quarta-feira, 20 de junho de 2012

Natureza morta do Pinheirinho - Não dá pra esquecer : Estado criminoso, Pinheirinho é toda hora, em todo lugar, em nome da ganância de poucos, a população sofre.


Hoje está sendo a Vila Autódromo. Têm sido tantas que nem posso lembrar os nomes. Em todas as cidades onde andei, em todos os tempos que vivi, a história é essa. O poder público, a mando dos poderosos da sociedade, os podres de ricos, ataca, espanca, mata, reprime, prende, rouba e expulsa, sem nenhum resquício de vergonha, dignidade ou respeito, os mais fragilizados, explorados, sabotados e excluídos da sociedade.

Como se consegue fazer os policiais esquecerem que fazem parte do povo e sofrem parecidos problemas, com as mesmas causas? Vivem as mesmas dificuldades e esquecem disso quando cumprem a ordem de atacar. E atacam com fúria, ódio no olhar, ânsia destrutiva, sem perceber que atacam pessoas, destróem moradias, atiram famílias nas ruas, espancam pais, mães, crianças, velhos, aleijados, matam cachorros, matam pessoas. O que é feito com a humanidade desses homens? Que tipo de instruções, de tratamentos, de interferência psicológica recebem essas pessoas, para serem capazes de atos que envergonhariam o mais brutal dos seres? Que monstruoso alcance de estudos avançados de psicologia do inconsciente será preciso pra criar tamanhos ódio, fúria e compulsão destrutiva, por vezes assassina? Onde está, na verdade, a verdadeira responsabilidade nessa zorra toda? 

A quem interessa uma polícia, uma segurança pública destacada da sociedade, capaz de atacar indiscriminadamente qualquer coisa, qualquer coletividade, qualquer cidadão, sem questionar, sem sentir nada além de raiva e obstinação no cumprimento de ordens, desumanizado por completo da parte mais valiosa do ser, sua sensibilidade, sua capacidade de solidarizar-se com o sofrimento  alheio? A quem tem servido o aparato público de segurança? É estimulada a violência sem consciência e sem critério, além da tirania e da intenção de destruir qualquer organização dos explorados, qualquer oposição a esse modelo de sociedade que cria seus próprios monstros, dos dois lados do espectro social, o institucional que se apresenta "do bem", mas que age barbaramente, e o dos inconformados da sorte, que se deformam sob as pressões dos valores e dos comportamentos impostos. E as forças de segurança são apartadas da sociedade. Estão construindo uma "cidade da polícia" em algum lugar da zona norte ou oeste do Rio, não sei bem, onde só morarão policiais e suas famílias, formando um gueto. Uma sociedade à parte da sociedade, um enclave de profissionais de controle de massas, que não podem se sentir parte da turba, do populacho, da massa que precisa ser controlada, amorfa e acéfala como a estrutura é montada pra produzir, angustiados seres sem alma a serviço e sob controle do sistema.

A PM do Espírito Santo adquiriu recentemente um tipo de caveirão (blindado originalmente projetado pra entrar nas áreas pobres -"de conflito"- protegido e atirando para todos os lados) equipado com lança-águas com potência pra 100 metros, em várias direções. Água com pimenta. Se fosse um programa de humor, eu perguntaria que tipo de bandido a polícia pretende pegar com esse equipamento. Polícias de vários outros estados devem ter invejado a polícia capixaba, querendo o mesmo veículo. Já perceberam seu papel de inimigos de qualquer tipo de organização popular de inconformação, de protesto, de reivindicação, de proteção dos seus direitos. Povo, só disperso. Circulando, circulando! Estão convencidos do seu papel de dispersão de massas, de criminalização das lideranças, dos representantes. Tanto que, mesmo depois de serem forçados pela situação de penúria a reivindicarem, por sua vez, direito à remuneração digna, violando um princípio sagrado do militarismo, a hierarquia, muitas vezes em grandes conflitos internos, mesmo assim não se conscientizam e voltam a reprimir outras manifestações.

Que tipo de trabalho psicológico pode evitar que percebam o uso que lhes é dado no contexto da sociedade, o de defensores da propriedade privada e dos interesses dos podres de ricos? Estes tomaram pra si o controle do governo, das assembléias legislativas, do judiciário e suas leis, destruindo o ensino e a saúde públicas e colocando o aparato público a seu serviço, com o apoio da mídia. Em Pinheirinho, mesmo, houve alguns policiais que se recusaram, alguns em lágrimas. Me disseram que houve quem dissesse que não havia entrado na polícia pra fazer aquilo. Devem ter sido acusados de insubordinação e penalizados pelas leis militares, acusados de covardia e incompetência pelos colegas, humilhados pela instituição por terem mantido alguma parcela de humanidade. Isso não é permitido. Há que se estudar, descobrir as causas da falha e corrigir, algo na instrução ou nesses indivíduos. 

Como é que não se questiona a instrução, a formação ideológica e as finalidades reais destas instituições? Acho que sei porque. É porque não pode. E não é difícil intuir as razões, basta olhar em volta e ler o que está escrito na realidade à nossa volta. Tudo o que serve aos interesses empresariais funciona bem; tudo o que serve ao povo em geral, funciona mal. E os mais pobres, os que fazem os serviços que ninguém quer mas, se não forem feitos, será o caos, os que pegam no pesado e sustentam a sociedade são os mais maltratados. É conhecida a brutal diferença de comportamento das polícias nas áreas ricas e nas vastidões das áreas pobres. É conhecido o genocídio que acontece na chamada "guerra ao tráfico", mentira que ofende a inteligência, de "ao tráfico" aí, não tem nada. O terrorismo de Estado é o elemento constante nas áreas periféricas, as mais populosas e mais pobres, além da constante ausência em outras áreas como educação, saúde, cultura, saneamento e tudo o mais. Não interessa a cidadania por aí, a gente poderia se dar conta e reivindicar os direitos constitucionais. Imagina, ter que dar garantias de alimentação, educação de nível, moradia, tudo com o dinheiro público que os grandes empresários estão acostumados a dispor, em benefícios, parcerias e contratos gigantescos para obras gigantescas, onde correm rios de dinheiro por fora e por dentro. Nas relações com os poderes públicos, com os ditos "representantes" da população, financiam suas campanhas e enchem seus bolsos para pagar os serviços e facilitações. Tudo regado a champanhe, nas festas de elite e na promiscuidade bilionária com o dinheiro de uma população atirada à barbárie, roubada em direitos básicos constitucionais e explorada, em troca de uma vida angustiada e sem sentido, que passa sem que se perceba e acaba como se não tivesse existido. Uma estrutura política e social perversa. Para manter e defender essa estrutura é que se trabalha no espírito das forças de segurança, é que se formata todo o sistema de segurança. Na contenção de massa - parece que se sabe o que se provoca e se espera reação popular a qualquer momento. Pra isso se preparam há muitas décadas, mais de um século sem dúvida, no controle das instituições, pouco a pouco, e agora a contenção de massa, que as instituições já estão na mão. 

Há muitos Pinheirinhos, há muito tempo, em muitos lugares onde acontece de existir pobres e interesse(s) de rico(s) ao mesmo tempo. O modelo de sociedade que alimentamos com nossos comportamentos, nossos valores, nossos objetivos, nossas reações, nossas mentalidades, é um modelo perverso, centrado no egoísmo extremo, na ambição, na competição permanente, na exploração, na pobreza e na miséria de muitos. O êxodo rural não é uma figura de retórica, é uma tragédia da história nacional que durou muitas décadas. Hoje há muitos êxodos diferentes, não é mais só um tipo. O mundo está cheio de campos de refugiados e populações deslocadas em guerras movidas por interesses econômicos de grandes empresas. Cheio de sem teto e sem terra, cheio de acampamentos e ocupações. Cheio de desempregados, de pobres e miseráveis abandonados pela sociedade. É a guerra dos pouquíssimos mega-empresários nacionais e internacionais (banqueiros e industriais, sempre mega) contra os povos de todo o planeta, onde quer que haja algum interesse, alguma riqueza, algum espólio a ser conquistado. Usando o aparato público, num cenário de política internacional construído e sistematicamente retocado pelas mídias, forjando relações entre países e negócios para as grandes empresas, a diplomacia das chantagens e ameaças e os acordos internacionais realizam os interesses das empresas. A qualquer custo. 

A guerra das empresas contra os povos. Hoje o inimigo se planta na sua sala com o mais lindo dos sorrisos, dizendo que ama você e toda sua família, que a razão da existência dele é a sua felicidade, afaga e conta piadas, enquanto narcotiza, rouba seus direitos e sua consciência, distorce a realidade e esvazia a vida. Molda valores e comportamentos, cria desejos e objetivos, planta ilusões e aproveita pra extorquir o quanto possa, de todas as maneiras. A mídia é o porta-voz, o formador de opinião do sistema, da estrutura social que se baseia na miséria pra concentrar riqueza pra poucos, luxo e miséria como natural e inevitável, merecimento e castigo, nada intencional, nada resolvido, nada planejado - é sempre um deboche com a inteligência média.

A coisa pública tá imersa na privada. É preciso tomar consciência. Eis um novo mandamento: conscientizai-vos uns aos outros. Aprendamos juntos. A consciência é uma arma contra a qual não há defesa, nem ataque capaz de destruir. Idéias não se matam. Solidariedade faz bem à qualidade de vida. Cooperar é melhor que competir. Sentimentos de superioridade inferiorizam, sentimentos de inferioridade paralisam. Humildade gera criatividade e imuniza contra o sentimento de humilhação. Não há superioridade ou inferioridade, mas responsabilidade. Sentir é mais que saber. Quem sabe mais não é melhor, é mais responsável e deve mais à coletividade. Assim como quem sente mais e percebe mais.

Pinheirinho é aqui e agora. É a realidade à minha volta, é a sociedade com a qual não me conformo.



Outras postagens sobre o massacre de Pinheirinho:
http://www.observareabsorver.blogspot.com.br/2012/01/o-massacre-de-pinheirinho-verdade-nao.html
http://www.observareabsorver.blogspot.com.br/2012/01/mudar-por-dentro-pra-mudar-sociedade.html
http://www.observareabsorver.blogspot.com.br/2012/01/complementando-pinheirinho.html
http://www.observareabsorver.blogspot.com.br/2012/02/relato-de-um-defensor-publico-de-sao.html

Texto que recomendo porque me tocou profundamente

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2012/06/18/ostentacao-diante-da-pobreza-deveria-ser-crime-previsto-no-codigo-penal/

Faço minhas as palavras do Sakamoto.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Rio+20, Cúpula dos Povos e Belo Monte, Anúncio de uma Guerra - filme


Estive na Cúpula dos Povos, sábado. Entrei pelo lado do Museu de Arte Moderna, onde vi a Rio+20 compondo com a Cúpula. Estranho, não são opostos?
Circulei entre as barracas, grandes lonas bem montadas, caras, com muitos recursos. Recebi revistas, folhetos, panfletos e até um livro. O material é bom, o papel é caro, produções bem bancadas. Não percebi de onde vem tanto dinheiro, mas brota uma desconfiança. Parecia uma grande feira, com todas as características empresariais. Infiltração? Acho que sim, pelos sinais. Vi algumas palestras, de longe, de passagem. Um senhor negro de cabelos brancos falava a umas duzentas pessoas. Aliás, gritava, indignado, que a polícia entra nas favelas sem respeito nenhum, atirando a esmo, maltratando a todos indiscriminadamente, um crime, um absurdo do Estado contra o povo. Não parei. Até aí, nenhuma novidade, conheço essa realidade dolorosa e cotidiana, há muitos e muitos anos. Outra lona reunia indígenas, caracterizados com suas pinturas, várias etnias e tribos. Denunciavam as matanças, os cercos, as perseguições, os extermínios, constantes desde a chegada dos europeus, hoje um genocídio dirigido aos descendentes, aos remanescentes que, incrivelmente, resistiram, sobreviveram e ainda resistem. Guarani-kaiowá, kaiapó, waimiri-atroari, yanomami e tantos outros povos, destroçados em suas culturas, atacados com fúria pelos ambiciosos empresários que só pensam em lucro a qualquer custo e nem moram naquelas áreas, mantendo verdadeiros exércitos de jagunços, de criminosos sem sentimentos que matam por dinheiro. Nenhuma novidade, há publicações neste blogue a respeito disso. Não parei pra ver. Ali não parece haver iniciativas de ações, apenas denúncias e mais denúncias. Eu esperava muito mais, embora meu senso de realidade me avisasse pra não esperar. Mas a esperança é rebelde, não acata nem o bom senso. Ou mau senso, neste caso.
Soube agora da convocação do Raoni pra quarta-feira, no Riocentro, onde afirmei que não iria, pois é a reunião da oficialidade, dos representantes do estabelecimento, com seguranças e polícias de todos os tipos, com aquele velho espetáculo de figuração de um falso poder, ostentando cargos e posições de mando, ocultando os poderes reais que os bancam e controlam, em nome dos seus interesses em mais dinheiro, mais poder e mais controle, por trás do cenário sujo dos poderes institucionais. Belo Monte de mentiras será, mais uma vez, denunciado. Essa é uma luta que vale a vida de muita gente, de muita cultura, de vários povos, ameaçados pelos interesses das empreiteiras e mineradoras que sustentaram as campanhas do atual governo (como sustentaram as de anteriores), que já não estou chamando de governos, mas sim de gerências, que é o que são. O sistema só pode ter o nome 'democracia' se isso for entendido como a cracia do demo. Os grandes vampiros da humanidade, que destróem tudo o que tocam (ou melhor, mandam tocar), não respeitam nada e vêem todas as populações no caminho dos seus lucros como detritos a serem removidos a qualquer custo, eliminados de qualquer jeito. Gentinha desumana que se esconde atrás dos seus vidros blindados, seus helicópteros, suas bolhas de segurança e pagam pra outros botarem a cara em público, pra defenderem com todos os argumentos as suas mentiras, pra enganarem, pra controlarem, pra reprimirem os que não se conformam.
Recebi esse filme aqui, "Belo Monte, anúncio de uma guerra", vários pontos do filme me fizeram brotar água nos olhos. Denúncia feita, fica o pedido de divulgação, de sensibilização, de esclarecimento, de apoio e engajamento. Belo Monte é um símbolo. Será de luta e preservação da natureza e do ser humano, ou de subjugação dos povos, de genocídio e desumanidade que imperam em nossa civilização.





sábado, 16 de junho de 2012

Dar sentido à vida

Quando ponho meu trabalho na rua, resultado das vivências, das buscas, das opiniões adquiridas, não pretendo mudar o mundo. Olho pro mundo como um ser em mutação constante. Quem sou eu pra tamanha pretensão? Observo apenas... e me sinto parte. O que preciso é colocar minha posição dentro do que me cerca, do que vejo, do que sinto diante do que vejo. Escolher a forma de participar disso tudo. Não gosto do que vejo, não acredito nas interpretações da realidade que me chegam, por isso escolho diferente e me coloco na contra corrente. Não posso me adaptar a uma sociedade que abandona pessoas e ainda as maltrata com seus "serviços públicos" precários, desrespeitosos, seus organismos de repressão, ou "segurança", na língua oficial, seu sistema de verdadeira escravidão no trabalho. Nas fases mais frágeis da vida - a infância e a velhice -, vejo abandono e barbárie na sobrevivência da vida, ausência da sociedade, ausência de nós, que delegamos o poder de decidir a quem se vende.  Há muitas maneiras e eu tive que escolher a minha. E essas maneiras vão se apresentando, as coisas vão se impondo, vão acontecendo, o trampo vai se adaptando a cada situação - ou o contrário também acontece, a situação se adapta à possibilidade do trampo. Cada momento tem suas características. Às vezes me sinto insignificante, dentro de um contexto tão enorme que não posso imaginar, de tão imenso o universo, as galáxias, o espaço infinito e desconhecido. Tenho minha parcela, insignificante no todo, mas que é tudo pra mim. E preciso de um significado, como eu disse aos dezenove anos, ter, sentir um sentido pra vida. Então aponto o nariz e parto na direção de uma sociedade mais igualitária, mais consciente, mais lúcida, mais solidária, mais humana. Com minha vontade, meu trabalho e minha vida. Dentro da minha insignificância, encontro maneira de dar esse sentido à existência. Sinto o antes e o depois, o agora aqui é só uma passagem. O trabalho pode não terminar, ou pode (embora eu não creia), mas é essa lida que dá sentido à vida, seja ela finita ou infinita. Nosso meio é o imediato, é o que tocamos, o que sentimos e o que vivemos - é aí que tá nossa importância, o que há de importante pra nós, o agir cotidiano, o trato de todo dia. Os desejos, os objetivos, as relações com o mundo, aí está o nosso espelho, aí está o que somos. É possível e necessário trabalhar nisso. Daí é que parte o trabalho no mundo. Pelo menos o que tem raízes. É preciso sempre aprofundar as coisas, sentir suas raízes, ao contrário do que somos induzidos. A indução social nos leva à superfície, à forma sem conteúdo, à ignorância, à alienação, ao egoísmo, à vaidade, ao consumismo e ao vazio da alma, do profundo que há em tudo.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A mídia, a Síria e uma outra visão.




Recebido em 13 de junho, denúncia de interferência de guerra na Síria, via midiática, devido ao veto da Rússia e China aos ataques da OTAN:
http://resistir.info/moriente/siria_golpe_iminente.html






Estamos diante de mais uma campanha preparatória para a guerra, com a mídia preparando a opinião pública, em todo o mundo, para a - já anunciada aos quatro ventos - invasão da Síria. Vizinha e aliada do Irã, o mais forte opositor da política internacional ditada por banqueiros e corporações euro-estadunidenses aos seus governos fantoches.


A mídia acusa o governo sírio por ataques e massacres que não param de acontecer, revoltando a opinião pública e preparando o apoio às intenções dos seus patrões e financiadores. Repetem o que fizeram com a Líbia, e dirão que a destruição do país e de toda a sua infra-estrutura foi necessária, foi por uma causa nobre, uma guerra humanitária. Dá pra uma gargalhada sinistra, essa expressão absurda, enquanto passam na mente as imagens de casas explodindo, famílias mutiladas, morte e sofrimento de muitos milhares, por decisão de poucos que nem ali estão, mas têm ali seus interesses nos recursos, nas riquezas e/ou na localização geo-estratégica. 

A Líbia ostentava um Índice de Desenvolvimento Humano maior que o Brasil e o maior da África. Em todos os sentidos. Mas o Kadhafi era uma pedra no sapato desde 79, travava a entrada das mega petroleiras do "Primeiro Mundo" e aplicava o dinheiro, pelo menos grande parte, no próprio país. Encarou bombardeios da OTAN e resistiu, com enorme apoio da população. Os senhores das guerras de saque perceberam que entrar por terra seria a maior roubada, o povo líbio resistiria como um bloco. O líder virou um herói, não só na Líbia, mas em muitos movimentos de resistência ao redor do mundo. Só depois que viu o exército branco barbarizando no Iraque e as empresas ocupando todos os poços de petróleo, Annuar Kadafi deu entrada às mega-petroleiras ocidentais, ainda sob seu controle, com lucros e obrigações definidos em lei. As empresas rosnavam, mas sabiam não haver condições de simplesmente derrubar o cara. Quando ele surpreendeu o mundo apresentando a proposta de criar uma moeda panafricana e quase conseguindo - a diplomacia ocidental teve que rebolar, e rápido. Ameaças, chantagens e barganhas convenceram os governantes que apoiavam a idéia do coronel a voltar atrás, mas os banqueiros não esqueceram a afronta. No ano seguinte explodiram a primavera árabe, Tunísia, Yêmen, Egito - contra o ditador Mubarak  que havia 34 anos tomara o poder (não se falava de ditadura no Egito, a mídia não denuncia ditaduras "amigas"), em nome dos aliados eurostadunidenses que sustentavam seu exército. Aliás, continuam sustentando enquanto Mubarak passa mal na cadeia, tranqüilos com os generais aliados que ocupam o mando no país. Bom, voltando ao assunto, com o pipocar de rebeliões nos países os banqueiros internacionais, aliados às petroleiras, às construtoras e à industria armamentista, entre outras, moveram suas marionetes políticas e focaram suas máquinas midiáticas na criação do clima de guerra necessário aos seus planos. Investiram em armas e treinamento de grupos dissidentes e criaram conflitos internos, causando vítimas para culpar o governo. Suas televisões, seus jornais, rádios e revistas distorceram a realidade. E o país foi inteiramente destruído, sem um plano de reconstrução além dos poços de petróleo que ocupam uma parte do território da Líbia. Grupos de saqueadores, grupos armados, tribos se enfrentam em qualquer parte, grande parte da população apoiava Kadafi, agora a perseguição, o extermínio, a vingança come solta e a mídia não fala nada. 

Aliás, fala sim, prepara outro cenário de guerra, desta vez contra a Síria. E é a mídia em peso e a mais pesada. A todo momento os jornais falam nos "massacres do governo sírio contra seu povo", da mesma forma que falavam de Kadafi. As pessoas falam na rua como o governo sírio deve cair, o trabalho de convencimento é de cair o queixo, funciona geral. Mas comigo não, violão. 

Eu sou escaldado demais com essa mídia privada, repetidamente mentirosa, flagrada tantas vezes em mentiras criminosas. Não precisa ir longe pra conseguir a extensa relação, fora as mentiras cotidianas em jornais, "informativos", entretenimentos, publicidades e sub-liminares em novelas e programas. É de dar nojo tanta desumanidade em defesa do sofrimento e da miséria para enorme parte da sociedade e do luxo, da opulência e do desperdício das celebridades e dos seus patrões, pouquíssima gente servida pela (e dependente da) maioria. Aí, no México http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/06/televisa-manipula-eleicoes-no-mexico.html,   na Argentina - http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/06/direita-bate-panelas-na-argentina.html  e no Brasil - http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/06/inflacao-despenca-cade-os-urubologos.html, só pra três exemplos recentes, pra degustar depois do almoço. Mas a batata deles tá assando, cada vez se desmoralizam mais, cada vez mais e mais gente se toca, é o processo de despertamento, na parte do desgaste da mídia vigente.


Não canso de me espantar com gente relativamente instruída acreditar que está informada por assistir os jornais da mídia comercial. Chegará o tempo em que só os de mau caráter sustentarão o que diz a mídia comercial, hoje grande e forte, mas que mostra o caminho que trilha, rumo ao descrédito. Não dá pra servir ao lucro e à verdade. São óleo e água.

A Síria é mais um genocídio planejado pela ambição do predomínio. E nós, de boiada, assistindo e aprovando, estupidificados pelo sistema. 

Esse texto me foi passado pelo blog Somos Todos Palestinos, escrito por um jornalista independente russo, Marat Musin, e traduzido para o português de Portugal, pelo que me parece. É só clicar aí em "mais informações".

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Invasão Policial À Moradia de Estudantes da Unila


A UNILA é uma universidade para a integração dos povos latinoamericanos. A união entre os povos explorados da América Latina não interessa aos poderes dominantes, acostumados a explorar, roubar o patrimônio público, a produzir a miséria e a ignorância, sabotando o investimento dos Estados na educação pública e dominando as comunicações, produzindo alienação, consumismo, desinformação, narcotizando as consciências.

O ataque das forças de segurança pública revolta, mas não surpreende. Por trás desse ataque, há o pensamento condicionado de criminalização de tudo o que defende, reivindica ou conscientiza as populações. A ideologia deformada das ditaduras e das elites é representada e posta em prática pelas polícias e forças armadas, a mando último dos poderes econômicos concentrados em mãos de poucos, sempre atacando com fúria os mais pobres, sob qualquer pretexto - ou sem nenhum. Há o pavor do despertamento na consciência coletiva, processo em curso atualmente e cada vez mais acelerado, apesar dos esforços da mídia e das ações da chamada "segurança pública", que ainda não fez por merecer o próprio nome.

Todo o apoio à UNILA e aos seus pioneiros alunos, parte de uma proposta linda e lúcida onde somos todos irmãos e podemos nos unir contra o saque e o predomínio constante da minoria mais rica, que controla as intituições e os Estados, com seus grandes bancos e empresas multinacionais. Os problemas dos países da América Latina são os mesmos ou muito parecidos. Vêm todos da mesma fonte, a mentalidade colonizadora da elite mundial e a mentalidade colonizada das elites locais. Estas últimas, como os cães em matilha, mostram os dentes pra dentro e abanam o rabo pra fora, pros seus patrões internacionais, a quem entregam as riquezas, os recursos e o próprio povo dos seus países.

Trocar as experiências vividas, compartilhar as soluções e apoiarmo-nos entre todos é fundamental para a mudança estrutural que precisamos para chegarmos a uma forma de sociedade mais humana e solidária, onde não se admita o abandono de pessoas, onde não se aceite a pobreza e a miséria como inevitáveis nem o privilégio como superioridade.


"A América Latina não se encontra dividida por ser subdesenvolvida mas, sim, permanece subdesenvolvida porque está dividida."
                                                                                                            Jorge Abelardo Ramos


http://quebradadoguevara.blogspot.com.br/

terça-feira, 5 de junho de 2012

Não quero ser "feliz"



       

         A voz se fazia ouvir no avião pra Juazeiro do Norte. Repetia, quero ser feliz, tenho o direito de ser feliz, insistia na afirmação idiota. Fui ficando impaciente, deu vontade de interferir, perguntar que felicidade era aquela. Prudentemente, puxei meu caderno e minha caneta e passei a refletir por escrito o que causaria, provavelmente, mal estar, constrangimento e, talvez, alguma grosseria.
         Impõe-se a necessidade de ser feliz. “Todo mundo” corre atrás da felicidade, até leis consagram o direito à felicidade ou a busca permanente dessa condição. Eu olho em volta e pergunto, como assim? Vejo crianças, velhos, homens, mulheres em estado de barbárie, de miséria, comendo lixo, ao desabrigo, abandonados da sociedade. Como posso pensar em ser feliz no meio disso? Esquecer? Não quero e não dá.
         Não pretendo a felicidade do egoísmo, da ignorância, da ingenuidade, da maldade ou da indiferença. Pra mim, felicidade é uma sociedade sem vítimas, sem famintos, sem ignorância, sem desabrigados, sem exploração e com igualdade de direitos e oportunidades. Impossível imaginar a felicidade em sua forma plena. Nem me interessa.
         Satisfação, encontro no trabalho por uma sociedade melhorzinha, inconformado com essa falcatrua generalizada, essa ditadura econômica de poucos que mandam, gerenciada por falsos governantes e travestida com um cenário democracilóide, que se desmancha ao olhar mais atento, ao primeiro golpe de consciência. Luxos de um lado pra poucos, agonia no meio, pobreza e miséria pra grande maioria. E predomínio privado sobre o público.
         Eu tive e teria vergonha de usufruir dos privilégios da riqueza num mundo tão cheio de miséria. Ainda que houvesse um só miserável, abandonado pela sociedade, e toda riqueza seria vergonhosa. Ter orgulho de luxos apenas demonstra pequeneza de espírito. Os anestésicos de consciência, do tipo “sempre foi assim”, “não se pode fazer nada” e outros não funcionam comigo. Não posso olhar pro outro lado e fingir que não tenho nada com isso, porque tenho, sim. Azar meu, dirão alguns. E eu penso que é sorte. Preserva minha humanidade. Os mais superficiais verão nisso a apologia da infelicidade. Vão de um extremo ao outro sem enxergar as infinitas nuances, as inúmeras variações e combinações de sentimentos.
         Há momentos em que a tristeza é necessária, outros em que a alegria é fundamental. Situações que impõem a necessidade da calma, ou que a raiva nos impulsiona ao que precisa ser feito. Momentos de ternura, sentimentos de acolhimento, ou de repulsa, de compreensão ou de intolerância. O medo pode nos fazer cuidadosos, evitando riscos desnecessários, ou pode nos acovardar e nos impedir – ou impelir – ações que vão resultar, muitas vezes, em conflitos de consciência e vergonha.
         São tantos e tantos sentimentos – variando em significados, causas e conseqüências –, infinitas possibilidades de combinações entre eles, que a própria expressão ou a intenção de “ser feliz” toma um aspecto pobre, superficial e primário. Uma pretensão infantil e egoísta, cega à realidade de sermos todos o mesmo grupo, todos a mesma imensa família humana e responsáveis uns pelos outros, assumindo isso ou não, consciente ou inconscientemente.
         Não sinto atração por felicidade, não pretendo ser feliz enquanto tantos sofrem. Muitos tipos de felicidade nesse mundo torto chegam a depender da infelicidade de outros. A mim basta a satisfação de viver descontente com a estrutura social que me cerca e dedicar meu trabalho – e minha vida – à contra-corrente dos valores vigentes. Ao levantamento de reflexões ligadas à prática cotidiana, que é o que faz a realidade. Ao questionamento dos valores implantados, dos comportamentos induzidos que nos levam ao sofrimento inútil e ao evidente desequilíbrio social, entre o luxo pouco e a miséria geral.
           Acredito que o principal trabalho é interno, precisa começar dentro de cada um. Assim, meu trabalho maior é dentro de mim mesmo, metabolizando, corrigindo, atentando, refletindo, aprendendo. O trabalho externo, os desenhos, as pinturas, pelo menos a maior parte dele, é extravasamento do trabalho interno, é a exposição do que rola dentro, resultado de reflexões, de vivências, de escolha de temas, conforme a mim parece necessário, possível e assimilável. Quando vejo pessoas refletindo com base no meu trabalho, eis aí minha "felicidade", apenas participar do processo e ter esse sentido na vida. Felicidade maior é pra um mundo melhor e, se não o temos, devemos construí-lo. Sempre a partir de nós mesmos, reconhecendo erros, mudando atitudes, observando a si mesmo, desejando melhorar, sempre. Absurda a idéia de que não muda, é muita miopia, não se consegue olhar ao longe. Está tudo em mudança, até os minerais. Com o tempo, emanamos as mudanças que fizemos em nós mesmos. Aí podemos servir ao mundo, com humildade e sendo a mudança, antes de tudo.

sábado, 12 de maio de 2012

Promiscuidade Público-Privada (ou Cachoeira de Evidências)

Fico observando as revelações do caso "Cachoeira", desmoralizando defensores da moralidade, como se fosse possível haver moral nas relações de poder em nossa sociedade - reflexo da "civilização" ocidental -, totalmente dominada pelas grandes empresas e seus insaciáveis interesses. Financiamentos bilionários de campanhas, espaços na mídia, ocultação dos podres, trocas de favores com o dinheiro público, anistias fiscais (ou anulação de multas e dívidas por impostos), relações promíscuas e no escuro das coxias na macabra dança das marionetes políticas, enquanto a população morre nas filas dos hospitais, por erros médicos, falta de condições para o atendimento, extermínio disfarçado de "guerra ao tráfico" (que não existe, pelo simples fato dos verdadeiros donos do tráfico, empresários de grande porte com empresas legais para a lavagem das fortunas que o tráfico gera, serem também financiadores de campanhas e exaltados pela mídia como "cidadãos exemplares", decidindo políticas públicas para serem implantadas por seus financiados e evitando, no legislativo, a descriminalização que mataria a galinha dos ovos de ouro). Matam jovens - pobres, negros na maioria - nessa falsa "guerra", e idosos - para eliminar aposentadorias e pensões - na "saúde" pública, de forma grotesca, hedionda, perversa. É o "trabalho" de controle populacional, feito por um Estado criminoso, refém dos poderes econômico-financeiros desumanos.

Durante a cara militar da nossa permanente ditadura foi possível agir abertamente fora da lei, sem possibilidade de contestação ou interpelação judiciária, desmantelando violentamente, à força das armas, todas as organizações operárias, trabalhistas, camponesas e estudantis, ao mesmo tempo em que se destruía a capacidade de ensino da educação pública produzindo, desde então, gerações e gerações de analfabetos funcionais (aqueles que lêem com tanta dificuldade que não conseguem interpretar um texto, chegando a 70% da população, segundo as últimas pesquisas, em 2010). O selo de ouro dessa estratégia foi a expansão da mídia privada, a televisão à frente, no controle das comunicações. Estava pronto o cenário para encenar a peça "redemocratização", apresentada como um "conquista do povo brasileiro". Mentiras deslavadas, confirmadas pelos opositores ao regime, numa cegueira egocêntrica - freqüentemente eurocêntrica -e burra, talvez bloqueados em sua visão por uma espécie de lealdade aos que caíram, na ilusão da luta armada. Parecem não se dar conta das armadilhas institucionais. Campo minado. É pasteurização ou morte. Como temos visto por aí.

Agora a mídia fará parecer que o caso Demóstenes/Cachoeira/Policarpo/Civita é pontual, que foi descoberta uma falcatrua dentro do sistema "democrático", por instituições "democráticas", e que tudo será "democraticamente" resolvido, com a punição aos culpados (que não conseguirem escapar da grossa malha jurídica). Alguns cães maiores serão sacrificados, em nome da manutenção do sistema. Com um cuidado cirúrgico pra não espirrar, porque senão pega em todo mundo ou quase. 

Isto não é um caso à parte, mas situação permanente. São grupos de grande poder econômico e predomínio na mídia privada - televisão principalmente, mas seguida das outras mídias, como se vê nesse caso o envolvimento da revista de "maior tiragem do mundo", o veículo mais reacionário, mentiroso, deturpador de realidades a favor do punhado mais rico da população, subalterno aos mega-empresários das corporações mundiais. Gigantescos vampiros do sangue público, contabilizam seus lucros e obrigam os "representantes do povo" a pagar as contas com o dinheiro dessa população espezinhada, em detrimento dos seus direitos mais básicos. 

O grupo revelado e em estudo para queda calculada é uma casquinha, uma ponta pequena de enorme iceberg submerso. Deve ruir sem afetar as raízes da corrupção endêmica, inerente ao sistema empresarista que se impôs desde o antigo capitalismo, mudando de nome, de roupa e de cara - agilidade que as esquerdas não têm, imobilizadas em sua rigidez ideológica e obrigadas a pasteurizações para compor suas instituições partidárias e já desmoralizadas na mentalidade popular, incapazes de mudanças substanciais e sem poder de convocação ou mobilização, em sua arrogante pretensão de conduzir as massas. Não posso acreditar em "eleitos" que não denunciam o predomínio do poder econômico sobre o político, que não revelam os nomes das empresas que colocam a coisa pública a seu serviço, cada vez mais descaradamente. Que não reconheça o poder aonde se controlam os fios, muito acima do teatro político encenado em ambientação "democrática". Predomina a conivência, a cooptação, a sintonia do mal.

Dois exemplos recentes demonstram bem a promiscuidade público-privada. A construção da represa de Belo Monte (de mentiras) teve oposição generalizada, dos povos originários, da população local, da prefeitura da cidade mais próxima (Altamira), da Organização dos Estados Americanos, da Comissão Internacional para Direitos Humanos, da ONU, de movimentos sociais os mais diversos. Nada adiantou, o governo brasileiro chegou ao cúmulo de responder à CIDH, da ONU, que "o Brasil" sabia muito bem cuidar de si, disparate vergonhoso. Por quê? Porque as construtoras milionárias interessadas e as indústrias beneficiárias da produção de energia a baixo custo são as mesmas que financiaram as campanhas eleitorais.  O caso do massacre de Pinheirinho, em São José dos Campos, é outra demonstração de a quem serve o poder dito "público". Terreno de empresa falida, que nunca pagou impostos, ocupado havia oito anos por uma população desatendida pelo Estado em seus direitos constitucionais, em bairro construído com esforço próprio, com ruas, postes, saneamento sem participação da prefeitura local, foi atacado violentamente pelas forças de segurança "pública", com cenas de barbárie, espancamentos e mortes, seguidas da estratégia municipal de expulsar as famílias da cidade, de maneira espúria e cruel. Surpresa? Não, são obviedades. Sobre esses dois exemplos há várias postagens neste blog (há infinitos outros exemplos, cotidianos, repetitivos - ontem mesmo foi atacada a ocupação Eliana Silva, em Belo Horizonte, de onde vieram as fotos abaixo), "Documentários sobre Belo Monte", "Pinheirinho - exposição de um sistema social", "Complementando Pinheirinho..." e "Relato de um defensor público de São José dos Camp...". 
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O documentário abaixo não é novidade, foi produzido pela BBC de Londres e exibido em 1993, chegando ao Brasil no ano seguinte. A emissora entrou na justiça e, pelo uso não autorizado da sua marca, conseguiu proibir sua exibição pública em todo território nacional. Achei interessante postar aqui para quem ainda não conhece perceber parte fundamental da estratégia de controle e manipulação de corações e mentes, através da publicidade e das mensagens subliminares, das informações distorcidas de um pseudo-jornalismo mau caráter, na defesa dos interesses empresariais acima dos interesses públicos, transformando a vida, como disse Eduardo Galeano, num manicômio e num matadouro, para a esmagadora maioria da população. Isso deveria ser exibido e discutido nas salas de aula, nas associações de moradores, nos sindicatos, em cada quarteirão. O controle da sociedade não é uma obra acabada, a construção nefasta é permanentemente retocada, reciclada, os cenários estão sempre se adaptando aos acontecimentos, mudando tudo pra permanecer tudo como está, um  predomínio desumano dos interesses empresariais sobre a sociedade, sobre a estrutura do falso poder político, o teatro das marionetes legitimando os crimes contra a humanidade. 

Se não é possível mudar o mundo em pouco tempo, é possível mudar a própria vida, percebendo os valores falsos implantados em nosso inconsciente e assumindo a construção dos nossos valores a partir da própria consciência, mais humanos, mas solidários, menos competitivos e egoístas como nos são impostos. A visão de mundo é direito e responsabilidade de cada um, mas é dificultado ao extremo pelo trabalho intenso e extenso de uma publicidade e propaganda que se utiliza da psicologia do inconsciente, da imposição sub-liminar, do controle das comunicações e da criação deliberada de ignorância e superficialidade (com a sabotagem da educação e controle curricular). Vivemos num mundo de mentiras, é preciso desacreditá-lo para romper as correntes que nos prendem e transformam a sociedade nesse inferno de ameaças, cooptação e medo, necessários ao predomínio das empresas sobre os povos - ignorantizados, explorados, roubados, enganados, controlados, inferiorizados e reprimidos em qualquer manifestação de inconformidade. Mudando a nós mesmos, caçando a verdade hoje acessível, embora ocultada pelo estabelecimento, abandonando os valores falsos e determinando nossos comportamentos para além dos condicionamentos, contaminando as consciências à nossa volta, despertando para a realidade além das mentiras apresentadas, mudamos o mundo, em primeiro lugar, dando sentido à nossa própria existência, criando sabores e cheiros desconhecidos pelos "normais". Além de exemplo, isso dá força à fala.

"Muito Além do Cidadão Keyne" peca por imprecisões e informações truncadas que se esclarecem com a última revelação de documentos secretos referentes ao golpe de 64, nos Estados Unidos, publicados de acordo com a lei de quarenta anos para documentos "classificados", ou secretos. Com base nesses documentos em áudio, vídeo e escritos, foi feito o programa "O dia que durou 21 anos", no Canal Brasil, de baixa audiência mas de qualidade incomparável com a mídia privada, em todos os sentidos. São três episódios de 20 minutos cada, ótimos pra exibir e discutir em salas de aula, em associações, em toda parte. É preciso cultivar a memória para formar uma visão do presente o mais próximo possível da realidade e o mais longe possível das distorções impostas pela grande mídia, pelos "donos das informações" no Brasil, interessados em manter essa sociedade vergonhosa onde se abandona seres humanos como lixo.

"Não é sinal de saúde ser bem ajustado numa sociedade tão profundamente doente". (Krisnamurti)

A "Pequi Filmes" reivindicou direitos autorais e mandou retirar o doc. do youtube. Seus lucros são mais importantes do que informar a realidade histórica ao povo brasileiro. Fica o meu protesto. Merda.



Achei impressionante a existência de estudantes universitários que, ao serem questionados qual a ditadura mais recente do Brasil, demonstraram dúvidas ou sugeriram o Estado Novo, de Getúlio Vargas. Foi uma professora quem me falou - de uma sala onde ela dá aulas -, entre o espanto e a revolta. Taí, Suame, passa pros teus alunos. Quantos mais haverá, sem noção da história recente?


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Comunidade Mauá, o anúncio de um novo Pinheirinho.

Prepara-se o aparato de segurança pública para cometer mais um crime social, mais um crime moral, mais um crime do Estado contra a nação brasileira, contra a população mais pobre desta nação, sua maioria. Mais uma vez se vê claro, a coisa pública imersa na privada, governos, legislaturas e magistraturas defendem os interesses econômicos de minorias ricas, empresários gananciosos e desumanos. Não preciso dizer muita coisa, os fatos falam por si. As campanhas eleitorais, financiadas por grandes empresários, são funcionários dos seus financiadores, em acertos feitos durante as campanhas, por exigência óbvia dos patrões.

Como acreditar em democracia? Nunca tivemos uma democracia, não sabemos o que é uma democracia. E esse papo de "redemocratização" é uma grande mentira. Os militares foram removidos do poder aparente para a construção de um cenário fajuto de democracia, que se desmente a cada ato do Estado e das suas instituições, a cada ano na sangria orçamentária para os cofres dos bancos internacionais de metade do orçamento que tem o destino desviado da sua função, os serviços públicos, para os tesouros acumulados dos verdadeiros ditadores das políticas públicas, um punhado de magnatas sub-humanos que se apropriaram de todos os meios que poderiam resolver os problemas da humanidade, para manter o controle sobre as sociedades e concentrar mais e mais poder, às custas do sofrimento das massas.

Está rolando um lento despertar, espalhado por aí, sob inúmeras formas. As mentiras, pouco a pouco, vão sendo reveladas, vão sendo percebidas, no ritmo do tempo, em evolução permanente. Que não se espere resultados plenos e rápidos. Participar do processo, de forma lúcida e persistente, já dá satisfação e sentido à vida. A caminhada se faz passo a passo. E, na minha opinião, começa dentro de cada um, pra depois se espalhar, com base no exemplo, nos valores, nos comportamentos - e não na posse da verdade, na definição de um único caminho, no arrebanhamento ideológico. Por aí, não vai e, quando foi, deu merda.

A arrogância dos revolucionários europeístas, seguidores invariáveis de pensamentos alheios, inutiliza ou, no mínimo, enfraquece suas ações, isola-os da população e os restringe a inexpressivas minorias, embora barulhentas - servindo apenas à composição do cenário falsamente democrático.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dia do índio é o cacete




Ontem, dia 19 de abril, chamado o “dia do índio”, não escrevi nada sobre o tema porque não existe dia do índio, desde que chegou aqui a civilização européia. Antes, como diz a música, todo dia era dia de índio.

Imagino o assombro com que a rapaziada viu surgirem as caravelas no horizonte, como enormes águas vivas, velas estufadas pelo vento, vindo em direção à praia, cada vez maiores, diante dos olhos espantados da tribo. Relatos escritos pelos europeus dão conta do espanto de índios e civilizados. Uns com a chegada daquelas enormes borboletas marinhas, cheias de brancos fedorentos e cobertos de panos, coisa incompreensível pra eles, naquele calor, outros com a existência de habitantes naquelas paragens desconhecidas, despidos homens e mulheres, uma vegetação nunca vista, com animais e frutos novos, costumes e línguas estranhas de parte a parte.

Os nativos não imaginavam a capacidade destrutiva dos europeus. Ali começavam os cinco séculos de violência, escravização, saque, expulsão e morte. Setenta milhões de habitantes das Américas foram sistematicamente exterminados e seus descendentes ainda são perseguidos até hoje, discriminados, difamados, saqueados, expulsos das terras que lhes restam.



Além da cobiça dos ricos latifundiários, mineradores e outros, os povos originários são perseguidos, a meu ver, por razões ideológicas. Numa sociedade centralizada no consumo e na produção, controlada por uns poucos e impregnada por valores falsos que transformam a vida num inferno, eles incomodam por evidenciar as mentiras nas quais estamos todos imersos. O indígena não vive para trabalhar, mas trabalha para viver e no que gosta. Quando chega da mata, trazendo caça, peixe ou frutos, não dá pra dizer se estava trabalhando ou se divertindo, porque para o índio, trabalho e diversão se misturam. Nós, civilizados, nos acostumamos à idéia do trabalho como um sacrifício a que todos estão obrigados. Assim fomos condicionados e poucos conseguem reagir a isso. Para nós, o mundo é uma competição desenfreada, um inferno de todos contra todos, conforme convém ao pequeno grupo dominante. O objetivo de acumular e de consumir, motor do inferno social, não existe para o índio. O que ele precisa, em seu estado natural, ele faz, não precisa comprar. Se ele precisa de uma casa, ele sabe fazer. Uma canoa, ele faz. Uma panela, uma rede, suas armas de caça, tudo ele sabe fazer, agasalho, remédios, tudo. Produz seu artesanato e pode muito bem viver de trocas, nos poucos produtos civilizados que lhe são úteis, como facões, machados e pouca coisa mais. O objetivo de vida dos índios não é juntar patrimônio, consumir à farta, disputar com seus irmãos quem pode usufruir de mais bens, dinheiro e poder. O objetivo da vida é viver.

Lembro de uma história, da época da vinda dos franceses (invasão francesa, nos livros de história) para disputar o pau-brasil com os portugueses, pois era uma mercadoria altamente lucrativa na Europa, sobre o diálogo entre um ancião tupinambá com um oficial francês, onde ele questionava tantos esforços, riscos e sofrimentos dos europeus para levar aquela madeira pelo mar afora. “Não há madeira lá pra vocês se aquecerem?” O oficial esclareceu que não era pra queimar, mas fazer tinta. “E pra quê é preciso tanta tinta?” O francês explicou que havia homens riquíssimos, que produziam mais tecidos, contas, espelhos e outras coisas em tamanha quantidade que o velho índio não poderia imaginar. E que um só comerciante riquíssimo desses poderia comprar vários navios cheios de pau-brasil. O índio não compreendia. “Mas esse homem riquíssimo de que você fala... ele não morre?” Morria, claro, como todos os outros. “E quando ele morre, o que se faz com o que ele juntou?” Fica para os descendentes dele, como herança, para que possam viver e estar garantidos. Então o índio balançou a cabeça, em reprovação, e afirmou que agora entendia que os europeus eram mesmo loucos. Se submeterem a tanto esforço, tanto risco, tanto sofrimento, a uma vida de sacrifício e dor, por um motivo daquele... não fazia sentido. “Nós também temos parentes de quem gostamos, as crianças nascem e crescem e nós sabemos que a mesma terra que nos alimentou, também os alimentará. Então, vivemos a vida com gosto, sem nos preocupar com coisas inúteis como essa e sem precisar sofrer tanto sem necessidade”.

Então, os povos originários são um péssimo exemplo para a população desinstruída e condicionada aos valores falsos que a sociedade nos impõe de forma tão tirânica, e ao mesmo tempo, insidiosa, que impede o questionamento. Por repelirem o sistema de trabalho empregado e rejeitarem a forma de vida civilizada, são chamados de vagabundos. Por suas áreas demarcadas ficarem fora do mercado de terras e do alcance da cobiça empresarial e latifundiária, execra-se e se impede de todas as maneiras a reparação aos crimes cometidos cotidianamente contra esses povos desde o nascimento do Brasil como o conhecemos, reconhecendo e demarcando suas terras de acordo com suas necessidades. O extermínio prossegue, massacre após massacre, enquanto a mídia defende os agressores e ataca as vítimas. Os patrões os odeiam, os grandes e ricos patrões que os vêem como obstáculos para seus lucros exagerados.

Deveríamos ver o tal “dia do índio” como o dia da vergonha. Não há progresso que se justifique com o sangue, o saque e a dor de tanta gente. O Estado e a nação brasileira, na pessoa de cada brasileiro, sobretudo nas autoridades, deve reparação aos descendentes atuais de inúmeras gerações, por mais de quinhentos anos, que foram escravizadas, perseguidas, dizimadas e saqueadas, com detalhada e esmerada crueldade. Descendentes que conservam, heroicamente, tradições e sabedorias ancestrais, depuradas ainda com sofrimentos atrozes no cotidiano, fruto do preconceito, da discriminação e da exclusão, que poderiam perfeitamente melhorar nossa sociedade, nossos costumes e nossas relações, tanto sociais quanto com a natureza.


25 de abril de 2012

Desumanidade e injustiça nos crimes do sul da Bahia contra os originários índios pataxós.


Nota de denuncia da comunidade Pataxó Hã-Hã-Hãe contra as policias Federal, Militar, Civil e fazendeiros.


É preciso fazer barulho, passar adiante, se manifestar, denunciar. Está acontecendo agora, a qualquer momento, enquanto comemos, enquanto dormimos, isso está acontecendo. Relatos documentados da covardia criminosa contra comunidades inteiras, famílias como as nossas famílias. O sentimento preconceituoso contra os índios - como qualquer preconceito contra qualquer coisa ou pessoa - só revela o nível primário de consciência. O sentimento de superioridade revela a inferioridade. A busca da igualdade plena - em direitos e deveres - é uma das mais nobres, difíceis e valiosas buscas da humanidade, no caminho da sabedoria e do conhecimento pleno, infinita estrada por onde todos nós andamos, a família humana entre tantas vidas universo afora.
Esse caminho passa pela consciência de que somos uma única família e existimos como tal.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Argentina retoma o controle do seu petróleo - exemplo para o Brasil

O governo argentino enviou ao Congresso o projeto de reestatização da YPF, a Petrobrás da Argentina, que foi entregue por Carlos Menem, o FHC de lá, à REPSOL, petroleira privada espanhola, de graça e de bandeja, como foi a Vale do Rio Doce, a Usiminas, a Eletrobrás e todas as regionais, as empresas de telefonia, de água e esgoto e tantas outras. Assisti a leitura do projeto, emocionado e com um nó na garganta, orgulhoso de los hermanos.

Os lucros do petróleo estavam sendo exportados para uma Espanha, em franco naufrágio econômico, ocupada com as convulsões sociais provocadas pela tal austeridade imposta pelos agentes financeiros internacionais, com o sacrifícios de aposentadorias, pensões, empregos, serviços públicos em geral. Como sempre, o povo tem que pagar a conta desses demônios. Na Argentina, agora, 51% da petroleira pertence ao governo federal e 49% são divididos entre as províncias, que são como os nossos estados. (Há um engano aqui: foram reestatizados 51%, divididos entre o governo federal e os estados ou províncias. O resto continua com empresas privadas, que perderam o poder de mando.)

Cristina Kirschner, mulher corajosa, duramente perseguida, difamada e atacada pelo sistema Clarín (o sistema Globo da Argentina), colocou freios na mídia privada com a ley de medios, apesar da gritaria dos comentaristas e jornalistas mercenários de lá (como vemos aqui todos os dias). Aliás, a mídia daqui tá descendo o malho na presidente argentina, de todas as formas. Insinuações, comparações maldosas - Hugo Chávez de saias, disse uma voz suína -, a mesma nojeira de sempre.

E professores, como o coordenador do curso de jornalismo de São Borja, que me fez ouvir pérolas como "os grandes meios são, sim, o sustentáculo da democracia", numa palestra em que eu denunciava o jornalismo mercenário, desonesto, deformador da realidade que essas empresas praticam, aprovam esse jornalismo e o sonho dos alunos em ser parte desses esquemas cruéis e desonestos. Os gritos, assovios e aplausos, depois da minha resposta, o fizeram se retirar do auditório, furioso. Depois, submeteu o vice dele ao vexame de me esculhambar pelo tuíter, apesar do tal vice-coordenador nem ter ido lá, violando princípios jornalísticos e demonstrando que a defesa de interesses está acima da ética, do profissionalismo e até de regras básicas do jornalismo. Professores que encorajam seus alunos a ambicionar um lugar nessas empresas mau-caráter são elementos de manutenção dessa estrutura injusta, perversa, covarde e desumana. Estimulam o conflito e a competitividade egoísta, atiram uns contra os outros e deixam a verdade em segundo plano, pra ser usada apenas quando for conveniente - caso contrário, mente-se, tranqüilamente. O que vale é a grana, a fama, o "sucesso", não importa o custo moral.

Para esses criminosos morais, a Argentina cometeu pecados imperdoáveis. Estabeleceu o controle legal das empresas de comunicação - coisa que aqui não há, ou não funciona - e reestatizou o que as grandes empresas tinham levado de graça, com pagamento em falácias, papéis podres, títulos de dívidas e outras enrolações econômicas. Deles não se pode esperar outra coisa que reações raivosas, histéricas, ameaças e previsões catastróficas. Como aqui. Farinha do mesmo saco, mercenários da palavra, gente sem pátria ou nação em que se integrem, além dos privilégios obtidos na venda das suas consciências, servindo aos poderosos interesses desses menos de 1% que concentram os reais poderes sobre a sociedade, atacando tudo o que serve à coletividade, indiferentes ao sofrimento da maioria e hostis a qualquer tipo de solidariedade sem restrições, a qualquer tipo de sentimento de família humana.

Parabéns aos hermanos argentinos. Que seu exemplo nos sirva.


Está em espanhol e eu não sei colocar legendas.


Reações (20.04.12)
      Já era de se esperar as reações indignadas da legião defensora (e regiamente paga pra isso) dos interesses empresariais. Entidades representantes da população européia falam em retaliações e defendem explicitamente os interesses mega-empresariais da multinacional expropriada. Jornalistas e comentaristas do mundo todo caem sobre o assunto com mordacidade, com fúria, ironias e deboches pesados, Cristina La Loca, Hugo Chávez de saias (aproveitando o trabalho midiático bem-sucedido de demonização do presidente venezuelano, apresentado descaradamente como ditador, em contradição com os mais de dez pleitos passados por ele, entre eleições, reeleições, referendos e plebiscitos - pelos mesmos motivos, ou seja, conter as grandes empresas no avanço sobre os direitos das populações e colocar o Estado a serviço do seu povo como um todo) e por aí vai, contando com retaliações contra a Argentina.
      A Argentina tem um histórico interessante neste sentido. Até o ano 2000 sua política econômica era apontada como exemplo pro resto da América Latina, privatizando tudo o que era público, desmontando a rede ferroviária, destruindo os direitos trabalhistas, atrelando o país numa dívida externa (que, depois dos processos "globalizantes", mudou o nome pra dívida pública - estratégia marqueteira) e se pondo de joelhos, a pagar juros que só aumentam e uma dívida que não diminui. Então, o país quebrou, o povo foi à miséria generalizada, como era de se esperar, e se levantou, que argentino zangado é brigão, mesmo. Em duas semanas foram derrubados vários presidentes pelo movimento "que se vayan todos" (ver o filme Memória do Saque - Memoria del Saqueo -, de Fernando Solanas, produção franco-suiça-argentina) e foi eleito, pela primeira vez, Néstor Kirshner. Com o povo nas ruas, em levante permanente, as grandes empresas foram acuadas e reduziram seu espaço de manobra, mantendo o poder sobre as comunicações, com a mídia privada já meio desmoralizada - o Clarín é a Globo de lá. E o governo pôde começar a fazer mudanças a favor da população, bem aos poucos. Néstor foi eleito, reeleito e, depois, Cristina Kirshner continuou o processo, firme e feminina, na direção de uma sociedade que não abandone nenhuma parcela da sua população.
      Os privilegiados se revoltam, se agitam, a mídia esbraveja, difama, distorce, conclama à revolta e à derrubada da presidente. Mas ela, com movimentos corajosos de mestre, praticamente anula o poder das minorias ricas que controlavam as políticas públicas, a serviço dos exploradores estrangeiros. Investe na tv pública e esta se torna referência para a população, desfazendo as mentiras das tvs privadas, que urram contra o ataque à "liberdade de imprensa", termo sempre usado pela mídia pra defender sua liberdade de mentir sem ser desmentida. Une seu país ao movimento de união dos países latinoamericanos, fortalecendo a resistência aos abusos das grandes multinacionais representadas por seus governos dos países do chamado primeiro mundo - primeiro, claro, às nossas custas históricas. Seus governos melhoram as condições de vida do povo e, enquanto pela mídia privada internacional a presidente Cristina é difamada, o povo argentino a apóia em massa - fórmula infalível para a continuidade do processo.
      Eu fico até constrangido com esses pseudo-brasileiros privilegiados da mídia, os tais jornalistas e comentaristas e suas expressões fisionômicas sempre falseadas, aos meus olhos, combatendo os hermanos latinoamericanos, bolivianos, venezuelanos, nicaragüenses, equatorianos, que passam por processos de descolonização política e econômica e levantam sua cabeça diante dos impérios corporativos mundiais. Em sua subalternidade ideológica, cultural, moral e quantas outras abjeções, esses profissionais da mentira e da distorção trabalham para difamar, desvalorizar e ridicularizar os processos de libertação dessas amarras seculares, em favor dos que consideram as divindades do mundo, os donos das corporações estadunidenses e européias, acostumados a escravizar, explorar e saquear povos no mundo inteiro, como que por direito de nascimento, como os reis da antigüidade.
      Segue o processo.

Recebi interessante reportagem de Eduardo Febbro, de Paris, em boletim de notícias da Carta Maior, em 20.04.12, nesse link - http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19996&boletim_id=1172&componente_id=18772

Ricos e Pobres




        A falsificação da realidade, trabalho feito com sucesso pela mídia privada, desde sempre, é cada vez mais descarada. A prática política se utiliza dessa mesma estratégia, criando títulos bonitos para ações horrorosas. Um desrespeito à inteligência, um cinismo criminoso.
     O prefeito recém empossado que teve sua campanha eleitoral patrocinada, em grande parte, por empresas imobiliárias, anuncia a remoção de “comunidades pobres”, segundo ele, para livrá-las dos riscos de desabamentos. A lista, provavelmente feita pelas empresas como condição de patrocínio à campanha, inclui as áreas valorizadas pelo mercado imobiliário cobiçada pelos olhos grandes dos empresários.
        Uma barreira visual é construída ao longo da Linha Vermelha para esconder o complexo de favelas da Maré dos olhos dos gringos e visitantes que vão do aeroporto internacional para o centro e zona sul da cidade. O motivo alegado é proteger as frágeis orelhinhas dos moradores do ruído produzido pela via expressa. A ironia é automática, a raiva, inevitável. Até as palavras são torcidas, deformadas, torturadas.
       Como diz Gizele Martins, moradora da Maré, chamar favela de comunidade pobre é o mesmo que chamar um negro de moreninho.
      Favela é comunidade roubada. Em direitos, em cidadania, em humanidade.
         Morador de rua não existe, o que existe são desabrigados.
      Flexibilização é destruição de direitos trabalhistas, é violação de leis.
       Revitalização é expulsão de pobres que se abrigaram em prédios abandonados - devolvendo-os à situação de desabrigados - para ceder os espaços valorizados pela especulação imobiliária a meia dúzia de empresários ricos.
        Segurança pública é repressão e contenção do público.
        Emprego, em geral, é exploração até o talo, é destruição de qualquer qualidade de vida.
        Transporte público é tortura e aviltamento.
       Pessoas que se manifestam para conseguir respeito aos seus direitos constitucionais, permanentemente negados por um Estado que não cumpre sua própria constituição, são classificadas de baderneiras. As ordeiras são as que se conformam, se calam e sofrem sem reclamar, numa depressão silenciosa. “Morram quietos, pobres, mesmo vivos”, é o que nos diz o sistema social dominado pelos ricos mega-empresários, os que têm os políticos no bolso.
        O Estado tem sido um robinhude ao contrário, rouba dos pobres pra dar aos ricos.
Democracia é um cenário fajuto, cada vez mais esfarrapado – democracia de verdade é um povo alimentado, instruído, informado e consciente, tomando decisões a seu próprio respeito. Senão, é a “cracia do demo” e nada mais. Nunca tivemos democracia, só fachada e ilusão.
        Os pobres constróem, mantêm, fazem funcionar e ainda sustentam, via impostos, toda a sociedade. E são desprezados, sabotados, enganados, roubados, explorados, controlados, reprimidos e violentados, cotidianamente. O sentimento de inferioridade e impotência plantado há gerações, pela ideologia midiática e sua máquina de fazer opinião e distorcer a realidade, não deixam perceber a força enorme que a maioria possui. Afinal, quem planta o que se come? Quem carrega as caixas, faz o transporte e prepara a comida? Quem abre as portas, prepara os ambientes, faz a limpeza, tira o lixo? Quem cuida das crianças, dos carros, das casas, dos animais? Quem conserta vazamentos, fiações, quem instala os canos, levanta as paredes? Quem está na linha de montagem do que quer que seja que se fabrique? Quem corta os tecidos e costura as roupas? Quem desce aos subsolos dos gases, fiações e tubos, desentope os entupimentos, conserta os vazamentos? Quem instala as torres de transmissão, seja de comunicações, seja de transmissão de energia? Quem se pendura nas alturas pra todo tipo de risco? Quem viabiliza a existência da sociedade são os pobres.

        O empresário rico diz que “dá empregos” quando, na verdade, tira sua riqueza, seus privilégios, seu luxo e ostentação da exploração dos seus empregados, pagando o mínimo possível e violando direitos trabalhistas. Um rico é uma ilha de arrogância cercada de pobres por todos os lados. Um pobre é a base inconsciente de toda a estrutura. Um pobre pode viver sem ricos. Um rico não pode viver sem pobres.

Muito fácil perceber que sem os ricos a sociedade seria menos injusta e perversa. E que, sem os pobres, ela seria simplesmente impossível.

Alguns dizem ser restrita e preconceituosa a visão da sociedade dividida entre ricos e pobres. É certo, há muitos patamares, tanto na pobreza, quanto na riqueza, inclusive com a importante classe média dividida em degraus – costumo falar no plural, classes médias, que vão do gerente de loja, do sargento ou do mestre de obras ao diretor de grande empresa, ao general ou ao engenheiro-chefe. Mas é impossível não considerar o contraste brutal entre a parte de baixo e a parte de cima. Embaixo, carências, desrespeitos, dificuldades de sobrevivência assolam mais da metade das pessoas. Em cima, luxos, desperdícios, ostentações e usufrutos que ofendem a sensibilidade de quem a tem. Quem está na parte de baixo, como eu, vê a parte de cima como um bloco homogêneo, arrogante e privilegiado, digno do respeito e consideração pelo poder público, muito ao contrário de nós. As diferenças internas de classe, dessa forma, são irrelevantes. Ricos são os que têm mais do que precisam pra viver, pobres são os que têm menos. Simplifico porque no fim das complexidades, a coisa é bem simples. Não há uma fronteira clara entre as classes, mas os extremos contrastam dolorosamente. É aí que a sociedade se apresenta dividida entre ricos e pobres, apesar dos intermediários que podem chegar a 30% da população, variando a quantidade e a qualidade dos privilégios, mas tendo em comum os direitos respeitados, pelo menos os básicos. Só a informação foge a esta regra, pois é distorcida sem preconceito, para todos.
Afinal de contas, pior que a pobreza de grana é a pobreza de espírito. E essa não depende da classe social, embora prevaleça entre os mais ricos. Para usufruir de privilégios sem incômodos de consciência, é preciso empobrecer a alma, acreditar em mentiras crassas e criar indiferença ao sofrimento cotidiano de milhões.
        Para haver respeito aos direitos fundamentais desses milhões, é preciso exterminar esses privilégios materiais, instrucionais e informacionais, privilégios grosseiros e desumanos, apresentados com orgulho quando, na verdade, são uma vergonha.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A coisa anda a passo de tartaruga


Polícia grega a serviço dos bancos, ataca a população em protesto, começando pelos jornalistas.
Polícia grega ataca jornalistas, manifestantes e a população em protesto contra as leis impostas pelos bancos ao país, sacrificando aposentadorias, ensino, saúde e direitos trabalhistas. É a demonstração do controle dos Estados pelos poderes econômicos mundiais, que além de financeiros são, em último caso, militares e sanguinários.


      Para dar aspecto de adesão aos três tratados “anti-corrupção” internacionais assinados pelo governo brasileiro, este enviou ao congresso uma lei que, agora, está sob exame de uma comissão especial na câmara dos deputados.
      Mais uma lei de fachada, mais um instrumento pra ser utilizado em “brigas de cachorro grande”, as disputas entre elementos das elites, única maneira de ver podres vindo à tona e privilégios sendo retirados, em uma dança das cadeiras falcatruesco que não modifica as estruturas altamente corruptas que sustentam o cenário “democrático”.


      De minha parte, não tenho como acreditar na eficiência de tal lei – que ainda não foi aprovada e talvez não seja –, enquanto à minha volta empresas são constantemente favorecidas em prejuízo do público. Quando vejo a situação dos transportes, aqui no Rio de Janeiro – esfregada em nossa cara pelo menos duas vezes por dia –, ônibus superlotados, parados nos congestionamentos, metrôs apinhados, abafados, quebrando no meio do caminho, gente passando mal, sem ar, empurra-empurras, lotações esgotadas em trens, nas barcas, os serviços rotineiramente desrespeitosos, como o deboche das tarifas absurdas – onde, no mundo, trens, metrôs e barcas têm passagens mais caras que os ônibus? – e dos cartazes publicitários afirmando o cuidado e o amor aos passageiros, como se o serviço fosse a principal preocupação desses empresários do setor, e não o lucro a qualquer custo.
      O financiamento das campanhas é o foco e a manutenção dos bonecos políticos sob o controle empresarial. Pelo menos o foco principal e mais perceptível. A promiscuidade escancarada entre os políticos e os empresários deixa bem claro a quem serve a chamada “representação pública”, que de pública só tem o nome e o poder sobre o aparato estatal onde quem menos apita é o próprio público.
      O “avanço” que vejo é o fato de se estar falando em corruptor. Sempre me incomodou demais os ataques aos corruptos políticos, sem menção aos seus patrões, os mega-empresários que determinam políticas públicas, sem serem eleitos. Há muito tempo as decisões são tomadas de um círculo acima da política, no escuro dos bastidores. Manifestações “contra a corrupção” que terminam em acusações ao congresso ou a elementos de câmaras legislativas me parecem superficiais, cosméticas, infantis e passam longe das causas da corrupção tradicionalíssima nos poderes públicos das falsas democracias do empresarismo neo-liberal – o “capitalismo” sem cabeça nem nome de que falam as “esquerdas revolucionárias” arrogantes e elitistas.
      Pouco a pouco (e, meu deus, como é pouquíssimo!) se percebe que as causas da barbárie social que se alastra pelo mundo – atualmente “terceiromundizando” a Europa, começando, como sempre, pelos mais pobres – têm suas causas mais acima que a política das marionetes, no escuro dos mercados financeiros, no alto da pirâmide social, entre os riquíssimos a quem interessa manter a população ignorante e desinformada para seguir controlando seus fantoches e determinando as ações e omissões dos poderes públicos – que, de públicos, só têm o nome.
      Não sei quantos passos falta nessa direção, pra se começar a perceber que essa preponderância do poder privado se infiltrou na mentalidade, nos valores sociais e pessoais, produzindo opiniões, objetivos, desejos, modos de vida, comportamentos que sustentam, alimentam e mantêm essa estrutura social. O atrelamento do ensino aos interesses empresariais infestou as escolas e academias, aumentando o abismo entre as classes e desenvolvendo o egoísmo, a arrogância e a competitividade ao extremo, criando indiferença com relação à miséria, à pobreza e à exploração como se fossem mazelas inevitáveis, ao invés de vergonhas inaceitáveis.

      Os acontecimentos na Grécia deixam escancarado os mecanismos de ação e servidão dos governos “democráticos” submetidos à ditadura do “mercado financeiro”- representado hoje pelo que os gregos chamam “tróika”, a trinca Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Mercado Comum Europeu. Quem determina realmente as políticas públicas passa longe de eleições.


      O poder empresarial é desumano e não poderia ser de outra forma, pois seus objetivos se reduzem ao maior lucro e ao menor custo, como uma lei imutável e natural do nosso sistema social, o sistema que aceitamos como único possível e sem possibilidade de mudanças além da superfície e que sustentamos com nossos valores e comportamentos – que foram criados em laboratórios multinacionais e impostos, basicamente, pela mídia, como demonstrou Milton Santos no filme do Silvio Tendler, “Conversas com Milton Santos – a globalização vista pelo lado de cá”.


      Ainda nas palavras do brilhante negão, as empresas não têm nenhuma responsabilidade social, nenhuma responsabilidade moral, nem mesmo territorial, pois o centro do seu interesse é o lucro – a qualquer custo.
      Não consegui colocar o nome de nenhuma dessas marcas famosas, acompanhado das palavras “trabalho escravo”, no gúgol, sem obter resultados. Todos o nomes, náique, adidas, zara, marisa, etc, deram resultados, flagrantes ou denúncias de trabalho escravo, de exploração de crianças, em qualquer parte do mundo. E nós, boçais e ignorantes, vendo as marcas como nos foi programando, como símbolos de qualidade e até de afirmação de valor social. “Estupidezes” alienadas, condicionadas, como se vê em qualquer pesquisa em saites como o do Repórter Brasil.


      Precisamos deixar de ser otários e parar de colaborar com esse estado de coisas, precisamos levantar quais são realmente os nossos valores e quais foram implantados pela competência da publicidade, sobretudo depois do advento da psicologia do inconsciente aplicada à criação de valores e comportamentos sociais. Um processo criminoso e desumano que se vê no documentário “O século do ego”, produzido pela BBC de Londres e já divulgado neste blogue. Estamos todos impregnados, em maior ou menor grau. Quem se pretender isento passa atestado de ingenuidade, pra dizer o mínimo. E é por isso que os trabalhos de mudanças na estrutura social para colocar finalmente o Estado a serviço do seu povo precisam começar internamente pra adquirir consistência externa, poder de contágio e propagação. Não é uma figura de linguagem a afirmação de que mudando a si mesmo é que se muda o mundo. É uma necessidade.
      Sem isso, qualquer papo sobre revolução é inconsistente, não passa de teoria ou simples conversa fiada.

domingo, 1 de abril de 2012

Quando 31 de março foi 1º de abril

Por volta das quatro da madrugada as tropas do exército, com tanques, armamentos, caminhões lotados de soldados, jipes, caminhonetes, canhões e todo o aparato de guerra, partiram de Minas com direção ao Rio. Era o dia 1º de abril e um golpe era iniciado contra o governo eleito de João Goulart, golpe gestado desde a época de Getúlio, inclusive com um “manifesto dos coronéis”, e abortado –ou adiado – pelo suicídio estratégico do próprio Getúlio. Dez anos depois, quando os coronéis já estavam generais, deu-se o golpe. Tinha a cara, as mãos e as armas militares, mas – 1º de abril! – a cabeça era empresarial – mega-empresarial multinacional, pra ser mais exato. Um embaixador estadunidense era a mola propulsora e a correia de transmissão.
João Goulart seguia a linha de Getúlio que, em seu governo nacionalista, contrariou determinações dos “patrões” estrangeiros. Gegê estabeleceu o ensino obrigatório, criou leis trabalhistas, fez investigar a dívida externa, que caiu em 40%, entre outras coisas, ameaçou simpatias ao regime nazista e conseguiu, com muito jogo de cintura, fundar a Companhia Siderúrgica Nacional, a Petrobrás e outras estatais que os industriais do crescente império estadunidense proibiam por vias tortas. Claro, ele era um latifundiário populista, membro da elite, que conquistou o povo com seu paternalismo, mas suas atitudes criaram condições pra que a população mais pobre começasse a entender como funcionava a sociedade. As associações, sindicatos, federações de trabalhadores ganharam uma força nunca vista e, quando Jango chegou à presidência, encontrou apoio suficiente pra encarar as elites e começar as tais “reformas de base”. Apoiou os movimentos dos trabalhadores, aumentou em 100% o salário mínimo, enfurecendo os patrões e as elites nacionais e assustando os internacionais, em plena época de guerra fria, onde o comunismo era uma ameaça terrificante. Sacrilégio dos sacrilégios, desapropriou as terras em torno das rodovias e ferrovias federais, até dez quilômetros de distância de cada lado, e decretou a reforma agrária. Essa foi a gota d’água e o golpe foi dado. Ou eles perderiam o Brasil do seu controle, como haviam perdido Cuba, poucos anos antes, e temiam perder seus “quintais” na América Latina, entre os quais o Brasil era o mais rico e importante.


Para continuar o texto, clique no link abaixo. No final, documentário.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.