Virá o tempo em que será vergonhoso se ter mais do que se precisa. O dia em que será constrangedor colaborar com a opressão, venha de onde vier. Um dia em que moral será referência, estar bem com a própria consciência será uma exigência pessoal e geral, independente da opinião alheia - que será bem outra, certamente. Um dia em que a harmonia social será a prioridade do poder então público de verdade, não haverá a possibilidade de um ser humano passar fome ou abandono, um dia em que os animais serão percebidos como nossos irmãos menores e, portanto, dignos dos nossos maiores cuidados. Esse tempo virá. E estamos trabalhando pra isso, exceções às regras, grupos embrionários, que buscam em si mesmos e em suas consciências o respaldo pras suas ações, sempre criminalizadas e perseguidas pelas instituições do poder vigente.
Esse dia virá. E qualquer um poderá se incomodar quando e se vir um ser humano em situação de carência, seja qual for. Se incomodar e acionar a sociedade, que estará pronta a cumprir sua função, atender as necessidades básicas de todos. Estamos ainda primitivos. Quem quiser pode sentar e chorar, os que me interessam são os que partem pra atividade, dão seu jeito, criam, inventam, fazem o que querem fazer, ainda que a sociedade não lhes dê condições. Esses eu admiro, ainda mais se levam na alma a inconformação com o sistema como ele é, se não se afastam do trabalho de construção de uma sociedade mais e mais humana.
Tenho visto, diante dos últimos acontecimentos falsamente chamados de políticos, muita gente decepcionada, estarrecida, surpresa, espantada, indignada diante dos procedimentos dos chamados poderes públicos - que de públicos só trazem o nome. E me pergunto, onde uma gente tão esclarecida, estudada, acadêmica, instruída se informa, onde eles põem os olhos que não percebem que toda a institucionalidade está tomada, infiltrada, dominada por essas elitezinhas parasitas? Fixados numa pretensa "ditadura militar", não percebem que a ditadura é banqueiro-mega-empresarial, que existe desde a proclamação da república, aliás proclamada por essa mesma ditadura, sequiosa de usufruir os privilégios dos "nobres" da monarquia, sem tem o tal sangue azul, sem pedigri.
Cadê a academia que não tem um mísero estudo sobre as causas da pobreza, da miséria, da ignorância endêmica em nossa sociedade, quando há tecnologia, produção e logística pra atender a todas as necessidades de todos os brasileiros? Onde tá a porra da "inteligentzia" nacional, que não aponta as causas, facilmente resolvíveis, das abjeções sociais? Essa barbárie só existe porque está planejada e faz parte do modo de dominação sobre a estrutura social. Não interessa a esses um povo instruído. Ao contário, é preciso manter a ignorância. É só olhar em volta pra perceber que foram muito bem sucedidos. A academia, comprada pelas parcerias empresariais, não tem como estudar e denunciar os crimes dos seus parceiros e patrocinadores.
A mesma sociedade que permite a ação de publicitários e marqueteiros que usam psicologia do inconsciente, os mais profundos estudos sobre o comportamento humano, produzindo desejos compulsivos de consumo sobre toda a população, nega condições de consumo pra sua esmagadora maioria. Desejos são competentemente implantados no inconsciente coletivo, com o foco em marcas como valor social e pessoal, enquanto se nega a capacidade de consumir essas coisas no geral, pra todo mundo. É um convite ao crime. Milhões de famílias são expostas e esta situação, só por ter uma televisão em casa. Os mesmos milhões que fazem os serviços mais básicos e necessários de toda a sociedade. É de se esperar a criminalidade disso decorrente, impossível não haver os que se revoltam, são injustiças demais e cotidianas.
Pra se formarem privilégios, digo isso há trinta anos, é preciso eliminar direitos. É o que acontece em nossa sociedade. As instituições, os governos, os sistemas legislativos, câmaras de vereadores, de deputados estaduais, câmara de deputados federais e senadores, os ministérios e autarquias, tudo está infestado do poder banqueiro-mega-empresarial, tudo rola conforme suas determinações. A ignorância há de ser mantida, via sabotagem do ensino público, a informação há de ser controlada, via mídia privada - globo à frente - e se pode conduzir o povo e sua opinião com a televisão, com a publicidade, com o jogo de cena. E o povo será o fudido de sempre, como tem sido.
Há furos no controle da informação, os de baixo se informam, percebem que são o alicerce desta sociedade que os oprime, pouco a pouco, muito mais lento do que se gostaria. Mas o processo tem seu ritmo. E eu nunca vi tanta entidade nascida em periferia, funcionando, canalizando, resgatando, em toda parte. É novidade, em muitos anos de periferia, desde a década de oitenta, onde encontrava revolta, criatividade, solidariedade na contravenção, por inimizade ao Estado e à sociedade. Era uma coisa intuitiva. Hoje vejo uma consciência como nunca antes havia visto. Não só no surgimento de tantos movimentos periféricos, fundamental no processo, mas na percepção de um domínio de poucos sobre o todo, de um condicionamento, uma estratégia de controle e indução da maioria.
Os que vêem têm sua responsa. Cada um na sua área, que seja. Mas no fundo é a mesma área, o trabalho na evolução humana, neste tempo mínimo em que vivemos. Somos todos um, o mais adiantado não está tão longe assim do mais atrasado. Afinal, estamos no mesmo grupo humano, no mesmo grupo planetário de seres, vivos e minerais.
Tá acima do nosso entendimento, é preciso reconhecer.