segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Mais um transplante vital pra Celestina, a kombi





A primeira mochila não era nem cheia. Poucas coisas levava. De trabalho apenas uma tabuinha com pregos em oposição nas extremidades, onde amarrava linhas pra fazer umas pulseirinhas bem simplesinhas, um ensaio de trabalho, mais que um trabalho mesmo. Algumas camisas feitas no quarto, de forma improvisada, impressas com alguns desenhos, em casa. Agora não tinha mais quarto, nem casa, nem ferramentas, eu estava solto no mundo e não havia retorno. As garantias sociais haviam evaporado, nada me garantia facilidades ou amparo, em caso de necessidade. A antiga família já não sabia, nem queria saber, onde eu estava. Pulserinhas na mão, pedia mais do que trocava, trocava mais do que vendia. Não precisava de dinheiro mesmo, qualquer merrequinha já era muita coisa, mangueava o que comer, onde dormir, às vezes em casas abandonadas ou construções onde achava alguma entrada, sob marquises nas calçadas, em coretos nas praças, nos postos de abastecimento das estradas.
    Olhos atentos, ouvidos ligados, observava tudo, perguntava, experimentava, aprendia ávido tudo o que podia, ouvindo histórias, comparando vivências, sentindo as pessoas mais que nunca. Comportamentos de classes eram vistos de fora das classes – eu estava nas últimas classes, as de pedintes, mas me diferenciava por conhecer as situações de fartura que ali quase ninguém conhecia. E por saber das pobrezas internas entre os abastados, jamais me senti humilhado com o desprezo social, com o preconceito e a discriminação. Achei natural, necessário e agradável de experimentar, porque me fazia igual entre os debaixo, onde eu descobria as relações mais humanas que eu já tinha visto. Nunca me arrependi e nunca me senti humilhado ao ver desprezo e preconceito comigo. Estava imune, ganhando humildade.
    Mente analítica, alma sensível, andei o quanto pude, por onde pude, conhecendo, vivendo, aprendendo, por anos a fio pelo território, caminhando, viajando de carona, cidade em cidade, de periferia a periferia, indo aos centros pra satisfazer as necessidades e só. Com as memórias do tempo farto, das relações entre privilegiados, e com as vivências despossuídas e convivências entre os que não têm nada, fui montando pouco a pouco o quadro social.
    O trabalho foi se tornando mais importante, já queria escolher o que comer, já havia uma filha pequena, precisava pagar aluguel e contas. Fazia brincos, pulseiras e colares que foram melhorando em qualidade, fiz bolsas e sapatos de couro, fiz pão integral pra vender, nos períodos em que estava morando em algum lugar. Quando não estava, era o metal a base do trampo, em fio, em chapa, usando sementes, contas, espinhos, penas, dentes e unhas de animais mortos que encontrava nos caminhos, geralmente atropelados. Usava então mochila maior, carregava mais coisas, havia bolsas e volumes além da mochila.

                                                                             
    A uma certa altura dos acontecimentos, comecei a sentir vontade de colocar o que eu pensava no meu trabalho. Aprendi a gravar chapa de metal com corrosivo. Bacias de corrosão, maçarico, tesoura de cortar metal, vários alicates, pedra de amolar, soldas e apetrechos já somavam volumes. Quando saímos da Bahia, já com duas crianças, tive que fazer uma mochila, com lona de caminhão pra ser impermeável, enorme de tamanho pra caber a maior parte das coisas. Durante a viagem pro sudeste, pesei numa balança e estava pesando quarenta e cinco quilos. Além de todo ferramental, levava as coisas das crianças, as minhas, um fogareiro com um pequeno botijão, duas panelas e ainda comida.
    Paramos no Rio, dois meses de rua, depois Saquarema, Rio Seco, rua de novo, ocupação na Tirol, na Freguesia em Jacarepaguá, depois Petrópolis. Quando saímos de lá pra Montes Claros, tive que dividir as coisas, uma parte ficou esperando vir buscar - e se perdeu na enchente de 87 pra 88. E o que foi levado, básico pra sobrevivência, já não cabia nas mochilas e bolsas,  ferramentas iam num caixote enorme e pesado. De Montes Claros a Sete Lagoas, de Sete Lagoas a Prudente de Morais. Ali nos instalamos, nos dividimos, nos separamos em duas casas e vivemos quatro anos.
    Quando saí dali, em 92, sozinho com os três, não pude ir de carona. Fomos de ônibus até Visconde de Mauá, região serrana onde moramos em várias casas, por quatro anos. No final, um segundo casamento me trouxe um pequeno carro que passou a transportar as coisas e fez a mudança pro Rio.      O casamento acabou, o carro se foi e eu consegui, pouco a pouco, trazer meus filhos de volta dos dois anos que passaram com a mãe – dois deles, pois uma esteve comigo todo o tempo e foi quem me significou a saída do buraco escuro em que caí quando acabou. Eu precisava correr atrás, todo dia, por ela. E o tempo passou e toda ferida cicatriza.
    Segui dizendo o que pensava, minha visão de mundo e opiniões através do meu trabalho, então era o centro de atenção, falar com minhas artes o que me explodia no peito, a inconformação com esta estrutura social injusta, perversa com seus melhores e mais necessários membros. Já se iam mais de quinze anos nessa lida, minha vida e meu trabalho haviam se tornado a mesma coisa.
    Comprei uma bicicleta, saía com ela lotada de mercadorias, todas feitas à mão, com minha idéia e criações. Bagagem atrás e na frente, levava desenhos em papel, em camisas, em adesivos, ímãs, livrinhos... Cheguei a fazer viagens, a Parati, a Volta Redonda, a Visconde de Mauá. Os filhos cresceram, ganharam o mundo, fiquei só em casa. Foi quando tia Christina morreu. Ninguém esperava, mas ela tinha feito um plano de previdência pros dezenove sobrinhos que tinha e aí eu pude comprar a Kombi, num depósito em São Gonçalo, abandonada por uma pastora que não estava usando havia dez anos. Teve que trocar motor, instalar freios, trocar carburação, velas, distribuidor, bateria...
    Quando finalmente começou a funcionar sem problemas, me senti um privilegiado – não de privilégios sociais, mas de poder transportar minhas coisas e fazer o que sempre gostei, dirigir, ainda mais kombi. Senti aumentar minha responsabilidade com o privilégio, agora precisava encher com mercadorias reflexivas, minha proposta de trabalho e de vida. Aos cinqüenta e quatro anos, passei a viajar de kombi.
    A primeira viagem longa foi ao Rio Grande do Sul. Santiago, Santa Maria, Porto Alegre, Restinga, Sarandi, palestras e exposições. Fora pequenos problemas fáceis de resolver, troca de velas, aperto em porcas frouxas, tudo correu tranqüilo. Viagens próximas, Mauá, Belorizonte, se sucederam. Uma viagem ao Vale do Capão contou com mais de setecentos quilômetros de estradas de terra, perdeu-se um trinco da porta de trás, a barra estabilizadora da direção partiu, a homocinética esquerda quebrou. Eu tinha de reserva exatamente a homocinética que precisava, a barra foi soldada em Jequié, o trinco foi improvisado num serralheiro.
    Então começou a saga. Vazamento de óleo, que ninguém localizava a causa. Fui no João aqui do Viradouro, ele cobrou quatrocentos paus – o dinheiro minguava nos estertores finais – pra abrir, trocar o filtro de óleo, ajustar os flautins, regular os tuchos. Fomos pro sul, palestras em Floripa, Curitibanos, Guaporé, Cachoeirinha e Porto Alegre. Em Floripa, vendi como nunca, Clara nos desenhos enquanto eu palestrava. Fiquei pasmo com a quantidade de grana – nunca havia vendido tanto em tão pouco tempo – mas não sabia que ela ia ser toda necessária. Na subida da serra pra Curitibanos, por falta de óleo, o motor quebrou definitivamente. Passamos uma noite em Rancho Queimado e voltamos a Floripa com um caminhão guincho. Um amigo nos indicou um mecânico da confiança dele e deixamos a kombi pra ir cumprir os compromissos de ônibus. Na volta, ele apresentou um motor pra colocar, em preço vantajoso e em pouco tempo. Uma semana depois, saíamos de Floripa. O motor não estava em boas condições de verdade, bateu antes de chegar em Sampa. Incompetência ou má-fé? Não importa, isso não muda o resultado.
    Outro guincho, hospedagem na Ana Rosa, em Sampa, aparece um mecânico oferecendo um motor “em ótimas condições” e com um preço bem baixo “pra qualidade dele”. Mecânico de fama, com vídeos sobre os diversos problemas de motores, inspirava confiança, conhecimento e experiência. Senti que podia confiar no motor, o cara sabia tudo sobre motores a ar, pelo que parecia. Mil e quinhentos reais pagos ao dono, uma mixaria pra um motor tão bom, segundo o mecânico. Ele nem cobrou o serviço de retirada do velho e colocação do novo, só queria fazer um vídeo do processo. Achei ótimo, não teria mais dinheiro mesmo, estava de final de grana, salvando com as exposições na avenida Paulista. Retribuí como pude, deixei com ele e sua filha uma quantidade de desenhos, nem contei, juntei um de cada numa pacote só e entreguei de presente, pra sua surpresa.
    Senti que podia confiar, mas mais uma vez senti errado. Quatrocentos quilômetros rodados e parecia desandar, perdia potência, o óleo descendo o nível, eu completava, queimava óleo e saía fumaça. Cheguei em casa desse jeito, levei num mecânico aqui da rua, bom, mas caro, e ele  desconfiou do motor, pediu pra levar numa retífica, eu não acreditei, argumentei, disse que o motor tava garantido pelo melhor mecânico de que tinha notícia. Ele respondeu que o barulho era indicador de problemas nos cabeçotes, talvez anel de segmento nos pistões, coisa interna. Resisti e não levei. Mas a coisa piorava, o motor esquentava até parar, era preciso estacionar, abrir a tampa e esperar esfriar, saía fumaça do suspiro do óleo.
    Apareceu o Claudio Louro, me apresentou os mecânicos de família, pai, mãe, tia, o filho, todos tinham carros com motores a ar, fuscas e kombi. Os caras desmontaram o motor, apontaram a necessidade de retífica em vários pontos, os cabeçotes estavam condenados, um deles com uma trinca enorme. Nos encaixes dos eixos internos, arranhões e sulcos inviabilizavam o motor. A retífica recusou o serviço, apontando o motor como irrecuperável. Na opinião unânime dos mecânicos, o motor fora “engatilhado”. Eu não sabia o que era isso, me explicaram: “arrumado pra vender e quebrar logo depois”. Simples assim.
    Fiz saber a ambos, o dono do motor e o mecânico, do acontecido. O primeiro nem se manifestou em resposta. O mecânico reclamou por eu não reconhecer o seu trabalho e esforço. Bueno, cada um com seu caráter. Eu, no lugar do primeiro, devolveria a grana e me desculparia – claro que se eu soubesse do estado do motor, jamais venderia, muito menos o disfarçaria. No lugar do segundo, se não soubesse das condições do motor – o que acho improvável, embora possível –, iria reclamar com o dono, pois teria empenhado meu nome na garantia moral de que era um ótimo motor, e exigiria dele a devolução da grana ou cortaria relações pessoais com ele, assumindo a dívida, mesmo que não pudesse pagar. Assumiria porque minha consciência não me perdoaria se não assumisse. Mas não posso cobrar de outra pessoa que tenha a mesma consciência e o mesmo comportamento que eu teria.
    Cada um é cada um, com sua consciência, suas decisões e suas conseqüências. Trato do que tenho pela frente. Ao invés de voltar atrás pra cobrar, brigar, me aborrecer e estragar meus dias, prefiro correr atrás de um motor que funcione, trabalhar mais pra arrumar a grana, sem me aborrecer, fazendo meu serviço de causar reflexões, questionamentos, pensamentos e sentimentos por aí. Trato como uma fatalidade porque não gosto de trabalhar com culpas, mágoas e rancores. Muito menos manter contato com quem já deu sinais de omissão e fraqueza de caráter. São os mais difíceis e desagradáveis de tratar, ainda mais quando se trata do ponto mais sensível de pessoas assim, o bolso. Eu não tenho esse apego todo e prefiro perder o motor a entrar em conflitos e desequilíbrios tão detestáveis. Confiei, não foi? Agora pago o preço pela confiança em quem não é de confiança. Segue a lida.
    Nos primeiros movimentos neste sentido, as vendas não têm sido boas além do necessário pros gastos cotidianos e vejo a demora se desenhando, enquanto a kombi ocupa lugar numa oficina lá na Piedade, onde mora o Claudio. Não é pra ficar muito tempo, mas tá difícil.
    Várias pessoas sugeriram fazer um financiamento coletivo, mas não me senti no direito, afinal, a kombi é pra mim, ferramenta do meu trabalho que será feito, com ou sem viatura, apenas com mobilidade e capacidade de carga mais restritas. Achei que era uma função minha. E devo reconhecer que neste setor de ganhar grana sempre fui um fracasso, até porque nunca me preocupei em ganhar mais do que precisava pras despesas mínimas. Vejo pessoas que têm esse dom, mas não é o meu caso e não lamento por isso. Apenas nesse momento seria muito bom ter esse dom, mas não tenho. Aí me disseram que meu trabalho é coletivo e que havia gente disposta a colaborar na recuperação da Celestina. Resisti à idéia, mas com o passar dos dias essa resistência foi enfraquecendo. É verdade, a kombi me leva a mais gente, mais rápido e com muito mais coisas pra espalhar por aí, entre desenhos, livrinhos, ímãs e outras coisas em maior quantidade que em qualquer tempo da minha vida. Uma viagem pra palestra pode se desdobrar em palestras várias, nas periferias e associações, onde eu for chamado, locais que não teriam condição de bancar minha viagem. Então mudei minha posição.
    O esquema deve ser o mais informal possível. Há motores de fábrica, novos, o da kombi tá custando mais de onze mil reais, mais do que paguei na kombi... chega a ser engraçado. Há motores em condições de durabilidade – agora estou bem acessorado – que ficam entre quatro e sete mil. Se pessoas se juntarem pra arrecadar até mil reais, posso garantir uma visita com palestra e exposição, se estiverem num raio de quatrocentos quilômetros. Mais que isso, vou precisar de ajuda no combustível. Nunca cobrei uma palestra, mas estas seriam em retribuição por me ajudarem a recuperar a mobilidade que a viatura me dá. Os que me arrumarem quinhentos, podem indicar cinco desenhos pra eu enviar pelo correio (vendo a quarenta e cinqüenta reais, mas nesse caso seria uma ajuda e uma retribuição, não uma compra). Os que encomendarem desenhos, simplesmente, pelos seus próprios preços, também estarão contribuindo pra levar adiante essa vida de trampo que eu levo, completando os gastos com as despesas além kombi. E quem quiser contribuir de qualquer forma, com qualquer quantia, estarei atento às doações e aviso quando atingir o objetivo. Se sobrar alguma coisa, há inúmeros reparos a serem feitos, dobradiças a soldar, trincos a consertar, fechaduras por colocar, uma série de pequenas coisas por fazer. Estes reparos não estão na prioridade, por isso esperam as possibilidades. Tampouco estão no objetivo desta convocação de colaboração internética. Mas satisfações serão dadas na medida da minha consciência. Peço pra me enviarem os comprovantes de depósito pra eu fazer uma lista dos doadores, serão de alguma forma amigos da Celestina e, se rolar ocasião, agradecerei pessoalmente.
    Não sei se posso fazer melhor que isso, tô aceitando sugestões.

A conta pra depósito é uma poupança que abri pra trocar cheques, há tempos. Agora serve pra receber as encomendas que envio pelo correio. E vai servir pra receber essa ajuda pra arrumar a kombi e voltar a circular com ela pelo território, levando material reflexivo, questionador, pretensiosamente conscientizador.

Eduardo de Mendonça Marinho - 575948137-15 (cpf)
Ag. 2807 - Santa Rosa
Cta. Poup. 1004200-3
bradesco (237)

Ah, sim, gostaria que todos os participantes da "vaquinha" mandassem comprovantes de depósito pro arteutil.em@gmail.com, pra fazer a lista dos financiadores do motor.

Estrada gaúcha.
Serra de Visconde de Mauá
Trocando janelas, em Belo Horizonte.
Via Dutra, Sampa - Rio
Br-116, Bahia.





domingo, 4 de dezembro de 2016

Eduardo Marinho - sobre Deus ou espiritualidade.

O planeta Terra, em sua proporção astronômica, é uma poeira cósmica girando em torno de uma estrela anã (o sol), insignificante, na periferia de uma galáxia de cem bilhões de estrelas, quase todas maiores do que o sol, com dezenas, centenas de planetas, cada um com seus satélites, luas a perder a conta, em suas órbitas, estrelas dez, cem, mil vezes maiores que o nosso solzinho, estrela-anã. Imaginar (criar a imagem) destas dimensões exige uma certa concentração e algum senso de espaço. É preciso se projetar na imensidão do espaço universal e preceber a insignificante participação do nosso sistema diante do infinito existir perceptível. 

Se levar em conta que essa galáxia espiralada em que existimos (a via láctea) é também uma das mais simples e menores entre os duzentos bilhões (!) de galáxias contadas e catalogadas por inúmeras gerações de astrônomos, algumas com trilhões de estrelas, sóis com seus sistemas planetários, aí se começa a ter noção da nossa insignificância. Dessas dimensões universais, podemos perceber que somos um pequeno grupo de viventes numa poeira cósmica e, a partir daí, assumir o fato de semos uma família planetária em evolução permanente em meio a todo o movimento universal, em mutação eterna. Chega a ser irracional imaginar que só tem vida aqui na Terra e do jeito que conhecemos.

Essa visão toda, a meu ver, serve pra gente deixar de ser besta, primitivo e inseguro e parar de criar divindades que só nos separam, distanciam e criam confronto, e perceber que nossa necessidade maior está entre nós, nas formas de nos relacionarmos, nos valores truncados que nos enfiam goela abaixo, no desenvolvimento da sociedade humana de verdade. Não esse desenvolvimento mentiroso, que só aponta economia e tecnologia, mas o desenvolvimento moral que nos permitiria simplesmente atender a todas as necessidades de todos os seres do planeta, pois condições materiais pra isso já existem, o que não existe é o desenvolvimento moral e de consciência. Enquanto focalizamos deuses imaginários, geralmente machos – generosos e amorosos mas vingativos e cruéis ao mesmo tempo – concepções ridículas (me perdoem os religiosos) que tiveram sua função, a de acalmar o primitivismo humano com castigos e prêmios, dispersamos as nossas possibilidades de construir uma sociedade harmônica, sem tanta miséria e abandono, violência e criminalidade.

É preciso perceber que a espiritualidade se manifesta na conduta, no caráter, no temperamento, no dia a dia, no relacionamento com as pessoas e com os acontecimentos. Nos sentimentos que se produzem, tanto dentro de si como ao seu entorno, nas pessoas com quem se trata. No templo todo mundo é "santo", devoto, contrito e bajulador do seu deus. Mas a revelação se faz nas atitudes, tolerantes ou intolerantes, amorosas ou raivosas, humildes ou arrogantes, compreensivas ou julgadoras. A crença ou não crença importa menos. O que se acredita pode mudar de uma hora pra outra, conforme circunstâncias da vida, é o que tenho visto por aí. Mas o que se faz é determinante, fez tá feito, a conseqüência tali na frente. "Não importa o que tu pensa, "mo fio", importa é o que tu faz". Ouvi isso de uma entidade num terreiro de candomblé, em Salvador, numa festa de Cosme e Damião. Foi uma das coisas mais sábias que já ouvi.

Não preciso acreditar em nada, assumo que não sei e assim fico menos fechado na percepção da realidade. Além do mais, se minha espiritualidade está na matéria, é na matéria que devo exercer e desenvolver minha espiritualidade, não nas projeções pra além da minha capacidade de compreensão, que se demonstram historicamente como fonte de conflitos e disputas, totalmente de acordo com um modelo social que nos estimula conflitos e disputas, uma sociedade altamente competitiva que nos atira intencionalmente uns contra os outros - no interesse egoísta, ambicioso, ávido e perverso de um pequeno grupo de podres de ricos que domina os Estados, os mercados sobretudo os financeiros, as comunicações, o modelo de ensino e tudo o que podem, criando a mentalidade, os valores, os desejos e objetivos de vida. Essa estrutura social depende do comportamento geral, daí a mudança mais premente - e eficiente - ser a mudança interna, a que muda o comportamento.

Se aproxima o momento de dispensar a religiosidade e perceber que ninguém escapa da espiritualidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Celestina em cirurgia outra vez - preparação pra estrada

Chegando de São Paulo, o motor já estava com barulho diferente. A potência havia caído muito, até na subida do vão central da ponte Rio-Niterói pedia a terceira, perdendo velocidade. O óleo voltava a vazar, pouco a pouco e aumentando, os tubos dos tuchos melavam, primeiro dois da esquerda, depois os quatro e dois da direita, por fim todos estavam sujando com óleo enquanto o nível, claro, diminuía na vareta. Levei no Wilson, aqui na rua, mecânico que sempre considerei bom, por vários motivos - e que eu evitava, por um único motivo, ele cobra caro - e ele, depois de examinar, disse pra levar numa retífica de um conhecido dele, onde tinham equipamentos pra retirar e examinar o motor, o que ali na oficina dele demoraria demais e ele teria que cobrar pela mão de obra. Aquilo me deixou com a pulga atrás da orelha, mas pensei que não era possível, o motor só tinha rodado na kombi uns seiscentos quilômetros. Ele falava dos cabeçotes e prováveis problemas internos, eu preferia acreditar que ele tava enganado. Mas a necessidade de acelerar por causa da falta de potência fazia o barulho das explosões nos cilindros escapar pro lado de fora - sintoma de vazamento nos cabeçotes, já que o sistema de escapamento estava bem ajustadinho.

Fui regularizar os doc no detrar, fazer a vistoria, e cada vez o motor exigia mais aceleração, perdia mais embalo na subida, esquentava a ponto de precisar parar pra esfriar e andar com a tampa aberta pra esquentar menos. Eu tava ficando já apreensivo - como viajar desse jeito?

Aí, por um desses mistérios da vida, apareceu o Claudião, como se diz, "do nada". Fotógrafo e metido com câmeras, vídeos e toda essa parafernália pra mim hermética, entrou na sintonia e criamos a intenção de gravar as coisas pra divulgar idéias e visões de mundo e da vida. Criado entre fuscas e motores a ar, tinha muito mais noção do que eu dessas mecânicas - eu tô com essa kombi há menos de dois anos, antes nunca tinha tratado de motor algum. Viu o problema e se meteu por inteiro, no bom sentido. E acabou nos levando ao mecânico de família com quem, como um médico de família, se relacionava há muitos anos. Ele também achava que era caso de retífica.

O Amauri e o Ricardo apenas confirmaram, claro, depois de abrir o coração da kombi. O Cláudio chama o motor de alma da Celestina, mas eu vejo ali o coração. A alma formamos nós, dentro dela, na intenção de levar e espalhar reflexões, pensamentos, questões, desmascarando as mentiras sociais em que estamos afundados nesta sociedade falcatrua, criadora de miséria, exclusão, ilusões, discórdias, conflitos e separações. Na humildade o Amauri explica o que encontrou por dentro do motor e o que precisa ser feito pra ficar "no jeito".

Aí se vê apenas o planejamento da cirurgia, com detalhes em cada problema encontrado, explicando o porquê do aquecimento e de todos os problemas que estavam se apresentando, a trinca no cabeçote, o arredondamento dos tuchos, as folgas nos eixos, a falta dos retentores...

Só ficou faltando a pedrada do orçamento. De qualquer forma, tenho que expor mais um ou dois fins de semana em Santa, pra completar o que suponho que será a grana do conserto geral. Já tem guardada, mas temo que não seja o suficiente, pelo que minha ignorância viu nesse vídeo.

Sinto que depois dessa, finalmente, Celestina vai estar com boa saúde pra encarar os milhares de quilômetros que tem pela frente, cumprindo sua função de levar reflexões por aí, a começar pela viagem mais amorosa, ao Vale do Capão.



Senti errado. Ainda falta. O que pareceu que foi, não era.

Hoje, 25 de novembro, o motor tá condenado ao lixo, não se aproveita nem pra retífica. Agora é correria pra arrumar outro, do zero outra vez. Muito trampo pra levantar de novo as condições de movimento da kombi. Mas não tem problema, trampo taí pra isso mesmo. Só adia todo o planejado pra levantar esse final de ano, projetor, caixa de som, bagageiro, lanternagem, arrumação da oficina de trabalho, preparação pra melhorar o esquema da produção dos trabalhos... tudo adiado pra quando der. Prioridade a Celestina, la kombi.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pequeno panorama



Na época do Fernando Henrique o congresso foi comprado com grana do Citygroup pra passar a reeleição - um desses remendos constitucionais pra "legalizar" as estratégias do real poder - através do banqueiro Daniel Dantas, de acordo com vários artigos fora da mídia porca, obviamente - e livros, como "A melhor democracia que o dinheiro pode comprar" (a partir da segunda edição, quando foi incluído o "Capítulo Brasileiro"), de Greg Palast e depois, "Privataria Tucana", de Amaury Ribeiro Júnior -, sob o compromisso de entregar empresas públicas lucrativas a preço de banana pra corporações internacionais. FHC só não privatizou empresas estatais desprezadas pelos parasitas podres de ricos e as que foram defendidas pelos trabalhadores organizados, como a Petrobrás e o Banco do Brasil, que passaram a ser sistematicamente sabotadas pelo próprio governo.

Lembro do final melancólico desse governo traíra, eu passava pela ponte Rio-Niterói e via o porto vazio, poucos contêineres, quase nenhum navio atracado, a crise era enorme e a mídia cumpria seu papel enganador, todo dia, criminosamente. Os movimentos sociais estavam na maior atividade, o MST nunca tinha conseguido tantos assentamentos e desapropriações no caminho da reforma agrária, necessidade nacional evitada a todo custo pela elite latifundiária. O punhado de vampiros precisava de um governo que acalmasse as movimentações coletivas e o torneiro mecânico vinha bem a calhar.

Lula já havia sido devidamente pasteurizado pelas três derrotas nas candidaturas à presidência, entendido que se não compusesse com os banqueiros nacionais e internacionais, se não se mostrasse "amigo" dos interesses mega-empresariais, não alcançaria seu sonho já transformado em projeto pessoal - afinal, começar a vida como vendedor de amendoim e chegar à presidência da república não é uma história comum. Aí surgiu o "Lulinha paz e amor", catequizado e adestrado ao serviço dos mega-sanguessugas da sociedade humana, pronto pra acalmar os movimentos sociais. E foi o que se viu. Num contraste brutal, nenhum assentamento, nenhuma desapropriação foi feita e os movimentos ficaram mansinhos, esperando o que o "colega" na presidência iria fazer.

A parasitagem comeu solta, enquanto os ocupantes do chamado "poder público" aproveitavam seus mínimos espaços de manobra pra estabelecer "programas sociais", atirando migalhas às multidões sabotadas em seus direitos constitucionais - jamais lhes seria permitido políticas de Estado que reparassem e compensassem tantos crimes sociais. Afinal, o "poder público" nunca foi público. Esses programas migalheiros eram tolerados com certa relutância, com ironias na mídia, na expectativa de que não dariam resultados significativos, pelas elites servidas por esse governo estratégico, como um efeito colateral desagradável.

Com o tempo, foi se percebendo o que quem não tem nada é capaz de fazer com migalhas. Foi se percebendo que muitos dos "egressos" da miséria e da ignorância, ao contrário do que se esperava, não "esqueciam" seu passado, nem abandonavam os demais periféricos. Pequenas e frágeis pontes, antes inexistentes, começaram a aparecer entre periferias e academias, quase despercebidas, "ignoradas" pela mídia dominante, mas observadas e monitoradas pelos poderes reais, acima e por trás da farsa política, com apreensão. É preciso manter a ignorância dos explorados. O nascimento e crescimento de instrução e informação periféricas é apavorante e intolerável ao punhado que depende da exploração pra manter seus luxos, patrimônios e poderes sobre a sociedade. O terror das elites é a instrução, a informação, a consciência e a união dos "de baixo". O aparato midiático, em conjunto com a máquina estatal - apodrecida pela corrupção generalizada que há séculos domina o teatro macabro das marionetes governamentais, sejam executivas, legislativas ou judiciárias - foi manobrado pra sujar a imagem desses "governos" diante da população ignorantizada e desinformada. Difamações, escândalos fabricados, denúncias estratégicas localizadas e cênicas, tudo foi feito, sem sucesso suficiente pra impedir a eleição e reeleição da guerrilheira.

Mas Dilma, sem o jogo de cintura, o traquejo e a vaselina do seu padrinho, não foi capaz de fazer frente às artimanhas do jogo pesado. A presença, ainda que mínima, de pobres nas universidades e nos aeroportos, as redes de informação periféricas - embrionárias - se desenvolvendo, se ligando, aterrorizavam e enfureciam a elite escravista, exploradora, arrogante e perversa. A mídia - sempre ela - abriu espaço e estimulou movimentos de rejeição às políticas migalheiras que diminuíam os índices de miséria, de fome e abandono de parte dos excluídos. Ao mesmo tempo se manobrava dos bastidores das instituições públicas, dos três poderes. As classes médias foram a massa de manobra perfeita pra angariar apoio na massa ignorante, pouco, mas suficiente pra, com os holofotes dos "grandes meios de comunicação", criar a imagem de rejeição que sustentaria as manobras criminosas - sobretudo no legislativo e no judiciário - direcionadas a uma troca de marionetes que se mostrava impossível nas urnas, mesmo com toda a armação controladora de eleições.

As corporações estrangeiras faziam seus movimentos, com o acesso livre que têm ao território e às instituições brasileiras. Só pra dar um "pequeno" exemplo, o presidente do Banco Central, base das políticas econômicas do país, é indicado por banqueiros mundiais e vem de altos cargos do sistema financeiro internacional, fonte da vampiragem mundial. Por isso as políticas econômicas estão sempre a serviço dos interesses estrangeiros, contra a população e contra o trabalho de harmonização social tão evidentemente necessário. O império das corporações transferiu a sua embaixadora especializada em golpes institucionais - passou o tempo dos golpes armados, militares e explícitos - ao Brasil, pra articular aqui o que ela articulou em Honduras -  onde se derrubou Manoel Zelaya - e no Paraguai - onde Lugo foi impitimado como a Dilma, por um congresso corrupto e raivoso contra políticas sociais. As elites traíras de dentro da política institucional estavam indóceis, rugindo e rosnando de ódio contra o atiramento de migalhas, ainda que mínimas, à população mais empobrecida. Corruptos históricos gritavam contra a corrupção "do governo", como se a corrupção não fizesse parte estrutural da sociedade como um todo, desde a monarquia.

Os contrastes eram enormes. Enquanto se berrava "crise!" em todo canto, eu nunca tinha visto tanto movimento no porto, verdadeiros prédios de contêineres lotavam os pátios, os atracadouros cheios e navios esperando estacionados pelo espaço da Baía de Guanabara. Na semana anterior à queda da Dilma, a alta do dólar era uma desgraça em todos os comentários econômicos da mídia. Na semana seguinte a mesma alta passou a ser ótima, um estímulo ao turismo. Descaramento pleno. A palavra "crise" desapareceu como num passe de mágica. E a corrupção profissa das marionetes traíras se instalou nos cargos "públicos" de comando estatal. O quadro governamental se tornou tenebroso, com todo o apoio e satisfação da mídia - a porta-voz dos interesses empresariais desumanos.

As chamadas esquerdas, incapazes de se unir em suas divergências teóricas, perdem sempre a oportunidade de esclarecer a população, em sua arrogância induzida de superioridades ilusórias, de cima dos seus pedestais de vidro e com seu linguajar construído como uma cerca de arame farpado que impede o acesso ao entendimento da maioria, sabotada em instrução escolar. Não se misturam com a população e temem as áreas de exclusão, ao mesmo tempo em que se iludem com a idéia de "conduzir", de "liderar", de "formar quadros" - lideranças controláveis - ao invés de servir as vítimas dos crimes sociais cotidianos há incontáveis gerações, com seus conhecimentos e informações. E aprendendo, por sua vez, a sabedoria dos que se desenvolvem na dificuldade, a capacidade de superação ímpar dos sabotados, dos explorados, dos excluídos, ganhando humildade e respeito no desenvolvimento da sua própria humanidade. E parar com essa história de "ajudar os necessitados", "ensinar aos ignorantes", "conduzir os explorados à sua libertação", servir as vítimas de crimes sociais dos quais não se foi vítima. Em vez de caridade soberba e humilhante, solidariedade plena e atuante. O sentimento de superioridade benevolente nasce dos próprios condicionamentos e afasta as pessoas, é preciso o sentimento de igualdade e serviço.

Não dá pra contar com ainstituições  acadêmicas, também infiltradas pelos poderes econômicos e cooptadas pela mentalidade empresarista, a não ser exceções pessoais que conseguem não se contaminar com os condicionamentos acadêmicos de superioridade social, que conseguem manter a humildade e espírito de serviço, que reconhecem nos "de baixo" a força maior da sociedade toda, a base de toda existência, de tudo o que funciona, privado ou público. Essas exceções precisam somar com os periféricos - há exceções também nas periferias, que a duras penas se instruem e se informam, com quem formar e trabalhar no sentido do esclarecimento, na contramão da falsa informação da mídia privada - aproveitando as enormes contradições entre o que é apresentado nas telas de tevê, nas rádios e nos jornais e a realidade inegável à nossa volta.

A força da base social precisa ser percebida por essa mesma base, mantida inconsciente, desinstruída, roubada em seus direitos constitucionais, fundamentais, humanos, por esta armação social primitiva, covarde, escravista, mantida pelos mega-parasitas. Esta maioria possui a maior capacidade de superação de todas as classes, é a parte mais forte da sociedade, tanto que lhe serve de alicerce, construindo, operando e financiando o Estado como um todo, com os impostos. Por isso mesmo é cuidadosamente impedida de se desenvolver humanamente, induzida a sentimentos de inferioridade e impotência que paralisam tanto a ação libertadora quanto a consciência de sua própria força. E é esta a função de quem teve acesso à instrução e informação que são direitos roubados de quem não as tem. Este é o serviço e a obrigação moral, levar estes direitos sem a indução acadêmica da superioridade, com o espírito de quem serve e não de quem ensina. Os que se põem nos pedestais de vidro perdem o contato com a realidade e esterilizam suas ações e intenções. Vaidades, disputas e arrogâncias são induções estratégicas, obstáculos à verdadeira conscientização - que é a maior necessidade no caminho de algum equilíbrio social. Se não se trabalhar internamente nos seus próprios condicionamentos, não tem trabalho coletivo que se enraíze e produza resultados sólidos.

Respeito é bom, é escasso, mas nóis gosta. Sem respeito não se consegue confiança. E sem confiança qualquer relacionamento é manco e precário. O trabalho interno, individual e íntimo, é fundamental na lida por mudanças sociais na direção de uma sociedade menos injusta. A humildade é uma necessidade neste sentido e é exatamente por isso que os egos são inflados entre os "instruídos". Os poucos que conseguem se livrar das amarras da falsa superioridade são valiosos. Mas ainda são muito poucos, embora contaminantes e em expansão, embora lenta.

Caminhamos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Não há governo, não há república, não há democracia. Revelações do óbvio, por Bob Fernandes

Frações de revelação. Há pelo menos trinta anos vejo a sociedade ser manipulada dos bastidores do teatro de marionetes que se apresenta como "política", um palco sujo de merda e sangue onde se encena a farsa de uma democracia fraudulenta e perversa. Milhões de pessoas têm seus direitos roubados, há gerações e gerações, a ignorância é distribuída num sistema de educação sabotado desde sua raíz nas "decisões" de "governos" e "legisladores" (tudo com aspas, porque tudo falso), desde a formação dos seus currículos insuficientes, pífios, deliberadamente incapazes na formação de cidadãos conscientes e preparados pra viver e contribuir numa sociedade humana, em harmonia. As classes médias são preparadas pelo ensino particular pra comandar a massa amorfa e acéfala, pra controlar a barbárie estabelecida pela estrutura social, da polícia ao judiciário, do comércio à indústria, em todas as áreas, com a visão de uma arena competitiva onde são todos contra todos, a vida não é mais que uma disputa onde é preciso vencer - e não simplesmente viver.

O inferno social em que vivemos é construído minuciosamente de onde se está protegido dele, quem o projeta não vive nele, mas nas bolhas isoladas de luxos e riquezas, cercadas por muros eletrificados e guardas armados. Dali se joga o tabuleiro social, movendo peças, subtraindo ou acrescentando elementos ao "jogo" que afeta bilhões de pessoas. E se planejam mentalidades, valores, comportamentos, visão de mundo, desejos, sentimentos, objetivos de vida, que se implantam desde os modelos de ensino e se reforçam cotidianamente pelo massacre publicitário-midiático dos meios de comunicação. Inclusive, como não poderia deixar de ser, são planejadas formas de contestação ao sistema, no controle dos inconformados. Aí se incluem os dons quixotes da farsa política, brandindo suas espadas e suas vozes, denunciadores mas impotentes, boicotados pelas mídias, ridicularizados, sabotados - que só permanecem na cena por seus reais valores e serviços, mas afinal de contas ocupando o espaço permitido e necessário, na confirmação do cenário "democrático". Na ilusão de mudanças institucionais, acabam servindo à grande farsa.

É preciso ver a realidade antes de pensar em "mudanças" na sociedade. Pra decidir de forma não programada, pra viver como se quer, não como se manda, pra se comportar de forma despadronizada, ver com os próprios olhos, pensar com a própria cabeça e sentir com o próprio coração.

A corrupção não é só sistêmica, como diz o Bob Fernandes, é endêmica, é estimulada, é o motor de toda a sociedade. O sistema é feito pra corromper a alma - não é à toa que se toma toneladas de anti-depressivos diariamente, não é à toa tanta angústia, vazio e falta de sentido na vida de cada um. Valores falsos não satisfazem a alma, embora estejam impregnados em nossa razão. O sistema social é todo uma gigantesca fraude.

Não há governo, não há república, nunca houve democracia. Estamos caminhando e chega o momento de ver a realidade como ela é. É o momento da comunicação, da tomada de consciência, da percepção, mais que nunca, e os focos se espalham pelas periferias - onde mais precisa - e por todo lado, de um jeito lúcido ou equivocado, a se desenvolver no tempo e na prática ainda nova do exercício das comunicações pulverizadas por toda a sociedade. Há focos embrionários do que será preciso na formação de novas relações sociais, entre pessoas, bichos, plantas, água, terra, entre a gente e a vida. É garimpar, com humildade e persistência, e o grande garimpo humano revela, em meio ao cascalho, suas pedras raras - sempre em serviço, contaminando e transformando cascalhos em pedras raras, num processo permanente, há milênios, que se apressa com o ritmo das mutações.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Ver, primeiro.


Manter a população na ignorância e na desinformação é uma necessidade desta estrutura social. Uma necessidade permanente.
Conter as verbas públicas e pagar os juros de uma dívida inventada pra colocar o país de joelhos diante de banqueiros e magnatas estrangeiros, com a conivência permanente da "elite" local, entregar de graça as riquezas o país e o povo à exploração sem direitos, esses são os objetivos da atual gerência, dos novos capatazes à frente das instituições falsamente públicas. Os “donos” da fazenda nem moram nela. Apenas a sugam de todas as formas, com a conivência e a cumplicidade dos poucos privilegiados locais.
Não há disfarce convincente, o descaramento é resultado da confiança na eficiência da sabotagem total nos direitos humanos e constitucionais da população. Conta-se plenamente com a ignorância e a desinformação. Cara de pau sem limites. E ainda se pensa que há caminho dentro da institucionalidade pra reverter a situação... ingênuas ilusões... tá tudo dominado, infiltrado, influenciado, impregnado dos interesses vampirescos dos parasitas mundiais e locais. Em todas as áreas.
A mineradora que matou a vida do rio Doce está recebendo permissão pra funcionar – na verdade nunca parou, até hoje escuto o apito dos trens, coisa de oitenta por dia, em dois meses seguintes à avalanche de rejeitos que assolou o vale – o maior da região sudeste – , matando tudo o que encontrava pela frente. Por trás do descalabro na saúde pública, ressalva feita a enorme quantidade de servidores que dão seu jeito pra atender nas condições miseráveis de trabalho que encontra, estão os interesses de planos de saúde, de laboratórios e da indústria da medicina lucrativa, devidamente representados nos poderes públicos, sabotando o sistema público de saúde. A educação não interessa, simplesmente, aos interesses do punhado de parasitas podres de ricos. Enquanto a educação pública deve criar ignorância pra maioria, como se vê em qualquer lugar, a sabotagem é óbvia, a particular se destina à formação dos gerentes e chefes da maioria ignorantizada. Não era à toa o ódio a toda iniciativa de educação de qualidade, no interesse do desenvolvimento de todo o povo brasileiro, da formação de senso crítico, de visão de mundo, de relações sociais mais esclarecidas, na composição de uma sociedade mais harmônica. A barbárie é deliberada e estratégica. Relega-se a maioria à inferioridade, à pobreza, à exclusão, criam-se as condições de violência, de miséria e revolta, e o massacre publicitário-midiático vai convidar milhares ao crime, com o acesso ao consumo induzido como valor pessoal e social. Deforma-se a mentalidade dos agentes de segurança, impedidos de ter qualquer consciência social, implantam-se idéias falsas e sentimentos destrutivos, culpam as vítimas e os incitam à violência contra os pobres em geral. Está formada a guerra. Com o tempo, o histórico de mortes dos dois lados é combustível suficiente pra sustentar o ódio e os conflitos.
Os empresários do tráfico circulam seus exércitos divididos em facções, seguros das cordas que têm nas mãos. Afinal, financiam também campanhas eleitorais, midiáticas, publicitárias, como bancos, laboratórios, mineradoras, latifundiários, mega-empresas em geral. Há uma guerra nos morros e nas periferias, a mídia não fala nada, uma pincelada aqui e ali, sem possibilidade de unir os pontos. Os responsáveis últimos por esta situação não circulam pelo caos, têm suas fortalezas, suas ilhas, mansões bem cercadas e cuidadas por exércitos particulares, cercas eletrificadas, câmeras e sabe-se lá o que mais. Enquanto isso as instituições tratam de manter a estrutura como é, apesar das heróicas exceções pessoais.
É preciso desenvolver novos caminhos, pois os institucionais estão monitorados e controlados de todas as maneiras possíveis, além de algumas impossíveis. Ver direitinho como é a realidade, antes de decidir o que fazer ou como, pra não fazer das formas induzidas que, além de não afetar em nada a estrutura social, ainda colabora na construção da farsa democrática.

O despertar é lento, mas inexorável... as revelações se sucedem. Enxurrada delas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Tonella - Celestina!

Marcelo Tonella descreve os procedimentos médicos da cirurgia na kombi, nada menos que um transplante de coração. Bem sucedido, como se vê. Os cuidados e a paciência são características desse doutor, didático e explicito em seus vídeos, em língua que se entende sem ser mecânico. No teste a porta do motorista se abre, ela tem uma manha pra fechar e já abriu várias vezes. Por sorte, foi sempre só engraçado, não aconteceu nada demais. Agora eu já fecho e confiro antes de andar, assim não acontece esse problema - que só vai ser resolvido quando todas as trancas puderem ser tratadas. Ainda há outras prioridades mais iminentes e a grana é pingada.

Celestina tá com o coração pronto pra viagem de novembro. Com a primeira parada em Belorizonte, seguindo por Goiás, talvez Brasília, depois subindo até a fronteira oeste da Bahia, cruzando o sertão e o rio São Francisco pra chegar no Vale do Capão, na Chapada Diamantina. Vou com Adro, o gnomo cozinheiro, e bastante material pra espalhar pelo caminho. E no Capão encontro o retiro suficiente pra novos trampos, novos originais pra acrescentar no acervo. Lá encontro Clara, inspiração não vai faltar.

(Concluindo a história na postagem de 23 de novembro... a desse motor, claro, que as histórias não páram, enquanto há vida.)

domingo, 2 de outubro de 2016

Parada forçada em Sampa

Foto - Rogério DSantis
Saímos de Florianópolis depois de esperar quase uma semana pela Celestina, parada num mecânico que "trocaria" o bloco do motor, quebrado por vazamento de óleo na subida da serra catarinense. Daniel nos aturou por esses dias, Clara, Ravi, Roque e eu. Buscando a kombi, reparei que ainda vazava óleo, na noite anterior à viagem de volta. Como o mecânico só se liberava na noite do dia seguinte, levamos a outro, pra avaliação. Este condenou o motor de forma definitiva, "esse aí não vai a lugar nenhum". Sem acreditar na falcatrua, acabamos pegando a estrada durante a noite, passamos por Curitiba e, a quarenta quilômetros de São Paulo, quebrou o tal bloco. Chegamos de guincho e eu já estava desistindo da viatura, pelas despesas que se anunciavam, quando conheci Marcelo Tonella, com seu amor pelos motores a ar e sua especialidade em volkswagen. Ele assumiu a Celestina, como quem recebe um animal de estimação, com carinho. Então me mostrou o motor que iria ser transplantado.
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Tivemos que esperar, aproveitei pra expor todos os dias no Masp, avenida Paulista. Foram bons contatos e boas vendas, compensando os prejuízos de até então. De quinta até quarta, todas as noites estávamos expondo no mesmo lugar, com ligeira variação no último dia, por causa de uma fita de isolamento que foi posta no lugar onde ficamos nos outros dias. Clara já se preparava pra ir de ônibus, porque seu avião pra Bahia era na sexta, quando Tonella avisou, "a Celestina tá pronta", arrumada e testada nos principais pontos básicos, freios, suspensão, motor novo e sem vazamento. Marcelo trabalha com sua filha, Bianca, no final da adolescência e no início da juventude. Séria e compenetrada, vai aprendendo com o pai os segredos e os sentimentos da mecânica. Ela faz os vídeos que ele publica, ensinando as manhas dos motores a qualquer um que se interesse, na intenção de evitar a dependência de mecânicos nem sempre honestos.

E assim, a kombi ficou pronta pra viajar, chegamos no Rio tranqüilos, motor mais silencioso, amaciando nos setenta, oitenta por hora. Sem vazamento. Quem gosta do que faz, só pode fazer bem feito, é o caso do Marcelo Tonella, a quem só tenho a agradecer. Na foto, Marcelo, Bianca e eu.

https://www.youtube.com/user/marcelotonella

Ela é a cara do pai. Bem melhorada, claro, mas se vê a matriz forte.

























Abaixo, encontros durante os dias de exposição no miolo de Sampa, avenida Paulista, no Masp.


Foto - Rogério DSantis



Foto - Rogério DSantis











terça-feira, 20 de setembro de 2016

Celestina em risco...

No segundo ataque cardíaco em duas semanas, Celestina corre risco de ficar pra trás. É preciso um bloco novo pro motor, provavelmente uma retífica e isso fica em mais de quatro mil reais. A grana da viagem cobriu a primeira internação, desfalcando as contas em casa - a parada em Sampa tinha como objetivo exatamente esse, as despesas da sobrevivência, com a matéria prima pro trabalho. Mas agora o preço ficou acima das condições e, como é comum, sem dinheiro pro tratamento a pessoa morre na estrutura social em que vivemos.
 Ela servia de transporte e de base pra exposição, sempre que necessário. Dentro, tudo o que precisamos em viagem. inclusive dormir dentro, nos postos, praças e esquinas da vida. As fotos são da exposição na palestra da Concha Acústica, UFSC, semana passada, antes do primeiro baque no motor da kombi, quando subíamos a serra pra Curitibanos, onde a palestra foi cancelada. Então deixamos Celestina internada em Floripa e fomos cumprir os compromissos, em Guaporé, Cachoeirinha e Porto Alegre. Na volta vimos o conserto sendo adiado pra sexta, sábado e domingo, quando finalmente saímos com ela. Mas ainda vazava óleo. Voltamos ao mecânico na segunda, ele garantiu a viagem, era só não deixar faltar óleo no motor, apesar do vazamento. Como não queríamos nem podíamos adiar mais a volta, a solução foi essa. Ali eu já tava vendo que não ia dar em conserto de verdade.

Bueno, dez litros de óleo mais tarde, já chegando em Sampa, depois da serra do café, mais exatamente no posto 65, em Juquitiba, a 40 km do anel rodoviário, na Régis Bitencourt, o motor bateu seco, menos de cem km depois do último litro posto. Ataque cardíaco, parou geral tudo.

Agora busco sem saber bem se um bloco de motor novo, sem ter toda a grana - eu daria um sinal e iria expor o que desse em Sampa, sem os painéis e outras coisas, mas com os desenhos, pra ver se levantaria essa grana. São quatro paus pra "fazer" o motor, sem contar o trabalho de tirar e instalar. Ou, talvez, mil pra comprar um bloco novo, mais quinhentos pro serviço. Não saí ainda atrás, Juquitiba é pequeno, talvez precise guinchar pra Sampa - não conheço mecânicos em Sampa, muito menos que tratem de kombis e sejam honestos e competentes. Aí apelo pros amigos em São Paulo. Estou com pouco tempo e a possibilidade de vender pra ir embora é uma das pensadas.

Uma pena. Mas não se pode ter apego às coisas, elas vêm e vão. Quando fazemos tudo o que podemos e ainda assim não dá certo, é preciso abrir a mão, largar e seguir adiante. Temos tudo o que precisamos, respiramos saudáveis, pelo menos ainda, e diante das perdas é preciso não piorar as coisas com sentimentos depressivos.

  Celestina já dura quase dois anos. Foram em torno de cinqüenta mil quilômetros rodados, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia passaram sob as rodas da kombi. Muitos amigos andaram nela conosco, muita gente cruzou os caminhos. História já tem, agora veremos o que rola.
A palestra foi até de noite, Celestina ao fundo apóia os painéis.

Ainda de dia, a exposição na UFSC.
Estamos arrumando um guincho pra levar pra Sampa, lá vemos se arrumamos um mecânico bom ou um comprador nem tanto, que compradores que aparecem no sufoco a gente já sabe como são.

Como segue a saga, também tô curioso. Mas se ficar sem nada já foi superado várias vezes, ficar sem kombi não será pior, nem mais difícil. Torno a carregar o que puder na mochila, se for preciso. E a vida caminha.
Celestina recolhida, depois do primeiro ataque cardíaco.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Internação de emergência

Na serra da Pedra Selada, caminho de Visconde de Mauá.

Voltando de Mauá, ontem, percebi o vazamento de óleo. Segui viagem até que a luz acendeu no painel na descida da serra. Parei na Capelinha, verifiquei a vareta, tava de assustar, só um meladinho do óleo na ponta. Uma hora depois apareceu o óleo necessário, muito mais caro que o normal, claro.

Fomos pela Dutra até perceber a fumaça branca pelo retrovisor. A coisa tava pior que eu esperava, bem que seu Manoel Elias me avisou, mas o serviço era pesado e caro, fui adiando até dar nisso. Gastamos cinco litros de óleo pra chegar em casa, já com a luzinha acesa de novo. Pelo caminho, ficou um fio de óleo marcando a rota, de Mauá até minha casa. O drama tava percebido.

Hoje levei ao médico, não dava pra resolver no ambulatório, decretada a internação. Ela fica lá até segunda de tarde. Vão ter que tirar o motor e trabalhar dentro do carter. Torre, retentores, flautas, tudo vai ser revisado, aproveitando que a cirurgia é complexa e profunda. Neste fim de semana, vou pra Santa Teresa de ônis. Pelo menos posso tomar umas cervejas por lá, não existe a assombração do bafômetro. Pena que não posso levar os ímãs.

Há pouco mais de um ano e meio não havia kombi, era tudo nas costas ou na bicicleta. Com os limites que isso acarreta. Na Celestina carrego muito mais e ainda não consegui chegar perto de completar sua capacidade. Mesmo assim, ela já faz parte da história. E das histórias.

No sul da Bahia, a caminho de Brumado, onde a promessa de ressarcimento das despesas não foi cumprida.

Em Barra Longa, caminho interrompido pelo veneno químico da samarco, na verdade vale, na tragédia planetária da maior bacia hidrográfica do sudeste. Que a mídia, hoje,minimiza chamando de "tragédia de Mariana", criminosa que é. O tempo já está trazendo as conseqüências, que estão só começando. Aí tem desgraça pra mais de século.

Ainda coletando dados sobre a calamidade ambiental, no caso aí próximo à foz, em Regência.

Em meio aos caminhões, Celestina dorme nos postos, sem se intimidar. Toda suja do barro tóxico, sinais de guerreira. Como Maria Clara, ela é pequena perto das carretas, mas destemida, valente, disposta. E não se intimida.

Celestina dá "pezinho" pro Kenny tirar fotos do crime das mineradoras.

Saindo de Ouro Preto na noite, ela não pôde subir até a casa de Douglas, que nos abrigava. Ficou num largo do caminho, mas tava em casa, antiguidade na antiguidade.

Em Porto Alegre, no Sarandi, a turma do Conceito Arte dá uma força no banho.

Pepe fotografa por trás, sem perceber seu próprio reflexo.

Já limpa, ela descansa das jornadas, na porta da casa que nos recebeu por uns dias.

Florianópolis, Monte Verde, em frente à casa que nos abrigou por lá em várias viagens, hospitalidade de Thiago Silveira.

Em Minas, uma parada pra mostrar em que direção nós viajamos pela vida.
Essa garibada vai preparar o motor pra viagem de setembro, ao sul, já com várias conversas marcadas, em várias exposições. Sinto que essa vai ser uma das melhores viagens, a melhor da Celestina. Vamos em cinco, ao que parece. Satya, Ravi, Roque, Maria Clara e eu. Vai caixa de som, guitarra e cajón (carrón).

Oremos pela saúde da Celestina.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O documentário

O documentário
Desde que Júnior me procurou na intenção desse filme, muita água passou debaixo da ponte. A viagem das cenas foi uma entre outras, durante o trabalho. Aliás, um trabalho muito mais do Júnior mesmo, que ficou picotando cenas e sons pelas madrugadas, fora dos seus expedientes de serviços. O trabalho externo, de captação das cenas, foi a parte fácil do trampo. As internas, o bordado, os cortes, as emendas, as combinações de som e imagem, imagino que devem ser muito mais cansativas, mentalmente.
Numa outra viagem de Kombi, neste período, estive em Santos, conversando no Monte Serrat, favela bela, organizada e solidária. Daí fui a Curitiba, três palestras em três dias, a primeira entre evangélicos diferentes, sem problemas em beber e fumar e viverem sem julgar ou discriminar, a segunda na casa Ocitocina, depois no OcupaMinc. Então fui a Floripa, uma palestra num evento vegano. A volta foi com problemas no motor, à noite, subindo serras, o que levou a vários contatos nos postos, com mecânicos, frentistas, muita conversa, cheguei a ler textos pra grupos interessados, cenas ótimas. Gostaria muito e insisti pra eles irem, mas não deu. A falta do tal financiamento pesou e tanto Júnior quanto Igor não puderam ir, tinham atividades programadas na manutenção da vida.
As possibilidades são precárias quando se está por conta própria. O que não impediu fazer o que está aí. O serviço de preparação das imagens e dos sons, incompreensível pra mim, tomou noites de Júnior. Ele até recebeu ofertas de participação, mas nada levado à prática, como é comum. Querer é mole, fazer já é bem mais raro.
Haveria mais viagens na fita, mais sotaques, mais interpelações e assuntos, mais conversas, mais oportunidades de coletar cenas que acontecem nessas movimentações, se houvesse grana aplicada no trampo. Mas sempre gostei mesmo é da capacidade de realizar assim mesmo, sem as condições ideais, com mais foco no conteúdo que na forma – que afinal, na minha opinião, é a parte mais importante. A peça está pronta e foi feita com o que tínhamos, com o que foi possível.
Acho que tem um ótimo meiquinhofe estocado com os caras (), cabe cobrar deles colocar isso aí no ar, tem muita coisa. Foram muitas as cenas gravadas e fotografadas durante as movimentações. O que foi publicado é pouco perto do que tem. Sei que esquentei a batata e agora jogo no colo do Júnior SQL. Mas é o trampo dele, vale pra ele principalmente. O Igor vai no reboque, mas na responsa.

Todo proveito merece a nossa gratidão, é o reconhecimento de que a gente precisa. O proveito levado à prática é direito e responsabilidade de cada um, na permanente mutação de que todos participamos, reconhecendo ou não, sabendo ou não, atentos ou distraídos. Escolhendo como fomos programados, em geral, raramente por conta própria, raramente vendo o mundo com os próprios olhos. Houve sempre quem retirasse as lentes impostas e visse com os próprios olhos, raríssimos. Creio que na atualidade há um processo crescente de retirada dessas lentes, de questionamento dos valores e comportamentos, dos poderes sociais, no modelo de vida que vivemos. Em forma embrionária, formam-se núcleos e coletivos em todas as partes, pouco a pouco, um processo permanente de mutação, tempo de gerações muitas. Não se pode esperar viver num mundo justo e solidário, seria ingênuo e perigoso, muitas “desistências” se dão a partir daí. Mas (e aí só posso falar por mim) se eu não viver no sentido de um mundo como o que desejo, não aplicar minhas energias nessa direção, não vejo muito sentido na minha vida. E a maneira que encontrei, ou escolhi, é refletindo e causando reflexão, sentindo e provocando sentimentos, questionando valores e padrões, relações e comportamentos, como parte de um processo estendido a todas as áreas das sociedades, a todo o planeta, ao universo. Mas aqui, de forma humilde, à minha volta, onde posso tocar e conviver, o primeiro plano em primeiro em lugar, ainda que não se esqueça os planos ao infinito, levados em conta como objetivos finais em todas as relações em torno, as que nos tocam. 


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Eduardo - 2014

Rafael Lage esteve em minha casa, dois anos atrás, enquanto fazia o filme Malucos de BR, levando em conta os muitos anos que andei pelas estradas, em quase todas as regiões do Brasil. Quando tive filhos, tive que intercalar moradias e deslocamentos. Sempre que deparava com a bifurcação pagar aluguel e contas ou manter a alimentação saudável, entregava a casa e saía pra estrada, às vezes pras ruas, onde, por não ter despesas de moradia, a grana era suficiente pra comer natural, saudável, e manter a saúde - o sistema público sempre foi apavorante, um sistema de doenças, precário, criminoso e desumano. A visão de mundo que se formou nessas vivências é clara e simples.



A segunda parte taí...


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Arte e pensamento em movimento - ou "bora pra estrada"

Hora de dar um tempo. Exponho em Santa Teresa desde o século passado, morei um ano no bairro e pulei pra outra santa, em Niterói, Santa Rosa, pra morar. Mas continuei expondo no Largo do Guimarães, primeiro no armazém fechado, nas três portas frontais. Depois, quando ali abriu um bar, passei pra parede do cinema. Mas venho sentindo vontade de mudança, um clima foi se instalando aos poucos, derrubando a sintonia com o lugar. Depois do desastre do bonde, onde morreram sete pessoas e dezenas se feriram, o bairro pareceu entrar em dormência. As falcatruas por trás das ações do estado e de empresas interessadas podem ser sentidas no ar, nos procedimentos, uma sociedade cujos poderes públicos são na prática privatizados e a hipocrisia é o lugar comum no trato com a população. Alguns anos sem bonde, agora um bonde esquisito, modernoso, descaracterizado como o patrimônio histórico que era, circula em silêncio pelos trilhos, até o Guimarães. Antes era do bairro todo, agora é só pra turistas. Eram duas linhas, agora é meia.
Encaramos a quebradeira no bairro todo, pra instalação dos novos e falsos bondes.

Durante as obras, Santa Teresa sofria na alma, os interesses de poucos emanava no ar.
Depois da “restauração” que tornou possível a circulação das pessoas, não era mais a mesma coisa, a forma tinha suplantado o conteúdo e os acontecimentos sinalizavam essa queda no astral do lugar. Começaram a aparecer figuras de outras vibrações pra expor, fisionomias agressivas ou hipócritas, sorrisos falsos ou alusões ameaçadoras, o climinha convencional da cultura social vigente, de competição e confronto, de interesses materiais e hipocrisias. Tempo de trocar o lugar, sem mágoas nem rancores, apenas sinais. Não me arrogo a posição do julgamento, da condenação, cada um carrega seu clima e suas conseqüências. A mim cabe escolher minhas atitudes e a mudança é uma necessidade permanente. No caso, mudança de lugar. Nada definitivo, mas o impulso deve dar a direção a seguir, na seqüência.
Em Rio Casca, dormindo em posto de caminhoneiros.
Surge, então, a oportunidade de realizar a idéia que vem madurando com o tempo e com a entrada de Celestina, a Kombi, na história. Há um ano e meio, ela vem sendo preparada pra ser engolidora de estradas. Desde então, quarenta mil quilômetros foram rodados, em viagens longas ao sul e ao norte, percorrendo o vale do rio Doce pra recolher informações e histórias desta hecatombe planetária que, todo o tempo, foi minimizada pelas empresas, pelo poder “público” e pela mídia dominante.
Chegando em Regência, a ver a bagaceira mineradora que matou o rio Doce desembocando no mar.
No parque estadual do rio Doce, a morte passa lentamente.
Saindo de Ouro Preto.
Sarandi, em Porto Alegre.
Pelas montanhas de Minas, rumo à Liberdade.
Exposição em Vitória, na Gruta da Onça.
Exposição na avenida Paulista.
Em Ouro Preto.
Maringá Rio, em Visconde de Mauá.
Cachoeira de São Félix, na Bahia. Homocinética quebrada.
Expondo na Bahia.
De novo na Paulista, encontros.
Na praça Roosevelt, a convite do Slam Resistência.
Em Santiago, no oeste gaúcho.

A idéia agora é sair pra expor nas cidades próximas, num raio inicial de duzentos quilômetros. E, pelo jeito, vamos em comboio, várias pessoas expondo suas artes. Se for o caso, proseando em público – ou palestrando, como dizem –, aproveitando a exposição e se rolar receptividade pra isso. Em qualquer lugar nesse raio onde se manifestar interesse e houver possibilidade de vendas pra bancar as atividades, é possível se fazer. Esperamos convites, pra chegar bem chegado e não ter problemas com os poderes municipais – como todo poder dito “público”, ávidos por “autorizações” e taxas, no vício de arrancar dinheiro da gente, sem contrapartida com o cumprimento nem da própria constituição. Um poder público que não merece nem o próprio nome, sempre aplicado ao atendimento dos interesses de poucos, os financiadores de campanhas eleitorais, e em enganar a população. Não pagaremos pra expor, nem ganhamos o suficiente pra isso, pois nos aplicamos em pagar as próprias contas, com dificuldade mas com persistência pra não se render aos valores e comportamentos vigorantes nesta sociedade criminosa, que abandona e sabota grande parte das pessoas – a miséria, a exploração, a ignorância, a desinformação são crimes sociais tão cotidianos que estão absurdamente naturalizados, quando ninguém devia se conformar com isso. Assim como ninguém deveria se conformar com uma vida sem sentido que gira em torno do consumo e da posse material, valorizando o desenvolvimento tecnológico, mas não o desenvolvimento moral pra tratar com ele, o que dá origem à escandalosa concentração de renda e propriedade e à conseqüente carência, criminalidade e violência. A violência do Estado é a mãe de todas as violências. E a vida imposta é a origem maior das frustrações existenciais. Essa é a base do meu trabalho. Escrito, desenhado e falado.

Esperamos contatos pra nos apresentar, levando em conta a necessidade de vender nossas artes pra seguir adiante – entre nós, ninguém tem outra fonte de renda senão a rua com as exposições.

No próximo fim de semana estarei na Bahia, palestra em Feira de Santana. Na volta, devo escolher um lugar pra expor, por perto do Rio, em conjunto com os amigos que vão também. Se houver interesse em alguma cidade dentro desse raio, espero a manifestação pra trocar idéias a respeito e, se possível, comparecer. Além de idéias, temos artes.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.