Então o cara que saiu da caverna voltou lá e avisou os outros, 'aí,
rapaziada, aqui fora o mundo é outro, aberto, arejado, chega pra ver". Pensava que haveria entusiasmo, alegria, mas houve estranheza e rejeição, seguidos de negação e revolta, “que nada, calaboca!”, “sai fora, babaca!”, “não enche o saco!”, “não
vem perturbar aqui não”!, “tu não sabe de nada!”, “vai pra Cuba!”. A rejeição foi
grande, agressiva, raivosa. Diziam que ele trazia a discórdia, a mentira, davam
sinais de violência, reafirmavam suas ilusões como verdades. O cara viu que não
dava em nada além de problemas e saiu fora pro mundão, 'então ficaí, cambada de
mané, tô vazando', e antes que os otários se dessem conta, ele tinha sumido. Ficou o silêncio, o vazio, a ausência, pra onde ele foi... e o medo. Nesse momento a semente foi lançada . Uma vibração no escuro da caverna, as imagens mostrando a
“realidade” projetada na parede e um enorme incômodo no ar. Junto com a consciência, o rancor - de um canto escuro alguém falou baixo, como quem pensa alto, “a gente devia ter matado ele”.
Lá fora o cara andou, olhando a realidade que desconhecia, conheceu cores, sons, cheiros, paisagens, em profundas admirações, sem entender por que havia quem projetava aquelas imagens ilusórias na parede da caverna, mas mergulhado nas novidades que descobria. E descobriu que haviam outras pessoas como ele, outras cavernas como a dele e muitas, muitas pessoas presas às mesmas ilusões impostas por enganadores. Conheceu essa gente saída de outras cavernas que se atraíam, amistosas, livres das induções à rivalidade e à competição. Conquistaram o acesso ao mundo fora das cavernas e agora dividiam a intenção de acordar os outros, mostrar os limites impostos, causar o rompimento desses limites. Mas encontravam a hostilidade dos condicionados e, sem desistir definitivamente, viviam suas vidas, sempre alertas às oportunidades de provocar reflexão, questionar as mentiras cotidianas, mostrar que as imagens nas paredes são projetadas e que a realidade é muito outra, muito melhor e mais rica. E o cara dividiu experiências, conheceu outras maneiras, conversou, aprendeu, plantou, colheu, cooperou, ganhou vivência, conhecimento, sabedoria.
Lá fora o cara andou, olhando a realidade que desconhecia, conheceu cores, sons, cheiros, paisagens, em profundas admirações, sem entender por que havia quem projetava aquelas imagens ilusórias na parede da caverna, mas mergulhado nas novidades que descobria. E descobriu que haviam outras pessoas como ele, outras cavernas como a dele e muitas, muitas pessoas presas às mesmas ilusões impostas por enganadores. Conheceu essa gente saída de outras cavernas que se atraíam, amistosas, livres das induções à rivalidade e à competição. Conquistaram o acesso ao mundo fora das cavernas e agora dividiam a intenção de acordar os outros, mostrar os limites impostos, causar o rompimento desses limites. Mas encontravam a hostilidade dos condicionados e, sem desistir definitivamente, viviam suas vidas, sempre alertas às oportunidades de provocar reflexão, questionar as mentiras cotidianas, mostrar que as imagens nas paredes são projetadas e que a realidade é muito outra, muito melhor e mais rica. E o cara dividiu experiências, conheceu outras maneiras, conversou, aprendeu, plantou, colheu, cooperou, ganhou vivência, conhecimento, sabedoria.
Nas conversas coletivas, que eram muitas e sobre muitos
assuntos - desde as estrelas, os modos de plantio, remédios naturais, até as
relações entre as pessoas e a forma de organização da coletividade, sempre
mutante - um assunto freqüente era a alienação geral, os prisioneiros das
cavernas, acorrentados em ilusões fabricadas. Idéias eram apresentadas,
discutidas e postas em prática. Diante da hostilidade comum e dos perigos do
contato direto, entrando nas cavernas, um dia alguém sugeriu chegar do lado de
fora, bem na porta, e fazer um barulho, demonstrar a liberdade sendo exercida,
em vez de tentar conversar, convencer, argumentar, apelar à razão, à
inteligência racional. Esta já estava tomada pela prática rotineira, pelo medo
induzido e todos os recursos de mídia pra paralizar o pensamento e conduzir às
ilusões. Era preciso atingir a alma, conversar com a intuição, o sentimento, o
sentir é mais que o saber, mais profundo, mais forte que a razão. E a idéia
brotou: “bora fazer uma charanga?”
Na porta das cavernas eles botam a boca no trombone. Cantores, palhaços, malabaristas, desenhistas, músicos, pintores, dançarinos, atores foram surgindo de todos os lados. Os que faziam as sombras, projetando da forma que convinha à hipnose, ao entorpecimento, à formação da opinião pública não gostaram nada disso. E começaram a atacar os denunciadores, os reveladores das mentiras cotidianas, de todas as maneiras, difamando, atacando, perseguindo, sabotando. Mas quase sempre saía alguém da caverna, ofuscado, maravilhado, e era acolhido no grupo, com cuidado, carinho e alegria. Às vezes, mais de um. De vez em quando, grupos vinham pra fora e era uma festa.
A história não acabou.
Na porta das cavernas eles botam a boca no trombone. Cantores, palhaços, malabaristas, desenhistas, músicos, pintores, dançarinos, atores foram surgindo de todos os lados. Os que faziam as sombras, projetando da forma que convinha à hipnose, ao entorpecimento, à formação da opinião pública não gostaram nada disso. E começaram a atacar os denunciadores, os reveladores das mentiras cotidianas, de todas as maneiras, difamando, atacando, perseguindo, sabotando. Mas quase sempre saía alguém da caverna, ofuscado, maravilhado, e era acolhido no grupo, com cuidado, carinho e alegria. Às vezes, mais de um. De vez em quando, grupos vinham pra fora e era uma festa.
A história não acabou.







