Gostaria de poder avisar a todos. Talvez não seja possível. Desde ontem, 8 de julho de 2011, meu acesso à minha parte da net tá vedado. Endereço, blogues, iutube, orcute e o escambau, a senha é recusada e nada resolve. Já tentei várias formas, apesar de semi-analfa internético, alguns amigos tentaram ajudar, sem arrumar nada. Ainda vêm outros, mais feras na coisa, mas já tô contando com o pior – e se estiver errado, melhor. Milhares de comunicações, perto de mil endereços, boletins de notícias, informações, idéias, arquivos preciosos, tudo sem acesso. Eu tava recebendo coisa de 50 imeios por dia, e o endereço continua no cabeçário do blogue, que tá pelos 1900 verificadores (melhor que “seguidores”), como falar com todos, sem acesso ao blogue? Na minha precária relação com essas tecnologias, me conformo com minha sorte e espero o acaso, pois tenho muito mais o que fazer. Fiz o que pude e abri a situação aos ventos. Os que se propuseram a ajudar virão conforme suas condições permitam, pois será um favor, já que não posso pagar.
Posso tomar como um sinal, do destino, da vida, sei lá, um sinal. Faz tempo que sinto necessidade de me dedicar ao trabalho imediato, os desenhos, as frases, os textos, enfim, os papéis que ponho a circular pelo mundo que me cerca, me toca, material e espiritual. Afinal, é o que me põe em contato direto com minha matéria-prima e o destino do meu trabalho, as relações com pessoas, acontecimentos, pensamentos, comportamentos, com o mundo, em uma troca impossível pela internet, pois tocar corpo e alma juntos só é possível no contato direto. A net já deu embalo suficiente.
A primeira entrevista, em novembro de 2009, fez aparecer o blogue e deu muito o que fazer, lançou minhas palavras no ar, causando reflexões, questionamentos, reações, da mesma forma que faço no cotidiano, há tantos anos, observando a sociedade e as suas relações, refletindo e colocando no meu trabalho. Calçadas, praças, eventos, feiras, assembléias sindicais, movimentos de contestação social, em todo lugar onde se concentrem pessoas de índole reflexiva, na luta por melhoras na vida em sociedade.
Meu pensamento foi projetado longe, brotaram contatos, muitos, até ao exagero. Contatos mais distantes geraram chamados a palestras, a ser ouvido por coletividades reunidas, experiência nova e bastante interessante. Tenho a impressão de encontrar um número muito maior de exceções do que antigamente, as exceções eram raríssimas na multidão e chamavam muito mais a atenção. Sentados num auditório, não se distingue tão facilmente os que pensam por si e os que repetem os pensamentos planejados e impostos pelas empresas de comunicação. É o que me parece, uma estratégia de infiltração imperceptível, as exceções são quem tem condição pra mudar a estrutura da sociedade, tornando-a mais humana e não permitindo situações de miséria e ignorância. Mas voltando ao assunto, o outro lado desse alcance inesperado é o tratamento de superioridade que recebo em algumas circunstâncias. Muito difícil a resistência a olhares que atribuem um patamar superior ao pensar, à visão de mundo, confundindo a vivência com o ser.
Se as experiências privilegiadas que pude viver deram base a formação da minha visão de mundo, através de muita observação, reflexão e vivência – para enxergar o que hoje acho óbvio –, o resultado é maior responsabilidade diante do grupo, do coletivo, da humanidade, e não ilusões de superioridades e sabedorias, em vaidade primária, um primitivismo de consciência, um obstáculo à evolução. Mas é preciso estar atento, o sentimento de superioridade é insinuante, adaptável, facilmente “justificável”, além de extremamente estimulado em nossa sociedade de consumo e competição, com infinitas variações, do grotesco ao quase imperceptível, da arrogância grosseira à benevolência atenciosa.
Com a restrição da net, por “casualidade”, volto a me concentrar no trabalho material, a produção de desenhos, frases e textos. Nesse processo, devo circular mais pelo mundo e viver mais a realidade cotidiana da convivência urbana, no bairro, na metrópole, na região, no país. Saio da net pra cair no mundo, conforme as oportunidades forem se apresentando, os trabalhos que eu for fazendo. Perdoem os que ficarem sem resposta. O Claudemir Firmino, que pagou antes de mandar seu endereço, apesar de eu insistir pra ele fazer o contrário, na certa vai pensar que foi lesado. Na última comunicação, eu disse a ele, “não adianta nada pagar, se você não mandar o endereço”. Depois disso, não tive mais acesso. O gemeio entranhou a senha e me limou. O endereço tá lá, com certeza. A camisa vai estar pronta, Claudemir, agora é esperar a hora. Nem dá pra devolver a grana. Inda bem que não é muita.
A vida deu muita volta nesse pouco tempo de internet. Inevitável reconhecer, no aumento de visibilidade, um crescimento no respeito e na consideração por parte de pessoas de tendência reflexiva, um elemento novo com quem já estava habituado ao desrespeito cotidiano do preconceito e do aparato de segurança, por extensão de todo o serviço público. Uma demonstração de reconhecimento ao esforço de enxergar razões de ser, na vida, mais plenas que as que são oferecidas – patrimônios, privilégios, posições sociais, consumos, confortos –, formação que não chega ao fim, que permanece em mutação constante. Somos o mesmo grupo, uma humanidade, dentro de um universo mal conhecido, em constante evolução, e essa idéia começa a sair do campo da abstração e vindo à realidade. Cada vez mais pessoas percebem o todo ao qual pertencem e começam a questionar seus valores implantados. Pouco a pouco, os comportamentos vão mudando, nenhum processo dá pulo, a não ser em hecatombes naturais.
O que faço em pinturas, desenhos, frases, textos ou qualquer outra coisa reflete apenas minha vivência e visão de mundo, minha posição diante da sociedade que me cerca, por todos os lados. Não há mérito, há função, sem o que minha vida perderia o sentido – a minha, bem entendido, sem cobranças a outros. Preciso da satisfação interna em cumprir, mal e mal, o que considero minha obrigação dentro da coletividade, no todo planetário. Microscópico, insignificante, mas a minha parte do processo.
Parece que devo mudar a direção do foco. Certamente formarei outra bagagem, uma nova vivência. Que será filtrada em mim e direcionada ao mundo. Como tenho feito, há muitos anos.
Eduardo Marinho 1 1 de julho de 2011 – data da finalização do texto






