quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Porto do Açu, mais um empreendimento com X

A OSX está construindo o porto e todo o complexo industrial no norte do Estado do Rio. Desde o princípio, tem sido uma pressão miliciana sobre os moradores. Há tempos venho acompanhando o processo, semelhante a inúmeros outros pelo país e pelo mundo. É evidente o que significa a expressão globalização, chamada por Milton Santos de "globaritarismo", pelo extremo autoritarismo sobre a imensa maioria das populações. Eike Batista, o dono da empresa, é filho de Eliezer Batista, que foi ministro das minas e energia durante a ditadura, e fez fortuna entregando o mapa das minas para mineradoras internacionais, mega empresas exploradoras do mundo todo.

O método é velho conhecido. Os megaultrahipermultinacionais fazem cúmplices do saque as elites locais, com privilégios, poder e riquezas, em troca. Elites econômicas, patrimoniais, políticas e, quando possível, raciais, cuja função é trair miseravelmente as populações, entregando as riquezas e as milhões de vidas à exploração.



Mais uma evidência da guerra das empresas contra os povos. As empresas dependem dos servidores diretamente, e da mentalidade alienada, consumista, competitiva, superficial, preconceituosa, egoísta, indiferente ao sofrimento alheio, que foi implantada no modo de vida da gente, de forma gradativa e implacável, com o papel principal da mídia alienante que induz valores e comportamentos, além de distorcer a realidade e de fazer tudo pra que não se enxergue o que realmente acontece.

Foram naturalizados os maiores absurdos, a desumanidade é a regra geral. No entanto, a humanidade permanece em nossos corações. Os que a ignoram sofrem as conseqüências, interna e externamente, em angústias "inexplicáveis", em desamor, em desafeto, em peso na alma, em escuridão espiritual. Os carrascos constróem seu próprio inferno, espalhando infernos pelo mundo.

É preciso enxergar a realidade como ela é. Humildade não é sinônimo de pobreza, falta de conhecimento escolar não é falta de sabedoria, falta de formação não é falta de personalidade. A humildade, a vivência, a sabedoria dos que fazem a base da sociedade humana deveria ser matéria de academia. Deveria quebrar pedestais e criar solidariedade real na formação de uma sociedade onde existam todos por todos e onde os representantes representem a coletividade, e não os interesses empresariais perversos e egoístas. Quando o empresário diz que dá empregos, ele mente. Ele precisa dos empregados para explorar, atropelando leis trabalhistas, leis penais e até a constituição federal. E precisa da miséria para chantagear os empregados, a fim de que aceitem sem reclamar toda a situação horrível que é imposta, hoje, pelas empresas aos trabalhadores.

O porto do açu é mais uma demonstração do poder econômico sobre a sociedade, dispondo de vidas como quem trata de lixo. Mais uma batalha nessa guerra onde as empresas tomaram o poder político, legislativo e judiciário. Todo apoio aos lutadores que não se conformam com isso.



http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=RA9h2AKGlSc

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Tradução da Miséria - documentário

Em Santa Cruz do Sul, onde estive falando na UNISC, fui abordado por Joe Nunes, com um grupo de "contra-correntistas"*, falando sobre a voz inaudível da parte de baixo da sociedade, que a sustenta sob o desprezo dos poderes e dos preconceitos de grande parte das pessoas. Eles me presentearam com um documentário chamado "A Tradução da Miséria", que mostra exclusivamente a voz e as opiniões dos catadores de material reciclado, capaz de surpreender os preconceituosos que mantêm um resquício de boa-fé e isenção. Os empedernidos, esses não têm condições de assimilar nem respeitar nada que não lhes sirva à própria conveniência, à sua visão distorcida e egoísta da realidade. Aqueles que conseguem ter alguma sensibilidade social, nesta sociedade embrutecedora, hão de se emocionar e surpreender com a clareza que esses "desprezados" têm, em sua visão de mundo. Acho que, olhando de baixo, a sociedade se mostra mais sinceramente do que na visão de cima, dos pedestais acadêmicos ou de classes médias abastadas. Ninguém finge ser bom pra mendigo, para os pobres a cara vampiresca da sociedade se mostra sem máscara. Fiz um estágio de alguns meses na mendicância e sei muito bem do que estou falando. Mendicância esta que revisitei várias vezes ao longo do meu percurso pela vida, inclusive com filhos, dormindo sobre papelão e sob marquises, em casas abandonadas, construções, ruínas, e todo tipo de improviso.


Os entrevistados do filme mostram sua lucidez comovente, desenvolvida nas adversidades da vida rueira e das relações com a sociedade. Gilmar fala com propriedade - que, para alguns, pode ser espantosa - sobre a tendência ao julgamento sumário e despropositado, condenando os mais pobres por sua própria tragédia sem perceber ou procurar saber das causas na produção de miséria em nossa sociedade. Acusam o "pau-dágua", sem questionar sua decepção com a sociedade, seus sonhos sabotados de inclusão, sua dor em viver na miséria e na marginalidade, desprezado por um Estado criminoso, tomado por interesses empresariais, sobretudo financeiro-industriais, que não cumpre os artigos mais importantes da sua própria constituição - assim mesmo, com minúsculas, porque só se cumprem os artigos que favorecem os interesses dos mais ricos e não garante, como deveria, alimentação decente, moradia digna e ensino de qualidade, só pra ficar nesses três. É uma constituição estuprada e prostituída a serviço das elites egoístas, perversas, covardes e desumanas, em sua arrogância e seu apego a privilégios que roubam os direitos da maioria.


Tugira revela parte dessa perversidade, quando relata que os comerciantes, donos de supermercados e restaurantes, enchiam os sacos de lixo com restos de comida - onde os sabotados iam buscar seu alimento - de detergente, pra impedir o proveito pelos miseráveis. Perversidade velha conhecida, e que não surtiu efeito, como nada surte efeito contra a atitude dos famintos que não têm outra fonte de alimentos além do lixo. Então passaram a encher de creolina, também sem efeito. Os famintos comiam com creolina e tudo, o que levou o prefeito à bizarra afirmação de que assim os miseráveis "não tinham vermes". Tugira foi à assembléia legislativa denunciar o fato e pegou tão mal sua aparição inesperada e sua denúncia constrangedora que a própria câmara recomendou aos comerciantes parar com essa desumanidade. Então esses abastados, em seu ódio contra as vítimas da sociedade, começaram a guardar o lixo por dias, para que deteriorasse até ficar impossível de comer. Em vão. Eles não conhecem a miséria. E a mim, parece que se borram de medo, daí sua agressividade e seu ódio implacável contra quem não lhes faz nenhum mal. Devem considerar que sim, fazem, apenas por se acercar do lixo que seus estabelecimentos descartam, nas horas mortas da noite.


Elisa relata sua experiência como funcionária de uma empresa, em condições tão enlouquecedora que viver de catar material reciclável se revelou bem mais saudável, tranqüilo e rentável. No emprego, passou fome, não tinha dinheiro pra comprar comida nem pros filhos, enquanto como catadora nunca lhe faltou o que comer. Uma indicação do que reserva o famigerado "mercado de trabalho" a quem não teve a oportunidade de estudar e se qualificar numa escola decente. É a angústia de milhões de vidas submetidas a esse sistema paranóico, da qual a catação livrou Elisa, que vive em paz da sua maneira.


O Movimento Nacional dos Catadores estima em um milhão o número de catadores no Brasil, cuja atividade recolhe apenas 13% dos 90 milhões de toneladas de lixo por ano. Só com essa fração são movimentados 12 bilhões de reais por ano. Isso explica a entrada de empresários na atividade, de olho nos lucros. Em São Paulo, vitrine nacional do preconceito, catadores foram expulsos, queimados, sabotados por essas empresas que, na busca de lucro e em seu desprezo pelo ser humano, fazem de tudo pra "eliminar a concorrência", o último recurso dos miseráveis urbanos, antes de se conformarem com a morte da alma e, por inanição, do corpo. A miséria é, a meu ver, a vergonha maior de uma sociedade, tenha ela olhos fechados ou abertos. Não ver a realidade não a elimina, nem a modifica. Apenas revela a vitória, até agora, do mau-caráter dos poderes que se proclamam, falsamente, públicos. A miséria material é conseqüência de outra e mais profunda miséria. A miséria da alma, a miséria moral.


Um belo trabalho de Joe Nunes e sua turma de ativistas. O documentário se inscreve entre os imprescindíveis para a formação de consciência social e humana. Na minha opinião, é claro, que ninguém precisa considerar, embora alguém possa.

* Aqueles raros que vão contra a corrente predominante. Raros, mas contagiantes e cada vez mais numerosos.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Fogo nas Favelas de São Paulo




Em todas as cidades os mais pobres são obrigados a flutuar para as periferias, à medida em que as cidades vão crescendo e "se desenvolvendo". Remoções, expulsões, pressões de todos os tipos, ameaças, coações, os mais pobres são tratados a cacete, quando estão no caminho dos poderosos, da especulação imobiliária, da indústria do turismo, do lucro de qualquer tipo.

No Rio de Janeiro, a pretexto do projeto "Porto Maravilha", virou rotina a sinistra incursão noturna das forças públicas nas ocupações da região, onde famílias desabrigadas ocuparam, ao longo de décadas, os prédios abandonados pelo poder público e por grandes empresários, que se dedicavam à exploração do desenvolvimento da zona oeste, Barra da Tijuca, São Conrado, Recreio dos Bandeirantes... onde há um enorme e triste histórico de remoções. Agora os olhos cobiçosos se voltam para o centro "histórico" e seu potencial turístico e cultural. Milhares de famílias atiradas à própria sorte, algumas poucas com ridículas indenizações ou absurdas instalações feitas de qualquer maneira, lá longe, apenas pra sair na mídia como prova de que o poder público estava cumprindo o seu papel. A área portuária só pôde conservar sua arquitetura por causa do desinteresse, do abandono a que foi relegada essa região da cidade, enquanto se explorava o "potencial imobiliário" das valorizadas terras do litoral oeste. Se sua cobiça estivesse no centro, certamente não haveria mais nada a preservar - a consciência cultural, histórica, social e humana dessas pessoas está em seus bolsos, em suas contas bancárias, em seu patrimônio e seu poder sobre as instituições públicas.

Em São Paulo, nos últimos governos, foi aberta a temporada caça aos pobres. Desabrigados do centro foram obrigados a sumir de vista, debaixo de pancadas, prisões, jatos de água no frio do inverno. As remoções de comunidades pobres evoluíram até a sucessão de incêndios nas favelas. Foram 79, no ano passado. Este ano, já se contam 32. Ontem, no bairro Campo Belo, a favela do Piolho queimou. Foram trezentas casas, mais de mil pessoas desabrigadas. O bairro é valorizado, pertinho do aeroporto de Congonhas. Um fenômeno paulistano, essa freqüência de incêndios em favelas. Paulistano e contemporâneo. Claro, já houve incêndios em comunidades pobres, alguns não criminosos, acidentes de verdade. Mas a seqüência de São Paulo me dá conta da segurança esquizofrênica da promiscuidade público-privada, tratando descaradamente a população como mercadoria, como gado ou como entulho.





No blog do Miro, Altamiro Borges faz dez perguntas sobre os incêndios nas favelas, muito bem colocadas.  http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/09/incendios-em-favelas-dez-perguntas.html

São Paulo ilustra o massacre promovido pelos poderes "privado-públicos" em cima das populações mais pobres, extensas massas humanas, por todo o planeta, com algumas poucas exceções. Onde existe resistência, como em vários países da América Latina, há mudanças, devidamente escondidas ou deformadas pela mídia comercial - em combate frontal a qualquer sociedade onde empresas não controlem os governos, mentindo, difamando, debochando, caluniando, desinformando, plantando alienação e criminalizando qualquer movimento de esclarecimento, conscientização e defesa da maioria das populações.


A existência da pobreza, da miséria, da ignorância, do abandono deixa claro o nível da sociedade em que vivemos e faz das suas pompas e solenidades ridículos rituais sem conteúdo, encenações de falsas superioridades e honrarias sem significado. Títulos e graduações são responsabilidades sociais, mas são vistos pelos medíocres de espírito como fator de superioridade pessoal. E assim aplicados na vida prática, construindo, consentindo e colaborando com essa estrutura social injusta, perversa, covarde, ecocida, genocida e suicida.

Quem trabalha em sua própria consciência, conscientiza o mundo. Quem quer, ou diz querer conscientizar, sem começar por si próprio, só atrapalha e desacredita o processo de conscientização.

Eduardo Marinho.

Complementado em 28 de setembro

Em 27 de setembro, Carta Maior divulga a CPI dos incêndios nas comunidades pobres de São Paulo, formada por parlamentares financiados por grandes empresas do setor imobiliário. É um deboche. Os incêndios que favorecem a especulação imobiliária serão investigados por "representantes públicos" que, na prática, são funcionários informais dos próprios interesses da especulação imobiliária. Aliás, a esmagadora maioria dos parlamentares brasileiros é financiada em suas campanhas por grandes empresas que, logicamente, condicionam suas gordas contribuições à defesa dos seus interesses em lucros, mesmo (e geralmente) em prejuízo da maioria, dos mais pobres, da população, incluindo as classes médias.

Quem quiser ler o artigo, clique abaixo.


sábado, 1 de setembro de 2012

Mais um crime de estado contra a população pobre

(Postagem acrescentada do desdobramento, depois da ação criminosa do Estado, que concretizou os temores das vítimas. O manifesto pouco adiantou - como nada adianta com essa "gerência" elitista e sem caráter, egoísta e desumana. Em 10 de setembro de 2012)  

Devia haver um blogue dedicado a enumerar os crimes de Estado contra a população mais pobre, pelo menos os grandes, que são demais, em toda parte. Os menores, como espancamento por policiais, achaque no trânsito, extorsão miúda, expulsões de famílias mais pobres de áreas de interesse econômico, agressões a varejo, ataques a manifestações de todo tipo, esses não dá, são numerosos demais e muito poucos são registrados. Os maiores já dariam trabalho demais.

Aqui um manifesto que me pediram pra divulgar, quem estiver por perto e puder fazer alguma coisa, qualquer coisa, pode crer que nesta situação, tudo é necessário e útil. Fazer alguma coisa não é uma caridade soberba e benevolente, é o privilégio e o prazer de exercer um dever moral, social e humano. Não só cobertas, alimentos, agasalhos e medicamentos, mas idéias, informações, sentimentos, trocas outras, entre seres humanos que se apóiam e se respeitam.

Não resisti a dar uma pinceladinha aqui, outra ali, no texto da carta aberta. Espero que a rapaziada não se aborreça, o conteúdo foi mantido intacto e as pinceladinhas foram insignificantes.

Abraços a todos,
                            Eduardo.

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Quem puder colaborar levando algum alimento ou roupa no Carnificina Fest 7 ajudará muito! Confiram a carta aberta aberta que os moradores passaram para nós:

CARTA ABERTA - FAMÍLIAS DA OCUPAÇÃO IPIRANGA VÃO PARA RUA:


Que tristeza.


O Judiciário ordena que as forças 
armadas joguem na rua famílias moradoras de duas ocupações no centro de São Paulo. E os governantes assistindo de camarote a violação dos direitos de crianças, adultos e idosos.


São 217 famílias na Av. Ipiranga, 908 - prédio abandonado por mais de 5 anos, e na Av. São João, 578/588 - prédio abandonado há mais de 15 anos, ocupados pelas famílias hoje ali residentes. Todos esses pais e mães de família já estão trabalhando e têm os filhos nas escolas das imediações.

Serão obrigados pela força a desocupar os prédios, totalmente fora da lei. Eles não cumprem a função social. Seu pretenso proprietário não exerce o domínio definido pelo Código Civil. Desrespeita o meio ambiente e mesmo assim, vergonhosamente, o Judiciário e demais autoridades favorecem o fora da lei.

Por outro lado, o direito elementar de moradia - das crianças, dos idosos, mulheres, trabalhadores que constroem esta cidade, com o seu suor - está sendo violentamente desrespeitado. Não se respeita os princípios elementares do nome "Estado Democrático de Direito" para garantir a dignidade da pessoa humana, a proteção da criança, o direito à casa e às conquistas da civilização moderna. E joga-se ao relento as famílias para atender os interesses do mais rico, à revelia da lei e da Constituição.

Não aceitamos esses desmandos ilegais. Precisamos restabelecer a ordem de respeito às pessoas. Queremos continuar morando onde estamos. Caso contrário vamos nos acomodar no meio da rua.

COORDENADORES:

Osmar Silva Borges - 11 9 8302-8197
Maria do Planalto - 11 9 5203-9797
Antônia Nascimento - 11 9 8272-5648


Do blog Carnificyco - 
http://carnificyco.blogspot.com.br/



 

Para manter família unida, sem-teto preferem calçada aos albergues em SP

Após reintegração de posse de edifício abandonado no centro de São Paulo, famílias se mudam para a calçada em frente à Secretaria Municipal de Habitação. Segundo Maria do Planalto, uma das coordenadoras do acampamento, opção dada pela prefeitura seria ida a albergues, onde famílias, muitas com crianças, seriam separadas. Em entrevista, ela cobra soluções do poder público.

São Paulo – Desde o início do ano, pelo menos 14 reintegrações de posse de edifícios ocupados por famílias sem-teto foram realizadas na cidade de São Paulo. Entre as mais recentes, na última semana de agosto, está a desocupação de um prédio abandonado no número 908 da avenida Ipiranga, na região central.

Depois de serem desalojadas após dez meses no local, as famílias decidiram acampar em frente à Secretaria Municipal de Habitação. Isso ocorreu, explica Maria do Planalto, uma das coordenadoras da ocupação, porque a única opção oferecida pela prefeitura foi levar os sem-teto a albergues, onde só existe pernoite e as famílias, muitas com crianças, não permaneceriam unidas.

“É onde ficam os moradores de rua. Onde só existe o pernoite. A gente chegaria à noite, mas às 6 horas da manhã teria que sair com os filhos, passar o dia na rua e voltar para dormir. Além do que homens iriam pra uns, e mulheres iriam pra outros”, disse ela. O caso permanece sem solução.

A Carta Maior entrou em contato com a prefeitura, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem. Uma das opções apresentadas por Maria do Planalto trata-se de um projeto de moradia no bairro de Guaianazes.

A assessoria da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), que poderia responder sobre o assunto, não tinha informações sobre as negociações relativas ao terreno. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Carta Maior Em que circunstâncias se deu a reintegração de posse da ocupação Ipiranga?
Maria do Planalto – Aconteceu em 28 de agosto. Um dia antes, tivemos uma reunião com a prefeitura e ela nos deu duas alternativas: ou albergue, ou a calçada. Aí nós ficamos com a calçada. Os caminhões levaram nossas roupas, alimentos. Nós viemos para cá com a cara e a coragem, e algumas coisas que a gente conseguiu pegar para ficar aqui. Mas eles levaram para o galpão que fica longe, e para trazer as coisas de volta tem que pagar. Como a gente não tem dinheiro, estamos pegando caixote na rua. Nós viemos sem alimento, sem roupa. Tem uma menina aqui que está com a roupa do corpo, ela toma banho e coloca a mesma roupa. Estamos numa situação precária, então, se alguém puder ajudar com alguma roupa, leite para as crianças, copo descartável, a gente agradece muito. Na hora da reintegração, a própria polícia deu quatro horas a mais, aguardando alguma solução. Mas a prefeitura não mandou assistente social, não mandou nada. Os soldados da PM foram mais humanos do que o próprio poder público.

CM Quais são as condições do alojamento oferecido pela prefeitura?
MP – Se eles tivessem nos oferecido um alojamento, seria uma coisa. Nossa mudança iria toda para um mesmo lugar. Mas não, eles nos ofereceram albergue ou calçada.

CM O que são exatamente os albergues?
MP – É onde ficam os moradores de rua. Onde só existe o pernoite. A gente chegaria à noite, mas às 6 horas da manhã teria que sair com os filhos, passar o dia na rua e voltar para dormir. Além do que homens iriam pra uns, e mulheres iriam pra outros. A prefeitura, no dia 27, deixou bem claro que não tinha verba. Então nós falamos: não cumpra a reintegração, nos deem mais tempo. Mas não, só tivemos duas opções.

CM Vocês estão sendo assistidos juridicamente?
MP – A defensoria conseguiu a liminar do alojamento, mas a prefeitura não cumpriu, não obedeceu a liminar. Ou seja, teria a reintegração caso houvesse o alojamento, só que a prefeitura não cumpriu. A liminar não foi nem sequer derrubada, tanto que aqui, na calçada, está valendo. Como eles não deram alojamento, eles não podem nos tirar daqui.

CM E como está o dia-a-dia das pessoas no acampamento?
MP – O pessoal trabalha. As crianças estudam aqui na Estação da Luz. Estão indo na escola com a roupinha que tem. Se der para tomar banho, toma, se não der, vai assim mesmo, porque não pode perder a aula, né?

CM Vocês tem alguma reivindicação específica? O que vocês estão pleiteando junto a prefeitura neste momento?
MP – Ou que oferecesse o alojamento, para que as famílias pudessem sair dessa situação, ou então que a CDHU desse autorização para começar nosso projeto em Guaianazes. São 640 unidades que as famílias já negociaram em 2008.

CM Você poderia falar mais sobre esse projeto?
MP – A primeira reintegração enfrentada por essas famílias ocorreu no dia 23 de novembro de 2008, lá na comunidade em que elas moravam, no Alto Alegre. De lá pra cá, foram feitos cinco acordos, só que nenhum dos três níveis de governo os cumpriu. Em 11 de agosto, lá na CDHU, nos foi oferecido um terreno em Guaianazes onde cabem as 640 famílias do Alto Alegre. Neste terreno, já existe a opção de compra e venda, mas falta a CDHU autorizar que a Caixa Econômica Federal comece o projeto. O problema é fácil resolver, falta ter vontade política e política pública para famílias de baixa renda.


Fotos: Trecho de foto de Renata Bessi (rbessi@yahoo.com.br)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Caem mais máscaras mundiais. Quantos se darão conta?

Julian Assange, antigo hacker (é assim mesmo que escreve?) australiano e criador do Wikileaks (saite que publicou e publica informações de bastidores dos poderes mundiais, revelando farsas e intenções ocultas, crimes contra a humanidade a perder de vista) é acusado de não usar camisinha em duas relações, contra a vontade das mulheres. Elas estavam a sós com ele, cada uma em sua própria casa e, claro, em ocasiões diferentes. Não tinham testemunhas, ele negou, disse que houve consentimento, também sem provas. O processo foi adiante.

Suécia pede a extradição de Julian. O Reino Unido cerca a embaixada onde ele pediu asilo, prevendo a intenção de vingança dos que se viram revelados em seus crimes contra a humanidade - e que estão nos poderes do mundo, comandando máquinas de guerra em genocídios generalizados em várias regiões do planeta. O cara tinha ido pra Suécia porque seu país é subordinado demais ao império corporativo, assistindo daí o que estavam (e estão) fazendo com o primeiro fornecedor de informações-denúncia, como veremos abaixo, e percebendo o cerco se armando à sua volta, quando começaram as denúncias de "delitos sexuais". Mudou pra Grã-Bretanha, tentando se precaver contra a vingança insana da besta-fera.

(O "conselho de segurança" da ONU - Organização das Nações Unidas - é comandado pelos cinco países que são os maiores fabricantes de armas do mundo. Algo mais tragicamente bizarro?)

A "diplomacia" britânica ameaça invadir a embaixada do Equador, uma atitude estranhíssima do ponto de vista das leis internacionais. Essa movimentação, sob o pretexto de um "crime" risível e sem base diante da lógica mais primária, mostra o desprezo pela inteligência de todo mundo e a segurança em que se sentem os controladores dos aparatos públicos, bancos internacionais, fabricantes de armamentos e vários etc. O Equador concede o asilo e o impasse tá armado. Lembro que Pinochet estava em Londres e foi pedida sua extradição pela Espanha. Ele era acusado de crimes a dar com o pau, de assassinatos de espanhóis - o motivo do pedido - à tortura e morte de milhares e milhares de chilenos e pessoas de outras nacionalidade, de formar com a operação condor e inúmeros etc. Um gracioso asilo foi concedido a Pinochet, afinal suas empresas lucraram bastante no Chile - um dos maiores produtores de cobre no mundo, entre outras coisas.

Há pouco tempo atrás, era quase impossível tomar conhecimento de informações dos bastidores, só se obtinham informações filtradas pela mídia comercial, dominante total das comunicações a ponto de indicar ministros abertamente. Agora mais e mais pessoas tomam conhecimento da realidade por trás dos panos das políticas públicas mundiais, regionais e locais, formas de controle da política por elites na mesma seqüência. E óbvio, dos orçamentos, dos dinheiros públicos - restando, à maioria, migalhas. O Wikileaks foi um tremendo alavancador dessa onda de informações, numa situação de predomínio geral das mídias privadas, do controle das comunicações, entre outros, no sentido de manter a desinformação, a alienação, a superficialização das mentalidades. Desvia-se a atenção, deforma-se a realidade, atiram-se todos contra todos, justifiicam-se as injustiças, culpa-se as vítimas dessa estrutura desumana. Incompetência, desinteresse, preguiça, mau caráter são expressões comuns. O caminho a ser trilhado, penso eu - ou um dos caminhos, vá lá - está no documentário da postagem anterior.

Esta postagem foi motivada pela foto abaixo, tirada dois dias depois do alegado crime e publicada em jornal, onde a vítima sorri no mesmo grupo com Assange, em confraternização amiga. O artigo diz que poderia ser usada pela defesa do cara. Como assim, poderia? Se for verdadeira, e parece que é, a foto esculacha com as acusações, prova intenções outras e armação clara. Com o histórico do Wikileaks, cujos maiores alvos foram as forças de segurança e a diplomacia das corporações mundiais instaladas sobre os governos do "primeiro mundo", os pretextos são ridículos, contos de fadas, conversa fiada.

 
O jornal The Mail on Sunday republicou a foto, explicando que borraram a cara da acusadora "por motivos de segurança". Imagino que seja alguma segurança jurídica, já que vi fotos dela e da outra acusadora em várias publicações, na época das denúncia.


A perseguição ao criador do site que mais revela as secretas e criminosas manobras de controle e interferência mundial, em todos os sentidos, era uma certeza matemática. O soldado Bradley Manning, primeiro liberador de informações sigilosas em massa pro Wikileaks, continua em isolamento, seu advogado acusa o Estado de o estar enlouquecendo, sob tortura psicológica e sem a assistência devida por lei, nem médica, nem jurídica, nem familiar, até onde eu soube, com direito a um único banho de sol de uma hora por semana - sabe-se lá o que pode estar sendo feito a esse rapaz, à mercê do ódio dos criminosos contra seus delatores. Ele era um cara no princípio da juventude, acreditava na imagem fabricada do seu país, o protetor da paz mundial, a maior democracia do mundo, missionário da civilização, e foi colocado por suas especializações, em contato com os arquivos das guerras do Iraque e Afganistão, ambos ocupados pelo exército da democracia estadunidense. Deve ter ficado estarrecido. Imagino o sentimento de traição, a frustração, a revolta de ser enganado toda a vida até ali e a necessidade de fazer alguma coisa. Denunciou não o seu país, mas a corja que o dominou ou servia aos poderes dos que o dominava. Deve ter pensado que tudo mudaria se todo mundo soubesse. E o sistema se armou pra impedir. A mídia nada diz a respeito, ou diz o que for inofensivo ao controle das comunicações. Mas embora não mude como (imagino) esperava o Manning, deu um valioso impulso na divulgação das informações mais próximas da realidade, tornando o mundo mais compreensível e, portanto, mais possível de mudar. A partir de mudanças individuais, daí ao coletivo, permanentemente, persistentemente. Uma peste benigna e altamente contaminante.

O mais importante nisso tudo é que se perceba a vida manipulada que se leva. Perceber quanto dos nossos valores, nossas opiniões, nossos objetivos e comportamentos são conduzidos pelas estratégias midiáticas, publicitárias, novelescas, a serviço de uma estrutura formadora essencialmente de privilégios e poderes para poucos em detrimento dos direitos da grande maioria. Os que percebem precisam trabalhar em si para trabalhar o mundo, mudar em si para mudar o mundo, espalhar geral, esclarecer o mais que se possa, sem agressividade nem com os confrontadores. O confronto é instrumento do sistema, ele está sempre disposto ao confronto, até porque no confronto as razões desaparecem, vira tumulto, briga, insultos, embates pessoais inúteis e nocivos. Com serenidade, ou se desarma o agressor, ou se elimina a relação. Não se planta sementes no deserto, é preciso reconhecer as terras férteis. Quando se houver semeado o suficiente nas coletividades, os negadores vão de arrasto ou são atropelados.



Os poderes públicos precisam ser pulverizados.

Experiências diversas em diversos lugares, participação direta na administração dos orçamentos é a seta que  aponta o caminho a seguir, na direção da justiça social, do fim desses abismos sociais - vergonhosos a qualquer um com um pingo de humanidade e senso de coletividade. Sensibilizar, esclarecer, conscientizar, sem arrogância, é um trabalho a ser feito com amor, com coração e ação, com coragem. O trabalho sempre começa dentro, em nossas próprias falhas. Só no reconhecimento das próprias fraquezas é que se trata os enganos e falhas alheios com humildade de irmão. O trabalho fica mais fácil de se fazer, a recepção é parte importante do processo, senão a principal. Os indivíduos fazem as coletividades. E as coletividades fazem os indivíduos. É preciso pulverizar todo o sistema social, tornar os largos, as praças, as quadras, as associações, os centros culturais em locais de conversas, debates e assembléias pra tomar decisões. Trazer à tona informações verdadeiras, investir na construção de uma educação que faça por merecer o nome, num sistema de saúde que atenda a todos, sem exceções, de graça, com remédios a preço de custo e de graça pra quem não puder pagar. Educação e saúde, não se privatiza. Empresas priorizam lucros, não vidas, disso temos exemplos a perder de vista, toda hora, em toda parte. Remoções, massacres, expulsões de povos originários, grilagem, saques mineiros, extrações poluentes, mortes, doenças, venenos agrícolas, venenos nas indústrias de alimentos, temos tristes estatísticas não divulgadas porque, afinal, os meios de comunicação também são... empresas. No entanto, a sabotagem do sistema de ensino público, controle do privado, em combinação com a influência quase irresistível da mídia, mantém a maior parte da população longe de tomar consciência da realidade e do próprio poder de interferir nela, perdida entre desejos de consumos e ostentações, emoções transferidas pra novelas, pancadarias, futricas e futebóis. Penso que é uma estratégia calculada e muito bem armada. E que é preciso caminhar na direção contrária. Creio estarem crescendo, pouco a pouco, movimentos neste sentido. A conscientização será a base desta construção pra que todos, ou quase todos, decidirão o que fazer na administração pública. Ainda é longo o caminho, o objetivo do momento é caminhar.

O filme tem 16 partes, diversificadas em lugares e acontecimentos, mas sempre experiências coletivas de participação nas tomadas de decisão do poder público. Não consegui achar completo. Mas é essencial demais pra não ser divulgado. Assisti assim e deu tudo certo.


sábado, 25 de agosto de 2012

Mais um crime contra pobres.


Repetitivo, isso. 


As provas de que as políticas públicas são planejadas por grandes empresários financiadores de campanhas são fartas e constantes. Não entendo a dificuldade geral de ver a realidade sem levar em conta a sabotagem e cooptação da chamada "educação" - fundamental, média e superior - em combinação com o controle das comunicações. Na parte que nos toca a todos - e na base de sustentação desse sistema - é o nosso comportamento, nossos valores, nossos objetivos de vida, nossa maneira de ver o mundo e de nos relacionarmos entre todos, fortemente influenciado pelas mentiras que nos envolvem e nos angustiam a vida.

Abaixo vemos mais uma demonstração do que é o sistema, que os governos sucessivos de São Paulo vêm oferecendo numa alucinada seqüência de ataques às comunidades e coletividades vítimas dos crimes de Estado contra a própria constituição. Vergonhosa sociedade, sinal de loucura ou covardia é se ajustar a ela. 

Abraços,
              Eduardo.



Carta aberta dos movimentos de moradia

Contra o Substitutivo ao Projeto de Lei 509/2011!!!

Contra o uso da Moradia Popular para liberar a verticalização para setores de maior renda


Está em tramitação na Câmara um Projeto de Lei (PL) que estabelece o Plano Municipal de Habitação (PMH) para a cidade de São Paulo, o PL 509/2011. É um importante instrumento de política pública que deve apresentar propostas de superação de nossa dívida social com a maioria da população que vive em precárias condições de moradia e de qualidade urbana.

No entanto, há um Substitutivo enviado pelo prefeito Kassab e que conta com o apoio de sua base de vereadores. Usam a Habitação Social para mais uma vez deixar nossa cidade à mercê dos especuladores imobiliários. Não somente dificultam o acesso à moradia digna para a população mais necessitada (de 0 a 3 saláríos mínimos), como pioram a condição de vida urbana de todos, com mais enchentes, congestionamentos, longas horas em um ineficiente transporte público, com a ocupação de áreas de proteção ambiental.

Mais uma vez fazem um ataque frontal às importantes conquistas de nossa sociedade na luta pela reforma urbana para uma cidade justa e democrática. Tentaram passar alterações semelhantes, na Revisão do Plano Diretor Estratégico de 2002 e em outros projetos da cidade, sempre com o objetivo de liberar os estoques construtivos para a verticalização para os de maior renda.

O PL será votado no dia 22 de agosto de 2012 às 15 horas!

Manifestem-se em suas redes contra esta farsa!!!

Venham cobrar seus vereadores! Manifestem-se nas próximas eleições!!!

1) O que parece ser: Moradia popular e para classe média (com renda de 0 a 11 mil reais) saem do cálculo do estoque construtivo de uma região.

O que está por trás: Mais área a ser construída pelo mercado, que prefere atender famílias de rendas mais altas, sem se preocupar com a capacidade da cidade em suportar este aumento.

2) O que parece ser: Diminuem as áreas para atendimento de famílias que recebem de 0 a 4 mil reais e aumentam as áreas para quem recebe de 4 mil a 11 mil reais.

O que está por trás: Aumento da produção de unidades sem minimizar o déficit habitacional. Permite mais negócios imobiliários, mas ampliando o número de unidades vazias e mais caras.

3) O que parece ser: Libera a possibilidade de construir mais alto em ruas com menos de 10 metros de largura.

O que está por trás: Piora na insolação e ventilação das moradias e aumenta os congestionamentos.

4) O que parece ser: Amplia a construção de moradia popular em áreas de proteção ambiental (ZEPAMs), rurais (ZEPAGs) e industriais (ZPIs).

O que está por trás: Não há garantia de atendimento de famílias de renda de 0 a 4 mil reais, piora e coloca em risco vidas e a já precária condição de sustentabilidade ambiental urbana, sem planejamento e sem efetivo controle social.

5) O que parece ser: O desrespeito às regras de tombamento implicará em desapropriação, com indenização no valor de uma moradia popular. O terreno passa a receber os mesmos usos de seu entorno.

O que está por trás: Mudança no zoneamento com aumento do potencial construtivo de um terreno antes com grandes limitações urbanísticas.

6) O que parece ser: Quem não construir moradia popular em Zonas Especiais de Interesse Social receberá multa com base no valor venal. Tal recurso é destinado para o Fundurb.

O que está por trás: Quem não obedece a lei é premiado, pois a partir daí pode dar outros usos para outras faixas de rendaque. Isto sem qualquer controle social sobre a mudança de uso. 

Em repúdio, subscrevem as entidades abaixo:

Associação Amoaluz, Assampalba, Casa da Cidade, Garmic, Central de Movimentos Populares, Centro Gaspar Garcia, Frente de Luta por Moradia, Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico-IBDU, Instituto Polis, LabCidade e LabHab FAU-USP, Mover Lapa, Mov.de Moradia do Centro, Mov. de Moradia para Todos, Mov.de Moradores da Água Branca, Mov. Defenda São Paulo, Mov. SOS Pq Água Branca, Mov. Nacional da População de Rua-SP, Saju-USP, União dos Movimentos de Moradia-SP.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

La Educación Prohibida - Película Completa HD


Este documentário demonstra a origem e as intenções da forma de educação imposta de cima pra baixo, padronizada sem levar em conta as características individuais de cada pessoa. Ao contrário, o que me parece claro é o processo de massacre às diferenças, a transformação da coletividade em gado humano, conduzido nos pensamentos, nos valores, nos comportamentos - sempre no padrão consumista, que pressupõe valor pessoal na capacidade adquirida ou herdada de consumo e patrimônio. É a lei do mais forte atualizada em nosso tempo, em nossa realidade social. O forte é o rico, o fraco é o pobre. Os mais ricos entre os ricos - pouquíssimos - impõem sua vontade aos gerentes sociais - governos, legislaturas, instituições... - e são os verdadeiros determinantes da estrutura social em que vivemos, uma estrutura baseada em mentiras, distorções e falcatruas nos bastidores do teatro de marionetes apresentado sob o título "democracia". O ponto fraco é que somos nós, a maioria, quem constrói, mantém e sustenta toda a estrutura. É preciso, é vital pros dominantes, entorpecer as consciências, reafirmar as mentiras cotidianas tempo integral, controlar a deseducação, direcionando-a para o "mercado", manter a ânsia de consumo com o massacre publicitário, desqualificar qualquer iniciativa de questionamento, esclarecimento, conscientização, enfim, de humanização. O centro da sociedade é a economia, quando deveria ser a humanidade, o ser humano - a "felicidade humana", como disse Pepe Mujica, na cúpula do rio+20 (em minúsculas, mesmo).

As iniciativas aqui expostas são ainda isoladas, mas demonstram bem as possibilidades infinitas do ensino sem tirania, do ensino amigo, cooperador, onde a índole de cada um é determinante na sua educação. O sistema de falsa democracia não estimula tais iniciativas. Aos dominantes vampiros da humanidade não interessa uma educação criadora de independência, que desenvolve a capacidade crítica, de onde saem seres humanos com vontade e disposição de serem úteis à sua coletividade e não competidores para o mercado de trabalho, condicionados a valores que só interessam aos patrões, alta competitividade e conhecimentos que gerem lucros, capacidade destrutiva sem consciência, quando interessar às empresas.

Já se vislumbram os caninos dos vampiros. Aos poucos se percebe os dentes cravados no pescoço do Estado e das coletividades. A história se acumula. E os vazamentos de informações, antes raríssimos e facilmente obstruídos, aumentam cada vez mais. Qualquer um pode acessar as informações hediondas do genocídio social, dos saques, dos ataques às coletividades que dão o azar de estar no caminho dos interesses dos poderosos.

Quando as marionetes em campanha falam em "melhorar a educação" eu me pergunto como se pode melhorar algo que não existe? É preciso criar a educação e acabar com o que se chama descaradamente de "sistema de ensino" sem dó. Professor e médico, só passando por testes vocacionais, só adorando sua profissão. Senão são apenas vendedores de mentiras e correntes. Um enorme perigo para a sociedade.

O foco do filme é claro. O amor na base de tudo. Simples assim. Com amor verdadeiro, todas as intenções são boas, toda opinião é humilde, todo prazer é o bem geral.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Amanhã, em Porto Alegre

Exposição na rua Lima e Silva, Porto Alegre.
Saio de casa de madrugada, por volta das cinco horas. Pode parecer exagero, considerando que o avião sai às nove e seis. Mas vou a pé, zerado de grana. Até a barca vou ter que desenrolar de alguma forma. No aeroporto não gasto nada, nem que tivesse, pois os preços são um deboche da minha cara. Não tomo nem café, a não ser quando tem uma tiazinha vendendo do lado de fora. Mas amanhã, nem isso.

Chegando em Porto às 11:12, devo caminhar a avenida Farrapos até o centro. Planejo expor na rua Lima e Silva, na mesma parede que está na foto - expus algumas noites ali, de dia ainda não, mas é a necessidade que faz o sapo pular. Duro, fico ali expondo pra sair da dureza. Imagino levar um bom tempo na caminhada, sem ter dormido à noite. Estou preparando as coisas pra levar, desenhos, livrinhos, ainda tenho que escolher as roupas, deve estar bem frio no sul, ou existe a possibilidade. De mochila, carregando papéis, sem ter dormido, na certa estarei em marcha lenta. E comer, só depois que vender - se vender. Não é nenhum drama, apenas uma pequena braba. Já houve bem piores. Bueno, eu era bem mais novo, claro. Mas vou na resistência. Ruim de tudo, encosto no balcão da padaria - paga um salgado aí, moço. Retribuo com alguma arte minha, seja livrinho ou desenho pequeno, se não houver recusa. Não é uma troca justa, mas nestas circunstâncias o justo fica de lado, resolver a situação fica mais importante. Uma peça vai pro sacrifício e vale a pena.

Se alguém tá interessado em algum desenho ou livrinho da Faisamão, amanhã é o dia da salvação. De todo jeito, vou expor no sábado e domingo, talvez segunda e terça também. Depois, vou a Santa Cruz do Sul e a Criciúma, tratar de palestrar, além de expor também, claro.

Até amanhã, Porto Alegre. Até já, Fabio, Mariana, Marcelo e rapaziada de lá.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Projeto Porto "Maravilha" - crime contra a população mais pobre. Nenhuma novidade.

Mais uma vez a gerência das grandes empresas e associações empresariais (conhecida como governo, como se o sistema fosse democrático) ataca os mais pobres em nome dos lucros dessa minoriazinha safada que controla suas marionetes político-jurídico-legislativas. O projeto chamado "porto maravilha", encabeçado por uma prefeitura eleita com financiamento de campanha de construtoras, imobiliárias e grupos empresariais, vem sendo realizado nas madrugadas. Ataques das forças de segurança às ocupações de prédios por desabrigados, em remoções violentas de famílias, idosos, crianças, deficientes, vítimas da violação pelo Estado da sua própria constituição por vidas inteiras, vêm sendo sistematicamente realizados. Na calada da noite, como assaltantes brutais, o "poder público" evita repercussões. A presença de jornalistas é proibida e algum incauto fotógrafo que se apresente na área, no momento do crime contra a população, corre risco de agressão, prisão e perda das suas ferramentas de trabalho, câmeras, filmes, gravadores...

No caso da Providência, é óbvia a intenção de reduzi-la a 30%, expulsando 70% dos seus moradores não interessa pra onde. Assim como é óbvio que um poder público com um mínimo de legitimidade submeteria qualquer interferência aos moradores da área, convocando assembléias gerais e submetendo a votação simples todas as decisões.

A área portuária ficou décadas esquecida dos empresários da construção e imobiliários, enquanto eles se ocupavam da zona oeste, Barra da Tijuca e cercanias, de grande e constante valorização. Daí as centenas de prédios abandonados na área do tal projeto. Ainda hoje se sente o abandono ancestral, quando se circula por essas áreas, entre a Francisco Bicalho e a praça Mauá, num sentido, e das docas à Presidente Vargas, noutro. Uma enorme área que precisa ser "revitalizada" - o que significa varrer os pobres, investir na infraestrutura e entregar a empresários para exploração, primeiro imobiliária e, depois, turística. Os mais pobres são riscados dos planos, devem ficar apenas o suficiente pros serviços de base que se farão necessários para o funcionamento posterior desse plano perverso. Casas de show, boates, restaurantes, hotéis precisarão de faxineiros, camareiras, cozinheiros, garagistas, seguranças, garçons... Ao que parece, 30% dos moradores basta. O resto, fora! Fodam-se, sumam da área, não interessa pra onde.

O real poder se revela, a cada instante, nas intenções que vazam pelas frestas das mentiras deslavadas, cada vez mais. É preciso estar muito entorpecido pra não perceber a natureza da estrutura social em que estamos e que nos rege. A mídia é muito eficiente na narcose da consciência coletiva, aliada à sabotagem educacional que desarma de senso crítico suas vítimas. Mas o número de inconformados que já não se deixa enganar tão facilmente cresce, os vazamentos não se estancam, ao contrário, aumentam em tamanho e número. O processo de despertamento está em curso, sob responsabilidade dos que estão despertando, aos poucos, e acordando pras mentiras que nos governam as vidas.





Acrescentado à postagem, em 15 de agosto

No documentário Distopia 21, é mencionado o medo ancestral da revolta dos escravos, hoje atualizado no medo de levantes dos pobres e miseráveis, excluídos do e explorados pelo sistema social vigente. Os exploradores e as classes médias, em sua maioria ideologicamente cooptados pelo controle da educação e das comunicações pelos economicamente mais poderosos -citados na mídia como "exemplos" de cidadão - temem uma revolta violenta porque eles mesmo seriam mortalmente violentos se fossem tratados da maneira com que fazem tratar a maioria. Por isso, temem a vingança da parte de baixo da sociedade, da qual dependem inteiramente, embora façam parecer o contrário. A idéia é de que se a favela descesse pro asfalto seria o caos, a barbárie. Ora, as periferias caminham para o centro (incluindo os bairros ricos) todos os dias, sem o que esses locais não funcionariam. Seria o caos se isso não acontecesse. No dia em que os pobres não saírem de casa, das periferias e favelas onde vivem, nada funciona, pára tudo, transportes, fábricas, construções, hospitais, escolas, empresas e mesmo as residências que dependem de pobres nas cozinhas, nas portarias, nos balcões, linhas de montagem, pra limpar, carregar as caixas, descarregar caminhões, conduzir, abrir as lojas, fazer funcionar a sociedade como um todo. Mesmo as forças ditas "de segurança" parariam nesse dia.

O trabalho de conscientização não pode se restringir aos movimentos sociais, sempre minoritários, aos partidos e organizações, acadêmicas ou não, que só alcançam minorias mais esclarecidas. É preciso trabalhar no dia a dia, em todos os lugares, nos ônibus, nas filas, na rua, nas comunidades, nos bailes, nos papos de boteco (ou birosca), nas escolas, em toda parte. Revolucionários que só atuam com seus companheiros de movimento, que desqualificam os que não lhes compartilham as idéias, se fecham em pequenos grupos e fazem "ações" que não mobilizam além de algumas dezenas em barulhentas manifestações que insultam as marionetes do real poder, mas não agregam consciência mais que buscam doutrinar de acordo com sua cartilha, não são revolucionários de verdade e ainda desmoralizam a idéia de revolução - afinal, servindo ao sistema, colaborando na construção de um cenário fajuto de "democracia". O conservadorismo os aponta dizendo "eles podem falar assim porque isso aqui é uma democracia". Clara mentira, propagada com sucesso pelo porta-voz da contemporânea barbárie, a mídia. A esses falsos revolucionários é permitido falar, gritar, insultar e provocar a polícia e a política porque, além de colaborar com a montagem da farsa, não têm capacidade de mobilização real, não falam a língua da maioria, são guetos pretensiosos que acreditam estar prontos pra conduzir as massas. Em sua cegueira, sua soberba e lacre mental, só conseguiriam conduzir massas se fossem entregar pizzas. Um pouquinho de humildade ajudaria enormemente. Esbarramos, aí, na natureza humana. Se não trabalhamos internamente, o trabalho externo, com a coletividade, se torna um simulacro, uma ilusão. É o que temos visto.

E depois essas divindades ideológicas culpam o próprio povo, por desinteresse, por "não se esforçar"- ignorando completamente o esforço hercúleo da sobrevivência sem condições decentes, sabotado em instrução, em informação e em cidadania. Não percebem sua própria incompetência em falar a língua da maioria, se expressam em academês ou politiquês - ver "Dicionário de Politiquês", de Vito Giannotti e Sérgio Domingues - e morrem de medo de favela, onde só entram escoltados por moradores já devidamente "catequizados" em seus "cursos de formação política", eufemismo pra doutrinação e subalternização ideológica.

                                                     Distopia 021


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ilusões plantadas


Estamos engatinhando na superação das ilusões, na busca de valores reais. No momento a engrenagem social - seqüestrada pelos interesses econômicos de uma casta mínima de mega-empresários, apoderados dos poderes políticos, das máquinas estatais, com o controle das mídias - impõe valores, comportamentos e faz de tudo pra manter a superioridade da forma sobre o conteúdo. Um dos trabalhos de libertação, senão o principal, é aprender a pensar por si mesmo, sentir por si mesmo, independente dessas pressões absurdas e predominantes. São nossos valores, objetivos e comportamentos o que sustenta esse sistema perverso, essa sociedade injusta. Porque não são nossos de verdade, mas implantados de todas as formas imagináveis e inimagináveis. Precisamos criar nossos próprios valores. Ou recriar. Mudar nosso comportamento, nossa maneira de viver. Não é fácil a princípio, mas depois que se começa, impossível parar sem o sentimento de rendição. A frustração é predominante nessa vida sem sentido que nos é imposta. E os paliativos não satisfazem aos que buscam algum sentido na vida. A recomendação, sob ameaça, é óbvia - acomode-se ou sofra. Submeter-se é jogar a vida no lixo e, talvez, só se tocar tarde demais. Compor com o caminho da frustração é impossível, é preciso mentir muito pra si mesmo pra acreditar em tanta mentira. Que venha a discriminação.

Na recusa do aprender, a dor se faz mestra.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Imerso em Tristeza

Morreu o bluseiro. Queda um enorme vazio. Nessa hora muitas tristezas vêm à tona.

Meu filho não me conhece e me detesta. Fanatizado numa religião precária cheia de hipocrisia, condenou meu cabelo "ripe". Perguntei a ele se Jesus tinha cabelo ripe e ele disse que não, Jesus tinha cabelos longos e ondulados. A mãe dele o convenceu de que fui uma fonte de sofrimentos pra ela. E ele disse que acredita nela até a morte. Até o nome dele foi trocado. Ainda me lembro da risada dela, fomos felizes enquanto moramos em minha casa, que eu considerava nossa, como considerei que o apartamento de Copacabana fosse nosso, até ela me enxotar do apartamento "dela". Só então entendi a mudança de comportamento, depois que entramos nesse diabo desse apartamento, onde eu não quis ir, mas cedi pra não me sentir egoísta. Eu queria ter ficado em Mauá. Ela diz que ele foi fruto de um "erro". Lembro de que tipo de gente ela se cercava, só pilantra, drogado, vampiro, mau-caráter. Sumiram todos, quando ela fechou comigo. Se aquilo foi um erro, o que seria dela se continuasse no caminho em que estava? Passei noções de caráter e de engajamento na vida, partilhei minhas idéias e meus sentimentos, ela embarcou na minha canoa pobre de grana, mas rica de sentimentos, de pensamentos, de coerências, de trabalho. Ainda ecoa na memória uma de suas frases finais - "eu quero mesmo é regalia". E eu me tornei um merda, na sua visão. Lembro do orelhão em que eu estava, ouvindo suas acusações, quando me informou que estava mudando pro Ceará com meu filho neném. Implorei pra que não fizesse isso, mas ela estava implacável. Avisou numa quarta e foi embora no sábado. Quando desliguei o telefone, escorreguei pela haste do orelhão, até deitar no chão, em pranto convulsivo, e ali fiquei não sei quanto tempo. Era tarde da noite, a rua vazia, passou alguém que se aproximou, não lembro se homem ou mulher, me levantou delicadamente e me deu um abraço em silêncio, um longo e profundo abraço que acalmou meu desespero. E pude ir pra casa, com minha tristeza mais calma. No dia seguinte ainda fui levar o carro numa transportadora, pra ela. Meu amor mais intenso desmoronou assim, arrebentando o peito. Poucos anos depois ela trouxe o menino pra me ver, ou usou isso de pretexto pra se reaproximar, não sei, sei apenas que ainda a amava profundamente, apesar de tudo, inclusive de já estar convivendo com outra mulher - que pensei amar, mas hoje vejo que o que sentia era uma espécie de gratidão, por ela aparecer e se aproximar quando eu me sentia jogado no lixo, feio, triste, amargo. Em seu orgulho, ela não usou as chaves que abririam de novo as portas pra ela. Sua intenção foi um único e breve olhar não assumido. Se ela tivesse declarado arrependimento, pedido desculpas ou dito simplesmente "eu te amo", eu teria desmoronado e percebido a fraca base do meu novo casamento, e tudo teria tomado outro rumo. Eu não poderia tomar a iniciativa, enxotado como fui da sua vida. É mentira que eu lhe tenha causado tanto sofrimento. Minha pobreza material, que é o que ela alega, esteve sempre em exposição e ela entrou na minha vida sabendo de tudo. Quem não sabia de nada era eu. Agora ela se apega a Jesus, mas não se apega à verdade. Não é uma contradição? No último contato com meu filho, tentei dizer a ele que a visão a meu respeito estava distorcida, mas ele me mandou tomar vergonha na cara. Dispensado pela mãe, dispensado pelo filho. Me custa compreender a hostilidade dessas pessoas comigo, pois nunca fiz nada de mal a eles. Acho que é porque sou como eles desprezam - pobre de grana. E não conheço meu lugar, porque não me sinto inferiorizado, olho nos olhos e, se não me superiorizo, tampouco me inferiorizo. Afinal, pior é a pobreza de espírito, a pobreza de caráter, a pobreza de sentimentos. Gostaria que ela descesse do seu pedestal de vidro e me tratasse da mesma forma que eu a trataria, com respeito, consideração, sem raivas inúteis e nocivas. Mas acho que ela não consegue, é preciso me desprezar. Não guardo sentimentos ruins a seu respeito, este é um momento especialmente triste pra mim, por isso afloram essas mágoas momentâneas. Sei que passa logo. Gostaria que ela acordasse, mas me parece que ela prefere continuar dormindo, enquanto a vida passa.

Meu grande amigo foi morar no extremo sul. Deixou um vazio difícil de preencher. Às vezes parece que vejo sua silhueta subindo a rua, às vezes parece que escuto seu grito quando estou na bicicleta.

Não consigo mais me apaixonar. Será que peguei uma doença crônica e nunca mais? Essa é a sensação. Meu amor anda atolado na descrença, na convicção da impermanência. Que ninguém me venha com lógicas e explicações, sigo o caminho e espero os fatos que virão. Mais uma vez, torço pra estar enganado, coisa nada rara.

A miséria, o sofrimento, a mentira, a inconsciência campeiam à minha volta. Meus irmãos abandonados, meus pais e filhos comendo lixo e apanhando da polícia, a parte rica da família indiferente à barbárie, usufruindo de privilégios que consideram seu direito e que roubam os direitos à maior parte da família humana, em sua soberba idiota e desumana. Os hospitais que atendem à população são infernos para pacientes e trabalhadores, as escolas de medicina constróem divindades receitadoras de remédios e atravessadoras de procedimentos médico-industriais. O egoísmo é estimulado ao extremo e a culpa do sofrimento é dos sofredores, a justa punição da incompetência fabricada pela estrutura social. Culpa-se a vítima. É a sociedade da mentira, da maldade, do egoísmo, da indiferença com o sofrimento das multidões. As cadeias, superlotadas, são casas da vingança mais covarde e bruta, são cursos de perversidade e desumanização, catalizando demônios aos magotes. A sociedade, aprisionada e aprisionante, parece não andar pra lugar nenhum, ou caminha na direção do abismo.

No escuro, tateio em busca de luz. Pretendo acender, pretendo encontrar, mas onde está? O sentimento de impotência paralisa e dói. Acendo minha alma, mas parece não adiantar nada. Tenho também muitas escuridões. Depois de trinta anos, aparece aquela pergunta que fiz aos dezenove - o que estou fazendo aqui? Pra que serve isso tudo? Merda de mundo, merda de sociedade, merda de vida.

Porra, momento, passa logo duma vez. Preciso trabalhar, preciso continuar, preciso lutar.

Que difícil está respirar...

Celso Blues Boy foi embora.

Morreu ontem, de manhã, em Floripa. Eu o conheci em Itaperuna, nos idos de 82, quando eu era um bicho solto, sem morada nem destino, circulando a esmo pelos territórios, tomando avidamente a vida, em todos os lugares, seguindo a direção que apontava o meu nariz. O acaso me levou a Itaperuna, saído de Carangola, passando por Faria Lemos, Tombos, Porciúncula e Natividade, entre Minas e o norte do estado do Rio. Cheguei à noite, vi o movimento, o palco e ouvi a música. Ganhei um segurança na idéia e entrei de graça - dei a ele um par de brincos. E me encantei com aquele bluseiro cantando na minha língua, de forma tão bonita. Muito sentimento, muita entrega naquele som. A bebida era de graça, a maconha rolava solta, um clima de paz contagiante, circulei de grupo em grupo, acolhido com carinho em todos, sem nenhuma rejeição, sem nenhuma reserva. Depois das apresentações, bêbado, dormi embaixo do palco, num frio danado, coberto com álcool. Acordei com um sol enviesado na minha cara, ainda ouvindo a novidade daquelas músicas que eu não conhecia, querendo guardar sem saber como, sem saber que já estava guardada em minha memória e em meu coração.

Senti uma ligação forte com aquele cara que eu não conhecia, como se o conhecesse há muito tempo e estivesse reencontrando um irmão mais velho. Amor antigo, de outras vidas, de outros cantos. Era um trabalho de coração e o meu se irmanou com a alma do som. O cara emanava amor. Era a contraposição à decadência do rock, pasteurizado pela transformação em mercadoria promovida pela sede de lucros dos empresários. Eles estragam tudo com ganância, transformam em merda tudo o que tocam. Mas Celso seguia intocável na sua linha, um dinossauro de resistência ao impacto destruidor do mercado maldito.

Partiu mais um companheiro e eu me sinto só, triste, no deserto em meio às multidões. Vai parceiro, segue teu caminho, agora além da matéria física. Há coisas que não se pode entender, é preciso respeitar pra não entrar em crise. Amei muito tua passagem. Tava no direito de não querer tratamento, mas se eu pudesse teria te dito - precisava ir tão cedo? Neste momento sinto um enorme vazio no peito, lágrimas quentes me descem na cara, uma saudade inexplicável, pois não convivemos nada e, pra mim, tua música era tu mesmo.

Se eu pudesse, pediria pra se demorar um pouco mais. Sinto enormemente a sua falta, parceiro.

"As coisas são assim
pra quê se lamentar
se dentro de nós
sempre brilhará..."





http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=HgPsE_WVjTs

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.