domingo, 2 de outubro de 2016

Parada forçada em Sampa

Foto - Rogério DSantis
Saímos de Florianópolis depois de esperar quase uma semana pela Celestina, parada num mecânico que "trocaria" o bloco do motor, quebrado por vazamento de óleo na subida da serra catarinense. Daniel nos aturou por esses dias, Clara, Ravi, Roque e eu. Buscando a kombi, reparei que ainda vazava óleo, na noite anterior à viagem de volta. Como o mecânico só se liberava na noite do dia seguinte, levamos a outro, pra avaliação. Este condenou o motor de forma definitiva, "esse aí não vai a lugar nenhum". Sem acreditar na falcatrua, acabamos pegando a estrada durante a noite, passamos por Curitiba e, a quarenta quilômetros de São Paulo, quebrou o tal bloco. Chegamos de guincho e eu já estava desistindo da viatura, pelas despesas que se anunciavam, quando conheci Marcelo Tonella, com seu amor pelos motores a ar e sua especialidade em volkswagen. Ele assumiu a Celestina, como quem recebe um animal de estimação, com carinho. Então me mostrou o motor que iria ser transplantado.
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Tivemos que esperar, aproveitei pra expor todos os dias no Masp, avenida Paulista. Foram bons contatos e boas vendas, compensando os prejuízos de até então. De quinta até quarta, todas as noites estávamos expondo no mesmo lugar, com ligeira variação no último dia, por causa de uma fita de isolamento que foi posta no lugar onde ficamos nos outros dias. Clara já se preparava pra ir de ônibus, porque seu avião pra Bahia era na sexta, quando Tonella avisou, "a Celestina tá pronta", arrumada e testada nos principais pontos básicos, freios, suspensão, motor novo e sem vazamento. Marcelo trabalha com sua filha, Bianca, no final da adolescência e no início da juventude. Séria e compenetrada, vai aprendendo com o pai os segredos e os sentimentos da mecânica. Ela faz os vídeos que ele publica, ensinando as manhas dos motores a qualquer um que se interesse, na intenção de evitar a dependência de mecânicos nem sempre honestos.

E assim, a kombi ficou pronta pra viajar, chegamos no Rio tranqüilos, motor mais silencioso, amaciando nos setenta, oitenta por hora. Sem vazamento. Quem gosta do que faz, só pode fazer bem feito, é o caso do Marcelo Tonella, a quem só tenho a agradecer. Na foto, Marcelo, Bianca e eu.

https://www.youtube.com/user/marcelotonella

Ela é a cara do pai. Bem melhorada, claro, mas se vê a matriz forte.

























Abaixo, encontros durante os dias de exposição no miolo de Sampa, avenida Paulista, no Masp.


Foto - Rogério DSantis



Foto - Rogério DSantis











terça-feira, 20 de setembro de 2016

Celestina em risco...

No segundo ataque cardíaco em duas semanas, Celestina corre risco de ficar pra trás. É preciso um bloco novo pro motor, provavelmente uma retífica e isso fica em mais de quatro mil reais. A grana da viagem cobriu a primeira internação, desfalcando as contas em casa - a parada em Sampa tinha como objetivo exatamente esse, as despesas da sobrevivência, com a matéria prima pro trabalho. Mas agora o preço ficou acima das condições e, como é comum, sem dinheiro pro tratamento a pessoa morre na estrutura social em que vivemos.
 Ela servia de transporte e de base pra exposição, sempre que necessário. Dentro, tudo o que precisamos em viagem. inclusive dormir dentro, nos postos, praças e esquinas da vida. As fotos são da exposição na palestra da Concha Acústica, UFSC, semana passada, antes do primeiro baque no motor da kombi, quando subíamos a serra pra Curitibanos, onde a palestra foi cancelada. Então deixamos Celestina internada em Floripa e fomos cumprir os compromissos, em Guaporé, Cachoeirinha e Porto Alegre. Na volta vimos o conserto sendo adiado pra sexta, sábado e domingo, quando finalmente saímos com ela. Mas ainda vazava óleo. Voltamos ao mecânico na segunda, ele garantiu a viagem, era só não deixar faltar óleo no motor, apesar do vazamento. Como não queríamos nem podíamos adiar mais a volta, a solução foi essa. Ali eu já tava vendo que não ia dar em conserto de verdade.

Bueno, dez litros de óleo mais tarde, já chegando em Sampa, depois da serra do café, mais exatamente no posto 65, em Juquitiba, a 40 km do anel rodoviário, na Régis Bitencourt, o motor bateu seco, menos de cem km depois do último litro posto. Ataque cardíaco, parou geral tudo.

Agora busco sem saber bem se um bloco de motor novo, sem ter toda a grana - eu daria um sinal e iria expor o que desse em Sampa, sem os painéis e outras coisas, mas com os desenhos, pra ver se levantaria essa grana. São quatro paus pra "fazer" o motor, sem contar o trabalho de tirar e instalar. Ou, talvez, mil pra comprar um bloco novo, mais quinhentos pro serviço. Não saí ainda atrás, Juquitiba é pequeno, talvez precise guinchar pra Sampa - não conheço mecânicos em Sampa, muito menos que tratem de kombis e sejam honestos e competentes. Aí apelo pros amigos em São Paulo. Estou com pouco tempo e a possibilidade de vender pra ir embora é uma das pensadas.

Uma pena. Mas não se pode ter apego às coisas, elas vêm e vão. Quando fazemos tudo o que podemos e ainda assim não dá certo, é preciso abrir a mão, largar e seguir adiante. Temos tudo o que precisamos, respiramos saudáveis, pelo menos ainda, e diante das perdas é preciso não piorar as coisas com sentimentos depressivos.

  Celestina já dura quase dois anos. Foram em torno de cinqüenta mil quilômetros rodados, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia passaram sob as rodas da kombi. Muitos amigos andaram nela conosco, muita gente cruzou os caminhos. História já tem, agora veremos o que rola.
A palestra foi até de noite, Celestina ao fundo apóia os painéis.

Ainda de dia, a exposição na UFSC.
Estamos arrumando um guincho pra levar pra Sampa, lá vemos se arrumamos um mecânico bom ou um comprador nem tanto, que compradores que aparecem no sufoco a gente já sabe como são.

Como segue a saga, também tô curioso. Mas se ficar sem nada já foi superado várias vezes, ficar sem kombi não será pior, nem mais difícil. Torno a carregar o que puder na mochila, se for preciso. E a vida caminha.
Celestina recolhida, depois do primeiro ataque cardíaco.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Internação de emergência

Na serra da Pedra Selada, caminho de Visconde de Mauá.

Voltando de Mauá, ontem, percebi o vazamento de óleo. Segui viagem até que a luz acendeu no painel na descida da serra. Parei na Capelinha, verifiquei a vareta, tava de assustar, só um meladinho do óleo na ponta. Uma hora depois apareceu o óleo necessário, muito mais caro que o normal, claro.

Fomos pela Dutra até perceber a fumaça branca pelo retrovisor. A coisa tava pior que eu esperava, bem que seu Manoel Elias me avisou, mas o serviço era pesado e caro, fui adiando até dar nisso. Gastamos cinco litros de óleo pra chegar em casa, já com a luzinha acesa de novo. Pelo caminho, ficou um fio de óleo marcando a rota, de Mauá até minha casa. O drama tava percebido.

Hoje levei ao médico, não dava pra resolver no ambulatório, decretada a internação. Ela fica lá até segunda de tarde. Vão ter que tirar o motor e trabalhar dentro do carter. Torre, retentores, flautas, tudo vai ser revisado, aproveitando que a cirurgia é complexa e profunda. Neste fim de semana, vou pra Santa Teresa de ônis. Pelo menos posso tomar umas cervejas por lá, não existe a assombração do bafômetro. Pena que não posso levar os ímãs.

Há pouco mais de um ano e meio não havia kombi, era tudo nas costas ou na bicicleta. Com os limites que isso acarreta. Na Celestina carrego muito mais e ainda não consegui chegar perto de completar sua capacidade. Mesmo assim, ela já faz parte da história. E das histórias.

No sul da Bahia, a caminho de Brumado, onde a promessa de ressarcimento das despesas não foi cumprida.

Em Barra Longa, caminho interrompido pelo veneno químico da samarco, na verdade vale, na tragédia planetária da maior bacia hidrográfica do sudeste. Que a mídia, hoje,minimiza chamando de "tragédia de Mariana", criminosa que é. O tempo já está trazendo as conseqüências, que estão só começando. Aí tem desgraça pra mais de século.

Ainda coletando dados sobre a calamidade ambiental, no caso aí próximo à foz, em Regência.

Em meio aos caminhões, Celestina dorme nos postos, sem se intimidar. Toda suja do barro tóxico, sinais de guerreira. Como Maria Clara, ela é pequena perto das carretas, mas destemida, valente, disposta. E não se intimida.

Celestina dá "pezinho" pro Kenny tirar fotos do crime das mineradoras.

Saindo de Ouro Preto na noite, ela não pôde subir até a casa de Douglas, que nos abrigava. Ficou num largo do caminho, mas tava em casa, antiguidade na antiguidade.

Em Porto Alegre, no Sarandi, a turma do Conceito Arte dá uma força no banho.

Pepe fotografa por trás, sem perceber seu próprio reflexo.

Já limpa, ela descansa das jornadas, na porta da casa que nos recebeu por uns dias.

Florianópolis, Monte Verde, em frente à casa que nos abrigou por lá em várias viagens, hospitalidade de Thiago Silveira.

Em Minas, uma parada pra mostrar em que direção nós viajamos pela vida.
Essa garibada vai preparar o motor pra viagem de setembro, ao sul, já com várias conversas marcadas, em várias exposições. Sinto que essa vai ser uma das melhores viagens, a melhor da Celestina. Vamos em cinco, ao que parece. Satya, Ravi, Roque, Maria Clara e eu. Vai caixa de som, guitarra e cajón (carrón).

Oremos pela saúde da Celestina.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O documentário

O documentário
Desde que Júnior me procurou na intenção desse filme, muita água passou debaixo da ponte. A viagem das cenas foi uma entre outras, durante o trabalho. Aliás, um trabalho muito mais do Júnior mesmo, que ficou picotando cenas e sons pelas madrugadas, fora dos seus expedientes de serviços. O trabalho externo, de captação das cenas, foi a parte fácil do trampo. As internas, o bordado, os cortes, as emendas, as combinações de som e imagem, imagino que devem ser muito mais cansativas, mentalmente.
Numa outra viagem de Kombi, neste período, estive em Santos, conversando no Monte Serrat, favela bela, organizada e solidária. Daí fui a Curitiba, três palestras em três dias, a primeira entre evangélicos diferentes, sem problemas em beber e fumar e viverem sem julgar ou discriminar, a segunda na casa Ocitocina, depois no OcupaMinc. Então fui a Floripa, uma palestra num evento vegano. A volta foi com problemas no motor, à noite, subindo serras, o que levou a vários contatos nos postos, com mecânicos, frentistas, muita conversa, cheguei a ler textos pra grupos interessados, cenas ótimas. Gostaria muito e insisti pra eles irem, mas não deu. A falta do tal financiamento pesou e tanto Júnior quanto Igor não puderam ir, tinham atividades programadas na manutenção da vida.
As possibilidades são precárias quando se está por conta própria. O que não impediu fazer o que está aí. O serviço de preparação das imagens e dos sons, incompreensível pra mim, tomou noites de Júnior. Ele até recebeu ofertas de participação, mas nada levado à prática, como é comum. Querer é mole, fazer já é bem mais raro.
Haveria mais viagens na fita, mais sotaques, mais interpelações e assuntos, mais conversas, mais oportunidades de coletar cenas que acontecem nessas movimentações, se houvesse grana aplicada no trampo. Mas sempre gostei mesmo é da capacidade de realizar assim mesmo, sem as condições ideais, com mais foco no conteúdo que na forma – que afinal, na minha opinião, é a parte mais importante. A peça está pronta e foi feita com o que tínhamos, com o que foi possível.
Acho que tem um ótimo meiquinhofe estocado com os caras (), cabe cobrar deles colocar isso aí no ar, tem muita coisa. Foram muitas as cenas gravadas e fotografadas durante as movimentações. O que foi publicado é pouco perto do que tem. Sei que esquentei a batata e agora jogo no colo do Júnior SQL. Mas é o trampo dele, vale pra ele principalmente. O Igor vai no reboque, mas na responsa.

Todo proveito merece a nossa gratidão, é o reconhecimento de que a gente precisa. O proveito levado à prática é direito e responsabilidade de cada um, na permanente mutação de que todos participamos, reconhecendo ou não, sabendo ou não, atentos ou distraídos. Escolhendo como fomos programados, em geral, raramente por conta própria, raramente vendo o mundo com os próprios olhos. Houve sempre quem retirasse as lentes impostas e visse com os próprios olhos, raríssimos. Creio que na atualidade há um processo crescente de retirada dessas lentes, de questionamento dos valores e comportamentos, dos poderes sociais, no modelo de vida que vivemos. Em forma embrionária, formam-se núcleos e coletivos em todas as partes, pouco a pouco, um processo permanente de mutação, tempo de gerações muitas. Não se pode esperar viver num mundo justo e solidário, seria ingênuo e perigoso, muitas “desistências” se dão a partir daí. Mas (e aí só posso falar por mim) se eu não viver no sentido de um mundo como o que desejo, não aplicar minhas energias nessa direção, não vejo muito sentido na minha vida. E a maneira que encontrei, ou escolhi, é refletindo e causando reflexão, sentindo e provocando sentimentos, questionando valores e padrões, relações e comportamentos, como parte de um processo estendido a todas as áreas das sociedades, a todo o planeta, ao universo. Mas aqui, de forma humilde, à minha volta, onde posso tocar e conviver, o primeiro plano em primeiro em lugar, ainda que não se esqueça os planos ao infinito, levados em conta como objetivos finais em todas as relações em torno, as que nos tocam. 


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Eduardo - 2014

Rafael Lage esteve em minha casa, dois anos atrás, enquanto fazia o filme Malucos de BR, levando em conta os muitos anos que andei pelas estradas, em quase todas as regiões do Brasil. Quando tive filhos, tive que intercalar moradias e deslocamentos. Sempre que deparava com a bifurcação pagar aluguel e contas ou manter a alimentação saudável, entregava a casa e saía pra estrada, às vezes pras ruas, onde, por não ter despesas de moradia, a grana era suficiente pra comer natural, saudável, e manter a saúde - o sistema público sempre foi apavorante, um sistema de doenças, precário, criminoso e desumano. A visão de mundo que se formou nessas vivências é clara e simples.



A segunda parte taí...


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Arte e pensamento em movimento - ou "bora pra estrada"

Hora de dar um tempo. Exponho em Santa Teresa desde o século passado, morei um ano no bairro e pulei pra outra santa, em Niterói, Santa Rosa, pra morar. Mas continuei expondo no Largo do Guimarães, primeiro no armazém fechado, nas três portas frontais. Depois, quando ali abriu um bar, passei pra parede do cinema. Mas venho sentindo vontade de mudança, um clima foi se instalando aos poucos, derrubando a sintonia com o lugar. Depois do desastre do bonde, onde morreram sete pessoas e dezenas se feriram, o bairro pareceu entrar em dormência. As falcatruas por trás das ações do estado e de empresas interessadas podem ser sentidas no ar, nos procedimentos, uma sociedade cujos poderes públicos são na prática privatizados e a hipocrisia é o lugar comum no trato com a população. Alguns anos sem bonde, agora um bonde esquisito, modernoso, descaracterizado como o patrimônio histórico que era, circula em silêncio pelos trilhos, até o Guimarães. Antes era do bairro todo, agora é só pra turistas. Eram duas linhas, agora é meia.
Encaramos a quebradeira no bairro todo, pra instalação dos novos e falsos bondes.

Durante as obras, Santa Teresa sofria na alma, os interesses de poucos emanava no ar.
Depois da “restauração” que tornou possível a circulação das pessoas, não era mais a mesma coisa, a forma tinha suplantado o conteúdo e os acontecimentos sinalizavam essa queda no astral do lugar. Começaram a aparecer figuras de outras vibrações pra expor, fisionomias agressivas ou hipócritas, sorrisos falsos ou alusões ameaçadoras, o climinha convencional da cultura social vigente, de competição e confronto, de interesses materiais e hipocrisias. Tempo de trocar o lugar, sem mágoas nem rancores, apenas sinais. Não me arrogo a posição do julgamento, da condenação, cada um carrega seu clima e suas conseqüências. A mim cabe escolher minhas atitudes e a mudança é uma necessidade permanente. No caso, mudança de lugar. Nada definitivo, mas o impulso deve dar a direção a seguir, na seqüência.
Em Rio Casca, dormindo em posto de caminhoneiros.
Surge, então, a oportunidade de realizar a idéia que vem madurando com o tempo e com a entrada de Celestina, a Kombi, na história. Há um ano e meio, ela vem sendo preparada pra ser engolidora de estradas. Desde então, quarenta mil quilômetros foram rodados, em viagens longas ao sul e ao norte, percorrendo o vale do rio Doce pra recolher informações e histórias desta hecatombe planetária que, todo o tempo, foi minimizada pelas empresas, pelo poder “público” e pela mídia dominante.
Chegando em Regência, a ver a bagaceira mineradora que matou o rio Doce desembocando no mar.
No parque estadual do rio Doce, a morte passa lentamente.
Saindo de Ouro Preto.
Sarandi, em Porto Alegre.
Pelas montanhas de Minas, rumo à Liberdade.
Exposição em Vitória, na Gruta da Onça.
Exposição na avenida Paulista.
Em Ouro Preto.
Maringá Rio, em Visconde de Mauá.
Cachoeira de São Félix, na Bahia. Homocinética quebrada.
Expondo na Bahia.
De novo na Paulista, encontros.
Na praça Roosevelt, a convite do Slam Resistência.
Em Santiago, no oeste gaúcho.

A idéia agora é sair pra expor nas cidades próximas, num raio inicial de duzentos quilômetros. E, pelo jeito, vamos em comboio, várias pessoas expondo suas artes. Se for o caso, proseando em público – ou palestrando, como dizem –, aproveitando a exposição e se rolar receptividade pra isso. Em qualquer lugar nesse raio onde se manifestar interesse e houver possibilidade de vendas pra bancar as atividades, é possível se fazer. Esperamos convites, pra chegar bem chegado e não ter problemas com os poderes municipais – como todo poder dito “público”, ávidos por “autorizações” e taxas, no vício de arrancar dinheiro da gente, sem contrapartida com o cumprimento nem da própria constituição. Um poder público que não merece nem o próprio nome, sempre aplicado ao atendimento dos interesses de poucos, os financiadores de campanhas eleitorais, e em enganar a população. Não pagaremos pra expor, nem ganhamos o suficiente pra isso, pois nos aplicamos em pagar as próprias contas, com dificuldade mas com persistência pra não se render aos valores e comportamentos vigorantes nesta sociedade criminosa, que abandona e sabota grande parte das pessoas – a miséria, a exploração, a ignorância, a desinformação são crimes sociais tão cotidianos que estão absurdamente naturalizados, quando ninguém devia se conformar com isso. Assim como ninguém deveria se conformar com uma vida sem sentido que gira em torno do consumo e da posse material, valorizando o desenvolvimento tecnológico, mas não o desenvolvimento moral pra tratar com ele, o que dá origem à escandalosa concentração de renda e propriedade e à conseqüente carência, criminalidade e violência. A violência do Estado é a mãe de todas as violências. E a vida imposta é a origem maior das frustrações existenciais. Essa é a base do meu trabalho. Escrito, desenhado e falado.

Esperamos contatos pra nos apresentar, levando em conta a necessidade de vender nossas artes pra seguir adiante – entre nós, ninguém tem outra fonte de renda senão a rua com as exposições.

No próximo fim de semana estarei na Bahia, palestra em Feira de Santana. Na volta, devo escolher um lugar pra expor, por perto do Rio, em conjunto com os amigos que vão também. Se houver interesse em alguma cidade dentro desse raio, espero a manifestação pra trocar idéias a respeito e, se possível, comparecer. Além de idéias, temos artes.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Barragem no "canal da aracruz" filtra os rejeitos da mineração - incluindo o vôo do drone.

Em fevereiro eu estava dando continuidade ao acompanhamento da situação no vale do rio Doce, iniciado por Mariana e descendo até Baixo Guandu, num passo a passo de histórias e imagens ao longo do rastro de destruição e morte deixado pela passagem da tsunami de rejeitos da mineração, em dezembro. Em fevereiro parti pra Regência, pelo litoral norte do Espírito Santo, a fim de subir o rio até Baixo Guandu e fechar o ciclo.
Tronco submerso, ainda marcado pela cor da lama de rejeitos. 
No caminho, passamos por duas aldeias indígenas - Guarani e Tupiniquim - e por um acampamento do MST, onde paramos pra um papo. Tomando um café numa das barracas de lona preta, fiquei sabendo que não eram lavradores ali, mas pescadores pobres, que viviam com suas famílias da pesca pequena, num canal aberto pela Aracruz Celulose, anos atrás, para levar água do rio Doce à fábrica de celulose, já que o rio Riacho não tinha água suficiente. Uma transposição que não foi noticiada pela mídia, ao que me parece, apesar de ter havido movimentos de protesto, em geral inúteis quando se trata de interesses mega-empresariais - invariavelmente financiadores de campanhas eleitorais e, por isso, com forte poder de pressão sobre parlamentos, prefeituras e governos. O canal acabou enchendo de peixes e as famílias se instalaram ali pela necessidade de sobrevivência, até que a onda dos rejeitos barrentos desceu pelo rio e entrou no canal, matando todos os peixes. Sem ter como sobreviver, as famílias se reuniram nesse acampamento, enquanto o jurídico do MST tratava de conseguir indenizações e condições de sobrevivência da mineradora.
O pessoal do acampamento.
Eles disseram que depois de uns dias, a água começou a clarear até ficar transparente de novo. A lama da Samarco danificaria as máquinas da fábrica, então deu-se um jeito de limpar. De que maneira, eles não sabiam. Fotografei o canal.
O canal da Aracruz Celulose, hoje Fibria.

Depois de Regência, seguimos na busca da entrada desse canal, no rio Doce. Passamos por fazendas de cacau e por poços de petróleo do tipo martelo, erramos, mas acabamos chegando. O nome dado pela empresa foi "canal Caboclo Bernardo, um herói da região, mas a população local não o conhece por esse nome, mas por "canal da aracruz.
Não pude fotografar o filtro e o início do canal, a segurança não deixou, mas peguei umas imagens do lado de fora, inclusive dois canos que retornavam do filtro-barragem, devolvendo os resíduos retirados da água ao rio Doce. Não me conformava com a filtragem da água aplicada às necessidades das máquinas de esmagar madeira pra fazer celulose, enquanto todas as cidades ao longo do rio sofriam com morte de tudo o que vivia no rio. A tecnologia de filtragem existe e não estava sendo usada para os milhões de habitantes do vale, mas pras máquinas a filtragem aconteceu em menos de um mês. Pro poder mega-empresarial, acima dos poderes públicos, o lucro vale mais que a vida, as máquinas valem mais que as pessoas.

Depois, em Linhares, procurei uma alternativa pra voltar lá. Um drone. Voltamos na madrugada da quarta-feira de cinzas e, quando amanheceu o dia, o drone fez o serviço.Escaldados com a truculência da segurança da Samarco, que nos abordou em Bento Rodrigues de tal maneira que tivemos que armar uma fuga improvisada - eu fiquei de isca enquanto Rafael e Kenny saíam do local com as fotos e filmagens -, saímos da área voando na kombi, por estradinhas que passavam dentro das fazendas, de volta a Linhares. Nada aconteceu, então.

Andei com essa filmagem, sem conseguir editar, por um tempo, já que não tinha grana, não sei fazer edição nesse nível e o que consegui não estava satisfazendo. A amiga Paula Thebas levou pra Sampa e Wagner Pacífico fez o serviço. O resultado taí.

Trata-se da limpeza dos resíduos da mineração que assassinaram a vida do rio Doce e estragaram a vida de milhões de pessoas. Há solução plausível, mas só se aplicou nos interesses empresariais. O povo, ora o povo... numa ditadura banqueiro-mega-empresarial, o povo tá claramente em segundo plano. Os lucros e o patrimônio valem mais do que a vida.

https://youtu.be/ctC758ikEGc

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Inchou e desinchou

Mês passado eu estava em casa de Brisa, Alice e Olívia, por uns poucos dias. Tratava de umas bolhas nas mãos, surgidas depois de movimentar uns caixotes empoeirados e esquecidos num depósito, certamente por alguma substância nociva deixada pela passagem de algum bicho que não pude saber. Restava uma feridinha ressecada, eu sem nada pra passar em cima. Só havia óleo de copaíba na casa, um poderoso cicatrizante e anti-inflamatório que eu já havia usado com sucesso mais de vinte anos atrás, numa ferida séria, com sucesso. Em 2011 usei novamente, mas percebi uma reação adversa, uma urticária que me levou a suspeitar que meu corpo não tava se dando bem com o óleo. Mas o tempo passou e eu resolvi usar a copaíba, porque o óleo amaciaria o ressecamento, como de imediato foi a sensação.

Então desci pra Resende, tinha a regulagem do motor pra ser feito. Seu Manoel Elias gosta de pegar o motor frio, por isso deixo a kombi na oficina à noite e ele faz o serviço de manhã. Pensei em dormir nela, mas teria que ficar preso na oficina trancada desde as seis da tarde. Então deixei lá e fui tomar uma cerveja, levando os desenhos e livrinhos pra eventuais vendas. Abri o computador, declarei minha situação e tentei arrumar um lugar pra dormir por ali. Não recebi resposta até a quarta cerveja, fechei o computador e caminhei na direção da oficina, junto à via Dutra - pensava mesmo em dormir na beira da rodovia, mas passando pela esquina da oficina lembrei que ali a estrada era urbana, não tinha a segurança do isolamento. E resolvi ficar ali na esquina, na calçada, próximo a um treiler de lanches que tava aberto na madrugada.

Deitei e ali comecei a sentir a cara inchada. De princípio não liguei, mas a sensação aumentava. Sem espelho, tirei fotos pra ver como tava. Inchada ainda só um pouco, não entendi o que acontecia, a princípio.


De manhã seu Manoel me viu entrar na oficina, "bom dia, seu Manel Elias", respondeu e ficou me olhando de um jeito que seria estranho, se eu não soubesse que minha cara tava inchada. "Tá inchada, né..." "O que aconteceu?", ele perguntou. "Não sei, inchou durante a noite, mas tá tranquilo, não dói." Ele riu, "isso é estresse, tu anda esquentando muito a cabeça, esse negócio de pensar demais..." Eu ri, também. "se fosse isso eu vivia de cara inchada".

Passamos à regulagem das válvulas, eu tentando aprender alguma coisa, não dava pra deitar debaixo do carro por causa da pressão na cabeça, mas fiquei abaixado olhando tudo. Quando terminou, embarquei rumo ao Rio, esperando que o inchaço não me impedisse de dirigir. Correu tudo certo, cheguei em casa assustando o Pepe, "que es eso, compadre?" "Sei lá, parceiro, tô achando que é reação a um óleo de copaíba que usei ontem."

Foi chegar em casa e a coisa desandou, o inchaço quase que fechou meus olhos. Se estivesse na estrada, teria dificuldade em enxergar o caminho. Pelo rádio ouvi um acidente acontecido na Dutra, minutos depois de eu ter passado na baixada, que parou a estrada. Quatro horas com a via parada, se eu demorasse alguns minutos a mais teria ficado lá, preso no congestionamento. Senti que fui protegido, deu um calafrio pensar que eu podia ter caído nas mãos do sistema de saúde pública, um risco enorme de morte. Aí a cara já tava toda inchada, o corpo tava pesado, comi alhos e tomei gengibre. Parou de inchar mas ficou inchado.


Apelei prum anti-histamínico de farmácia, sem condições de procurar alternativas, por ignorância e incapacidade de movimentação. E a coisa começou a reverter. Pouco a pouco voltei ao tamanho normal, carregando a pele grossa na cara e nas mãos. A sensação de que a pele tava morta se confirmou no descascamento que se seguiu.




Agora passou, estou ainda assimilando o recado espiritual, ou a advertência. É parte do trabalho interno estabelecer a comunicação entre as dimensões a que temos acesso, além da física. Esse contato é permanente, embora pra esmagadora maioria, inconsciente. Não pretendo a plena consciência, mas já não aceito a total inconsciência.

Segue a vida. Tenho até dia 25 pra preparar a viagem ao sul, começando por Sampa e até Porto Alegra, parando em Floripa e, talvez, Curitiba.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Os tempos vão passando... acontecimentos não páram.

Virá o tempo em que será vergonhoso se ter mais do que se precisa. O dia em que será constrangedor colaborar com a opressão, venha de onde vier. Um dia em que moral será referência, estar bem com a própria consciência será uma exigência pessoal e geral, independente da opinião alheia - que será bem outra, certamente. Um dia em que a harmonia social será a prioridade do poder então público de verdade, não haverá a possibilidade de um ser humano passar fome ou abandono, um dia em que os animais serão percebidos como nossos irmãos menores e, portanto, dignos dos nossos maiores cuidados. Esse tempo virá. E estamos trabalhando pra isso, exceções às regras, grupos embrionários, que buscam em si mesmos e em suas consciências o respaldo pras suas ações, sempre criminalizadas e perseguidas pelas instituições do poder vigente.

Esse dia virá. E qualquer um poderá se incomodar quando e se vir um ser humano em situação de carência, seja qual for. Se incomodar e acionar a sociedade, que estará pronta a cumprir sua função, atender as necessidades básicas de todos. Estamos ainda primitivos. Quem quiser pode sentar e chorar, os que me interessam são os que partem pra atividade, dão seu jeito, criam, inventam, fazem o que querem fazer, ainda que a sociedade não lhes dê condições. Esses eu admiro, ainda mais se levam na alma a inconformação com o sistema como ele é, se não se afastam do trabalho de construção de uma sociedade mais e mais humana.

Tenho visto, diante dos últimos acontecimentos falsamente chamados de políticos, muita gente decepcionada, estarrecida, surpresa, espantada, indignada diante dos procedimentos dos chamados poderes públicos - que de públicos só trazem o nome. E me pergunto, onde uma gente tão esclarecida, estudada, acadêmica, instruída se informa, onde eles põem os olhos que não percebem que toda a institucionalidade está tomada, infiltrada, dominada por essas elitezinhas parasitas? Fixados numa pretensa "ditadura militar", não percebem que a ditadura é banqueiro-mega-empresarial, que existe desde a proclamação da república, aliás proclamada por essa mesma ditadura, sequiosa de usufruir os privilégios dos "nobres" da monarquia, sem tem o tal sangue azul, sem pedigri.

Cadê a academia que não tem um mísero estudo sobre as causas da pobreza, da miséria, da ignorância endêmica em nossa sociedade, quando há tecnologia, produção e logística pra atender a todas as necessidades de todos os brasileiros? Onde tá a porra da "inteligentzia" nacional, que não aponta as causas, facilmente resolvíveis, das abjeções sociais? Essa barbárie só existe porque está planejada e faz parte do modo de dominação sobre a estrutura social. Não interessa a esses um povo instruído. Ao contário, é preciso manter a ignorância. É só olhar em volta pra perceber que foram muito bem sucedidos. A academia, comprada pelas parcerias empresariais, não tem como estudar e denunciar os crimes dos seus parceiros e patrocinadores.

A mesma sociedade que permite a ação de publicitários e marqueteiros que usam psicologia do inconsciente, os mais profundos estudos sobre o comportamento humano, produzindo desejos compulsivos de consumo sobre toda a população, nega condições de consumo pra sua esmagadora maioria. Desejos são competentemente implantados no inconsciente coletivo, com o foco em marcas como valor social e pessoal, enquanto se nega a capacidade de consumir essas coisas no geral, pra todo mundo. É um convite ao crime. Milhões de famílias são expostas e esta situação, só por ter uma televisão em casa. Os mesmos milhões que fazem os serviços mais básicos e necessários de toda a sociedade. É de se esperar a criminalidade disso decorrente, impossível não haver os que se revoltam, são injustiças demais e cotidianas.

Pra se formarem privilégios, digo isso há trinta anos, é preciso eliminar direitos. É o que acontece em nossa sociedade. As instituições, os governos, os sistemas legislativos, câmaras de vereadores, de deputados estaduais, câmara de deputados federais e senadores, os ministérios e autarquias, tudo está infestado do poder banqueiro-mega-empresarial, tudo rola conforme suas determinações. A ignorância há de ser mantida, via sabotagem do ensino público, a informação há de ser controlada, via mídia privada - globo à frente - e se pode conduzir o povo e sua opinião com a televisão, com a publicidade, com o jogo de cena. E o povo será o fudido de sempre, como tem sido.

Há furos no controle da informação, os de baixo se informam, percebem que são o alicerce desta sociedade que os oprime, pouco a pouco, muito mais lento do que se gostaria. Mas o processo tem seu ritmo. E eu nunca vi tanta entidade nascida em periferia, funcionando, canalizando, resgatando, em toda parte.  É novidade, em muitos anos de periferia, desde a década de oitenta, onde encontrava revolta, criatividade, solidariedade na contravenção, por inimizade ao Estado e à sociedade. Era uma coisa intuitiva. Hoje vejo uma consciência como nunca antes havia visto. Não só no surgimento de tantos movimentos periféricos, fundamental no processo, mas na percepção de um domínio de poucos sobre o todo, de um condicionamento, uma estratégia de controle e indução da maioria.

Os que vêem têm sua responsa. Cada um na sua área, que seja. Mas no fundo é a mesma área, o trabalho na evolução humana, neste tempo mínimo em que vivemos. Somos todos um, o mais adiantado não está tão longe assim do mais atrasado. Afinal, estamos no mesmo grupo humano, no mesmo grupo planetário de seres, vivos e minerais.

Tá acima do nosso entendimento, é preciso reconhecer.


observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.