quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Satisfação aos contribuintes, aviso e pedido...

Chegando na Moita, mais exatamente na Pocilga, onde fomos recebidos com carinho e liberdade, por duas vezes.

Voltamos a Mariana, daqui vou pra casa. Tô precisando expor, devo estar em Santa Teresa sábado, 19, e de segunda a quarta, 21 a 23. Dia 25, madrugada, vamos pra Visconde de Mauá dar uns abraços e beijos na descendência, filha e netas, seguindo pra Sampa dia 26, a ver a movimentação da molecada nas escolas ocupadas,com o parceiro Adelson DeChaves Del, que tá lá agitando com a moçada, a mais antenada em décadas. Fico até 29 ou 30, volto à serra de Mauá, exponho no fim do ano, fico dois ou três dias a mais, vendendo, passo em casa, resolvo problemas mais urgentes da kombi e sigo pro vale do rio Doce. Aprofundar o serviço, porque ir ao fundo cria condições de revelar essa fração da sociedade que, por sua vez, pode criar a oportunidade de ver a realidade como ela é, como funciona e por quê é assim.

A grana que deu pra levantar nesta primeira parte, em torno de três mil reais, pouco menos, sustentou a viagem. Ainda tem pro gás de volta, com direito a uma refeição e um lanchinho. Agradeço demais as contribuições que possibilitaram nossa liberdade de ação entre os vários pontos onde fomos, na maior catástrofe ambiental da história do Brasil. Pra quem não sabe, postamos muito do que captamos na página do feice Narrativas do Vale, graças aos contribuintes desta iniciativa.

O Rafael Lage, fotógrafo e cineasta que tá juntando as cenas pra formar um documentário, armou um financiamento coletivo internético, tal de craudifáundim, logo que começamos o trampo. Isso tem uma data de recolhimento, uma declaração de quanto se pretende como necessário pra fazer o que nos propomos e um prazo pra botar a mão na grana. Estamos juntos nesta iniciativa. Ambos já pusemos grana do bolso, mas ambos temos bolsos muito pequenos. Já atingimos quase 70% do pretendido, mas faltam 13 dias pro encerramento do troço. Os que puderem, que não contribuíram ainda, gostaram do trabalho de divulgação e querem contribuir, ou que desejam contribuir de novo, o link taí, bora lá, moçada, tá na hora.



O Rafael vai ficar pela região na época do fim do ano, entre os afetados e as ruínas, colhendo mais material. Eu volto no início de janeiro pra continuar até o litoral, captando e transmitindo, colhendo e distribuindo informações, imagens e opiniões que não são ouvidas ou mostradas.

A tragédia do rio Doce mostra a estrutura social, pelo ângulo da mineração. "Buraco de Rato - um filme sobre a Vale S.A."


Em todas as áreas da sociedade, o seqüestro dos poderes públicos pelos poderes econômicos mantém no poder real um punhado de famílias podres de ricas, sobre a sociedade inteira. A educação não educa, ignorantiza e enquadra. A saúde pública, claramente sabotada, é um cenário horroroso, em sua precariedade, pra induzir aos diversos planos de saúde - escolas de medicina infiltradas por laboratórios e indústrias da medicina ensinam médicos a receitar remédios e procedimentos. Construtoras da indústria imobiliária financiam governos pra expulsar comunidades pobres das áreas valorizadas. Transportes, energia, água, vias públicas, em todas as áreas prevalece o interesse empresarial sobre o público. As populações, desinstruídas, são facilmente teleguiadas, exploradas e incutidas de sua impotência, sua inferioridade, ou de que tudo é assim mesmo e nada se pode fazer senão tratar de si e dos seus mais próximos, que é incompetência ou corrupção dos políticos a causa de todas as mazelas sociais provocadas pelos mesmos interesses parasitas. O controle banqueiro-empresarial, confirmado por nossos valores, comportamentos, objetivos de vida, visão de mundo, tudo construído em nosso próprio inconsciente pela educação condicionante e pelo massacre publicitário midiático, com o apoio tradicional da religião, das tradições e outros fatores complementares, nos fazem construtores e colaboradores desta estrutura social injusta, perversa, covarde, destrutiva, suicida.
Aqui se trata da área da mineração, a catástrofe do rio Doce foi causada pela mineração predadora das grandes empresas, infiltradas no aparato público de todas as formas, desde o financiamento de campanhas políticas até a indicação de seus agentes para cargos públicos estratégicos pros seus interesses, sempre contra as populações e seus direitos. Um dos maiores desastres ambientais do planeta é minimizado em suas conseqüências.

A medicina lucrativa pisca pra mineração, "valeu, parceria". Daqui a uns anos os metais tóxicos renderão uma grana com os problemas neurológicos, cânceres e outras doenças causadas pelos metais pesados que estão sendo absorvidos em quantidades imensas, desde o rompimento da barragens e o espalhamento dos seus rejeitos altamente tóxicos por todo o vale do rio Doce. Há que se considerar, também, a construção de presídios - evidentemente privados - pra abrigar a criminalidade que surgirá breve, diante das centenas de milhares de pessoas que perderam seus parcos ganhos com a morte do rio, gente que, de muitas formas, viviam do rio Doce. A miséria, o desespero, a fome são os maiores produtores mundiais de criminalidade. Os programas cênicos de assistência aos prejudicados fazem parte de um jogo velho que acaba assim que outros assuntos tomarem os noticiários - que voltarão a se ocupar da área quando as conseqüências aparecerem, mas nunca revelando as causas e sempre tirando algum proveito.

Os vampiros agem nas sombras. A nação está permanentemente em risco e em prejuízo com sua atuação infiltrada nas instituições do poder público, em todas as áreas. Seus eleitos conspiram nos bastidores e nas encenações a serviço dos interesses vampirescos, banqueiro-mega-empresariais. Detonam o público em favor do privado.
Não há democracia além da fachada, cenário armado e controlado, apesar de quixotescas figuras que ainda acreditam que podem mudar essa estrutura social criminosa através dessa "democracia" farsesca infernal, descumpridora de sua própria constituição.

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"Este filme é uma produção da Comunicação do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração com o apoio da "Ajuda" da Igreja da Noruega e da "Bem-Te-Vi Diversidade" e conta um pouco da história da Vale com foco na prática da espionagem.

O filme mostra como a empresa Vale S.A espiona movimentos sociais, lideranças comunitárias e ONGs que defendem os direitos das comunidades impactadas pela exploração e escoamento do Minério.
A Rede Justiça nos Trilhos assim como outros tantas organizações, movimentos e lideranças, também foi espionada pela empresa."
http://www.justicanostrilhos.org/
http://www.justicanostrilhos.org/Assista-ao-filme-Buraco-de-Rato


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Passagem rápida pelo território Krenak, saímos pesados de tristeza.

Watu, o rio Doce, sem vida, "não pode nem botar o pé", como diz o cacique.

A ponte da área onde mora o cacique Rondon e sua família.

As únicas vidas são as que vivem da carniça. Se vão morrer pelos metais pesados, não sei. Acredito que sim, espero que não.

Estivemos ontem na área indígena dos Krenak, perto de Resplendor, na beira do rio Doce. Ninguém, em toda a região do vale, tem tanta consciência da importância, do tamanho desse colapso. O rio, que eles chamam de Watu, espírito de união do povo, está morto. Os olhos do cacique mostram o espanto diante do vazio, perderam a condição de ver o futuro, de ter esperança, não há mais nada no futuro. Não há peixe, não há bichos, não há mais a água sagrada que, mesmo suja, poluída pela civilização com esgotos e rejeitos vários, ainda curava, dava o alimento, unia o povo krenak. Os rituais religiosos eram no templo do Watu. “No fim do ano a gente faz o ritual de limpeza do espírito, de união, nas águas do Watu. Toda segunda, quarta e sexta nós reunimos no ritual do rio. O que que a gente vai fazer agora?” Quando pergunto “... como é que vai ser daqui pra frente?”, Rondon desvia o olhar, “nem quero pensar nisso...”, mostra a pauta das necessidades imediatas num documento que fizeram através da Funai, “tudo vai depender disso aqui”, e chora. O histórico das mentiras civilizadas, através dos séculos, invariável, é arrasador. Minha alma chora com ele.

Ninguém se deu ao trabalho de avisar os Krenak. Eles não souberam da barragem de rejeitos químicos rompida, a não ser quando chegou a lama venenosa, de madrugada, trazendo os peixes mortos em primeiro lugar, com mais um montão de destroços, troncos, animais mortos e o mau cheiro que caracterizou todos os lugares onde passou a lama tóxica da morte. Rondon foi o primeiro que viu. Ninguém lembrou deles, ninguém pensou neles, só se olha pra eles quando, por exemplo, interromperam a passagem dos trens que transportam minérios de Minas pro litoral. Aí são bugres, ignorantes, subversivos, baderneiros, obstáculos ao progresso – tecnológico, claro, pois não se pensa nem se fala no progresso moral, tão ausente em nossa sociedade, essa da forma sem conteúdo, do corpo sem alma. Eles conseguiram, com sua “subversão”, um pouco de água pra beber, ração pro gado, algumas caixas dágua que eles não têm como encher sem os caminhões-pipa da prefeitura que, eles sabem, deixarão de levar água assim que puderem, que o assunto esfriar, que os olhares forem pra outros lados. E eles não têm outras fontes. Como é que vai ser daqui pra frente?

Rondon tinha acordado cedo, inquieto com a premonição da sua mãe, e saído de casa pra beira do rio, ouvindo um barulho estranho. Chegando nas pedras, viu milhares de peixes mortos chegando, aquela lama espessa cobrindo a água. Sua mãe, Laurita, anciã respeitada por todos, previu a morte do rio, “Watu veio chorando no vento, eu ouvi o choro e disse, a morte vem pelo rio”. Era noite, duas antes da morte do rio. Ninguém pôde imaginar o tamanho da devastação, apesar de já esperarem mais um acontecimento ruim.

Enquanto o povo originário não recebe informações dignas, o vale inteiro do rio Doce está à mercê das mentiras institucionais, tanto da empresa quanto do estado.

A lama carregada de metais pesados, altamente tóxicos, que se acumulam no organismo pra explodir em problemas neurológicos, cânceres e várias outras doenças, é declarada “inerte”, inofensiva, até mesmo sugerida como adubo, num escândalo de cara de pau, de cinismo e hipocrisia. O cenário é tratado por eles (funcionários da mineradora e representantes do poder "público") como um cenário mesmo. A realidade não importa, desde que se possa mascará-la o suficiente pra continuar o processo de destruição, pra se manterem nos poderes os mesmos que estão, os parasitas, os inimigos da humanidade, criadores e mantenedores dessa estrutura social criminosa. Não importam as doenças que aparecerão daqui a oito, dez anos. Não importam as conseqüências que caírem sobre a população. Os laboratórios farmacêuticos, a indústria da medicina lucrativa saberá dar uso a todo esse sofrimento, oferecendo seus serviços em troca dos bilhões que resultarão. É um escárnio diante da humanidade.

Os trens passam do outro lado do rio, o dia inteiro, vários por hora. E apitam diante dos krenak. Vai entender...

A ponte destruída desde a enchente de 2013 não recebeu reparo. Nem município, nem estado, nem união assumem.

A cara mais sinistra dessa ponte é a da chegada.

Abandono pelo poder público, uma realidade permanente. E ainda é pior quando empresas estimulam o ódio, por interesses.

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O massacre dos povos originários é feito desde a chegada dos colonizadores europeus. Oficialmente portugueses, mas vários países da europa estavam representados aqui, entre os invasores. Relações amistosas só eram mantidas por interesse dos exploradores. Nesse território não havia acumulação de bens e as riquezas estavam à disposição de todos, igualmente – as verdadeiras riquezas. O povo krenak, originalmente botocudos – a mudança de nome serve à estratégia de esquecimento que envolve os crimes estruturais da sociedade – passou por inúmeros massacres, desde a “guerra justa” decretada por d. João VI, quando veio pro Brasil fugindo do exército de Napoleão Bonaparte e aqui ficou por uns quantos anos. Houve dispersão e reencontro, várias vezes, do recôncavo baiano se reagruparam no vale do Mucuripe, eram perseguidos, dispersados, muitos morriam, os que escapavam se reencontravam e seguiam, até que o vale do Watu os acolheu. Aí chegaram os interesses mineradores, grandes empresas que compravam governos e impunham ferrovias, ah, mas tem uns índios lá, fodam-se os índios, bota pra correr, isso é igual bicho, tem que enxotar. Expulsos, assassinados, dispersos, se reuniram de novo e seguiram vivendo. Muito tempo depois, apareceu a Funai e os remanescentes receberam as terras que lhes pertenciam. De um lado só do rio Doce, do outro passa a ferrovia da mineração, toda hora passa um trem, vários por hora. Em frente às casas dos krenak, apitam, do outro lado do rio. Um cumprimento dos maquinistas, em solidariedade intuitiva com aquele povo injustiçado que conseguiu uma migalha do que lhe foi roubado? Ou um deboche dos exploradores, requinte de ironia marcando o sentimento de desprezo diante das casas das suas vítimas?


Um grupo pequeno de mãe e um casal de filhos, Laurita, Ni e Rondon, encontra um agente do estado que lhes afirma, incauto, que era impossível eles serem krenak porque os krenak estavam extintos. A senhora desferiu um arsenal de insultos em seu idioma, diante de um funcionário atônito e sem saber o que fazer. A filha, Ni, interveio nesse momento, “o senhor sabe o que ela falou? Ele, espantado, “não...” “como o senhor está dizendo que nós estamos extintos, se até nosso idioma está vivo?” Foi o início da luta que lhes devolveu ao menos um pedaço do que lhes foi tomado. Um pedaço mínimo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Vídeo gravado em Santa Teresa, com o toque da sensibilidade de Pedro Céu.

Esse vídeo foi gravado numa exposição em Santa Teresa, como tantos outros. A sensibilidade do Pedro apurou as informações e deu o clima nas idéias. Valeu, meu camarada Pedro Céu.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O velho e o rio


Sentado na pedra, na sombra das árvores, o velho olhava o rio. O que restou do rio, debaixo de terras, areias e troncos. Olhava, olhava, vendo e não vendo. Eu vi o velho, de longe, me aproximei e sentei do seu lado. Os olhos andavam pelo tempo, a imagem dos tantos anos vividos naquelas beiras, naquelas águas, apareciam sobre a imagem do presente. Era quando brilhavam os olhos do velho. Nunca mais vou ver esse rio, meu filho. E vinham as imagens de uma vida inteira, desde menino eu brincava aqui com os amigos, nadava, pulava na água dos gaio das arvre, lá de cima. A bóia de câmera de ar, pneu de trator, as guerras de mamona, pegava na pele, queimava, nóis pulava no rio pra passar. Depois, mais crescido, vinha namorar na beira do rio, ô coisa boa, a beleza de ver a lua no céu, e ali debaixo da ponte, hein? Ali era bão dimais, hum, hum... Nos domingos, vir com a família pra beirada, pescava os peixes com os parentes, fazia ali mesmo, numa churrasqueira improvisada, reunia o povo, era bão dimais. Vinhas as voadeiras fazendo estripulia, os meninos cavarga que nem cavalo na água, pula fora dágua, cai pra dentro. Às vez vinha pertim da gente, a gente recramava, levantava a terra do fundo, espantava os peixe, trapaiava a pescaria. A gente achava ruim, mas era bonito aquele espaiar de longe, aquelas curva qu’eles fazia, aquele espirro d’água pra cima. Os olhos dele brilhavam, vendo o passado rolando na frente deles. Aí ele voltava prali, diante do rio morto, nunca mais vou ver esse rio, meu filho. Tô com oitenta e quatro anos, cabou pra mim, não tem tempo de ver o rio outra vez. Ele olhava as máquinas sobre o rio, aquele palheiro de troncos trazidos desde Mariana, dos vales do rio do Carmo, de Bento Rodrigues até ali. Talvez só as crianças vão ainda ver esse rio limpo, se é que vão. Eu puxava pela memória dele e seus olhos brilhavam, saíam dali pra outros tempos, ele quase sorria, lembrando, contando, revivendo. Mas caíam de volta no presente, dava pra ver a expressão mudando a alegria imaterial caindo numa tristeza sólida, tava ali, na cara. Era um abismo, ele vinha ao fundo, tava ali, era o presente, a realidade na nossa frente, eu olhava as máquinas, a quantidade infinita de troncos em confusão, embolada, o velho olhava parecendo distante. Ele não queria estar ali, mas vinha, sem pensar, a cabeça vazia, só o sentimento o trazia, ele sentava e ficava olhando. Sem pensar, às vezes lembrando, lembrando... ele preferia estar nas lembranças, o olhar longe no tempo, quando o rio era mais limpo, mais cheio de peixes. Ele tava fraquinho, já vinham estragando ele, mas ainda tinha muito peixe, muita água, muita coisa. Agora mataram ele, morreu o rio, é como morrer um parente, é mais que isso, é a morte da família inteira, de muitas famílias. É, meu fio, acabou pra mim. E o velho me olhou pela última vez e foi embora, sem levantar dali, silenciando e olhando, às vezes vendo, às vezes sem ver. Eu não tinha mais o que dizer, ele não tinha mais o que falar. Quando levantei e me despedi, ele apenas levantou a mão, olhando longe, sem ver. Já mais distante olhei pra trás. Ele estava lá, sentado, magro, cabeça branca, silencioso, olhando o rio... o rio morto.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Rio Doce, a cidade

A hdrelétrica Rizoleta Neves foi esvaziada na expectativa dos próximos possíveis rompimentos de barragens. Indício claro da "confiança" da mineradora em suas próprias barragens de rejeitos altamente cancerígenos.


Ontem saímos de Mariana em direção à hidrelétrica Rizoleta Neves – aquela que foi mulher do Tancredo -, por causa dos rumores da ameaça de um novo rompimento das represas de rejeitos químicos acima da de Fundão, a que acabou com vários povoados e matou o rio Doce. Em Rio Casca o gás estava acabando, procuramos gasolina mas o posto estava fechado. Um funcionário nos disse que em Rio Doce havia um posto aberto até mais tarde e nós fomos pra lá. Chegamos no começo da noite, tanques quase vazios – gnv e gasolina -, mas também estava fechado. Fazíamos um lanche quando conhecemos Alex, operador de máquinas, escalado pra retirar os troncos acumulados no rio. Mostramos as fotos de Bento Rodrigues e ficamos conversando até ele ir embora.

Tivemos que esperar o dia, saímos da cidade e paramos no trevo de entrada, onde havia um caramanchão no ponto de ônibus, perfeito pra gente dormir. E foi o que fizemos. Os mosquitos estavam frenéticos, mas nós estávamos cansados e dormimos.

Dia amanhecido, tomamos um café e fomos abastecer a viatura. O dono do posto contou como foi a chegada da lama contaminada. Prevista pra chegar às seis da manhã, a onda de rejeitos estava sendo esperada por várias pessoas na ponte e ele estava lá. A maré tóxica chegou na hora prevista, trazendo os troncos arrancados ao longo do trajeto, dois corpos nus logo na frente. Ouvi das pessoas com quem conversamos que foram retirados cinco corpos na área de Rio Doce, mais vários pedaços, pernas, braços... não se vai saber quantos morreram na lama. Os troncos congestionaram na área de lazer aquático da cidade, o barco de passeios turísticos encalhou na beirada, depois da primeira parte da enxurrada, mais volumosa, baixar alguns metros, o acúmulo foi tal que, enquanto a corrente continuava, a massa de madeira, parada, estalava com a pressão. Ele não entrou em mais detalhes e não quis dar entrevista, “eu não podia ficar muito tempo, tinha que abrir o posto”. 

Abastecemos com gasolina e fomos pra ponte, perto da base dos trabalhos. O rio era só troncos empilhados, lama dura e água lamacenta dos rejeitos, em nuances já vistas desde Bento Rodrigues, passando nas valas entre os montes, tanto dos rejeitos quanto das madeiras. Várias máquinas trabalhavam, dando a impressão de que eram insuficientes pra tanto entulho. Disseram que estavam dando as toras pras carvoarias da região, mas vi poucas carvoarias praquela madeirama toda. Depois de tantas mentiras, não dá pra acreditar em nada que venha de empresas ou funcionários – eles também são enganados quanto às intenções, embora saibam o que está acontecendo na prática, que tampouco é divulgado. Soubemos que a represa deixou passar um bocado, mas depois fechou e a força da correnteza formou uma onda na direção contrária, subindo o rio de volta. Pessoas que estavam na ponte variam nas avaliações do tamanho dessa onda, entre dois e três metros de altura. Tiramos fotos do barco, da área, das máquinas, da ponte. E fomos pra represa.

O barco de passeio, inútil, será retirado por guindastes e transportado em carreta pra outro lugar, navegável.
O rio Doce entulhado, o barco encalhado e a ponte ao fundo.

As máquinas parecem trabalhar em vão, diante do mundo de troncos em montanhas.



Depois da ponte, continua a aglomeração de troncos arrancados em Mariana, pela força do rompimento, pela maré da morte.

É de perder a conta a quantidade de montes e mais montes de vegetação arrancada, de troncos e galhos.

A vista da ponte sobre o rio Doce e o caminho que segue pra represa da hidrelétrica, que tem as turbinas desligadas. Não consegui saber onde ficou sem energia com isso, não está faltando nas casas da região. Talvez fosse uso industrial.


Havia notícia de uma estrada interrompida, mas a que usamos não tinha interrupção, entramos numa estradinha de terra que levava à Pedra do Escalvado, em Santa Cruz do Escalvado, área de trilhas bastante freqüentada. Passando dali, a estradinha piorava muito e por ela fomos até a represa. A marca da maré estava bem alta, mas as comportas estavam abertas, confirmando o que ouvimos, que estavam esperando que se rompessem as barragens de rejeitos acima da de Fundão, de onde saíram os milhões de toneladas que destruíram a vida no vale do rio Doce. Por isso esvaziaram a hidrelétrica. A marca da lama estava pelo menos dez metros acima do nível da água, ou melhor, daquele líquido viscoso cor de terra vermelha. A destruição nas margens é a mesma de rio acima, uma desolação homogênea que só perdia em tamanho pro início da tragédia, nos distritos de Mariana. Registramos as imagens e seguimos pela trilha, cheia de buracos, pedras, gado e atoleiros. À nossa direita, o rio descia pra represa, sem parar, mas não vi troncos naquele trecho, apenas os rejeitos acumulados em montes secos dentro do rio e as margens devastadas até grande altura do nível da corrente.

Rafael prepara a captura de imagens.

Vista por dentro, se vê a marca de onde chegou a lama química, antes de abrirem definitivamente as comportas.

O vermelho tóxico e o azul da Celestina. Ela carrega uma câmera na testa.

Foi do lado de lá que a estrada desabou, impedindo a passagem.

Ao longo do rio se vêem os montes de rejeitos químicos cancerígenos deixados pelo tsunami da morte.



Na volta, paramos de novo no canteiro de obras onde antes era a área de lazer aquático, sem saber muito bem por que. Eu quis fotografar o “Quiosque”, transformado em base de operações, mas a imagem não favorecia. Caminhamos na direção do barco, eu tinha visto um homem velho, magro, sozinho, sentado numa pedra debaixo das árvores perto do barco encalhado, olhando a montanha de troncos e a máquina que parecia deslocar as madeiras de um lado pro outro, a esmo, trabalho com aparência de inútil, diante do tamanho dos “montes”. Cheguei nele, perguntei se estava trabalhando ali, ele riu um riso triste, “trabalho só na minha rocinha, nas minhas criações, com 84 anos não tem emprego pra mim, não”. Surpreso com a distância entre a idade e o aspecto, sentei do lado e ficamos conversando um pouco. Ele tinha uma tristeza profunda nos olhos, “cabou o rio”. Ele não tinha nenhuma relação de ganho com o rio Doce, como tanta gente por ali, mesmo sua roça usava água de outras fontes mais próximas, não seria afetada pelos venenos. Mas ali ele tinha os prazeres da vida, se reunia com a família, pescava, compartilhava os peixes preparados ali mesmo. “Era bonito ver as voadeiras (jetskis) passando, jogando água pra cima, fazendo curva, os meninos faziam elas ficar em pé... às vez passava pertim da gente e a gente achava ruim, levantava o fundo do rio, espantava os peixes...” Agora ele tava com saudade daquilo, a melancolia no olhar era evidente, contaminante. “Eu vi muita enchente por aqui, maior que essa, a água foi até lá em cima” e apontava pra além da estrada. “Mas era água, depois que ia embora voltava tudo como antes”. Silenciou por uns instantes, depois completou em tom mais baixo...“nunca mais vou ver o rio, tô com 84 anos, não vou ter tempo de ver. Muita gente mais nova também não vai, talvez só as crianças, daqui a muitos anos. Talvez nem elas...”  Seu Idalino chorava pela boca. Eu não tinha o que dizer, sofri junto, entendi a dor dele, compartilhei um pouco. Levantei pra ir embora, um tapinha nas suas costas, um nó na garganta, não pude dizer nada além de “fica com deus, seu Idalino”, ele nem respondeu, acenou com a cabeça e levantou a mão, olhar perdido entre os emaranhados de troncos que agora tomavam a lagoa antes azul que se formava nessa área perto da ponte. Sua tristeza era sólida, funda, contagiante.

Voltamos a Mariana, onde nos escondemos e nos recuperamos na Moita, mais especificamente na Pocilga. Entenda quem puder.

domingo, 29 de novembro de 2015

O apocalipse de Bento Rodrigues

Avisados que na estrada principal havia barreiras policiais, que uma ponte havia sido derrubada, que não se chegava mais em Bento Rodrigues, fomos por uma estradinha de terra, secundária. Muito antes de chegar já se via o tamanho da onda venenosa, na marca quase horizontal no alto dos montes. Dali pra baixo era só lama, as árvores foram arrancadas, ficaram as do alto, as primeiras manchadas do vermelho-lama em seus troncos, marcando o nível da maré. Seguimos vários quilômetros pelos vales secundários, a onda havia subido, atingido inúmeras nascentes rios acima, o sentimento da gravidade nos silenciava.

Devastação. Explosão atômica. Imagens de Marte. Destruição. Morte no ar. Difícil descrever a combinação de sentimentos. Dona Edir voltava quando a gente ia. Veio com a família ver o povoado devastado, mas só de ver o vale destruído, desistiu. A família seguiu pela estradinha, ela voltou chorando. Um helicóptero dos bombeiros patrulhava o ar, passou por cima de nós com uma luz forte embaixo, fez uma volta grande e pousou do outro lado, na parte alta do povoado, onde havia algumas construções não atingidas. As cores da lama química ocupavam a paisagem dos vales todos, a perder de vista, sumindo na direção do vale do rio Doce. Avistamos Bento Rodrigues do outro lado do vale enlameado, ruínas cobertas de marrom. Lá embaixo corria um fluxo líquido avermelhado. Parecia impossível chegar na área das casas. Algumas pessoas na estrada de terra olhavam em silêncio pasmo, triste, doloroso. Passamos a cerca, descemos o vale.

O chão afundava em muitos pontos, era preciso cuidado ao pisar. Descemos até a beira da corrente vermelha, a sensação de veneno no ar. Rafael armou o tripé e começou a tomar imagens. Luísa, Kenny e eu ficamos circulando por ali, olhando, subindo, descendo, procurando sem saber o quê. Eu tirava fotos com minha maquininha. Ambiente pesado, clima opressivo. Uma catástrofe, uma calamidade pública não declarada oficialmente. Sinal do poder das mineradoras sobre o poder público. “Oficialmente”... palavra cada vez mais desmoralizada, sinônimo de mentira. Declarações públicas, mentiras deslavadas.

De repente vi do outro lado do vale, vindo da direção das ruínas, uma figura minúscula pela distância. Era um sujeito com uma foice nas costas, pernas vermelhas daquela “lama”, descendo em direção à correnteza líquida. “Ele vai atravessar”, pensei, e comecei a andar na mesma direção, pra ver onde. Ele continuou descendo até sumir numa parte profunda atrás de uma curva e não pude ver o local exato, mas ele subiu na minha direção e pudemos conversar. Era Danilo, nascera e crescera ali, tinha 40 anos, agora estava morando em Santa Rita. Mas tinha parentes na área e acabara de resgatar alguns documentos sujos. Nosso grupo se reuniu em torno dele. O irmão dele apareceu, Altiéris. Ele não foi perturbado pela segurança da mineradora? “Eu conheço cada caminho, cada trilha disso aqui, eles não têm como me impedir, pode fechar tudo que eu entro”.

Ele tinha passado por um tronco ali embaixo, descemos também, ele resolveu voltar e seu irmão foi conosco. Atravessamos, subimos a encosta e alcançamos o que restou da estrada que chegava a Bento Rodrigues. Era uma única curva, demos de cara com a paisagem da devastação do povoado desolado, coberto de lama. Impacto. Alguns cachorros latiram, estavam defendendo suas “casas”, sem entender a ausência das famílias, esperando uma volta impossível. As famílias certamente davam seus animais por mortos.

Sentimento denso andar entre os escombros do povoado, com todas as marcas de vida, de cotidiano e até da fuga apressada. Havia panelas nos fogões, cimentadas pelo material seco, pastas de dentes e xampus colados no teto, carros sobre e dentro de casas, geladeiras fedendo a comida podre, viradas, nos altos das casas, uma revirada geral em tudo.

Ao passar por uma moita, ouvi barulho. Galinhas. Ironia de vida e morte, encontramos uma galinha chocando seus ovos dentro de um cesto. Perto, um saco de milho, abri peguei uns punhados, joguei perto da galinha, ele não se mexia, estava choca. Ficou tensa com nossa presença, saímos logo de perto. Danilo, desolado, deu um depoimento emocionado, falou da vida na comunidade, “ali tinha uma pracinha, as crianças brincavam ali todo dia”, “ali ficava a casa da minha irmã, não ficou uma telha, nada, não dá pra saber que tinha uma casa ali... melhor ela nem vir aqui pra ver isso...”

Alguns lugares tinham um cheiro insuportável de putrefação, de repente percebi ao longe uma caminhonete parada na encosta da montanha, nos observando. Avisei os outros. Os irmãos já tinham ido embora, nós estávamos um bom tempo colhendo o que queríamos, demos por encerrado e tomamos o caminho de volta. Rafael e Kenny iam na frente, ouvimos o barulho do motor. “Os seguranças tão vindo aí”. Atrasei o passo, o material que tava com o Rafa era importante pra nós. Os caras chegaram por trás, caminhonete da Samarco, “que que cê tá arrumando aí?” Parei, “nada, tava só olhando...” Rafa percebeu o jogo, apressou o passo, disse a Kenny “nem olha pra trás, vambora”. Eles já tavam na área devastada, desceram numa fenda e sumiram de vista. Os caras tiveram que se contentar comigo. Um deles exibia um trinta e oito de tambor na mão... nooooffa, que imprefionante... veio falando a papagaiada genérica, área proibida, tava tendo saque, que que tem nessa mochila, mostrei, ele viu que não tinha nada alheio, falou em perigo de vida, eu podia morrer e dar trabalho pra eles, eu tava muito velho pra me arriscar daquele jeito... eu não respondi mais nada, só tá certo, tá certo, ele gastou tudo o que tinha pra dizer e se calou. Rafa e Kenny apareceram lá longe, do outro lado do vale, a câmera e o tripé a salvo. Os caras viraram de costas pra mim, olhando impotentes. Segui andando, não olhei mais, eles não tentaram me impedir. Já tinham feito sua figura, pareceram um pouco desconcertados com a minha calma e não tinham mais nada pra fazer.

Segui meu caminho, desci o vale, atravessei os troncos sobre a química empesteada, reencontrei Kennyo e Rafael. Luísa tinha voltado pra Kombi, não havia atravessado, baqueada em seus sentimentos com a paisagem desolada, bastava ver de longe, sentir o ar pesado de química e sofrimento, o astral de apocalipse. "Senti em mim a dor das pessoas", ela disse depois.

Deixamos a kombi longe e seguimos a pé. A curva da estrada foi coberta com os detritos em lama.

Chegando em Bento Rodrigues. As estradas estavam bloqueadas.

Nascendo tóxico. Uma camada dura por cima, parecia mica.

Descendo pro vale do rio Doce... aqui paramos a kombi e seguimos a pé.

O contraste entre vida e morte. Lá no fundo, o nível alcançado pela maré dos rejeitos da mineração.

Visto do outro lado do vale, era uma cidade fantasma, vítima de uma explosão atômica.

A cor da lama, a lama na galocha, a galocha tava furada...

Não dá pra sentir o cheiro, o clima, o peso do ar.

A nossa ponte. Danilo e Kenny, antes de atravessar.
Segue o caminho pro vale do rio Doce...

A aridez da alma dos que dispõem dos poderes sobre a sociedade... deve ser pior que isso.

A força da lama levantou muita coisa, como se fosse isopor, cortiça.
O surreal se torna real quando se vê de perto.

Heróica resistência inútil. O lugar será inabitável.

Hoje não é preciso lavar as panelas.
A delicadeza em meio à brutalidade.

Simbolismo puro.

A força da corrente levantou os fogões, os fogões levantaram o telhado.

A galinha chocava. Dá pra ver um ovo embaixo dela.

Os cães defendem suas casas, esperando uma volta que não virá...
O sentimento é de apocalipse.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Preciso de grana pra ir lá. O vale do rio Doce foi assassinado. É preciso contar essa história por outros ângulos.


A maior bacia hidrográfica do sudeste brasileiro, o Vale do Rio Doce, morreu. Desgraçadamente assassinada, em toda a sua vida, fauna e flora, com a lama química da ganância, do egoísmo, da desumanidade.

No princípio de outubro, partimos de Niterói, fizemos um pico em Sampa, daí a Belorizonte onde Rafael Lage entrou na kombi e fomos à Chapada Diamantina, ao Vale do Capão, também a Lençóis e a Cachoeira de São Félix, expondo, vendendo, conversando, causando pensamentos e reflexões. Foram mais de quatro mil quilômetros ao todo, incluindo uns 700 de estradas de terra. Celestina, a kombi, velha e valente senhora, teve uns poucos problemas mas cumpriu sua função. 




Na última etapa, saindo de Beagá pela BR-040, soubemos do estouro da barragem, ainda sem conhecer as dimensões do desastre, e seguimos pro Rio. O Rafa, mais bem informado, partiu pra lá. Eu soube pelas postagens, me informei e percebi a gravidade da tragédia anunciada, há décadas, pelos movimentos sociais da área. A mídia, como sempre, não divulgava nada que prejudicasse as mineradoras. O chamado "poder público" estava acorrentado por financiamentos de campanha, bancadas legislativas, interferências administrativas inclusive em organismos de fiscalização.

Eu teria ido pra lá, mas a viatura tá depauperada, precisando de uma revisão geral com ajustes e regulagens, a grana da viagem só cobriu a viagem e acabou, o documento do detran tá atrasado e eu tomei uma multa por isso - que espero arrumar a grana pra pagar no próximo fim de semana, a multa, a vistoria, o documento e o mecânico. Não acredito que dê. Por isso resolvi fazer essa postagem. É um apelo. 

Conversei com o Rafa, que tá na área e só pode ir até Governador Valadares e terá que voltar a Belorizonte. Ele já tá fazendo material lá, vídeos, fotos e entrevistas. Aqui a parte definitiva do papo.

"Esse troço merecia mesmo que a gente acompanhasse desde a nascente, passando pelas represas, acompanhando a lama e a destruição até o litoral do Espírito Santo. O caminho deve ser riquíssimo em histórias que não se contam por aí... No final das contas, estaríamos fazendo um trampo de desvelamento da realidade, através desse acontecimento nefasto. Desmascarar essa farsa duzinferno, mostrar o poder real sobre toda a sociedade, a razão estrutural de todas as mazelas sociais. Todas, cumpade." 

"É o momento. Esse é um grande momento. O rio Doce morreu, cara, a quinta bacia hidrográfica do Brasil.  Você tinha que vir aqui." Ele não é de falar muito. Mas fala tudo com pouco.

"Tivesse grana e já tinha ido, cumpade", eu completei.

Quem quiser e puder comprar meus desenhos, pra arrumar essa grana, já tá valendo. Preciso vender muitos, muitos desenhos. Quem comprar dois, leva um fanzine, quem comprar três, leva dois fanzines e um livrinho à escolha. Cinco desenhos levam de brinde os cinco livrinhos e os dois zines. Dez desenhos dão direito a mais um desenho de graça, mais os cinco livrinhos. Quem for encomendar, me lembra dos brindes. O contato é pelo arteutil.em@gmail.com, e a parada é feita por depósito bancário e remessa por correio.

Gente, tá chegando a época em que todo mundo dá presente. Um desenho pra por na parede é um presente de bom gosto, basta levar numa vidraçaria e, sem moldura, por o vidro na frente, a placa de madeira atrás e um pendurador, fica barato e bonito. A moldura encarece e não é necessária.

Não vou poder expor pro natal, época de boas vendas, quando pago as contas inevitáveis de fim de ano. Mas esse evento diminuiu a importância dos meus problemas. O povo Krenak vive nesse vale e tem como centro da sua vida o rio Doce. Milhares e milhares de ribeirinhos, povoados que viviam da pesca e das atividades ligadas ao rio, cidades como Governador Valadares e São Mateus, entre tantas, tantas outras. Agora o centro da vida se tornou a morte. Falta água de beber, falta condição de sobreviver, falta vida. Tá tudo morto e morrendo por lá. E lá é aqui.

O Rafael é cineasta, pretendemos gravar e produzir um documentário, ainda que rápido, contando as histórias que a mídia não vai contar, ouvindo os sem voz, os que vivem no vale, mostrando o que o controle da sociedade pelos interesses econômicos, pela ambição desmedida dos mega-empresários da mineração (como de qualquer outra área), o desprezo pelas populações e pelas legislações, promiscuídos com os poderes públicos sequestrados, bancadas legislativas e prefeituras compradas, dominadas, intimidadas, o que isso tudo é capaz de fazer. Mostrando a conseqüência não só da promiscuidade e cumplicidade público-privada, mas da cegueira generalizada, da criminalidade dos organismos de comunicação, da traição cotidiana do punhado "de cima" pelas multidões que os sustentam em seu chafurdar no luxo e na ostentação parasitária e aboletada nos poderes públicos.

Seguem mais algumas fotos da guerreira Celestina, que vai encarar mais essa.

Sinalizando o acidente. Não houve feridos.


Carga de sementes de algodão. Estrela cadente flagrada na quina da carroceria virada.
Ninguém é obrigado a dormir dentro. 




terça-feira, 20 de outubro de 2015

Paciência curta

Belorizonte. Eu subia a Pernambuco na direção da Savassi. A cabeça pesava. Vinha do dentista, duas extrações e a colocação de um pino pra implante – foi preciso furar o osso com uma broca – precisaram de várias anestesias . E o efeito pouco a pouco passava, a sensibilidade voltando com dor, a cabeça tonteando. “Evita falar”, disse o Edson, “evita andar”. Falar, tudo bem, eu não ia expor, mesmo. Mas era impossível não andar.  “Se fosse um funcionário de alguma empresa, eu te dava um atestado”. E ainda disse ao Pepe, “cuida dele”. Pepe estava indo expor, incomodou a idéia de atrasar o lado dele e, na primeira esquina, desviei meu rumo.

As anestesias parece que saíam da boca e iam pra cabeça. Eu estava zonzando, cuspindo sangue a cada dez metros. “Preciso de gelo, de um açaí”. A rua se inclinava mais e eu diminuí o passo. Cambaleava. Não queria parar, a coisa tava num crescendo e parar podia se tornar um problema. Diminuí mais o passo e segui subindo. Virei a esquina e a rua era plana, no final do quarteirão achei uma pequena casa de sucos, entrei, sentei, pedi ao único funcionário o maior açaí que ele tivesse. Não havia outro freguês, só eu e o rapaz.  No momento em que ele me entregou a tigela cheia, entram o dono e um representante de fornecedor ou coisa parecida, com uma pastinha. Conversavam alto e o assunto era Dilma, petê, corrupção, panelaço, impítiman, essas teleguiações, essas superficialidades da alienação política classe média, mentes lavadas e enxaguadas pela mídia. Meti a colher cheia na boca, coloquei em cima da dor, fechei os olhos - fica quieto, pensei, não fala nada. Enfiava colheradas repetidas na boca, os caras não paravam de falar merda. Doidão das anestesias, cheio de dor, enchendo a boca de açaí e ouvindo disparate em cima de disparate, repetidos lugares comuns da televisão e dos jornais comerciais. É automática a ligação entre todo o sofrimento, abandono, miséria, ignorância, entre esses crimes sociais e aquela estupidez burra, imbecil, alienada, raivosa, obsessiva e totalmente teleguiada.

Eu não tava no meu normal. De repente levantei o braço entre os dois, “cês ficaí falando de Dilma, de Aécio, de petê, de corrupção, do caralho, até parece que essas figuras mandam alguma coisa. Quem manda nessa porra é banqueiro, é mega empresário, não tem governo, tem gerência, quem manda mesmo não passa por eleição nem aparece na televisão!” Os caras me olharam espantados, o dono da loja ainda tentou reagir, “mas a corrupção da Petrobrás...” e eu não deixei ele continuar, “a corrupção começou agora, né, petê que inventou, antes não existia...” os olhos bem nos olhos dele, que desviou o olhar dizendo “é... o ser humano é corrupto...” Mas a dor me fazia implacável, tanto a da boca quanto a da realidade que aquela mentalidade era fabricada pra não ver. “Se tu só conhece corrupto, azar seu, conheço um montão de gente honesta, que não tá nessa política aí, que nem é política de verdade, porque os donos não querem, não interessa a eles, se um entrar fica isolado lá dentro, não passa um projeto que seja! Tu tá é vendo muita televisão, fica falando aí na superfície, pensa que esses cara manda alguma coisa, isso é televisão que faz, papo de otário. Que mané Dilma é o caralho! Eu não voto desde 89, que não tô aí presse deboche, vai todo mundo de carneirinho votar pensando que pode mudar alguma coisa. Depois vai falar merda, teleguiado, longe da realidade como quer a televisão. Boiada! Cambada de Mané! Enquanto tem criança, velho, gente abandonada por conta da ambição desses filadaputa que faz a gente de otário!” Eu olhava com raiva, falava alto e gesticulando, apontando o dedo na cara do sujeito. Uma parte de mim tentava me conter, mas o controle tava entorpecido. Os caras silenciaram e eu pude me concentrar na tijela e meter a cara no açaí, puto da minha vida. Então eu tô aqui com dor, zonzo, cuspindo sangue, vêm esses babacas encher minha orelha de merda, ora vai sifuder. Até eu sair não se falou mais nada na loja de sucos.

Eu não tava nada legal naquele dia.

Slam Resistência, em Sampa e no mundo, é resistência à tirania do sistema social vigente... ainda.

FILOSOFIA DE RUA                                                                                                        

SABOTAGEM SEM MASSAGEM NA MENSAGEM
Fotografia: Sérgio Silva                                                                                                                                                                                                                                                                                          Nem o vento cortante da noite fria de segunda-feira (05/10) na Praça Roosevelt em São Paulo, foi capaz de esfriar nossos corações e mentes.Slam Resistência recebe Eduardo Marinho (RJ).            
Eduardo Marinho, foto: Sérgio Silva
A edição do mês de Outubro do Slam Resistência, realizado sempre na primeira segunda-feira de cada mês, recebeu, além do belo público e dos diversos poetas da casa, um convidado especial que dispensa a cerimônia de apresentação e, por si só, faz das suas palavras o elo de ligação entre a consciência do “observar e absorver”.
Eduardo Marinho foi o nosso artista convidado com a proposta de dialogar com o público presente sobre filosofia de rua, aquela em que a vivência torna-se uma experiência para além dos muros das instituições de educação tradicionais dentro do sistema capitalista.
Educação foi um dos temas abordados pelo artista que, além da critica ao modelo de educação existente, também falou sobre a sua experiência como membro militar do exército e da dificuldade que sua família encontrou em aceitar sua saída da universidade em troca das ruas do Rio de Janeiro.
Eduardo não faz a linha “profeta” ou “missionário”, apenas apresenta sua história de vida com os motivos que o levaram a optar pela rua e a experiência que esta vivência lhe devolve dia após dia.
O depoimento do filósofo das ruas pode ser conferido na página do Slam Resistência no FB.
https://www.facebook.com/slamresistencia/videos/918068558275864/?fref=nf
Conheça aqui o trabalho do Eduardo Marinho , “arteiro e escrivinhador” das ruas do Rio de Janeiro. A seguir, o registro do que rolou entre uma leitura e outra, e outra, e outra…

Eduardo Marinho apresentando o seu trabalho em artes plásticas
Um dos trabalhos de Eduardo Marinho


O fim é apenas o começo

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.