quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Darcy Ribeiro, o brasileiro.

Darcy Ribeiro, o guerreiro sonhador
(documentário)

"O que eu tenho pelo Brasil é exaltação, de sentir tudo o que ele pode ser, vai ser, há de ser, e tudo o que ele ainda não é. Eu tenho pena de... nos meus anos (de vida) eu fiz força pro Brasil dar certo... eu tenho pena de, eu ando meio doentinho, posso até morrer, e ficam vocês encarregados de fazer esse país. Mas façam, façam!, sem copiar ninguém, realizando as potencialidades do nosso povo, potencialidades que são imensas, uma civilização tropical, uma civilização mestiça e, sobretudo, uma civilização humana, que herdou dos índios essa capacidade e esse talento pro convívio, dos negros essa espiritualidade, e dos europeus a tecnologia e a sabedoria européia. Nós estamos prontos pra ser uma das CIVILIZAÇÕES do mundo." D.R.






O Povo Brasileiro 

Documentário em dez capítulos sobre a formação do povo brasileiro em grande quantidade de nuances. Imagino que o formato se deva à intenção de fazer aulas. Aulas de Brasil, o verdadeiro, a população, sua formação, seu jeito, sua história. Vale demais, é visto de menos.
Baseado no livro do mesmo nome, uma das últimas obras do mestre, já condenado à morte por um câncer, consciente da sua situação e com pressa. Depois de conseguir sair do hospital, ele produziu mais cinco livros, nos dois últimos anos de vida. Um guerreiro de verdade. Uma obra inestimável e que permanece sem divulgação, pois vai no sentido de criar amor próprio e autonomia, de criar consciência e sentimentos de identidade, noção do próprio valor e da própria capacidade. Tudo o que não interessa aos exploradores, aos beneficiários da ignorância, da miséria, da exclusão e da exploração. Mas sempre há quem espalhe por aí. Cada vez mais.

















quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Rafael Correa por Julian Assange - os poderes por trás dos "poderes", as informações por trás das "informações"

Julian Assange é pioneiro do Wikileaks, o saite que leva a público as tramas dos intestinos dessa realidade que vivemos, documentos, telegramas, comunicações escondidas, envolvendo crimes contra soberanias, populações, governos, traições, mentiras dos meios de comunicação de massa, campanhas mentirosas, etc. Há uma publicação a respeito dele neste blogue. Provavelmente mais de uma.

Obviamente é perseguido sob qualquer pretexto para que se cale. Está refugiado na embaixada do Equador, em Londres, cercado pela polícia londrina, que ameaçou mas não se atreveu a invadir a representação.

Ele mantém um programa de entrevistas e, neste, entrevistou Rafael Correa.

Rafael dá um espetáculo de clareza e concisão. Tem espírito o cara.

Começa falando das relações com os Estados Unidos, explica depois a expulsão da embaixadora, coisa escondida por nossa mídia que tratou o assunto como uma loucura ou tirania do governo do Equador - não assisti, apenas suponho.

Explica também aquele movimento policial que chegou a fazê-lo refém por uns momentos. A infiltração da CIA nas forças de segurança é impressionante, embora não surpreendente. É prática cotidiana nas atribuições que esta agência se dá, ao violar soberanias no interesse das empresas que comandam seus governos. Sua existência é conhecida, reconhecida, denunciada, desmascarada inúmeras vezes na história mundial. Não há país latinoamericano que tenha escapado disso.  E nenhum se livrou por completo, apesar de vermos processos avançados, sempre malditos pelas mídias privadas do mundo inteiro - Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e alguns países caribenhos formam a ALBA, alternativa de união para mútuo apoio e criação de independência econômica e política das imposições de sacrifícios às populações para benefício do punhado mais rico, acostumado a fazer e desfazer, de acordo com seus interesses, o que bem entendem com as sociedades.

Rafael Correa comenta o assunto crucial que tenho levantado. Acredito ser determinante, neste estado de barbárie, a atuação da mídia, das comunicações controladas por interesses econômicos. O governo do Equador apresentou ao congresso uma proposta que divide o espaço das comunicações em três setores iguais. Um terço para a mídia comercial, outro terço para atividades comunitárias e o último para o poder público, incluídos os poderes federais, estaduais e municipais. A proposta está no congresso equatoriano mas não é votada, porque a maioria parlamentar deve serviço aos magnatas da mídia e de outros poderes econômicos, sempre associados à mídia privada por interesses comuns, sobretudo de se servir do que é público. É como no Brasil.

Ele coincide comigo em estabelecer a diferença entre os que servem à população e os que se servem dela. Eu ainda faria diferença entre os que pretendem servir, mas não sabem como, os que não conhecem a população e seus códigos, os que querem mas em troca de cargos dirigentes e os que servem no cotidiano, sem querer nada pra si, além da satisfação de ver as coisas caminhando para melhorar, através da conscientização geral, da tomada de decisões por assembléias informadas e em condição de decidir.

Aponta a diminuição do poder das corporações imperiais - "sobretudo o financeiro" - e pede pro Wikileaks publicar tudo o que achou sobre o Equador - e ilustra com uma passagem significativa de comunicados secretos entre a embaixada e o governo dos Estados Unidos sobre o governo equatoriano. Declara a inevitabilidade do confronto em algumas áreas. Mas confrontos com a corrupção, com a exploração, com a interferência indevida, com o predomínio dos interesses privados sobre as sociedades.

Pra quem não sabe, existe um Wikileaks Brasil e inúmeros outros espalhados em outros países, não posso dizer em todos, mas tomara fosse.

Desnecessário afirmar a necessidade de divulgação deste material no acendimento de luzes no mundo.




Sobre Julian Assange, abrir a reportagem abaixo ("mais informações") e clicar sobre o nome Assange escrito em vermelho. Vários artigos a respeito.

Entrevista - Mente Consciente, Vanguarda do Rap Nacional e Mundo do Rap - set/2010


1.      (Mente Consciente): Conte um pouco da sua historia de vida.
    Nasci na parte garantida da sociedade. Fui nela, usufruindo sem perceber, até os 15, 16 anos. Fui percebendo aos poucos a desigualdade e a injustiça. Comecei a me sentir constrangido, como um atleta que recebe o privilégio de começar a prova próximo ao final - que honra pode haver nisso?
    Fui experimentando e percebendo quantas distâncias, além das aparentes, me separavam da maioria e da sua realidade. O convívio foi me mostrando minhas próprias fraquezas, as fraquezas dos privilegiados, que dependem de serviçais pra quase tudo e os tratam com uma arrogância grosseira, ou mesmo uma superioridade benevolente. Então fui experimentar como é não ter nada.
    Tinha sido bancário (BB), militar (EsPCEx), vendedor, mergulhador e estudante de direito. E estava com 19 anos. Meus pais não concordaram, mas eu estava decidido a experimentar. A vida tinha perdido o sentido (não admitia esquecer o mundo e pensar só em mim e na minha carreira, era pouco pra ser a razão da vida, eu precisava de objetivos que me dessem satisfação ao espírito, que acabassem com minha enorme angústia – difícil explicar de forma resumida) e eu precisava procurar algum. Não pedia nada, além do respeito à minha decisão. Impotentes em impedir, ameaçaram com o banimento definitivo se eu não seguisse o caminho convencional. Mas eu precisava não ter nada, precisava construir o meu respeito próprio, diferente da sensação de superioridade que eu via à minha volta, artificial e falsa. Então as relações foram cortadas e minha experiência se tornou minha situação. O preço de voltar atrás cobrava minha alma, por isso eu não tinha caminho de volta.
    A partir daí, toda a bagagem educacional e informacional que eu tinha passou a ser usada na análise das vivências que passei a ter, sem posição de classe, materialmente abaixo de qualquer classe. Tudo o que eu tinha de material, carregava nas costas.
    Perdi os documentos e a proteção social. Andava na estrada, a pé e de carona, dormindo nos acostamentos, postos, construções abandonadas, debaixo de marquises. O mundo passou a me tratar como mendigo, hippie, ralé. Eu não me importava, ao contrário, percebia que quanto maior a minha “inferioridade”, mais sinceridade o mundo tinha comigo e mais próximo eu ficava da realidade. Eu não queria privilégios, já os tinha tido e sabia que não eram grandes coisas, diante do significado que eu buscava na vida. O sentimento de superioridade, a meu ver, bloqueava a inteligência, tornava as pessoas burras, em certos aspectos. Eu queria era aprender, mesmo sem saber muito bem o quê. E aprendia o tempo todo.
    Vivia nas periferias, entre os sabotados da sociedade, encantado com a sabedoria que nunca imaginara. A coletividade, tendo negado o acesso ao saber, desenvolvia uma sabedoria tão profunda que superava em muito o saber acadêmico, que já me parecia meio desumano. Percebia que isso vinha do sentimento, do coração, e não da razão, do cérebro. Isso fez nascer e crescer um grande respeito pelos sabotados, os excluídos, os periféricos. Atrás daquela ignorância explícita, havia um saber vivencial, uma sabedoria forte e profunda, parte vinda de dentro, parte da vivência, muito mais forte que o saber acadêmico. O saber se envolve em medo, proteção e, com triste freqüência, é bloqueado pelo sentimento de superioridade. A sabedoria nasce da serenidade diante das dificuldades, da experimentação empírica, da humildade e da intuição.
    Logo no começo, casei com uma figura pra quem balancei a mochila quase vazia no ar e avisei, “tudo o que eu quero de material na vida tem que caber nessa mochila. O que não couber, não me pertence, nem me interessa”, como um aviso, uma advertência. Calma, eu tinha só 19 anos, lembrem-se de vocês mesmos (os que tiverem pelo menos mais de 30. Os que forem mais jovens, saibam que criamos conceitos pétreos e, com o tempo, percebemos que a vida pode virar um vulcão e derreter as pedras). Três filhos eu tive com essa figura, vivendo de arte e artesanato. Vim para o sudeste, definitivamente, em 85, e morei no Rio, em Saquarema, Bacaxá, nas ruas do Rio, Jacarepaguá, Petrópolis, Montes Claros, Sete Lagoas, Prudente de Morais, Belo Horizonte, Visconde de Mauá, Rio de novo e Niterói, onde estou até hoje.  Isso pra resumir a história.



2.      (Mente Consciente) “A minha pobreza é a minha riqueza, e nessa sociedade competitiva a minha derrota é minha vitoria”. O que te levou a abandonar, a renunciar todo prestigio e privilégios que o capitalismo pode te proporcionar?

   É um prestígio falso, baseado num sentimento de superioridade social fajuto, improvisado, com jeito de farsa, que não resiste a um olhar mais atento. Superioridade social é manter como prioridade máxima o atendimento a todas as necessidades básicas materiais e não materiais de toda a população, sem admitir de forma alguma, exceções. Isso é superioridade social, a responsabilidade solidária de todos para com todos e a prioridade das situações de fragilidade de qualquer espécie. Nossa sociedade não alcançou, ainda, esse patamar mínimo de dignidade. Estar em situação de privilégio, numa sociedade como a nossa, deveria ser motivo de constrangimento, de vergonha. A meu ver, aqueles que se encontram em patamares mais privilegiados da sociedade estão é em dívida moral, com a maioria que não tem acesso, e deveriam tomar seus privilégios como responsabilidade social, e não superioridade. Mas o ego, superestimulado pela cultura midiática do consumo, da posse e da ostentação, transforma essa responsabilidade em soberba. Claro que é apenas minha opinião, há quem pense diferente. E é claro que vai agir diferente e seguir sua consciência e seus valores. Eu analiso as ações, mas não julgo os atores. Cada um com suas decisões e suas conseqüências, que “o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória”. Prefiro trabalhar na direção do explorado, do oprimido que é, em última análise, o sustentáculo inconsciente desta sociedade injusta, perversa, covarde e suicida.
    Os privilégios que eu usufruía eram parte da minha realidade, eram comuns no meu nível social. No nível de angústia, de falta de sentido na minha vida, não me pareciam valores a serem considerados. Ao contrário, pareciam um peso a tirar de cima de mim, pra eu descobrir algum sentido na vida. Não ter nada, no princípio, foi uma embriaguez, um respirar, uma sensação de estar livre pra crescer, pra procurar sem saber nem direito o quê, de perguntar, ouvir, aprender, observar e absorver sem fim e perceber que, pra mim, é este o sentido da vida. Aprender, crescer, se desenvolver por dentro e por fora.
    Quando vejo os privilegiados da sociedade, meu sentimento passa longe de admiração ou inveja; tampouco se aproxima do ódio ou do despeito; nem mesmo de indiferença ou desprezo. É difícil definir. Não gostaria de estar entre eles, embora não me recuse a circular por ali, se é preciso. Diante da minha humanidade, teria vergonha de usufruir privilégios. O que não significa condenar os abastados, nem santificar a pobreza.

continua... é grande a entrevista.

domingo, 4 de novembro de 2012

Mensalão nada, o nome é Seculão. Ou Permanentão. Ou Desdessemprão.


A marionete política, o cidadão comum na hora de folga, cabeça feita. O hospital público que parece uma cadeia, a escola pública em ruínas. A meia altura, do lado esquerdo, alguns "revolucionários" fazem barulho, sem nenhum efeito, afastados da massa abaixo da corrente pesada da escravidão contemporânea. Estas correntes são muito bem feitas de mentiras e sua força depende de o quanto acreditamos nelas. Tomar consciência é um permanente romper correntes.



Tenho uma desagradável sensação quando ouço falarem do tal mensalão, revelado por um fascínora às vésperas do próprio julgamento, pra tumultuar tudo e minimizar ao máximo os próprios danos. No que, aliás, foi muito bem sucedido, tá lá ele na lista dos deputados federais, depois de um período de férias forçadas em suas fazendas. As "revelações" excitaram a mídia, que evitou investigar a fundo pra não aparecer o próprio rabo e os dos seus aliados na política e no poder econômico. É evidente que houve corrupção, mas essa corrupção não se resume ao mensalão. É a prática parlamentar, desde que o parlamento foi criado. A mídia falar tão repetidamente, martelando jargões como slogans publicitários, batendo claramente na administração petista, é parte de uma campanha visando diminuir o capital eleitoral do PT e aliados. Desmoralizar os desafetos. Política partidária do pior nível, feita pela mídia, com publicidade pesada exercida pelo que apresentam como "jornalismo". Uma disputa pela gerência, nada mais, pois o patrão é o poder econômico, grandes bancos nacionais, mas sobretudo internacionais, e mega-empresas nacionais, mas sobretudo idem. E a mídia joga do lado do PSDB, mais elitista, privatista geral,  servidor das elites estrangeiras, mais linha dura com os pobres, sobretudo os que se organizam. Estes recebem os títulos de baderneiros, vândalos e terroristas. E são implacavelmente atacados pelas forças de segurança toda vez que algum interesse empresarial está em jogo, com o apoio do judiciário na criminalização dos movimentos sociais. O chamado mensalão é a parte forte da campanha, descaradamente utilizado no período eleitoral, para favorecer os peessedebistas contra os petistas. O buraco, no entanto, é bem mais embaixo. 

Protógenes Queiroz, o delegado que prendeu o banqueiro envolvido na compra do congresso pra mudar a constituição e reeleger o presidente (além de vários outros crimes envolvendo enormes cifras), entrou com ordem de busca e apreensão na casa do banqueiro e encontrou um fundo falso no armário. Dentro, um disco rígido continha informações sobre as movimentações financeiras do Opportunity, banco sediado nas ilhas Cayman e pertencente ao dito banqueiro. Esse disco foi estudado por Protógenes e guardado em sigilo pela Polícia Federal. Depois a justiça requereu e guardou essa fonte de informações, sem jamais revelar o seu conteúdo. Mino Carta, jornalista e dono da revista semanal "Carta Capital", pergunta a Paulo Lacerda, chefe de Protógenes na Operação Chacal, da Polícia Federal, e na Satyagraha, que levou ao banqueiro. Reproduzo as palavras de Mino:

"Por que o mensalão petista vai ao tribunal antes daqueles tucanos que o precederam? E por que Daniel Dantas (banqueiro dono do Opportunity), que esteve por trás de todos, não está no banco dos réus? Por que as operações policiais que desnudaram seus crimes adernaram miseravelmente? Por que o disco rígido do Opportunity, sequestrado pela Polícia Federal durante a Operação Chacal e entregue ao STF, nunca foi aberto? No fim de 2005 dirigi esta pergunta ao então diretor da PF, Paulo Lacerda, na presença de Luiz Gonzaga Belluzzo e Sergio Lirio. O delegado, anos depois desterrado para Portugal, respondeu: ‘Se abrirem, a República acaba’."

Acaba, por quê? Porquê vem à tona a prática cotidiana de compra do congresso nacional? Acho que o que aparece é a inexistência da república. Da democracia. Porque nunca houve, foi sempre uma fachada, desde que se instaurou a democracia, a república e mesmo a independência, que escondia a dependência econômica, política, cultural e militar das potências estrangeiras da época. As chamadas instituições democráticas estão postas sob controle desde sua criação. Quando esse controle foi ameaçado, os militares foram acionados e o golpe de 1964 fechou o tempo, suspendeu a pretensa democracia pra amarrar tudo direitinho antes de "redemocratizar". O que está acontecendo é o começo de um despertamento. Informações que nunca estiveram disponíveis estão sendo conhecidas, notícias que jamais são transmitidas pela mídia privada circulam na internet, pra todo lado. O que vai acontecer, não dá pra saber. Mas que vai acontecer, vai. Já tá acontecendo, divagazim...

Protógenes se elegeu pelo PC do B de São Paulo, apesar de ser de Niterói, e luta por uma CPI da Privataria Tucana, com base no livro de mesmo nome que denuncia, com provas documentais ocupando metade das páginas, as falcatruas nas “vendas” das empresas públicas mais ricas e rentáveis à ganância dos mega-empresários, propinas, compras de parlamentares, promiscuidade público-privada pura. Luta solitária e sem frutos. A política institucional foi esterilizada, não funciona e foi regulamentada pra não funcionar. A não ser em benefício dos privilegiados donos do poder, os financiadores das campanhas eleitorais, que é a grande feira de políticos. Os que não se enquadram nos costumes, se conseguem furar o bloqueio e se elegem por um furo da estrutura, são isolados nos parlamentos, não conseguem aprovar – ou mesmo apresentar em tribuna – a maior parte dos seus projetos. E nos executivos são cercados pela mídia e pelos vícios do sistema, o controle sobre a estrutura administrativa das empresas parasitas que dependem do Estado e têm grande penetração nos organismos estatais através de relacionamentos e corrupção, em relações de conivência. Essa área é toda minada. Embora alguns avanços sempre se consigam, desde que não ameacem diretamente as estruturas da sociedade, de privilégios pra alguns e exploração da maioria - os dois lados da mesma moeda.

A árvore não nasce das folhas pra raiz. Esse é o grande engano da intelectualidade revolucionária. Das folhas eles acreditam que, por ver melhor o terreno, devem comandar as raízes. Mas não descem lá e não as conhecem. Alguns as desprezam, outros têm medo delas, muitos as duas coisas. Mas as raízes estão aí, firmes, sustentando toda a árvore social, inconcientes da sua força, entorpecidas pelas fumaças midiáticas, desprovidas dos nutrientes educacionais, sem perceber a própria sabedoria e o próprio valor, a capacidade de superar obstáculos, dificuldades, problemas e fatalidades. As raízes precisam de um pouco de conhecimento e muita consciência da realidade. Assim se faz uma revolução. Independente da política partidária, os movimentos acontecem. Em toda parte. E a América Latina tem sido um grande foco.

Talvez seja assim mesmo, as mudanças partem de dentro dos indivíduos, espalhados no mundo inteiro, contaminando, transformando, operando e cooperando, descobrindo novas formas de relações, percebendo as induções, discernindo, escolhendo por si e pela coletividade. As coletividades se formam. Percebem-se. Sem coordenação visível, o processo caminha seus passos cada vez mais acelerados, embora ainda lentos. A rigidez e a intolerância perdem espaço a partir das relações pessoais. Os costumes são questionados, os valores induzidos são denunciados como nunca. Os efeitos ainda não aparecem na coletividade, as coisas vão solidificando aos poucos, a criança engatinha. Ingenuidade acreditar em efeito imediato, o caminho é longo. Participar dele já é a satisfação que espero da vida. Caminhar do jeito que se quer, e não do jeito que mandam caminhar. É o sentido da vida, no momento. E é fonte de contágio.

Uma visão maior não significa superioridade. Responsabilidade é o que significa. Conscientizemos uns aos outros, sempre que possível. Com respeito, com carinho, que é a melhor maneira de trocar conhecimentos, sentimentos, idéias, o jeito mais tranqüilo, seguro e proveitoso. E com humildade, principal requisito pra um aprendizado constante. Despertamos cada vez mais e um despertamento traz outro, em sucessão infinita. No indivíduo e na coletividade. 


Reportagem de Paulo Nogueira sobre o uso de Marcos Valério pela mídia:

sábado, 3 de novembro de 2012

Mudança de parede, em Santa Teresa


Exposição em Santa Teresa
      Quebrou a unidade. Percebi quando olhei a foto, o bondinho, a casa, as portas fechadas, os desenhos formando uma unidade, na diversidade entre portas e paredes. Quando as portas abriram, quebrou a unidade, separou os desenhos, perdeu o impacto que a unidade formava. 
      A casa foi reformada, o antigo armazém agora é um café cultural, as portas foram abertas. O lugar está muito bem decorado, bonito de se ver. Há belos quadros nas paredes e um piano que, nas vezes em que expus, tocou lindas músicas que chamo de clássicas porque não conheço muito de música, embora sinta na alma. 
      No entanto, a unidade do meu trabalho foi quebrada com a mudança de cenário, as portas abertas criaram vazios que enfraqueceram. Coisa da vida, do tempo, das mudanças às quais temos que nos adaptar. De alguma forma, é até bom. Ou pode ser.
      As vendas caíram, o espírito mudou, ao invés de unir, tá separado em partes. A capacidade do trabalho em tocar no abstrato, no espírito, no pensamento, no sentimento, perdeu força. O mundo atual é cheio de apelos visuais e sonoros por toda parte, clamando por atenção, freneticamente, as pessoas se acostumaram ao superficial, ao apelo, ao impacto visual ou sonoro, a enxergar apenas o que chama a atenção. 
      Alguns poucos, já vivenciados, acostumados a unir as partes dispersas das coisas, das informações e das experiências, ainda percebem, mas estes são muito poucos. A maior parte, por outro lado, não se liga na exposição pela falta do impacto, olham como parte da paisagem, passam batido, sem despertar a atenção.        A maioria ainda não percebe as nuances por trás das formas, por cima, por baixo, pelos lados, por dentro. Esse é um processo de desenvolvimento que começa na percepção da existência e da força do pluriverso* abstrato. Ou melhor, que existe, mas toma força e responsabilidade a partir do momento em que se toma consciência dele.
      O trabalho exposto em unidade faz uma figura mais perceptível, ele separado perdeu a presença. E eu preciso pagar minhas despesas.
      Tudo isso pra dizer que vou mudar de parede, de lugar. Devo ficar pelo Largo do Guimarães, mesmo, é o que pretendo. Gosto dali, é um ponto centrífugo e centrípeto de incríveis variações de seres. Uma convergência de “loucos” da sociedade, de pessoas que procuram as correntes contrárias ao movimento convencional dos acorrentados. Muitos têm uma capa de loucura, mas são de mentalidade e sentimentos convencionais, egocêntricos, vaidosos, superficiais e perambulam pela área por causa dos reais loucos, tentando se confundir com eles e enganando as almas ingênuas. Estas são suas vítimas. É preciso cuidado com estes falsos "loucos". Bem, por outro lado, estas relações são potenciais aulas de vivências.
      Há reacionários também, alguns bem criativos, outros raivosos, quase todos inofensivos e cordiais, desde que não se pise em nenhum calo. Os reaças são cheios de calos, sobretudo nestes tempos de mudanças, na onda de despertamento pra realidade de inúmeras exceções às regras. Claro que são exceções, mas já fazem seu barulho ser mais ouvido que antes, quando só se tinha como fonte de informação a mídia comercial e todas as notícias chegavam de acordo com os interesses empresariais, em prejuízo das populações. E os donos da sociedade explodem em ódio e violência, enquanto ainda podem, fornecendo pela mídia argumentos, informações distorcidas e instruções aos seus repetidores. Destroem os movimentos que se levantam, mas não podem conter o processo de conscientização que lhes vai tirar a sustentação – ou a dos seus descendentes. Quero ver o que vão fazer esses privilegiados quando não houver mais serviçais com tanta facilidade quanto agora para explorar e aumentar suas fortunas. Esta gente cercada de empregados por todos os lados não planta, não colhe e não faz sua própria comida; não faz sua própria roupa, não lava, não limpa seu próprio lixo; não constrói sua casa, não sabe consertar nem um vazamento. Servem-se da parte sabotada da família humana pra tudo, tanto pra enriquecer quanto pras tarefas cotidianas e ficam perdidos sem seus pobres pra fazer tudo por eles.
      Bom, como eu ia dizendo antes da indignação me tomar, procuro uma parede que permita a unidade em meu trabalho. De preferência no Largo do Guimarães. Senão, ali por perto. De qualquer maneira, o bairro é todo cultural, há muitos lugares. Depois aviso, nesta mesma postagem, onde estou expondo. Aliás, este blogue é a única forma que tenho de anunciar, embora eu não tenha nada a reclamar. Antigamente, quando mudava de lugar, e mudava com muito mais freqüência, não tinha como avisar além de alguns poucos amigos, pessoalmente. Agora posso colocar no ar e explanar geral.
     
     
*Pluriverso – o Universo que conhecemos e estudamos na ciência oficial é o universo material, os planetas, as estrelas, em bilhões, formando galáxias também nos bilhões, trilhões, espaços que não podemos alcançar nem com a imaginação, muito além do nosso alcance, mas todo material. Matéria em relações magnéticas, gravitacionais, química, mas matéria física. Um universo entre outros universos com vibrações moleculares diferentes. Ou atômicas, sei lá. Mas intercalados, interpenetrados no mesmo espaço, em dimensões diversas, como ondas de rádio, cada uma em sua freqüência, sem interferência direta, mas se relacionando de várias formas, com sentimentos, pensamentos, crenças, desejos, intenções  fazendo pontes de comunicação, atraindo, repelindo, sempre interagindo. Uma coexistência plural fora do alcance da razão, mas não da intuição. Sentimos alguma razão de ser na existência, mas não alcançamos, não compreendemos. É possível sentir. A razão, em sua soberba e idiotia, muitas vezes negará a existência dos universos abstratos, com tanto mais força quanto maior for a qualificação acadêmica. Não é uma questão de crença, nem de raciocínio. É intuição, sentimento, percepção subjetiva, numa linguagem mais adaptada à língua acadêmica. O pluriverso não precisa do crédito de ninguém, como o universo não dependeu das crenças em monstros nas beiradas da terra, poucos séculos atrás.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Extermínio dos Guarani Kaiowa. Passo Piraju.

Com a situação que se apresenta extrema, à beira da finalização do extermínio, os originários estão cercados pelos fazendeiros e seus capangas criminosos, que babam de ódio e sede de morte contra os "obstáculos" ao roubo do último pedaço de terra que lhes resta. O objetivo é claramente desaparecer com eles. A civilização que se apresenta como avançada destrói tudo que se encontra em seu caminho e não serve aos seus interesses - a economia e a propriedade acima da vida, o lucro acima da preservação de culturas e ambientes, a força das armas acima da justiça. E os povos que resistem à dizimação há quinhentos anos, espancados e mortos cultural e fisicamente, estão reduzidos aos seus últimos integrantes, sob o silêncio criminoso dos meios de comunicação comerciais e da sociedade como um todo. As exceções se apresentam, se desesperam, se envergonham, se mobilizam.

Pedro Rios é o cara que presenciou e registrou parte da barbárie de Pinheirinhos, quando um bairro inteiro, com 1600 famílias, instalado e funcionando normalmente havia oito anos (o usucapião, que lhes dava o direito de posse sobre o terreno abandonado pelo rico empresário que nunca pagou imposto predial pela área - massa falida do tal morcegão Naji Nahas - é de dois anos) foi atacado pelas forças de segurança que fez um combate de terra arrasada, matando, ferindo, destruindo, atacando velhos, crianças, cachorros, mulheres, homens, deficientes, tudo o que respirasse. Casas derrubadas, móveis quebrados, até as árvores do bairro foram arrancadas ou derrubadas. Depois, Pedro se acorrentou em frente à sede da Rede Globo, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro, em greve de fome contra a omissão desta emissora criminosa. Durante dias permaneceu ali, até que as forças públicas, sempre elas, vieram pra cima dele, retirando todo o material de apoio, de madrugada, como é o costume. Mas o trabalho estava feito.

Agora Pedro se deslocou para o acampamento dos indígenas para morrer junto com eles, como ele mesmo disse. Esse menino tem disposição, mesmo. Exemplo de militância, não doutrinária, mas humana, ele tá em risco de morte por jagunços, como os índios têm sido cotidianamente. As causas de mortes desse grupo há tempos são os assassinatos e os suicídios. E a população dorme, entre narcóticos midiáticos e uma vida explorada, angustiante e vazia de sentido, enquanto a ganância comanda a sociedade, em nefasta promiscuidade público privada.

Sugeri, em comentário ao vídeo, que se pusesse legendas nas falas em língua dos guarani kaiowá, para que todos entendessem o discurso do cacique e os cantos.

Mais uma vez tive que sofrer a revolta, a vergonha e a tristeza de pertencer a uma sociedade tão injusta, perversa, assassina, desumana, egoísta, indiferente aos sofrimentos extremos que causa, por uma imposição secular de uma minoriazinha vampiresca que se aboleta sobre os poderes públicos, com suas riquezas roubadas e acumuladas por dinastias. São os grandes vampiros da humanidade, que contam com a colaboração inconsciente da maioria, mantida ignorante e desinformada, acreditando em valores falsos e notícias distorcidas, mentirosas e omissoras das realidades que nos cercam.

A existência de gente contestando e trabalhando no esclarecimento, na conscientização e na divulgação da realidade dá um conforto e um estímulo à existência. E à resistência. Pedro Rios é um. Não é o único, mas é um dos bons.

                   

Ato no Rio, pelo respeito aos povos originários, contra a derrubada da Casa do Índio, no Maracanã.


A impotência diante do massacre continuado, sob pretextos de dar nojo que não escondem a perversidade criminosa dos interesses no lucro, esse símbolo sacro-demoníaco da ideologia empresarista (ou elitista, para abranger mais tempo de sociedade), que já se chamou aristocracia, capitalismo e agora é o neo-liberalismo. Há quem diga que começou na década de 80, mas começou no início da sociedade humana, primeiro pelos mais fortes, depois pelos mais espertos, agora pelos mais ricos. O problema não tem sua raiz na estrutura social, mas no ser humano. Os dois escassos modelos que se apresentam - capitalismo e comunismo - encontram seus entraves numa hierarquização forçada. O primeiro comandado pelos que têm mais grana - num preconceito econômico-social - e o segundo pelos que têm mais "formação" - num preconceito intelecto-social. Não se considera a sabedoria, mas o saber, não se considera a vida, mas o patrimônio. E os dois são a maior furada.
Para ouvir a fala da lutadora Alda Silva, guarani kaiowá remanescente de família dizimada pela covardia civilizatória dos jagunços - e dos fazendeiros que os comandam, criminosos que têm no Estado seu maior cúmplice - eis o link:

Artigo de Eliane Brum, contundente, para ler clique no ridículo "mais informações".
(mais vários links de artigos relacionados)

Belo Monte, Anúncio de uma Guerra - filme completo

Há uma postagem neste blog a respeito de Belo Monte, mas não esse filme completo (acabo de ser avisado por uma grande irmãzinha que já postei esse filme. Verifiquei e vi que foi em junho, mas deixo mais uma vez porque o assunto é atual e agora está sob novo recrudescimento - já que a mídia comercial não divulga, quantos mais puderem fazer isso, melhor). Como o genocídio, o ecocídio, o constituicídio e o politicídio continuam, posto como reforço, como lembrança. É um esclarecimento sobre a farsa democrática. São as empresas financiadoras das campanhas desse governo que exigem a construção desse empreendimento criminoso, pois são mega construtoras. O resto do mundo condena, a OEA já declarou crime contra a humanidade, assim como a Comissão de Direitos Humanos da ONU. Mas o governo brasileiro respondeu, gentilmente, que isso é assunto interno do "Brasil" e que esses organismos não têm nada que se meter. "A gente sabe muito bem o que está fazendo" disse o "Brasil". E dá-lhe jagunços, repressão oficial, difamação pela mídia e barbárie no local.

É tanto descaramento que seria cômico, se não fosse tão trágico.

É preciso despertar, cambada. E não ficar passeando no chópim center.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Fotografo de Guerra / War Photographer


James Nachtwey (Jim) é um predestinado. Sua forte intuição o levou ao seu caminho. Impressionante em sua interiorização manifesta no seu comportamento introspectivo, executa o trabalho massacrante de mostrar ao mundo o que acontece, as conseqüências do modo de vida que aceitamos sem questionar sua origem. Expõe o resultado do consumismo desenfreado, do estímulo ao egoísmo e à indiferença com as dores da humanidade, embrenhado nos sofrimentos mais agudos aos quais não é imune, mas resiste, na função de retratar as dores mais agudas que essa estrutura tem produzido ao redor do mundo. Depois de vivenciar as tragédias da guerra, entre outras tragédias, ele resume as coisas e demonstra a consciência no seu trabalho.


Palavras de Jim:

"É cada vez mais difícil conseguir que as publicações se concentrem nestes temas críticos. Nunca foi fácil (vender as fotos denúncia que ele faz da barbárie a que está submetida enorme parcela da população planetária), mas creio que, nos últimos anos, tornou-se ainda mais e mais difícil. A nossa sociedade está mais interessada por entretenimento, celebridades e moda. Os anunciantes estão cansados de ver seus produtos serem apresentados junto com imagens de tragédias. Dizem que atrapalha as vendas."

"O objetivo do meu trabalho é aparecer nas mídias de massa. Não pretendo que minhas imagens sejam vistas como obras de arte. Na verdade são apenas uma forma de comunicação."

"A fome é, seguramente, a mais antiga arma de destruição em massa. É muito primitiva, mas muito eficaz."


Fiquei penalizado ao ver, na mina de enxofre da Indonésia (com cenas incríveis dos mineiros trabalhando em meio à densa fumaça tóxica, tossindo e trabalhando), a conversa de Jim com o grupo, onde apenas um falava inglês. Esse "tradutor" improvisado usava um boné com o símbolo da naique. Talvez como um símbolo de distinção. O inimigo está dentro das cabeças e passa despercebido. Ainda.

Sem nenhuma menção direta, o trabalho de Jim abre as cortinas da realidade e das suas causas.

As cenas são fortes, é preciso preparar o estômago pra esse golpe na consciência. Esse cara é precioso à humanidade inteira. Seu trabalho, mais ainda.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Guaranis Kaiowás pedem a morte




Gravíssima situação, à beira de mais um crime contra a humanidade. É a ameaça de extinção de mais uma etnia originária, anunciada e reportada, para que ninguém fique isento de responsabilidade nesta vergonha, mais uma pra coleção de torpezas sofridas pelos povos locais.

A história se arrasta há séculos, desde a chegada da civilização européia. Durante a época dos militares, tentou-se diluir os índios na sociedade, com uma série de medidas "culturicidas". A idéia imposta era a de que não havia mais índios, eram todos brasileiros. Ridículo, absurdo, de uma insensibilidade criminosa. Não podia dar certo, apesar de ter causado muito sofrimento e alguns genocídios que hoje devem ser investigados pela tal Comissão da Verdade. Os Waimiri Atroari, por exemplo, contam em mais de três mil o número de mortos, em meio à sua diáspora para a construção da estrada Manaus/Boa Vista.

Em 2012 a coisa recrudesce pro lado dos Guarani Kaiowá. Massacre em cima de massacre, lideranças mortas uma atrás da outra, isolamento do grupo remanescente entre grandes fazendas e assédio constante de jagunços, tiros a esmo de noite, pressão e perseguição, ódio constante, desprezo cultivado. Cansei de ouvir a frase "índio tem que morrer" em áreas onde convivem indígenas e latifúndios. Os "bugres" são vistos com repulsa, com desconfiança, com nojo, na mais perversa distorção da realidade, na habitual transformação das vítimas em culpados. Falta de humanidade, falta de justiça, falta de vergonha na cara.

Agora os Guarani lançam um documento em que anunciam sua morte coletiva. O índice de suicídio entre eles é altíssimo, causado pelas condições em que vivem os remanescentes dessa outrora grande tribo, pressionados de todos os lados para que não existam. Alguns êxitos jurídicos na direção dos seu direito às terras demarcadas e outorgadas, mas ocupadas por fazendeiros, levantaram o ódio dos invasores. O assédio da violência se tornou insuportável, os recursos inundaram o judiciário, a conivência de juízes atuou na direção de adiar a retomada das terras ancestrais para o dia de são nunca. Com a ordem de despejo dada por um juiz da região, cúmplice dos fazendeiros que desejam o fim desse povo que está no caminho dos seus lucros, da sua avidez territorial, os guaranis viram apagar a luz da esperança e já não desejam viver, apenas morrer e serem enterrados na terra dos seus ancestrais. Eles estão acampados à margem de um rio, área federal, não de fazendas, mas a ordem foi dada assim mesmo.

Estamos diante de um crime anunciado, mais uma demonstração dos valores exercidos em nossa sociedade pelos maus que gerenciam os poderes falsamente ditos públicos. Mais um sinal de como é vergonhosa a participação nesta coletividade "civilizada", com seus valores distorcidos e seu comportamento bandido contra tudo e todos os que não se adequam ao modo de vida estabelecido. Com um mínimo de dignidade, é necessário retirar de dentro de cada um de nós os condicionamentos e as mentiras plantadas com intenções de domínio e controle sobre a sociedade. É preciso contestar o comportamento criminosos cotidiano dessa civilização dos diabos. É preciso recusar e desobedecer as ordens tácitas do sistema. Chega de ânsia de consumo, chega de competição desenfreada, chega de avidez, de divinizar o lucro e desprezar a vida. Chega de crimes, de falsidades, de interesses mesquinhos. Despertar é preciso.

Abaixo, o asrtigo que traz a carta em que os Guarani Kaiowá anunciam sua decisão. Esta página da história será estudada, no futuro, com horror e espanto diante desta estrutura de sociedade assassina, a serviço dos mais perversos vampiros da humanidade. Todo o aparato público, de repressão, de leis, de justiça, de governos, etc, tudo foi controlado e posto a serviço dessa minoriazinha safada e perversa, capaz dos piores crimes em nome dos seus interesses de poder e patrimônio. Esta sociedade, em todas as suas nuances (com raras exceções localizadas e esterilizadas), é de envergonhar qualquer um com um mínimo de consciência, dignidade e sentimento humano. Há muitas outras informações sobre o que vem acontecendo nesse links e através deles se pode montar um painel dos últimos acontecimentos.

http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=6553&action=read
http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=6553&action=read&page=4

Audio do CIMI (Conselho Indigenista Missionário)
http://www.cimi.org.br/pub/Potyro/Potyro793.mp3

Não pensamos muito nisso, não faz parte da nossa realidade cotidiana. Mas o clima tenso é constante, dia e noite. A qualquer momento, tiros varam o acampamento guarani. A todo instante, ameaças de morte e extermínio. Acusações infundadas, reações criminalizadas, desqualificação preconceitual. Somos todos parte da responsabilidade por essa vergonhosa existência "civilizatória". Se esse é o preço do desenvolvimento, que porra de desenvolvimento é esse que inferniza as relações sociais? É uma mentira a mais, isso não é desenvolvimento real. É, sim, o desenvolvimento da barbárie, do roubo, do assassinato, do genocídio, da dizimação dos povos indígenas. É a cracia do demo, essa democracia.


Galeria de vídeos
http://www.cimi.org.br/site/pt-br/index.php?system=videos


domingo, 14 de outubro de 2012

Operação Peter Pan: Vaticano e CIA traficaram 14 mil crianças cubanas


DOMINGO, 14 DE OUTUBRO DE 2012

 (documentário)





A Operação Peter Pan ocorreu em 1961, quando mais de 14 mil crianças e adolescentes cubanos foram levados aos EUA por vontade de suas famílias, apoiadas pela Igreja Católica e pela CIA, a Central de Inteligência Americana.







sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Raymundo Araújo Filho





      Eu o conheci via internet. Textos denunciadores, indignados, verdadeira metralhadora giratória, atirando pra todos os lados. Dei uma opinião, fui recebido com agressividade, me expliquei, ele se desculpou por ter sido “meio grosso”. Havia identidade na percepção do mundo, apesar da diferença de temperamentos – o que não dificultou em nada a afeição espontânea que rolou. O que ele exigia, (sim, exigia), era sinceridade e boa fé. Nada mais. E tão raro...
      Assim ficamos amigos, por identidade pura. Lia seus textos, muitas vezes achando um exagero pela quantidade de insultos – devo admitir que compreensíveis –, de denúncias, desqualificações e acusações. Ele começou a ler uns meus, certamente me achando por demais cordial e ameno. Ele gostava de dar nome aos bois e de adjetivar os mesmos bois sem piedade. Quadrilheiro, cheirador de pó, ladrão safado, camarilha eram expressões corriqueiras nos seus escritos. E nas suas falas, bastava por a mão num microfone, pra terror dos hipócritas, desses “revolucionários” em causa própria. Ele nunca advogava em causa própria e emanava seu caráter e disposição ao combate, de forma irresistível.
      Um dia ele me convidou pra defender o cine Icaraí, prédio histórico em área cara – se diz “nobre” –, e nos encontramos pela primeira vez. Com seus pelos brancos, cabelo e barba, tinha olhos de menino e coração de anjo. Um anjo ateu. Ou agnóstico, ele dizia, talvez a única concessão que fazia para evitar confronto com gente boa, de luta, sincera e que tem religião. Com uma caixa de som e um microfone, meio no improviso, ele ligou sua metralhadora. Eu ali, do lado, olhando as pessoas se juntarem pra ouvir. Alguém que estendia uma faixa atrás teve dificuldade e ele não titubeou. Passou o microfone pra mim, sem aviso, "vai falando aí" e foi ajudar o cara. Pego de surpresa - nunca tinha falado num microfone -, comecei a falar qualquer coisa a respeito das mentiras que somos obrigados a engolir, entre o espanto e o improviso. Depois reclamei com ele, "comé que cê faz uma coisa dessa, meu", ele riu, "sabia que cê ia falar bem". É assim o meu amigo, amorosamente autoritário.
      Na segunda vez, ele me convocou pra ajudar a construção de uma favela cênica que seria montada na praia de Icaraí, praticamente em frente à manifestação do cinema, só que na areia. O chamado foi feito às dez da noite, fui de bicicleta. Estava lá um grupo da Associação dos Desabrigados das Chuvas de Niterói, já havia um ano sem casa nem solução por parte da prefeitura, que exercia requintes de crueldade com as famílias  desabrigadas. Ele havia chegado de uma viagem longa, sem dormir, estava meio zumbizando, acabou indo dormir numa barraca montada lá com essa finalidade, dar descanso a quem precisasse. Quando amanheceu o dia, o cenário estava pronto, ele acordou a tempo de providenciar um modesto café da manhã para todos. Pela cara das pessoas que passavam, lotando os ônibus, nos carros, correndo no calçadão, deu pra sentir que a coisa chamava a atenção e teria repercussão.

      

      A associação havia pedido ajuda a uma dessas siglas de esquerda, mas como não estava no programa desta sigla, não houve apoio. O manifesto foi feito sem nenhum revolucionário de carteirinha e chamou tanta atenção que saiu em vários jornais, inclusive no exterior. Aí a sigla se animou e armou a arapuca, ligando pra associação e oferecendo uma sala no DCE da UFF pro pessoal se reunir. Fui convidado e, ao ouvir o endereço, senti cheiro de armação. Questionei mas, sem fazer parte da associação, não me senti no direito de insistir, acabei indo. E lá estava o Ray. Ele compartilhava da mesma impressão. Aliás, ele não tinha impressão, tinha certeza. E viera pro combate.
      Os "revolucionários" da sigla já estavam com o circo montado. Inclusive se pensavam preparados pra encarar a metralhadora, vã ilusão de inexperientes. Com o Raymundo eles só podiam jogar deslealmente, porque na razão eles não tinham condições. Não tinham sinceridade nem boa fé e várias vezes pensei que ia sair porrada, já tinha até escolhido uma cadeira mais pesada pra rodar, caso aqueles caras atacassem o Raymundo, estimulados por sua superioridade numérica e a magreza atrevida e insultante do oponente grisalho. Na verdade eu queria tirar o cara dali, mas ele parecia tomado por algum exu caveira e espalhava brasa pra todo lado. Creio que sua razão inibia qualquer iniciativa mais truculenta. E ele estava coberto de razão, via claro todo o processo de cooptação, conhecia as estratégias, denunciou até o procedimento ensaiado – procedimento torpe – da turminha siglesca e doutrinária. Escrevi um texto na época, “Os desabrigados e os revolucionários”, contando o acontecido, com tristeza. A associação sucumbiu, os melhores saíram, a cooptação aconteceu. Mas a amizade se solidificou depois daquilo.
      Raymundo veio à minha casa várias vezes, trocávamos idéias, concordávamos e discordávamos, sentia nele um respeito que não via ele usar com os outros. Era, concluí muito depois, o tributo à sinceridade, à boa fé, à resistência ao sistema, à não rendição aos padrões condicionados de comportamento. Atrás daquela turbulência toda, um coração enorme, um olhar de criança, um amor irrestrito pela humanidade, pelos animais, pela justiça. Sentia por ele um respeito que relevava sua forma acadêmica de falar, sua prática política de confronto, sua agressividade, sua posse de verdades. Quando ele exercia essas coisas pra cima de mim, eu ria sem expor minha discordância, ele percebia e amenizava. Fora do confronto, ele era o amor em pessoa.
      Lembro de ter falado com ele, depois de um desses confrontos em que parecia que ele ia se atirar no pescoço do oponente, “tu inda vai ter um treco por conta dessas raivas, desse estado de nervos que tu fica”. Ele respondeu que era teatro, tava tudo sob controle. Não era e não tava. Seu ódio era por amor e ele não sabia resistir aos sentimentos.
      Costumo dizer que vou morrer do coração, por ter amado demais, ou com um tiro na testa, por ter falado demais. Pro Ray, o amor chegou antes. Cedo demais.
      Senti um baque quando o Francisco me avisou, no portão. Nem quis entrar. Acho que não acreditei, deu um formigamento no corpo, a vontade me disse “é engano”. Mas não era. Raymundo Araujo Filho, a metralhadora, parou de atirar. Ou melhor, parou de produzir tiros, porque os petardos que ele lançou estão por aí, acendendo luzes, inflamando consciências. Levei dois dias pra digerir o acontecimento. Lembrei do enterro de um outro lutador, quilombola, na Bahia, há muitos anos, assassinado por jagunços. Seu pai, um velho sábio, disse a uma mulher que chorava, “chora de saudade, fia, não chora por ele. Bom como era, cheio de amor por todo mundo, ele agora tá melhor que nós tudo”.
      Por tudo que fez, por tudo que era, por tudo que deixou, o Ray agora tá melhor que nós tudo. Nós choramos de saudade, pela perda que o mundo teve. Não lamento por ele. Lamento por nós. Mas, lembrando que por essa porta passamos todos, acendo a esperança e mando a mensagem – boa viagem, irmão, até o dia em que nos abraçaremos de novo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Fuga da Escravidão




Amazônia, rodovia Belém-Brasília, 1980. Noite. Debaixo do telhado aberto em frente à borracharia fechada, uma lata quadrada sobre o fogo cozinha a mandioca, a água borbulhando frenética. Sentado numa tábua, olho o fogo e escuto o silvo dos pingos das grandes bolhas que estouram caindo sobre as brasas, encostado na única parede do telhado quadrado, a porta da frente da borracharia. À esquerda era a estrada, na frente o posto de abastecimento mal iluminado a uns cem metros, à direita a floresta, com árvores enormes fazendo a silhueta da escuridão.

Distraído olhando o fogo, tomei um susto quando o vulto surgiu, justo do escuro, amenizando a surpresa com voz humilde, “louvado seja nossinhô jesus cristo, co’a sua licença”. “Se achegue moço”, tratei de responder na lei da hospitalidade, “se é de paz, bem-vindo seja". Apontei a lata no fogo, ele já tava olhando pra ela, "tô cozinhando uma macaxeira com sal, tem bastante, se quiser.” Eu tinha posto a mandioca toda pra cozinhar, era um pé que tava maduro, na beira da estrada, uns quilômetros atrás. Pensava em levar pra comer também no dia seguinte, mas dividia de bom grado, ele estava mesmo com fome, tanto que respondeu na hora, “vou aceitar sim, desde ontem que não como”.

O sujeito era pequeno e magro, mas parecia ágil e rígido, dava pra ver a musculatura fina e resistente aí nos seus trinta anos. Tava sujo, roupas rasgadas, as marcas de andar pela floresta, pelo jeito ele se escondia de alguma coisa. Era melhor não fazer assunto disso.

No princípio arredio às duas perguntas mais comuns nesses encontros – de onde se vem e pra onde se vai – ele relaxou depois que viu o painel de brincos, pulseiras e colares, “ah, tu é ripe”. E contou ser do sertão de Pernambuco, um povoado perto da fronteira com o Ceará, “esquecido pelos governo”. Apareceu um “gato” procurando trabalhador pra colheita numa fazenda no Pará, os dias estavam ruins, seca braba, a roça não dava nada, a criação pra morrer de sede. O acerto parecia bom, em três meses voltaria pra família com um dinheirinho, era mulher e dois filhos que ficavam. Embarcou no caminhão do "gato" e levou uma semana pra chegar na tal fazenda, foi enchendo com mais contratados pelos caminhos, chegou lotado.

Só que ele já chegou devendo, passagem, hotel, refeições, “até as ferramenta de trabalho eles cobravam, moço, tá certo isso?” Tinha guarda armado, “a gente era tratado como preso, não tinha banheiro, a água de beber era a mesma dos animais, tinha que pegar no cocho”. O salário do primeiro mês não pagou as dívidas. E não dava pra largar o serviço, eles falavam que tinha que pagar tudo antes de pensar em ir embora. Passou a comer dia sim, dia não, pra economizar. O corpo pesava, começaram a dizer que ele era preguiçoso, um dia desmaiou no meio da tarde e teve o dia descontado. Era de lascar.

Pra encurtar a história, já ia pra oito meses e ele devendo. A saudade remoia por dentro, a mulher (como estaria se virando?), “os filhinho crescendo longe da gente...” e enxugou as lágrimas com os pulsos, como se não pudesse tocar as lágrimas do sentimento mais puro com aquelas mãos deformadas de tão grossas. Pensou em fugir, mas temia ser pego. Vários fugiram enquanto ele esteve lá. “Mas os cabra ia atrás e quando pegava era uma judiaria, pra dar o exemplo, pra dar medo de fugir, estropiava o sujeito.” Com o tempo foi dando um desespero maior que o medo e ele se atirou na mata numa noite, decidido a fugir ou morrer, o resolvido era não ser pego vivo. Encarou dias e noites na mata, comendo frutas e folhas, uma que outra tanajura viva, já ia cinco dias sem comer um cozido. 

Ele comia com gosto a mandioca sobre uma tábua improvisada e perguntou pra que lado era o Cariri, quando os faróis de um jipe viraram da estrada em direção à borracharia, iluminando o telhado e indo na direção do posto pra parar de lado, junto a nós. Dois na frente e um atrás. O motorista pergunta “cadê o borracheiro?”, eu respondo “foi embora faz tempo”. “Essa porra não é vintequatro horas?” Só então percebo escrito na parede, 24 H. Dou uma risada, “é, tá escrito aí”. Ele quer saber se eu sei onde mora o cara, eu explico ser viajante, "tô só me abrigando à noite, sigo viagem de manhã, do borracheiro só sei que me deu licença pra dormir aqui e cozinhar essa mandioca, tá servido?” Ele virou pro cara de trás, “e agora?” “Toca pro posto”, disse o outro. E saíram levantando poeira.

Olhei pro lado, o cara tinha sumido, junto com a tábua cheia da macaxeira cozida. Não demorei pra entender. Fiquei olhando o jipe, lá no posto. Os três estavam no balcão do bar, conversando com o que me pareceu ser o dono. Beberam alguma coisa, pagaram e foram embora. Terminei de comer, levantei e fui até o lado da floresta. Olhei a escuridão cheia de sons, grilos, rãs, sapos, corujas e outras aves noturnas, às vezes um guincho de caça na hora da morte,  ou um canto distante, respondido por outro canto mais distante ainda. Gritei “eles já foram embora!” e nenhuma resposta. Mais alto um pouco, “eles já foram, pode voltar, parceiro!” e nada.

Fui até a mochila, peguei a escova de dentes, toda descabelada – "tem que trocar essa merda" – e me aproximei da banheira que servia pra meter a câmera de ar e achar o furo pelas bolhas. Olhei a água na luz precária do posto à distância, “nem tá tão turva assim”, com a concha da mão pus duas mãozadas na boca, pra bochechar. Enfiei a escova na banheira e limpei os dentes, fazendo uma careta depois de cuspir a última água – “borracha pura!”.

O cara não voltou. Enquanto arrumava a mochila como travesseiro e me ajeitava de lado na tábua, pensei “será que ele tá correndo até agora?” Cansado e sem fome, dormi logo, um sono sem sonhos, desses de apagar.

Acordei começava a clarear. O ex-escravo tava dormindo em cima de uns pneus, todo torto, as pernas sujas de lama pelas calças acima, passando dos joelhos. Descalço ele já estava ontem. Mexi nas cinzas debaixo da lata, vi brasa, juntei uns gravetos que tavam do lado, acendi o fogo pra esquentar o resto da mandioca. O pernambucano acordou com o movimento e sentou rápido, a cara amarrotada de sono lhe dava um ar zangado. “Tu podia ter voltado, rapaz, os caras foram embora logo, acho que era só um pneu furado, mesmo.” Ele sacudiu a cabeça, sem encarar, “nunca se sabe”.

Quando ferveu a água eu perguntei, “cadê aquela tábua que tu usou ontem?” Ele foi até uns vinte metros na direção da mata e pegou no chão. Estranhei, “ué, como é que isso foi parar aí?” Ele quase riu, “foi o tempo de meter a macaxeira todinha na boca e largar a tauba.” Eu ri alto, ele justificou, tava com fome, dois dias que não comia.

Acabamos de comer na chegada do borracheiro, já dia claro, perto do sol nascer. Ele trazia café e ofereceu com um sorriso branco de fazer contraste com a pele preta, seu Nicanor era de um tamanhão que dava medo, mas com uma expressão de bondade calma e sábia. O pernambucano, entretanto, murchou na sua chegada e ficou mudo, olhos baixos. Aceitou o café com um “deus lhe pague” e mais não falou. Nem precisou, eu conversei com o negão todo o tempo, área de garimpo é área de muitas histórias, de muita vivência, muito risco e muita sabedoria.

Agradeci por nós dois e, por um instante, pensei que o sertanejo ia comigo, pois saiu junto e foi andando ao meu lado, na direção da estrada. Mas ele parou de repente na beira do acostamento e perguntou, “sabe pra que lado é o Cariri?” Lembrei da noite, ele tinha acabado de fazer essa mesma pergunta antes do jipe aparecer e ele desaparecer na noite sem a resposta.

Eu pensei um pouco e disse “acho que tu vai ter que ir pra Imperatriz ou pra Açailândia, de lá deve ter estrada que vá praquelas bandas". Ele me olhou como se eu não estivesse entendendo e tentou de novo, “não, eu digo... sabe apontar com a mão pra que lado é?” Olhei um pouco pra ele, o sol começava a despontar, do outro lado da pista. Estendi o braço, “tá vendo onde o sol tá nascendo? Põe três dedos do lado dele, fecha um olho pra marcar o ponto, tá vendo?” Ele esticou o braço, pôs os três dedos, marcou o ponto no horizonte, “o Cariri é pra lá”. Ele baixou o braço e continuou olhando na direção. Quase pra si mesmo, perguntou “o Cariri é pra lá, mesmo?” Eu disse “é, mas o Cariri é grande”. Ele tinha um sentimento forte quando falou “chegando lá eu me acho, fácil”. E me olhou com felicidade nos olhos, “do outro lado do Cariri tá minha família”, e sorriu um sorriso rápido, antes de perder o olhar de novo naquela imensidão.

Eu carregava mochila, cobertor – que me servia de colchão, naquele clima quente – e violão. Ele só tinha a roupa do corpo, meio em frangalhos. Desejei boa sorte e comecei a caminhar pelo acostamento. Ele chamou, “ô ripe!” Eu parei e virei, ele vinha na minha direção, as mãos estendidas seguraram a minha, “agradeço a Deus ter lhe encontrado”, olhando profundamente nos meus olhos. Sorri, apertei suas mãos sem saber o que dizer, os olhos arderam, encheram, respirei fundo, retomei a caminhada, lembrando quantos desamparados no mundo, quanta sujeira e injustiça dos poderosos, um nó na garganta, uma raiva surda misturada com uma tristeza imensa.

Olhei uma vez pra trás e ele estava lá, em pé junto do acostamento, olhando na direção do Cariri, no horizonte do outro lado da “rodage”*. Bem mais na frente, já a uns quinhentos metros, virei pra olhar de novo, ele não estava mais.

Rodage – estrada de asfalto.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.