quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Não há governo, não há república, não há democracia. Revelações do óbvio, por Bob Fernandes

Frações de revelação. Há pelo menos trinta anos vejo a sociedade ser manipulada dos bastidores do teatro de marionetes que se apresenta como "política", um palco sujo de merda e sangue onde se encena a farsa de uma democracia fraudulenta e perversa. Milhões de pessoas têm seus direitos roubados, há gerações e gerações, a ignorância é distribuída num sistema de educação sabotado desde sua raíz nas "decisões" de "governos" e "legisladores" (tudo com aspas, porque tudo falso), desde a formação dos seus currículos insuficientes, pífios, deliberadamente incapazes na formação de cidadãos conscientes e preparados pra viver e contribuir numa sociedade humana, em harmonia. As classes médias são preparadas pelo ensino particular pra comandar a massa amorfa e acéfala, pra controlar a barbárie estabelecida pela estrutura social, da polícia ao judiciário, do comércio à indústria, em todas as áreas, com a visão de uma arena competitiva onde são todos contra todos, a vida não é mais que uma disputa onde é preciso vencer - e não simplesmente viver.

O inferno social em que vivemos é construído minuciosamente de onde se está protegido dele, quem o projeta não vive nele, mas nas bolhas isoladas de luxos e riquezas, cercadas por muros eletrificados e guardas armados. Dali se joga o tabuleiro social, movendo peças, subtraindo ou acrescentando elementos ao "jogo" que afeta bilhões de pessoas. E se planejam mentalidades, valores, comportamentos, visão de mundo, desejos, sentimentos, objetivos de vida, que se implantam desde os modelos de ensino e se reforçam cotidianamente pelo massacre publicitário-midiático dos meios de comunicação. Inclusive, como não poderia deixar de ser, são planejadas formas de contestação ao sistema, no controle dos inconformados. Aí se incluem os dons quixotes da farsa política, brandindo suas espadas e suas vozes, denunciadores mas impotentes, boicotados pelas mídias, ridicularizados, sabotados - que só permanecem na cena por seus reais valores e serviços, mas afinal de contas ocupando o espaço permitido e necessário, na confirmação do cenário "democrático". Na ilusão de mudanças institucionais, acabam servindo à grande farsa.

É preciso ver a realidade antes de pensar em "mudanças" na sociedade. Pra decidir de forma não programada, pra viver como se quer, não como se manda, pra se comportar de forma despadronizada, ver com os próprios olhos, pensar com a própria cabeça e sentir com o próprio coração.

A corrupção não é só sistêmica, como diz o Bob Fernandes, é endêmica, é estimulada, é o motor de toda a sociedade. O sistema é feito pra corromper a alma - não é à toa que se toma toneladas de anti-depressivos diariamente, não é à toa tanta angústia, vazio e falta de sentido na vida de cada um. Valores falsos não satisfazem a alma, embora estejam impregnados em nossa razão. O sistema social é todo uma gigantesca fraude.

Não há governo, não há república, nunca houve democracia. Estamos caminhando e chega o momento de ver a realidade como ela é. É o momento da comunicação, da tomada de consciência, da percepção, mais que nunca, e os focos se espalham pelas periferias - onde mais precisa - e por todo lado, de um jeito lúcido ou equivocado, a se desenvolver no tempo e na prática ainda nova do exercício das comunicações pulverizadas por toda a sociedade. Há focos embrionários do que será preciso na formação de novas relações sociais, entre pessoas, bichos, plantas, água, terra, entre a gente e a vida. É garimpar, com humildade e persistência, e o grande garimpo humano revela, em meio ao cascalho, suas pedras raras - sempre em serviço, contaminando e transformando cascalhos em pedras raras, num processo permanente, há milênios, que se apressa com o ritmo das mutações.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Ver, primeiro.


Manter a população na ignorância e na desinformação é uma necessidade desta estrutura social. Uma necessidade permanente.
Conter as verbas públicas e pagar os juros de uma dívida inventada pra colocar o país de joelhos diante de banqueiros e magnatas estrangeiros, com a conivência permanente da "elite" local, entregar de graça as riquezas o país e o povo à exploração sem direitos, esses são os objetivos da atual gerência, dos novos capatazes à frente das instituições falsamente públicas. Os “donos” da fazenda nem moram nela. Apenas a sugam de todas as formas, com a conivência e a cumplicidade dos poucos privilegiados locais.
Não há disfarce convincente, o descaramento é resultado da confiança na eficiência da sabotagem total nos direitos humanos e constitucionais da população. Conta-se plenamente com a ignorância e a desinformação. Cara de pau sem limites. E ainda se pensa que há caminho dentro da institucionalidade pra reverter a situação... ingênuas ilusões... tá tudo dominado, infiltrado, influenciado, impregnado dos interesses vampirescos dos parasitas mundiais e locais. Em todas as áreas.
A mineradora que matou a vida do rio Doce está recebendo permissão pra funcionar – na verdade nunca parou, até hoje escuto o apito dos trens, coisa de oitenta por dia, em dois meses seguintes à avalanche de rejeitos que assolou o vale – o maior da região sudeste – , matando tudo o que encontrava pela frente. Por trás do descalabro na saúde pública, ressalva feita a enorme quantidade de servidores que dão seu jeito pra atender nas condições miseráveis de trabalho que encontra, estão os interesses de planos de saúde, de laboratórios e da indústria da medicina lucrativa, devidamente representados nos poderes públicos, sabotando o sistema público de saúde. A educação não interessa, simplesmente, aos interesses do punhado de parasitas podres de ricos. Enquanto a educação pública deve criar ignorância pra maioria, como se vê em qualquer lugar, a sabotagem é óbvia, a particular se destina à formação dos gerentes e chefes da maioria ignorantizada. Não era à toa o ódio a toda iniciativa de educação de qualidade, no interesse do desenvolvimento de todo o povo brasileiro, da formação de senso crítico, de visão de mundo, de relações sociais mais esclarecidas, na composição de uma sociedade mais harmônica. A barbárie é deliberada e estratégica. Relega-se a maioria à inferioridade, à pobreza, à exclusão, criam-se as condições de violência, de miséria e revolta, e o massacre publicitário-midiático vai convidar milhares ao crime, com o acesso ao consumo induzido como valor pessoal e social. Deforma-se a mentalidade dos agentes de segurança, impedidos de ter qualquer consciência social, implantam-se idéias falsas e sentimentos destrutivos, culpam as vítimas e os incitam à violência contra os pobres em geral. Está formada a guerra. Com o tempo, o histórico de mortes dos dois lados é combustível suficiente pra sustentar o ódio e os conflitos.
Os empresários do tráfico circulam seus exércitos divididos em facções, seguros das cordas que têm nas mãos. Afinal, financiam também campanhas eleitorais, midiáticas, publicitárias, como bancos, laboratórios, mineradoras, latifundiários, mega-empresas em geral. Há uma guerra nos morros e nas periferias, a mídia não fala nada, uma pincelada aqui e ali, sem possibilidade de unir os pontos. Os responsáveis últimos por esta situação não circulam pelo caos, têm suas fortalezas, suas ilhas, mansões bem cercadas e cuidadas por exércitos particulares, cercas eletrificadas, câmeras e sabe-se lá o que mais. Enquanto isso as instituições tratam de manter a estrutura como é, apesar das heróicas exceções pessoais.
É preciso desenvolver novos caminhos, pois os institucionais estão monitorados e controlados de todas as maneiras possíveis, além de algumas impossíveis. Ver direitinho como é a realidade, antes de decidir o que fazer ou como, pra não fazer das formas induzidas que, além de não afetar em nada a estrutura social, ainda colabora na construção da farsa democrática.

O despertar é lento, mas inexorável... as revelações se sucedem. Enxurrada delas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Tonella - Celestina!

Marcelo Tonella descreve os procedimentos médicos da cirurgia na kombi, nada menos que um transplante de coração. Bem sucedido, como se vê. Os cuidados e a paciência são características desse doutor, didático e explicito em seus vídeos, em língua que se entende sem ser mecânico. No teste a porta do motorista se abre, ela tem uma manha pra fechar e já abriu várias vezes. Por sorte, foi sempre só engraçado, não aconteceu nada demais. Agora eu já fecho e confiro antes de andar, assim não acontece esse problema - que só vai ser resolvido quando todas as trancas puderem ser tratadas. Ainda há outras prioridades mais iminentes e a grana é pingada.

Celestina tá com o coração pronto pra viagem de novembro. Com a primeira parada em Belorizonte, seguindo por Goiás, talvez Brasília, depois subindo até a fronteira oeste da Bahia, cruzando o sertão e o rio São Francisco pra chegar no Vale do Capão, na Chapada Diamantina. Vou com Adro, o gnomo cozinheiro, e bastante material pra espalhar pelo caminho. E no Capão encontro o retiro suficiente pra novos trampos, novos originais pra acrescentar no acervo. Lá encontro Clara, inspiração não vai faltar.

(Concluindo a história na postagem de 23 de novembro... a desse motor, claro, que as histórias não páram, enquanto há vida.)

domingo, 2 de outubro de 2016

Parada forçada em Sampa

Foto - Rogério DSantis
Saímos de Florianópolis depois de esperar quase uma semana pela Celestina, parada num mecânico que "trocaria" o bloco do motor, quebrado por vazamento de óleo na subida da serra catarinense. Daniel nos aturou por esses dias, Clara, Ravi, Roque e eu. Buscando a kombi, reparei que ainda vazava óleo, na noite anterior à viagem de volta. Como o mecânico só se liberava na noite do dia seguinte, levamos a outro, pra avaliação. Este condenou o motor de forma definitiva, "esse aí não vai a lugar nenhum". Sem acreditar na falcatrua, acabamos pegando a estrada durante a noite, passamos por Curitiba e, a quarenta quilômetros de São Paulo, quebrou o tal bloco. Chegamos de guincho e eu já estava desistindo da viatura, pelas despesas que se anunciavam, quando conheci Marcelo Tonella, com seu amor pelos motores a ar e sua especialidade em volkswagen. Ele assumiu a Celestina, como quem recebe um animal de estimação, com carinho. Então me mostrou o motor que iria ser transplantado.
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Tivemos que esperar, aproveitei pra expor todos os dias no Masp, avenida Paulista. Foram bons contatos e boas vendas, compensando os prejuízos de até então. De quinta até quarta, todas as noites estávamos expondo no mesmo lugar, com ligeira variação no último dia, por causa de uma fita de isolamento que foi posta no lugar onde ficamos nos outros dias. Clara já se preparava pra ir de ônibus, porque seu avião pra Bahia era na sexta, quando Tonella avisou, "a Celestina tá pronta", arrumada e testada nos principais pontos básicos, freios, suspensão, motor novo e sem vazamento. Marcelo trabalha com sua filha, Bianca, no final da adolescência e no início da juventude. Séria e compenetrada, vai aprendendo com o pai os segredos e os sentimentos da mecânica. Ela faz os vídeos que ele publica, ensinando as manhas dos motores a qualquer um que se interesse, na intenção de evitar a dependência de mecânicos nem sempre honestos.

E assim, a kombi ficou pronta pra viajar, chegamos no Rio tranqüilos, motor mais silencioso, amaciando nos setenta, oitenta por hora. Sem vazamento. Quem gosta do que faz, só pode fazer bem feito, é o caso do Marcelo Tonella, a quem só tenho a agradecer. Na foto, Marcelo, Bianca e eu.

https://www.youtube.com/user/marcelotonella

Ela é a cara do pai. Bem melhorada, claro, mas se vê a matriz forte.

























Abaixo, encontros durante os dias de exposição no miolo de Sampa, avenida Paulista, no Masp.


Foto - Rogério DSantis



Foto - Rogério DSantis











terça-feira, 20 de setembro de 2016

Celestina em risco...

No segundo ataque cardíaco em duas semanas, Celestina corre risco de ficar pra trás. É preciso um bloco novo pro motor, provavelmente uma retífica e isso fica em mais de quatro mil reais. A grana da viagem cobriu a primeira internação, desfalcando as contas em casa - a parada em Sampa tinha como objetivo exatamente esse, as despesas da sobrevivência, com a matéria prima pro trabalho. Mas agora o preço ficou acima das condições e, como é comum, sem dinheiro pro tratamento a pessoa morre na estrutura social em que vivemos.
 Ela servia de transporte e de base pra exposição, sempre que necessário. Dentro, tudo o que precisamos em viagem. inclusive dormir dentro, nos postos, praças e esquinas da vida. As fotos são da exposição na palestra da Concha Acústica, UFSC, semana passada, antes do primeiro baque no motor da kombi, quando subíamos a serra pra Curitibanos, onde a palestra foi cancelada. Então deixamos Celestina internada em Floripa e fomos cumprir os compromissos, em Guaporé, Cachoeirinha e Porto Alegre. Na volta vimos o conserto sendo adiado pra sexta, sábado e domingo, quando finalmente saímos com ela. Mas ainda vazava óleo. Voltamos ao mecânico na segunda, ele garantiu a viagem, era só não deixar faltar óleo no motor, apesar do vazamento. Como não queríamos nem podíamos adiar mais a volta, a solução foi essa. Ali eu já tava vendo que não ia dar em conserto de verdade.

Bueno, dez litros de óleo mais tarde, já chegando em Sampa, depois da serra do café, mais exatamente no posto 65, em Juquitiba, a 40 km do anel rodoviário, na Régis Bitencourt, o motor bateu seco, menos de cem km depois do último litro posto. Ataque cardíaco, parou geral tudo.

Agora busco sem saber bem se um bloco de motor novo, sem ter toda a grana - eu daria um sinal e iria expor o que desse em Sampa, sem os painéis e outras coisas, mas com os desenhos, pra ver se levantaria essa grana. São quatro paus pra "fazer" o motor, sem contar o trabalho de tirar e instalar. Ou, talvez, mil pra comprar um bloco novo, mais quinhentos pro serviço. Não saí ainda atrás, Juquitiba é pequeno, talvez precise guinchar pra Sampa - não conheço mecânicos em Sampa, muito menos que tratem de kombis e sejam honestos e competentes. Aí apelo pros amigos em São Paulo. Estou com pouco tempo e a possibilidade de vender pra ir embora é uma das pensadas.

Uma pena. Mas não se pode ter apego às coisas, elas vêm e vão. Quando fazemos tudo o que podemos e ainda assim não dá certo, é preciso abrir a mão, largar e seguir adiante. Temos tudo o que precisamos, respiramos saudáveis, pelo menos ainda, e diante das perdas é preciso não piorar as coisas com sentimentos depressivos.

  Celestina já dura quase dois anos. Foram em torno de cinqüenta mil quilômetros rodados, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia passaram sob as rodas da kombi. Muitos amigos andaram nela conosco, muita gente cruzou os caminhos. História já tem, agora veremos o que rola.
A palestra foi até de noite, Celestina ao fundo apóia os painéis.

Ainda de dia, a exposição na UFSC.
Estamos arrumando um guincho pra levar pra Sampa, lá vemos se arrumamos um mecânico bom ou um comprador nem tanto, que compradores que aparecem no sufoco a gente já sabe como são.

Como segue a saga, também tô curioso. Mas se ficar sem nada já foi superado várias vezes, ficar sem kombi não será pior, nem mais difícil. Torno a carregar o que puder na mochila, se for preciso. E a vida caminha.
Celestina recolhida, depois do primeiro ataque cardíaco.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Internação de emergência

Na serra da Pedra Selada, caminho de Visconde de Mauá.

Voltando de Mauá, ontem, percebi o vazamento de óleo. Segui viagem até que a luz acendeu no painel na descida da serra. Parei na Capelinha, verifiquei a vareta, tava de assustar, só um meladinho do óleo na ponta. Uma hora depois apareceu o óleo necessário, muito mais caro que o normal, claro.

Fomos pela Dutra até perceber a fumaça branca pelo retrovisor. A coisa tava pior que eu esperava, bem que seu Manoel Elias me avisou, mas o serviço era pesado e caro, fui adiando até dar nisso. Gastamos cinco litros de óleo pra chegar em casa, já com a luzinha acesa de novo. Pelo caminho, ficou um fio de óleo marcando a rota, de Mauá até minha casa. O drama tava percebido.

Hoje levei ao médico, não dava pra resolver no ambulatório, decretada a internação. Ela fica lá até segunda de tarde. Vão ter que tirar o motor e trabalhar dentro do carter. Torre, retentores, flautas, tudo vai ser revisado, aproveitando que a cirurgia é complexa e profunda. Neste fim de semana, vou pra Santa Teresa de ônis. Pelo menos posso tomar umas cervejas por lá, não existe a assombração do bafômetro. Pena que não posso levar os ímãs.

Há pouco mais de um ano e meio não havia kombi, era tudo nas costas ou na bicicleta. Com os limites que isso acarreta. Na Celestina carrego muito mais e ainda não consegui chegar perto de completar sua capacidade. Mesmo assim, ela já faz parte da história. E das histórias.

No sul da Bahia, a caminho de Brumado, onde a promessa de ressarcimento das despesas não foi cumprida.

Em Barra Longa, caminho interrompido pelo veneno químico da samarco, na verdade vale, na tragédia planetária da maior bacia hidrográfica do sudeste. Que a mídia, hoje,minimiza chamando de "tragédia de Mariana", criminosa que é. O tempo já está trazendo as conseqüências, que estão só começando. Aí tem desgraça pra mais de século.

Ainda coletando dados sobre a calamidade ambiental, no caso aí próximo à foz, em Regência.

Em meio aos caminhões, Celestina dorme nos postos, sem se intimidar. Toda suja do barro tóxico, sinais de guerreira. Como Maria Clara, ela é pequena perto das carretas, mas destemida, valente, disposta. E não se intimida.

Celestina dá "pezinho" pro Kenny tirar fotos do crime das mineradoras.

Saindo de Ouro Preto na noite, ela não pôde subir até a casa de Douglas, que nos abrigava. Ficou num largo do caminho, mas tava em casa, antiguidade na antiguidade.

Em Porto Alegre, no Sarandi, a turma do Conceito Arte dá uma força no banho.

Pepe fotografa por trás, sem perceber seu próprio reflexo.

Já limpa, ela descansa das jornadas, na porta da casa que nos recebeu por uns dias.

Florianópolis, Monte Verde, em frente à casa que nos abrigou por lá em várias viagens, hospitalidade de Thiago Silveira.

Em Minas, uma parada pra mostrar em que direção nós viajamos pela vida.
Essa garibada vai preparar o motor pra viagem de setembro, ao sul, já com várias conversas marcadas, em várias exposições. Sinto que essa vai ser uma das melhores viagens, a melhor da Celestina. Vamos em cinco, ao que parece. Satya, Ravi, Roque, Maria Clara e eu. Vai caixa de som, guitarra e cajón (carrón).

Oremos pela saúde da Celestina.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O documentário

O documentário
Desde que Júnior me procurou na intenção desse filme, muita água passou debaixo da ponte. A viagem das cenas foi uma entre outras, durante o trabalho. Aliás, um trabalho muito mais do Júnior mesmo, que ficou picotando cenas e sons pelas madrugadas, fora dos seus expedientes de serviços. O trabalho externo, de captação das cenas, foi a parte fácil do trampo. As internas, o bordado, os cortes, as emendas, as combinações de som e imagem, imagino que devem ser muito mais cansativas, mentalmente.
Numa outra viagem de Kombi, neste período, estive em Santos, conversando no Monte Serrat, favela bela, organizada e solidária. Daí fui a Curitiba, três palestras em três dias, a primeira entre evangélicos diferentes, sem problemas em beber e fumar e viverem sem julgar ou discriminar, a segunda na casa Ocitocina, depois no OcupaMinc. Então fui a Floripa, uma palestra num evento vegano. A volta foi com problemas no motor, à noite, subindo serras, o que levou a vários contatos nos postos, com mecânicos, frentistas, muita conversa, cheguei a ler textos pra grupos interessados, cenas ótimas. Gostaria muito e insisti pra eles irem, mas não deu. A falta do tal financiamento pesou e tanto Júnior quanto Igor não puderam ir, tinham atividades programadas na manutenção da vida.
As possibilidades são precárias quando se está por conta própria. O que não impediu fazer o que está aí. O serviço de preparação das imagens e dos sons, incompreensível pra mim, tomou noites de Júnior. Ele até recebeu ofertas de participação, mas nada levado à prática, como é comum. Querer é mole, fazer já é bem mais raro.
Haveria mais viagens na fita, mais sotaques, mais interpelações e assuntos, mais conversas, mais oportunidades de coletar cenas que acontecem nessas movimentações, se houvesse grana aplicada no trampo. Mas sempre gostei mesmo é da capacidade de realizar assim mesmo, sem as condições ideais, com mais foco no conteúdo que na forma – que afinal, na minha opinião, é a parte mais importante. A peça está pronta e foi feita com o que tínhamos, com o que foi possível.
Acho que tem um ótimo meiquinhofe estocado com os caras (), cabe cobrar deles colocar isso aí no ar, tem muita coisa. Foram muitas as cenas gravadas e fotografadas durante as movimentações. O que foi publicado é pouco perto do que tem. Sei que esquentei a batata e agora jogo no colo do Júnior SQL. Mas é o trampo dele, vale pra ele principalmente. O Igor vai no reboque, mas na responsa.

Todo proveito merece a nossa gratidão, é o reconhecimento de que a gente precisa. O proveito levado à prática é direito e responsabilidade de cada um, na permanente mutação de que todos participamos, reconhecendo ou não, sabendo ou não, atentos ou distraídos. Escolhendo como fomos programados, em geral, raramente por conta própria, raramente vendo o mundo com os próprios olhos. Houve sempre quem retirasse as lentes impostas e visse com os próprios olhos, raríssimos. Creio que na atualidade há um processo crescente de retirada dessas lentes, de questionamento dos valores e comportamentos, dos poderes sociais, no modelo de vida que vivemos. Em forma embrionária, formam-se núcleos e coletivos em todas as partes, pouco a pouco, um processo permanente de mutação, tempo de gerações muitas. Não se pode esperar viver num mundo justo e solidário, seria ingênuo e perigoso, muitas “desistências” se dão a partir daí. Mas (e aí só posso falar por mim) se eu não viver no sentido de um mundo como o que desejo, não aplicar minhas energias nessa direção, não vejo muito sentido na minha vida. E a maneira que encontrei, ou escolhi, é refletindo e causando reflexão, sentindo e provocando sentimentos, questionando valores e padrões, relações e comportamentos, como parte de um processo estendido a todas as áreas das sociedades, a todo o planeta, ao universo. Mas aqui, de forma humilde, à minha volta, onde posso tocar e conviver, o primeiro plano em primeiro em lugar, ainda que não se esqueça os planos ao infinito, levados em conta como objetivos finais em todas as relações em torno, as que nos tocam. 


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Eduardo - 2014

Rafael Lage esteve em minha casa, dois anos atrás, enquanto fazia o filme Malucos de BR, levando em conta os muitos anos que andei pelas estradas, em quase todas as regiões do Brasil. Quando tive filhos, tive que intercalar moradias e deslocamentos. Sempre que deparava com a bifurcação pagar aluguel e contas ou manter a alimentação saudável, entregava a casa e saía pra estrada, às vezes pras ruas, onde, por não ter despesas de moradia, a grana era suficiente pra comer natural, saudável, e manter a saúde - o sistema público sempre foi apavorante, um sistema de doenças, precário, criminoso e desumano. A visão de mundo que se formou nessas vivências é clara e simples.



A segunda parte taí...


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Arte e pensamento em movimento - ou "bora pra estrada"

Hora de dar um tempo. Exponho em Santa Teresa desde o século passado, morei um ano no bairro e pulei pra outra santa, em Niterói, Santa Rosa, pra morar. Mas continuei expondo no Largo do Guimarães, primeiro no armazém fechado, nas três portas frontais. Depois, quando ali abriu um bar, passei pra parede do cinema. Mas venho sentindo vontade de mudança, um clima foi se instalando aos poucos, derrubando a sintonia com o lugar. Depois do desastre do bonde, onde morreram sete pessoas e dezenas se feriram, o bairro pareceu entrar em dormência. As falcatruas por trás das ações do estado e de empresas interessadas podem ser sentidas no ar, nos procedimentos, uma sociedade cujos poderes públicos são na prática privatizados e a hipocrisia é o lugar comum no trato com a população. Alguns anos sem bonde, agora um bonde esquisito, modernoso, descaracterizado como o patrimônio histórico que era, circula em silêncio pelos trilhos, até o Guimarães. Antes era do bairro todo, agora é só pra turistas. Eram duas linhas, agora é meia.
Encaramos a quebradeira no bairro todo, pra instalação dos novos e falsos bondes.

Durante as obras, Santa Teresa sofria na alma, os interesses de poucos emanava no ar.
Depois da “restauração” que tornou possível a circulação das pessoas, não era mais a mesma coisa, a forma tinha suplantado o conteúdo e os acontecimentos sinalizavam essa queda no astral do lugar. Começaram a aparecer figuras de outras vibrações pra expor, fisionomias agressivas ou hipócritas, sorrisos falsos ou alusões ameaçadoras, o climinha convencional da cultura social vigente, de competição e confronto, de interesses materiais e hipocrisias. Tempo de trocar o lugar, sem mágoas nem rancores, apenas sinais. Não me arrogo a posição do julgamento, da condenação, cada um carrega seu clima e suas conseqüências. A mim cabe escolher minhas atitudes e a mudança é uma necessidade permanente. No caso, mudança de lugar. Nada definitivo, mas o impulso deve dar a direção a seguir, na seqüência.
Em Rio Casca, dormindo em posto de caminhoneiros.
Surge, então, a oportunidade de realizar a idéia que vem madurando com o tempo e com a entrada de Celestina, a Kombi, na história. Há um ano e meio, ela vem sendo preparada pra ser engolidora de estradas. Desde então, quarenta mil quilômetros foram rodados, em viagens longas ao sul e ao norte, percorrendo o vale do rio Doce pra recolher informações e histórias desta hecatombe planetária que, todo o tempo, foi minimizada pelas empresas, pelo poder “público” e pela mídia dominante.
Chegando em Regência, a ver a bagaceira mineradora que matou o rio Doce desembocando no mar.
No parque estadual do rio Doce, a morte passa lentamente.
Saindo de Ouro Preto.
Sarandi, em Porto Alegre.
Pelas montanhas de Minas, rumo à Liberdade.
Exposição em Vitória, na Gruta da Onça.
Exposição na avenida Paulista.
Em Ouro Preto.
Maringá Rio, em Visconde de Mauá.
Cachoeira de São Félix, na Bahia. Homocinética quebrada.
Expondo na Bahia.
De novo na Paulista, encontros.
Na praça Roosevelt, a convite do Slam Resistência.
Em Santiago, no oeste gaúcho.

A idéia agora é sair pra expor nas cidades próximas, num raio inicial de duzentos quilômetros. E, pelo jeito, vamos em comboio, várias pessoas expondo suas artes. Se for o caso, proseando em público – ou palestrando, como dizem –, aproveitando a exposição e se rolar receptividade pra isso. Em qualquer lugar nesse raio onde se manifestar interesse e houver possibilidade de vendas pra bancar as atividades, é possível se fazer. Esperamos convites, pra chegar bem chegado e não ter problemas com os poderes municipais – como todo poder dito “público”, ávidos por “autorizações” e taxas, no vício de arrancar dinheiro da gente, sem contrapartida com o cumprimento nem da própria constituição. Um poder público que não merece nem o próprio nome, sempre aplicado ao atendimento dos interesses de poucos, os financiadores de campanhas eleitorais, e em enganar a população. Não pagaremos pra expor, nem ganhamos o suficiente pra isso, pois nos aplicamos em pagar as próprias contas, com dificuldade mas com persistência pra não se render aos valores e comportamentos vigorantes nesta sociedade criminosa, que abandona e sabota grande parte das pessoas – a miséria, a exploração, a ignorância, a desinformação são crimes sociais tão cotidianos que estão absurdamente naturalizados, quando ninguém devia se conformar com isso. Assim como ninguém deveria se conformar com uma vida sem sentido que gira em torno do consumo e da posse material, valorizando o desenvolvimento tecnológico, mas não o desenvolvimento moral pra tratar com ele, o que dá origem à escandalosa concentração de renda e propriedade e à conseqüente carência, criminalidade e violência. A violência do Estado é a mãe de todas as violências. E a vida imposta é a origem maior das frustrações existenciais. Essa é a base do meu trabalho. Escrito, desenhado e falado.

Esperamos contatos pra nos apresentar, levando em conta a necessidade de vender nossas artes pra seguir adiante – entre nós, ninguém tem outra fonte de renda senão a rua com as exposições.

No próximo fim de semana estarei na Bahia, palestra em Feira de Santana. Na volta, devo escolher um lugar pra expor, por perto do Rio, em conjunto com os amigos que vão também. Se houver interesse em alguma cidade dentro desse raio, espero a manifestação pra trocar idéias a respeito e, se possível, comparecer. Além de idéias, temos artes.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Barragem no "canal da aracruz" filtra os rejeitos da mineração - incluindo o vôo do drone.

Em fevereiro eu estava dando continuidade ao acompanhamento da situação no vale do rio Doce, iniciado por Mariana e descendo até Baixo Guandu, num passo a passo de histórias e imagens ao longo do rastro de destruição e morte deixado pela passagem da tsunami de rejeitos da mineração, em dezembro. Em fevereiro parti pra Regência, pelo litoral norte do Espírito Santo, a fim de subir o rio até Baixo Guandu e fechar o ciclo.
Tronco submerso, ainda marcado pela cor da lama de rejeitos. 
No caminho, passamos por duas aldeias indígenas - Guarani e Tupiniquim - e por um acampamento do MST, onde paramos pra um papo. Tomando um café numa das barracas de lona preta, fiquei sabendo que não eram lavradores ali, mas pescadores pobres, que viviam com suas famílias da pesca pequena, num canal aberto pela Aracruz Celulose, anos atrás, para levar água do rio Doce à fábrica de celulose, já que o rio Riacho não tinha água suficiente. Uma transposição que não foi noticiada pela mídia, ao que me parece, apesar de ter havido movimentos de protesto, em geral inúteis quando se trata de interesses mega-empresariais - invariavelmente financiadores de campanhas eleitorais e, por isso, com forte poder de pressão sobre parlamentos, prefeituras e governos. O canal acabou enchendo de peixes e as famílias se instalaram ali pela necessidade de sobrevivência, até que a onda dos rejeitos barrentos desceu pelo rio e entrou no canal, matando todos os peixes. Sem ter como sobreviver, as famílias se reuniram nesse acampamento, enquanto o jurídico do MST tratava de conseguir indenizações e condições de sobrevivência da mineradora.
O pessoal do acampamento.
Eles disseram que depois de uns dias, a água começou a clarear até ficar transparente de novo. A lama da Samarco danificaria as máquinas da fábrica, então deu-se um jeito de limpar. De que maneira, eles não sabiam. Fotografei o canal.
O canal da Aracruz Celulose, hoje Fibria.

Depois de Regência, seguimos na busca da entrada desse canal, no rio Doce. Passamos por fazendas de cacau e por poços de petróleo do tipo martelo, erramos, mas acabamos chegando. O nome dado pela empresa foi "canal Caboclo Bernardo, um herói da região, mas a população local não o conhece por esse nome, mas por "canal da aracruz.
Não pude fotografar o filtro e o início do canal, a segurança não deixou, mas peguei umas imagens do lado de fora, inclusive dois canos que retornavam do filtro-barragem, devolvendo os resíduos retirados da água ao rio Doce. Não me conformava com a filtragem da água aplicada às necessidades das máquinas de esmagar madeira pra fazer celulose, enquanto todas as cidades ao longo do rio sofriam com morte de tudo o que vivia no rio. A tecnologia de filtragem existe e não estava sendo usada para os milhões de habitantes do vale, mas pras máquinas a filtragem aconteceu em menos de um mês. Pro poder mega-empresarial, acima dos poderes públicos, o lucro vale mais que a vida, as máquinas valem mais que as pessoas.

Depois, em Linhares, procurei uma alternativa pra voltar lá. Um drone. Voltamos na madrugada da quarta-feira de cinzas e, quando amanheceu o dia, o drone fez o serviço.Escaldados com a truculência da segurança da Samarco, que nos abordou em Bento Rodrigues de tal maneira que tivemos que armar uma fuga improvisada - eu fiquei de isca enquanto Rafael e Kenny saíam do local com as fotos e filmagens -, saímos da área voando na kombi, por estradinhas que passavam dentro das fazendas, de volta a Linhares. Nada aconteceu, então.

Andei com essa filmagem, sem conseguir editar, por um tempo, já que não tinha grana, não sei fazer edição nesse nível e o que consegui não estava satisfazendo. A amiga Paula Thebas levou pra Sampa e Wagner Pacífico fez o serviço. O resultado taí.

Trata-se da limpeza dos resíduos da mineração que assassinaram a vida do rio Doce e estragaram a vida de milhões de pessoas. Há solução plausível, mas só se aplicou nos interesses empresariais. O povo, ora o povo... numa ditadura banqueiro-mega-empresarial, o povo tá claramente em segundo plano. Os lucros e o patrimônio valem mais do que a vida.

https://youtu.be/ctC758ikEGc

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.