade se pergunta quem financia todo esse caos, geralmente quem toma essa culpa é o viciado, mas eu sei bem quem é o verdadeiro financiador e quem sai lucrando com essa guerra.

Só que dessa vez está tudo diferente, os policias que antes eu via circulando no morro agora estão andando com policias federais, com militares do exército e marinha, não que eles sejam menos sujos, não que eles não fossem se vender diante de uma oferta tentadora de um traficante, mas eles não são daqui, e o momento é outro, agora o objetivo também é outro, antes eles vinham pra buscar dinheiro e fazer falsas apreensões para mostrar na TV que estavam trabalhando, e a população em sua maioria acreditava naquela cena toda, mas hoje não, hoje eles estão vindo para realmente fazer valer a presença do Estado (anos ausente), dá para perceber isso nos olhos dos soldados, dos policiais; se eu não fosse morador daqui até acreditaria que eles são realmente heróis, acho inclusive, que até eles estão se enganando achando que são heróis de alguma coisa, quando na verdade passam longe disso.

O fato deu estar criticando os policias não quer dizer que eu apóie os bandidos (estou me referindo aos traficantes), já que usar o termo bandido para discernir o policial do traficante pode ficar um tanto confuso, pelo menos para mim fica.

Criticar a polícia não consiste em um apoio ao tráfico, uma coisa não tem nada haver com a outra, já que para mim são dois imbecis lutando por nada, ou melhor, por interesses financeiros próprios que no final resulta em nada, só que por esse nada muito sangue escorre e muito inocente acaba morrendo. É a guerra do bandido X bandido, só que agora um bandido virou herói e o outro virou mais bandido ainda.

Quero estar vivo para ver esse morro realmente pacificado, pois polícia andando nas vielas e bandeira do Brasil fincada no alto do morro não quer dizer sinônimo de paz para mim. Quero estar vivo para ver o dia em que o Governo investirá pesado na educação, pois aí sim, as coisas poderão começar a mudar. Quero estar vivo para ver minha mãe poder vir dormir em casa todo dia sem se preocupar em ter que levar roupa para dormir no trabalho caso haja tiroteio no morro. Quero estar vivo para poder realmente apertar a mão de um policial e finalmente olhar dentro do olho dele e o ver como um verdadeiro e digno herói.

Por hora vou terminando este escrito, até porque a trilha sonora do horror voltou a tocar, e eu preciso me refugiar. A guerra de fato ainda não terminou, e está longe disso, sinto até pena dos que acham que agora a guerra terá realmente um fim.

Confesso que não estou com uma impressão boa, talvez por isso tenha resolvido escrever, pois apesar de estar no local mais seguro da casa, as balas estão cada vez mais ousadas, e não existe barreira para elas, talvez alguma me encontre hoje (aquela mesma que a mídia insiste em chamar de perdida), ou algum dia qualquer, sei lá; mas as minhas palavras permanecerão no papel, eternizadas enquanto o tempo não as destruir. Espero um dia poder abrir este papel para ler sobre um tempo não mais vivido, e poder finalmente escrever alegremente um texto de outro título. Esperarei ansiosamente pela chegada de meus verdadeiros heróis, e para eles terei o imenso prazer de escrever e dedicar a paz em primeira pessoa.

Rio de janeiro (purgatório da beleza e do caos) - 28/11/2010


Autor: Bruno Rico.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

No mundo sim, mas em si primeiro

Quando finalmente chegamos à conclusão que a vida é insatisfatória, que as diversões não divertem, que o consumo é uma indução, o entretenimento um entorpecente, os valores falsos e que fomos enganados, é surpreendente a mudança geral na visão de mundo.

Evidente haver um controle nos bastidores da sociedade. É evidente o poderio econômico das associações de mega-empresas de dimensões difíceis de imaginar, capazes de interferir – e mesmo controlar – Estados, mesmo “democráticos”.

As aspas são porque uma democracia só existe se o povo estiver bem instruído, bem informado, bem assistido pelo Estado, o que não é, evidentemente, o nosso caso e o da maioria dos países. As empresas não permitem que se invista na educação, enfim, no povo. E as de mídia controlam a informação, com enorme poder de pressão dentro da sociedade, nas políticas públicas, na criação de leis, na formação de valores, opiniões, desejos (massacre publicitário), no controle da população.

Às vezes surge a necessidade interna de “fazer alguma coisa”, se sentir útil em alguma forma de mudança, pelo menos descarregando a inconformação, no mínimo, para manter a saúde, física ou mental, pra dar sentido à vida. Há muitas maneiras. Consistentes, inconsistentes, neutras, úteis, contraproducentes...

O fato dessa necessidade ser interna, abstrata, já sugere por onde começar o trabalho. Internamente. Em nós mesmos carregamos as falhas, os valores, as disposições e os erros existentes no mundo, na sociedade. Alguém pode se declarar isento dos condicionamentos impostos, da educação castradora, da pressão da publicidade e do consumismo desenfreado, da tendência à competição, de orgulhos e egoísmos? O núcleo familiar já apresenta pressões. Em toda sociedade se cobra a mediocridade, o padrão. A cultura do superficial, do supérfluo, do descartável, da fartura externa e da carência interna, a razão acima do sentimento, da intuição.

O trabalho com o mundo externo precisa de um profundo e sincero trabalho interno, individual, atento, humilde e constante. Com o tempo, naturalmente, quase que sem se perceber, esse trabalho começa a transbordar, e passa a servir ao mundo, na medida da fertilidade da terra em que cai – são sementes que brotam espontaneamente, como conseqüência da seqüência da vida e do trabalho. No meu caso, quando comecei a colocar no trabalho os pensamentos e reflexões, o relacionamento com o mundo passou a ser muito mais intenso e profundo. O estudo se aprofundou e as relações humanas (e reações, também) passaram a trocar muito mais. Ensino e aprendizado se confundem. Você passa a falar com o comportamento, com o sentimento, com o seu ser e com o ser das pessoas. Nem precisa falar muito, as pessoas sentem, entendem, percebem. Os encontros acontecem, sempre que preciso, por qualquer motivo. Muitas vezes, não cabe entender os porquês, mas podemos sentir a existência de “porquês”.

Um revolucionário, um evolucionário, qualquer um desejador de trabalhar por mudanças reais na sociedade e no mundo, precisa começar esse trabalho dentro de si mesmo, se quiser ter consistência nas ações externas. Perseverança, serenidade, convicção e ausência de expectativas. A humildade facilita muito o caminho. Evita a sensação de humilhação e aumenta a capacidade de perceber as coisas. O orgulho, ao contrário, cega, se ofende, fere, desequilibra. Mas é estimulado ao extremo.

Quanto ao que fazer, a vida nos dá os sinais. Se não der, imagino a necessidade da decisão, da vontade. Mas, em geral, não vemos os sinais estão ao nosso lado ou aparecem pela vida. Mas muito cuidado – quando, na procura, há uma vontade enorme de encontrar, acabamos achando onde não há.

Discernimento é trabalho interno a ser desenvolvido em interação constante com o externo.

O mundo só é como é, porque consentimos que seja. Gradualmente percebemos isso, gradualmente as coisas mudam. A satisfação é viver com este sentido, não esperar chegar neste objetivo. Na verdade, o objetivo é o caminho. E a busca é do que podemos levar da vida. Aí, só a intuição pode falar. Podemos melhorar nossos receptores, mas não podemos usar outros que não os nossos. O trabalho interno costuma melhorar muito. Tanto os receptores, quanto os transmissores.

Somos nós, todos, a força dos que nos oprimem, os controladores do mundo, os donos dos impérios. Sem a submissão, não há impérios. Se não posso mudar o mundo, posso mudar minha visão de mundo, meu comportamento, meus valores, meus desejos. E existir é a função. Ser da forma que eu gostaria que todos fossem – ou viver tentando.




Os desabrigados e os “revolucionários”


Era uma favela cênica, de bambu e papelão, a ser construída durante a madrugada na praia de Icaraí   (clique para ver mais)



Pouco tempo atrás, fui chamado para uma manifestação dos desabrigados das chuvas de abril, em Niterói – por ausência de ações preventivas - e reparatórias - do poder público, que não cumpre as leis e nem o papel coletivo para o qual foi “eleito”. Era uma favela cênica, de bambu e papelão, a ser construída durante a madrugada na praia de Icaraí, para expor a situação dessa parcela da população, tradicionalmente desprezada pela sociedade, que depende dela para os serviços básicos, para o trabalho mais duro, mais indispensável e mais mal remunerado.

Cheguei pouco depois da meia noite, havia cerca de dez pessoas já iniciando a montagem, com bambu e papelão. Minha contribuição foi pintar umas portas e janelas, terminamos com o dia claro. A cidade acordava e a favelinha, com sua vala negra, lixos espalhados, ratos e aranhas de borracha, varais de roupas e fios “elétricos” foi notícia até fora do Brasil.

Depois me convidaram para uma reunião, no DCE da UFF. Achei estranho. Área acadêmica não combina com movimento popular. A língua é outra, a vida é outra. Os acadêmicos têm um claro sentimento de superioridade. Uns arrogantes, outros gentis, mas sempre superiores à maioria sabotada em educação. A universidade não assume obrigação moral com quem a sustenta. O curso “superior” não ensina humildade. E não deu outra.

Acadêmicos – não desabrigados - falavam e tomavam notas, conduzindo a reunião. Natal das crianças pobres, ônibus contratados e Museu da República. Por um instante me pareceu estar no lugar errado. Nada contra, acho ótimo um Natal decente pra essas crianças que não têm. Mas ali, no comitê dos desabrigados? Por que não vão procurar diretamente as comunidades? Há muito mais crianças por lá. Além do mais, prioridade de desabrigado é abrigo, não festa. Em seguida, um outro tomou a palavra e cobrou engajamento do grupo. Que falta de respeito. Pobres acadêmicos. Em sua cegueira orgulhosa, pensam que falta de estudo é falta de personalidade. Não percebem que as dificuldades materiais produzem uma garra que esses doutores não podem imaginar. Tivessem humildade e se surpreenderiam com a sabedoria, a resistência dessas pessoas aos golpes mais duros da vida. E perceberiam o quanto têm a aprender.

Alguém falou em curso de formação política. Outro levantou o braço e mandou um “questão de ordem!” Eu levantei e saí da sala. Lá fora, tentei organizar os pensamentos. Alguma coisa estava errada. Em nenhum momento aquelas pessoas falaram de casas. Claro, não eram desabrigados. Claro, suas prioridades eram outras. Quais? Não sei, mas não eram casas. Parece que estão querendo controlar o comitê. Gostaria de estar enganado, mas se não estiver, a última coisa que interessa a esses acadêmicos é que se obtenham casas para os desabrigados. Quanto mais durar o grupo, melhor pras suas entidades e agremiações.

Se o grupo aceitar essa interferência, está perdido. Não tenho mais vontade de ir às reuniões, apenas às ações. Aliás, não havia nenhum desses acadêmicos de partidos e siglas na madrugada, em Icaraí. E foi tudo direto, fácil, em harmonia. Sem ninguém mandando. Quer dizer, “organizando”. Deus me livre dessas “organizações” e da sensação de alguma coisa por trás. Inclusive conseguir entrada nas diversas comunidades representadas pelos desabrigados do comitê.

Não quero aqui ofender ninguém, não estou acusando má-fé, até pelo benefício da dúvida. Mas não faz sentido falar de qualquer assunto, em reunião de desabrigados, que não seja a obtenção de casas para os milhares que as perderam. O resto é perda de tempo, energia e oportunidades. Pelo menos para os que estão sem casa.

Quem quiser conduzir as massas, que vá entregar pizzas.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Controle, contenção e vazamento




A mídia constrói sua credibilidade nos assuntos inofensivos à estrutura da sociedade, com muita competência e profissionais de alto nível - de qualificação e remuneração – aliados à mais alta tecnologia. Mas é implacável e cruelmente eficiente na defesa da manutenção dessa estrutura absurdamente desigual, do controle pelos interesses privados das instituições públicas, impedindo os Estados de investirem de verdade nas suas populações, no desenvolvimento humano, no atendimento das necessidades básicas e no respeito aos direitos fundamentais. Ela, a mídia, pertence às elites, não se pode esperar outro comportamento, embora seja inaceitável a má-fé e o cinismo com que, tantas vezes, a realidade é distorcida. Deve ser grande a confiança na sabotagem do ensino público e no controle e direcionamento do ensino particular. Confiam na eficiência da hipnose coletiva.

Daí a preocupação da elite e dos ricos proprietários da mídia em controlar o espaço público das comunicações. Daí a criminalização das pequenas emissoras comunitárias, alternativas, locais, de movimentos culturais e sociais, que tentam abrir o espaço para a diversidade incrível das populações. É preciso impedir a diluição do seu controle e eles se empenham com todas as suas forças para blindar seu poder e mantê-lo.

Mas a blindagem apresenta vazamentos. Em princípio quase imperceptíveis, aumentam em número e volume. Vaza por todos os lados. O corpo midiático principal se mantém, forte e operoso, com ares de onipotência. Mas o processo está em curso. A cada momento surgem mais participantes, mais vazamentos, de informações, de propostas, de denúncias. Este é o processo.

Os acendedores estão por toda parte. Acendendo suas próprias luzes, estimulam mais e mais “acendimentos”. Este é um sentido pra dar à vida. Há muitos outros. E na mesma direção.

Falsa superioridade

Acredito que a repulsa e o desprezo sentido por muitas pessoas, das classes altas, pelos mais pobres e pelos miseráveis da sociedade, tem origem, na maior parte das vezes, na percepção inconsciente da própria responsabilidade, diante de existências que acusam e revelam seu egoísmo, sua arrogância – e sua indiferença.

É da consciência incomodada, unida com o apego aos privilégios, que parte a discriminação, a inferiorização dos pobres. Cria-se um sentimento de superioridade humana, com base em referências sociais, e acredita-se (voluntariamente) que a miséria e a pobreza são males inevitáveis e que a “culpa”, em grande parte, é dos próprios pobres e miseráveis. Eles não se esforçam, são vagabundos e não querem nada.

Essa “superioridade” é plenamente "justificada", diante da visão superficial, pela educação mais refinada, qualificada, por um padrão de consumo bem acima da maioria, pelo acesso a um volume de informações exageradamente superior e inúmeras outras facilidades, condições restritas a minorias tanto menores quanto mais altos forem os padrões. E se confirma de forma irônica, pela necessidade que há de serviçais para manutenção desses padrões. Ao invés de perceber a fragilidade e dependência expostas, prefere-se distorcer a realidade e apresentar a exploração do trabalho mal pago como um “benefício”, o fato de “oferecer empregos”. Esconde-se a dependência e a fragilidade, maquiada, é apresentada como fortaleza – “eu pago!”

Indivíduos. Grupos. Povos. Planetas. Estrelas. Galáxias.
Todo o Universo se encontra em constante e eterna evolução.

Uma fortaleza falsa e frágil, fácil de desmascarar (desde que haja interesse real) com simples, leves e pacíficos golpes de consciência. Apesar do seu aspecto indestrutível e ameaçador, a fortaleza tende a desmoronar, quando lhe retiramos o consentimento e a colaboração. É neles que a relação de superioridade/inferioridade se sustenta. Existe preparação para o ataque direto, a contestação violenta. Mas não para a conscientização. E é a consciência que, efetivamente e a partir de dentro, possibilitará a mudança para melhor do ser humano, suas relações pessoais, das sociedades e das relações com o mundo.

Absurdas proibições



Estatísticas recentes apontaram a causa principal de morte de jovens e adolescentes, no Rio de Janeiro. Tiros. De fuzil, escopeta, pistola, até explosão de granada. É a “guerra ao tráfico”. Milhões de famílias vivem num clima de terror. As armas de guerra cospem aço que fura paredes. E como nas guerras, não se respeita ninguém. Notícias de atingidos e mortos são freqüentes. Muitos são omitidos, esquecidos, apenas estatísticas. Os presos enchem as cadeias e aprendem a ser mais violentos, mais insensíveis, mais brutais. Familiares e amigos passam por humilhações constrangedoras para vê-los. A maioria pobre é tratada de modo indigno e violento pelo Estado que, não cumprindo suas obrigações constitucionais, rouba os direitos básicos de milhões e milhões, sabotando suas vidas, seus potenciais desperdiçados, a consciência desarmada e entorpecida, a dignidade perdida. A remuneração oferecida pelo tráfico encontra vasta legião de sabotados da sociedade, seus direitos transformados em privilégios para a minoria. E somos, como parte desta sociedade, todos co-autores desses crimes. E reconhecê-lo não me faz sentir culpa, mas responsabilidade. Em minhas posições, em meus valores, em meus desejos, minhas ambições, minhas escolhas, enfim, meu comportamento, dentro do todo.

A idéia de que é o usuário o “culpado” pelo tráfico, a mim, parece não suportar uma pequena análise. Um absurdo só concebível pela ignorância (absoluta ou relativa) ou pela má fé. Desde que o ser humano é ser humano, desde que se conhece sua existência como tal, sempre foram usados os alteradores de consciência. Muitas dessas substâncias são usadas cotidianamente pela população, até mesmo oferecidas pela indústria farmacêutica. Quem não conhece o Lexotan – e outros, piores ainda? O tráfico só apareceu depois da proibição. Muito depois, aliás. Quando foi percebido o filão, a mina de ouro.

Quando se proíbe qualquer coisa usada normalmente, oferece-se uma fonte de renda ilegal, sem fiscalizações, controles de qualidade, sem vigilância sanitária, sem regras, sem impostos, sem leis trabalhistas ou compromissos sociais. O custo fica por conta de mais ilegalidade, corrupção, tráfico de influência e armas, assassinatos de encomenda, penetração do aparelho do Estado de todas as formas possíveis e uma série de armações criminosas.

Quando proibiram o álcool, década de 30, nos USA, instalou-se a máfia, para o tráfico e a produção ilegal de bebidas, e empesteou a sociedade, incluindo a cúpula política, jurídica, midiática, social, do topo até a base. E os casos de cirrose não diminuíram.

Aqui no Brasil, o tráfico está infinitamente mais impregnado na sociedade, em todas as camadas. E as conseqüências mais cruéis estão na base, na ponta das cordas que partem do grande nó central e se encontram com as ruas, nos soldados do tráfico. Estes, oriundos da miséria, na esmagadora maioria, são os que batem de frente com as operações policiais, os que mais morrem.

Agora mesmo estou ouvindo um tiroteio, num morro próximo. Toda a coletividade, ali, está em risco. De duas dúzias de meninos entrevistados no documentário "Falcão, os meninos do tráfico", só um ainda vivia quando estreou o filme. Todos os outros haviam morrido. É um genocídio em curso. Mais um. E, como sempre, sobre os mais pobres, os sabotados do sistema. Seria de envergonhar qualquer membro desta sociedade, se houvesse um mínimo de consciência social. Mas há uma enorme dificuldade neste sentido. Os valores apregoados e estimulados pela mídia e pela cultura do consumo – e do trabalho como o centro da vida – são o egoísmo, o conflito, a competição, a vingança, a divisão, a solidariedade restrita, a ânsia do consumo supérfluo, a hierarquia baseada na propriedade. De tal maneira que o valor da vida é menor que o valor da propriedade – quem duvidar disso, compare as estruturas operacionais das delegacias de defesa do patrimônio com as delegacias de crimes contra a vida (homicídios). São sinais, e são inúmeros. A morte de um grande proprietário é investigada com afinco, enquanto a morte de quem nada tem é, simplesmente, deixada de lado. As exceções não desfazem a regra, quem mora em comunidade pobre sabe muito bem disso.

As leis que penalizam as drogas são leis genocidas e corruptoras das instituições. E não me admiraria se estivessem dentro de uma estratégia de extermínio de pobres e mais concentração de riquezas e poder. Os serviçais das elites seriam poupados, assim como os funcionários públicos de baixo escalão, por imprescindíveis à manutenção dos privilégios dos abastados, se pudesse haver controle no processo. E se é que não há.

Não reconheço no Estado o direito de tutela. Cada lei deve reger as relações entre as pessoas, nunca os usos e costumes de cada um, principalmente se não afetam outras pessoas. Não pode haver lei sobre uso de drogas, a não ser nos casos de necessidade de tratamento. A proporção é bem pequena. Nunca se soube de overdose de maconha, por exemplo. O que mata é a proibição, que abre corrupção policial, o envolvimento com bandidagem, a extorsão de usuários, compra e venda de armas, uma relação infernal. Que, sem a proibição, não aconteceria.

Duvido que não haja pressão para manter a proibição, feita pelos empresários do tráfico - que não moram e nunca moraram em favela, ao contrário, têm empresas pra legalizar os gigantescos lucros do tráfico, fazem doações de campanha, monitoram seus políticos e juízes, negociam com o sistema de segurança, "permitindo" o sucesso de algumas operações, pra mostrar na mídia. O chamado "boi de piranha", pra salvar a boiada.

Não sou a favor da maconha e das drogas. Mas sou contra as leis que proíbem, porque seus resultados são desastrosos, contraproducentes, destrutivos, ou seja, muito piores que os males que alegam querer evitar. Como no caso do aborto, mas aí é outra história, pra ser desenvolvida em outro escrito.

Se o objetivo fosse realmente evitar, seria preciso, no mínimo, tirar o assunto da área de segurança pública. Saúde pública, apoio àqueles que se prejudicam com o uso, campanhas de esclarecimento, de conscientização.

Maconha tinha que ser vendida na feira, na barraca de ervas, baratinho, como boldo, erva-de-santa-maria ou qualquer outra erva medicinal ou aromática. Inclusive porque se poderia tomar como chá, também, com menos efeitos nocivos que a fumaça. É ridículo achar que uma pessoa pacífica se torne agressiva por causa da maconha. Inclusive o contrário é muito mais provável.

Já passou da hora de acabar com essa barbárie, transferindo o problema das drogas para a alçada da saúde pública e liberando a polícia para tratar de crimes de verdade. Isso seria o golpe mortal na bandidagem do tráfico.

Mesmo assim, isso não resolveria o problema da violência e da criminalidade, pois sua origem não está no tráfico, mas na miséria produzida pela estrutura social dominada pelo poder econômico e baseada na ignorância, no consumo compulsivo e na manutenção da pobreza, da ignorância e da exclusão – e a ameaça implícita que esta representa à insubmissão às injustiças institucionalizadas. O que se mostra aqui é apenas o foco mais pesado, bárbaro, visível e estúpido, que atinge indiscriminadamente, usuários, traficantes, policiais e inúmeras vítimas colaterais e cuja necessidade e possibilidade de extinção são óbvias.

Ainda volto a este assunto.
                                                                                                                         Eduardo Marinho

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Evolução Social



Desenho feito em 1996. Outra versão foi feita em 2003. A terceira é de 2010.
A 2ª está alguns textos abaixos, aquarelada (colorida).


Evolução social

            Até hoje, nas políticas oficiais, não se percebeu que violência não combate violência, que se o foco principal (a miséria, a ignorância produzida com a sabotagem do ensino público fundamental e médio para a maioria da população e a desinformação espalhada pela mídia) fosse central na problemática social e prioridade nas políticas públicas, teríamos reduzido os índices de criminalidade.
            Quando houver investimento nas políticas de real interesse em extirpar essa miséria que acompanha a sociedade onde quer que ela se implante, a violência será reduzida aos casos de psicopatia ou desajustamento de qualquer ordem. De toda forma, instituições dedicadas ao estudo e desenvolvimento de tratamentos adequados à ressocialização, ao apaziguamento, ao ensino, ao desenvolvimento da sensibilidade e do sentimento de integração à coletividade de forma útil e solidária, custariam menos ao Estado que a última quebra do sistema financeiro.
            Na Constituição Federal, consta que o Estado tem a função de garantir necessidades essenciais à vida digna (alimentação suficiente, ensino de qualidade, moradia salubre, acesso a trabalho, ao transporte, o direito de ir e vir, etc, etc.) e o que vemos é o não cumprimento escancarado, descarado e cínico, por parte do Estado, das determinações da sua Carta Magna. Ao contrário, cada organização popular a reivindicar direitos, promover manifestações e ações pacíficas, esclarecer, conscientizar e pressionar o poder público para cumprir a lei (!) é criminalizada na mídia e alvo do ataque das forças de segurança pública, com o aparato repressivo de contenção de massa, que vem sendo adquirido paulatinamente pelos governos, sob pressão dos interesses privados, os mesmos financiadores das campanhas eleitorais.
            Pra esses caras, é fácil pensar que armando as forças de segurança para a guerra será possível manter a violência longe deles. Além do que eles têm seus próprios aparatos de segurança particular, carros blindados, batedores, helicópteros. Eles não têm expectativa de acabar com a violência. Devem saber que suas empresas estão na origem e no final das razões para a barbárie, são elas (e seu poder econômico) quem amarra o Estado para não investir na população, chamando de custo social e exigindo cortes cada vez mais profundos. São as empresas quem se beneficia dos salários baixos, aceitos pela pressão do desemprego, da miséria sempre ameaçando. Condições de segurança, de higiene, direitos trabalhistas, tudo “flexibilizado”, tudo morto.
            Os políticos que fecham sem restrições com esses caras costumam odiar os movimentos populares, atiram furiosamente a policia pra cima deles, abrem processos de extinção na justiça, enquanto a mídia fica histérica de ódio, transformando lutadores por justiça em bandidos em seus pseudo-noticiários. Cercam favelas com muros, implantam unidades dentro das comunidades que ficam próximas aos eixos de movimentação, por onde passa a classe média em massa – vítimas potenciais da bandidagem. Bem, a classe média costuma formar opinião, tem certa voz no coletivo. Se pudessem, cercariam as áreas de exclusão com muros como o da Cisjordânia ou de Gaza, com passagens controladas por guardas armados, permitindo a saída apenas dos que tiverem carteira assinada ou comprovarem a razão da saída. E eu cada vez mais me convenço de que esses caras – tanto os políticos, quanto os seus patrões reais – sabem a causa da miséria – e de tanto sofrimento -, sabem como se poderia acabar com ela, mas não estão nem aí. Temem por seus privilégios e precisam exercer o máximo de controle possível para mantê-los. Se possível, aumentá-los cada vez mais.
            Pra isso, avançam no Estado, o montante do dinheiro público é enorme. Sob sua pressão, o orçamento destina uma merreca insuficiente pra educação e saúde públicas de base (para pobres), diminuindo o “custo” social e aumentando o dinheiro público para o uso privado, sob infinitos pretextos.
            Quando as situações de fragilidade forem a prioridade do Estado e da sociedade, rapidamente elas serão extintas. O abandono da velhice e da infância, as misérias material, de um lado, e moral, de outro, as situações de ignorância e abjeção, os conflitos fundiários, a criminalidade endêmica, tudo isso será coisa do passado, objeto de estudo nos livros de história e de espanto e horror, entre estudantes e pesquisadores.
            Sinto a chegada de novas gerações, com novos pendores e impulsos. Cada vez mais e mais questionam os valores vigentes, o consumo compulsivo e a hipocrisia da mídia privada e seu monopólio do espaço público de comunicações. A mediocridade, a indiferença, a entrega sem questão aos valores absurdos tem cobrado seu preço. Em angústia, em frustração, em revolta, em depressão. Os que não aceitam se conformar com isso aumentam em número. Mas não se percebe esse movimento à primeira vista, é preciso andar pelo chão da sociedade. E é melhor que não se perceba, mesmo. Ou o aparato do sistema pode ser ativado – caso aqueles caras se sintam ameaçados antes da hora - e provocar muito mais sofrimento que o necessário, na evolução das coisas.
            Olhando lá do alto, açambarcando os continentes, pode-se perceber significativas mudanças e importantes movimentos no equilíbrio geo-político entre as nações e mudanças de realidades e comportamentos, que contaminam os povos. O processo caminha. É preciso caminhar com ele.

Eduardo Marinho                                                                                       11 de novembro de 2010        

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Filho de bandido

            - Não vai tirar, não – o tom era seguro. Ela hesitava e argumentava:
            - Mas como é que eu vou ter filho, tá maluco? E se minha mãe me bota pra fora de casa?
            - Eu dou meu jeito -, ele parecia tranqüilo, nos seus dezenove anos. Ela estava pelos quatorze. Eles tinham um ano de namoro e estavam apaixonados. A camisinha do posto de saúde tinha estourado, numa refrega mais intensa, eles tinham contado com a sorte e esquecido o assunto. Até ela revelar a ele o atraso de três semanas. Ele havia aberto um sorriso de felicidade, mas ficou sério diante da idéia do aborto. Isso ele não queria.
            - Tu tem é que largar essa vida. Minha mãe não quer te ver nem pintado. Que jeito que tu quer dar? Nezinha já falou que me ajuda.
            Ele fechou a cara e levantou a voz.
            - Nezinha é o caralho! Não vai matar meu filho, não! Já disse que dou meu jeito.
            - Que jeito? Minha mãe tá certa, filho de bandido já nasce sem pai, que o destino é a cadeia ou o cemitério. Vai arranjar trabalho decente pra sustentar teu filho? E onde é que eu vou morar?
            Ele começou a arrumar as coisas na mochila, pegou um cofre de balas cheio, encaixou no fuzil, encostou na parede, sentou na cama com a pistola no colo.
            - Na hora que tu quiser, vem morar aqui, comigo e a mãe. Ela gosta de você, não é que nem a tua, comigo.
            - Se eu fosse puta, duvido que ela gostasse. E tu é bandido, não pode tirar a razão da minha mãe – ela foi rápida e certeira. Ele se ressentiu.
            - E tu acha que bandido é o mesmo que puta?
            - Não sei o que é pior.
            Ele terminou com a pistola, colocou na mochila. Levantou, foi até a janela, olhou as luzes daquele mar de barracos, morro abaixo. Ele tinha vergonha de ser bandido, não gostava de ser temido. Entre bandidos, precisava, pra não perder o respeito. Mas não maltratava ninguém, falava sempre baixo, com educação, escondia as armas, ao contrário dos outros, que gostavam de ostentar. Morador ele não deixava ninguém maltratar, na posição de respeito que tinha alcançado – em grande parte por causa da sua disposição de enfrentar a polícia. Ele ficava como possuído, atirava como louco, ainda fazia mira, entre as rajadas, quando divisava um alvo. Já tinha derrubado vários, e gargalhava quando isso acontecia, pra estranheza dos companheiros. Mas todos sabiam o porquê. Seu pai fora morto pela polícia.
            Era um biscateiro, fazia de um tudo, consertava canos, instalava a eletricidade nas casas, tinha uma carroça que usava pra buscar coisas pra consertar, catar reciclagem e fazer fretes. Sempre se orgulhara de ser honesto e trabalhador, mesmo desfavorecido pela vida, sem estudo, sem formação, sem capital. Fora com o pai que ele aprendera a gostar de todo mundo. Adorava sair com o pai e a carroça, quando não tinha aula. O pai, ele e o Tarzã, um vira-lata malhado e magro. O pai cantava, assoviava e dançava, falava com todo mundo, os porteiros lhe davam as coisas que os moradores dos prédios dispensavam, pediam alguns favores em troca, ele atendia de boa vontade. Quase sempre ele ganhava uma quentinha, pela hora do almoço. Algum restaurante ou moradores, mesmo, ele era muito querido. Até a noite em que ele saiu do bar, na favela, e tomou uma rajada, sem explicação. Depois puseram uma arma na mão dele. Seu pai, que dava o maior valor a não ser bandido, saiu no jornal como traficante, morto em confronto com a polícia. O ódio não cicatrizava. Depois daquilo, nunca mais foi à escola, apesar da insistência da mãe.
            Ele deixara a carroça guardada no lugar dela, num terreno vazio, do lado do posto, junto com outras carroças, era muito pequeno ainda, nos seus dez anos. A mãe emprestou pra um tio, em troca de uma merreca, o que rolasse. A carroça seria sua, quando crescesse um pouco mais. Mas a mãe adoecera e ele acabou vendendo pra comprar os remédios, que ajudaram, mas não curaram. Depois ele foi se arrumar no tráfico e foi o que deu condição pra eles viverem sem perrengue braba. Era só ele e a mãe. O mais velho tinha morrido, também, já fazia uns quatro anos. No tráfico. A mãe, cada vez mais calada.
            Olhando as luzes da favela, ele sentiu uma tristeza profunda.
            - Vou mudar de vida – ele murmurou. O rosto dela se iluminou.
            - Quando? – e foi se chegando nele, dengosa. Ele continuava olhando as luzes, pensando. Sentou na cama, olhou nos olhos dela.
            - Preciso arrumar um dinheiro. Me dá um mês. Aí a gente abre uma birosca, aqui na favela, mesmo. Só não vou poder ficar de frente, no começo, até os “verme” esquecer da minha cara.
            Ela irradiou felicidade, bateu palmas e se atirou em cima dele, aos beijos.
            - Mas não vai tirar a porra do meu filho, não! – ele fazia de bravo – e deixa eu ir, que agora é função – e saiu pelo escuro dos becos, fuzil pendurado no ombro.
            Na cabeça de menino, ele ia imaginando o filho, a risadinha de criança. E pensava na mãe, “tu vai brincar com teu netinho, mãe, botar ele no colo e sair dessa tristeza. Vou te dar uma alegria, mãe”. Pra ele, nada sairia errado, tudo ia dar certo. Logo a birosca estaria funcionando, em seu otimismo adolescente.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Turbulência emocional

Peça em cerâmica de um artista de Cuzco
- foto de Julio Jaen, o Pepe.



Há pessoas que sofrem de modo ostensivo, em revolta ou desespero, espalham e expõem seu sofrimento. Algumas vezes descarregam os sentimentos, em desequilíbrio, outras buscam dividir sua dor, como se alimentando da solidariedade ou da compaixão que podem despertar. Não podem perceber as causas dentro de si, atribuem-nas a qualquer pretexto ou à maldade do destino, sofrem os efeitos, sem atinar com as causas. Têm muita dificuldade em se trabalhar internamente, por recusar responsabilidades próprias no que lhes acontece. Tomam-se a si mesmas por padrão e não acreditam haver sentimentos por trás de reações diferentes da sua. Tornam-se incapazes de avaliar os sentimentos das outras pessoas - a não ser que se exponham da forma esperada - e supõem o que lhes proteja o desequilíbrio - insensibilidade, indiferença, sarcasmo, deboche, qualquer coisa que desqualifique a calma e a serenidade, frente às dores.

No estado de desequilíbrio, na revolta, na depressão, a visão deturpa o que vê. Surgem as acusações. “Se você não reage como eu reajo, então você não sente o que eu sinto e é indiferente ao meu sofrimento”, é o que parece ser dito. Em parte, é verdade. Não se reage do mesmo jeito, não se sente da mesma forma. O que não quer dizer que não exista reação, ou que não haja sofrimento.

Para essas pessoas, que atiram seus sentimentos para fora, espalhando ao seu redor, é inconcebível a serenidade, o sentimento profundo e silencioso de quem busca o entendimento, de quem guarda e digere a dor, pesando causas e conseqüências, no desenvolvimento da consciência. Reconhecer como calma e equilíbrio seria revelar o próprio desequilíbrio orgulhoso e egoísta. E uma das maiores dificuldades dessas pessoas é assumir suas próprias responsabilidades. Estão sempre acusando as responsabilidades fora de si mesmas e, assim, não podem perceber que assumi-las não é uma opção, mas uma necessidade interna de cada um. E que, se não acontece, o desequilíbrio se reflete e se repete e recrudesce nos acontecimentos da vida, nas relações pessoais, na vida afetiva, na saúde a médio e longo prazo.

O sofrimento, às vezes, é fonte de ensinamento. Mas só com humildade, com serenidade, com a busca profunda e sincera, dentro de si mesmo, de causas e efeitos, de falhas e omissões, de valores e de comportamentos, se torna possível enxergar os ensinamentos das crises, os sinais ignorados, os avisos descartados, as conseqüências dos nossos atos. As reações intempestivas, explanadas, entre a agressividade e a depressão, caracterizam pessoas fugitivas de si mesmas. Estas se condenam uma cegueira penosa, debatendo-se na inconsciência, plantando espinhos e, ao esbarrar neles, acusando a vida, o destino e os outros pelos males que criam. Não percebem a freqüência da sua própria vibração contaminando todo o ambiente, atingindo as pessoas e sintonizando freqüências afins. E a vida se torna uma estrada escura e lamacenta, cheia de obstáculos, ameaças e inimigos. Ou de ilusões vazias, se alternando com turbulências e depressões periódicas.

Eduardo Marinho

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

...e a eleição passou.

E daí? Quer dizer, e agora? As grandes empresas vão parar de interferir, influenciar, direcionar e determinar políticas públicas? Não vão. Os ônibus vão permanecer lotados, nos engarrafamentos, os hospitais públicos vão continuar carentes de tudo e a educação continuará uma tragédia para as pessoas que passam por ela sem adquirir condições de ter uma vida digna, uma compreensão das coisas, uma cidadania consciente.

O que aconteceu nesta “eleição” foi o afastamento da possibilidade de que o vampirismo sobre o Estado subisse a níveis genocidas, com conseqüências catastróficas para populações inteiras e parte de todas as populações, com desequilíbrios sociais atingindo todas as partes e camadas sociais – exceção feita às minorias de sempre, embora ocasionalmente possa respingar um e outro membro, pra histeria da imprensa e recrudescimento da violência sobre os mais pobres. Acho que se essa turma voltasse à gerência do país, haveria um aumento estrondoso do que já acontece, no dia a dia, concentração de poder e riquezas, o Estado amarrado pelas grandes empresas, pelo gigantismo financeiro privado, descumprindo claramente sua constituição, em omissões criminosas.

De onde eu tô me parece que o racha entre os “grandes” da sociedade entrou num pico. Uma emissora de tv dá uma notícia falcatruesca, outra desmente e desmonta a farsa. É isso que tá mantendo os petistas no governo, com as coligações, claro, uns tomam conta dos outros, pra ninguém “exagerar”. Isso e mais a estupenda popularidade do Lula, que não é populista porque não veio da elite pra conquistar o povo, ao contrário, veio do povo pra conquistar a elite. Pelo menos uma parte dela. O suficiente pra bater de frente com a elite maligna, que odeia os mais pobres e os explora como quem faz um favor. Que manda atacar, destruir, difamar qualquer movimentação que organize os mais pobres pra defender seus direitos ou cobrar os que lhes são tirados, negados e roubados – direitos que são transformados em privilégios, do lado de cima da sociedade, pra poucos.

Com essa gerência aí, a gente tem espaço pra trabalhar, pode se juntar, aprender, trocar, ensinar e ir levando no rumo das mudanças que a sociedade precisa. Sem, é claro, poder contar com seu apoio. Só com a vista grossa, se não tocar em nada que os ameace. Esses aí não partem pra cima sem pressão do patrão, não. Ainda contemporizam, “que é isso, patrão, deixa eles, não tem importância, daqui a pouco acaba...” E se o patrão estiver já furioso, eles vêm na frente, “aí, agora cês tão exagerando, vampará com isso, ó, tô chamando os home!” E chama mesmo, a gente viu comé que chegaram os soldados, cheios de fúria e violência, na manifestação em frente à Agência Nacional de Petróleo, dirigida por um... “comunista”- e loteando pros gringos.

A diferença é que a outra turma tem ódio. Não precisa o patrão nem estar sabendo, viu movimentação de pobres, parte pra cima. Até de movimentos de professores - que vergonha pra qualquer sociedade! A agressividade desses caras é proporcional à postura humilhante em que se colocam diante das potências econômicas - comandadas por pessoas acostumadas a lucros e poderes que não dá nem pra imaginar, às custas de qualquer coisa que estivesse no caminho, seja o que for, a maioria dos casos é de barbárie pura. Casos de contaminação afetam gerações. Retiradas de populações, exclusão de enorme parcela da população dos benefícios tecnológicos e das condições plenas de vida. Trabalho escravo é todo dia, quem quiser se cadastre no repórter brasil, tem boletim todo dia.

Bom, e agora? Passou a eleição. E agora, nada. Eu mesmo, nem votei, que eu passo raiva a campanha toda, com o cinismo, a hipocrisia, a mentira descarada, o uso evidente da ignorância. Chega o dia da eleição, cê olha em volta, aquela balbúrdia, papel picado pra todo lado, parece uma festa, ninguém tem noção do tamanho do que tá acontecendo, o que tá fazendo, a ignorância plantada no ensino e a desinformação pela mídia dão seus resultados. E aí dá uma tristeza funda, as escolas continuam umas merdas, o atendimento ao público, seja onde for, é uma piada de mau gosto. Continuam mandando os ricos, continuam os ricos a serem bem atendidos pelo Estado. A sociedade não tem o direito de me obrigar a sair de casa e presenciar esse espetáculo deprimente. Mais uma oportunidade sabotada pela ignorância e desinformação – planejadas e executadas nos laboratórios de mídia e nos gabinetes políticos.

Acredito em (e torço por) uma melhor organização e articulação dos movimentos realmente populares, mais debate e esclarecimento sobre a sociedade e sua estrutura, um aumento no nível de conscientização e participação das pessoas. Maior mobilização e força pra conter a ação predatória das grandes empresas sobre as populações e os ambientes. Maior mobilização e força pra conseguir que o Estado, finalmente, cumpra sua Constituição e garanta alimentação, moradia, instrução, trabalho, dignidade, informação, para garantir afinal, condições para se enxergar a realidade e decidir o que fazer e como viver.

De minha parte, continuo meu trabalho, como se fosse a fundo perdido (eu sei que não é), de ver, filtrar e levar o que eu puder alcançar ao público que eu puder alcançar. Como se fosse apenas pra dar sentido à minha vida.



Eduardo Marinho – 1 de novembro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fim de semana comum. A banca vermelha expõe minerais para colecionadores. Não é minha e não está mais na área.

Arte de "portas abertas", em Santa Teresa


Era sábado, saí de casa pelas dez e meia, onze horas, como de costume, pra expor meus desenhos. Fui de ônibus - às vezes vou de bicicleta, mais rápido e mais barato, só exige mais esforço. Mas eu sabia do evento, o bairro estaria diferente, provavelmente proibido aos que expõem nas calçadas e paredes, cheio de guardas municipais pra impedir os expositores de rua, como acontece todas as vezes. Os comerciantes e os artistas mais abastados promovem o evento e dão um jeito de proibir a exposição na rua, pelo menos no circuito mais freqüentado, nos eixos principais do bairro. Quando o micro começou a subir a Almirante Alexandrino, espinha dorsal do bairro, que começa quase nos Arcos da Lapa e vai até quase o Corcovado, fui olhando as arrumações.

Cartazes, estandartes coloridos, Santa Teresa parecia uma festa, com faixas, cores, desenhos, em cada loja ou ateliê, nos restaurantes. Por baixo da aparência, eu percebia a ausência dos expositores de rua. Havia uma tirania por trás da simpatia ostentada nos banners, cartazes, faixas e outros visuais. Um apelo hipócrita apresentando o bairro como o supra sumo dos artistas do Rio de Janeiro. Havia turistas e visitantes aos montes, carrões, pessoas com roupas caras, visivelmente as classes mais ricas da sociedade. Fui chegando ao Largo do Guimarães, desci do ônibus, olhei a calçada, ninguém expondo. O largo estava cheio de guardas municipais, há um escritório deles ali. A parede onde exponho, vazia, eu poderia ir direto nela, já tirando os desenhos da pasta e colocando rápido. Até eles se darem conta e chegarem junto eu teria já uns seis a dez desenhos colados e o impasse estaria criado. Mas, eu pensava, seria entrar num clima tenso, desagradável, estar pronto pra qualquer conseqüência, ou seja, uma apreensão ou coisa pior. Além do mais, pensava na rapaziada excluída que deveria estar, como sempre, escondida no alto da Felício dos Santos, uma rua secundária onde passa muito pouca gente e que a organização do evento “libera” pros expositores usuais das ruas de Santa Teresa e os que vêm pro evento. Resolvi abordar os dois guardas do lado da banca de jornais.

Na base do “com licença, boa tarde”, perguntei se eles tinham instrução de não permitir a exposição por ali e eles, reconhecidos pela consideração, explicaram que não podiam permitir a colocação de nenhuma mercadoria nas calçadas. Eu expliquei que expunha desenhos ali naquela parede – e mostrei a parede -, todo final de semana, mas sem nada na calçada. Eles ficaram meio confusos, “nosso trabalho é garantir a passagem nas calçadas”, e recomendaram falar com “aquele pessoal de jaqueta escura, escrito ‘Chave Mestra’, da organização do evento”. Eu já os tinha visto, representavam a empresa contratada para a realização. Não me agradou a idéia de falar com eles, conhecedor da ideologia e dos mecanismos dessas empresas, sempre em função do lucro, da consideração por quem tem mais grana, num desprezo franco e profundo pelos não privilegiados, os lutadores mais pobres. Mas fui. Havia um grupo deles no ponto de bonde, do outro lado da rua. Pela disposição, postura corporal e expressões, dava pra ver a hierarquia entre eles.

Fui na direção de uma mulher de uns trinta e cinco anos, intermediária entre o grupo e o chefe, ela imediatamente me indicou uma moça mais nova, claramente subalterna. Logo na primeira frase – eu exponho naquela parede ali todo sábado e domingo – ela demonstrou ignorância e chamou o chefe. Eu já o tinha visto antes, morador do bairro, era um chefete de grupelho, nada importante na empresa, apenas uma cooptação pra liderança de grupo. Ele interrompeu minha fala, dizendo que não poderia expor ali, porque ia juntar gente e poderia causar algum acidente com os carros. Era um menosprezo pela minha inteligência, ou ele era burro, mesmo. Respondi “ah, sim, grupos como aquele ali em frente ao bar do Mineiro” e apontei o monte de gente bebendo e conversando na rua, em frente ao bar lotado, “ou aquele outro’, apontei pro lado oposto, em plena Almirante Alexandrino,”esperando pra comer no Sobrenatural, né? Tá na cara que o motivo não é esse, né, meu irmão?”

Ele hesitou diante do óbvio, mas argumentou que no largo era diferente, mais perigoso, num ridículo absurdo que confirmava minha hipótese sobre sua inteligência. A rua estava toda lotada, de pedestres e carros, o que ele dizia não fazia o menor sentido. Parei de falar e olhei bem pra ele, enquanto ele falava. Só o confronto, mesmo. Mas lembrei da rapaziada que devia estar na Felício, os excluídos, e me deu vontade de estar entre eles. Interrompi o cara, já impaciente, “onde é que tá a feira alternativa, é na Felício, mesmo?”. Ele mostrou alívio, “tá lá em cima”, e juntou os dedos da mão, “tá bombando”, numa mentira tão descarada que parei de olhar pra ele e fui logo, pra não responder.

A rapaziada estava tão escondida que não dava nem pra ver, da Pascoal Carlos Magno, um dos eixos do bairro, onde passa o grosso dos visitantes. No ano anterior, pelo menos dava pra ver, aí algumas pessoas mais curiosas vinham ver e atraíam as outras, virava uma feira, mesmo, com gente fazendo som, dançando, mercadorias bonitas, criativas, bancas de bom gosto, pinga, música. Por isso eles resolveram proibir o maior pedaço da Felício, pra que a feira não ficasse visível. É a mentalidade mesquinha da ânsia de lucro, excluindo sempre os mais pobres, com pretextos pra esconder sua própria desumanidade. Engraçado é que quem determina é a empresa, mas quem faz cumprir é o poder público. É de dar nojo, mesmo.

Tive que expor num muro desigual, mais difícil, nem tinha espaço pra expor tudo. Mas o clima estava bom, encontrei conhecidos que só expunham no “portas abertas”, gente de outras cidades e outros bairros, além de vários expositores de sempre. Foi agradável, divertido, mas as vendas foram poucas. Ficamos até escurecer. Fui pra casa aborrecido com a injustiça, todos deveriam ter respeitado o direito de expor decentemente.

No dia seguinte, domingo, já desci do ônibus direto pra parede, no largo do Guimarães. Abri a pasta, fui tirando os desenhos que já estavam com a fita crepe, pra por nas partes de cimento – há as portas de metal, também, mas aí tem que cortar a fita adesiva, primeiro, demora mais e eu precisava de rapidez. No sexto desenho já tinha um guarda me abordando, daquela maneira sempre “criativa”, “boa tarde, o senhor tem autorização para expor essa mercadoria?” Era o guarda com quem eu havia falado no dia anterior, eu estava disposto a um confronto “gandhiano” com as instituições privada e pública. Expliquei que expunha naquela parede sempre, que não ocuparia a calçada, mas exporia. Disse também que não queria faltar com o respeito, nem seria agressivo com a guarda, sabia que eles cumpriam ordens, entendia perfeitamente que eles não tinham responsabilidade sobre elas e que seriam punidos se não as cumprissem. Mas que eu me sentia no direito de expor ali, que uma empresa não tinha o direito de me impedir e que, se houvesse a ordem de apreender os desenhos, eu não reagiria contra eles, nem os insultaria. Que cumprissem com sua consciência, pois eu cumpriria o que me dizia a minha.

Ele ficou sem saber o que dizer ou fazer, pediu pra esperar enquanto ele consultava a chefia. Eu esperei ele se afastar e continuei pondo os desenhos. O pessoal da “chave mestra” já estava se movimentando. Uma menina paulista, com o jaleco da empresa, chegou pra falar, ouviu meus argumentos, sorriu compreensiva e, depois de olhar em torno e não ver ninguém da empresa perto, disse “cê tá certo” e foi pro outro lado da rua, no ponto de bonde. Vieram outros com o tal jaleco, tentando me demover, ameaçando a apreensão. Quando ouviam que poderiam apreender, se quisessem, “vai ser interessante apreender desenhos a nanquim, num evento que se entitula ‘arte de portas abertas’”, ficavam furiosos e iam buscar novas instruções. Os guardas se postaram ao lado e eu falava calmamente com eles, enquanto ia colocando mais desenhos, com o cuidado de não expor os aquarelados, que dão muito mais trabalho. A apreensão era uma possibilidade real, eu preservava os coloridos, arriscando só os em preto e branco.

Os guardas haviam sido trazido de áreas distantes – meu medo era que fossem os do centro da cidade, acostumados às operações violentas de apreensão em grande escala, em conflitos ferozes com os camelôs, com gases, pancadaria, não raro tiros e pedradas. Mas eram de Guaratiba, do Recreio e outras áreas de balneários, onde o serviço era mais pacífico e de acordo com as funções reais da Guarda Municipal, de proteção ao patrimônio público – e não de caça aos ambulantes. Com minha ação pacífica eles simpatizaram comigo, acostumados a insultos e desconsiderações, e me deram toda razão. O pessoal da “chave mestra”, sobretudo os graduados, me olhava feio. O mesmo cara mentiroso do dia anterior veio me cobrar, “mas ontem você foi pra lá”, e eu, “mas não vendi, e eu não posso ficar sem vender. Não tenho, como você, um salário pra cair na minha conta uma vez por mês”. Ele insistiu, “uma vez por ano, o que custa não expor aqui?” Eu ri, “pra mim, custa não vender. E o que custa eu expor aqui, pra sua empresa?” Ele saiu inconformado, avisando que iriam apreender. Eu disse que preferia estar do meu lado e perder os desenhos, que estar do lado da empresa e fazer o papel de repressão sobre quem luta com dificuldades. Mas ninguém veio apreender. Em duas horas, senti segurança e expus os aquarelados. Vendi mais que o normal.

No fim de semana seguinte (o evento era em dois finais de semana), eu esperava alguma ação no sentido de impedir minha exposição. Desci um ponto antes, vim andando no meio das pessoas, o bairro novamente lotado. Achava que estariam à espreita pra me abordar antes de colocar o primeiro desenho. De longe, observei o largo. Não parecia haver nenhum esquema pra minha chegada, ninguém junto à parede, quantidade normal de uniformizados. Ao me aproximar, vi que havia uma faixa larga, esticada no exato lugar onde eu exponho. Era uma faixa informativa, com informações sobre o evento, com tamanho suficiente para ocupar todo o espaço. “Covardes”, pensei.


No chão, água, mochila e a pasta de desenhos. Se a intenção fosse informar, a altura da faixa seria bem maior.

Parei na frente da faixa. Olhei em volta. Do outro lado do largo, um uniformizado da “chave mestra” me olhava, de braços cruzados. Era o que tinha ficado mais furioso comigo, no domingo anterior. Algo se movia em meu estômago. O Largo do Guimarães estava cheio de gente. Levantei a voz e o braço, “senhores!”, várias pessoas me olharam. “Quero denunciar aqui a hipocrisia de um evento que se chama arte de portas abertas, que na verdade fecha as portas pros artistas que expõem nas ruas do bairro, todo final de semana!” O cara descruzou os braços, atônito. Ficou meio desnorteado, eu continuei. “Eu exponho há mais de dez anos em Santa Teresa, pelo menos há seis nessa parede aqui” e batia a mão sobre a faixa, “e hoje estou impedido de expor porque não faço parte dessa CURRIOLA que mancomuna a empresa responsável pelo evento com a guarda municipal, que devia servir ao município, e não aos interesses mesquinhos dos que impedem trabalhadores da arte de expor o seu trabalho!” O cara, depois da palavra curriola, gritada em sua direção, entrou pela porta da administração do bairro, a sub-prefeitura, onde devia estar sediado o comando da “chave mestra”. Em seguida, surgiu na porta com mais três pessoas, duas de uniforme e uma loura baixinha e gordinha que parecia a chefe geral.

Eu levantava a pasta com os desenhos, “dentro desta pasta tem meus desenhos, feitos a nanquim e aquarela, arte pura, e estou impedido de expor pelo conluio dessa chave mestra com a prefeitura, impondo regras ridículas, injustas, que só servem aos seus interesses ignorantes e desumanos, só visam o seu lucro e o dos abonados do bairro!” A loura começou a falar no celular, ostensivamente, achei que pra me intimidar. “Ela não me conhece”, eu pensei, rindo por dentro da minha indignação, “agora eu tô incomodando”. Passou o Jean, com seus tambores, me cumprimentou, eu me dirigi ao monte de pessoas que estava no largo “esse aí é o Jean, que expõe aqui no largo e hoje está impedido de expor também! Várias pessoas que expõem aqui estão impedidas porque são pessoas sem disponibilidade de grana, não fazem parte do grupinho dos privilegiados e são desprezados pelo poder econômico que está promovendo esse evento hipócrita! São artistas de alta qualidade, que têm beleza e sensibilidade pra oferecer e estão excluídos do evento por serem artistas de rua!” Jean, parou, colocou os tambores no chão, em solidariedade. Várias pessoas paravam pra ouvir, muitos apoiavam, ouvi comentários sobre o absurdo, “portas abertas pra quem?”, eu berrava. “Portas abertas pra quem vem gastar dinheiro, mas fechada pros artistas tradicionais no bairro!”

A loura entrava no escritório, pra aparecer logo depois de novo, olhando pra mim e falando no celular. Gesticulava, eu não sabia se era teatro pra me intimidar ou se ela estava armando alguma. Mas não estava nem aí. “Vou ficar aqui denunciando a falcatrua de um evento que se diz de portas abertas, numa afronta à inteligência, e proíbe a exposição dos mais pobres!” Várias pessoas paravam, ouvindo, e me apoiavam. Algumas foram pedir explicações no escritório, eu via a loura nervosa, falando e gesticulando com as pessoas que, visivelmente, estavam achando um absurdo aquilo. Funcionários entravam e saíam do escritório, celulares nas orelhas, me olhavam com ódio impotente. Um deles me fez um sinal ameaçador, mas eu já estava tomado pelo espírito guerreiro, “tô no meu direito de falar, rapaz, o que foi? Vai mandar me prender? Eu teria vergonha de estar no seu lugar, de perseguir trabalhador a serviço de um patrão safado e desumano! Tem algum ser humano aí?”, eu provocava, lá do outro lado da rua e do ponto. “Se tiver tem que estar morto de vergonha! Mas é esperar muito, o normal é cada um se importar consigo e os outros que se fodam! Ainda mais se os outros são pobres! Cadê a humanidade de vocês, deixaram em casa pra fazer esse papel ridículo?” E continuava, falando aos passantes, “estou denunciando aqui a hipocrisia...” O Jean já tinha ido pro lugar que ele arrumou pra expor, pagando 100 reais. Mal conseguiu dinheiro pra pagar, foi ruim pra ele.

Outros da rapaziada, ao passar, me viam ali, discursando, paravam, surpresos. Via seus olhos brilharem, “é isso aí, Edu, resistência!” E se deliciavam quando eu apontava o escritório da “chave mestra”, na administração da prefeitura, “a base desse evento mentiroso, repressor, fazendo cara de bonzinho, como a mídia, enquanto exerce seu vampirismo escondido”. Já haviam se passado umas duas horas, eu parava por uns minutos, conversando com algumas pessoas, depois voltava à carga. Alguém me deu um pedaço de gengibre, acho que Rogério, o poeta, “é bom pra garganta”, ele disse.

Iberê me convidou pra expor no muro ao lado da casa dele, a uns trezentos metros de distância dali, na Almirante Alexandrino. Ele estava expondo em seu carro, habitualmente parado em frente ao prédio onde mora, seus mapas estrelares, fases lunares e outras mercadorias. Iberê é um cara “espacial”. Os guardas foram pra cima dele, também, mas ele persistiu e ficou, com argumentos fortes. Morava ali, o carro ficava estacionado junto à calçada, ele se recusou a tirar e ninguém pôde fazer nada. Eu lembrei que precisava expor. Ali estava bom, mas eu não estava vendendo. A proibição de expor era em toda a rua, mas quando fui pra lá, ninguém me impediu. Achei que eles estavam dando graças por eu ter saído do largo do Guimarães e preferiram não me perturbar mais. Expus sábado e domingo e vendi muito bem.

Na semana seguinte, viajei ao Paraná, a convite do centro acadêmico de geografia, para o evento “A geografia dos excluídos e os excluídos da geografia”. O assunto era “cultura e arte subversivas” e eu era um dos palestrantes. Passei a semana toda e não expus em Santa. Quando cheguei, soube que no meu lugar haviam posto banheiros químicos, numa clara retaliação. Achei uma graça amarga. Então os serviçais do sistema estavam me retaliando, usando os recursos hipócritas do aparato público. "Covardes", eu ri.

Não precisei me mover. Durante o fim de semana que não fui, os próprios moradores trataram de reclamar da estupidez de colocar os banheiros na calçada, obrigando os pedestres a passar pela rua. Então não havia um lugar discreto, onde colocavam banheiros químicos nos eventos do largo? Por que colocaram no meio do caminho, se o lugar usado normalmente era muito mais indicado? Foram tantas as reclamações que não puderam repetir a dose. Quando cheguei, na outra semana, não havia banheiros. Expus sem problemas. E ironizei, “não pude dar a eles esse gostinho, estava viajando”.

                                                                                                                                    Eduardo Marinho



terça-feira, 19 de outubro de 2010

A estupidez do orgulho



Há quem baseie um sentimento de superioridade na sua posição social, no seu degrau acadêmico ou nas riquezas de que dispõe. Ingenuidade ou ignorância, em humanidade. Essas pessoas, diante de qualquer falha própria que se revele, ficam constrangidas, envergonhadas, sentem humilhação. É a fragilidade que o orgulho causa. Posso sentir superioridade em quem tem mais luz, maior compreensão ou melhores sentimentos que eu, mas nunca por aspectos externos. E não é uma superioridade arrogante, ao contrário.

Reconhecer erros é um privilégio que nos permite trabalhar nas correções, nas superações. Aos orgulhosos só é possível reconhecer erros nos outros. Os próprios, escondem, negam, e isso os faz seguir cometendo os mesmos erros. Enquanto o orgulho amesquinha o espírito, a humildade a engrandece; o orgulho é estúpido, a humildade é perspicaz; o orgulho se ofende, a humildade aprende; o orgulho acusa, a humildade compreende.

Apontar uma falha minha não me espanta, não me ofende, não me revolta. Sei ter um montão delas e procuro corrigir as que posso, as que sou capaz e as que vou me capacitando aos poucos. Mas não se espere que eu me sinta humilhado por errar. Haverá alguém que não erra? Trabalhar os próprios erros nos capacita pra trabalhar na coletividade. Aliás, acho que o trabalho interno é um pré-requisito pra um trabalho externo eficiente, que renda frutos.

Mas um papel feio é o de apontar falhas alheias, com sentimentos destrutivos, raiva, desprezo, como quem tem o direito de punir, buscando ferir, humilhar, diminuir o outro. É o papel da ignorância, de quem não reconhece sua própria humanidade e se comporta como se não tivesse suas tendências pra cuidar, seus próprios erros a corrigir. Um comportamento comum, o dos acusadores.

"Nascer" - óleo sobre tela, 68x78cm - 2001
O porquê de virmos ao mundo parece uma evidência - aprender. 
Uma pessoa assim comete vários equívocos e leva a pior. Não consegue enxergar o que precisa pra se melhorar, não pode trabalhar nas próprias falhas e segue tropeçando nas mesmas pedras, sofrendo conseqüências sem perceber sua responsabilidade, atribuindo a “culpa” a qualquer um ou qualquer coisa. Acaba enxergando a realidade como lhe convém (e não como ela é) e sofre constantes decepções. Sem entender nada e, freqüentemente, tumultuando tudo à sua volta.



EduardoMarinho                                                                                                           19/10/10

segunda-feira, 18 de outubro de 2010


Adhara aos nove anos, numa viagem a Visconde de Mauá,
com Victor Mendez, el peruano - óleo sobre tela.


Indecisão – ir ou não ir

                                                                                                                                          Eduardo Marinho
Tenho uma filha que mora nos Estados Unidos. Isso mesmo, no império. Pouco tenho a ver com isso, jamais poderia ter-lhe pago tal viagem, quase todas as que fizemos foi de carona, dormindo em postos ou em caminhões, raramente em algum hotelzinho fuleiro, de beira de estrada. Ela foi quem ralou pra conseguir pagar. E ainda assim, precisou de grana emprestada de amigos, que pagou de lá, depois. Foi através de um programa, tudo legalzinho. Era pra voltar em dois ou três anos, ou de lá ir pra Europa ver o que rola. Mas foi ficando, arrumou namorado, mudou de trabalho, veio ao Brasil em visita, mas não viu condições de viver por aqui (em um nível decente de vida), voltou pra lá e ficou. Há algum tempo casou. Não gostava da cidade em que vivia, toda a comida artificial, pessoas sem interesse, enfim, detestava o lugar. Mas aqui a situação seria pior, não tinha muita opção. Há pouco tempo, mudou pro Colorado, um lugar lindo, de montanha, as pessoas são diferentes, há produtos naturais, até artesanato se vê em algumas ruas e praças. Parece outro país. Como aqui no Brasil, mesmo, as variações de lá são incríveis.
Ela tem insistido comigo pra ir visitá-la, e eu sempre refugando. Desde alguns anos. Tenho muito o que fazer aqui, não me interessa uma viagem de “férias”, não tô a fim de ficar à toa ou passeando, muito menos na aba de filho (claro, ela se propôs a pagar tudo). Uma cidade satélite de Washington, onde tudo se faz de carro, se come o que ela me descreveu várias vezes, com uma gente como a que me descrevia, o que eu ia fazer ali, meu Deus? “Visitar sua filha”, ela me respondia, e eu, “mais fácil cê vir aqui, assim vê todo mundo”. Mas ela não desiste.

Agora mudou pro Colorado. Montanha. Outro clima. Outra gente. Fiquei pensando... o iptu tá atrasado, a grana é sempre pouca, se desse pra trazer uma grana de lá, podia resolver o problema da casa e, quem sabe, até comprar um fusca pra transportar os trabalhos. Se tem gente vendendo artesanato, pode dar certo. Preparo umas pinturas, sei lá, umas naturezas mortas a óleo, umas viagens em acrílica, de repente posso voltar com grana pra desafogar a vida.

Não disse nada a minha filha, não quero criar expectativas só porque abri a possibilidade. Além do mais, tem várias pendências.

O título de eleitor tá atrasadão, acho que nem existe mais. A quitação com o serviço militar, também, só me apresentei como reservista no segundo ano, tem que ir lá, regularizar. Parece que depois dos 46 anos não tem mais vínculo, eles fazem uma carteira de “desobrigado”. Gostei do nome. Depois de ficar regular, tem que ver se no consulado deles, que parece tão exigente, vão me liberar um visto de entrada. Vejamos, não tenho emprego fixo, não vou levar dinheiro (bom, isso ela pode me mandar de alguma forma, pra eu mostrar no consulado ou no aeroporto, sei lá), não falo inglês, minha renda é ridícula pra eles, não tenho formação universitária, sou um artista de rua. Será que vão acreditar que não desejo de forma alguma permanecer por lá? Do jeito que são assediados por imigrantes ilegais? Acho que não me liberam. Ela acha que sim. Ou diz que acha, pra me levar a tentar, talvez.

Não sei se vou, mas tenho que começar a pintar pra ir juntando. No caso de não ir, é sempre bom ter pronta uma quantidade de pinturas. Uma exposição e é uma salvada na situação. Caso vá pro Colorado, penso que a salvada pode ser bem maior. Um mês, no más, deve ser o suficiente. Mais que isso sei que vai me dar uma agonia danada pra voltar. Mas não sei se vou. De repente, posso mandar as pinturas pra ela ver se vende. E ela me manda a grana, tira uma comissãozinha e pronto. Ela não vai gostar da idéia, eu acho. Mas até juntar umas pinturas, lá se vão alguns meses. O dia a dia leva tempo. Pra quê decidir agora? Deixa o destino se apresentar. Se houvesse um ímpeto, uma vontade muito grande, é que eu precisaria ir, mesmo. Mas não há isso. É, mais, uma possibilidade de tirar o pé da lama.

sábado, 16 de outubro de 2010

Ver como é, não como nos dizem

É preciso dar o nome devido às coisas. A forma de falar acaba criando condições mentais propícias a análises tendenciosas. Erramos o caminho do pensamento e ficamos a dar voltas, sem achar a saída.

Quando olhamos o panorama da sociedade, vemos que a “elite dirigente” formal, apresentada como o “poder”, não é o que parece ser. Observando seu comportamento, sem nos deixar enganar pela mídia, percebemos que o poder real, atual e atuante, está bem acima dessa elite, no escuro das empresas de comunicações e do aparelho do Estado. A verdadeira elite dirigente não é eleita pelo voto, ao contrário, elege seus subordinados e, através deles, indica outros subordinados para os cargos chave, dentro da administração estatal. Considera seu o que é de todos, monopoliza a atenção e os privilégios que o Estado pode lhes oferecer. Dispõem das verbas públicas com a naturalidade de quem usa o que é seu, por direito de nascimento ou conquista financeira.

A chamada “elite dirigente” não passa, na verdade, de uma elite de gerentes. Vê-los abanando o rabinho para mega-empresários e representantes de gigantes transnacionais é uma bofetada na cara do cidadão.

Andamos pelas ruas recebendo multidões de recados, explícitos e subliminares, dizendo que nos amam, fazem tudo pelo nosso bem estar, que essa é a maior razão de sua existência, tudo "especialmente para você", com sorrisos, gestos, cores, imagens e sons sedutores, acenando com possibilidades de destaque e consideração social, prêmios por se deixar convencer e desejar o que oferecem. Tudo com o único objetivo de nos fazer consumir o que não precisamos. Para vincular a felicidade ao consumo.

Se entramos num "chópim" a coisa se torna ridícula, absurda, caricata, uma ofensa à inteligência. Mas de tal maneira bem elaborada, de tal amplitude e profundidade é o trabalho de condicionamento cotidiano neste sentido, que se pode ver nos olhos das pessoas o brilho da avidez, da necessidade de comprar, de ter, de consumir. Tornam-se fanáticas pelo consumo. Produzem angústias profundas, amargam tristes frustrações, obtêm efêmeras alegrias, superficiais demais para sanar a insatisfação do espírito humano.

“A massa sustenta a marca. A marca sustenta a mídia. E a mídia controla a massa.”
                                                                                                                                                                      George Orwell

A marca controla o Estado, eu poderia dizer. Mas fica despersonalizado. Os donos das mega-empresas, os grupos de empresários mais ricos, donos de terras, de indústrias, são esses os que mandam, controlam, criam valores, distorcem a realidade, interferem no ensino, nas decisões do Estado em qualquer das suas instâncias. Atacam populações, comunidades, etnias, tudo o que esteja no caminho dos lucros absurdos a que se acostumaram.

Se a minha visão é simplista, é porque a realidade é simples assim. Claro que virão acadêmicos laureados, especialistas, analistas, com uma linguagem rebuscada, provando que a coisa é muito mais complexa, não é bem assim, e mais isso e aquilo. Mas eles não me enganam. A sociedade é essa barbárie, na vida da maioria (alguns privilegiados nem acreditam nisso), por uma questão de egoísmo, orgulho, soberba de uma minoria que não alcançou, ainda, o patamar humano. E também por um minucioso trabalho de ignorantização, nas escolas, e de idiotização, pela mídia, que é acolhido, assimilado e exercido pela grande maioria, que inclui os mais sacaneados da coletividade desarmada de instrução, informação e senso crítico, desarmada de cidadania.

Todos temos nossas responsabilidades, ninguém está isento. Mesmo os mais engajados, os mais ferrenhos lutadores por mudanças reais na estrutura social. A diferença destes é que exercem sua responsabilidade humana, cada um à sua maneira, como o professor que dá tudo de si no ensino e na formação de seus alunos, mesmo sabendo que a estrutura de ensino não permite um grau aceitável de assimilação. Como o médico que atende com amor, mesmo em condições de trabalho horríveis.

Eu, de minha parte, ponho tudo o que posso no meu trabalho. Consumo só o que me é realmente necessário. Nem entro em chópincenter, que aquilo é um insulto à minha humanidade. E duvido de tudo que a mídia diz – falou mal, deve ser bom, falou bem, deve ser mau.

http://antizero.rg3.net/
Eduardo Marinho, 16/10/10                                                                                         

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Transporte Público

O motorista, nervoso, pega minhas moedas, dá uma olhada e joga na caixinha. Aperta o botão e eu passo na roleta. Ele tá acumulando passageiros sem troco. Resmunga contra a falta de troco. Entra mais um com uma nota de 20 e ele reclama, “não tem menor aí, não?” Não tinha. Mais um passageiro sem troco, ele resolve parar na esquina, desce com uma nota de 50 e outra de 20, entra numa padaria. “Vambora, tô atrasado!” grita alguém no fundo. O motorista, um negro de belos traços e corpo grande, saiu da padaria na direção da banca de jornais. Mais passageiros inquietos, reclamando.

Penso na falta do cobrador. Esse cara tá dirigindo um ônibus, um coletivo de vidas, não podia estar preocupado com o troco. Tinha que estar calminho, no lugar dele, prestando atenção no trânsito e na entrada e saída de passageiros, mais nada. A empresa economiza um posto de trabalho, sobrecarrega o motorista e põe um trabalhador na rua. E ainda piora a qualidade do serviço, demora mais, às vezes o cara fica parado um tempão no ponto, enquanto a fila se forma na calçada e ele vai cobrando.

Lá vem o cara, correndo. Entra, escuta os resmungos. “Brincadeira, hein, motorista!” “Tô com pressa, porra!” O motorista fecha a cara, “cês reclama é de tudo! Se não tem troco, reclama, vou trocar, reclama...” “Tu tem é que trocar antes de começar a viagem”, retruca um. “Não adianta!”, se exalta o piloto, “eu troco e só entra passageiro com dinheiro inteiro, aí não dá!” “Que nada, tu não tá é trabalhando direito!” “Senta aqui pra tu ver como é que é, rapá!” Resolvo intervir.

“Ô piloto, me diz uma coisa.” O silêncio foi instantâneo. “Há quanto tempo tu tá sentado nessa cadeira aí, fora as paradas?” “Tô desde as seis da manhã, não saí nem pra almoçar”- era mais de uma hora da tarde. "Ainda vou ter que dobrar, o outro motorista não veio, deram um gancho nele, não avisaram o despachante e eu não vou poder sair". "É mesmo? Vai ter que ficar até que horas?" "Até as nove, só na linha, depois tem que ir na garagem." Por dez segundos, o silêncio me pareceu cheio de reflexões, observei as fisionomias à minha volta, discretamente. Depois, investi de novo.“Tu não tem saudade de um cobrador, não?” O cara riu, balançou a mão pra cima, “porra...” Eu continuei,“sabia que tem um manicômio, na baixada, só de motoristas de ônibus?” Eu havia lido um artigo a respeito, tempos atrás, e fiquei muito impressionado com aquilo, passando a prestar atenção nos sinais que os motoristas apresentam no cotidiano do trânsito. Ele baixou a voz, “já ouvi falar, mas é verdade mesmo?” Senti que havia uma atenção forte no ambiente, ao menos vários estavam ouvindo, interessados.“É, rapaz, a onda da nervosia vem pra cima, né não? Todo dia. Se o cara se deixa levar, acaba adoecendo.” Ele não respondeu. Olhei pro último cara que tinha falado, a agressividade havia sumido da sua expressão. Em volta dele, vários me olhavam. “Devia ser proibido o motorista cobrar passagem. O cara tá dirigindo um ônibus, a vida da gente na mão dele, tinha que estar prestando atenção só no trânsito, tinha que ter um cobrador aqui, olha o estado que o cara fica, já não basta o nervosismo desse trânsito doido... Ele tinha que estar tranqüilo, pra segurança de todo mundo aqui dentro” Alguém completou, "e lá de fora também!" Risadas. Virei pro piloto, de novo, “a empresa põe algum troco, ao menos pra começar o dia?” Ele riu, “nada, tenho que ficar correndo de um lado pra outro, no (ponto) final, às vezes não dá tempo nem de ir no banheiro”. “Sacanagem, contigo e com os passageiros”, concluo," por causa de decisões de pessoas que nem põem o pé num ônibus, só tão querendo economizar grana pra ganhar mais dinheiro".

Já apareciam expressões de “é isso mesmo”. "Os caras que decidem essas barbaridades não andam de ônibus. Decidem e nem botam a cara aqui, a gente fica se estranhando, se aborrecendo por causa da ganância desses empresários, enquanto nem eles nem a família deles passa pelo que eles fazem a gente passar, tão por aí, andando de carro blindado, de carrão, quando não é de helicóptero. Eles não vivem esse mundo nosso, não, eles vivem outro mundo. Só que pra bancar esse mundo ricão eles vêm aqui, explorar a gente, no nosso mundo. Donos de empresas de ônibus deviam ser obrigados por lei a só andar de ônibus, pra saber como é, isso tinha que ser lei. Aí eu queria ver se ia ser essa merda”. Sorrisos de concordância, o motorista lançou um olhar pelo retrovisor, cheio de simpatia. Alguém ainda acrescentou "aí eles iam fazer uns ônibus só pra eles", mais risadas, o ambiente descontraiu e dispersou em várias conversas pelo carro.

Quando desci do ônibus, no centro, me despedi, “valeu, piloto”, e ele, “falou, irmão, vai com Deus”. Saí com a sensação de bom contato. Nesse caso, a paz foi feita quando se trouxe as razões da discórdia, resolvidas em escritórios com ar condicionado, longe da realidade das ruas e da maioria que sofre as conseqüências, com a intenção primordial do lucro. E como é destrutiva essa intenção, aos corpos e às almas. Ao concreto e ao abstrato. Ao astral e ao sentimento.

Nota - Gancho é a suspensão do motorista por um ou mais dias de trabalho. Uma forma de opressão, de ameaça, de coação. Mas apresentada como uma forma de controle do comportamento, da imagem da empresa, de otimização do serviço. Não se leva em conta a natureza humana com relação ao abuso de poder, a necessidade de afirmação comum, ao uso indevido e injusto de poderes (supervisões e gerências), porque, no caso da empresa, isso contém reivindicações e serve ao lucro.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.