Andam pedindo que eu faça uma análise da situação atual, com essas "manifestações" pelo território nacional. Tenho observado, confesso que de saco cheio, essas orquestrações que se pretendem - ou se anunciam mentirosamente - "políticas", mas que se desmoralizam nas propostas, nas palavras de ordem sem substância, cênicas e vazias de significado, além da exposição de ódio e alienação desses "milhões de pessoas". Estas movimentações a partir da mentalidade das elites locais em vários países da América Latina são muito semelhantes. Antes de tudo, ódio e agressividade, pra anular qualquer possibilidade de diálogo que obrigue a algum esclarecimento a respeito das reais intenções dessas movimentações promovidas pelas mídias infiltradas de interesses corporativos internacionais. O fato dos programas de domingo serem interrompidos durante toda a sua programação pra noticiar essa manifestação sem alma - ou com a alma do demônio - é bem sintomático, mostra os interesses banqueiro-empresariais - o motor da mídia comercial dominante - insuflando as elites, cooptando o sentimento de revolta dessas minorias privilegiadas, diante do aparecimento de pobres em locais antes reservados exclusivamente a essas minorias, como universidades e aeroportos. Há pouco tempo vimos uma dessas peruas da elite reclamar que não tem mais graça viajar à europa ou aos esteites, porque até o "seu" porteiro pode fazer isso. Mentalidade escravista, exploradora, anti-população.
O governo petista, partido que antes de chegar em tal patamar - durante a época dos militares e logo depois - era o refúgio de verdadeiros democratas, fez o seu auto-expurgo, conservando apenas os "moralmente flexíveis" e dando no que deu, perdendo sua alma e sua popularidade pra compor com o verdadeiro poder e se tornar o seu gerente. Estamos diante de uma luta de capatazes, ambos loucos pra ocupar o lugar de gerentes. Os patrões, donos da fazenda Brasil, nem moram na área - daí os capatazes fazerem pose de dono -, apesar de a explorarem com afinco e grandes lucros. Educação pública sabotada pra manter a ignorância, educação privada formando os supervisores e chefes da ignorância, comunicações dominadas pra distorcer a realidade, enganar o povo e formar mentalidades absurdamente superficiais, instituições públicas infiltradas por agentes do poder real pra conter qualquer ação na direção de uma democracia e o quadro está formado, dentro do predomínio econômico sobre a falsa política.
Há duas linhas de capatazes. Uma, benevolente e bonachona, não tem ódio dos escravos - nós, como povo - e, desde que se comportem, atiram migalhas a eles, como prêmio, incentivo a que continuem trabalhando sem reclamar. A outra é imbuída de um ódio e um desprezo incontrolável pelos escravos, que devem ser mantidos sob pressão, debaixo de chicote, comendo pouco pra não ficar mole, apanhando muito pra produzir ao máximo, sem qualquer chance de pensar ou agir fora do exigido.
A predominância da classe rica nessas "manifestações" demonstra a reação dos exploradores do trabalho assalariado às pequenas aberturas que permitiram a passagem de alguns pobres pra áreas onde, antes, pobres só entravam como serviçais. O ódio e o preconceito, além da superficialidade, da falsidade, da cenografia mambembe das propostas, foram a tônica dessa armação midiática que estimulou ao máximo a inconformação com a ascensão da classe pobre a patamares nunca dantes alcançados. As periferias se movimentam, resgatam auto-estima, percebem a sabotagem estatal ao seu desenvolvimento, reivindicam direitos constitucionais antes desconhecidos - e desrespeitados desde que se inventaram as constituições. Há informativos nas favelas, há movimentos organizados de esclarecimento e conscientização, o processo segue seu curso e os injustamente privilegiados estão em pânico, mortos de medo - e esse pavor é evidente no ódio visceral que se vê nesses ajuntamentos de carros caríssimos, de gente rica acostumada a explorar os pobres, que se sentem superiores como seres humanos, apesar de dependerem completamente do trabalho de quem desprezam.
Observando a América Latina, vejo as manifestações dos ricos em toda parte, com incrível semelhança de propósitos e comportamentos. Não é difícil perceber a orquestração continental a partir das elites planetárias, com a costumeira ingerência no que consideram seu quintal, seu domínio, nossos países condenados à exploração desenfreada, à ignorância imposta e planejada, à desinformação estratégica, à miséria e ao abandono de parte da população, enquanto se privilegia as elites locais, sempre traidoras das suas nações, inimigas das multidões, entreguistas e subservientes à ditadura banqueiro-empresarial que manda no mundo através do aparato público dos países do chamado "primeiro mundo", herdeiros do colonialismo europeu, desse parasitismo planetário que agoniza entre guerras e catástrofes provocadas pelos poderes vigentes. O que acontece no Brasil é parte da estratégia de subjugação do povos, ameaçada pelos movimentos sociais, pela união dos países dominados, pelas propostas de integração solidária do povos. A herança colonialista ensina: é preciso dividir, promover conflitos e ódios, pra dominar.
Todo esse movimento, barulhento, odiento, mentiroso, superficial e sem propósito lúcido tem origem no ódio de classe, no terror que os exploradores têm de que os explorados se esclareçam, se organizem, que resistam às explorações desumanas a que são submetidos no dia a dia, no seu cotidiano, há gerações e gerações. É a inconformação dos desumanos com a humanização do sistema, que mal se esboça e apenas nas intenções, nos paliativos iniciais que romperam campos de força de proteção cuja função era manter os pobres fora de locais estratégicos na sociedade, como a academia, os cargos públicos, os clubes fechados, aeroportos, etc.
Senão, o que faria essas pessoas abrirem mão dos seus clubes, piscinas, das suas bolhas de usufruto, de luxos e desperdícios, pra estarem nas ruas vociferando seu ódio contra um governo que, apesar de vendido aos poderes econômicos, atira migalhas aos pobres? Eles não sabem, mas intuem apavorados, o que podem fazer com essas migalhas aqueles que não têm nada além de dificuldades pra superar na vida. As migalhas nas periferias são sementes e se reproduzem como os peixes e os pães de que falam as escrituras cristãs, se propagam e contaminam em conscientização e esclarecimento. Este é o trabalho do momento, desenvolvimento interno, de sentimentos e consciência diante do mundo e da vida. O processo é inexorável, impossível de conter. E esses esforços de contenção são a tentativa de manter as coisas como sempre foram. Nada permanece como é, tudo está em permanente mutação e o máximo que conseguirão será causar muito mais sofrimento do que o que já seria necessário no caminho da coletividade humana. A rota da caminhada já está traçada. Entre idas e vindas, seguimos.
Os beneficiários da miséria, da pobreza e da ignorância se debatem em fúria, vendo diminuírem - apenas diminuírem - os abismos sociais entre eles e seus empregados-explorados. Em sua desumanidade costumeira, herança do escravismo, não se conformam em se ver como são. E não engolem a idéia de igualdade de direitos entre todos, incapazes que são de manterem seus sentimentos de superioridade, estando em pé de igualdade. Seus privilégios são um vício, um fragilizador da sua própria humanidade. Por isso são tão odientos e desumanos - o pânico gera o ódio.
Quanto aos ingênuos, os que se deixam levar, os bois de manada, nada de inesperado ou surpreendente numa sociedade que produz ignorância e alienação, que produz mentalidades consumistas e competitivas, que estimula o egoísmo, a vaidade e a superficialidade, em massa, permanentemente. Daí a essa dicotomia ridícula, anti-petralha ou governista, constrangedoramente superficial, teleguiada, vazia de significado, desmoralizante pra mentalidade dos que a assumem.
Não gostaria nem de comentar o assunto. Estou apenas atendendo a pedidos de pessoas a quem considero. O que vejo é uma extensão da estratégia de dominação mundial, semelhante em toda parte, adaptada às realidades locais e suas características sociais e culturais. A visão míope que se percebe é também parte da estratégia, pra que não se veja o quadro mundial, a geopolítica das corporações que dominam os Estados e a vergonhosa manipulação da mentalidade pelo exército de especialistas em psicologia do inconsciente, em publicidade e márquetim, em sociologia, em antropologia, em todas as ciências cooptadas pra manter a dominação da massa humana - em benefício do punhado de parasitas, vampiros que mantêm dinastias no topo do poder mundial, há muitas gerações.
Comportamentos, mentalidades, valores, relações sociais produzidos em laboratórios do pensamento e implantados pelas mídias são elementos a serem superados na formação de pensamentos próprios, independentes, a partir da própria prática e da visão de mundo que se forma vivendo e não ouvindo as mentiras atiradas pelos organismos viciados de comunicação - criados nesta intenção.
Nomear como políticos esses farsantes que se fazem passar por representantes do povo é uma demonstração de cegueira, de condução mental, de crença ingênua em instituições infiltradas e dominadas por interesses de poucos pra enganar muitos. Isso não é política. É farsa.
PS - É preciso sempre lembrar que o petróleo descoberto no pré-sal, abundante e de ótima qualidade, tem motivado a campanha midiática de desmoralização da Petrobrás, a serviço das gigantes do petróleo mundial. Que estão bem infiltradas no Estado, nos parlamentos, nos judiciários, nos executivos, em todo lugar onde a "democracia" pode ser comprada. E a quem serve o tumulto institucional, sempre na desestabilização de um governo que opõe uma mínima resistência à ambição avassaladora das mega-petroleiras mundiais.
Há corrupção em todas as obras públicas, é de conhecimento geral, público e notório. Só não se fala a respeito com coerência e ligação, pra não se perceber que todas as instituições são uma enorme falcatrua mentirosa e mantenedora de miséria, ignorância e abjeções sociais que de há muito já poderiam ter sido resolvidas, pelas condições de produção, tecnológicas, logísticas, acadêmicas, de todas as formas há condições de resolver todos esses problemas básicos em todo o planeta.
Pense-se a respeito, é uma necessidade.
Eduardo Marinho
OBSERVAR E ABSORVER - arteutil.em@gmail.com - Pra ver o trabalho, clique no link abaixo de "Ver o trampo".
quinta-feira, 17 de março de 2016
sexta-feira, 11 de março de 2016
Viagem a Sampa, curta e densa.
| Aqui o cansaço, baqueado com a garganta, pode baixar em São Mateus. Eu tava em casa. |
Uma noite na estrada, via Dutra, poucas horas dormidas num
posto de abastecimento. Na casa que nos recebeu, um bom banho. As atividades,
no entanto, não terminaram antes das quatro da manhã, enquanto esperávamos pra
descansar. Éramos três, dois dormiram na Kombi e todos dormimos precariamente,
de novo por pouco tempo. Ali era muito mais casca que miolo, muito mais forma
do que conteúdo. O interesse estava no ar, os olhares não correspondiam às
expressões e, quando correspondiam, mostravam ingenuidade e superficialidade de
consciência – em plena simulação de consciência cósmica, com tendências
orientais e alguns traços da mística afrobrasileira. Roupas vaporosas, túnicas
indianas, turbantes, incensos, velas, o cenário era bonito, embora de
espiritualidade só tivesse o que tem em qualquer parte que haja vida. Os que
deixam o hábito de comer carne, muitíssimas vezes, sentem superioridade sobre
os carnívoros, “primitivos”, “atrasados”, sem perceber que este sentimento de
superioridade é o demonstrativo da sua própria precariedade espiritual, sem
perceber suas próprias necessidades evolutivas, se contentando com este
sentimento mediocrizante de superioridade e se fechando em grupinhos “mais evoluídos”, segregando mais ou menos os que não fazem parte. E aí se estaciona, se fabrica futuros sentimentos de vazio, de ausência de sentido na vida, de angústias inevitáveis. Falta
raiz, falta realidade, falta o pé no chão, o peso da ação prática, da visão
reta, da simplicidade no olhar, no sentimento de igualdade, reconhecendo a diversidade. Namastê... gratidão... e a gente vê a distância nos
olhos e no sentimento. Quando não é distância afetiva, é distância de consciência, distância de realidades, distâncias morais. Não há
fraternidade verdadeira sem o sentimento de família, de igualdade e respeito, com todas as
diferenças de forma, de atitude, de pensamentos e sentimentos. A humildade aproxima, aprende e ensina, sem superioridade, por prazer, por dever moral, por necessidade interna. E, sobretudo, sem interesse algum em retribuição, seja qual for. O prazer em fazer é a retribuição.
| Primeiro papo, de manhã, no MASP, avenida Paulista. |
| Muita gente parou pra ver, pra assuntar, alguns pra comprar. |
| Papo no ateliê, com o Val e a rapaziada. |
| A turma reunida no Ateliê de São Mateus. |
Agradeço a recepção de Toddy e Val, de dona Malvina e seu
Atílio. Tudo família, em sentimento e em humanidade. Solidariedade plena e
valiosa.
Os papos no ateliê do grafite são sempre densos, profundos e enraizados na realidade da maioria, no confronto entre Estado e população periférica, entre a repressão, a exploração e o desrespeito cotidiano, social, econômico, político, instrucional, informacional. A autonomia é o primeiro passo a ser dado na direção da realização pessoal e coletiva. Autonomia do pensamento, na criação de valores e comportamentos, de desejos e objetivos de vida além da falsidade institucional.
| "Agora vou dormir, amanhã tem trezentos quilômetros até Visconde de Mauá." Dito e feito. |
sábado, 5 de março de 2016
Avenida Paulista hoje e amanhã. Segunda Slam Resistência.
Hoje vou expor na avenida Paulista, desenhos, livrinhos, zines, ímãs. Devo estar lá até a noite, conforme o clima - nos dois sentidos, chuva e astral.
Esta é uma postagem divulgativa e provisória, Avisando da exposição, hoje e amanhã. Segunda tem o evento do Slam Resistência, no começo da noite, na Praça Roosevelt.
Esta é uma postagem divulgativa e provisória, Avisando da exposição, hoje e amanhã. Segunda tem o evento do Slam Resistência, no começo da noite, na Praça Roosevelt.
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| Na praça Roosevelt, evento do Slam Resistência, com Adelson Del Chaves. |
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Retalhos das viagens ao vale.
Impressionante é o mínimo que expressa o sentimento.
Devastação apocalíptica nos povoados de Mariana, onde as pessoas parecem
anestesiadas, sem acreditar no que estão vendo, na destruição plena e
contaminada. Parece uma daquelas pancadas que se sente o choque e se sabe que a
dor virá em seguida, surgindo com o tempo, do fundo abalado pela porrada. A
devastação resultante é como um rastro da morte que passa em massa e arrasta
tudo o que encontra pela frente. Na beira dos rios, ribeirinhos pobres se
instalaram, desde sempre, em área de ninguém, se arriscando nas enchentes, se
prevenindo com lugares mais altos, protegendo suas pequenas importâncias ou perdendo
o pouco que têm, pra conseguir tudo de novo aos poucos, numa seqüência de cair
e levantar comum aos mais pobres. Pescadores, lavradores, garimpeiros viviam
nas beiras dágua, muitos com família, em barracos improvisados, de taipa,
estuque, chão batido, telhados de palha, criando seus patos, às vezes porcos,
galinhas, lavouras variadas. Estavam tranqüilos, não havia chuva, não havia perigo de enchente, quando ficam todos de orelha em pé no nível do rio. Ninguém os avisou, eles não tinham como se informar. Pelo Gualaxo do Norte, pelo rio do Carmo até o Rio
Doce, o volume da lama de rejeitos da mineração subiu as encostas, arrancando
árvores, levando casas, pontes, máquinas, carros, tratores, tudo, num estrondo
enorme. No meio, essa gente ignorada, invisível na sociedade, que não entrou na
conta dos mortos.
“Com os troncos vieram pedaços de gente, orelha, braço,
costelas, pés, tudo picado pela madeirama, não deu pra contar. Na frente da
troncarada tinha dois corpos inteiros, que a gente tirou e a turma da Samarco
levou.” Dono do posto na cidade de Rio Doce.
| Em Rio Doce ficou a maior aglomeração de troncos que eu vi na região. Desceram da serra enquanto a inclinação é forte, em Rio Doce o vale já ameniza a inclinação, o peso dos troncos os faz parar. |
“Eles tão vendendo essa madeira toda. Tão separando as de
qualidade pras madeireiras, as sem qualidade pras carvoarias. Eles não perde
nada.” Funcionário terceirizado pela Samarco, num dos canteiros de obras
improvisados em Rio Doce, a cidade.
“A gente ouviu falar, telefonaram pra cá avisando que a
barragem tinha rompido. Mas são oitenta quilômetros de lá até aqui, era pra
lama ter acabado pelo caminho. Ninguém acreditou, ninguém tomou providência,
ninguém tava preparado.” Papagaio, ex-garimpeiro e faz tudo na prefeitura de
Barra Longa.
| Quintais envenenados, hortas atropeladas pelos metais pesados. |
“Parecia o rugido de mil bichos, urrando pelo escuro, de madrugada,
cobrindo esses terreno tudo, chegando nos quintais, subiu por aqui, foi lá em
cima, acabou com tudo que tava plantado, e foi descendo rio abaixo aquele
rugido medonho. Aqui tinha de tudo, horta, fruta, cana, feijão, criação, até
pros passarinhos a gente plantava, preles vir cantar.” Rômulo, dono da birosca
feita em sua casa, onde comemos peixe vindo de outro lugar, trazido pelo
Papagaio.
O departamento de márquetim da Samarco é um dos mais
exigidos depois do rompimento da barragem. O “janeiro cultural” que a empresa
armou pra entreter e ocupar os flagelados pela lama química, além de gerar
ótimas imagens com os sorrisos que esperavam nas crianças, não teve muita
adesão, ninguém se interessou. Eles preferiam ter suas casas de volta, seu
trabalho, suas hortas e criações, suas ocupações cotidianas. Isso a Samarco não
pode nem pretende dar.
Mas o departamento de márquetim é persistente. Agora chamam
os flagelados, os quase mortos, os que perderam tudo, de “beneficiários”. Incrível.
A cara de pau não tem limites.
“Ninguém avisou a gente, a gente não sabia de nada, quando
viu era o rio morrendo e morrendo tudo dentro dele. Minha mãe tinha sonhado na
outra noite, contou pra gente e eu não consegui dormir, pensando no sonho dela.
A morte tá vindo pelo rio, ela disse. Eu levantei de madrugada, sem sono, fui
pra beira do rio. Tava amanhecendo quando eu vi chegar essa lama, aquele monte
de peixe morto na frente da onda. Parecia uma coberta, não vinha na água, vinha
cobrindo a água, como uma pele, um cobertor, por cima da água.” Rondon, cacique
no território krenak.
| Agora, na área dos krenak, só os cães e os urubus andam entre as pedras do rio Doce. Carniça contaminada. |
sábado, 13 de fevereiro de 2016
De Linhares a Baixo Guandu
| Muitos bichos nas lagoas visivelmente contaminadas. As garças parecem estranhar o ambiente, algo no ar, na água e na terra. |
Os oitenta quilômetros de Linhares a Baixo Guandu são melancólicos. Paisagens lindas, ilhas, plantações, café, cacau, banana, coco, criações de cabras, gansos, bovinos, porcos, mas um clima parado, sem ação, parece um suspense vazio, não se sabe o que vai ser e vai-se vivendo. Poucos se perguntam o porquê de tamanho desastre, a dimensão é tão grande que não se vê, muito menos de dentro. Ainda não se assimilou o tamanho, a dimensão, a duração desta morte do rio Doce que, apesar de sujo, destratado, ainda trazia a vida, de muitas formas. São mais de três milhões de habitantes em todo o vale, desde o alto da serra em Minas até Regência, no Espírito Santo.
| Aí a "barreira". |
| Do outro lado, a ponte danificada pela onda tóxica recebe reparos. |
Os animais seguem sua vida. Parecem perplexos e não é pra menos. A cada dia estranham, parece que esperam acordar de um pesadelo incompreensível.
As casas não foram atingidas pelo tsunami químico, mas as vidas foram atingidas em cheio.
Ao longo de todo vale, as cores dos metais pesados. Desde Bento Rodrigues até Regência.
Tudo pode parar, menos os trens cheios de minério que descem o rio Doce pros portos de exportação. A ganância e a cobiça que destruíram a maior bacia hidrográfica da região sudeste continua sua sanha exploradora, dominante que é do aparato público, de governantes, legisladores e juristas.
Composições enormes, puxadas por duas, às vezes três locomotivas.
Não quero falar em punição de culpados, já se fala demais nisso por aí. Nem vou cair na esparrela de repetir idiotices acomodativas como "o ser humano tá destruindo o planeta". Se há necessidade de falar em culpas, comecemos por nós mesmos, que compomos docilmente uma sociedade dominada e comandada por banqueiros e mega-empresários que impuseram um sistema social controlado por esse punhado de parasitas podres de ricos. Queremos o que nos foi induzido e nos comportamos como fomos condicionados. Competitivos, gananciosos, egoístas, louvamos os desenvolvimentos tecnológico e econômico e nem lembramos, como programados que somos, do progresso moral necessário, sem o que vemos imoralidades se naturalizando, perversidades rotineiras, a usurpação dos direitos básicos, humanos, fundamentais e constitucionais da esmagadora maioria da população, justo a parte mais necessária pra fazer tudo funcionar, tudo acontecer, tudo ser feito. O que se deseja é "vencer na vida", encher o rabo de dinheiro, privilégios e facilidades, sente-se superioridade quando se tem o acesso, que é negado à maioria, a uma educação de qualidade, mesmo enquadradora, que prepare presse absurdo "mercado de trabalho", cheio de intermediários, de correntes, de ameaças, de cobranças, de ofensas morais, de desumanidade.
E qual é a opção, me perguntariam. Não sei. E não sabia o que faria quando, definitivamente, me recusei a seguir pelos caminhos convencionais, aprovados pelas regras "intrinsicadas" na mentalidade convencional. "Não sei pra onde vou, nem o que vai ser, mas não vou por aí. Pra viver assim prefiro não viver." Aos dezenove anos aceitei a morte como alternativa possível, pra não seguir caminhos angustiantes e sem sentido além dos falsos sentidos que se impõem nos caminhos sociais estabelecidos. E aconteceu que não morri. Ainda. Vivi pra aprender a olhar essa estrutura social de fraudes, farsas e desumanidades. Pra colocar o que penso no meu trabalho, as evidências que estão na cara de todo mundo e parece que todo mundo não vê. Bueno, há exceções e é um prazer encontrar por aí.
O vale do rio Doce está morto. Grandiosamente morto, por muito tempo, fala-se em centenas, em mil e quinhentos anos, uma catástrofe apocalíptica que se imporá aos poucos. O destino não tem pressa. E as dores são ensinamentos, quando andamos distraídos. Nesta etapa do caminho humano, há dores coletivas anunciadas e em curso, a serem aproveitadas na limpeza da visão de mundo, dos valores e dos comportamentos.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
De Carapebus a Regência
| No terraço da casa de Patrícia e Adilson, se vê o mar e a nuance. |
| As praias cheias, ainda que a cor da água lembre a lama diluída |
Era o final da manhã quando começamos a subir o litoral norte do Espírito Santo. Há trinta anos atrás eu andei por estas praias, época de angústias e dúvidas, de opções e decisões definitivas a respeito da vida e dos seus caminhos. Se reclamava do minério do porto de Tubarão, no ar e na água do mar. No rumo norte, eram longe os povoados, muito mato e espaço até Barra do Riacho. O minério continua no ar, a fuligem preta toma Carapebus. Do terraço da casa que nos abrigou, ao norte da siderúrgica de Tubarão e de Vitória, vimos o mar com leve nuance barrenta, com uma faixa mais densa lá no fundo, a alguns quilômetros da praia. Será a lama da Samarco, imagino, pelas notícias já chega na praia da Costa, em Vila Velha, início do litoral sul. Agora, além do eterno minério, há os resíduos da extração deste minério, metais pesados, cancerígenos, diluídos na água em quantidades impensáveis, desde mil quilômetros, do alto das Minas Gerais e sendo vomitado pela boca do rio Doce, direto no mar antes claro.
| Um vago aviso, ignorado pela maioria. |
Saímos de Carapebus, pegamos a via litorânea. Não havia mais
espaço aberto, tudo construído, o
trânsito congestionado. As praias se seguiram, dia de sol quente, cheias
de gente, uma atrás da outra, Manguinhos, Jacaraípe, Nova Almeida, ninguém
parece dar importância à lama da mineração, ao colapso do rio Doce e seus
resíduos sendo despejado no mar, às toneladas, infestando norte e sul da foz,
abrindo um leque avermelhado oceano adentro e ao longo dos litorais. Numa
sociedade humana que merecesse este nome, o poder público estaria esclarecendo
sobre os perigos mortais do contato com esses resíduos, indicando nas praias a
contaminação gravíssima, contaminação que leva a gravíssimos problemas de
saúde, desde doenças neurológicas até variados cânceres. Mas o poder
empresarial fala mais alto que a consciência das chamadas autoridades e dos
funcionários qualificados pra mentir sobre a realidade.
| Nova Almeida, cada vez mais ao norte, a mesma indiferença. |
Perto de Barra do Riacho, em território guarani, encontramos
umas barracas com artesanatos indígenas de vários tipos, paramos pra assuntar.
Das duas uma: ou aquelas pessoas temem responder perguntas ou não sabiam de
nada, nem sobre o bloqueio de ferrovia e rodovias – “aquilo foram os
tupiniquins, não nós” -, nem sobre a lama tóxica, nem sobre os motivos que
levaram os tupiniquins àquela atitude. Os tupiniquins estavam em Comboios, em
sua terra, distante ainda. Seguimos.
Vários congestionamentos pelo caminho, tudo parecia estar
normal em seu movimento de verão. Não pude evitar um sentimento de nojo pelas
administrações públicas em suas sucessivas omissões – em sua cumplicidade
irrestrita com o poder econômico e em prejuízo permanente da população. Ali
estavam milhares e milhares de pessoas sem a menor noção do perigo. Um vendedor
de picolé me esclareceu que a lama estava passando a 25 quilômetros mar
adentro, tinha passado longe dali e chegado em Vitória e na Praia da Costa, em
Vila Velha. Ele viu na televisão, não tinha perigo...
Entramos no território tupiniquim de Comboios, já vínhamos em
estradas de terra desde Vila do Riacho, deixamos o caminho pra Regência ao
passar no marco da terra indígena. Estrada precária, cheia de costelas, íamos
devagar quando fomos ultrapassados por um carro pequeno, com cinco jovens
indígenas dentro. Buzinaram em saudação, respondi da mesma forma e eles
seguiram na frente até sumir de vista. Poucos quilômetros depois, chegamos ao
fim da linha. Era um grupo de casas na beira de um rio, todas fechadas, ninguém
à vista, e a estrada fazia a volta. Paramos pra pensar e o carro deles apareceu
atrás de nós. Estiveram nos observando. Fizemos a volta e paramos do lado
deles, pra conversar. Expressão desconfiada, disseram que o cacique tinha
viajado e só voltava quarta-feira. Perguntei se era o cacique que tinha virado pastor
evangélico, eles falaram entre si e responderam que aquilo fora no ano passado
e que o pastor não era mais cacique, tinha outro no lugar. Senti a resistência
cultural, cacique convertido, cacique destituído. O campo pra conversa era bem
pequeno, a desconfiança vibrava no ar. Imaginei o estrago que aquela conversão
fez na comunidade, o cacique pastor deve ter arrebanhado muitas ovelhas antes
de ser substituído. Agradeci e fomos embora, destino Regência, só estrada de
terra.
| Foz do rio Piraqueaçu, que passa nas terras indígenas. |
A uns dez quilômetros de Regência eu vi, à esquerda da estrada,
um agrupamento de casas e várias bandeiras vermelhas do MST. Olhei melhor e vi
as lonas pretas – um acampamento. Paramos. Entramos em contato com os primeiros
moradores, próximos ao portão. Expliquei nossa viagem e propósito, eles
ofereceram café. Na conversa soubemos do canal aberto pra levar água do rio
Doce pra uso industrial da Aracruz Celulose, através da Fíbria, que prepara
celulose pra Aracruz, desfaz o eucalipto em massa. Nós havíamos passado em
frente, uma indústria grande, imponente, soltando fumaça pelas chaminés
modernosas. Nos campos em frente, do outro lado da estrada, o cheiro é forte e
dá mal estar, dor de cabeça, trava na garganta. Vimos espaços como grandes
pastos, mas cobertos de um material entre branco e cinza, onde o vento levanta
uma espuma incompreensível, pois parece areia suja, sólida. Agora os caras nos
mostravam o canal, a um quilômetro do acampamento. Construído pela Aracruz pra levar água do rio Doce até a indústria da celulose, azarou a pesca no baixo rio Doce até a foz e produziu peixe farto. Isso trouxe um monte de famílias pobres de pescadores pra viver junto ao canal, ganhando a vida. E assim viviam, apesar das águas já contaminadas mas não mortais ainda e cheias de
peixes. Até chegarem os rejeitos da mineração, a lama vermelha da Samarco. Não havia uma barreira na entrada, o rio Doce escorria pra dentro sem obstáculo. O canal é uma linha reta até onde se pode ver, de uns quinze metros de largura por um e meio de profundidade,
água translúcida que deixava aparecer marcas avermelhadas na cor da lama. Nos
dias em que os rejeitos da mineração chegaram, com seu aspecto grosso e avermelhado, os peixes passavam desesperados,
fugindo, entrando pelos pequenos canaletes e afluentes do canal, aos enxames, “dava pra
pegar com a mão, aos punhados”, como disseram os moradores do acampamento. E morreram todos os peixes, pois todos os afluentes foram penetrados pela morte da
mineração. Durou pouco a vermelhidão do canal, as máquinas da indústria seriam
danificadas com os detritos metálicos, em pouco tempo a água clareou, ainda que
deixando sua impregnação vermelha de resíduos sólidos no fundo, nas folhas, nos
troncos submersos. Então é possível filtrar de algum modo os rejeitos da
mineração, desde que haja interesse empresarial, no caso, da Aracruz em manter
suas máquinas. Por que não usam o mesmo sistema no rio Doce, ainda que adaptado
pro volume muito maior? Certamente pelos custos da operação. Existe como, mas
não há interesse e não se divulga. A água ali, embora turva, está translúcida, num enorme contraste com a do rio Doce, que nem água parece. Bueno, não é.
| A ponte sobre o canal e a turma do acampamento. |
| A folha boiava, verde por cima, lama tóxica por baixo. |
| Uma draga limpa constantemente o canal. |
| O tronco submerso em água transparente mantém o vermelho. |
Entre os moradores, se apresentou um casal, ele claramente indígena, ela branca, de cabelo comprido, sem brincos, no estilo evangélico. Era primo do cacique destituído, aparentemente convertido também. Disse que o cacique estava na região, perguntei se era o pastor e ele disse que sim. Concordou com relutância sobre a substituição do primo e, perguntado, afirmou ter se “esquecido” o nome do novo cacique. Falsidade no ar, fomos embora.
O dia já se despedia quando nos aproximávamos de Regência.
Passamos pela base de operações da Tamar, seguimos adiante, paramos ao por do
sol. Faltavam poucos quilômetros pro povoado, estacionamos solitários ao lado
da estrada e caminhamos meio quilômetro pra chegar no mar. Olhei as marcas da
maré cheia, revi as cores que vi em Mariana, em Bento Rodrigues, Camargos,
Paracatu de baixo. Estavam ali, em cima da areia da praia. O mar, avermelhado,
mas diluído perto da densidade do rio Doce. Claro, estavam misturados rio e
mar. Não havia ninguém, a praia vazia, alguns aglomerados de madeiras atirados
pelas ondas na areia, talvez também vindas, talvez, lá do alto da serra, de Mariana. O mar cheio de ondas, espalhando aquela espuma com tonalidades do tóxico letal, deu uma sensação de fim de mundo próximo... de um mundo, pro nascimento de outro.
Em Regência, todo mundo investiu no verão, como sempre,
temporada de salvação das dívidas, de acumulação pro ano inteiro. Ninguém
contava com a morte que viria pelas águas do rio Doce.
| A lama veio e foi limpa. Interesses empresariais. Ou limpa a água ou páram as máquinas. "Milagrosamente", as águas foram limpas. Mas não as do rio Doce. |
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