sexta-feira, 6 de julho de 2012

Fala do presidente do Uruguai, Pepe Mujica. na Rio+20




Autoridades presentes, de todas as latitudes e organizações, muito obrigado. E muito obrigado, nosso agradecimento ao povo do Brasil e à sua senhora presidente. E muito obrigado à boa-fé que, seguramente, manifestaram todos os oradores que me precederam.

Expressamos a íntima vontade, como governantes, de acompanhar todos os acordos que esta nossa pobre humanidade possa subscrever. No entanto, seja-nos permitido fazer algumas perguntas em voz alta. Durante toda a tarde esteve-se falando em desenvolvimento sustentável, de tirar imensas massas da pobreza. O que nos passa pela cabeça? O modelo de desenvolvimento do consumo é o atual das sociedades ricas. Eu gostaria de perguntar o que aconteceria a este planeta se os indianos tivessem a mesma proporção de carros por família têm os alemães? Quanto oxigênio nos restaria para podermos respirar?

Mais claro: o mundo tem, hoje, os elementos materiais para fazer possível que sete, oito bilhões de pessoas possam ter o mesmo nível de consumo e desperdício das mais opulentas sociedades ocidentais? Será possível ? Ou teremos que nos dar, algum dia, outro tipo de discussão? Porque criou-se uma civilização, na que estamos, filha do mercado, filha da competição, que se deparou com um progresso material portentoso e explosivo. Mas o que foi economia de mercado criou a sociedade de mercado. E se apresentou esta "globalização" que significa olhar por todo o planeta. Estamos governando a globalização ou a globalização nos governa? É possível falar de solidariedade e de que estamos todos juntos numa economia que está baseada na competição desapiedada? Até onde chega a nossa fraternidade?

Nada disso digo para negar a importância desse evento. Não, pelo contrário, o desafio que temos pela frente é de uma magnitude e de um caráter colossal e a grande crise não é psicológica, é política. O homem não governa, hoje. A força que se liberou, ou a força que liberaram governa o homem... e à vida. Porque não viemos ao planeta para nos desenvolvermos em termos gerais. Viemos à vida tentando ser felizes. Porque a vida é curta e nos acaba. Nenhum bem vale como a vida e isto é elementar. Mas se a vida me vai escapar trabalhando e trabalhando para consumir o máximo e a sociedade de consumo é o motor, porque se definitivamente se paralisa o consumo ou se detém, se detém a economia, e se se detém a economia é o fantasma da estagnação para cada um de nós. Mas esse hiper-consumo, a juízo, é o que está agredindo o planeta e esse hiper-consumo tem que gerar coisas que durem pouco, porque é preciso vender muito. Uma lâmpada elétrica não pode durar mais de mil horas acesa. Há lâmpadas que podem durar cem mil, duzentas mil horas, mas essas não se pode fazer. Porque o problema é o mercado. Porque temos que trabalhar. Temos que estar numa sociedade de uso e descarte, estamos num círculo vicioso. Estes são problemas de caráter político que estão nos dizendo da necessidade de lutar por outra cultura. 

Não se trata de propor voltar aos homens das cavernas, nem fazer um monumento ao atraso. É que não podemos, indefinidamente, continuar governados pelo mercado mas, sim, temos que governar o mercado. Por isso digo que o problema é de caráter político. 

Na minha humilde maneira de pensar - porque, como os velhos pensadores definiam, Epicuro, Sêneca, ..., - pobre não é o que tem pouco, mas o verdadeiramente pobre é o que necessita infinitamente muito e deseja e deseja e deseja mais e mais. Esta é uma chave de caráter cultural. Então, vou saudar o esforço e lhes recordo que é assim. 

Vou acompanhar, como governante, porque sei que alguma coisa das que digo se retêm. Mas temos que nos dar conta que a crise da água, que a crise do meio ambiente não são uma causa. A causa é o modelo de civilização que construímos e o que temos que rever é a nossa forma de viver. Por quê? Pois temos um país pequeno, muito bem dotado de recursos naturais para viver. Em meu país há três milhões de habitantes, pouco mais, três milhões e duzentos, mas há treze milhões de vacas, das melhores do mundo, e uns oito a dez milhões de ovelhas, estupendas. Meu país é exportador de comida, de arte ou de carne. É uma enorme planície, quase noventa por cento do seu território é aproveitável. Meus companheiros trabalhadores lutaram muito pelas oito horas de trabalho. Agora estão conseguindo seis horas. Mas aquele que consegue as seis horas, consegue outro trabalho, portanto trabalha mais que antes. Por quê? Porque tem que pagar uma quantidade de mensalidades, a motocicleta que comprou, o carrinho que comprou, e paga prestação e paga prestação e quando se dá conta, é um velho reumático como eu e se lhe foi a vida. E se faz essa pergunta: esse é o destino da vida humana? 

Estas coisas são muito elementares. O desenvolvimento não pode ser contra a felicidade, tem que ser a favor da felicidade humana, do amor sobre a terra, nas relações humanas, no cuidar dos filhos, em ter amigos, em ter o mínimo necessário. Precisamente, porque esse é o tesouro mais importante que existe. Quando lutamos pelo meio ambiente, o primeiro elemento do meio ambiente se chama felicidade humana. Obrigado.

José Mujica, el Pepe.


(Tradução - Eduardo Marinho)

"Portas Abertas", de novo, em Santa Teresa





eu:  E aí, Pedrão.
Tá sabendo que amanhã tem um "portas abertas", em Santa?
Pedro:  Fala Edu.
To sabendo, não.
eu:  Apois...
Eu até ia viajar pra Mauá, mas não deu. Tem que preparar mais material pra subir a serra.
Vou ter que ir lá na falcatrua desse portas fechadas pros artistas mais pobres, que expõem nas ruas de Santa Teresa. Ou exponho meus desenhos, ou minhas opiniões a respeito do evento, ligando com a realidade da nossa sociedade, onde o serviço público serve ao privado e o povo que se f...
Pedro:  Amanhã eu vou pra Saquarema. Fds que vem vc vai estar no rio?
eu:  Vou amanhã na porra desse evento.
Não sei se no próximo eu vou estar. Continuo querendo ir pra Mauá. Chei de sodade de Alice Luz e de Brisa do Outono. 
Pedro:  Tu viu o título de patrimônio da humanidade?
eu:  Vi. O que tem de mais?
Pedro:  Hoje descobri o real motivo.
eu:  Aié? E qual é?
Pedro:  Criaram um fundo.
Da prefeitura
eu:  O que esses caras mais criam são fundos - por onde eles entram e saem.
Pedro:  Isso.
eu:  É por onde escoam os dinheiros públicos pros bolsos privados.
Pelos fundos. Pode ser um motivo. Mas tem vários outros, eu penso.
Cê tem informação sobre isso?
Pedro:  Saiu no globo hj:
Pedro:  primeiro eles fizeram cada carioca se sentir um vitorioso pelo título, depois criam o fundo pra escoar o dinheiro.  

eu:  E não se sabe como se "administra" os fundos. Se intui.

Xovê essa merda... 

 Enviado às 08:50 de sexta-feira

Pedro:  O quê isso muda na prática, para um cidadão comum no rio de janeiro?
    eu:  Coitado do cidadão comum...
    eu:  Então acaba a secretaria municipal de patrimônio e entra o instituto rio patrimônio histórico...
E o secretário vira presidente do instituto.
Pedro:  rs
eu:  E sai do controle público.
Aliás, "controle" público (com aspíssimas), que é só na lei, mesmo. Mesmo que não funcione, é sempre um risco.
Cauteloso, sabendo das coisas, o prefeito já deu uma preventiva.
Vai que algum maluco do ministério público ou do tribunal de contas da união resolve criar problemas e dar uma incerta nas contas...
Pedro:  rs
eu:  ,,, num instituto isso encontra mais barreiras que numa secretaria municipal, imagino.
Pedro:  O título é de patrimônio "Cultural" da humanidade.
eu:  É a cultura da competição, do consumo, da obsolescência, da publicidade... a porta enfeitada do inferno.
Pedro:  primeiro a mídia começou a criar a expectativa, olha só o título da matéria:
"Rio ainda tem chance de ser Patrimônio da Humanidade"
eu:  Peraê, cumpade, não comi nada hoje ainda, não posso vomitar.
Pedro:  rs
eu:  Tô na concentração pra encarar o ‘portas’ de amanhã.
Se não me deixarem expor meus desenhos, vou expor minhas opiniões.
Isso eles não podem impedir...
Pedro:  Podem tentar. rs
eu:  Me impedir de falar?
Isso eu ia querer ver.
Pr’eu não falar alto e bom som, talvez até na parte de cima da rua - que serve muito bem de tribuna -, tenho que estar expondo meus desenhos. Aí eu falo mais baixo e com menos gente de cada vez, só com os que pararem pra ver os desenhos. Se me embarreirar, vou explanar geral. Vão ter que me prender ou me abater a tiros. Como vai estar cheio de gente, acho que não fazem isso, não.
O problema é que eu tô sem câmera pra registrar. Perdi o carregador de pilha e não sei se a máquina engasgou ou ficou sem pilha. Com as convencionais não funciona.
Vai estar todo mundo proibido de expor. A guarda municipal já deu o sinal, passaram num carro, domingo, mandando todo mundo que tava expondo sair. Mas não ficaram e, depois de fazer todo mundo recolher as mercadorias, foram embora e todo mundo expôs de novo.
Eles não voltaram.
Pedro:  Vixe!
eu:  Achei que era uma preparação pro evento das 'portas abertas'.
Engraçado que não falaram comigo.
Parece que sabem que iam ter que perder muito tempo comigo, eu não ia sair así, no más. Ou talvez foi porque eu não ocupo o chão, só as paredes.
Pedro:  Todo ano é esse inferno, né?
eu:  É esse evento, organizado por empresa privada. Na visão dos empresários, é preciso "limpar" as ruas e isso significa expulsar os mais pobres de grana, exatamente quem mais precisa trabalhar. Eu, no máximo, tiraria os coloridos, se pressentisse a apreensão. Esses dão trabalho demais pra arriscar. Se é pro sacrifício, prefiro deixar só os p&b. A dor é menor. Mas acho improvável que chegasse nesse ponto.
Pedro:  Eduardo, só abre teu olho que esses caras são covardes pra caramba!
eu:  Ih, rapaz, eu corro muito.
Mas os covardes de verdade não botam a cara, mandam os de baixo, os trabalhadores. E com esses, na maioria das vezes, dá pra tratar.
Os covardes ficam atrás das mesas, telefone na orelha.
 Enviado às 09:08 de sexta-feira
 eu:  Bueno, um que outro vai pra rua, há covardes entre os de baixo também, mas são menos, a maioria é só peão, tem que fazer o que mandam. Quando percebem que eu os respeito, mesmo encarando, que não é pessoal, mas de consciência, e que não fico agressivo com eles, mesmo que apreendam meus desenhos, aí eles suavizam.
Eles tão acostumados com reações agressivas direcionadas a eles. Mas comigo não tem isso, sei que a responsa não é deles.
Até hoje, só perdi minhas coisas em operações, quando não tem conversa, só agressão e apreensão. Mas foram muito poucas vezes...




Espero expor, como todo fim de semana. Eles pretendem impedir - na visão desumana deles, é preciso limpar a rua dos expositores que não pagam a empresa pelo evento, como os comerciantes e os artistas mais abastados do bairro. Não percebem a hipocrisia, não se tocam da covardia, não se importam com prejudicar os mais pobres de grana. É uma exposição da pior pobreza, a de espírito, comum entre endinheirados - não é preconceito, é pós-conceito, diante dessa prática tão comum. As empresas de bebidas e refrigerantes, as empresas de revenda nos estádios, mais o poder dito público, proibiram os isopores - recurso dos mais pobres para arrumar um dinheiro ou tomar seu refri ou cerva mais baratos - de funcionar nas calçadas e logradouros, num raio de quilômetros dos estádios. As evidências são óbvias, apesar de qualquer argumentação, e há uma profusão delas, que tente explicar com outras razões. Muitas verdades pequenas escondendo a grande mentira - o objetivo é o lucro máximo e nada mais. Pra isso o aparato público é posto a perseguir os pobres que tentam trabalhar apesar do desemprego - aliás, por causa dele.

Aos que dizem que não pagamos impostos e por isso é justo que sejamos impedidos de expor, respondo que pago mais impostos, proporcionalmente, que qualquer um que afirme essa mentira. Mais da metade do que ganho sai em impostos, pois o sistema tributário se baseia no consumo, não na renda, nem na propriedade, que esses têm é isenção de todo jeito. Além do mais, expondo em paredes externas, eu teria que pagar que tipo de imposto? Predial? Não faço comércio, faço arte, e pago impostos sobre tudo o que uso, papel, tintas, ferramentas, transportes, tudo, tudo. 

O direito ao trabalho me autoriza, já que o Estado não garante o que manda sua constituição federal, alimento, moradia, ensino de qualidade, trabalho, saúde, etc, etc. Que moral tem esse Estado criminoso pra me impedir de trabalhar, me atacar com o aparato de segurança pública como se eu fosse um perigo pra coletividade, me tomar o produto do meu trabalho e, se encontrar resistência, me agredir e prender? Moral não tem, mas tem armas e soldados treinados pra atacar quem não pode se defender.

Os guardas dizem pra ir na prefeitura tirar uma autorização. Eu respondo que há mais de trinta anos vivo do que faço, expondo nas ruas e praças, e jamais um poder público me autorizou, exceção feita a essas feirinhas que as prefeituras estragam com sua ingerência e que junta um monte de aposentados (as) que não vive exclusivamente do que expõe e pode ficar comendo mosca sem vender nada, fazendo terapia ocupacional. Essas feiras não vendem. Acho que é por isso que autorizam. Onde se vende, não pode. Além do mais, nas prefeituras eles ficam te mandando de um lugar pra outro, querem te qualificar num dos padrões definidos por eles, que nunca satisfazem, pelo desconhecimento da nossa realidade, e te fazem esperar e esperar até que você desiste, depois de perder um tempão que não podia ser perdido. Se fosse esperar por esse poder corrompido, morreria de fome com minha família, depois de perder casa e tudo o mais.

Amanhã, então, Santa Teresa de "portas abertas"... Espero poder expor. Caso contrário, denunciar o esquema, a covardia, fazer as ligações com a nossa realidade social, política e econômica também será divertido, embora precise vender desenhos. Pra prevenir, hoje vou na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), às 18:30, numa plenária da candidatura do Freixo e do Yuka à prefeitura do Rio que pretende discutir alternativas pro governo municipal. Vou pra expor os desenhos e textos. É uma rapaziada mais pensante, mais sensível que a maioria, mais esclarecida e bem intencionada que outras coletividades da política, ou seja, ali meu trabalho se encaixa bem, tem boa receptividade. E eu me previno pra gastar meu sábado sem vender, só falando com as pessoas, se for preciso. Espero que me deixem expor. Nem que seja pra evitar o incômodo da minha falação bem no centro do bairro e do evento - eles já me conhecem, que eu sei... 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Paraguai fora, Venezuela dentro




A suspensão do Paraguai foi providencial para a inclusão da Venezuela, 3ª maior economia da América do Sul, no bloco regional formado pra fazer frente à exploração e ao controle secular de potências do "primeiro mundo" (muito às nossas custas) sobre nossos países, estrategicamente mantidos divididos para facilitar o predomínio. 

O não reconhecimento dos novos "representantes" do Paraguai, o que mais se opunha à inclusão da Venezuela no Mercosul, possibilitou a entrada da potência petroleira, a maior resistência ao império das corporações da atualidade, exceção feita a Cuba. O golpe do parlamento paraguaio foi providencial, neste sentido. Os que defendem a destituição do presidente Fernando Lugo, num processo começado e encerrado em um dia, sem direito à defesa ou a uma investigação, depois do massacre claramente armado pra criar um fato político às custas de vidas de pobres, policiais e camponeses, aproveitando pra matar um oficial irmão de um militar da confiança de Lugo e responsável pela sua segurança, os que defendem esse golpe só podem ser ingênuos, ignorantes ou safados, mesmo. As elites fazem qualquer coisa pra se manterem privilegiadas e no poder. A suspensão do Paraguai das instâncias decisórias e dos debates do Mercosul não incluiu o comércio com aquele país pois, segundo os países componentes, isso afetaria mais a população paraguaia do que o próprio governo falsificado - uma demonstração de humanismo, de quais são as importâncias desse organismo tão mal-falado pelas mídias comerciais de todos os países do continente, representantes legítimas dos interesses empresariais, sobretudo das transnacionais que nos exploram e controlam, há séculos. 

Por uma nova sociedade, onde o centro de importância esteja nas populações, não na economia de mercado, no bem estar coletivo, na solidariedade e no amor irrestrito, na sinceridade, na verdade e na transparência mais completa, e não no egoísmo tão estimulado no sistema vigente, na competição desenfreada, no consumo compulsivo. Essa nova sociedade só pode se basear na mudança de valores e comportamentos pessoais, no não acatamento desses valores falsos, implantados pelo massacre midiático, pela infiltração nas instituições, sobretudo de ensino, na transformação da miséria, ignorância e exclusão em fatos lamentáveis, porém inevitáveis. O que antes era reconhecido como enormes injustiças da sociedades hoje é visto como a justa punição da incompetência - escondendo que essa incompetência é planejada e imposta pela sabotagem deliberada do ensino público, pela cooptação das universidades e pelo predomínio das finanças sobre os governos. O artigo escondido no link abaixo ("mais informações") usa uma linguagem de que não gosto e mantenho algumas discordâncias, insignificantes frente à lucidez e à exposição dos fatos envolvidos na questão. Artigo extremamente importante para compreensão do que passa. 

Os que ironizam, debocham e desprezam a união latinoamericana, a irmanação desses países, se denunciam como adoradores, subalternos e defensores do predomínio estadunidense-europeu que tanto sofrimento nos causa aos povos.



Sobre o golpe do parlamento paraguaio, suas causas, conseqüências e desdobramentos, há postagens no Notícias da América Latina - link à direita, próximo ao cabeçário.



domingo, 1 de julho de 2012

A (des)regulamentação da Voz do Brasil




Costumo ouvir a Voz do Brasil, às 19 horas. Há décadas, desde que era a Hora do Brasil ou sei lá, tinha outro nome. Acho que era a Hora do Brasil, mesmo. Eram informações importantes que não saíam em outro lugar nas comunicações, na mídia em geral. Trata de como está funcionando o aparato público, os programas de saúde, de educação, as novidades do judiciário, as leis que estão sendo votadas no Congresso, os debates e assuntos que são públicos e geram conseqüências na vida da população, no cotidiano de todos. É claro que os donos do poder, os financiadores dos políticos, infiltrados nas instituições com a mídia de porta-voz e linha de frente na formação da opinião pública, claro que não gostam da Voz do Brasil. Pra eles, quanto menos o povo souber, melhor. O que é preciso saber é dado em escolas particulares totalmente infestadas com a ideologia de mercado, de competição desenfreada, com os currículos direcionados apenas para mercado, esquecendo a formação humana, a solidariedade e a busca por uma sociedade melhor, sem tanta miséria e ignorância. E só pra parcela que é necessária, os que podem ser absorvidos pelos mercados de trabalho e de consumo.

Pro resto, a maioria, a educação pública simplesmente é sabotada, escolas em situação de barbárie, ensino praticamente inexistente, professores adoecendo dos nervos, falta total de condições de ensino, condições precárias pras merendeiras, supervisores, inspetores, administrativos, enfim, os trabalhadores da educação... não é incompetência dos políticos, é uma estratégia deliberada pra manter a população ignorante. Em conluio com a mídia, que pega a população desarmada de senso crítico, pela falta de instrução e informação, e forma valores, comportamentos, induz ao consumo e à alienação completa. Narcose midiática. Assim se controla o Estado e as riquezas públicas. Não é à toa que mais de setenta por cento da população é de analfabetos funcionais, que não conseguem decodificar e entender um texto.


Compartilho o que acabei de ler e achei que devia passar pra frente. O artigo é ótimo, na minha opinião, e deveria ser lido por todos os que podem ler. Peguei no Blog do Miro, quem quiser conhecer, o cara é bão. E posta várias informações interessantes todo dia. É só clicar no "mais informações".

Abraços a todos e bom proveito.

 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Natureza morta do Pinheirinho - Não dá pra esquecer : Estado criminoso, Pinheirinho é toda hora, em todo lugar, em nome da ganância de poucos, a população sofre.


Hoje está sendo a Vila Autódromo. Têm sido tantas que nem posso lembrar os nomes. Em todas as cidades onde andei, em todos os tempos que vivi, a história é essa. O poder público, a mando dos poderosos da sociedade, os podres de ricos, ataca, espanca, mata, reprime, prende, rouba e expulsa, sem nenhum resquício de vergonha, dignidade ou respeito, os mais fragilizados, explorados, sabotados e excluídos da sociedade.

Como se consegue fazer os policiais esquecerem que fazem parte do povo e sofrem parecidos problemas, com as mesmas causas? Vivem as mesmas dificuldades e esquecem disso quando cumprem a ordem de atacar. E atacam com fúria, ódio no olhar, ânsia destrutiva, sem perceber que atacam pessoas, destróem moradias, atiram famílias nas ruas, espancam pais, mães, crianças, velhos, aleijados, matam cachorros, matam pessoas. O que é feito com a humanidade desses homens? Que tipo de instruções, de tratamentos, de interferência psicológica recebem essas pessoas, para serem capazes de atos que envergonhariam o mais brutal dos seres? Que monstruoso alcance de estudos avançados de psicologia do inconsciente será preciso pra criar tamanhos ódio, fúria e compulsão destrutiva, por vezes assassina? Onde está, na verdade, a verdadeira responsabilidade nessa zorra toda? 

A quem interessa uma polícia, uma segurança pública destacada da sociedade, capaz de atacar indiscriminadamente qualquer coisa, qualquer coletividade, qualquer cidadão, sem questionar, sem sentir nada além de raiva e obstinação no cumprimento de ordens, desumanizado por completo da parte mais valiosa do ser, sua sensibilidade, sua capacidade de solidarizar-se com o sofrimento  alheio? A quem tem servido o aparato público de segurança? É estimulada a violência sem consciência e sem critério, além da tirania e da intenção de destruir qualquer organização dos explorados, qualquer oposição a esse modelo de sociedade que cria seus próprios monstros, dos dois lados do espectro social, o institucional que se apresenta "do bem", mas que age barbaramente, e o dos inconformados da sorte, que se deformam sob as pressões dos valores e dos comportamentos impostos. E as forças de segurança são apartadas da sociedade. Estão construindo uma "cidade da polícia" em algum lugar da zona norte ou oeste do Rio, não sei bem, onde só morarão policiais e suas famílias, formando um gueto. Uma sociedade à parte da sociedade, um enclave de profissionais de controle de massas, que não podem se sentir parte da turba, do populacho, da massa que precisa ser controlada, amorfa e acéfala como a estrutura é montada pra produzir, angustiados seres sem alma a serviço e sob controle do sistema.

A PM do Espírito Santo adquiriu recentemente um tipo de caveirão (blindado originalmente projetado pra entrar nas áreas pobres -"de conflito"- protegido e atirando para todos os lados) equipado com lança-águas com potência pra 100 metros, em várias direções. Água com pimenta. Se fosse um programa de humor, eu perguntaria que tipo de bandido a polícia pretende pegar com esse equipamento. Polícias de vários outros estados devem ter invejado a polícia capixaba, querendo o mesmo veículo. Já perceberam seu papel de inimigos de qualquer tipo de organização popular de inconformação, de protesto, de reivindicação, de proteção dos seus direitos. Povo, só disperso. Circulando, circulando! Estão convencidos do seu papel de dispersão de massas, de criminalização das lideranças, dos representantes. Tanto que, mesmo depois de serem forçados pela situação de penúria a reivindicarem, por sua vez, direito à remuneração digna, violando um princípio sagrado do militarismo, a hierarquia, muitas vezes em grandes conflitos internos, mesmo assim não se conscientizam e voltam a reprimir outras manifestações.

Que tipo de trabalho psicológico pode evitar que percebam o uso que lhes é dado no contexto da sociedade, o de defensores da propriedade privada e dos interesses dos podres de ricos? Estes tomaram pra si o controle do governo, das assembléias legislativas, do judiciário e suas leis, destruindo o ensino e a saúde públicas e colocando o aparato público a seu serviço, com o apoio da mídia. Em Pinheirinho, mesmo, houve alguns policiais que se recusaram, alguns em lágrimas. Me disseram que houve quem dissesse que não havia entrado na polícia pra fazer aquilo. Devem ter sido acusados de insubordinação e penalizados pelas leis militares, acusados de covardia e incompetência pelos colegas, humilhados pela instituição por terem mantido alguma parcela de humanidade. Isso não é permitido. Há que se estudar, descobrir as causas da falha e corrigir, algo na instrução ou nesses indivíduos. 

Como é que não se questiona a instrução, a formação ideológica e as finalidades reais destas instituições? Acho que sei porque. É porque não pode. E não é difícil intuir as razões, basta olhar em volta e ler o que está escrito na realidade à nossa volta. Tudo o que serve aos interesses empresariais funciona bem; tudo o que serve ao povo em geral, funciona mal. E os mais pobres, os que fazem os serviços que ninguém quer mas, se não forem feitos, será o caos, os que pegam no pesado e sustentam a sociedade são os mais maltratados. É conhecida a brutal diferença de comportamento das polícias nas áreas ricas e nas vastidões das áreas pobres. É conhecido o genocídio que acontece na chamada "guerra ao tráfico", mentira que ofende a inteligência, de "ao tráfico" aí, não tem nada. O terrorismo de Estado é o elemento constante nas áreas periféricas, as mais populosas e mais pobres, além da constante ausência em outras áreas como educação, saúde, cultura, saneamento e tudo o mais. Não interessa a cidadania por aí, a gente poderia se dar conta e reivindicar os direitos constitucionais. Imagina, ter que dar garantias de alimentação, educação de nível, moradia, tudo com o dinheiro público que os grandes empresários estão acostumados a dispor, em benefícios, parcerias e contratos gigantescos para obras gigantescas, onde correm rios de dinheiro por fora e por dentro. Nas relações com os poderes públicos, com os ditos "representantes" da população, financiam suas campanhas e enchem seus bolsos para pagar os serviços e facilitações. Tudo regado a champanhe, nas festas de elite e na promiscuidade bilionária com o dinheiro de uma população atirada à barbárie, roubada em direitos básicos constitucionais e explorada, em troca de uma vida angustiada e sem sentido, que passa sem que se perceba e acaba como se não tivesse existido. Uma estrutura política e social perversa. Para manter e defender essa estrutura é que se trabalha no espírito das forças de segurança, é que se formata todo o sistema de segurança. Na contenção de massa - parece que se sabe o que se provoca e se espera reação popular a qualquer momento. Pra isso se preparam há muitas décadas, mais de um século sem dúvida, no controle das instituições, pouco a pouco, e agora a contenção de massa, que as instituições já estão na mão. 

Há muitos Pinheirinhos, há muito tempo, em muitos lugares onde acontece de existir pobres e interesse(s) de rico(s) ao mesmo tempo. O modelo de sociedade que alimentamos com nossos comportamentos, nossos valores, nossos objetivos, nossas reações, nossas mentalidades, é um modelo perverso, centrado no egoísmo extremo, na ambição, na competição permanente, na exploração, na pobreza e na miséria de muitos. O êxodo rural não é uma figura de retórica, é uma tragédia da história nacional que durou muitas décadas. Hoje há muitos êxodos diferentes, não é mais só um tipo. O mundo está cheio de campos de refugiados e populações deslocadas em guerras movidas por interesses econômicos de grandes empresas. Cheio de sem teto e sem terra, cheio de acampamentos e ocupações. Cheio de desempregados, de pobres e miseráveis abandonados pela sociedade. É a guerra dos pouquíssimos mega-empresários nacionais e internacionais (banqueiros e industriais, sempre mega) contra os povos de todo o planeta, onde quer que haja algum interesse, alguma riqueza, algum espólio a ser conquistado. Usando o aparato público, num cenário de política internacional construído e sistematicamente retocado pelas mídias, forjando relações entre países e negócios para as grandes empresas, a diplomacia das chantagens e ameaças e os acordos internacionais realizam os interesses das empresas. A qualquer custo. 

A guerra das empresas contra os povos. Hoje o inimigo se planta na sua sala com o mais lindo dos sorrisos, dizendo que ama você e toda sua família, que a razão da existência dele é a sua felicidade, afaga e conta piadas, enquanto narcotiza, rouba seus direitos e sua consciência, distorce a realidade e esvazia a vida. Molda valores e comportamentos, cria desejos e objetivos, planta ilusões e aproveita pra extorquir o quanto possa, de todas as maneiras. A mídia é o porta-voz, o formador de opinião do sistema, da estrutura social que se baseia na miséria pra concentrar riqueza pra poucos, luxo e miséria como natural e inevitável, merecimento e castigo, nada intencional, nada resolvido, nada planejado - é sempre um deboche com a inteligência média.

A coisa pública tá imersa na privada. É preciso tomar consciência. Eis um novo mandamento: conscientizai-vos uns aos outros. Aprendamos juntos. A consciência é uma arma contra a qual não há defesa, nem ataque capaz de destruir. Idéias não se matam. Solidariedade faz bem à qualidade de vida. Cooperar é melhor que competir. Sentimentos de superioridade inferiorizam, sentimentos de inferioridade paralisam. Humildade gera criatividade e imuniza contra o sentimento de humilhação. Não há superioridade ou inferioridade, mas responsabilidade. Sentir é mais que saber. Quem sabe mais não é melhor, é mais responsável e deve mais à coletividade. Assim como quem sente mais e percebe mais.

Pinheirinho é aqui e agora. É a realidade à minha volta, é a sociedade com a qual não me conformo.



Outras postagens sobre o massacre de Pinheirinho:
http://www.observareabsorver.blogspot.com.br/2012/01/o-massacre-de-pinheirinho-verdade-nao.html
http://www.observareabsorver.blogspot.com.br/2012/01/mudar-por-dentro-pra-mudar-sociedade.html
http://www.observareabsorver.blogspot.com.br/2012/01/complementando-pinheirinho.html
http://www.observareabsorver.blogspot.com.br/2012/02/relato-de-um-defensor-publico-de-sao.html

Texto que recomendo porque me tocou profundamente

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2012/06/18/ostentacao-diante-da-pobreza-deveria-ser-crime-previsto-no-codigo-penal/

Faço minhas as palavras do Sakamoto.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Rio+20, Cúpula dos Povos e Belo Monte, Anúncio de uma Guerra - filme


Estive na Cúpula dos Povos, sábado. Entrei pelo lado do Museu de Arte Moderna, onde vi a Rio+20 compondo com a Cúpula. Estranho, não são opostos?
Circulei entre as barracas, grandes lonas bem montadas, caras, com muitos recursos. Recebi revistas, folhetos, panfletos e até um livro. O material é bom, o papel é caro, produções bem bancadas. Não percebi de onde vem tanto dinheiro, mas brota uma desconfiança. Parecia uma grande feira, com todas as características empresariais. Infiltração? Acho que sim, pelos sinais. Vi algumas palestras, de longe, de passagem. Um senhor negro de cabelos brancos falava a umas duzentas pessoas. Aliás, gritava, indignado, que a polícia entra nas favelas sem respeito nenhum, atirando a esmo, maltratando a todos indiscriminadamente, um crime, um absurdo do Estado contra o povo. Não parei. Até aí, nenhuma novidade, conheço essa realidade dolorosa e cotidiana, há muitos e muitos anos. Outra lona reunia indígenas, caracterizados com suas pinturas, várias etnias e tribos. Denunciavam as matanças, os cercos, as perseguições, os extermínios, constantes desde a chegada dos europeus, hoje um genocídio dirigido aos descendentes, aos remanescentes que, incrivelmente, resistiram, sobreviveram e ainda resistem. Guarani-kaiowá, kaiapó, waimiri-atroari, yanomami e tantos outros povos, destroçados em suas culturas, atacados com fúria pelos ambiciosos empresários que só pensam em lucro a qualquer custo e nem moram naquelas áreas, mantendo verdadeiros exércitos de jagunços, de criminosos sem sentimentos que matam por dinheiro. Nenhuma novidade, há publicações neste blogue a respeito disso. Não parei pra ver. Ali não parece haver iniciativas de ações, apenas denúncias e mais denúncias. Eu esperava muito mais, embora meu senso de realidade me avisasse pra não esperar. Mas a esperança é rebelde, não acata nem o bom senso. Ou mau senso, neste caso.
Soube agora da convocação do Raoni pra quarta-feira, no Riocentro, onde afirmei que não iria, pois é a reunião da oficialidade, dos representantes do estabelecimento, com seguranças e polícias de todos os tipos, com aquele velho espetáculo de figuração de um falso poder, ostentando cargos e posições de mando, ocultando os poderes reais que os bancam e controlam, em nome dos seus interesses em mais dinheiro, mais poder e mais controle, por trás do cenário sujo dos poderes institucionais. Belo Monte de mentiras será, mais uma vez, denunciado. Essa é uma luta que vale a vida de muita gente, de muita cultura, de vários povos, ameaçados pelos interesses das empreiteiras e mineradoras que sustentaram as campanhas do atual governo (como sustentaram as de anteriores), que já não estou chamando de governos, mas sim de gerências, que é o que são. O sistema só pode ter o nome 'democracia' se isso for entendido como a cracia do demo. Os grandes vampiros da humanidade, que destróem tudo o que tocam (ou melhor, mandam tocar), não respeitam nada e vêem todas as populações no caminho dos seus lucros como detritos a serem removidos a qualquer custo, eliminados de qualquer jeito. Gentinha desumana que se esconde atrás dos seus vidros blindados, seus helicópteros, suas bolhas de segurança e pagam pra outros botarem a cara em público, pra defenderem com todos os argumentos as suas mentiras, pra enganarem, pra controlarem, pra reprimirem os que não se conformam.
Recebi esse filme aqui, "Belo Monte, anúncio de uma guerra", vários pontos do filme me fizeram brotar água nos olhos. Denúncia feita, fica o pedido de divulgação, de sensibilização, de esclarecimento, de apoio e engajamento. Belo Monte é um símbolo. Será de luta e preservação da natureza e do ser humano, ou de subjugação dos povos, de genocídio e desumanidade que imperam em nossa civilização.





sábado, 16 de junho de 2012

Dar sentido à vida

Quando ponho meu trabalho na rua, resultado das vivências, das buscas, das opiniões adquiridas, não pretendo mudar o mundo. Olho pro mundo como um ser em mutação constante. Quem sou eu pra tamanha pretensão? Observo apenas... e me sinto parte. O que preciso é colocar minha posição dentro do que me cerca, do que vejo, do que sinto diante do que vejo. Escolher a forma de participar disso tudo. Não gosto do que vejo, não acredito nas interpretações da realidade que me chegam, por isso escolho diferente e me coloco na contra corrente. Não posso me adaptar a uma sociedade que abandona pessoas e ainda as maltrata com seus "serviços públicos" precários, desrespeitosos, seus organismos de repressão, ou "segurança", na língua oficial, seu sistema de verdadeira escravidão no trabalho. Nas fases mais frágeis da vida - a infância e a velhice -, vejo abandono e barbárie na sobrevivência da vida, ausência da sociedade, ausência de nós, que delegamos o poder de decidir a quem se vende.  Há muitas maneiras e eu tive que escolher a minha. E essas maneiras vão se apresentando, as coisas vão se impondo, vão acontecendo, o trampo vai se adaptando a cada situação - ou o contrário também acontece, a situação se adapta à possibilidade do trampo. Cada momento tem suas características. Às vezes me sinto insignificante, dentro de um contexto tão enorme que não posso imaginar, de tão imenso o universo, as galáxias, o espaço infinito e desconhecido. Tenho minha parcela, insignificante no todo, mas que é tudo pra mim. E preciso de um significado, como eu disse aos dezenove anos, ter, sentir um sentido pra vida. Então aponto o nariz e parto na direção de uma sociedade mais igualitária, mais consciente, mais lúcida, mais solidária, mais humana. Com minha vontade, meu trabalho e minha vida. Dentro da minha insignificância, encontro maneira de dar esse sentido à existência. Sinto o antes e o depois, o agora aqui é só uma passagem. O trabalho pode não terminar, ou pode (embora eu não creia), mas é essa lida que dá sentido à vida, seja ela finita ou infinita. Nosso meio é o imediato, é o que tocamos, o que sentimos e o que vivemos - é aí que tá nossa importância, o que há de importante pra nós, o agir cotidiano, o trato de todo dia. Os desejos, os objetivos, as relações com o mundo, aí está o nosso espelho, aí está o que somos. É possível e necessário trabalhar nisso. Daí é que parte o trabalho no mundo. Pelo menos o que tem raízes. É preciso sempre aprofundar as coisas, sentir suas raízes, ao contrário do que somos induzidos. A indução social nos leva à superfície, à forma sem conteúdo, à ignorância, à alienação, ao egoísmo, à vaidade, ao consumismo e ao vazio da alma, do profundo que há em tudo.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A mídia, a Síria e uma outra visão.




Recebido em 13 de junho, denúncia de interferência de guerra na Síria, via midiática, devido ao veto da Rússia e China aos ataques da OTAN:
http://resistir.info/moriente/siria_golpe_iminente.html






Estamos diante de mais uma campanha preparatória para a guerra, com a mídia preparando a opinião pública, em todo o mundo, para a - já anunciada aos quatro ventos - invasão da Síria. Vizinha e aliada do Irã, o mais forte opositor da política internacional ditada por banqueiros e corporações euro-estadunidenses aos seus governos fantoches.


A mídia acusa o governo sírio por ataques e massacres que não param de acontecer, revoltando a opinião pública e preparando o apoio às intenções dos seus patrões e financiadores. Repetem o que fizeram com a Líbia, e dirão que a destruição do país e de toda a sua infra-estrutura foi necessária, foi por uma causa nobre, uma guerra humanitária. Dá pra uma gargalhada sinistra, essa expressão absurda, enquanto passam na mente as imagens de casas explodindo, famílias mutiladas, morte e sofrimento de muitos milhares, por decisão de poucos que nem ali estão, mas têm ali seus interesses nos recursos, nas riquezas e/ou na localização geo-estratégica. 

A Líbia ostentava um Índice de Desenvolvimento Humano maior que o Brasil e o maior da África. Em todos os sentidos. Mas o Kadhafi era uma pedra no sapato desde 79, travava a entrada das mega petroleiras do "Primeiro Mundo" e aplicava o dinheiro, pelo menos grande parte, no próprio país. Encarou bombardeios da OTAN e resistiu, com enorme apoio da população. Os senhores das guerras de saque perceberam que entrar por terra seria a maior roubada, o povo líbio resistiria como um bloco. O líder virou um herói, não só na Líbia, mas em muitos movimentos de resistência ao redor do mundo. Só depois que viu o exército branco barbarizando no Iraque e as empresas ocupando todos os poços de petróleo, Annuar Kadafi deu entrada às mega-petroleiras ocidentais, ainda sob seu controle, com lucros e obrigações definidos em lei. As empresas rosnavam, mas sabiam não haver condições de simplesmente derrubar o cara. Quando ele surpreendeu o mundo apresentando a proposta de criar uma moeda panafricana e quase conseguindo - a diplomacia ocidental teve que rebolar, e rápido. Ameaças, chantagens e barganhas convenceram os governantes que apoiavam a idéia do coronel a voltar atrás, mas os banqueiros não esqueceram a afronta. No ano seguinte explodiram a primavera árabe, Tunísia, Yêmen, Egito - contra o ditador Mubarak  que havia 34 anos tomara o poder (não se falava de ditadura no Egito, a mídia não denuncia ditaduras "amigas"), em nome dos aliados eurostadunidenses que sustentavam seu exército. Aliás, continuam sustentando enquanto Mubarak passa mal na cadeia, tranqüilos com os generais aliados que ocupam o mando no país. Bom, voltando ao assunto, com o pipocar de rebeliões nos países os banqueiros internacionais, aliados às petroleiras, às construtoras e à industria armamentista, entre outras, moveram suas marionetes políticas e focaram suas máquinas midiáticas na criação do clima de guerra necessário aos seus planos. Investiram em armas e treinamento de grupos dissidentes e criaram conflitos internos, causando vítimas para culpar o governo. Suas televisões, seus jornais, rádios e revistas distorceram a realidade. E o país foi inteiramente destruído, sem um plano de reconstrução além dos poços de petróleo que ocupam uma parte do território da Líbia. Grupos de saqueadores, grupos armados, tribos se enfrentam em qualquer parte, grande parte da população apoiava Kadafi, agora a perseguição, o extermínio, a vingança come solta e a mídia não fala nada. 

Aliás, fala sim, prepara outro cenário de guerra, desta vez contra a Síria. E é a mídia em peso e a mais pesada. A todo momento os jornais falam nos "massacres do governo sírio contra seu povo", da mesma forma que falavam de Kadafi. As pessoas falam na rua como o governo sírio deve cair, o trabalho de convencimento é de cair o queixo, funciona geral. Mas comigo não, violão. 

Eu sou escaldado demais com essa mídia privada, repetidamente mentirosa, flagrada tantas vezes em mentiras criminosas. Não precisa ir longe pra conseguir a extensa relação, fora as mentiras cotidianas em jornais, "informativos", entretenimentos, publicidades e sub-liminares em novelas e programas. É de dar nojo tanta desumanidade em defesa do sofrimento e da miséria para enorme parte da sociedade e do luxo, da opulência e do desperdício das celebridades e dos seus patrões, pouquíssima gente servida pela (e dependente da) maioria. Aí, no México http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/06/televisa-manipula-eleicoes-no-mexico.html,   na Argentina - http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/06/direita-bate-panelas-na-argentina.html  e no Brasil - http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/06/inflacao-despenca-cade-os-urubologos.html, só pra três exemplos recentes, pra degustar depois do almoço. Mas a batata deles tá assando, cada vez se desmoralizam mais, cada vez mais e mais gente se toca, é o processo de despertamento, na parte do desgaste da mídia vigente.


Não canso de me espantar com gente relativamente instruída acreditar que está informada por assistir os jornais da mídia comercial. Chegará o tempo em que só os de mau caráter sustentarão o que diz a mídia comercial, hoje grande e forte, mas que mostra o caminho que trilha, rumo ao descrédito. Não dá pra servir ao lucro e à verdade. São óleo e água.

A Síria é mais um genocídio planejado pela ambição do predomínio. E nós, de boiada, assistindo e aprovando, estupidificados pelo sistema. 

Esse texto me foi passado pelo blog Somos Todos Palestinos, escrito por um jornalista independente russo, Marat Musin, e traduzido para o português de Portugal, pelo que me parece. É só clicar aí em "mais informações".

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Invasão Policial À Moradia de Estudantes da Unila


A UNILA é uma universidade para a integração dos povos latinoamericanos. A união entre os povos explorados da América Latina não interessa aos poderes dominantes, acostumados a explorar, roubar o patrimônio público, a produzir a miséria e a ignorância, sabotando o investimento dos Estados na educação pública e dominando as comunicações, produzindo alienação, consumismo, desinformação, narcotizando as consciências.

O ataque das forças de segurança pública revolta, mas não surpreende. Por trás desse ataque, há o pensamento condicionado de criminalização de tudo o que defende, reivindica ou conscientiza as populações. A ideologia deformada das ditaduras e das elites é representada e posta em prática pelas polícias e forças armadas, a mando último dos poderes econômicos concentrados em mãos de poucos, sempre atacando com fúria os mais pobres, sob qualquer pretexto - ou sem nenhum. Há o pavor do despertamento na consciência coletiva, processo em curso atualmente e cada vez mais acelerado, apesar dos esforços da mídia e das ações da chamada "segurança pública", que ainda não fez por merecer o próprio nome.

Todo o apoio à UNILA e aos seus pioneiros alunos, parte de uma proposta linda e lúcida onde somos todos irmãos e podemos nos unir contra o saque e o predomínio constante da minoria mais rica, que controla as intituições e os Estados, com seus grandes bancos e empresas multinacionais. Os problemas dos países da América Latina são os mesmos ou muito parecidos. Vêm todos da mesma fonte, a mentalidade colonizadora da elite mundial e a mentalidade colonizada das elites locais. Estas últimas, como os cães em matilha, mostram os dentes pra dentro e abanam o rabo pra fora, pros seus patrões internacionais, a quem entregam as riquezas, os recursos e o próprio povo dos seus países.

Trocar as experiências vividas, compartilhar as soluções e apoiarmo-nos entre todos é fundamental para a mudança estrutural que precisamos para chegarmos a uma forma de sociedade mais humana e solidária, onde não se admita o abandono de pessoas, onde não se aceite a pobreza e a miséria como inevitáveis nem o privilégio como superioridade.


"A América Latina não se encontra dividida por ser subdesenvolvida mas, sim, permanece subdesenvolvida porque está dividida."
                                                                                                            Jorge Abelardo Ramos


http://quebradadoguevara.blogspot.com.br/

terça-feira, 5 de junho de 2012

Não quero ser "feliz"



       

         A voz se fazia ouvir no avião pra Juazeiro do Norte. Repetia, quero ser feliz, tenho o direito de ser feliz, insistia na afirmação idiota. Fui ficando impaciente, deu vontade de interferir, perguntar que felicidade era aquela. Prudentemente, puxei meu caderno e minha caneta e passei a refletir por escrito o que causaria, provavelmente, mal estar, constrangimento e, talvez, alguma grosseria.
         Impõe-se a necessidade de ser feliz. “Todo mundo” corre atrás da felicidade, até leis consagram o direito à felicidade ou a busca permanente dessa condição. Eu olho em volta e pergunto, como assim? Vejo crianças, velhos, homens, mulheres em estado de barbárie, de miséria, comendo lixo, ao desabrigo, abandonados da sociedade. Como posso pensar em ser feliz no meio disso? Esquecer? Não quero e não dá.
         Não pretendo a felicidade do egoísmo, da ignorância, da ingenuidade, da maldade ou da indiferença. Pra mim, felicidade é uma sociedade sem vítimas, sem famintos, sem ignorância, sem desabrigados, sem exploração e com igualdade de direitos e oportunidades. Impossível imaginar a felicidade em sua forma plena. Nem me interessa.
         Satisfação, encontro no trabalho por uma sociedade melhorzinha, inconformado com essa falcatrua generalizada, essa ditadura econômica de poucos que mandam, gerenciada por falsos governantes e travestida com um cenário democracilóide, que se desmancha ao olhar mais atento, ao primeiro golpe de consciência. Luxos de um lado pra poucos, agonia no meio, pobreza e miséria pra grande maioria. E predomínio privado sobre o público.
         Eu tive e teria vergonha de usufruir dos privilégios da riqueza num mundo tão cheio de miséria. Ainda que houvesse um só miserável, abandonado pela sociedade, e toda riqueza seria vergonhosa. Ter orgulho de luxos apenas demonstra pequeneza de espírito. Os anestésicos de consciência, do tipo “sempre foi assim”, “não se pode fazer nada” e outros não funcionam comigo. Não posso olhar pro outro lado e fingir que não tenho nada com isso, porque tenho, sim. Azar meu, dirão alguns. E eu penso que é sorte. Preserva minha humanidade. Os mais superficiais verão nisso a apologia da infelicidade. Vão de um extremo ao outro sem enxergar as infinitas nuances, as inúmeras variações e combinações de sentimentos.
         Há momentos em que a tristeza é necessária, outros em que a alegria é fundamental. Situações que impõem a necessidade da calma, ou que a raiva nos impulsiona ao que precisa ser feito. Momentos de ternura, sentimentos de acolhimento, ou de repulsa, de compreensão ou de intolerância. O medo pode nos fazer cuidadosos, evitando riscos desnecessários, ou pode nos acovardar e nos impedir – ou impelir – ações que vão resultar, muitas vezes, em conflitos de consciência e vergonha.
         São tantos e tantos sentimentos – variando em significados, causas e conseqüências –, infinitas possibilidades de combinações entre eles, que a própria expressão ou a intenção de “ser feliz” toma um aspecto pobre, superficial e primário. Uma pretensão infantil e egoísta, cega à realidade de sermos todos o mesmo grupo, todos a mesma imensa família humana e responsáveis uns pelos outros, assumindo isso ou não, consciente ou inconscientemente.
         Não sinto atração por felicidade, não pretendo ser feliz enquanto tantos sofrem. Muitos tipos de felicidade nesse mundo torto chegam a depender da infelicidade de outros. A mim basta a satisfação de viver descontente com a estrutura social que me cerca e dedicar meu trabalho – e minha vida – à contra-corrente dos valores vigentes. Ao levantamento de reflexões ligadas à prática cotidiana, que é o que faz a realidade. Ao questionamento dos valores implantados, dos comportamentos induzidos que nos levam ao sofrimento inútil e ao evidente desequilíbrio social, entre o luxo pouco e a miséria geral.
           Acredito que o principal trabalho é interno, precisa começar dentro de cada um. Assim, meu trabalho maior é dentro de mim mesmo, metabolizando, corrigindo, atentando, refletindo, aprendendo. O trabalho externo, os desenhos, as pinturas, pelo menos a maior parte dele, é extravasamento do trabalho interno, é a exposição do que rola dentro, resultado de reflexões, de vivências, de escolha de temas, conforme a mim parece necessário, possível e assimilável. Quando vejo pessoas refletindo com base no meu trabalho, eis aí minha "felicidade", apenas participar do processo e ter esse sentido na vida. Felicidade maior é pra um mundo melhor e, se não o temos, devemos construí-lo. Sempre a partir de nós mesmos, reconhecendo erros, mudando atitudes, observando a si mesmo, desejando melhorar, sempre. Absurda a idéia de que não muda, é muita miopia, não se consegue olhar ao longe. Está tudo em mudança, até os minerais. Com o tempo, emanamos as mudanças que fizemos em nós mesmos. Aí podemos servir ao mundo, com humildade e sendo a mudança, antes de tudo.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.