segunda-feira, 18 de outubro de 2010


Adhara aos nove anos, numa viagem a Visconde de Mauá,
com Victor Mendez, el peruano - óleo sobre tela.


Indecisão – ir ou não ir

                                                                                                                                          Eduardo Marinho
Tenho uma filha que mora nos Estados Unidos. Isso mesmo, no império. Pouco tenho a ver com isso, jamais poderia ter-lhe pago tal viagem, quase todas as que fizemos foi de carona, dormindo em postos ou em caminhões, raramente em algum hotelzinho fuleiro, de beira de estrada. Ela foi quem ralou pra conseguir pagar. E ainda assim, precisou de grana emprestada de amigos, que pagou de lá, depois. Foi através de um programa, tudo legalzinho. Era pra voltar em dois ou três anos, ou de lá ir pra Europa ver o que rola. Mas foi ficando, arrumou namorado, mudou de trabalho, veio ao Brasil em visita, mas não viu condições de viver por aqui (em um nível decente de vida), voltou pra lá e ficou. Há algum tempo casou. Não gostava da cidade em que vivia, toda a comida artificial, pessoas sem interesse, enfim, detestava o lugar. Mas aqui a situação seria pior, não tinha muita opção. Há pouco tempo, mudou pro Colorado, um lugar lindo, de montanha, as pessoas são diferentes, há produtos naturais, até artesanato se vê em algumas ruas e praças. Parece outro país. Como aqui no Brasil, mesmo, as variações de lá são incríveis.
Ela tem insistido comigo pra ir visitá-la, e eu sempre refugando. Desde alguns anos. Tenho muito o que fazer aqui, não me interessa uma viagem de “férias”, não tô a fim de ficar à toa ou passeando, muito menos na aba de filho (claro, ela se propôs a pagar tudo). Uma cidade satélite de Washington, onde tudo se faz de carro, se come o que ela me descreveu várias vezes, com uma gente como a que me descrevia, o que eu ia fazer ali, meu Deus? “Visitar sua filha”, ela me respondia, e eu, “mais fácil cê vir aqui, assim vê todo mundo”. Mas ela não desiste.

Agora mudou pro Colorado. Montanha. Outro clima. Outra gente. Fiquei pensando... o iptu tá atrasado, a grana é sempre pouca, se desse pra trazer uma grana de lá, podia resolver o problema da casa e, quem sabe, até comprar um fusca pra transportar os trabalhos. Se tem gente vendendo artesanato, pode dar certo. Preparo umas pinturas, sei lá, umas naturezas mortas a óleo, umas viagens em acrílica, de repente posso voltar com grana pra desafogar a vida.

Não disse nada a minha filha, não quero criar expectativas só porque abri a possibilidade. Além do mais, tem várias pendências.

O título de eleitor tá atrasadão, acho que nem existe mais. A quitação com o serviço militar, também, só me apresentei como reservista no segundo ano, tem que ir lá, regularizar. Parece que depois dos 46 anos não tem mais vínculo, eles fazem uma carteira de “desobrigado”. Gostei do nome. Depois de ficar regular, tem que ver se no consulado deles, que parece tão exigente, vão me liberar um visto de entrada. Vejamos, não tenho emprego fixo, não vou levar dinheiro (bom, isso ela pode me mandar de alguma forma, pra eu mostrar no consulado ou no aeroporto, sei lá), não falo inglês, minha renda é ridícula pra eles, não tenho formação universitária, sou um artista de rua. Será que vão acreditar que não desejo de forma alguma permanecer por lá? Do jeito que são assediados por imigrantes ilegais? Acho que não me liberam. Ela acha que sim. Ou diz que acha, pra me levar a tentar, talvez.

Não sei se vou, mas tenho que começar a pintar pra ir juntando. No caso de não ir, é sempre bom ter pronta uma quantidade de pinturas. Uma exposição e é uma salvada na situação. Caso vá pro Colorado, penso que a salvada pode ser bem maior. Um mês, no más, deve ser o suficiente. Mais que isso sei que vai me dar uma agonia danada pra voltar. Mas não sei se vou. De repente, posso mandar as pinturas pra ela ver se vende. E ela me manda a grana, tira uma comissãozinha e pronto. Ela não vai gostar da idéia, eu acho. Mas até juntar umas pinturas, lá se vão alguns meses. O dia a dia leva tempo. Pra quê decidir agora? Deixa o destino se apresentar. Se houvesse um ímpeto, uma vontade muito grande, é que eu precisaria ir, mesmo. Mas não há isso. É, mais, uma possibilidade de tirar o pé da lama.

22 comentários:

  1. E por que não fazer realmente sua arte e divulgar lá? Com suas frases em inglês, seus pensamentos, reflexões e verdades. Com suas imagens da opressão, submissão, alienação, ignorância e ilusão. Hoje em dia toda a humanidade ta perdida, presa nisso.
    Muita força irmão (não sou eu que preciso dizer isso, você sempre teve, mas é o que todos precisamos), obrigado por tudo. LUZ!

    IN LACK ECH! (SOMOS TODOS UM EM MAYA)

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  2. Amigo,

    permita-me uma intimidade que não temos:
    deixa de frescura e vá ver a menina!

    abraços fraternos.

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  3. Caro amigo, creio ser esta uma oportunidade rara.Se tens a chance de poder divulgar seus trabalhos internacionalmente, pergunto-lhe o que mantém inerte a sua vontade ?( nao referindo-me as pendências administrativas, mas a vontade em si). Se quiseres, creio que possamos através da internet, divulgar ( ao menos tentar) seus trabalhos para o povo de lá, e caso venha a dar certo, podereis exportar através de sua filha, ou quem sabe ( melhor ainda) levar seus trabalhos até lá pessoalmente.
    Sou novo em vosso blog, porém, identifico-me com seus ideais e reflexões.Também servir na Escola preparatória para cadetes ( EPCAr), e de lá não quis manter nenhuma vínculo, sofrendo repressões, por parte de minha família( em especial meu pai, que é militar e também fora da Escola). Se eu puder de alguma maneira ajudá-lo, creio que minha alma se purificará ainda mais.

    Att, Phillipi Godinho.
    Hasta la victoria

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  4. Vá visitar sua filha, além do mais, você poderá "Ver como é, não como nos dizem" :-)

    Mas a decisão é sua, é claro;

    Abraço

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  6. Olha, só! vim visitar o seu blog e eis que me deparo com esse texto!

    Além de ME ME ME visitar, tem muita coisa pra se fazer aqui. Ó, garanto que nao vai se arrepender. Vai relaxar, sem TER que se preocupar com coisas dai. Melhor ainda. Ter tempo de pensar de longe. Tirar umas "ferias" pela primeira vez em o que?, 20 anos?

    Aqui tem muita montanha (altitude mais de 2500 metros)! Vamos esquiar (tbm nao sei!!!), fazer trilhas, andar pela cidade, conhecer!
    Não sei se as pessoas expoem nas praças. Nao vi ainda. Nem deu tempo, me mudei há 8 dias! Mas as pessoas que vejo nas ruas sao muito diferentes do "tipo" norte americano.
    Com certeza, pelo tipo de lugar, tem muita feira de artes. Muita cultura no ato.
    Acho que se vc me mandar um portifolio novo, com pinturas que vc possa trazer (manda por email mesmo), seria ótimo pra mostrar por aqui, ver onde vc pode expor.
    Uma boa ideia tbm é me mandar as frases que vc quer vender por aqui, eu traduzo e te mando de volta, e vc poe no papel :)
    bom, vou te ligar amanhã. Achamos um apartamento, vamos nos mudar amanha, e internet só na 2a feira :(

    PS: Amo esse quadro com o Victor nas montanhas de Mauá. Não esquece de trazer :)

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  7. és uma filha de sorte. Seu pai, acredito que para mim e muitos, é um herói.

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  8. Você tem medo de perder seu posto de rei na merda.
    Você ainda é um menino medroso, birrento, que quer ficar eternamente em fuga.
    Não apenas uma fuga física, mas uma fuga ideológica, buscando justificativas pra seu auto-isolamento.
    Pra que?
    Pra ser o rei na merda. O rejeitado, o desprezado, o pensador da sarjeta, o artista "alternativo" que não tem nada de alternância.
    Você classifica os EUA como "império".
    Não existe isso.
    Os EUA são dezenas, talvez centenas de caminhos e oportunidades.
    Em se plantando, tudo dá.
    Dá desgraça, dá tragédia, mas dá alegria, satisfação, felicidade.
    Mas é tããããão melhor ficar fazendo beicinho num canto, sapatear contra as dores do mundo, bancar o mártir da esquina, o rejeitado da burguesia, o acolhido pela "marginalidade"...
    O rei da merda, mas ainda um rei.
    A verdade é que a Adhara possui, e principalmente aplica, o Espírito de Liberdade que você, um dia, teve.
    E que hoje está dormente, anestesiado, coberto de amargura...
    E orgulho.
    Porque você TEM ORGULHO de estar na merda, essa é a grande verdade.
    É NISSO QUE VOCÊ SE APEGOU!
    Se acha livre por estar na berlinda do mundo, alheio, distante, afastado...
    — Só que isso tudo é mentira.
    A Verdadeira Liberdade só acontece quando é PARTILHADA com quem se ama.
    Sua filha te ama, seu idiota!
    Ela quer tirar essa craca que você se tornou aí, da parede do imobilismo, e te apresentar um mundo novo.
    Um mundo IMENSO, cheio de possibilidades, que te pode enriquecer espiritual e intelectualmente como você JAMAIS IMAGINOU!
    — Ah, mas o seu orgulho de ser rei na merda, o imperador do cocô, é MUITO MAIOR!
    Portanto, larga mão de ser pequeno!
    Deixe de bancar o "alternativo" e ganhe o mundo!
    Abra mão desse seu orgulho ridículo e vá ver sua filha, seu filho da puta!
    Liberte-se da merda e vá ver quem te ama, babaca!
    — Tua filha tá chamando.
    Atenda ao chamado do sangue de seu sangue, o coração de seu coração, a lágrima que também é sua.
    VÁ LÁ, VIADO!

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  9. Nossa. Isso é que é alto nível.
    Minha filha tá aqui, comigo. Respeito suas opiniões. Não pude concordar com nenhuma. São, a meu ver, conclusões precipitadas, sem base real. Parece até brincadeira. De mau gosto, claro.

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  10. Dizer "Bancar o alternativo" é ótimo. As pessoas com quem estudo (colégio particular, coisa alta, né...) que não conseguem sair do motorista e das boates de dez mil reais falam isso o tempo todo pra nós aqui, meros mortais.

    Mas quanto à viagem, acho que sempre vale a pena uma experiência nova.

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  11. Comentários desnecessários do JRP. Grosseria sem fundamento.

    Nem sabemos da sua vida, Eduardo. O que aconteceu, o que deixou de acontecer.

    Mas dando minha opinião, como se trata de sua filha, acho que vale o esforço. Não há nada de errado em ir para os EUA. Uma experiência nova, um aprendizado. E rever a menina.
    Acredito que será bom para ambas as partas.
    Força, irmão!

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  12. Eduardo, um trecho do livro O Poder do Mito, do Campbell que acabei de ler (abri aleatoriamente, mentalizando no seu post):

    "Campbell: ....Eu costumo dizer: Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas.
    Moyers: Você já sentiu simpatia pelo homem que não dispõe desse tipo de apoio invisível?
    Campbell: Quem não tem esse tipo de apoio? Bem, esse é o tipo que evoca compaixão, o pobre coitado. Vê-lo tropeçando, desajeitado, quando todas as águas da vida estão exatamente ali, ao alcance da mão, realmente desperta piedade.
    Moyers: As águas da vida eterna estão exatamente ali? Onde?
    Campbell: Onde quer que você esteja, se estiver no encalço da sua bem-aventurança, você estará desfrutando aquele frescor, aquela vida intensa dentro de você, o tempo todo."

    boa sorte e um abraço!

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  13. Aí gente, só pra pontuar uma coisinha em relação ao comentário de JRP..

    É muito comum que uma pessoa que passou a vida justificando a sua realidade sofrida, se sinta ofendida ao ler essas coisas que o Eduardo escreve.

    É tipo assim...
    "Passei a vida me sacrificando para me convencer que estou bem e vem uma pessoa dizer que fiz tudo errado."

    JRP, pode ficar à vontade.
    Ninguém quer te ofender n.
    Eduardo apenas está falando o que pensa.

    Se vc n concorda ignore e pronto, sua vidinha vai continuar do mesmo jeito.

    Abraços.
    Tone Ely.

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  14. Parabens eduardo pela serenidade com que observa os situacoes mundanas.
    Sua resposta as grosserias do jrp eh lapidar.

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  15. Li o post e ví o seu vídeo no Youtube. Sobre o comentário do tal JRP, se eu fosse você tentaria ver de outra forma. Acho que o comentário não foi uma agressão gratuita. Nem te conheço, mas sei lá, minha capacidade de dedução é "sobrenatural"... Hehehehehe. Acho sinceramente que o tal JRP é alguém que te conhece (ou conheceu) muito bem, e quer o seu bem (pelo menos no ponto de vista dele(a). Sei lá, pelo menos é o quem e pareceu, ABS.

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  16. Duvido que ele me conheça. "Muito bem", nem eu mesmo me conheço. Expressões como "fazendo beicinho", "bancar o mártir", "orgulho de estar na merda", "alheio, distante, afastado" e várias outras demonstram que ele não me conhece, mesmo. Se conhecesse, estaria falando de má-fé, provavelmente com o único intuito de insultar e provocar a reação que esperam os que insultam. Sou calejado com insultos, isso não me incomoda nem um pouco - nem vejo o insulto, vejo uma pessoa grossa ou destemperada que deseja que eu me sinta ofendido, nada mais. Só serve pra balizar minhas relações e determinar com quem me relaciono ou não. Críticas, eu analiso pra tentar ver, talvez, algo em mim que não tenha visto e que possa ser trabalhado. Mas ofensas gratuitas e sem conteúdo não posso considerar, não me servem pra nada. Talvez tenha servido a ele, de alguma forma, alguma necessidade pessoal de descarregar seus sentimentos, talvez.

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  17. JRP, acredito que não entende a profundidade do pensamento do autor do blog, e nem vê a vida com os mesmo olhos que ele. O que vc tem feito para tentar mudar as coisas que vc acha que não são corretas? aliás, vc consegue ver aonde estão os erros?

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  18. Eduardo, o Brasil precisa das suas perguntas para continuar refletindo!

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  19. VÁ > MAS VOLTE LOGO!

    Veja o Brasil de fora, e volte com mais um ponto de vista para expor a nós.

    Mas se houver qualquer chance de você querer ficar por lá, então > NÃO VÁ!

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  20. acredito q mais do que uma possibilidade de tirar o pé da lama , e mesmo com todas as negações de ir a um país líder e sair da sua zona de segurança , é a chance de ver uma pessoa que te ama , e isso não tem dinhero q pague , e está além das mediocridades do nosso mundo ,
    eu iria

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  21. Não acho que é um país líder. É um governo tirânico, sem dúvida. Agora, minha zona de segurança, não tenho a menor idéia do que é.

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  22. Eu moro aqui nos USA ha' 2 meses.
    Vim pra ca' ficar em torno de 1 ano - essa e' a 1a ideia sem mtos planos a respeito - para estudar ingles e viver outra cultura. Depois penso em ir pra Europa e pra Asia.
    O 2o motivo e' o mais importante. Vc conhecer e viver outras culturas e' algo impagavel; vc ver de perto se sao 'certas ou erradas' coisas q apenas supoem, e' mto libertador.
    Mas te digo uma coisa Eduardo, governo tirano todos sao - o que varia e' a intensidade. Portanto, prefiro olhar sob o aspecto que tb todos os lugares tem coisas boas e ruins, e aqui estou encontrando MTA qualidade de vida, que foi um dos fatores mais importantes que me moveu para fora de SP - onde eu morava. E bem, nao estou falando de dinheiro.
    Enfim, quis passar um pouco da minha experiencia.
    Ah sim, mais uma coisa em comum: vim com a dadiva de ficar um tempo com minha mama, ela quem mora aqui ha' 12 anos.
    Acredito que coisas como essa, a convivencia direta com quem amamos, sao incomparaveis. Fazem parte da nossa real riqueza.

    Torco para que vc resolva com bastante clareza e lucidez ;)
    Abs.

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