sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Eduardo Marinho - forças armadas, psicologia do inconsciente e democracia

Vídeo feito por Aline Campbell, que veio à minha casa pra isso. Em agosto.

O tema forças de segurança não costuma ser visto pelo lado humano da coisa. As polícias são como a sociedade, principalmente a militar. A maioria é de classes baixas, soldados, cabos e sargentos, e há a minoria formada nas academias, as universidades policiais, que são os oficiais, a minoria de elite, superior, que comanda os praças, subalternos com menos estudo - não menos vida -, mas que são quem põe a cara pro povo, quem põe a mão na massa, quem cumpre as ordens dos de cima, enfim, quem faz as coisas funcionarem. Como em toda parte.

Não entendo por que não se questionam as instruções recebidas pelos agentes da segurança pública. Que instruções são essas? Quem as planeja e qual o seu real objetivo? Como são dadas, em que consistem, quais as matérias, o que aprendem os policiais? Quais as reais intenções do tipo de instruções recebidas pelas forças de segurança pública? Não estou falando da balela retórica sobre funções sociais. Como e por que se forjam pessoas tão insensíveis ao sofrimento alheio, capazes de atacar quem quer que seja, sob qualquer pretexto? Qual visão da realidade é implantada nessas pessoas sem defesa crítica, sem formação de cidadania, sem instrução nem informação verdadeiras, oriundos que são do sistema de educação pública e alienados como são pelos meios de comunicação? Pra quê eles são realmente preparados? Sob que tipo de pressões? Que tipo de ideologia é passada nas instruções, que formação ideológica é imposta nas forças de segurança? Por que as instruções não são públicas ou publicadas? Pelo comportamento que se vê, é clara a disposição antipopular dos policiais, é clara a compulsão à violência, à agressão gratuita, ao desrespeito à lei e à cidadania, a indiferença com a dor alheia e com a legislação. As polícias são colocadas fora e acima da lei - e isso atrai os mais nocivos, as piores pessoas, com tendências sádicas, caráter corrupto, arrogantes, violentas, criminosas. E os que não são assim são discriminados e evitam o trabalho nas ruas, preferem o interno, na burocracia, na mecânica, na saúde, em qualquer dos setores que não estejam em contato com a barbárie rotineira das ruas. Aí pesam as garantias trabalhistas - plano de carreira, atendimento médico, escolas pros filhos, treinamento, armamento, fardamento, moral social numa estrutura que desmonta os direitos trabalhistas, onde ninguém tem garantia de nada e a flutuação de trabalhadores é cada vez maior. O Estado garante tudo aos seus mais importantes servidores, encarregados de conter a população roubada em seus direitos fundamentais, revoltada contra uma estrutura que os sacrifica pra privilegiar minorias ricas. Quando os excessos vêm a público, pune os elementos envolvidos - se não há alternativas pra aliviar - pra "demonstrar" que "não admite" criminosos numa estrutura feita pra ser criminosa.

Idiotas são os que atacam as forças de segurança - elas foram preparadas pra isso mesmo. Estes, com isso, apenas confirmam as instruções que são diariamente recebidas pelos policiais e, geralmente, provocam o seu ataque a quem não tem nada com isso e está apenas se manifestando. Uma burrice covarde e contraproducente, que joga a favor do sistema fazendo pose de contra.

Ressalva aqui aos blequibloques que entram na defesa, depois que a polícia ataca. Aliás, essa foi a origem, na minha visão, dos blequibloques brasileiros. Depois de uns dias em que a polícia atacava barbaramente os manifestantes, eles começaram a aparecer. Em bloco e pra encarar. Mas, na mídia, a polícia sempre "revida", "reage", "é obrigada a intervir".



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Olhamos pro outro lado, sem querer ver...

A inconsciência não nos protege, é uma ilusão isso. Ao contrário, nos martiriza, nos angustia, enquanto procuramos paliativos, válvulas de escape, ou apontamos "culpas" pra todo lado. Tomar consciência pode causar algum desconforto externo, por um momento, mas traz um conforto interno sem comparação. Quando mudamos, o mundo muda.

Os profissionais se orgulham em produzir desejos, consumos, comportamentos. Subliminarmente, valores, objetivos de vida, visões de mundo distorcidos de acordo com interesses de poucos. É a perversidade institucionalizada.

Esse vídeo dá um sacode na visão sobre nós mesmos, fundamento pro trabalho na coletividade. O trabalho interno possibilita o externo. E o externo é estéril se não tem por base o interno. Assista-se e eu continuo depois.




Quantas coisas olhamos pro outro lado... não queremos ver, ou vemos da forma que nos convém. Sempre que se analisa algum assunto com interferência da própria vontade, chega-se a conclusões convenientes, não necessariamente próximas à realidade.

Fácil é entender a origem da miséria, do abandono, da precariedade dos serviços públicos, do não atendimento pelo Estado aos direitos da população estabelecidos na "carta magna", a Constituição Federal. Como aceitar o não cumprimento da lei máxima do país pelo próprio Estado brasileiro? Não pensamos nisso, olhamos pro outro lado. Empresas e bancos comandam a tragédia "democrática" e as pessoas continuam vivendo suas rotinas, conformadas e impotentes conforme dita o pacote de condicionamentos pelo inconsciente desse exército de publicitários, marqueteiros e todas as profissões que tenham utilidade neste serviço nefasto à maioria. Conjugado, sempre, com a sabotagem do ensino público fundamental e médio, com a criação de ignorância, com o enquadramento aos padrões vigentes nas escolas particulares, "de qualidade".

O que a mina fala no vídeo, com relação aos animais, se aplica num sem número de situações no dia a dia de cada um de nós. Ao invés de apontar "culpas" pra todo lado, seria mais útil, mais proveitoso e menos conflituoso se olhássemos pra dentro de nós mesmos e trabalhássemos em nossas próprias mudanças.

sábado, 27 de setembro de 2014

A Lenda do Beija-Flor e o Incêndio na Floresta (ou Vai Fazer a Sua Parte, Seu Babaca)

Fogo na floresta, dos grandes. Do lado das fazendas dos humanos, vinham labaredas enormes, de dar medo. Antes, os bichos tinham conseguido afugentar os serradores de árvores que vinham de lá destruindo as matas, sujando as nascentes de água. Mas agora o que vinha era fogo alto, queimando tudo. Os bichos fugiam pelas trilhas, leões e zebras, onças e antas (é uma fábula, eu ponho os bichos que quiser), cobras e preás e pássaros se juntavam em trégua diante do perigo comum. As fêmeas com filhotes iam no meio dos grupos, protegidas e caminhando o mais rápido que podiam.

Perto de um pequeno riacho, o leão que liderava um grupo de vários bichos avistou um beija-flor em atividade. Enchia o pequeno bico de água, voava até uma árvore em chamas e despejava o pequeno conteúdo - que evaporava na hora, em contato com a brasa. Ele voltava ao riacho, enchia de novo e nova carga inútil era lançada. "Ô, beija-flor, se nós, muito maiores, não podemos apagar o fogo e estamos fugindo, cê acha que pode apagar com esse respingo?" E o beija-flor respondeu, com uma cara de quem dá lição de moral, "isso eu não sei, só sei que tô fazendo a minha parte". Os bichos que acompanhavam o leão haviam parado pra olhar a cena e, diante da resposta do passarinho, houve um murmúrio de comentários, "ai, meu deus", "era só o que faltava", "coitado, vai morrer esturricado". Mas o leão definiu tudo, "tá maluco", e foi embora, seguido pelos outros. A hiena ficou por último, olhando sem acreditar, "vai ficar por aí, mesmo?" Mas o beija-flor nem respondeu, ocupado com sua tarefa. Ela deu a risadinha típica das hienas e gritou, enquanto corria, "amanhã eu venho aqui comer churrasquinho de beija-flor!", e completou com uma gargalhada.

O incêndio aumentava e estava quase cercando o passarinho, quando passou um macaco apavorado. Surpreendido dormindo em meio ao fogaréu, quase fora engolido pelas chamas. Queimara alguns pelos mas conseguira escapar. Agora via, pra sua surpresa, a situação na beira do riacho que já ia secando. Gritou espantado, "vão bora, rapaz, que que cê tá fazendo...", e o beija-flor, obstinado, "tô fazendo a minha parte". "Deixa de ser otário, passarinho, o fogo tá te cercando e tu achando que vai apagar. Já viu o que tá botando fogo na floresta?" Aí o beija-flor parou. Em sua ânsia de "fazer sua parte", não pensara nas causas do incêndio. O macaco não perdeu tempo, "olha lá, sua besta!" Vários homens carregavam tochas e ateavam fogo em capins, galhos e troncos secos, fazendo se alastrar cada vez mais o fogo na floresta. "Fica aí pra ver", disse o macaco, já pulando de galho em galho o mais rápido que podia pra longe dali. O beija-flor se sentiu um idiota e voou o mais rápido que pôde, buscando o primeiro grupo, pensara rápido e queria falar com o leão. Em seu vôo ligeiro, alcançou logo o bando que, distante do fogo, já caminhava devagar, mas sem parar. Pairou no ar, em frente ao nariz do leão que estacou, surpreso. O bichinho lhe contou, então, que eram os homens que tinham tentado derrubar a floresta que agora estavam queimando e que se eles não impedissem iriam ficar sem floresta. O leão convocou a bicharada e, numa assembléia rápida, resolveram defender as matas, até porque não viveriam sem elas. Voltaram pela trilha, tendo o cuidado de fazer uma volta pra chegar no grupo de humanos por trás. O plano era atacarem todos ao mesmo tempo, cada um com suas armas, garras, dentes, coices, pauladas e pedradas. O inimigo tinha espingardas, mas eles eram muitos e contavam com a surpresa.

E assim foi. No espanto do ataque inesperado, os homens mal tiveram tempo de reagir. Vários tiveram suas armas quebradas a patadas, os que conseguiram atirar não acertaram em nada e os bichos prevaleceram na batalha, botaram pra correr os incendiários, muitos feridos sendo carregados pelos outros. Fugiram, pra alegria dos bichos, que então se dedicaram a apagar o fogo na floresta. Depois de muita trabalheira, o incêndio estava apagado. No por do sol era uma festa na mata, os bichos comemorando e confraternizando como nunca. Comemoraram até tarde da noite, contando as façanhas do combate, cada um com suas histórias pra contar. Aos poucos, todos foram dormindo, cansados, e naquela noite a paz se fez entre todos os bichos.

Amanhecia quando um zumbido distante começou a soar no silêncio do dia novo. Os passarinhos, cansados, não faziam sua algazarra de cantos e trinados, quando o zumbido começou, distante. Os coelhos, com suas longas orelhas, foram os primeiros a acordar. "Que barulho é esse?" O som ia aumentando aos poucos, os bichos foram acordando, cada um acordava e chamava os outros. Olhares intrigados, pro céu, entre si, "o que será isso?" e o barulho cada vez mais perto. Começava a ficar assustador, os mais tímidos já se mandavam pro meio do mato, na clareira rolava uma expectativa espantada, os bichos inquietos. O dia estava claro quando eles apareceram, por trás e por cima das copas das árvores. Helicópteros, pra espanto geral, voaram baixo sobre a clareira queimada, levantando poeira e cinzas, enchendo os olhos dos bichos e fazendo um enorme barulho. Com lança-chamas e metralhadoras.




domingo, 21 de setembro de 2014

São José do Rio Preto - amanhã e depois (22 e 23 de setembro)

Por razões familiares, vou a São José do Rio Preto amanhã, levando desenhos, zines e meu livro, o Crônicas e Pontos de Vista. A previsão é descer no aeroporto às 20:10 h, vou pra um hotel chamado Confort, na rua Ondina, 360. Na terça tenho uma função a cumprir, devo me liberar à tarde e tomo o avião de volta aí pela seis da tarde.

Se houver alguém na área a fim de algum desenho, zine ou livro, ou mesmo de uma cerveja - devo estar no hotel por volta de nove horas da noite e tomar uma cerveja nas redondezas até umas onze, ou mais se rolar papo - é só chegar.

Não creio que apareça ninguém, mas tô avisando pra caso eu estiver enganado.


A ver o que rola em São José do Rio Preto.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dívida Pública, uma dívida que o público não fez e é obrigado a pagar sem entender.

Sem entender que o orçamento nacional é roubado por banqueiros que, mancomunados com a elite nacional, inclusive a política, impedem deliberadamente o investimento nas necessidades e nos direitos constitucionais da população.

O filme diz que a dívida começou com a "ditadura militar". Não confere de todo. O governo de Getúlio Vargas já havia feito uma auditoria - limitada, mas auditoria - que a tinha reduzido a 40% do seu valor - o que foi um dos motivos pras pressões que se fizeram em cima dele e que, no seu auge, o levaram ao suicídio pra evitar o golpe, que atrasou dez anos. No governo João Goulart a dívida era em torno de seis bilhões de dólares, a tal "ditadura" a ampliou pra mais de cem bilhões, o que faz parecer que a dívida não era nada antes dos militares. Mas já era um fator de pressão e foi ampliado pra ficar irresistível, aumentando a força das pressões internacionais com todo o apoio subserviente das elites locais.

Do jeito que se fala no filme, parece que a responsabilidade recai sobre os governos. Não se fala da apropriação das instituições pelo poder privado, do controle da política - governo e parlamentos - e do judiciário, verdadeiro seqüestro do Estado, com o apoio da mídia, da desinstrução e da desinformação impostas à população que facilita o controle e a indução da opinião pública, alienando e anestesiando as consciências. Não é um punhado de intelectuais, economistas e outros estudiosos, que vai modificar esse quadro, mas a instrução e a informação do povo. Mas parece que essa é uma tarefa a que poucos se dedicam, condicionados que são em inferiorizar a importância e a capacidade da população. O trabalho deve ser profundo, a partir das raízes sociais, e deveria estar sendo feito geração após geração. Exatamente por não estar sendo feito é que não se encontra respaldo pras denúncias escandalosas que aqui são feitas.

Enquanto a mídia bradava histérica contra o "mensalão", essa "dívida" imoral levava o equivalente a mais de quinze mensalões POR DIA. Mas disso a mídia não fala, traidora compulsiva da população em benefício dos bancos, sobretudo os internacionais.

"O Sarney chegou a instaurar a CPI dos bancos. Não durou mais do que algumas horas." Assinaturas de parlamentares foram retiradas, inviabilizando a comissão. Isso demonstra mais que claramente o controle (e não apenas o poder) dos bancos sobre os parlamentares, sobre a "política" (que nunca foi política, apesar da aproximação tentada por João Goulart e destruída pela convocação dos militares) e sobre o Estado. O filme parece não destacar o óbvio. De onde vem esse apego à visão de que aqui há qualquer coisa além de uma tremenda farsa? Não se vê que não existe e nunca existiu democracia por aqui além das palavras e da simulação cênica? Qual é a dificuldade desses intelectuais, sindicalistas e demais ativistas? Que democracia é o cacete, rapaziada! É preciso deixar isso claro, antes de pensar em promover mudanças reais. Não se muda como se deve, quando não se vê a realidade como ela é.

Constituição fraudada no seu artigo 166, favorecendo o pagamento da dívida pública pelo orçamento nacional, sem votação. Como diz no filme, uma falsificação grosseira, cuja contestação por ação ajuizada pelo presidende da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e arquivada pelo Supremo Tribunal Federal, outra prova do controle das instituições pelos interesses financeiros dos vampiros da humanidade que sujeitam países e sacrificam seus povos com a cumplicidade das suas elites locais, sempre traidoras da nação e das populações.

O Brasil, no ano passado, teve o 7º maior PIB (produto interno bruto) do mundo. No índice de desenvolvimento humano (IDH), foi o 85º do mundo. Essa diferença brutal se deve ao saque do orçamento pro pagamento dessa dívida, que nunca se investigou como foi feita e como se desenvolveu - todas as tentativas foram sabotadas e frustradas. O Estado brasileiro está impedido de investir na sua própria população, o que seria bom para todos em todas as classes, menos pra esse punhado que anda de helicópteros e jatinhos, nas suas bolhas de opulência e luxo cercadas de forte segurança, de onde controlam seus fantoches "públicos" e determinam, sem serem eleitos, as "políticas públicas". Crimes contra a humanidade cometidos dentro de uma apregoada e falsa legalidade.

Essas informações teriam que ser passadas à população, num trabalho capilar, profundo e persistente, na língua geral - e não em academês ou politiquês. Parece que os contestadores sucumbem ao mito da incapacidade do povo em entender o que acontece e esse trabalho, fundamental pra ter força perante as instituições dominadas, não é feito. Na minha opinião, os condicionamentos a uma ridícula hierarquia social impedem a integração verdadeira entre os teóricos e os viventes que fazem a esmagadora maioria da população. Já existem focos de comunicação nas periferias, falta o respeito devido, o reconhecimento de que estes são os melhores tradutores pra língua falada pelo povo da base. Com um pouco de humildade, os acadêmicos poderiam aprender com eles - ou reaprender -, rendidos que estão à língua restrita de minorias intelectualizadas, verdadeira barreira pro entendimento geral.

Bueno, sem querer alongar demais, eis o filme, precioso pelas informações e denúncias. Taí uma das raízes da nossa pobreza, da exploração em que vive a maioria, da ignorância, da desinformação, da miséria, da violência e da maior parte da criminalidade. O Estado está proibido de investir nas suas obrigações constitucionais pra com os brasileiros todos, seqüestrado como está pelos poderes vampirescos dos bancos internacionais - e de quebra pelas mega-empresas de todos os setores.

Dado importante no filme, que a mídia jamais divulgaria. A Islândia não só suspendeu o pagamento da dívida pública como também prendeu os banqueiros. Ninguém falou nada, no mundo inteiro.


domingo, 31 de agosto de 2014

Importância escondida (Pençá nº5)

Escuto falar que, no dia em que o morro descer pro asfalto - ou a periferia "invadir" o centro, será o caos. Concordo. Mas um caos de violência, de saques, destruições e repressão armada, com gases, fuzis, helicópteros, bombas, choques, espancamentos, prisões, feridos e mortos.

Imagino um caos bem melhor - e revelador - no dia em que o morro não descer pro asfalto - ou a periferia não vier pro centro. Porque aí, nada funciona. Ninguém pra ligar as máquinas, acionar os motores, fazer os transportes; ninguém pra abrir as portas e os portões, ninguém pra trazer a comida, nem pra fazer, nem pra servir. Ninguém pra limpar, nem pra tirar o lixo, arrumar as prateleiras e as coisas, ninguém pra atender, pra fazer as entregas, ninguém nas portarias. Nem secretários, nem acensoristas, nem operários, nem serventes, nem balconistas, nenhum engraxate, ninguém nas recepções. Ninguém pra carregar os doentes e feridos, ninguém pra cuidar.

Aí, sim, se perceberia a classe de pessoas mais indispensável de toda a sociedade. E se veria sua real importância na coletividade.

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As pessoas que têm os seus direitos respeitados, acesso à instrução, à informação, à moradia decente, a esporte e lazer, à boa alimentação e saúde, e que reconhecem a injustiça social com a imensa maioria roubada em seus direitos, muitas vezes se penalizam e desejam fazer alguma coisa pra "ajudar os mais pobres". A esses eu digo - os mais pobres precisam é de respeito. Que a sociedade respeite seus direitos e invista realmente nas obrigações do Estado com sua população em primeiríssimo lugar e o desenvolvimento será acelerado grandemente, pra todo mundo, sem miséria a nos constranger a todos. A capacidade de superação da miséria e da ignorância existe, tá na cara, conhecimentos, produção, grana, tudo existe pra mudar essa realidade. Menos consciência.

Que se perceba o trabalho intenso, extenso e profundo no sentido de criar ignorância e alienação, pra favorecer um punhado em prejuízo de todos. Instrução, informação e consciência espalhados são tudo o que "deve ser evitado".

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Bagé e Porto Alegre

Amanhã vou a Bagé pra VI Semana Acadêmica de Letras: Sons e Palavras são Navalhas. Amanhã, não, hoje. Ainda preciso dormir e acordar daqui a quatro horas, pegar um avião pra Guarulhos, depois pra Porto Alegre, um carro até Bagé, palestra, boteco prometido na seqüência, manhã de sábado pra Porto de carro, exposição na Lima e Silva à noite no sábado, à tarde e noite do domingo, volto segunda pra casa.

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Essa ida ao Rio Grande do Sul vai ser uma rapidinha. Tá tudo muito corrido. Quem quiser desenhos, apareça. Não levo livros, a editora tá fechando e faltam ainda trinta livros, mas não recebi ainda. Levo só desenhos, mesmo. Levo idéias, também. Os que quiserem desenhos, agora é a hora. Tô sempre precisando vender... vivo disso. E de mais nada.

Devo encontrar muitos amigos, pena que é tão pouco tempo.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Alerta, Minas, alerta, Belorizonte. Mas alerta, Brasil inteiro. Desmascara-se o sistema, no dia a dia, de toda forma.

Estado anuncia despejo das Ocupações do Isidoro

Recebo isso como quem recebe um tapa na cara. Um tapa dado por esse Estado cooptado por interesses empresariais e descaradamente contra seu povo, especialmente sua parte mais frágil, mais desatendida, vítima desse mesmo Estado que descumpre sua própria constituição nos quesitos básicos, alimentação, moradia, educação que mereça o nome, atendimento médico de qualidade, transporte sem tortura, outros tantos.

Oito mil famílias, um novo Pinheirinho se anuncia. Estado criminoso, as instituições públicas viradas contra o público, o povo. Descara-se a ditadura empresarial, o que chamamos governo é mera gerência, pronta a atacar a população em nome de interesses empresariais.

Só a manifestação geral é que põe um freio nessas ações. São muitas famílias, é preciso que as pessoas se manifestem, falem no assunto, pressionem os poderes de fachada que, ainda que sejam de fachada - e por isso mesmo - se borram de medo de manifestações, de multidões se pronunciando, fazendo ouvir sua vontade, se comunicando e se solidarizando.

Nesse caso, solidariedade é a palavra e o sentimento chave. Vamo nessa, moçada. Sobretudo os mineiros, sobretudo os de belorizonte, mas vale pra todo mundo, pro Brasil inteiro, que a força que nos ataca é a mesma em todo o país. Só muda o sotaque, as expressões, os costumes, mas o arroxo é o mesmo, com a mesma origem e da mesma forma. Vale pro mundo, que essa forma social se impõe no planeta.

Quem de Beagá puder fechar com eles, tão precisando e agora é a hora.

domingo, 27 de julho de 2014

Entrevista à tv Gambiarra

Eu tava nas Brigadas Populares, em Belzonte, ele me ligou. Queria gravar uma entrevista, minhas opiniões sobre a copa. Tá, vamo lá. Era o Fernando da tv Gambiarra, canal na net, nos encontramos no fim da tarde, fomos presse boteco de esquina, próximo à praça grande de Santa Teresa, não lembro o nome agora. A interferência veio a calhar. O miserável catador de latinhas, como um representante dos sabotados sociais, que não tinha como chegar em casa sem levar o que comer, tomou o centro da história e encheu de sentimento, mexeu com a alma. A alegria por um pacote de feijão... A presença dele acrescentou muito, me pergunto o que o trouxe até ali. Acaso, coincidência? Sinto que aí tem coisa, mas não permito à minha razão o atrevimento de entender, de explicar, de se meter onde não é capaz. À razão é permitido criar hipóteses, em equilíbrio com a intuição, sem a pretensão de chegar a conclusões. Fora disso acaba caindo no ridículo.


Algumas cervejas depois o papo já rolava pro lado do desenvolvimento pessoal como base pro desenvolvimento coletivo. Não consegui colocar aqui, fica repetindo o mesmo vídeo e não entra o seguinte. Então publico primeiro o segundo, depois este, que é o primeiro. Estéticamente fica melhor.



Tv Gambiarra - 2ª parte - Realidade, sentimento e a falsa inferioridade dos pobres

Esta é a raspa do tacho, o final de um papo que começa no vídeo da próxima postagem.

O cara da TV Gambiarra é o Fernando Fonseca, grande cara.

sábado, 26 de julho de 2014

Assistindo um jogo em Mauá


No primeiro jogo, Brasil e Croácia, desci da casa de Brisa pra expor os desenhos e, depois de armar a exposição, comecei a observar os preparativos. Os poucos bares em verdeamarelo, fitas, bandeiras e bandeirinhas, decorações nas paredes e tetos, bastante gente, camisas amarelas da seleção, com a marca da cbf, uma empresa privada denunciada por incontáveis falcatruas. Resolvi subir até o Pretinho, ninguém ia ver desenhos por enquanto. Fui passando e olhando a expectativa, as expansões de euforia, as expressões, os gritos, apitos, vuvuzelas, poucas mas barulhentas, achando tudo muito idiota e ao mesmo tempo me sentindo arrogante com esse pensamento. Cheguei lá, peguei uma cerveja e sentei em frente. Havia uma televisão em cima do telhado do bar, na parede do segundo andar. Resolvi escrever o que viesse na cabeça, abri o caderno, ponhei a caneta do lado e comecei a apreciar os acontecimentos. O tempo andou e achei que o texto ficou velho pro momento, ia deixando pra um dia mais longe, talvez, mas uns amigos leram em Beagá e acharam que teria proveito publicar. Bueno, taí.
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Catarse coletiva, produzida e conduzida, gera lucros gigantes.
À custa de muito sofrimento da população mais pobre, maioria.

Assim vi o jogo...
Eduardo Marinho

Fui andando por Maringá, do muro onde exponho até o Pretinho. Ele colocou uma televisão no alto da parede acima do bar, no outro lado da rua construiu umas mesas anos atrás e deu uma garibada, cadeiras e bancos, improvisando uma minúscula pracinha. Sentei ali, peguei uma cerveja e abri o caderno.

Pelo caminho vinha observando. Camisas amarelas, muitas, os poucos bares lotados, fitas verdeamarelas penduradas, bandeirinhas, falas entusiasmadas, bonés e expectativas, tudo soa falso. Não hostilizo, não tenho nenhum sentimento de condenação, de reprovação, de repulsa, observo com respeito, um pouco de tristeza, só um pouco. Não é novidade. Falar em direito à alienação seria forçar a barra, mas não me dou o direito de julgar, não tenho. É preciso reconhecer a eficácia do trabalho de distorção, de alienação, feito por exércitos de marqueteiros, publicitários, animadores, comentaristas e todo o aparato midiático. Transformam um evento criminoso, que tem no Estado seu principal cúmplice e apoiador, numa festa de cores, sons e emoções, de entusiasmo e estupidez, de consumo e lucros gigantes pros patrocinadores e empresas agregadas. Tranformam tragédias em alegria - só podia ficar falso.

"De arrepiar", "momento histórico", "emoção à flor da pele", disparam a cada momento os chamados jornalistas esportivos. Ridículo, infantil, primário. Momento histórico foi o encontro de comunicadores periféricos, meses atrás na Rocinha. Fala-se em emoção, em alegria, e não se lembra que duzentos e cinqüenta mil famílias (duzentos e cinqüenta MIL famílias) foram expulsas das suas casas em nome da copa pra favorecer a especulação imobiliária, construtoras e outras empresas, além de "varrer" a pobreza que a sociedade produz pra longe dos olhos abastados, a tal "limpeza social", tão repulsiva quanto vergonhosa. "Dia de festa", grita o apresentador na televisão, inúmeras vezes. "Momento histórico" também é repetido à exaustão - pobres historiadores, pobre história.

Cenas coloridas, limpas, nítidas, muitas câmeras em todos os ângulos, alta tecnologia. Torcidas uniformizadas cantando e pulando sem parar. "Festa na arena esportiva!"

"Vem aí o Brasil!" E entra a seleção dos milionários do futebol, porta-bandeiras das multinacionais. Uma copa de mentiras e perversidades sem conta nos seus bastidores, sob o silêncio criminoso da mídia. O jogador famoso, agora comentarista, carrega o filho nos braços e diz que está "feliz e contente". Um paraplégico chuta a bola, amparado por um equipamento de última geração, do qual a população não vai sentir nem o cheiro. A televisão repete o chute chôcho vezes sem conta. Os comentaristas falam sem parar, não podem parar, fofocam, falam merda em cima de merda, incansáveis. Da responsabilidade dos jogadores com seus países - não se fala em patrocinadores -, de "união dos povos"- coexistência de torcidas no mesmo espaço geográfico, nada além disso, obviamente, "momento especial", "significativo", "simbólico", a fanfarra não tem limites.

Rolam os hinos. Olhos fechados, mãos nos corações, parecem acreditar nessa presepada toda. São muito bem pagos pra isso, embora a ilusão acabe nos contratos. O hino brasileiro é interrompido na primeira parte, regras da fifa, é muito grande. Mas a população canta a segunda parte por conta própria, os jogadores acompanham. Lágrimas, comoção, locutores embargados, "é muita emoção!"

Dada a partida, foguetório, gritaria, cachorros se escondem, apavorados, ovos goram nos ninhos, nos galinheiros, com as explosões. "O Brasil fica com a posse da bola!" e o país que eu conheço não possui nem a si mesmo. Publicidade explícita, implícita, subliminar, insinuada, a psicologia como crime contra a humanidade. Em inglês, croata, português. Nas imagens e à minha volta, olhares hipnotizados. Incômodo suave, nada novo, apenas um lamento cotidiano.

Gol contra. Simbólico. É o que se faz com o povo, autoridades mancomunadas com empresas, gol contra em cima de gol contra, em nome do lucro de bancos e grandes empresas.

Falta de frente pro gol, o jogador mais caro bate e erra. E o blablablá continua, babaca, falastrão.

Gol do Brasil! Gritaria no povoado, foguetório, pavor canino, tragédia aviária. Melhora a qualidade do jogo. A publicidade, frenética, sacode as marcas onde as câmeras acompanham o jogo. Ao fundo de cada jogada, logotipos dançam, aparecem, piscam, se movimentam, penetram no inconsciente coletivo, em inglês, croata, português...

No intervalo se intensifica o festival de falação de besteiras, a publicidade intensiva e ostensiva, o desrespeito à inteligência. O inimigo mostra a cara deformada pela mídia, bonita e falsa. Noticiam manifestações, sempre "baderneiros" que "obrigam" a polícia a "reagir". Inconformados com a putaria da copa, com a promiscuidade político-empresarial, com a entrega da soberania não existem pra mídia. São todos mal intencionados, no mínimo ingênuos que se deixam levar. Bem intencionada é a copa.

Pênalti no segundo tempo. Neimar beijou a bola. Neimar beijou a bola, repetem os locutores. Gol do Brasil. Quase que o goleiro pega,"o desespero do goleiro" é exibido várias vezes. Gritaria ao longe, poucos fogos, mais uns sustos na fauna local. Dois a um. "Jogo difícil, jogo sofrido" dramatiza o narrador. "Brasil prende a bola", "jogo complicado" diz o idiota, digo, o jornalista mais bem pago do Brasil - e se não for, tá nas cabeças. "Haaaaaja coração!!", grita ele. Haja estômago, digo eu, pouta quel pariu, "não é fácil controlar os nervos nessa altura!"

Gol de novo, chute de bico no sufoco dentro da área. Tres a um pro "Brasil". Gritaria de novo, acho que acabaram os rojões, não pipocou, ainda bem. "Uma vitória sofrida", diz o imbecil. Mais sofrida que a expulsão da própria casa, aos milhares, centenas de milhares? Mais que os feridos, espancados e presos por uma polícia treinada e preparada pra atacar a própria população, violar leis, agredir, machucar pessoas que nada têm a ver com nenhum tipo de crime?

Acaba o jogo, vitória do "Brasil". Não sinto a menor euforia, nem mesmo alegria. Nessa copa, cada vitória, cada jogo já começa com gosto de derrota.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Por fora da medicina comercial - além do controle empresarial.

Postei em 2004, aqui neste blogue, esse precioso documentário. No iutube, a descrição do vídeo passa muito mais informações, inclusive de outros filmes a respeito da terapia e contatos a respeito.



Não dá pra confiar na medicina. As faculdades, o ensino, a prática de rotina, o sistema é totalmente moldado e poucos têm intuição, sensibilidade e personalidade pra exercer a medicina com propriedade, com amor ao ser humano, com respeito e humildade, delicadeza e atenção. A medicina, atividade sagrada - como a do ensino, a da alimentação... - foi invadida e saqueada no que possui de melhor, em nome do lucro, dos interesses empresariais. A esmagadora maioria dos médicos não tem condição de alma pra ser médico, foi dessensibilizado na escola e é embrutecido no sistema público de saúde. Poucos escapam e é preciso reconhecer, são remadores contra a maré.



Impressionante o filme, merece pesquisa, atenção e divulgação.



terça-feira, 24 de junho de 2014

Uruguaiana, Santa Maria, Porto Alegre e desculpas ao Branco

Mês passado estive em Uruguaiana, convidado por Franck Peçanha, fisioterapeuta que dá aulas na Unipampa. Fui recebido pelo Patrick no aeroporto de Santa Maria e ele me levou pra jantar na casa dos seus avós. Com um acolhimento de familia, provei do vinho delicioso feito pelo avô - que comentou espantado eu ter bebido dois grandes copos. Prometeu uma garrafa quando eu passasse na volta, mas não acertei o endereço e deixei de trazer aquela delícia pra casa. Dia seguinte partimos pra Uruguaiana e perdi a conta de quanta gente com brilho nos olhos encontrei por lá, a partir do próprio Franck. O frio era de freezer e meus agasalhos cariocas não davam conta. Fomos a Paso de Los Libres, na fronteira argentina, pra comprar um casaco, mas só comprei pra Alice Luz, minha neta que mora no frio da montanha de Visconde de Mauá. Pra mim tava caro. O Franck acabou me dando o melhor casaco que já tive, penalizado com minha situação.

Dali fui a Santa Maria, a palestrar no evento Direito e Política, e conheci outros tantos olhares brilhantes, dessa vez com o paletó e a gravata indefectíveis no meio jurídico. O mundo está sendo revelado aos poucos. A angústia da vida sem sentido que nos forçam a engolir e viver ajuda a recepção de visões mais reais desta sociedade mentirosa que existe em função dos interesses nos lucros por parte de grandes bancos e empresas, ou seja, uma sociedade centrada nos podres de ricos. Que, em sua ganância insaciável, precisam manter a maior parcela da população na miséria, na ignorância, na pobreza, pra poderem explorar os trabalhadores até o talo, em condições precárias e sem reclamação - por medo. E pra isso compraram a política, se infiltraram nas instituições e implantaram a ditadura empresarial disfarçada de democracia, sabotando os serviços públicos, mesmo os constitucionais, e controlando as informações com a mídia privada.

Então fui pra Porto Alegre, passar uns dias e rever os amigos, além de expor na Lima e Silva. O Fabio, meu ex-vizinho em Niterói que está no patamar de irmão, e o Branco de Oliveira, compositor, cantor e botequeiro no Azenha, onde baixei com mochila e tudo, vindo da rodoviária. Entrei e me aproximei do Branco, ocupado com as coisas do caixa. Ele nem tinha me visto quando eu falei "tem pão velho aí, parceiro?" junto dele. Levantou os olhos e deu um grito, "aaaahh, carioca!", surpreso. Me deu aquele abraço apertado e, não contente com isso, tentou beijar minha boca de novo. Escaldado com a experiência anterior, que me deixou enjoado uma semana, consegui virar a cara e ele acertou a bochecha. Ali fiquei até a chegada do Fabio. O papo rolou alcoólico, com vários amigos no bar, até que fui dormir na casa do Fabio.

Seria demais descrever os acontecimentos dos dias que passei em Porto Alegre. Mas registro um vacilo meu. O Branco, na sua afeição superlativa, fez questão de bancar uma noite comigo, Fábio e mais um camarada, Cássio, que apareceu no dia e nos acompanhou na noite. Tomamos todas, jantamos, tomamos mais, abrimos o bar do Branco na madrugada e depois fomos pra casa - o Branco foi pra um cabaré, como ele mesmo diz. No dia seguinte, Fabio me aconselhou a procurar o Branco e dar alguma explicação a ele, pois eu o tinha esculachado a noite toda, a partir de um certo grau alcoólico. Tive dificuldade em me lembrar e ele me ajudou, enquanto eu ia me constrangendo. Saí dali direto pro bar do Branco, mas ele tava fechado. As memórias iam voltando e eu engasgando pra falar com o Branco, pra me desculpar as grosserias. Sem poder descarregar essa angústia, fui pra Redenção e ali, debaixo das árvores, escrevi o que diria, pra aliviar. Depois, antes de ir pra Lima e Silva, passei de novo pelo bar. Tava aberto e eu entrei. Dei de cara com o Branco na porta e ele me olhou sério. Disse que vinha me desculpar, que tinha sido injusto e estava envergonhado. Vi seu rosto relaxar e sorrir, que nada, tudo bem, não tem nada, pega uma cerveja aí. Então li o que escrevi pra ele. Emotivo, ele me abraçou e tentou, de novo, beijar minha boca. Sem conseguir, claro, virei de novo a bochecha. Avisei que publicaria e aí está.

"Porra, Branco vacilei contigo. Tô aqui envergonhado, mas tô aqui pra te dar essa explicação. Tu não merecia a perseguição que eu te fiz ontem à noite. Vi tua cara triste no fim da noite, mas tava por demais bêbado pra enxergar, só enxerguei hoje, lembrando aos poucos. O Fabio me ajudou. Tu, só querendo me agradar, e eu te espancando as idéias. Foi injusto, foi sem noção. Depois de me lembrar, arrependido e com vergonha, refleti procurando os motivos da minha grosseria. E se os motivos não estão em ti, é porque estão em mim. Então refiz o roteiro desde o começo, pra tentar entender.

Tu sabes que não gosto de elogios pra cima de mim, já te disse várias vezes. O Fabio também já te falou, também várias vezes. E tu nem aí. Não cabe aqui explicar de novo as razões, tô só levantando o porquê do meu procedimento - que não é o meu normal, não gosto de ser assim, de maltratar ninguém, de ser grosseiro e muito menos injusto como fui contigo.

Ontem tu tava me exaltando, me presenteando, me homenageando. Eu sempre me incomodo um pouco mas, como já tinha falado várias vezes e não adiantava nada, aceitei como o que não tem jeito. Pra não criar caso, não ser chato, não ficar te cortando, até pra não te magoar. Mas, com o tempo e a cerveja, o freio foi afrouxando, afrouxando... e o controle foi embora. Incomodado com tanta deferência, tanto elogio e homenagem, acho que inconscientemente eu quis te expor um lado bem ruim pra mostrar que não era essas coisas todas, que não merecia tanta exaltação. Não vejo outra hipótese, a meu ver só pode ter sido isso.

Preciso me educar pra não reagir desse jeito. Me estudar melhor pra compreender essa minha aversão e minha capacidade de me irritar. Um problema psicológico, psiquiátrico ou espiritual, sei lá. Rejeitar elogios é uma característica (ou compulsão) minha, mas não quero reagir da forma que usei contigo, não tenho esse direito.

Por sorte - ou azar - tu és pinguço como eu e pode entender. E se pode entender, pode perdoar. É só o que eu preciso. Desculpaí, parceiro."


Galeanas


Essas foram pescadas no livro "De pernas pro ar - a escola do mundo ao avesso", de Eduardo Galeano. Presente do amigo Franck Peçanha, capixaba de Uruguaiana, que além do livro me deu o melhor casaco que eu já tive, ao me ver tiritar no frio de congelador com meus agasalhos cariocas, de papel crepom praquelas temperaturas. Segue o garimpo, ainda que não tenha retirado todas as pedras preciosas que esse livro contém. Não são cópias literais dos escritos, uso muitas palavras minhas - daí não haver tantas aspas.


Em 1960, os 20% mais ricos possuíam trinta vezes mais que os 20% mais pobres. Em 1990 a diferença tinha aumentado pra noventa vezes mais.

Os produtos pra animais de estimação movimentam, por ano, mais dinheiro que toda a produção da Etiópia.

As vendas da Ford e da General Motors somam uma quantia maior que toda a produção da África negra.

Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento econômico declara que "dez pessoas, os dez mais ricos do planeta, têm uma riqueza equivalente à produção total de cinqüenta países. E 447 milionários somam uma fortuna maior que o ganho anual de metade da humanidade."

Nos finais dos anos 90, numa assembléia do Banco Mundial (BM) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) em que se celebrava a boa marcha do controle mundial pelos dois organismos, James Wolfenson, presidente do BM, lançou a advertência: se as coisas continuarem nesse caminho, em trinta anos haverá cinco bilhões de pessoas pobres no mundo "e a desigualdade explodirá, como uma bomba relógio, na cara das próximas gerações". Parece catastrófico mas, se por um lado isso aprisionará a parcela gerencial da humanidade nas correntes do pânico, justificando o aumento do sistema repressivo, por outro se planeja, de várias formas, o extermínio em massa, até a redução dos pobres a níveis "controláveis".

"A delinqüência do poder é a mãe de todas as delinqüências". Chamo a atenção pro fato de que não se deve confundir, como é comum demais, o poder com os governos. Governos são marionetes do poder, meras gerências sob o comando dos interesses empresariais, banqueiros, vampirescos. Democracia é farsa e tem sido assim desde o seu nascedouro - o do cenário, porque democracia nunca existiu por estas plagas.

"São muitos os cidadãos que perdem a opinião por falta de uso".

terça-feira, 17 de junho de 2014

Reação a uma dispensada

Esse texto foi escrito há um tempo, não é a situação em que me encontro agora. Ninguém precisa se solidarizar com meu "sofrimento", porque ele já foi digerido. Publico porque achei que, diante das reações raivosas, magoadas, acusadoras e cobrativas, comuns nos momentos de separação, seria uma fonte de reflexão pra muita gente. A inconformação com a realidade estende e aumenta o sofrimento, em vez de superar - que é o mais necessário nesses momentos. Bons sentimentos permitem enxergar melhor a realidade e as possibilidades que o tempo e a vida apresentam. Maus sentimentos fazem o contrário. Se não for possível ter bons sentimentos nessa hora, pelo menos é preferível a tristeza natural, a dor de uma ferida recém aberta, que a destrutividade. Feridas recentes sabemos que doem por um tempo, mas passam. Serenidade na tristeza é sinal de maturidade espiritual. O tempo é o melhor cicatrizante, a não ser que o rancor, a inconformação, a raiva mantenham a ferida sempre aberta, impedindo a cicatrização. 

Se vemos a vida como uma caminhada, é como se a gente desse uma canelada dessas fortes, que fazem a gente dar uma parada, esfregando o lugar da pancada, e logo andar de novo, pela necessidade do viver, mancando no princípio, enquanto a dor vai passando. Mais na frente, dor passada, estaremos mais atentos, mais sensíveis, mais perceptivos aos sinais que a vida nos dá. Há sinais, vê quem é capaz - e temos muitas capacidades a serem desenvolvidas, se favorecemos os sentimentos. A raiva, a mágoa, o rancor nos cegam a visão sobre a vida e nos prendem a atitudes destrutivas. Seguindo adiante e aceitando os acontecimentos, os fatos, superamos com proveito as situações, nos melhorando por dentro e nos preparando melhor pras coisas que a vida apresenta todo o tempo. 

É preciso tomar a vida com suas alegrias e dores, tirar dela o melhor proveito na construção interna, serenando o espírito pra ter clareza de visão. A revolta e a depressão turvam a visão e impedem as percepções necessárias ao crescimento inevitável - quem se recusa, é empurrado com a dor que se impõe, soberana e implacável, muitas vezes na forma de "inexplicáveis" angústias, outras vezes em atitudes pequenas de forra, tentativas inúteis e nocivas de "devolver" o sofrimento. Primário.

Com calma se pode ter melhor proveito dos percalços no caminho.

Prelúdio de um pé na bunda

Acho que já falamos, né...
Tô me desenrolando de você. Tá difícil, doído, mas se sobrevive, eu acho.
O cara se apavorou quando te viu comigo, ele te conhece, sabe como te tocar, viu que cê tava arrumando um lance sério. Imagino que tenha tocado seus pontos sensíveis, te mexeu, tu tem uma filha com ele, uma ligação forte. "Fiquei mexida", você disse. Sobrei nessa.
Fico pensando se não vai ser tarde quando você perceber que ele é a mesma pessoa que te fez desistir da relação.
Foi muito bom ficar contigo, imaginei que era pro resto da vida. Mas não foi, não era. Dói, pessoa, eu tenho amor por você, queria você comigo e era questão de tempo pra gente colar.
Mas não posso insistir, não posso interferir nessa história que não é minha.
Preciso seguir adiante, não posso ficar me lamentando.
Carrego uma dor comigo e não te responsabilizo por isso.
Vai em frente, linda.
Espero que você se realize.
Que faça tua vida ter sentido.
Admiro você, por sua disposição. Cê é uma guerreira.
Boa sorte, irmãzinha.

Não se preocupe comigo.

Toda dor passa. Tudo passa.

Depois disso, houve ainda uma continuação, à distância, até o primeiro encontro. E aí a relação gorou, por outros motivos. Fora de controle. Coisa da vida, sem ranço nem mágoa.

Continuo lhe desejando o bem, como de resto a todo mundo.


domingo, 15 de junho de 2014

A copa que não se vê - Domínio Público

Não tem como se empolgar com esse evento nefasto. A alienação programada dá seus resultados, a gente vê por aí. Mas nunca vi tanta gente desinteressada na copa do mundo de futebol, descaradamente empresarizada, descaradamente usada pelo interesse no lucro, sempre dos mesmos poucos, sempre com o sacrifício dos mais sacrificados da sociedade. A festança da opulência cobra seu preço pisando nos de baixo.



Já publiquei esse filme, mas não custa insistir, pra quem não viu ainda. Como acreditar que os poderes são públicos? Estamos num Estado seqüestrado pelos poderes econômicos em que o ser humano não é prioridade, mas sim os interesses empresariais - que tratam a vida da maioria como lixo e a miséria como combustível. Não dá pra assumir a alegria de boiada.



Estamos acordando e acordar muda o sentido da vida.



terça-feira, 3 de junho de 2014

Pra não dizer que não falei da copa.

Os que conseguem esquecer fazem a festa. Os que não conseguem estão se conscientizando.

Copa do Mundo, 2014 - A mídia faz a festa sobre as tragédias cotidianas, agora sufocando mais pelo clima festivo. Os mega-empresários aproveitam a ocasião de lucrar a todo custo, indiferentes ao sofrimento causado. Especulação imobiliária, construtoras, indústria do turismo e suas múltiplas facetas, terceirizadas de todo o tipo, o lucro acima das pessoas. O governo mostra sua cara de gerente dos ricos empresários que financiaram as campanhas eleitorais. E põe a polícia militar e civil - estaduais -, a guarda municipal, as forças armadas, todo o aparato público, tudo pressionando os moradores pra que saiam, tudo preparado pra encarar as manifestações "contra a copa". O governo federal, o estadual e o municipal, em franca distorção das suas funções, atacam a população, violam direitos, atacam com fúria usando o "monopólio da violência" , de forma truculenta, ferindo, matando, prendendo, forjando, torturando na defesa de interesses empresariais.  

Eu teria vergonha de me empolgar com essa copa da fifa. Teria vergonha de chamar essa seleção de milionários, atletas bancados por multinacionais, de Brasil. Grandes empresas mundiais se atrelam e tomam o território nacional - há governo nessa porra?- com suas leis determinando, entre tantos absurdos, proibido o comércio informal, num país com 70% de trabalhadores na informalidade. Agora, com a má repercussão, estão distribuindo alguns uniformes e crachás e dizendo que será uma "informalidade controlada". A violação da soberania continua. Tentaram até proibir o acarajé na Bahia, pra não concorrer com seus hambúrgueres que não apodrecem nunca. 
Teria vergonha de participar dessa festa do egoísmo, da indiferença com o sofrimento permanente de milhões de pessoas, mais de duzentos e cinqüenta mil famílias expulsas das suas casas por conta do pretexto da preparação pra copa. Sou obrigado a assistir a esses gasto de milhões, saber dos lucros de bilhões pro punhado de poderosos. Essa alegria falsa, encenada, o consumo estimulado ao extremo diante da miséria espalhada pela concentração de riquezas, mega-empresas patrocinando e embolsando rios de dinheiro diante da desinstrução planejada e da narcose midiática, implantada meticulosamente na estrutura tanto da sociedade como da mentalidade geral. É uma festa macabra pra quem conhece a realidade além das distorções da mídia. 
Também sinto um pouco de vergonha desses que se consideram revolucionários, mas vestem a camisa amarela da CBF, uma empresa privada de criminoso histórico, e torcem apaixonadamente pela seleção das multinacionais que se representam com seus patrocinados e se apresentam como "Brasil". Não consigo esquecer nada disso, mesmo no caso de estar no bar e assistir na televisão. Gosto de futebol, mas não me empolgo, não torço além de ver gols, dos dois lados - prefiro do lado brasileiro, claro, não estou isento dos condicionamentos, mas admiro qualquer gol, ou quase. 
Os torcedores apaixonados que se julgam politizados acabam mostrando que são revolucionários de superfície que não enxergam sua própria superficialidade, não vêem em si mesmos a reprodução dos condicionamentos impostos pelo sistema dominante e os praticam no seu dia a dia, não só no "futebol espetáculo". A própria entrega do sentimento, a empolgação esquecida que o evento foi razão e pretexto pra tantos crimes, demonstra a fragilidade revolucionária. Há uma dificuldade imensa em se olhar pra dentro, com sinceridade pra reconhecer os erros, profundidade pra perceber as raízes e humildade pra trabalhar nelas e se reformular constantemente. Se a revolução não começar dentro de si mesmo, não é revolução, mas simulação, casca sem conteúdo. Da construção interna e individual é mais fácil trabalhar na coletividade, mais fluido, mais sereno e produtivo.
Seria simplista dizer que sou contra a copa. Sou evidentemente contra tudo o que a ganância dos poderosos fez com a população sob o pretexto da copa. Mas essa porra é um fato e eu não vejo porque ficar brigando com todo o alienado que agora tá envolvido pela televisão. É um sentimento estranho conviver com isso tudo, mas à minha volta há vítimas, não idiotas, mentalidades produzidas em laboratórios de psicologia do inconsciente, de publicidade e márquetim, implantadas no inconsciente coletivo pela mídia, diariamente, diuturnamente. Confraternizo, opino diplomaticamente, mas sem falsidade, de forma que as pessoas se constrangem um pouco e não voltam a me pedir opinião. Algumas sim, poucas, e ficam sabendo o que penso, delicadamente e com respeito, pra ninguém se sentir acusado. Acaba havendo um constrangimento respeitoso e se muda de assunto. Geralmente.
Os responsáveis por isso não põem a cara na rua, não andam por aí. Passam de helicóptero, dentro de carros blindados e com escolta, têm bancos e empresas gigantes, compram políticos e mandam na "política". Que deixou de ser política há muito tempo, se é que algum dia foi, pra ser uma farsa descarada, a serviço dos interesses de poucos e em prejuízo da maioria da população, com o nome fantasia de "democracia". As "instituições democráticas" são cenários onde dançam as marionetes do poder visível, presas pelos fios que somem no alto escuro do poder real, os pouquíssimos mais podres de ricos. O povo, infantilizado, assiste ao espetáculo hipnotizado, os sentimentos, os valores, os comportamentos conduzidos com maestria por cabeças geniais muito bem pagas, na "política", na mídia, na economia e em todos os setores. Nessa alegria se constrói a desgraça coletiva, inclusive da esmagadora maioria dos alegres, dos apaixonados do "futebol'. Mas sobretudo e perversamente sobre os de baixo, os sabotados da sociedade.
As seleções foram compradas e já não representam os países dos quais ostentam os nomes, mas as empresas patrocinadoras, multinacionais que se insinuam nas marcas expostas estrategicamente nos subliminares e descaradamente em toda parte. Com a cumplicidade do Estado e das "instituições democráticas", a narcose midiática consumista come solta em meio à ostentação do evento e a alienação dos torcedores..
Sociedadezinha de merda. Não dá pra partilhar dos seus valores.

Eduardo Marinho 

                                                                                                       

Entrevista no Frio - pra Larissa, da Ocupação Saraí, Porto Alegre.

Ela chegou pra conversar e trouxe uma câmera dentro da mochila. Depois de bastante papo, ela perguntou se eu me importava de dar uma entrevista. É engraçado. Não vejo nada demais no que falo, acho tudo muito na cara, descarado até, mas vejo um efeito nas pessoas que me fazem sentir como uma obrigação em falar, em responder, opinar, mostrar meus pontos de vista. Uma obrigação moral pra com a família humana - pra mim, a humanidade é uma familia que ainda não se deu conta disso. E vivem mais em paz os que já perceberam, pelo menos em paz consigo mesmos. Faltou uma partezinha da gravação, em que dou um papo pro governador - a Ocupação Saraí tá no direito, o histórico do local é claro, falta apenas uma assinatura dele pra desapropriar a área. Eu não soube colocar o outro vídeo na mesma postagem e não vale a pena outra, são alguns segundos dedicados a pedir pro gerente, digo, governador do RS, que assine logo a desapropriação do prédio há tantos anos abandonado e que nunca pagou impostos, conforme eu soube.

Larissa, olhar lúcido de busca, inconformada como é preciso pra ter algum sentido na vida, tem sensibilidade humana, poder de captação e inteligência aguda. Responsa. Pelo menos me pareceu assim, em pouco mais de uma hora de conversa.







domingo, 1 de junho de 2014

Okilombo recebe Eduardo Marinho

Chamado por Raphael Galvano, esse foi um papo, não uma palestra, em que as pessoas deram o rumo dos assuntos. Ficou rica a conversa e é preciso algum esforço pra ouvir as perguntas e intervenções porque só haviam dois microfones, um comigo e outro na câmera. Mas dá pra ouvir, aumentando o volume quando não sou eu quem fala.

Encontrar pessoas reflexivas é sempre um privilégio, um alimento pra seguir na lida. A evolução das coisas e a evolução pessoal caminham juntas. É o caso do Raphael e de toda essa turma que compareceu ao encontro.

A sensação de impotência prevalece entre as pessoas que desejam mudança no mundo mas não se dispõem a mudar internamente, a construir seus valores em vez de exercer os valores impostos, a escolher seus comportamentos em vez de seguir os comportamentos induzidos, a refazer objetivos de vida, a reformular a visão do mundo distorcida pela mídia e seu jornalismo desonesto. Os acomodados caminham em direção à frustração, à mediocridade, à vida sem sentido, vazia e angustiante. Os laboratórios agradecem - dá-lhe rivotril, lexotan e outras porcarias anti-depressivas. O medo plantado pela mídia, pela cultura do consumo, da forma sem conteúdo, paralisa. Mas não se tem medo de uma vida sem sentido, de chegar na velhice com a sensação de ter vivido em vão. Quando se percebe, é tarde e não tem volta. Melhor perceber antes. Foi esse o medo que me moveu as buscas, pra viver daquele jeito, eu preferiria não viver, como disse com 19 anos. Fui buscar um sentido pra vida e dizia que ou iria encontrar ou iria morrer procurando, porque a vida que se apresentava na minha frente não fazia, pra mim, o menor sentido.

Ganhei sentido quando percebi que meu trabalho produzia reflexões, atraía e revelava pessoas sensíveis e pensantes. Individualmente, vendendo nas mesas dos bares, nas ruas e praças onde expunha, sem ambições maiores. Já estava satisfeito com esse efeito, quando apareceu a primeira câmera pra gravar minha visão de mundo e a coisa se ampliou. E eu comecei a entender porque não morri cedo, como tinha certeza que aconteceria quando peguei a estrada, mochilinha murcha nas costas, procurando a razão da existência nesta nossa sociedade tão injusta, tão perversa, tão covarde com a maioria da nossa família humana.



PARTE 1 - https://www.youtube.com/watch?v=SvXj7fMIZI0
PARTE 2 - https://www.youtube.com/watch?v=5wR_99DWM5U
PARTE 3 - https://www.youtube.com/watch?v=vkEIIiyISZ4
PARTE 4 - https://www.youtube.com/watch?v=pPsWOqdaIEc
PARTE 5 - https://www.youtube.com/watch?v=XGxRJSEaoXA

sábado, 31 de maio de 2014

Palestra na FIERGS - há mais de ano...

Cheguei do Rio Grande do Sul ontem, ou anteontem, pelo horário. Encontrei lá a rapaziada que produziu esse evento, há mais de ano. Na FIERGS, federação das indústrias do Rio Grande do Sul. Um evento de Jovens Empreendedores. Encontrei na rua onde exponho, a Lima e Silva. Hoje recebi a notícia dessa publicação e reproduzo aqui. Espero que dê bom proveito, apesar de não ter nenhuma novidade no que falo.



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Documentário importante, "o veneno está na mesa", do Silvio Tendler.

A primeira parte está fácil de encontrar no youtube. Esta achei mais visceral, toca mais no que me toca, mostra a crueldade do que nos é mostrado como bom, pela mídia, pela publicidade. O Brasil tem 5% das terras agricultáveis no planeta e consome 20% dos venenos agrícolas. Os índices de doenças por conseqüência não só do consumo, mas principalmente pelo plantio - "90% das aplicações vão pro solo, pra água e pro ar, só 10% vão pras plantas a que se destinam" -, são escondidos, espalhados, difíceis de achar. Não há dados estatísticos ligando o câncer ou qualquer doença aos agrotóxicos.

É preciso ver esse filme com caderno e caneta, muitos são os dados interessantes, escandalosos, escondidos pela mídia e pelas instituições - dominadas pelos interesses empresariais do agronegócio.

Silvio Tendler é uma preciosidade do cinema brasileiro, por seu engajamento nas lutas por um país melhor pro seu povo, menos subalterno a interesses mega-empresariais e financeiros. Um guerreiro da luz, veio pra turma das exceções preciosas no serviço de esclarecer, acender luzes, nas trevas criadas em benefício de tão poucos e em prejuízo de tantos.

Vale copiar, carregar num pendraive, por em dvd, divulgar o mais possível.



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia dos trabalhadores

Republico esse texto, na falta de coisa melhor...            


A luta dos explorados é todo dia. Dos espoliados, dos mal servidos, dos sabotados, dos excluídos. Uma luta não só deles, e sim de todos que se pretendem participantes da coletividade humana. Mas precisa começar dentro de si mesmo, em cada um, e daí para a coletividade. Não de fora pra dentro, nem de cima pra baixo. De dentro para fora o trabalho ganha força, raiz, nutrição e substância.












No princípio era o caos. As fábricas eram escuras, úmidas, fechadas, barulhentas, cheias de fumaças, poeiras e resíduos venenosos. As engrenagens eram toscas, enormes, perigosas, qualquer descuido e moíam dedos, mãos, pés, braços, às vezes corpos inteiros eram esmagados entre rodas dentadas, correias de transmissão, rolos compressores. Era o princípio da chamada revolução industrial.

Os operários eram camponeses ou descendentes de camponeses expulsos dos campos pelas milícias da época, a serviço dos poderosos que tomavam terras para a criação de ovelhas e as plantações de algodão. A nascente indústria de tecidos na Inglaterra precisava de matéria prima para suas máquinas. Sem opção, a população expulsa e sobrevivente dos massacres sofridos pelos que resistiam, formava legiões de sem nada. Eles caminhavam sem rumo até as periferias dos centros urbanos, se aglomerando em situação de miséria e desespero, prontos a aceitar o trabalho insano nas condições terríveis das indústrias, sem nenhum direito.

Diante das multidões em desespero, mão de obra farta, os patrões não se importavam com as condições infernais de trabalho nas suas fábricas. Os mortos eram imediatamente substituídos, da mesma forma que os mutilados - estes eram, simplesmente, atirados à própria sorte, ao amparo dos próximos ou à mendicância.

Com o tempo – e com a força que a resistência ao sofrimento impõe – começaram a surgir organizações entre os trabalhadores. Crianças, velhos, homens e mulheres eram massacrados pelas condições de vida e de trabalho e os patrões, atentos, proibiam qualquer tipo de organização. Sabiam que seriam obstáculos à sua exploração desenfreada. Escolhiam os mais fortes e de pior caráter, para controlar os demais em troca de migalhas um pouco maiores. Capatazes, feitores, chefes, gerentes, cagoetes eram os olhos e ouvidos do patrão, armas e ferramentas de desunião e controle.

As primeiras organizações muitas vezes tinham que ser às escondidas, entre conversas rápidas, sussurros e combinações sob o olhar atento do patrão e seus xisnoves*, em reuniões noturnas e encontros em segredo. A luta foi árdua desde o início, o ódio, a covardia e a perversidade dos privilegiados não teve limites, muitos foram e são os mortos, os banidos, os perseguidos e penalizados por lutarem pelos direitos básicos, para não morrerem de fome, de cansaço, de acidente ou de abandono. São "baderneiros", dizem os patrões.

Num primeiro de maio, na Inglaterra de 1848, entra em vigor a primeira lei limitando o trabalho a dez horas por dia. As manifestações eram reprimidas com fúria pelas forças de segurança, muitas vezes terminando em massacres sangrentos. As bandeiras operárias eram tão freqüentemente banhadas em sangue e, depois, erguidas novamente, que a cor vermelha foi escolhida para simbolizar as lutas por direitos básicos, até hoje não atendidos pela sociedade, pelo Estado, em violação flagrante da sua própria constituição e demonstração clara do predomínio dos interesses empresariais, sobre os direitos da população como um todo. A cor vermelha é o sangue do povo.

Num primeiro de maio foi iniciada a greve geral nos Estados Unidos que resultou no massacre de Chicago, com dezenas de mortos, centenas de feridos, em 1886.

Quatro anos depois operários estavam organizados entre países, na Europa, nos Estados Unidos, na África e na América Latina houve manifestações, greves, barricadas, confrontos com a polícia. 1890. Em 91, o 2º Congresso da organização operária já conhecida como Internacional Socialista decreta o dia 1º de maio o Dia Internacional dos Trabalhadores.

Impotentes para evitar, os patrões se esforçam, todo ano, para transformar a data em comemoração festiva, de celebrações, espetáculos, sorteios e premiações, na clara intenção de distorcer o significado deste dia de luta dos explorados por condições dignas de vida e trabalho. Dia do trabalho é todo dia. O primeiro de maio é o dia dos trabalhadores.

                                                                                                                                 Eduardo Marinho

* xisnove – ou X-9, informante da polícia.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Saindo da Caixa, pensando com a cachola.

Cachola, era assim que se escrevia no meu tempo de menino. Albert Einstein dizia que era muito difícil encontrar uma pessoa que olhasse com os próprios olhos, pensasse com a própria cabeça e sentisse com o próprio coração. Somos condicionados de todas as maneiras e, se olharmos bem, veremos que muitos do nossos valores não são nossos, comportamentos, objetivos de vida... Há programação e pressão neste sentido, no enquadramento, na formação de opiniões, de visões de mundo.

Sair da caixa é sair do enquadramento, descobrir o que queremos de verdade e realizar, partir pra executar.

Quarta desço de Visconde de Mauá pra esse evento. Ô, Dani, não dá pra pagar as passagens, não? Falo isso porque o trem tá brabo.

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https://www.facebook.com/RIDnews?fref=ts

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Já é maio, as palestras estão aí...

https://www.youtube.com/watch?v=AQxtSJ1cAgQ&list=PLhAsEO0e3mhBjgGMvpVLBKhD8smeHjJOu

sexta-feira, 21 de março de 2014

Propaganda, publicidade e márquetim - atividades criminosas

Vito Giannotti possui fontes preciosas. Encontrou os filmes de propaganda anticomunista que foram repetidos à exaustão na preparação da "opinião pública" pro golpe de 1964 e despertando ódio contra o comunismo e os comunistas. Na ainda primitiva televisão, nas rádios, nos jornais, nos cinemas, em cartazes e placas, se fez um massacre publicitário, com orientação da matriz estadunidense. Em suas palestras, começou a utilizar os filmes pra denunciar a força da propaganda, as distorções e mentiras anunciadas como verdades absolutas, o despertar do medo como forma de paralisar. Mas desistiu. O troço é tão insidioso que as pessoas vinham opinar que "de certa forma", algumas coisas eram "verdade", se deixando levar mesmo diante das advertências. A porra é demoníaca.


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"A publicidade é um cadáver que nos sorri."         Oliviero Toscani


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A publicidade, a propaganda, o márquetim têm sido atividades criminosas dentro da sociedade humana. Mentem com extrema eficiência, distorcem a realidade de forma convincente, induzem opiniões, valores e comportamentos nocivos, doentios, que dispersam o pensamento e aprisionam as consciências. E se orgulham disso, quando deviam se envergonhar. O engano se comemora como êxito. A mentira é um sucesso.

O maior e mais profundo trabalho revolucionário está dentro de cada um de nós, condicionados que somos, sem defesa, desde o útero materno, por toda a infância, adolescência, juventude e maturidade, pra quem já chegou nela. Repetimos, sem perceber, condicionamentos do nosso próprio inconsciente, profundamente trabalhados pela psicologia aplicada na criação dos padrões vigentes.

Vivemos com medo e desconfiança, tememos derrotas que o mundo oferece por atacado, almejamos vitórias reservadas a poucos, amargamos a angústia de uma vida sem sentido verdadeiro, perdidos em sentidos artificiais que se impõem sob ameaça velada ou descarada. Alegrias tristes pontuam nossas vidas, superficiais e fugidias, enquanto tristezas abissais nos aguardam a cada silêncio, a cada momento de solidão e pensamento, na forma de angústia e falta de sentido na vida.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.