1. (Mente Consciente): Conte um pouco da
sua historia de vida.
Nasci
na parte garantida da sociedade. Fui nela, usufruindo sem perceber, até os 15,
16 anos. Fui percebendo aos poucos a desigualdade e a injustiça. Comecei a me
sentir constrangido, como um atleta que recebe o privilégio de começar a prova
próximo ao final - que honra pode haver nisso?
Fui experimentando e percebendo quantas distâncias, além das aparentes,
me separavam da maioria e da sua realidade. O convívio foi me mostrando minhas
próprias fraquezas, as fraquezas dos privilegiados, que dependem de serviçais
pra quase tudo e os tratam com uma arrogância grosseira, ou mesmo uma
superioridade benevolente. Então fui experimentar como é não ter nada.
Tinha
sido bancário (BB), militar (EsPCEx), vendedor, mergulhador e estudante de
direito. E estava com 19 anos. Meus pais não concordaram, mas eu estava
decidido a experimentar. A vida tinha perdido o sentido (não admitia esquecer o
mundo e pensar só em mim e na minha carreira, era pouco pra ser a razão da
vida, eu precisava de objetivos que me dessem satisfação ao espírito, que
acabassem com minha enorme angústia – difícil explicar de forma resumida) e eu precisava
procurar algum. Não pedia nada, além do respeito à minha decisão. Impotentes em
impedir, ameaçaram com o banimento definitivo se eu não seguisse o caminho
convencional. Mas eu precisava não ter nada, precisava construir o meu respeito
próprio, diferente da sensação de superioridade que eu via à minha volta,
artificial e falsa. Então as relações foram cortadas e minha experiência se
tornou minha situação. O preço de voltar atrás cobrava minha alma, por isso eu
não tinha caminho de volta.
A
partir daí, toda a bagagem educacional e informacional que eu tinha passou a
ser usada na análise das vivências que passei a ter, sem posição de classe,
materialmente abaixo de qualquer classe. Tudo o que eu tinha de material,
carregava nas costas.
Perdi
os documentos e a proteção social. Andava na estrada, a pé e de carona,
dormindo nos acostamentos, postos, construções abandonadas, debaixo de
marquises. O mundo passou a me tratar como mendigo, hippie, ralé. Eu não me
importava, ao contrário, percebia que quanto maior a minha “inferioridade”,
mais sinceridade o mundo tinha comigo e mais próximo eu ficava da realidade. Eu
não queria privilégios, já os tinha tido e sabia que não eram grandes coisas,
diante do significado que eu buscava na vida. O sentimento de superioridade, a
meu ver, bloqueava a inteligência, tornava as pessoas burras, em certos
aspectos. Eu queria era aprender, mesmo sem saber muito bem o quê. E aprendia o
tempo todo.
Vivia
nas periferias, entre os sabotados da sociedade, encantado com a sabedoria que
nunca imaginara. A coletividade, tendo negado o acesso ao saber, desenvolvia
uma sabedoria tão profunda que superava em muito o saber acadêmico, que já me
parecia meio desumano. Percebia que isso vinha do sentimento, do coração, e não
da razão, do cérebro. Isso fez nascer e crescer um grande respeito pelos
sabotados, os excluídos, os periféricos. Atrás daquela ignorância explícita,
havia um saber vivencial, uma sabedoria forte e profunda, parte vinda de
dentro, parte da vivência, muito mais forte que o saber acadêmico. O saber se
envolve em medo, proteção e, com triste freqüência, é bloqueado pelo sentimento
de superioridade. A sabedoria nasce da serenidade diante das dificuldades, da
experimentação empírica, da humildade e da intuição.
Logo
no começo, casei com uma figura pra quem balancei a mochila quase vazia no ar e
avisei, “tudo o que eu quero de material na vida tem que caber nessa mochila. O
que não couber, não me pertence, nem me interessa”, como um aviso, uma
advertência. Calma, eu tinha só 19 anos, lembrem-se de vocês mesmos (os que
tiverem pelo menos mais de 30. Os que forem mais jovens, saibam que criamos
conceitos pétreos e, com o tempo, percebemos que a vida pode virar um vulcão e
derreter as pedras). Três filhos eu tive com essa figura, vivendo de arte e
artesanato. Vim para o sudeste, definitivamente, em 85, e morei no Rio, em Saquarema, Bacaxá, nas ruas do Rio, Jacarepaguá, Petrópolis, Montes Claros, Sete Lagoas, Prudente de Morais, Belo Horizonte,
Visconde de Mauá, Rio de novo e Niterói, onde estou até hoje. Isso pra resumir a história.
2. (Mente Consciente) “A minha pobreza é a
minha riqueza, e nessa sociedade competitiva a minha derrota é minha vitoria”.
O que te levou a abandonar, a renunciar todo prestigio e privilégios que o
capitalismo pode te proporcionar?
É
um prestígio falso, baseado num sentimento de superioridade social fajuto,
improvisado, com jeito de farsa, que não resiste a um olhar mais atento.
Superioridade social é manter como prioridade máxima o atendimento a todas as
necessidades básicas materiais e não materiais de toda a população, sem admitir
de forma alguma, exceções. Isso é superioridade social, a responsabilidade solidária
de todos para com todos e a prioridade das situações de fragilidade de qualquer
espécie. Nossa sociedade não alcançou, ainda, esse patamar mínimo de dignidade.
Estar em situação de privilégio, numa sociedade como a nossa, deveria ser
motivo de constrangimento, de vergonha. A meu ver, aqueles que se encontram em
patamares mais privilegiados da sociedade estão é em dívida moral, com a
maioria que não tem acesso, e deveriam tomar seus privilégios como responsabilidade
social, e não superioridade. Mas o ego, superestimulado pela cultura midiática
do consumo, da posse e da ostentação, transforma essa responsabilidade em
soberba. Claro que é apenas minha opinião, há quem pense diferente. E é claro
que vai agir diferente e seguir sua consciência e seus valores. Eu analiso as
ações, mas não julgo os atores. Cada um com suas decisões e suas conseqüências,
que “o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória”. Prefiro trabalhar na
direção do explorado, do oprimido que é, em última análise, o sustentáculo
inconsciente desta sociedade injusta, perversa, covarde e suicida.
Os
privilégios que eu usufruía eram parte da minha realidade, eram comuns no meu
nível social. No nível de angústia, de falta de sentido na minha vida, não me
pareciam valores a serem considerados. Ao contrário, pareciam um peso a tirar
de cima de mim, pra eu descobrir algum sentido na vida. Não ter nada, no
princípio, foi uma embriaguez, um respirar, uma sensação de estar livre pra
crescer, pra procurar sem saber nem direito o quê, de perguntar, ouvir,
aprender, observar e absorver sem fim e perceber que, pra mim, é este o sentido
da vida. Aprender, crescer, se desenvolver por dentro e por fora.
Quando
vejo os privilegiados da sociedade, meu sentimento passa longe de admiração ou
inveja; tampouco se aproxima do ódio ou do despeito; nem mesmo de indiferença
ou desprezo. É difícil definir. Não gostaria de estar entre eles, embora não me recuse a circular por ali, se é preciso. Diante da
minha humanidade, teria vergonha de usufruir privilégios. O que não significa condenar os abastados, nem santificar a pobreza.
continua... é grande a entrevista.