Amazônia,
rodovia Belém-Brasília, 1980. Noite. Debaixo do telhado aberto em frente à
borracharia fechada, uma lata quadrada sobre o fogo cozinha a mandioca, a água
borbulhando frenética. Sentado numa tábua, olho o fogo e escuto o silvo dos
pingos das grandes bolhas que estouram caindo sobre as brasas, encostado na única
parede do telhado quadrado, a porta da frente da borracharia. À esquerda era a
estrada, na frente o posto de abastecimento mal iluminado a uns cem metros, à
direita a floresta, com árvores enormes fazendo a silhueta da escuridão.
Distraído
olhando o fogo, tomei um susto quando o vulto surgiu, justo do escuro,
amenizando a surpresa com voz humilde, “louvado seja nossinhô jesus cristo, co’a
sua licença”. “Se achegue moço”, tratei de responder na lei da hospitalidade, “se
é de paz, bem-vindo seja". Apontei a lata no fogo, ele já tava olhando pra ela, "tô cozinhando uma macaxeira com sal, tem bastante, se
quiser.” Eu tinha posto a mandioca toda pra cozinhar, era um pé que tava
maduro, na beira da estrada, uns quilômetros atrás. Pensava em levar pra comer
também no dia seguinte, mas dividia de bom grado, ele estava mesmo com fome, tanto que respondeu na hora, “vou aceitar sim, desde
ontem que não como”.
O sujeito era
pequeno e magro, mas parecia ágil e rígido, dava pra ver a musculatura fina e
resistente aí nos seus trinta anos. Tava sujo, roupas rasgadas, as marcas de andar pela floresta, pelo
jeito ele se escondia de alguma coisa. Era melhor não fazer assunto disso.
No princípio
arredio às duas perguntas mais comuns nesses encontros – de onde se vem e pra
onde se vai – ele relaxou depois que viu o painel de brincos, pulseiras e
colares, “ah, tu é ripe”. E contou ser do sertão de Pernambuco, um povoado
perto da fronteira com o Ceará, “esquecido pelos governo”. Apareceu um “gato”
procurando trabalhador pra colheita numa fazenda no Pará, os dias estavam
ruins, seca braba, a roça não dava nada, a criação pra morrer de sede. O acerto
parecia bom, em três meses voltaria pra família com um dinheirinho, era mulher
e dois filhos que ficavam. Embarcou no caminhão do "gato" e levou uma semana pra chegar na tal fazenda, foi enchendo com mais contratados pelos caminhos, chegou lotado.
Só que ele já
chegou devendo, passagem, hotel, refeições, “até as ferramenta de trabalho eles
cobravam, moço, tá certo isso?” Tinha guarda armado, “a gente era tratado como
preso, não tinha banheiro, a água de beber era a mesma dos animais, tinha que
pegar no cocho”. O salário do primeiro mês não pagou as dívidas. E não dava pra
largar o serviço, eles falavam que tinha que pagar tudo antes de pensar em ir embora. Passou a comer
dia sim, dia não, pra economizar. O corpo pesava, começaram a dizer
que ele era preguiçoso, um dia desmaiou no meio da tarde e teve o dia
descontado. Era de lascar.
Pra encurtar
a história, já ia pra oito meses e ele devendo. A saudade remoia por dentro, a
mulher (como estaria se virando?), “os filhinho crescendo longe da gente...” e
enxugou as lágrimas com os pulsos, como se não pudesse tocar as lágrimas do
sentimento mais puro com aquelas mãos deformadas de tão grossas. Pensou em
fugir, mas temia ser pego. Vários fugiram enquanto ele esteve lá. “Mas os cabra
ia atrás e quando pegava era uma judiaria, pra dar o exemplo, pra dar medo de
fugir, estropiava o sujeito.” Com o tempo foi dando um desespero maior que o
medo e ele se atirou na mata numa noite, decidido a fugir ou morrer, o
resolvido era não ser pego vivo. Encarou dias e noites na mata, comendo frutas e folhas, uma que outra tanajura viva, já ia cinco dias sem comer um cozido.
Ele comia com
gosto a mandioca sobre uma tábua improvisada e perguntou pra que lado era o
Cariri, quando os faróis de um jipe viraram da estrada em direção à
borracharia, iluminando o telhado e indo na direção do posto pra parar de lado,
junto a nós. Dois na frente e um atrás. O motorista pergunta “cadê o
borracheiro?”, eu respondo “foi embora faz tempo”. “Essa porra não é
vintequatro horas?” Só então percebo escrito na parede, 24 H. Dou uma risada, “é,
tá escrito aí”. Ele quer saber se eu sei onde mora o cara, eu explico ser
viajante, "tô só me abrigando à noite, sigo viagem de manhã, do borracheiro só
sei que me deu licença pra dormir aqui e cozinhar essa mandioca, tá servido?”
Ele virou pro cara de trás, “e agora?” “Toca pro posto”, disse o outro. E saíram
levantando poeira.
Olhei pro
lado, o cara tinha sumido, junto com a tábua cheia da macaxeira cozida. Não
demorei pra entender. Fiquei olhando o jipe, lá no posto. Os três estavam no
balcão do bar, conversando com o que me pareceu ser o dono. Beberam alguma
coisa, pagaram e foram embora. Terminei de comer, levantei e fui até o lado da
floresta. Olhei a escuridão cheia de sons, grilos, rãs, sapos, corujas e outras
aves noturnas, às vezes um guincho de caça na hora da morte, ou um canto distante,
respondido por outro canto mais distante ainda. Gritei “eles já foram embora!”
e nenhuma resposta. Mais alto um pouco, “eles já foram, pode voltar, parceiro!”
e nada.
Fui até a
mochila, peguei a escova de dentes, toda descabelada – "tem que trocar essa
merda" – e me aproximei da banheira que servia pra meter a câmera de ar e achar
o furo pelas bolhas. Olhei a água na luz precária do posto à distância, “nem tá
tão turva assim”, com a concha da mão pus duas mãozadas na boca, pra bochechar.
Enfiei a escova na banheira e limpei os dentes, fazendo uma careta depois de
cuspir a última água – “borracha pura!”.
O cara não
voltou. Enquanto arrumava a mochila como travesseiro e me ajeitava de lado na tábua,
pensei “será que ele tá correndo até agora?” Cansado e sem fome, dormi logo, um
sono sem sonhos, desses de apagar.
Acordei
começava a clarear. O ex-escravo tava dormindo em cima de uns pneus, todo torto,
as pernas sujas de lama pelas calças acima, passando dos joelhos. Descalço ele
já estava ontem. Mexi nas cinzas debaixo da lata, vi brasa, juntei uns gravetos
que tavam do lado, acendi o fogo pra esquentar o resto da mandioca. O pernambucano
acordou com o movimento e sentou rápido, a cara amarrotada de sono lhe dava um
ar zangado. “Tu podia ter voltado, rapaz, os caras foram embora logo, acho que
era só um pneu furado, mesmo.” Ele sacudiu a cabeça, sem encarar, “nunca se
sabe”.
Quando ferveu
a água eu perguntei, “cadê aquela tábua que tu usou ontem?” Ele foi até uns
vinte metros na direção da mata e pegou no chão. Estranhei, “ué, como é que
isso foi parar aí?” Ele quase riu, “foi o tempo de meter a macaxeira todinha na
boca e largar a tauba.” Eu ri alto, ele justificou, tava com fome, dois dias
que não comia.
Acabamos de
comer na chegada do borracheiro, já dia claro, perto do sol nascer. Ele trazia
café e ofereceu com um sorriso branco de fazer contraste com a pele preta, seu Nicanor era de um
tamanhão que dava medo, mas com uma expressão de bondade calma e sábia. O
pernambucano, entretanto, murchou na sua chegada e ficou mudo, olhos baixos. Aceitou
o café com um “deus lhe pague” e mais não falou. Nem precisou, eu conversei com
o negão todo o tempo, área de garimpo é área de muitas histórias, de muita vivência,
muito risco e muita sabedoria.
Agradeci por
nós dois e, por um instante, pensei que o sertanejo ia comigo, pois saiu junto
e foi andando ao meu lado, na direção da estrada. Mas ele parou de repente na beira do acostamento e
perguntou, “sabe pra que lado é o Cariri?” Lembrei da noite, ele tinha acabado de fazer essa mesma pergunta antes do jipe aparecer e ele desaparecer na noite sem a resposta.
Eu pensei um
pouco e disse “acho que tu vai ter que ir pra Imperatriz ou pra Açailândia, de
lá deve ter estrada que vá praquelas bandas". Ele me olhou como se eu não estivesse
entendendo e tentou de novo, “não, eu digo... sabe apontar com a mão pra que lado é?” Olhei um
pouco pra ele, o sol começava a despontar, do outro lado da pista. Estendi o
braço, “tá vendo onde o sol tá nascendo? Põe três dedos do lado dele, fecha um
olho pra marcar o ponto, tá vendo?” Ele esticou o braço, pôs os três dedos,
marcou o ponto no horizonte, “o Cariri é pra lá”. Ele baixou o
braço e continuou olhando na direção. Quase pra si mesmo, perguntou “o Cariri é
pra lá, mesmo?” Eu disse “é, mas o Cariri é grande”. Ele tinha um sentimento
forte quando falou “chegando lá eu me acho, fácil”. E me olhou com felicidade
nos olhos, “do outro lado do Cariri tá minha família”, e sorriu um sorriso rápido,
antes de perder o olhar de novo naquela imensidão.
Eu carregava
mochila, cobertor – que me servia de colchão, naquele clima quente – e violão. Ele
só tinha a roupa do corpo, meio em frangalhos. Desejei boa sorte e comecei a
caminhar pelo acostamento. Ele chamou, “ô ripe!” Eu parei e virei, ele vinha na
minha direção, as mãos estendidas seguraram a minha, “agradeço a Deus ter lhe
encontrado”, olhando profundamente nos meus olhos. Sorri, apertei suas mãos sem saber o que dizer, os olhos arderam, encheram, respirei fundo, retomei a caminhada, lembrando
quantos desamparados no mundo, quanta sujeira e injustiça dos poderosos, um nó
na garganta, uma raiva surda misturada com uma tristeza imensa.
Olhei uma vez
pra trás e ele estava lá, em pé junto do acostamento, olhando na direção do Cariri, no horizonte do
outro lado da “rodage”*. Bem mais na frente, já a uns quinhentos metros, virei pra olhar de novo, ele não estava mais.
Rodage – estrada de asfalto.