segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Para Brisa

Pra você, cercada dessa ignorância social raivosa que infesta a coletividade, debatendo essas propostas superficiais que não buscam as raízes dos problemas sociais e pretendem "combatê-las" de forma que, claramente, vão agravá-las. Por exemplo, criando mais universidades do crime (penitenciárias) ao invés de buscar os porquês de tanta criminalidade - crimes de Estado, constitucionais, contra a maioria da população, negando direitos, condições de moradia, de educação, de alimentação, de informação, criando miséria, pobreza, ignorância e desinformação, deixando as comunicações do país sob controle empresarial, mantendo áreas de exclusão social onde o massacre publicitário-midiático cria desejos compulsivos de consumo, como valor social e pessoal, onde não há condições econômicas pra isso, praticamente convocando ao crime milhares e milhares de jovens, adolescentes, adultos e crianças. Tratando superficalmente de todos os temas, apelando pra termos sonoros como "família", "Deus", "pátria", longe de apresentar propostas sinceras, profundas e realizáveis no sentido de solucionar os graves problemas permanentes através dos tempos e de governos que servem aos poderes econômicos.

Não se trata de "combater" esse ou aquele candidato, mas sim de pensar em formas de sociedade onde não exista gente como lixo, abandonados sociais, ignorância e miséria, onde não exista a exploração desumana que força milhões e se apertarem em transportes públicos torturantes, várias horas por dia. Onde não haja mendicância ou doenças sem atendimento. Onde não se produzam desabrigados sociais, os chamados moradores de rua. Onde não se veja o constrangedor - e revelador - constraste entre a riqueza ostensiva e indiferente de poucos e as condições miseráveis de dar vergonha a qualquer sociedade que se proponha humana.

Essas discussões eleitorais, grosseiras, agressivas, conflituosas, são uma indução à superficialidade que se aproveita da ignorância implantada estrategicamente por uma educação parcial - empresarista e enquadradora. Essas discussões grotescas, insultuosas, violentas, são programações sociais, imposições midiáticas, jogo de ilusão, como faz a mão do mágico, que chama a atenção enquanto a outra age e faz o truque. A outra mão é o mercado financeiro, o poder econômico que submete o Estado e faz de tudo pra impedir a sociedade de ser solidária, harmônica, com prioridade no ser humano, de verdade, onde seja um escândalo a existência de miséria e abandono, da fome, do desabrigo, da ignorância, da desinformação, com tantas condições reais, tecnológicas, de produção e distribuição, relativamente simples e de baixo custo.

Uma população bem alimentada, instruída, informada, tem muito melhor condição de decidir a forma social mais justa, equilibrada e harmônica. Uma sociedade onde as crianças - todas, como prioridade - recebam uma formação amorosa, desenvolvam suas aptidões de acordo com a índole e as vocações de cada uma e tenham estimulado o desenvolvimento do senso de justiça, da capacidade reflexiva, na criação de valores mais humanos. Uma educação centrada não no mercado de trabalho, mas na harmonia social. Assim se constrói uma coletividade menos grosseira, no caminho da evolução planetária.

Quando essa harmonia for o objetivo da existência coletiva, não é difícil imaginar o nível de criminalidade, se é que haverá algum. Mas é preciso perceber que essa desarmonia, essas brigas, discussões brutais, é produção estratégica dos laboratórios de pensamento que se utilizam de muitas formas, mas sobretudo da mídia, pra implantar, induzir essa discórdia dispersiva que passa longe de atingir a estrutura social que se alimenta de todas as mazelas sociais, que precisa mesmo de miséria e ignorância, de superficialidade mental, de alienação, de confrontos inumeráveis, coletivos e pessoais.

Não é à toa a deturpação de significado de várias palavras tidas pelo poder verdadeiro, muito acima das marionetes políticas que distraem a atenção do público, como palavras subversivas. Assim, "radical", ir às raízes, procurar as causas mais profundas, refletir sobre as fontes verdadeiras dos problemas, aprofundar o pensamento, passou a significar "agressivo", "intolerante", "violento", "extremista".

"Individualista" passou a ser "egoísta", "criativo" é "empreendedor", "solidariedade" agora é "empatia" (eca, parece nome de doença do fígado). É preciso não estranhar a superficialidade, a agressividade, a competitividade, os confrontos. São produções sociais, induções, deformações, condicionamentos, enfim, uma "condução de gado" muitíssimo bem montada na estrutura social que ainda persistirá muito tempo, enquanto outras formas de pensamento, de relacionamento, de valores sociais fermentam como embriões invisíveis por aí, invisíveis mas não inativos, ao contrário, extremamente contaminantes. Desenvolvendo formas de se relacionar, de existir, criando relações solidárias e cooperativas. O processo, como eu disse, é planetário, permanente, as mutações se fazem por gerações e gerações.

A busca da harmonia social começa da busca de harmonia pessoal, na busca de harmonia nas nossas relações com o mundo. Não posso transformar a sociedade da forma que gostaria, obviamente. Então procuro fazer essas transformações em mim mesmo, na minha vida, nos meus valores, nas minhas relações.

sábado, 15 de setembro de 2018

Saindo de Brasília








Desta vez passamos com pressa por Brasília, muito a fazer pelo caminho, até chegar em casa, já precisando ser logo. Abaixo, fotos da viagem, passando por Correntina. Em Muquém de São Francisco, paramos pra fotografar o santo e descobrimos um ninho na manga dele. Soja transgênica a perder de vista, fazendas que sumiam no horizonte, tratores e máquinas, vazio de gente, aridez agronegócica.

Na saída da Chapada, pintura no céu.
 
Paisagem estranha. Máquina corta o feno, outra prensa, puxada por tratores. Estas fazem uma poeira densa e branca.

O ninho tá na manga esquerda, à direita de quem olha.
Combina com a história de tratar os animais como irmãos.

Ao longe, a fumaça da prensagem do feno.
A torre tá com um ar sinistro, como um esqueleto, isolado e morto. E a feira piorou tanto que não teve exposição por ali.
Em Brasília, fomos recebidos em Brazlândia, onde arrumamos ótimo mecânico, que tem duas kombis e tem afeto por elas. Ganhamos duas velas pra Celestina, conhecemos a família de Márcio Veloso e ganhamos um almoço bem gostoso. Ficaram vários ímãs, fanzines e um desenho. É esse o tipo de mecânico que gosto pra Celestina. Agora tá tinindo pra partir pra Uberlândia. Vamos daqui a pouco, na noite, que é mais frio, gasta menos pneu, desgasta menos as peças e depois de certa hora, a estrada fica vazia. Parando aqui e ali pra tomar um café, a viagem segue.



segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A chegada em Viçosa e o trem pra Ubá

Década de 80.

A última carona havia me deixado a alguns quilômetros de distância da cidade, segui pela estrada, que vinha de Ponte Nova e chegava em Viçosa, andando pelo acostamento. Levava mochila, banca pendurada no ombro (mesa desmontável, portátil, numa perna de calça costurada, com uma alça) e o painel de trampo (brochinhos, brincos, alguns colares e pulseiras). Vinha de bermuda, chapéu de feltro, sandálias havaianas, cabelo comprido e barba rala. Depois de uma grande curva à direita, a pista descia quinhentos metros e terminava numa rua calçada com paralelepípedo. Terminava mesmo, em T, e já era o centro da cidade. Viçosa era muito pequena, naquela época. 

Do outro lado da rua, um posto de abastecimento tinha uma fila de carros esperando até na rua. Carros novos, bonitos, grandes, brilhantes. Eu caminhava descendo pela estrada, de frente. Na calçada havia um latão de lixo, na beira da entrada do posto, junto a um poste. Mergulhada nele, com as pernas de fora, uma criança catava latinhas de alumínio. Apoiada na beira do tonel pelas dobras das pernas, o corpo sumia lá dentro. O vestido virado deixava à mostra a calcinha muito branca, contrastando com o preto das pernas, as latinhas apareciam pela borda e caíam no chão, mal se viam as mãozinhas que jogavam e voltavam ao fundo pra buscar mais. Do lado de fora, uma outra criança menor, também preta e menina, juntava as latinhas que caíam, com os pés. Não devia ter mais de quatro anos. Ela segurava um saco plástico pequeno nas mãos e, no chão, havia um saco maior e mais grosso, com um volume enrolado dentro e uma pedra em cima. 

Um dos motoristas havia descido do seu carrão e observava as crianças, impassível. Era um senhor de cabelos e bigodes brancos, óculos de aro dourado, boné no estilo francês, bem vestido e fumando um cachimbo. Eu vinha caminhando, de frente pra cena, atravessei a estrada, cheguei do outro lado da rua e parei pra olhar a cena. Com tristeza, a diferença brutal, como as situações de sobrevivência miserável que a parte "instruída" desta sociedade aceita acontecerem, "naturalmente". Constrangedor contraste entre privilegiados e abandonados sociais, quando foco nisso dá uma espécie de nó na garganta, os olhos ardem. Não fazia ali nenhum julgamento pessoal, era uma percepção coletiva, se há algo condenável é o modelo social como um todo. Viçosa é uma cidade universitária, imaginei que o cara era um antigo professor. Tinha jeito, cara, idade e pose pra isso. As pessoas se acostumam com a miséria, entre os abastados é até recomendável, é como parte da paisagem, apenas "lamentável", mas "inevitável". Esses pensamentos, acompanhados de uns anti-depressivos, acalmam a consciência e anestesiam os sentimentos de solidariedade social.

As latinhas foram escasseando, de repente as perninhas fizeram um movimento rápido pra baixo e o tronco da menina surgiu, se erguendo de dentro do latão ainda com uma latinha em cada mão, e ela caiu fora, em pé na calçada. Pensei em oito anos, o vestido branco, sapatos brancos, cabelo puxado pra trás e um coque no alto da cabeça, bem amarrado com uma fita também branca. Dava pra ver que eram meninas de família, bem cuidadas, apenas muito pobres. Não olhou pra ninguém, abaixou, pegou a pedra, abriu o saco plástico e foi pegando cada latinha, batendo pra amassar e jogando no saco. A menor ajudava empurrando com os pés as latas que estavam mais longe, olhava pra maior e a maior não olhava em volta, concentrada no que fazia. A fila dos carros andou e o professor voltou pro seu carro. Motores foram ligados, movimentos foram feitos, sem que ela nem uma vez olhasse. Terminou, enrolou a boca do saco, envolveu nela a pedra, segurou e estendeu a outra mão. A pequena agarrou na hora, saíram andando ao longo da entrada do posto e seguiram pela calçada. A grandinha olhava em frente, a menor olhava pra trás, pros lados, pras pessoas, pros carros, pra tudo, na curiosidade irresistível das crianças mais pequenas, enquanto andava quase correndo pra acompanhar os passos da irmã que, de cabeça erguida, seguia seu caminho e puxava pela mão. Num momento olhou pra mim, do outro lado da rua. Tropeçou, olhou pro chão, se equilibrou e voltou a me olhar, de olhos bem abertos. Eu era diferente do que ela estava acostumada, carregado de coisas, caminhando quase paralelo a elas, um pouco atrás. Sorri e acenei pra ela, que sorriu encabulada e olhou pra frente sorrindo. 

Eu ia na mesma direção, fui pelo outro lado da rua mesmo. Tinha pensado em fazer um contato, mas achei que ia incomodar com meu "ser estranho", além de ter percebido na dignidade da mais velha o desejo de não fazer contato, de passar despercebida, como é comum entre os desprezados. É preciso respeitar. Acompanhei de longe até que elas entraram numa esquina e foram em direção a uma área sem calçamento. Quando iam virar a menorzinha me olhou de novo, sorri e acenei outra vez. Aí ela sorriu e acenou com a mãozinha. Eu segui em frente e fui expor na universidade.

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Passei alguns dias em Viçosa. Estava numa das separações do meu primeiro casamento e a saudade das crianças maltratava demais. Isso me deixava inquieto, beberrão, conversador, topador de qualquer parada. Precisava estar em movimento, mudar de lugares e de gentes, de ambientes, climas e relevos, andar na estrada pra ficar sozinho e refletir na vida, andar na cidade pra esquecer da vida, pra anestesiar os sentimentos. Ou ao contrário, encontrar sinais e toques que precisava encontrar, trazidos pelos acasos da vida, pelas coincidências inexplicáveis. Precisava manguear, expor, trampar, conversar, beber, me entorpecer, esquecer, lembrar, pensar, me isolar e me misturar, alternando meio sem controle. Viçosa já tinha dado o que podia, queria ir embora.

Estive abrigado em várias repúblicas de estudantes, nesse dia arrumei minhas coisas quando acordei e saí carregando tudo. "Hoje não vou dormir em Viçosa", avisei. Expus na universidade, mangueei na noite, parei pra beber e a madrugada chegou. "Vou quando amanhecer o dia". Eram umas quatro da manhã e eu ainda estava bebendo, sentado numa mesa de um bar, quando vi passarem duas locomotivas, bem devagar e em frente ao bar, puxando uma dessas intermináveis composições de vagões. Eu sabia dos trilhos, mas não tinha visto passar nenhum trem até ali. "Ele passa sempre às quatro e quinze da manhã", foi o que me disseram. Eu estava bêbado, não lembrava o quanto havia bebido, entre cervejas, conhaques e cachaças e fiquei olhando os vagões. "Tá carregando o quê, essa porra?" "Sei lá" foi a resposta. "E tu sabe pra onde tá indo?" "Isso eu sei, é pra Ubá". Ubá? É pra lá que eu vou. Levantei, fui colocando a mochila enquanto pedia a um dos garçons, "vê a conta rapidinho aí, cumpade!" Já estava com o equipamento completo, mochila, banca e painel, quando o cara trouxe. Os vagões continuavam passando lentamente, eu cuidava pra ver se a fila de vagões não vinha terminando. Paguei e fui na direção do trem. Tive a impressão que a velocidade aumentava e alguém falou "quando chega fora da cidade as máquinas aumentam a velocidade". Me apressei, esperei passar a escadinha que tem no fim de cada vagão e, com uma corridinha e um impulso, me agarrei nela. Estava mais rápido, mas deu pra agarrar, com apenas uma das mãos - a outra segurava o painel - e os pés nos degraus. 

Cambaleei pra frente e pra trás, me esforçando pra me equilibrar. A subida foi difícil, com peso e uma única mão pra segurar e trocar de degraus. Quase caí várias vezes, fui subindo com dificuldade, aos poucos, o trem aumentando mais a velocidade, saindo da cidade e entrando no breu da escuridão. Com muito esforço, cheguei à borda do vagão, senti que não conseguiria levantar as pernas pra passar e, com uma cambalhota dolorosa, desabei lá dentro. Eram pedras de carvão mineral. Fiquei um tempo me recuperando do esforço e da pancada, sem conseguir pensar direito. Arrumei de alguma forma as pedras, fazendo uma espécie de berço, joguei a mochila por cima e deitei de costas sobre ela. Apaguei em pouco tempo, com o ruído do trem e o vento fresco.

Acordei suando, queimando com o sol alto, o trem de novo andava devagar, fui acordado pelo apito. A ressaca pesava minha cabeça, estava também ressecado pelo sol, a dor atrás dos olhos era de matar, o corpo todo doía. Eu espremia os olhos com a claridade, virei de costas pro sol rolando sobre as pedras, a cabeça latejando. "Deve ser Ubá". Apoiei as duas mãos e os dois pés e ergui o corpo de forma a colocar a cabeça acima da borda e olhar onde estava. A velocidade era mínima. Olhei e conseguir ler Ubá-MG numa parede. Quase ao mesmo tempo, ouvi gritos e alguém soprou um apito. O trem estacou nesse instante e eu caí de costas sobre as pedras. "Ah, caralho, putaquilpariu!" Fechei os olhos, doía tudo. 

Senti que era comigo, que devia sair logo dali, mas era tudo muito pesado, cabeça, braços, pernas, mochila... fui me aprumando, consegui colocar a mochila, cada movimento doía, a cabeça latejava, os olhos lacrimejavam, até os dedos doíam. Estiquei o braço na direção da banca, consegui segurar a alça quando ouvi "parado!" Imóvel como estava, virei a cabeça devagar na direção do grito. O guarda me apontava uma pistola, por cima da borda, na escada do vagão da frente. "Pega essas merda e desce a escada!" Concordei com a cabeça, puxei a banca, peguei o painel e fui. No chão, bem na frente da escadinha, outro guarda me apontava outra pistola do mesmo tipo. "Desce devagar!" Eu não tinha outra maneira pra descer, tinha que ser devagar mesmo. Reparei no uniforme, Polícia Ferroviária Federal. Nem sabia que existia essa polícia. Bueno, digamos assim, estava conhecendo agora.

Fomos caminhando, passando trilhos, até a base deles, na estação, um do lado e outro atrás, os dois de armas na mão. Dentro era escuro, pra quem vinha do sol alto, mandaram sentar numa cadeira e começaram a perguntar, de onde vinha, como tinha entrado no trem, eu contava tudo, com a maior naturalidade, o trem passou na minha frente, eu esperava amanhecer pra pegar a estrada, ouvi que a composição ia pra Ubá, nem sabia que era proibido pegar carona num vagão. Eu passava mal, pedia água, ressecado, "água é o caralho"! era a resposta. Eles pareciam não se conformar, queriam alguma coisa mais grave, mas não tinha. Gritavam. Eu não reagia, falava baixo, mesmo com eles gritando, mesmo sentindo as pancadas, dizia "precisa mesmo disso?" e olhava nos olhos deles. Acho que cansaram de mim, eu não era mesmo nenhuma ameaça. Não me deram água, por mais que eu pedisse. Eles saíram, conversaram, voltaram e ameaçaram, "da próxima vez, vai ficar aqui, na cela, e tem processo federal, sabia?" Eu não sabia, mas sabia que eles estavam prestes a me soltar, aquilo era só o epílogo. Continuei na mesma, calmo, com cara de enjôo, me sentindo meio morto, cabeça pesada, doendo, garganta seca, falando muito baixo. A senha de saída, afinal, "some daqui!" foi dita com a porta aberta, não precisei falar mais nada, peguei minas coisas e saí pra luz ofuscante do sol de duas ou três da tarde.

Matei minha sede na torneira do jardim em frente à estação ferroviária. Depois andei um pouco pela cidade, encontrei uma obra abandonada, entrei e dormi até tarde da noite. Acordei com mais disposição, saí, tomei mais água e perambulei até achar um bar. 

sábado, 8 de setembro de 2018

Meia dúzia de pensamentos

A solidariedade só é uma virtude nas classes abastadas. Nas classes  baixas, nas periferias, favelas, nas áreas de ilegalidade constitucional, de abandono social, a solidariedade é uma ferramenta de sobrevivência coletiva, automática, que brota nas dificuldades cotidianas dessas áreas.

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Consciência não se alcança, se desenvolve. O que se alcança são degraus, estágios de consciência. O desenvolvimento é permanente.

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Humildade não é uma virtude mas, sim, senso de proporção e inteligência, na disposição de aprender e crescer contínuamente com a alma, o espírito, o abstrato do ser. É uma das bases indispensáveis da sabedoria. Não confundir com humilhação, cegueira comum aos orgulhosos e aos arrogantes.

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A sinceridade é a garantia de uma vida em paz consigo mesmo e com as pessoas que convivem com a gente. Não é uma questão moral, é uma questão prática. A vida e as relações pessoais são bem melhores quando a gente é sincera, mais espontâneas, sinceras e confiáveis. Onde a sinceridade não é bem-vinda é o campo da falsidade, da hipocrisia, da superficialidade. Não pode haver harmonia nem paz de espírito. Uma questão de qualidade de vida. E as escolhas são pessoais.

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A mídia seduz para trair, encena para enganar, mente para servir aos poucos que se servem do todo em prejuízo de todos. Desinstruídas, desinformadas, alienadas, hipnotizadas, as multidões se tornam gado, facilmente manipulável. Na seqüência, a própria mídia criminaliza as vítimas, "responsáveis" pela degradação social, culpadas da sua desgraça. E as pessoas, em sua maioria, repetem a mídia, acreditam nela, se deixam seduzir pela falsidade, insconscientes, sabotadas em educação, em formação de senso crítico, em informação, no desenvolvimento de consciência que é seu direito. Humano e constitucional.

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O trabalho interno é permanente e é a raiz das mudanças verdadeiras. Sem ele, é tudo cênico. Com ele o trabalho coletivo se aprofunda, cria raízes e se fortalece. É a diferença entre sinceridade e falsidade. Em tempo, falsidade nem sempre é mal intencionada. Ilusão é a falsidade dos bem intencionados.




sábado, 1 de setembro de 2018

Capciosidade feita Utilidade

Recebi uma pergunta que antigamente se chamava de capciosa. "Como você vê o direito de legítima defesa do indivíduo?" Uma convocação ao confronto planejado, uma avaliação de que lado se está. Mas não caí na armadilha. E aproveitei pra dizer o que penso.

Esse é apenas um assunto de "campanha eleitoral", como chamam essa farsa, superficial demais como toda campanha publicitária, enquanto se evita a todo custo refletir sobre as causas de tanta violência e criminalidade. O foco é "combater" a criminalidade, como se fosse possível secar a casa sem fechar o furo no encanamento. O teatro tá montado pra canalizar as atenções. Essa disputa, essa rixa entre coxinhas e mortadelas, direita e esquerda, capitalismo e comunismo é coisa fabricada, programada, condicionada estrategicamente, sociedade do confronto, da disputa, do "vencer na vida", do consumo como valor social, da superficialidade, da forma sem conteúdo. São chamarizes (iscas pra chamar a atenção) pra que não se questione de verdade as raízes dos problemas sociais. Pra que não se perceba a intenção total e deliberada na manutenção dessa violência e criminalidade, até como fator de apavoramento. Isso facilita a criação de falsas soluções, como armar a população pra que "se defenda", aumento do sistema carcerário (com significativa privatização, pra quem tem olhos de ver), diminuição da maioridade penal e outras aberrações sub-humanas que só farão aumentar os índices da barbárie. É como desviar o fluxo do furo pra saídas da casa, que acumularão, criarão poças, se infiltrarão e minarão os alicerces da casa. Melhor fechar o buraco no cano, consertar o vazamento - e aí se encontra o atendimento dos direitos constitucionais da população, investimento maciço na educação livre pra qualquer um que deseje, abertura das comunicações pra todos, abrigamento de todos os desabrigados, alimentação pra todos os famintos, informação e formação pra todos. Estamos entre o empresarismo vigente e o humanismo que pretendemos. Entre o modelo empresarial - onde ainda estamos - e o modelo humanista - que já se mostra nos embriões, nos grupos de exceção, ainda invisibilizados e, quando visíveis, ironizados, desqualificados ou atacados.

Uma sociedade que tenha como prioridade a sua população e a sua integridade ambiental terá todas as condições pra receber cada criança que nasce, com moradia, alimentação saudável, saberá formar, instruir e educar os futuros adultos na integração em uma coletividade harmônica, com o objetivo de existir se desenvolvendo cada vez mais na direção da paz social, da harmonização das relações, eliminando fácil, pura e simplesmente o espectro vergonhoso da miséria, da ignorância e do abandono. Propostas sociais que não tenham essas prioridades imediatas, não podem ser vistas como humanas, são propostas empresariais, onde o lucro e o patrimônio são valores acima da vida, do ser humano, da harmonia social e da eliminação de tanto sofrimento desnecessário, por existirem todas as condições materiais pra isso. O empresarismo cria indiferença ao sofrimento alheio e o "justifica". A miséria é "a justa punição da incompetênca", como disse Galeano.

Interesses banqueiros, mega-empresariais, dominam a sociedade. Dominam os poderes públicos de várias maneiras, influenciando a educação e dominando as comunicações, conduzindo pelo inconsciente os valores, os comportamentos, os objetivos, os desejos, as opiniões - mesmo diversas - em massa. Cada vez que vejo uma nova palavra ou expressão brotando entre os pretensos instruídos da sociedade, sinto cheiro de laboratórios de pensamento, das academias, da mídia ou de ambos. Gente existindo como lixo, miséria e abandono nas periferias das milhões de pessoas exploráveis ou descartáveis são a exposição da desumanidade social imposta pelo "mercado" e exercida pelos Estados dominados.

Áreas dominadas, educação e comunicação, postas a serviço dos interesses mega-empresariais. São estratégicas na formação de um povo instruído e culto ou consumista e competidor, conhecedor da sua história e informado sobre o mundo ou ignorante e desinformado, capaz de escolher individual e coletivamente os melhores caminhos a seguir, as necessidades a suprir, as prioridades sociais ou facilmente conduzível pelo massacre midiático-publicitário pela formação ideológica nas escolas particulares e pela ignorância produzida pelo ensino público. Por isso são as mais ferrenhamente dominadas e sabotadas nas suas funções sociais. Não são as únicas, todas as áreas são lucrativas e estão dominadas. Mineração, transportes, medicina, alimentação, tecnologia, agronegócios, indúsrias, tudo.

Mede-se o valor humano pela propriedade, pela renda, pelo cargo, não pela humanidade, sentimentos, temperamentos, caráter. O objetivo é vencer na vida, e não apenas se satisfazer com ela, viver em paz e satisfeito com a existência. O sucesso é medido pela qualidade do consumo, pela quantidade de riqueza acumulada, não pelos afetos criados, pelo avanço da consciência, pela utilidade coletiva ou pela solidariedade. Os insatisfeitos são canalizados pela idéia de "mudar o mundo", de comandar os de baixo, de organizar as massas, programados que são pela hierarquia da escolaridade. Assim são anulados em seus propósitos, entre "vitórias e derrotas", "auto-críticas" e "reposicionamentos", impotentes em "mobilizar" as suas "massas". Antes de revolucionar a sociedade, é preciso revolucionar a si mesmo. É constrangedor, pra mim, encontrar pessoas ligadas a movimentos sociais divulgando sorteios pra estadias em hotéis de luxo. Esses privilégios da riqueza são frutos da injustiça social, coisa pra se ter vergonha, não pra se desejar, é o que me diz minha consciência. Bom, em lugar de "constrangedor" eu podia dizer "revelador", não?

Como é revelador perceber que médicos recebem "comissões" de laboratórios e indústrias médicas - como a de próteses -, engenheiros que superfaturam preços e subqualificam materiais, funcionários públicos que recebem propinas pra cumprir suas obrigações ou pra não cumprir, professores estafados por excesso de trabalho mal remunerado, a não ser nas poucas escolas caras, por exigências de elites na formação dos seus filhos, transportes públicos invariavelmente torturantes e desrespeitosos, forças de segurança fazendo guerras em meio aos bairros mais abandonados pelo estado contra os funcionários do crime "organizado" (por quem?).

Posso citar aqui ponto por ponto em nossa sociedade, mas seria aumentar demais esse texto. As demonstrações de que o Estado, conduzido como é, representa o crime organizado contra seu próprio povo, contra seu território, contra suas riquezas, contra sua soberania, contra o desenvolvimento das nações como sociedades instruídas, bem formadas, bem alimentadas, bem informadas, conscientes de si e da necessidade de desenvolvimento da sociedade humana, estão em cada ponto. Tomar consciência disso é o fundamento na criação de novas condições de existência da humanidade no planeta. As primeiras raízes a se perceber estão dentro de cada um de nós. O ampliar da visão é um processo permanente, no ritmo do desenvolvimento da consciência. As conseqüências se fazem sentir no coletivo, em seguida a cada passo. A caminhada não tem fim, pelo menos à vista, ao longo das gerações futuras até onde a imaginação alcança - a minha, claro. Há quem imagine "o fim de tudo".

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Distorções, raízes, indução e subversão


Ser radical não é ser extremista. Buscar as raízes, as razões de ser das coisas, isso é ser radical. Mas ser radical, numa sociedade que induz à superficialidade, é subversivo. Por isso se trocou o significado. Radical se tornou "agressivo", "briguento", "intolerante", "desagradável", "polêmico", se distorce o significado da palavra pra evitar a sua compreensão. E evitar a sua prática. Ser radical é ser profundo, reflexivo, buscar entender a realidade indo às raízes das coisas. Posso ser gentil, tímido e, ao mesmo tempo, radical. Mas essa distorção do significado não é nenhum acaso.

Buscar as raízes da miséria e ignorância, por exemplo, ou o por quê de tanta ânsia de consumo como valor social, ou o por quê do tráfico ser combatido há tantas décadas, com fúria, guerra, ódio e matanças, e não ter sido extinto - ao contrário, parece tão forte como nunca, imbatível. O por quê da polícia ser tão agressiva, sobretudo com os mais pobres; os por quês dos serviços públicos serem perversos, insuficientes, torturantes quando se trata dos mais sem direitos da sociedade, dos mais pobres (em saúde, em educação, em informação, em moradia, em saneamento, em tudo). Ou por quê as comunicações são dominadas com fúria pela mídia comercial e o Estado está distribuindo o conversor pra televisão digital na cesta básica. São muitos por quês a perguntar e, se a gente radicaliza, ou seja, busca a raiz das coisas, percebe a infâmia deste modelo de sociedade.

Entender por quê preciso viver um inferno pra ter tanta coisa que não preciso, competindo, aturando situações horríveis, na avidez pelas sextas e na tristeza das segundas, ao custo das coisas que verdadeiramente preciso, minha paz de espírito, minha consciência tranqüila, a troca de afeto com a coletividade, o sentimento de utilidade, de satisfação em viver. A sociedade impõe um modelo de educação centrado na competição, na disputa, em vencer, que apresenta o mundo como uma arena competitiva onde é cada um por si. Seria melhor se tivesse seu foco na formação de pessoas pra integrar uma coletividade harmônica ou que pretende alcançar a harmonia social. Mas a educação imposta atende interesses empresariais, temos os bancos e as mega-empresas no poder, nos bastidores dos poderes dito públicos, dominando e determinando de forma enviesada (a chamada "política") a formação das crianças, das pessoas, de corações e mentes através do modelo empresarista de educação e do controle das comunicações, da mídia que invade todas as casas, formando mentalidades e deformando a realidade.

Não venho trazer "a solução", não teria essa ingênua pretensão. Mas creio que mais e mais pessoas enxergando mais e mais a realidade além da que nos é mostrada, farão surgir - como estão fazendo os grupos de exceção que já existem, invisíveis e invisibilizados pela mídia, quando não atacados ferozmente com calúnias, difamações e criminalizações várias - soluções diversas, locais, regionais, ao longo do tempo e das gerações, como percebo que é o processo de evolução planetária. Estão se formando, continuamente, pessoas que vão construir uma sociedade humana, menos injusta, menos perversa, mais solidária, mais amorosa. O tempo de uma vida é um grão de poeira na eternidade incompreensível.

Participar com o melhor da minha consciência é o que posso ter de mais satisfatório e, pra isso, devo estar em estado de conscientização permanente, de migo pra comigo. As raízes mais profundas a que tenho acesso estão em mim mesmo. Gosto e preciso ser radical. Preciso e gosto de trabalhar com isso. Assim tenho satisfação em viver, num mundo onde se toma toneladas de anti-depressivos todo dia. Um egoísmo que resultou coletivo. Vai ver que nem todo egoísmo é ruim. Aliás, já se reparou como estão ligados individualismo a egoísmo? Não faz o menor sentido, ou faz, mas no sentido da distorção de significado. Individualista é a pessoa que respeita o indivíduo, seja ele o que for, do jeito que for, tenha a forma ou a maneira de ser que for. Desde que respeite todos, merece o respeito de todos. Isso é individualismo. Mas, na sociedade da padronização, não pode. É preciso padronizar formas, pensamentos, comportamentos, visões de mundo, desejos, objetivos de vida, valores pessoais e sociais, pra manter a sociedade como é. Então se distorce o significado e individualismo se torna sinônimo de egoísmo. Porque o significado é subversivo.

Laboratórios de pensamento trabalham no controle mental exercido pela mídia e pelo seu massacre ideológico-publicitário. Seria bom se perguntar "será que o que eu quero da vida é o que eu quero mesmo ou eu fui induzido a querer?" Essa mesma pergunta pode ser feita com "visão de mundo", com "valores", com muitas coisas. Alguns dirão que é alucinação minha e eu recomendaria ouvir com atenção a letra do Belchior em Alucinação. Respeito qualquer opinião, mas mantenho a minha enquanto não perceber algum erro. E acho que a sociedade precisa de mais radicalismo e individualismo - reflexão e respeito. A ordem vigente é desumana, anti-vida. É preciso subvertê-la, evidentemente. Estamos todos num inferno. E as exceções do inferno são os demônios, são o inimigo que se faz de "admirável", de "exemplo inalcançável", sedução e indução.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Trator de Palmeiras agride Celestina, a kombi.

Ele veio de ré, direto, sem olhar pra trás.
Estrada Palmeiras-Vale do Capão, o trator operava espalhando pó de pedra - não sei por que cargas dágua usam isso, levanta uma poeira densa e fina no ar. Paramos à distância, coisa de 50 metros. Ele atravessava, buscava carga na pá, jogava no chão e espalhava de ré, com a própria pá. Não havia nenhum outro funcionário, nada de cones, balizas, nenhuma sinalização, ninguém pra orientar os carros ou o tratorista. Ele pegou mais uma carga do pó, jogou e veio vindo de costas, alisando o chão. Eu vi que vinha na nossa direção, mas a cabine era de vidro e eu imaginei que ele estava olhando pra onde ia. Só que ele não estava, quando vi a pá da traseira chegando perto demais, olhei pelo retrovisor e tinha um carro parado bem atrás. Não deu mais tempo de nada, a pá traseira quebrou o parabrisa e empurrou a kombi pra trás meio metro. Com o barulho e os gritos, o trator parou. Fui ao tratorista, na cabine, um menino de pouco mais de vinte anos, assustado e com medo de perder o emprego. Quis dizer que "cês também enfia o carro debaixo da máquina", esboçando uma agressividade defensiva, mas não pode explicar o movimento sem olhar pra onde estava indo. Pedi pra ele chamar a chefia, um responsável, ele ligou pelo celular. Aí começou a comédia.

Chegou uma moça, num carrão, dizendo ser secretária do vice-prefeito. Vendo as coisas, ouvindo as explicações, ligou pra mais alguém vir. Minha impressão é que disseram pra ela "vai lá ver o que tá acontecendo" depois da ligação do garoto. Em pouco tempo, chegou o secretário de infra-estrutura da prefeitura. Quis saber se a kombi tava com os documentos em dia pra registrar a ocorrência. Claro, kombi velha, qualquer falha aí e poderia esquecer o assunto ali mesmo - e com ameaças. Mas tá tudo certim com os doc da velha senhora, até a vistoria do gás tá em dia, coisa que nem mesmo os guardas rodoviários lembram de pedir. Concordamos em registrar a ocorrência, até pra ir a Seabra fazer o conserto - tem um posto de polícia rodoviária na chegada que pode nos parar pelo vidro quebrado. João Batista, esse é o nome do secretário, discordou quando falei que seria preciso ter mais funcionários e sinalização, "aqui não precisa disso não". Clarinha perguntou se as leis de trânsito no país não valiam por aqui e ele ainda insistiu, "aqui nunca teve isso não". A reação dela fez o secretário parar de falar, se afastar e prestar atenção no celular. Pra chamar a polícia civil, segundo ele, e fazer a ocorrência. Em seguida, disse pra irmos nós mesmos na delegacia, que tinha falado com o responsável - imaginei que era o delegado, mas soube que não fica delegado aqui, talvez escrivão ou agente. Tiramos várias fotos, registrei os números do trator e fomos. Duzentos metros depois um carro em direção contrária sinaliza pra nós. Paramos, era o delegado - ou, sei lá, o responsável pela delegacia -, estava indo ao fórum, em Iraquara, disse que vinha ver o acidente e que dissera ao João Batista que estava de saída da delegacia pro forum. A delegacia estava fechada, não havia ninguém pra registrar a ocorrência. O secretário não tinha como não saber disso, quando nos mandou lá. Decidimos ir à prefeitura pra falar com ele. Chegando lá, Clara entrou e foi informada por uma funcionária que a secretaria da infra-estrutura era noutro lugar e o secretário devia estar lá. Estávamos dando a volta na praça quando João Batista desponta vindo à prefeitura. Fiz sinal e ele parou. Recomendou de novo o BO, afirmou estar em contato - ele tinha passado o uatizape dele pra Clarinha - e que "tudo se resolveria". Sei. Em seguida João encostou o carro na porta da prefeitura, abriu a porta da frente e quem entrou? A funcionária. Ela estava esperando o secretário, que a levou pra almoçar, mas disse que ele devia estar na secretaria, longe dali. Eles almoçaram, inclusive, na mesma "comida caseira" onde nós comemos. Boa comida e preço baixo. Fomos depois até a delegacia, que estava realmente trancada - parece que as "falas públicas" se desacreditam por si, é preciso conferir.

Durante os acontecimentos, ficamos sabendo que o trator não é da prefeitura, mas do vice-prefeito. Está "emprestada" à prefeitura porque a máquina do município está quebrada. Que em Palmeiras não vigoram as leis sobre obras em rodovias - um tratorista sozinho operando numa estrada aberta, sem sinalização, sem funcionários, nada pra orientar os motoristas e os movimentos.

Com tudo o que penso dos poderes chamados "públicos", não espero muito. Na verdade, não espero nada além de engabelação, promessas mentirosas, adiamentos e omissão. Gostaria de estar errado, mas seria preciso pessoas de bom caráter, senso de justiça, que assumissem a responsabilidade pelos erros cometidos que me deram um prejuízo grande, pro meu padrão econômico. E isso, na máquina do Estado, é coisa rara. Sobretudo nos postos de mando. Como não sou ninguém importante (leia-se influente ou cheio da grana), sei bem o trato que me espera. Mais uma vez, espero estar errado. Se estiver e me pagarem o prejuízo, volto aqui pra contar.

Amanhã vamos a Seabra - depois de registrar a ocorrência pela manhã, conforme nos disse o policial. Vamos gastar o que não podemos no conserto, lanternagem e parabrisa. Na volta, procuramos o secretário da infra-estrutura de Palmeiras, João Batista, pra ver o que acontece. Aguardemos.

O agressor e a agredida.
Foi uma cena e tanto ver a escavadeira rompendo o vidro e quase entrando.
A ressaca da porrada é sempre triste. Mas considerar que ninguém se machucou, além da kombi, já alivia. Celestina resiste.


Uma grande covardia...


Meio metro de arrasto, com o pé no freio pra não atingir o de trás. Não atingiu.
A publicidade do poder "público" e um efeito da sua ação. Tá certo que um é estadual, outro é municipal, mas no fim é tudo a mesma coisa, posam de públicos mas defendem interesses privados como prioridade. É o modelo da nossa sociedade.

sábado, 25 de agosto de 2018

Delicadamente expulsos de Igatu, Bahia





O movimento pinta quadros mutantes pelos caminhos.

Saímos de Vitória da Conquista pelas duas da tarde, refizemos o trajeto de vinda, pelas estradas no sul da Chapada Diamantina. O destino era o povoado de Igatu, no município de Andaraí, onde haveria um festival de música. Anoiteceu pelo caminho, durante o fim do dia entramos na estrada pra Mucugê e vimos a placa quebrada que, na vinda, nos fez errar o caminho. Passamos pelo cemitério bizantino, fechado mas iluminado, seguimos até a entrada do povoado, onde pegamos a estrada de terra por alguns quilômetros, até começarem as pedras, pelo jeito colocadas há séculos, irregulares de obrigar à velocidade de caminhada. Chegando em Igatu, havia uma barreira com guardas que não deixaram a gente passar. Paramos numa área aberta pra ser um estacionamento e fomos a pé coisa de meio quilômetro. Era quinta-feira, estava começando o evento, já com palco e músicos locais (da Chapada). Encontramos alguns conhecidos, tomei umas brejas poucas e voltamos pra dormir no estacionamento. Era madrugada e a guarda permanecia. Quando amanhecia acordei e eles não estavam mais, pudemos então entrar em Igatu, impressionante, tudo de pedra e na pedra. Fomos até a área dos cemitérios, havia espaço bastante e plano, coisa rara no lugar. Deixamos lá a kombi, depois de descarregar os painéis e a banca na praça.

Estávamos lá expondo, já com algumas poucas vendas, quando chegou a guarda municipal, dizendo que não podia expor ali, tinha que ser no "mercado", um espaço restrito onde se aglomeravam os artesãos e os artistas com suas coisas. Uma clara segregação, não havia espaço pra todos, nem apelo pras pessoas entrarem. Tentei argumentar, mas parecia guarda de cidade grande, não tinha diálogo, só a "determinação superior", uma lei municipal qualquer que dava no mesmo resultado de sempre: "não pode". Resolvemos ir embora, já tenho tempo suficiente de rua pra não aceitar esses esculachos das convenções com as pessoas não convencionais, uma repressão disfarçada de "regulamento". Igatu ficou pra trás e nós fomos adiante. Ainda era dia e a estrada estava linda. A "festa" continuou sem nós. As burocracias revelam a ignorância artística do sistema. Mais que a ignorância, a repressão aos que não estão de acordo com o sistema social, demonstração de pequeneza cultural. Uma pena, num lugar tão bonito, com uma história tão forte, um povoado que já teve vinte mil pessoas buscando pedras preciosas, cheio de ruínas de casas construídas nas pedras, por cima e por baixo.   

As "otoridades" locais, se tivessem alguma sensibilidade, deveriam se envergonhar da repressão aos artistas - que negarão, obviamente, alegando que "até" destinaram aquele galpão pras exposições dos visitantes. O tal galpão estava lotado, os artesãos e artistas se apertavam, era inviável colocar seis painéis de desenhos e mais uma mesa com fanzines, ímãs, pequenos desenhos, camisas e livros. Na verdade, é apenas uma forma de tirar os artistas das ruas, da praças, onde se colocariam em harmonia e sem atrapalhar ninguém, se os institucionais não se metessem. Uma segregação hipócrita, como hipócrita é todo o poder dito "público", que prioriza os interesses empresariais, o patrimônio, o lucro, muito acima dos direitos da população, acima da vida, do equilíbrio da natureza, de tudo. O que houve em Igatu (e que acontece cotidianamente, em qualquer lugar) é um reflexo do modelo social em que vivemos, o predomínio de uma mentalidade superficial, embrutecida, que não percebe os valores da parte sutil, da alma, nem a necessidade desse desenvolvimento.

Essa placa nos fez errar 40 km. Tivemos que voltar, no todo foram 80. Sem crise, dirigir à noite em estrada deserta é ótimo. Ainda mais em noite de lua cheia.


Depois de Anagé, o trevo da estrada pra Mucugê e Igatu. A placa está à esquerda. Quer dizer, o que restou dela.
                                                                     

O fim do dia, de dentro da Celestina.
                                           
A casa de pedras debaixo da pedra.

Há muitas casas nas pedras e das pedras em Igatu.


Os gentis rapazes da guarda, implacáveis no cumprimento das ordens anti-artísticas do município de Andaraí.

"Perdoai, pois eles não sabem o que fazem..." Quem sabe é quem dá as ordens mas não dá as caras.
O caminho pra Andaraí é assim por uns dez quilômetros, pedras irregulares.

Apertos aqui e ali são comuns.


O rio exibe suas areias, pouca água.


domingo, 19 de agosto de 2018

Três textículos - não necessariamente ligados

Fora da sintonia trabalhista
Quando entrava nos dezenove anos, despedi meu último patrão. De uma forma bem fácil, simplesmente dizendo a ele pra falar baixo comigo. Me despediu na hora, mas não falou nada, só soube no fim do dia, quando o barco atracou - eu era mergulhador. Pagou tudo e mais ainda, pra não me ver nunca mais. Era angolano, o cara, empresário lá e cá. Passei dois meses trabalhando sem ele aparecer na empresa. Em uma semana da sua presença, despedi ele. E resolvi que nunca mais teria patrão na vida. Aliás, nem patrão, nem empregado, nem chefe, nem chefiado, nem superior, nem subordinado. Não me dou bem com essas coisas. Eu não sabia como seria. Descobri vivendo.

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Nem solução, nem saída. O que tem é a lida.
Andam me perguntando por "solução", por "saída", já que os caminhos da institucionalidade me parecem minados, controlados, dominados pelos verdadeiros poderes, os econômicos. Não gosto de recomendar comportamentos. Já respondi "bota na água e mexe, se dissolver aí tem uma solução". E também que "a única saída é a morte", mesmo sem saber se é isso mesmo, talvez morramos e não saiamos, veremos depois da passagem por esse portal. Não preciso saber de verdades pra perceber as mentiras. E se não sei, não quer dizer que vou me deixar enganar, quando as evidências estão esfregadas na minha cara. Gente largada como lixo, ignorância, analfabetismo, fome, miséria, tudo muito fácil de resolver pra uma sociedade humana de verdade. Só que esta estrutura social é desumana, por ser empresarista, uma ditadura banqueiro-mega-empresarial exercida através do aparato estatal tendo como porta-voz a mídia. Desde que "derrubaram" a monarquia.

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Mentira e distorção como matéria-prima da publicidade
A publicidade no rádio diz: "A Petrobrás mudou... e está seguindo em frente." É verdade, o asqueiroso presidente nomeou um cara que nunca foi funcionário pra presidência da estatal (a constituição proibia isso, mas uma "emenda" safada pôs uma vírgula e abriu, "a não ser por determinação do presidente da república") e ele tratou de mudar mesmo, amputando distribuição, paralisando refinarias que cobriam todo o consumo interno de derivados (gasolina, diesel, querosene, ... - o que obrigou à importação destes produtos), despedaçando a melhor petroleira do mundo (nenhuma outra possuía condições de buscar o petróleo de alta qualidade do pré-sal). Um projeto de lei do senador Serra praticamente doou o petróleo (cru) pras transnacionais do petróleo, Temer "perdoou" mais de um trilhão em impostos devidos por essas mesmas petroleiras. Enquanto isso, acabam-se com aposentadorias, direitos trabalhistas, ataca-se ferozmente a educação e o acesso da população como um todo a ela, destróem-se e cortam-se programas sociais que diminuíam o sofrimento de parte das vítimas permanentes dos crimes sociais cometidos pelo Estado, numa rotina macabra. Enquanto isso, a mídia faz a mão do mágico, que engana o público no ilusionismo de sempre. A Petrobrás "mudou" mesmo. Amputada, esquartejada, infiltrada, sacaneada, diminuída. E "indo em frente", na direção dos interesses estrangeiros inconformados com uma empresa estatal tão formidavelmente superior às suas petroleiras internacionais criminosas. Que o digam os países produtores de petróleo.









sábado, 4 de agosto de 2018

Embriões da nova sociedade

Fukushima despeja radioatividade no oceano Pacífico há oito anos. O rio Doce despeja metais pesados no oceano Atlântico há quase três. A população dos mais de oitocentos quilômetros do vale do rio Doce está exposta aos metais pesados e tem câncer, muitos. As mineradoras destróem vales e mananciais, distribuem resíduos químicos mortais em todo lugar em que se instalam, poderes públicos calados (ou mentindo) e cúmplices, pelo colossal poder econômico e pelas estratégias de infiltração e domínio das mega-mineradoras. O agronegócio, grandes espaços de território onde se cultivam transgênicos de todo tipo, seca pra irrigação ou empesteia com fertilizantes e venenos agrícolas nascentes, rios, lagoas, lençóis subterrâneos. Envenena a terra, os bichos, comunidades pobres, aldeias indígenas, populações ribeirinhas. A natureza é morta, cotidianamente, e com ela a vida. Os aquíferos foram vendidos a empresas internacionais que sugam o máximo da água pra exportação, na ânsia de lucro. As águas secam nas periferias de muitas grandes cidades e também de cidades médias e pequenas, as doenças se espalham, todo mundo toma remédio, o atendimento médico falta às multidões, o alimento industrial adoece.

Na África, na América Latina, onde a miséria obriga a migração de milhões, e nos países em guerra por conta do petróleo, onde é a violência e a destruição o que empurra outros milhões, se forja a mistura, a miscigenação da raça humana do futuro. A ameaça das bombas atômicas paira sobre o hemisfério norte, onde estão concentradas as bombas e os poderes mundiais, as ameaças e as maiores guerras em curso. Na África, as guerras são mais explícitas entre as mega-empresas ocidentais e os povos locais, os interesses não se disfarçam em nada. Em nossa latinoamérica, a hipocrisia domina os poderes públicos, debaixo do mercado financeiro, dos grandes bancos mundiais e das mega-transnacionais do petróleo, da mineração e outros interesses empresariais. A miséria e a pobreza, a ignorância e a desinformação são impostas às multidões. O egoísmo e o consumismo são implantados nas classes médias, como cabresto pra administração da sociedade em troca de direitos e até alguns privilégios. A conivência e a cumplicidade com os crimes sociais são exigidas, a perversidade com as vítimas desses crimes é premiada.

Nas áreas de exclusão e extrema exploração, em meio ao abandono, surgem focos ainda embrionários de uma nova sociedade, uma nova mentalidade, novas formas de se relacionar, novos valores pra se viver. Isolados, em meio à escuridão de consciência, são visíveis a olhos atentos. Dispersos, sem nenhuma articulação, sem saberem uns dos outros, estão nascendo autonomias psicológicas, comportamentais, artísticas, "loucas" em seus locais periféricos, mas sem perseguição, sem agressividade, apenas uma respeitosa e gozadora estranheza. Uma das leis comuns às periferias é que se pode ser qualquer coisa, seja o que for, desde que não incomode nem prejudique ninguém. Não quero dizer que nestas tantas áreas não exista discriminação e preconceito - isso é característica da sociedade como um todo, uma indução social permanente pelo aparato midiático e seu massacre ideológico-publicitário e, por isso mesmo, existe em qualquer meio. Mas a lei do respeito é uma lei implícita que vigora nas relações periféricas, quem anda por aí sabe do que tô falando. Essas exceções mentais não são hostilizadas, ao contrário, são olhadas, na maior parte das vezes, com curiosidade. E é bom que seja assim. É uma autonomia que passa pela dispensa de consideração social. A percepção de que tudo o que a sociedade tem a oferecer aos periféricos é precariedade, maus serviços, exploração, desprezo, agressividade, repressão e ausência faz com que se perca a consideração pela administração pública, pelos valores sociais, pela sociedade organizada, porque organizada de cima sobre o esmagamento dos de baixo. Isso faz com que a consideração social perca o valor. E se ganhe autonomia psicológica, auto-estima como resistência, capacidade de superação. Em várias comunidades em muitos lugares diferentes estão surgindo sinais de autonomia, seja em hortas comunitárias, cooperativas artísticas, plantas medicinais, rádios comunitárias, jornalismo independente - busca e distribuição de informações além mídia -, enfim, pequenos, às vezes pequeníssimos grupos, aparentemente isolados, começam o esboço da sociedade que surgirá dos escombros desta que caminha pro seu próprio colapso. Exatamente onde devia ser, nas periferias, nos espaços abandonados pela sociedade, de onde se retira a "mão de obra barata" que põe tudo pra funcionar.

Afinal, pra construir uma nova sociedade mais humana, ninguém melhor do que os que carregam o mundo nas costas, que lutam com dificuldades todo o tempo, roubados nos seus direitos, que aprendem a solidariedade como ferramenta de sobrevivência. Na longa agonia de morte desta sociedade desumana, surgem os embriões do que nascerá na solidariedade da reconstrução. Um processo, digamos assim, "geracional" - de geração em geração, cada uma na parte que lhe cabe e focalizada na formação das futuras, exemplificando em primeiro lugar. É o que estou vendo nos embriões de consciência nas periferias. Ainda embriões - sendo gestados em barrigas periféricas. Criando novas formas de se relacionar, entre si e com o mundo, afetivamente, de igual pra igual, com respeito, profundidade e disposição ao entendimento, construindo e priorizando a harmonia coletiva, pouco a pouco eliminando as condições de existência do egoísmo, da competitividade, dos condicionamentos profundamente enraizados no inconsciente das populações por tantas gerações. Exceções ainda, invisíveis ao sistema social como invisibilizadas são as periferias e favelas - e é bom que seja assim pra que se desenvolvam - mas são essas exceções os embriões da nova sociedade, que têm a função e o poder de contaminar e se alastrar pra brotar dos escombros da velha estrutura social que, depois dos muitos e inconformados espasmos, estará inapelavelmente morta.







Todas as fotos de Maria Clara, em São Mateus, zona leste de São Paulo, 2017.

domingo, 8 de julho de 2018

A perversidade travestida de política

A privatização como perversidade. Como um processo estratégico de dominação mundial pela economia, pelos poucos donos do mercado, de todas as áreas por extensão, até mesmo na formação de mentalidades favoráveis a este sistema social anti-humano, anti-mundo, criador e estimulador do inferno na terra, competitividade, consumo excessivo, conflitos, destruições até o genocídio.
Mais uma pérola cinematográfica de Sílvio Tendler, em informações e responsabilidade social, um artista que cumpre sua função, que põe sua sensibilidade na lapidação social, no acendimento de luzes tão necessário nesta realidade trevosa. Estamos aprendendo a ver como a estrutura social funciona, em gerações contemporâneas, como somos impregnados de consentimento, pela sujeição da administração pública aos poucos podres de ricos internacionais com as elites locais, através do modelo de ensino empresarial e, sobretudo, da mídia também empresarial.
O ensino empresarista é competitivo, formador de peças pro mercado de trabalho e não de seres humanos pra compor uma sociedade harmônica, sem abandono, onde todos tenham seus direitos constitucionais, humanos e sociais respeitados por inteiro. Não se encontram escolas que eduquem no sentido da harmonia, da paz de espírito, da verdadeira realização pessoal, social e humana. E isso é interesse de toda a sociedade, ainda que não se pense nisso, ainda que a inconsciência prevaleça.
E a mídia, implantada e enraizada na "cultura nacional" de 1964 até 69, quando virou "rede nacional", exatamente por estar na cabeça do apoio ao golpe militar, exerce o massacre publicitário-ideológico permanente em defesa de interesses empresariais, criando mundos de fantasia, usando psicologia do inconsciente, distorcendo notícias, criando mentalidades que apóiem ideologia do consumo, da competição, do punitivismo, da sabotagem em todo investimento na própria população e nos seus direitos constitucionais.
Não posso deixar de falar de uma meia-discordância no final do filme. "O momento é agora" é um jargão antigo que prepara a desilusão pra depois, muitas vezes até o desânimo. Todos os momentos são agora, o conjunto de todos os agoras forma a eternidade. Prefiro ir espalhando o que tá escondido, falando o que tô vendo, como por toda minha vida, desde os dezenove anos, refletindo, causando reflexão, aprendendo com as práticas cotidianas. Escolher os próprios caminhos, desentranhar condicionamentos, chacoalhar os valores pra ver quais são implantados e quais podem ser verdadeiros, junto com desejos, com objetivos de vida, no que me traz paz ou me inferniza e, a partir disso, fazer escolhas, tomar decisões e levar à prática cotidiana. A história caminha com passo próprio, é preciso medir o passo com ela - sabendo que ela também pode dar seus pulos. Vigiemos.

O libreflix.org tem bons filmes e é de graça.


https://libreflix.org/assistir/privatizacoes-a-distopia-do-capital

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Candidatos, ora candidatos...


Somos uma nação entre nações, formando uma família planetária. Chegaremos a saber, um dia, sermos parte de uma incalculável família universal. Caminhamos ao longo dos milênios e os acontecimentos se sucedem sem interrupção, nas idas e vindas em busca de harmonia coletiva, cada um em sua própria individualidade, no exercício cotidiano do convívio coletivo. No atual modelo social, não temos o ser humano como o centro de importância, mas sim  interesses econômicos que sacrificam vidas, coletividades inteiras, que criam divisões e conflitos, dominam as comunicações e semeiam discórdias lucrativas. Superficializam ao máximo as mentalidades, induzem valores falsos e comportamentos condicionados, sempre competitivos, intolerantes, conflituosos, divididos por superioridades e inferioridades falsas. Os poderes de verdade estão muito acima de quaisquer candidatos, todos colocáveis ou derrubáveis de acordo com seus interesses. E estão enraizados em nossas mentes e nossos corações, através de uma educação com índole empresarista - desumanista -, um massacre publicitário permanente, uma formação cultural induzidamente superficial, voltada mais ao consumo que ao desenvolvimento da alma, da sensibilidade, da harmonia coletiva, e muito, muito medo, paralisante e conformador a caminhos afinal frustrantes. Cabe a cada um e a todo mundo desenvolver sua própria percepção da realidade, a própria consciência das coisas, desacorrentando, mesmo que pouco a pouco, a própria mente dos condicionamentos inevitáveis que estão postos nos próprios caminhos da estrutura social.

Já fui chamado, ironicamente, de "defensor de pobres". Claro, entre ricos pra quem vendia meus quadros a óleo. Os pobres não precisam de "defensores", mas de consciência da própria força, precisam ter seus direitos constitucionais, básicos, humanos, respeitados pela sociedade que os viola a todos. É interesse de todos, sem exceção de ninguém, a evolução de todos, sem exceção de ninguém, no caminho de harmonia social. A miséria, a ignorância, a desinformação, o abandono de seres humanos devem despertar a repulsa e a indignação de toda a sociedade. As academias devem se ocupar dessas prioridades, a extinção das condições miseráveis é prioridade planetária, ainda inconsciente, na escuridão da consciência humana. Condições pra isso, inegavelmente, há. Mas a manutenção dos privilégios exige a manutenção da miséria, da ignorância, da inconsciência.
As mentiras sociais vigentes ainda serão estudadas com espanto, no futuro, de como um punhado de pessoas emanava tamanhas perversidades por todo o planeta, controlando Estados e todas as instituições, manipulando as classes sociais. Pouco a pouco se percebe como a estrutura funciona, mudam-se hábitos, valores e comportamento, nos embriões de uma nova sociedade, enquanto a velha se encaminha pro colapso, visível e previsivelmente, entre embates e expectativas institucionais iludidas e repetitivas, cheias de idas e vindas manobradas pelos "poderes invisíveis", com o nosso consentimento inconsciente. É a "política" cênica, o teatro de marionetes simulando poderes que não têm.

Aí se situam os "candidatos" sobre quem me pedem opinião, quando só posso apontar qual o boneco mais engraçadinho, como acho que será o estilo de cada pretenso governante. Em alguns, como eu disse, é visível e previsível, nem precisa ser dito. Mas enfim, não basta melhorar a economia, os índices, o consumo... essa conversa fiada, repetitiva, dispersiva, esse jogo cênico das campanhas eleitorais. É preciso melhorar a sociedade, o ser humano, a convivência, os sentimentos, a vida em si, longe da ilusão dos excessos como necessidade, as superioridades como busca, o respeito de todos pra com todos, a existência sem destruição e envenenamento, tanto material como espiritual. E é exatamente pra impedir isto que estrutura social da atualidade está montada. A harmonização social é atacada com histeria por todas as forças que a concentração de poderes dispõe, desde a mídia com seus jornalistas, comentaristas e especialistas de consciência comprada, até as forças de segurança e informação controladas pelas marionetes políticas, com o apoio da área jurídico-carcerária. Tudo com a concordância das mentalidades condicionadas, superficializadas pela educação e conduzidas pela mídia empresarial. A prioridade "social" da atualidade não está no ser humano, no meio ambiente, em qualquer espécie de harmonia, mas sim nos interesses empresariais, no patrimônio, na forma acima do conteúdo. No entanto, ainda que sem consciência, somos conteúdo - envolvidos temporariamente na forma - e caminhamos através do espaço e do tempo, sem parar.

Este agora é o nosso ponto na mutação permanente em que existimos, estamos acendendo luzes na escuridão. Período de clareamento, esclarecimento, acendimento de luzes sobre os mecanismos de funcionamento da nossa sociedade, do nosso mundo, da nossa atualidade. O desenvolvimento da consciência é permanente, não há ponto de chegada. As atualidades se sucedem ininterruptamente.
No indivíduo, cada passo se completa com a manifestação prática das reflexões, seja em sentimentos, em visão, em pensamento, em valores, mas sobretudo nas escolhas, na prática cotidiana, nas formas de relacionamento, nas reações, no trato geral. Do individual pro coletivo assim como dos fios das raízes para a planta como um todo. Da reflexão à prática, da consciência às escolhas, e o mundo vai mudando, sem parar nunca, geração em geração, incontáveis nos milênios, nos milhões de anos. Temos algumas décadas de vida, raramente além de dez, frequentemente menos, e a sociedade nos adestra a uma vida sem sentido ou pior, cheia de sentidos falsos que nos levam à sensação de vazio na vida, a angústias profundas e aos anti-depressivos, às vezes desde a infância. Há cada vez mais resistência, dentro da coletiva conformação, se manifestando das mais variadas formas. Exceções que foram raras, se multiplicam, são cada vez mais numerosas, exceções ainda, mas com poder de "contaminação" incomparável, pela própria vibração pessoal entre os convencionais. O processo tem seu ritmo. As exceções têm a sua função coletiva. E isso não lhes dá nenhuma superioridade, ao contrário, é preciso exercer a responsabilidade com espírito de serviço, de fraternidade, de interesse no desenvolvimento geral, com respeito e afeto.

Saberes e sabedorias se completam. A estratégia de domínio estabelece superioridades imbecis. O saber, freqüentemente, é impregnado de arrogância, de sentimentos de superioridade, o que o esteriliza e acorrenta a interesses empresariais. A sabedoria nasce das vivências, da superação de dificuldades, da necessidade de harmonia em coletividades abandonadas pelo Estado, empilhadas, aglomeradas, desassistidas, roubadas em seus direitos sociais, humanos, constitucionais, em tudo. Os que têm o saber institucional, apesar do sentimento de superioridade induzido, dependem inteiramente dos injustiçados sociais. Na falta deles, não são capazes de nada. Por isso é preciso manter a ignorância, a desinformação, a alienação, a superficialidade mental, pra que os de baixo não percebam a sua importância na estrutura social. É uma divisão estratégica. Enquanto a chibata canta no lombo dos mais pobres, via segurança pública, a classe média é tratada com direitos, precários mas direitos, e mesmo privilégios salpicados à disputa classemediana, que se divide em camadas. Afinal, são quem administra a massa de baixa qualificação produzida pela farsa do ensino público, que semeia ignorância simulando "educar". São quem exerce o controle e as pressões sobre os sabotados, os executores das perversidades.  E esses direitos e privilégios têm seu alto preço, na consciência, nos sentimentos. É preciso coniver com a maldade do sistema social, se acumpliciar, ser perverso também, calar, cumprir ordens... Não é à toa o consumo colossal de anti-depressivos. Essa covardia existencial tem seu prazo marcado, em breve tenderá à extinção.

Nos tempos do cursinho e da universidade, sentia o engano dos ideais, alguma coisa errada no que me era apontado como objetivo, como vencer na vida, como realização pessoal. Os valores do mundo, da sociedade, da civilização nunca me convenceram, desde criança intuí alguma coisa fora do lugar, alguma coisa escondida, alguma coisa não revelada, inexplicável como a miséria. Minha posição social me era extremamante desconfortável, é engraçado hoje me dizerem que saí da minha zona de conforto. Pra mim, o conforto externo não é nada, perto do conforto interno, com a própria consciência, com os próprios sentimentos. Quero terminar minha vida com o prazer de ter vivido de acordo com minha consciência. A intuição me diz que estar bem com a consciência, trabalhando no seu desenvolvimento, é estar bem com a espiritualidade. Posso passar tranqüilo pela porta da morte.
O todo está além da minha capacidade e, acredito, da capacidade humana. Por enquanto, há muito caminho a caminhar. E caminhamos. Sem parar.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O domínio interno é a base do externo


Constrangedora subalternidade cultural, psicológica, política, social, econômica, entre tantas subalternidades sovadas pelos colonizadores, na manutenção da submissão nacional aos interesses banqueiro-mega-empresariais. É de envergonhar tanto letreiro em inglês, tanta programação derivada da cultura do consumo, tantas "estátuas da liberdade" em frente a chópins (shoppings). Os exploradores europeus, a que se somaram os estadunidenses depois da segunda guerra mundial, pra estender sua dominação pra além das "independências" nacionais, criaram elites dirigentes em cada uma das suas colônias, de forma bem parecida. Geralmente brancas, com profundo desprezo pelo seu próprio povo e repulsiva admiração, idolatria e servilismo pelo colonizador, explorador e escravizador.
Em toda ação destinada a realizar verdadeiramente a independência e a soberania nacional, se vê o levante das elites, protestando até em inglês contra o investimento social, no desenvolvimento - com instrução, informação, com o atendimento dos direitos constitucionais - das populações. Cúmplices e usufruintes da escravidão não declarada, da ignorância, da desqualificação, da pobreza e da miséria do povo, que resulta em baixos salários e na extrema exploração do trabalho, as elites locais tremem de pavor e ódio diante dos coletivos mais conscientes e conscientizadores, criminalizando, atacando, difamando toda iniciativa de esclarecimento, de reivindicação, de união dos de baixo, o alicerce fundamental da sociedade como um todo.
Nessa atividade reacionária estão colocados os meios de comunicação (de forma inconstitucional inclusive) e as instituições do Estado, em todas as áreas. A saúde pública é sabotada por pressão de planos de saúde e da indústria da medicina lucrativa; o ensino público é sabotado pra manter a ignorância fundamental pra se facilitar a eficiência da mídia em formar a opinião pública de acordo com interesses empresariais; a mineração é uma sinistra caixa preta, saqueando permanentemente as riquezas da nação no escuro da desinformação; a indústria armamentista vende horrores, sem que se tome conhecimento; as forças de segurança são treinadas e preparadas ideológica e psicológicamente contra sua própria população, sem noção de cidadania, de história e da realidade, consciências distorcidas sob a pressão insuportável das "instruções" ideologicamente formadas (ou deformadas) em laboratórios de pensamento anti-social, anti-humano, a serviço de um punhado de podres de ricos, dominantes internacionais, fabricantes de guerras genocidas, destruidores de países inteiros - quando não se submetem aos seus interesses.
Não é por acaso que países produtores de petróleo estejam sempre na alça de mira do atual imperialismo euro-estadunidense (só um exemplo). Os países árabes são difamados, criminalizados e atacados quando não se ajoelham no altar das mega-petroleiras, enquanto os "aliados" são protegidos, mesmo sendo ditaduras sanguinárias de verdade, por massacrarem os movimentos nacionalistas que se opõem a essa colonização tardia. Ninguém fala na Arábia Saudita, um reino dinástico extremamente violento não só com seu próprio povo, mas também com países vizinhos que se atrevem a "pisar fora da risca".
Os "golpes de Estado" na América Latina estão todos dentro deste contexto, sejam institucionais ou não. As artimanhas das corporações - atualmente representadas pelos "países de primeiro mundo", os colonizadores continentais - não conhecem limites. A formação ideológica - através do modelo de educação e, sobretudo, pelo massacre midiático-publicitário - mostra seus resultados nas reações de classes médias e altas, furiosas, em pânico diante da possibilidade do desenvolvimento social verdadeiro, na formação de um povo instruído, solidário e consciente, que busca atingir a harmonia social, a erradicação da situação de lixo humano - que é prova mais que suficiente de que a vida vale menos que o patrimônio e os interesses mega-empresariais.
Acordar pra essa realidade acaba resultando na mudança de valores e comportamentos. As mudanças internas, íntimas, pessoais, são fundamentais pra se realizarem verdadeiras mudanças sociais. Se não se faz a revolução interna, qualquer revolução social é ilusória. E aí voltamos aos sinais de subalternização em cada um. Admirar a "evolução social" dos países do "primeiro mundo", não por acaso os maiores escravizadores, invasores, saqueadores do planeta, é subalternidade mental. Admirar pessoas formadas em Sourbone, em Harvard, em Oxford, quando na verdade elas deveriam ser suspeitas de desprezar seu próprio povo e tender ao favorecimento dos algozes euro-estadunidenses, é subalternidade mental. Ter orgulho em ostentar marcas caras - sempre escravizando trabalhadores nos países menos desenvolvidos em leis trabalhistas - é subalternização publicitário-midiática. São as marcas do inimigo e deve ser uma vergonha ostentá-las, pra quem tem um mínimo de consciência social. É constrangedor o sentimento de inferioridade diante do márquetim imperial estrangeiro, que planta no inconsciente coletivo essa falsa incapacidade, essa inferioridade construída pra manter o domínio sobre os povos e, sobretudo, as riquezas das nações.
É tempo de enxergamento, de acendimento de luzes. Mas que ninguém se engane. O processo leva gerações e quem esperar ver um mundo justo e equilibrado e alguns anos, vai se frustrar, desistir, amargar o sentimento de impotência e desqualificar os mais novos que pensam em "lutar" por mudanças de verdade. É preciso se dar conta que cada um de nós nasce num processo milenar e participa, por algumas dezenas de anos, dessa marcha permanente, desse caminhar mutante através dos tempos do planeta como um todo. Ter satisfação em estar vivo, em trabalhar no que se gosta, em determinar os próprios valores e comportamentos - e não adotar os valores falsos impregnados no inconsciente coletivo - é a atitude mais revolucionária no momento histórico, o embrião de um outro modelo de sociedade, mais humana, menos perversa, menos injusta e mais solidária.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.