segunda-feira, 18 de abril de 2016

A casa da traição

Tudo o que é público está ameaçado de piorar mais, muito mais do que já é ruim. Vão privatizar muitíssimas coisas e vai ser preciso pagar pra ter alguma dignidade respeitada.
Tava oiano aqui essa bosta na câmara. Uma confusão dos diabos, um gritagrita, empurrempurra que não deixa nada nem ninguém se entender. Atrás do plenário aparece a faixa fora cunha, a sessão pára em gritos, o próprio cunha preside a fanfarronice, manda tirar faixas "de qualquer tipo" do plenário.
O processo não tem lógica nem base, não tem argumentos nem provas. Não resistiria a um debate calmo, sereno e lúcido, onde se pudesse limpar das interferências e ver a realidade como ela se apresenta. Aí eu pergunto: a quem interessa a bagunça, o tumulto, o gritagrita e empurrempurra? Óbvio. Quem levantou a faixa, foi os de esquerda? Burrice? Ou falsa bandeira, na intenção de tumultuar pra não esclarecer? Tô entendendo não. Ou tô entendendo demais.

A casa da traição cumpre o seu papel. Nada de se espantar. No cenário que vejo, os movimentos sociais, as organizações das vítimas de crimes sociais, espalhadas entre milhões e milhões de sabotados, roubados em seus direitos, sabem muito bem quem são esses que ameaçam ocupar as instituições do Estado, e se preparam pra levantar uma muralha de resistência. Aqueles que há pouco tempo conheceram o respeito a alguns dos seus direitos, que viram filhos entrarem em universidades antes vedadas, não creio que assistam inertes a retirada desses direitos, agora tão sagrados, tão valorizados. Aguardo pra ver a seqüência. A institucionalidade é uma área, há muitas outras áreas a serem trabalhadas, todas interligadas. Cada um que ande nas suas, de sua escolha e sintonia, embora eventualmente precisemos circular em qualquer uma.
Nunca apoiei esse governo, nunca gostei desse governo, nem reconheço qualquer governo, em um Estado que viola sua constituição em seus artigos mais importantes, que garantem a dignidade e espaço social pro exercício pleno da vida, para todos os que queiram, sem nenhuma exceção. Mas daí a aprovar esse movimento, todo baseado em mentiras, distorções, interesses, envolvendo parlamentares pendurados em processos judiciais por malabarismos jurídicos que são fartos neste sistema, a distância enorme. Salvo algum improvável ingênuo ou totalmente equivocado, são bandidos armando um golpe institucional pra abolir leis incômodas, e abrir as portas ao saque, à revelia da população. A ameaça que está representada nas figuras de proa desse movimento impitimador inclui pré-sal, privatização do que resta público até onde possa dar lucro, dizimação de direitos trabalhistas e de programas sociais de migalhas, que ficam longe das obrigações constitucionais do Estado. Só bagaço que vem por aí, se essa porra for adiante. A começar pelos conflitos da resistência de quem tem os direitos ameaçados, se unindo e dando seu jeito. O Estado está por se declarar inimigo. Mesmo já o sendo há muito tempo. Agora a parada vai recrudescer, as migalhas serão retiradas. Se já deram os frutos, não será fácil.

sábado, 16 de abril de 2016

Amanhã se arrisca mais um governo latinoamericano - uma presidente sem nenhuma pendência judicial é julgada por quarenta ladrões juramentados cujos processos estão pendentes em malabarismos jurídicos.

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Aproveitando minha incapacidade momentânea de sair à rua, desenrolo aqui uma série de reflexões a respeito do que acontece, no momento, em nossa sociedade brasileira. Ligando os acontecimentos aos do mundo, como parte da geopolítica imposta pelos poderes corporativos planetários, através de todos os meios, diplomáticos, econômico-financeiros, culturais, interferindo brutalmente nas políticas nacionais. Onde não funcionam os meios subterrâneos, ocultos, entra a força militar das armas, descarada, sob os mais variados pretextos, com um único ponto em comum: são todos mentirosos ou, no mínimo, distorcedores da verdade.

Não se trata de "defender a democracia", porque não há democracia neste país, mas uma ditadura da grana, explícita, que domina todas as instâncias ditas democráticas. Trata-se de defender o processo social em curso, insipiente, que não tem no governo a iniciativa, mas a anuência aos pequenos avanços da maioria mais pobre no sentido de começar a participar dos processos, a alcançar algum nível de instrução e informação, a formar seus coletivos, ainda exceções às regras, nas comunicações, nas informações, na percepção da sua importância na estrutura da sociedade.

Toda vez que um governo freia a ganância dos mega-parasitas – mega bancos e empresas transnacionais –, ele passa a ser maldito, difamado e atacado pela mídia. E as oposições internas, sejam lícitas ou ilícitas, começam a receber incentivos, apoios e dinheiro pras suas atividades lícitas ou ilícitas, pelas vias política, jurídica, publicitária-midiática ou mesmo armada, pra desestabilizar tal governo e reinstalar outro, mais submisso ainda, fortalecendo as dragas que sugam as riquezas, os recursos, o patrimônio e as verbas públicas, com total desprezo pela miséria e sofrimento que se causam às populações.

É espantosa a semelhança das elites cooptadas pelos poderes imperiais do mundo – na América Latina isso é claríssimo. Como sua oposição em geral não tem substância real e se baseia na inconformação diante da elevação do padrão dos mais pobres – e conseqüente contenção da avidez dos mais ricos – a base dessa oposição é o ódio, a difamação, a violência, o descontrole emocional, a briga, onde a poeira se levanta pra esconder a realidade. O mesmo se vê em contendas individuais, onde quem não tem razão parte pro insulto vazio e busca o conflito pra que não se esclareça o assunto, parte pra agressão, não deixando espaço pro diálogo. Qualquer um que se disponha a conversar sobre esse impítiman falcatruesco, ainda que sem expor opinião contrária e apenas questionando as motivações reais, com qualquer dessas pessoas que querem expulsar o atual governo, vai encontrar impropérios, palavrões, raivas incontidas, acusações absurdas e sem provas, papagaíces midiáticas e nenhuma razão ponderada, com fundamento, que possa ser explicada com calma.

Existem razões palpáveis pra essa interferência nos países considerados subalternos pelos poderes econômicos mundiais que emanam das corporações estadunidenses e européias, acostumadas à exploração livre desses países, ao parasitismo nocivo aos povos, através do controle dos seus governos. O histórico de golpes militares na América Latina – todos os países latinoamericanos sofreram golpes militares planejados, induzidos e financiados diretamente pelos governos dos Estados Unidos (no caso do Brasil, o documentário feito pela TV Brasil - "O dia que durou 21 anos" -, com base nos documentos secretos que a lei estadunidense obriga a publicar depois de 40 anos, mostra toda a trama, o cenário montado em território nacional pelas agências de segurança, pelas filantropias de fachada, pelo treinamento e infiltração de mais de 30 mil agentes nos sindicatos e associações e culminando com o envio da 4ª Frota, armada pra guerra, com o objetivo de derrubar um presidente que investia na educação, no transporte, na organização popular, na erradicação do analfabetismo, na reforma agrária, ou seja, na população – sob a acusação falsa de que era um “comunista”, contando com a ignorância geral do povo).

Desde o princípio da invasão européia nestas terras habitadas, foram instaladas aqui elites dominantes a serviço das metrópoles – neste caso, Portugal e Inglaterra – que, ao longo dos séculos, vêm se mantendo e cumprindo sua função, com extremo desprezo pela população local, com submissão explícita às ordens e aos interesses externos, na manutenção dos seus privilégios sujos de sangue, na repressão permanente a qualquer tipo de revolta ou resistência, de reivindicação de direitos e de conscientização das camadas de base da população. Essas elites, fiéis aos exploradores e traidoras da nação e do povo, são as que se levantam hoje em fúria contra o governo do petê, engrossadas suas filas com a ignorância e o controle da opinião pública exercido pela mídia.

Não que esse governo mereça alguma contemplação. Esse partido - o petê - fez um expurgo interno a partir da campanha de 89 – a luta interna já havia – e conseguiu impor o coletivo chamado “articulação”, hoje “campo majoritário”, anulando sua índole socialista, popular, e pouco a pouco exterminando os processos que davam voz ao coletivo do partido, se aproximando cada vez mais dos procedimentos convencionais dos partidos na chamada “democracia burguesa”, termo absurdo e contraditório, pois se é burguesa não é democracia. Depois de várias eleições perdidas e do expurgo das forças internas mais democráticas – que não admitiam essas mudanças que acabavam com a força das bases partidárias – o petê já se assemelhava aos outros partidos e precisava se agarrar à sua história pra se diferenciar dos outros. Mas aqueles mais ativos na construção dessa história já estavam fora – se aglomerando em siglas partidárias sem penetração popular – restando as celebridades, os quadros de colunas flexíveis, que se submeteram aos poderes econômicos e suas exigências sociais – manutenção da miséria e da ignorância – sabotagem do ensino público e enquadramento do particular –, da concentração fundiária e industrial, da preponderância dos interesses banqueiro-mega-empresariais, e consequentemente da exploração, da destruição das garantias trabalhistas, da privatização do patrimônio público e na intocabilidade da concentração das comunicações em meia dúzia de famílias. Como acontece tantas vezes a nível individual, esse grupo partidário abriu mão da sua alma pela sua ânsia de chegar ao “poder”, na verdade o governo, gerente dos verdadeiros poderes – que comandam dos bastidores, onde não existem eleições.

Aqui entra a analogia dos capatazes. Na dualidade simplória imposta pela mídia, há governo e oposição, apenas e mais nada. Digamos dois capatazes pra gerenciar uma fazenda Brasil, tida como propriedade de quem nem vive em território nacional, apenas explora o mais que pode seus recursos, seu patrimônio e sua população. O petê, capataz eficiente que mantém o predomínio internacional sobre as riquezas da nação, é “benevolente” com os escravos da fazenda, o povo, e deixa cair migalhas a eles dos fartos banquetes dos poucos potentados. Daí a entrada de um punhado de pobres nas universidades, a ascensão ao consumo – mas não à instrução ou à informação – de parte da população mais pobre, do acesso à moradia de milhões de desabrigados, da criação de programas sociais mínimos que atendem parte das vítimas de crimes de Estado seculares contra sua própria constituição. De outro lado, a oposição rechaça esses programas. Este é o capataz sádico, pra quem o povo produz melhor debaixo de chicote, de pressão, sem o custo da alimentação que os engorda e amolece. Escravos devem ser tratados duramente, pra isso o aparato de segurança “pública” vem sendo preparado desde a segunda guerra mundial – época em que a dominação passou das mãos de uma Inglaterra destruída pros Estados Unidos, programado pra ser a próxima potência imperialista. Esta é a mentalidade das elites apoiadas e financiadas de fora. O pobre deve se conformar com sua inferioridade, acreditar na mentira da meritocracia e dar graças por ser explorado. Mantida na ignorância e na desinformação, a população deve sonhar com o impossível e servir a vida inteira numa expectativa falsa. Nas palavras de Darcy Ribeiro, “uma elite mesquinha, tacanha, escravista”, que tudo faz pra impedir o desenvolvimento da maioria, cheia de potencial, de criatividade, de capacidade de superação de dificuldades, em condições de ser um dos povos mais desenvolvidos do planeta, desde que não se impeça como se vem impedindo, atacando ferozmente todas as vozes que mostram as imensas possibilidades do povo brasileiro, todas as iniciativas de instrução e conscientização, de reivindicação de direitos básicos, fundamentais, humanos e constitucionais..

As migalhas atiradas aos mais pobres enfureceram as elites locais e amedrontaram as elites mundiais, numa combinação nefasta. A atitude do governo brasileiro de apoiar a união dos países latinoamericanos – um recurso para a contenção das ânsias dominadoras das corporações, criadoras de miséria, pobreza, ignorância e exploração, semelhantes em todos os países da América Latina –, a independência diplomática apenas esboçada, a defesa tímida de apenas parte do patrimônio público, como o petróleo, despertou os mecanismos de interferência internacionais. Já que os tempos não aconselham o uso direto da ocupação militar, os meios passaram a ser institucionais, a partir do estímulo, apoio e financiamento de oposições internas em seus países, os piores seres humanos, traidores de suas nações, entreguistas de seus países e seus povos em nome dos seus privilégios sujos. Apesar de eficiente na manutenção dos poderes vigentes, externos, corporativos, o governo brasileiro produz efeitos colaterais que não agradam, pois a médio e longo prazo tais migalhas são sementes de esclarecimento e conscientização – como já está acontecendo, ainda que de forma embrionária – e tornará cada vez mais difícil e trabalhoso o domínio tão pleno e desbragado como agora.

A meu ver, não se trata da “defesa da democracia” ou o “combate à corrupção”, pois não existe democracia a defender além da fachada, de um lado, e não é possível combater corrupção a partir das ações de grupos sabida e historicamente corruptos. Trata-se de impedir alguns poucos procedimentos governamentais que, ainda que mínimos, insuficientes, que passam longe de resgatar a dívida social do Estado, acabam criando condições pro esclarecimento, ainda que embrionário, da população, com seu conseqüente empoderamento na realidade política e social. Os situacionistas poderão brandir os números alcançados em atendimento aos pobres – e é verdade, pois desde a instalação dos militares no governo do país, nunca houve tantos programas estatais de atendimento à pobreza. Mas isto passa longe de colocar o Estado a serviço do povo como deve ser, prioridade máxima dada aos que mais precisam, às vítimas históricas, esmagadora maioria, da tirania elitista que sempre dominou.

Considerando a sabotagem permanente dos serviços públicos, principalmente a educação, a comunicação e a saúde, o que vemos ser chamado de política é, na verdade, uma grande farsa, encenações histriônicas diante de uma população ignorantizada, desinformada, deliberadamente incapacitada de compreender o que acontece, facilmente enganável com as articulações midiáticas que se utilizam dos mais profundos conhecimentos acadêmicos em psicologia do inconsciente, em condução de massas, em antropologia, sociologia, estatística, conhecimentos cooptados para o domínio de poucos sobre a sociedade. A meu ver, só é possível uma verdadeira política com um povo bem alimentado, instruído, informado, consciente dos mecanismos legais pro controle dos que se fazem seus “representantes”. Isso não é permitido e, se proposto, é atacado com todas as forças da difamação, com todo o ódio dos cooptados pelos exploradores de fora, mesmo no seu mais leve esboço, como é o caso.

Amanhã será o dia do confronto entre os servidores e admiradores incondicionais dos poderes corporativos mundiais e os servidores condicionais, que servem aos seus interesses com a ressalva de atirar migalhas à pobreza endêmica. Os interesses internacionais, os financiamentos, as estratégias semelhantes em vários países – no Paraguai, a derrubada de Fernando Lugo foi uma caricatura rápida do que está acontecendo no Brasil agora – não são mencionados nas falas e nos argumentos de ambos os lados, salvo leves referências inócuas e que, em geral, passam batido, sem que se perceba sua decisiva importância. Sem esse apoio, explicitado apenas na mídia construída e bancada de fora que se faz de brasileira mas constituída de funcionários dos poderes econômicos internacionais, as forças que exigem esse impítiman absurdo não seriam forças, seriam ridículas, sem nenhum sentido, como em verdade são, quando se faz uma observação profunda e isenta dos acontecimentos.

Os interesses corporativos internacionais ainda determinam, com irresistível força, a pauta nacional do que se chama de política, essa farsa suja, desumana, vazia de povo. A maioria dos que engrossam o coro da oposição, ignorantizados, idiotizados e teleguiados pela mídia, se tivesse instrução e consciência do que acontece, morreriam de vergonha. O campo da ignorância e da desinformação foi meticulosamente preparado durante os quarenta anos de serviço militar nos governos do país. Agora os dominantes fazem uso dos frutos que os traidores da pátria, conscientes ou inconscientes, plantaram em território nacional.

A movimentação já se faz em direção a Brasília. Se aproxima um momento decisivo. Um governo de merda, tatibitate, acovardado em assumir seus verdadeiros adversários, se bate contra os parlamentares e juristas paus-mandados de bancos e corporações internacionais, os ditadores do planeta, fonte de tanto sofrimento pelo mundo inteiro, os mesmos a quem se submete o petê. Os patrões estão tentando demitir um gerente que dá mole pros escravos, ainda que mantenha a exploração sobre eles. O perigo desse mole, já se vê, está vindo com o tempo. Os resultados que vejo me fazem crer que não há reversão na maneira cênica. Será preciso mais descaramento, mais tirania explícita, não haverá retorno sem resistência dos de baixo, que são quem apavora as elites. Não se imaginava o que a população seria capaz de fazer com essas migalhas, dividindo e multiplicando nas periferias, em meio à exploração desenfreada. Espero que seja tarde pra conseguirem reverter esse processo. E, se conseguirem derrubar esse governo, ainda que de merda, a reação irá convulsionar o país de norte a sul, de leste a oeste. E será, de qualquer maneira, mais um fator na conscientização geral. O processo é irreversível, embora os medos, as ameaças e as aparências.

Como dizia Einstein, uma mente que se abre a uma nova experiência, jamais retorna ao seu tamanho original. Se mentes suficientes foram abertas, não haverá reversão. E se houver, haverá uma resistência nunca vista.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Não gostaria de falar sobre isso.

Andam pedindo que eu faça uma análise da situação atual, com essas "manifestações" pelo território nacional. Tenho observado, confesso que de saco cheio, essas orquestrações que se pretendem - ou se anunciam mentirosamente - "políticas", mas que se desmoralizam nas propostas, nas palavras de ordem sem substância, cênicas e vazias de significado, além da exposição de ódio e alienação desses "milhões de pessoas". Esta movimentações a partir da mentalidade das elites locais em vários países da América Latina são muito semelhantes. Antes de tudo, ódio e agressividade, pra anular qualquer possibilidade de diálogo que obrigue a algum esclarecimento a respeito das reais intenções dessas movimentações promovidas pelas mídias infiltradas de interesses corporativos internacionais. O fato dos programas de domingo serem interrompidos durante toda a sua programação pra noticiar essa manifestação sem alma - ou com a alma do demônio - é bem sintomático, mostra os interesses banqueiro-empresariais - o motor da mídia comercial dominante - insuflando as elites, cooptando o sentimento de revolta dessas minorias privilegiadas, diante do aparecimento de pobres em locais antes reservados exclusivamente a essas minorias, como universidades e aeroportos. Há pouco tempo vimos uma dessas peruas da elite reclamar que não tem mais graça viajar à europa ou aos esteites, porque até o "seu" porteiro pode fazer isso. Mentalidade escravista, exploradora, anti-população.

O governo petista, partido que antes de chegar em tal patamar - durante a época dos militares e logo depois - era o refúgio de verdadeiros democratas, fez o seu auto-expurgo, conservando apenas os "moralmente flexíveis" e dando no que deu, perdendo sua alma e sua popularidade pra compor com o verdadeiro poder e se tornar o seu gerente. Estamos diante de uma luta de capatazes, ambos loucos pra ocupar o lugar de gerentes. Os patrões, donos da fazenda Brasil, nem moram na área - daí os capatazes fazerem pose de dono -, apesar de a explorarem com afinco e grandes lucros. Educação pública sabotada pra manter a ignorância, educação privada formando os supervisores e chefes da ignorância, comunicações dominadas pra distorcer a realidade, enganar o povo e formar mentalidades absurdamente superficiais, instituições públicas infiltradas por agentes do poder real pra conter qualquer ação na direção de uma democracia e o quadro está formado, dentro do predomínio econômico sobre a falsa política.

Há duas linhas de capatazes. Uma, benevolente e bonachona, não tem ódio dos escravos - nós, como povo - e, desde que se comportem, atiram migalhas a eles, como prêmio, incentivo a que continuem trabalhando sem reclamar. A outra é imbuída de um ódio e um desprezo incontrolável pelos escravos, que devem ser mantidos sob pressão, debaixo de chicote, comendo pouco pra não ficar mole, apanhando muito pra produzir ao máximo, sem qualquer chance de pensar ou agir fora do exigido.

A predominância da classe rica nessas "manifestações" demonstra a reação dos exploradores do trabalho assalariado às pequenas aberturas que permitiram a passagem de alguns pobres pra áreas onde, antes, pobres só entravam como serviçais. O ódio e o preconceito, além da superficialidade, da falsidade, da cenografia mambembe das propostas, foram a tônica dessa armação midiática que estimulou ao máximo a inconformação com a ascensão da classe pobre a patamares nunca dantes alcançados. As periferias se movimentam, resgatam auto-estima, percebem a sabotagem estatal ao seu desenvolvimento, reivindicam direitos constitucionais antes desconhecidos - e desrespeitados desde que se inventaram as constituições. Há informativos nas favelas, há movimentos organizados de esclarecimento e conscientização, o processo segue seu curso e os injustamente privilegiados estão em pânico, mortos de medo - e esse pavor é evidente no ódio visceral que se vê nesses ajuntamentos de carros caríssimos, de gente rica acostumada a explorar os pobres, que se sentem superiores como seres humanos, apesar de dependerem completamente do trabalho de quem desprezam.

 Observando a América Latina, vejo as manifestações dos ricos em toda parte, com incrível semelhança de propósitos e comportamentos. Não é difícil perceber a orquestração continental a partir das elites planetárias, com a costumeira ingerência no que consideram seu quintal, seu domínio, nossos países condenados à exploração desenfreada, à ignorância imposta e planejada, à desinformação estratégica, à miséria e ao abandono de parte da população, enquanto se privilegia as elites locais, sempre traidoras das suas nações, inimigas das multidões, entreguistas e subservientes à ditadura banqueiro-empresarial que manda no mundo através do aparato público dos países do chamado "primeiro mundo", herdeiros do colonialismo europeu, desse parasitismo planetário que agoniza entre guerras e catástrofes provocadas pelos poderes vigentes. O que acontece no Brasil é parte da estratégia de subjugação do povos, ameaçada pelos movimentos sociais, pela união dos países dominados, pelas propostas de integração solidária do povos. A herança colonialista ensina: é preciso dividir, promover conflitos e ódios, pra dominar.

Todo esse movimento, barulhento, odiento, mentiroso, superficial e sem propósito lúcido tem origem no ódio de classe, no terror que os exploradores têm de que os explorados se esclareçam, se organizem, que resistam às explorações desumanas a que são submetidos no dia a dia, no seu cotidiano, há gerações e gerações. É a inconformação dos desumanos com a humanização do sistema, que mal se esboça e apenas nas intenções, nos paliativos iniciais que romperam campos de força de proteção cuja função era manter os pobres fora de locais estratégicos na sociedade, como a academia, os cargos públicos, os clubes fechados, aeroportos, etc.

Senão, o que faria essas pessoas abrirem mão dos seus clubes, piscinas, das suas bolhas de usufruto, de luxos e desperdícios, pra estarem nas ruas vociferando seu ódio contra um governo que, apesar de vendido aos poderes econômicos, atira migalhas aos pobres? Eles não sabem, mas intuem apavorados, o que podem fazer com essas migalhas aqueles que não têm nada além de dificuldades pra superar na vida. As migalhas nas periferias são sementes e se reproduzem como os peixes e os pães de que falam as escrituras cristãs, se propagam e contaminam em conscientização e esclarecimento. Este é o trabalho do momento, desenvolvimento interno, de sentimentos e consciência diante do mundo e da vida. O processo é inexorável, impossível de conter. E esses esforços de contenção são a tentativa de manter as coisas como sempre foram. Nada permanece como é, tudo está em permanente mutação e o máximo que conseguirão será causar muito mais sofrimento do que o que já seria necessário no caminho da coletividade humana. A rota da caminhada já está traçada. Entre idas e vindas, seguimos.

Os beneficiários da miséria, da pobreza e da ignorância se debatem em fúria, vendo diminuírem - apenas diminuírem - os abismos sociais entre eles e seus empregados-explorados. Em sua desumanidade costumeira, herança do escravismo, não se conformam em se ver como são. E não engolem a idéia de igualdade de direitos entre todos, incapazes que são de manterem seus sentimentos de superioridade, estando em pé de igualdade. Seus privilégios são um vício, um fragilizador da sua própria humanidade. Por isso são tão odientos e desumanos - o pânico gera o ódio.

Quanto aos ingênuos, os que se deixam levar, os bois de manada, nada de inesperado ou surpreendente numa sociedade que produz ignorância e alienação, que produz mentalidades consumistas e competitivas, que estimula o egoísmo, a vaidade e a superficialidade, em massa, permanentemente. Daí a essa dicotomia ridícula, anti-petralha ou governista, constrangedoramente superficial, teleguiada, vazia de significado, desmoralizante pra mentalidade dos que a assumem.

Não gostaria nem de comentar o assunto. Estou apenas atendendo a pedidos de pessoas a quem considero. O que vejo é uma extensão da estratégia de dominação mundial, semelhante em toda parte, adaptada às realidades locais e suas características sociais e culturais. A visão míope que se percebe é também parte da estratégia, pra que não se veja o quadro mundial, a geopolítica das corporações que dominam os Estados e a vergonhosa manipulação da mentalidade pelo exército de especialistas em psicologia do inconsciente, em publicidade e márquetim, em sociologia, em antropologia, em todas as ciências cooptadas pra manter a dominação da massa humana - em benefício do punhado de parasitas, vampiros que mantêm dinastias no topo do poder mundial, há muitas gerações.

Comportamentos, mentalidades, valores, relações sociais produzidos em laboratórios do pensamento e implantados pelas mídias são elementos a serem superados na formação de pensamentos próprios, independentes, a partir da própria prática e da visão de mundo que se forma vivendo e não ouvindo as mentiras atiradas pelos organismos viciados de comunicação - criados nesta intenção.

Nomear como políticos esses farsantes que se fazem passar por representantes do povo é uma demonstração de cegueira, de condução mental, de crença ingênua em instituições infiltradas e dominadas por interesses de poucos pra enganar muitos. Isso não é política. É farsa.

PS - É preciso sempre lembrar que o petróleo descoberto no pré-sal, abundante e de ótima qualidade, tem motivado a campanha midiática de desmoralização da Petrobrás, a serviço das gigantes do petróleo mundial. Que estão bem infiltradas no Estado, nos parlamentos, nos judiciários, nos executivos, em todo lugar onde a "democracia" pode ser comprada. E a quem serve o tumulto institucional, sempre na desestabilização de um governo que opõe uma mínima resistência à ambição avassaladora das mega-petroleiras mundiais.

Há corrupção em todas as obras públicas, é opinião geral, pública e notória. Só não se fala a respeito com coerência e ligação, pra não se perceber que todas as instituições são uma enorme falcatrua mentirosa e mantenedora de miséria, ignorância e abjeções sociais que de há muito já poderiam ter sido resolvidas, pelas condições de produção, tecnológicas, logísticas, acadêmicas, de todas as formas há condições de resolver todos esses problemas básicos em todo o planeta.

Pense-se a respeito, é uma necessidade.

                                                                                                                    Eduardo Marinho

sexta-feira, 11 de março de 2016

Viagem a Sampa, curta e densa.

Aqui o cansaço, baqueado com a garganta, pode baixar em São Mateus. Eu tava em casa.
Uma noite na estrada, via Dutra, poucas horas dormidas num posto de abastecimento. Na casa que nos recebeu, um bom banho. As atividades, no entanto, não terminaram antes das quatro da manhã, enquanto esperávamos pra descansar. Éramos três, dois dormiram na Kombi e todos dormimos precariamente, de novo por pouco tempo. Ali era muito mais casca que miolo, muito mais forma do que conteúdo. O interesse estava no ar, os olhares não correspondiam às expressões e, quando correspondiam, mostravam ingenuidade e superficialidade de consciência – em plena simulação de consciência cósmica, com tendências orientais e alguns traços da mística afrobrasileira. Roupas vaporosas, túnicas indianas, turbantes, incensos, velas, o cenário era bonito, embora de espiritualidade só tivesse o que tem em qualquer parte que haja vida. Os que deixam o hábito de comer carne, muitíssimas vezes, sentem superioridade sobre os carnívoros, “primitivos”, “atrasados”, sem perceber que este sentimento de superioridade é o demonstrativo da sua própria precariedade espiritual, sem perceber suas próprias necessidades evolutivas, se contentando com este sentimento mediocrizante de superioridade e se fechando em grupinhos “mais evoluídos”, segregando mais ou menos os que não fazem parte. E aí se estaciona, se fabrica futuros sentimentos de vazio, de ausência de sentido na vida, de angústias inevitáveis. Falta raiz, falta realidade, falta o pé no chão, o peso da ação prática, da visão reta, da simplicidade no olhar, no sentimento de igualdade, reconhecendo a diversidade. Namastê... gratidão... e a gente vê a distância nos olhos e no sentimento. Quando não é distância afetiva, é distância de consciência, distância de realidades, distâncias morais. Não há fraternidade verdadeira sem o sentimento de família, de igualdade e respeito, com todas as diferenças de forma, de atitude, de pensamentos e sentimentos. A humildade aproxima, aprende e ensina, sem superioridade, por prazer, por dever moral, por necessidade interna. E, sobretudo, sem interesse algum em retribuição, seja qual for. O prazer em fazer é a retribuição.

Primeiro papo, de manhã, no MASP, avenida Paulista.


Muita gente parou pra ver, pra assuntar, alguns pra comprar.
De manhã, fomos expor na avenida Paulista e ficamos até depois da meia-noite. Boas vendas, conversas melhores ainda, com o tempero de uma passeata de bicicletas cheia de nudismos. Tudo meiquinhofado pra um documentário que tá sendo feito. Celestina parada numa vaga liberada da tarde de sábado até segunda-feira, serviu de abrigo na madrugada. Acordamos, café e expor na Paulista, desta vez saímos cedo, pra São Mateus, zona leste, ao encontro de amigos grafiteiros. Aí, sim, nos sentimos em casa, recebidos como família. Aí sim, pude sentir o cansaço que estava represado, estourando num baque que me tirou a voz e a disposição. Por um momento, porque depois que desisti da palestra na Roosevelt, onde aliás choveu o suficiente pra não rolar o evento, dormi uma noite ótima e no dia seguinte palestrei pra visitantes do centro cultural do grafite em São Mateus. Sem microfone, intimista, com tradução pro inglês, simultânea. Um acontecimento raro, numa periferia.

Papo no ateliê, com o Val e a rapaziada.

A turma reunida no Ateliê de São Mateus.


Agradeço a recepção de Toddy e Val, de dona Malvina e seu Atílio. Tudo família, em sentimento e em humanidade. Solidariedade plena e valiosa.

Os papos no ateliê do grafite são sempre densos, profundos e enraizados na realidade da maioria, no confronto entre Estado e população periférica, entre a repressão, a exploração e o desrespeito cotidiano, social, econômico, político, instrucional, informacional. A autonomia é o primeiro passo a ser dado na direção da realização pessoal e coletiva. Autonomia do pensamento, na criação de valores e comportamentos, de desejos e objetivos de vida além da falsidade institucional.

"Agora vou dormir, amanhã tem trezentos quilômetros até Visconde de Mauá." Dito e feito.



sábado, 5 de março de 2016

Avenida Paulista hoje e amanhã. Segunda Slam Resistência.

Hoje vou expor na avenida Paulista, desenhos, livrinhos, zines, ímãs. Devo estar lá até a noite, conforme o clima - nos dois sentidos, chuva e astral.

Esta é uma postagem divulgativa e provisória, Avisando da exposição, hoje e amanhã. Segunda tem o evento do Slam Resistência, no começo da noite, na Praça Roosevelt.

Na praça Roosevelt, evento do Slam Resistência, com Adelson Del Chaves.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Retalhos das viagens ao vale.

Área de lazer atingida e morta. Um morador descreveu que nessa passagem rolaram tratores, carros, casas, fogões, máquinas de lavar, telhados, casas inteiras se desfazendo, pontes, cavalos, vacas, capivaras, bichos de todo tipo.
Impressionante é o mínimo que expressa o sentimento. Devastação apocalíptica nos povoados de Mariana, onde as pessoas parecem anestesiadas, sem acreditar no que estão vendo, na destruição plena e contaminada. Parece uma daquelas pancadas que se sente o choque e se sabe que a dor virá em seguida, surgindo com o tempo, do fundo abalado pela porrada. A devastação resultante é como um rastro da morte que passa em massa e arrasta tudo o que encontra pela frente. Na beira dos rios, ribeirinhos pobres se instalaram, desde sempre, em área de ninguém, se arriscando nas enchentes, se prevenindo com lugares mais altos, protegendo suas pequenas importâncias ou perdendo o pouco que têm, pra conseguir tudo de novo aos poucos, numa seqüência de cair e levantar comum aos mais pobres. Pescadores, lavradores, garimpeiros viviam nas beiras dágua, muitos com família, em barracos improvisados, de taipa, estuque, chão batido, telhados de palha, criando seus patos, às vezes porcos, galinhas, lavouras variadas. Estavam tranqüilos, não havia chuva, não havia perigo de enchente, quando ficam todos de orelha em pé no nível do rio. Ninguém os avisou, eles não tinham como se informar. Pelo Gualaxo do Norte, pelo rio do Carmo até o Rio Doce, o volume da lama de rejeitos da mineração subiu as encostas, arrancando árvores, levando casas, pontes, máquinas, carros, tratores, tudo, num estrondo enorme. No meio, essa gente ignorada, invisível na sociedade, que não entrou na conta dos mortos.



“Com os troncos vieram pedaços de gente, orelha, braço, costelas, pés, tudo picado pela madeirama, não deu pra contar. Na frente da troncarada tinha dois corpos inteiros, que a gente tirou e a turma da Samarco levou.” Dono do posto na cidade de Rio Doce.

Em Rio Doce ficou a maior aglomeração de troncos que eu vi na região. Desceram da serra enquanto a inclinação é forte, em Rio Doce o vale já ameniza a inclinação, o peso dos troncos os faz parar.
“Eles tão vendendo essa madeira toda. Tão separando as de qualidade pras madeireiras, as sem qualidade pras carvoarias. Eles não perde nada.” Funcionário terceirizado pela Samarco, num dos canteiros de obras improvisados em Rio Doce, a cidade.

“A gente ouviu falar, telefonaram pra cá avisando que a barragem tinha rompido. Mas são oitenta quilômetros de lá até aqui, era pra lama ter acabado pelo caminho. Ninguém acreditou, ninguém tomou providência, ninguém tava preparado.” Papagaio, ex-garimpeiro e faz tudo na prefeitura de Barra Longa.

Quintais envenenados, hortas atropeladas pelos metais pesados.

“Parecia o rugido de mil bichos, urrando pelo escuro, de madrugada, cobrindo esses terreno tudo, chegando nos quintais, subiu por aqui, foi lá em cima, acabou com tudo que tava plantado, e foi descendo rio abaixo aquele rugido medonho. Aqui tinha de tudo, horta, fruta, cana, feijão, criação, até pros passarinhos a gente plantava, preles vir cantar.” Rômulo, dono da birosca feita em sua casa, onde comemos peixe vindo de outro lugar, trazido pelo Papagaio.

O departamento de márquetim da Samarco é um dos mais exigidos depois do rompimento da barragem. O “janeiro cultural” que a empresa armou pra entreter e ocupar os flagelados pela lama química, além de gerar ótimas imagens com os sorrisos que esperavam nas crianças, não teve muita adesão, ninguém se interessou. Eles preferiam ter suas casas de volta, seu trabalho, suas hortas e criações, suas ocupações cotidianas. Isso a Samarco não pode nem pretende dar.
Mas o departamento de márquetim é persistente. Agora chamam os flagelados, os quase mortos, os que perderam tudo, de “beneficiários”. Incrível. A cara de pau não tem limites.

A ponte que leva ao grupo de casas onde uma é a do cacique krenak Rondon. Foi danificada numa enchente em 2013. Sem água nem acesso, receberam caixas dágua da samarco. A que vi na casa dele estava quase vazia. A água do rio era a água deles, usada pra tudo. "O Watu era nossa vida. Mataram o Watu e mataram nós, o nosso espírito."
“Ninguém avisou a gente, a gente não sabia de nada, quando viu era o rio morrendo e morrendo tudo dentro dele. Minha mãe tinha sonhado na outra noite, contou pra gente e eu não consegui dormir, pensando no sonho dela. A morte tá vindo pelo rio, ela disse. Eu levantei de madrugada, sem sono, fui pra beira do rio. Tava amanhecendo quando eu vi chegar essa lama, aquele monte de peixe morto na frente da onda. Parecia uma coberta, não vinha na água, vinha cobrindo a água, como uma pele, um cobertor, por cima da água.” Rondon, cacique no território krenak.

Do outro lado da área devastada dos krenak, além da morte do rio que dava a vida, os trens não páram, dezenas e dezenas todos os dias, subindo vazios e descendo lotados de minério, o  mesmo cuja extração desmedida gerou a maior destruição ambiental da história das Américas. Ao passar pela terra indígena, os maquinistas apitam, todos. Alguma regra da empresa, com certeza. Parece deboche, uma humilhação a mais ao povo indígena, uma afirmação de vitória dessa civilização monstruosa.
Agora, na área dos krenak, só os cães e os urubus andam entre as pedras do rio Doce. Carniça contaminada.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

De Linhares a Baixo Guandu

Muitos bichos nas lagoas visivelmente contaminadas. As garças parecem estranhar o ambiente, algo no ar, na água e na terra.

Os oitenta quilômetros de Linhares a Baixo Guandu são melancólicos. Paisagens lindas, ilhas, plantações, café, cacau, banana, coco, criações de cabras, gansos, bovinos, porcos, mas um clima parado, sem ação, parece um suspense vazio, não se sabe o que vai ser e vai-se vivendo. Poucos se perguntam o porquê de tamanho desastre, a dimensão é tão grande que não se vê, muito menos de dentro. Ainda não se assimilou o tamanho, a dimensão, a duração desta morte do rio Doce que, apesar de sujo, destratado, ainda trazia a vida, de muitas formas. São mais de três milhões de habitantes em todo o vale, desde o alto da serra em Minas até Regência, no Espírito Santo.

A Lagoa Nova foi atingida nos primeiros dias, por um canal que a liga ao rio Doce. Esse canal foi fechado como o de Linhares e hoje a Lagoa "limpou, já dá pra tomar banho, brincar, andar de pedalinho. As pessoas vêm, nos finais de semana tá lotando normal, como sempre", disse a moça do restaurante, um tanto incisivamente pra inibir qualquer contestação. Quem sou eu pra contestar...
Aí a "barreira".
Do outro lado, a ponte danificada pela onda tóxica recebe reparos.
Ali a água do canal interrompido, na direção da lagoa.

Um bebedouro de animais freqüentado, a julgar pelas pegadas. Freqüentado e contaminado.

As plantações, muitas, vão precisar de outra fonte de irrigação. Aí são bananeiras. 

Fonte de vida do maior rio do sudeste brasileiro, agora o rio Doce é fonte de morte.

Nos períodos secos, havia praias intermináveis. Agora são veneno forte, tarja preta, mortal.

Imagino a quantidade de passeios familiares, proibidos em definitivo.

Colatina nasceu nessa colina, às margens de um rio limpo, que lhe dava água em abundância, beleza e muitos locais de encontros, diversão, esportes, lazer. Cidade que mais dependia da água, colapsou geral, com as falcatruas político-empresariais, que fizeram faltar até água de beber. Houve tumulto e quebra-quebra, carros pipa foram seqüestrados, virados, vandalizados.

Entramos na cidade, paramos pra abastecer, conversei com o frentista, comé que tá o problema da água? "Agora tá normalizado, voltou a ter água nas torneiras", ele disse. Perguntei se ele bebia dessa água, ele riu, "eu não, não dá pra confiar. Tô tomando água mineral." Eu ri também, "tu não usa filtro de barro, não?" Não usava, planejava começar a buscar água de beber e de cozinhar na roça da irmã, "água boa, do alto da serra, longe do rio Doce".

Mais um afluente contaminado, os rejeitos subiram por aí, estragando tudo em que tocava. Periferia de Colatina, abandonada como toda periferia, relegada a último plano nas ações "oficiais" ou empresariais.

Canoas abandonadas, milhares ao longo do vale, no rio Doce e nos afluentes.

Um pequeno afluente lança sua água na lama dos minérios, faz uma linha onde dilui a concentração. Até se diluir.

Cada canoa abandonada, um trabalhador sem trabalho...


Os animais seguem sua vida. Parecem perplexos e não é pra menos. A cada dia estranham, parece que esperam acordar de um pesadelo incompreensível.

As casas não foram atingidas pelo tsunami químico, mas as vidas foram atingidas em cheio.

Ao longo de todo vale, as cores dos metais pesados. Desde Bento Rodrigues até Regência.

Tudo pode parar, menos os trens cheios de minério que descem o rio Doce pros portos de exportação. A ganância e a cobiça que destruíram a maior bacia hidrográfica da região sudeste continua sua sanha exploradora, dominante que é do aparato público, de governantes, legisladores e juristas.

Composições enormes, puxadas por duas, às vezes três locomotivas.

Não quero falar em punição de culpados, já se fala demais nisso por aí. Nem vou cair na esparrela de repetir idiotices acomodativas como "o ser humano tá destruindo o planeta". Se há necessidade de falar em culpas, comecemos por nós mesmos, que compomos docilmente uma sociedade dominada e comandada por banqueiros e mega-empresários que impuseram um sistema social controlado por esse punhado de parasitas podres de ricos. Queremos o que nos foi induzido e nos comportamos como fomos condicionados. Competitivos, gananciosos, egoístas, louvamos os desenvolvimentos tecnológico e econômico e nem lembramos, como programados que somos, do progresso moral necessário, sem o que vemos imoralidades se naturalizando, perversidades rotineiras, a usurpação dos direitos básicos, humanos, fundamentais e constitucionais da esmagadora maioria da população, justo a parte mais necessária pra fazer tudo funcionar, tudo acontecer, tudo ser feito. O que se deseja é "vencer na vida", encher o rabo de dinheiro, privilégios e facilidades, sente-se superioridade quando se tem o acesso, que é negado à maioria, a uma educação de qualidade, mesmo enquadradora, que prepare presse absurdo "mercado de trabalho", cheio de intermediários, de correntes, de ameaças, de cobranças, de ofensas morais, de desumanidade. 

E qual é a opção, me perguntariam. Não sei. E não sabia o que faria quando, definitivamente, me recusei a seguir pelos caminhos convencionais, aprovados pelas regras "intrinsicadas" na mentalidade convencional. "Não sei pra onde vou, nem o que vai ser, mas não vou por aí. Pra viver assim prefiro não viver." Aos dezenove anos aceitei a morte como alternativa possível, pra não seguir caminhos angustiantes e sem sentido além dos falsos sentidos que se impõem nos caminhos sociais estabelecidos. E aconteceu que não morri. Ainda. Vivi pra aprender a olhar essa estrutura social de fraudes, farsas e desumanidades. Pra colocar o que penso no meu trabalho, as evidências que estão na cara de todo mundo e parece que todo mundo não vê. Bueno, há exceções e é um prazer encontrar por aí.

O vale do rio Doce está morto. Grandiosamente morto, por muito tempo, fala-se em centenas, em mil e quinhentos anos, uma catástrofe apocalíptica que se imporá aos poucos. O destino não tem pressa. E as dores são ensinamentos, quando andamos distraídos. Nesta etapa do caminho humano, há dores coletivas anunciadas e em curso, a serem aproveitadas na limpeza da visão de mundo, dos valores e dos comportamentos.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

De Carapebus a Regência

















No terraço da casa de Patrícia e Adilson, se vê o mar e a nuance.


As praias cheias, ainda que a cor da água lembre a lama diluída


















Era o final da manhã quando começamos a subir o litoral norte do Espírito Santo. Há trinta anos atrás eu andei por estas praias, época de angústias e dúvidas, de opções e decisões definitivas a respeito da vida e dos seus caminhos. Se reclamava do minério do porto de Tubarão, no ar e na água do mar. No rumo norte, eram longe os povoados, muito mato e espaço até Barra do Riacho. O minério continua no ar, a fuligem preta toma Carapebus. Do terraço da casa que nos abrigou, ao norte da siderúrgica de Tubarão e de Vitória, vimos o mar com leve nuance barrenta, com uma faixa mais densa lá no fundo, a alguns quilômetros da praia. Será a lama da Samarco, imagino, pelas notícias já chega na praia da Costa, em Vila Velha, início do litoral sul. Agora, além do eterno minério, há os resíduos da extração deste minério, metais pesados, cancerígenos, diluídos na água em quantidades impensáveis, desde mil quilômetros, do alto das Minas Gerais e sendo vomitado pela boca do rio Doce, direto no mar antes claro.


Um vago aviso, ignorado pela maioria.


Saímos de Carapebus, pegamos a via litorânea. Não havia mais espaço aberto, tudo construído, o trânsito congestionado. As praias se seguiram, dia de sol quente, cheias de gente, uma atrás da outra, Manguinhos, Jacaraípe, Nova Almeida, ninguém parece dar importância à lama da mineração, ao colapso do rio Doce e seus resíduos sendo despejado no mar, às toneladas, infestando norte e sul da foz, abrindo um leque avermelhado oceano adentro e ao longo dos litorais. Numa sociedade humana que merecesse este nome, o poder público estaria esclarecendo sobre os perigos mortais do contato com esses resíduos, indicando nas praias a contaminação gravíssima, contaminação que leva a gravíssimos problemas de saúde, desde doenças neurológicas até variados cânceres. Mas o poder empresarial fala mais alto que a consciência das chamadas autoridades e dos funcionários qualificados pra mentir sobre a realidade.


Nova Almeida, cada vez mais ao norte, a mesma indiferença.


Perto de Barra do Riacho, em território guarani, encontramos umas barracas com artesanatos indígenas de vários tipos, paramos pra assuntar. Das duas uma: ou aquelas pessoas temem responder perguntas ou não sabiam de nada, nem sobre o bloqueio de ferrovia e rodovias – “aquilo foram os tupiniquins, não nós” -, nem sobre a lama tóxica, nem sobre os motivos que levaram os tupiniquins àquela atitude. Os tupiniquins estavam em Comboios, em sua terra, distante ainda. Seguimos.

Vários congestionamentos pelo caminho, tudo parecia estar normal em seu movimento de verão. Não pude evitar um sentimento de nojo pelas administrações públicas em suas sucessivas omissões – em sua cumplicidade irrestrita com o poder econômico e em prejuízo permanente da população. Ali estavam milhares e milhares de pessoas sem a menor noção do perigo. Um vendedor de picolé me esclareceu que a lama estava passando a 25 quilômetros mar adentro, tinha passado longe dali e chegado em Vitória e na Praia da Costa, em Vila Velha. Ele viu na televisão, não tinha perigo...
Entramos no território tupiniquim de Comboios, já vínhamos em estradas de terra desde Vila do Riacho, deixamos o caminho pra Regência ao passar no marco da terra indígena. Estrada precária, cheia de costelas, íamos devagar quando fomos ultrapassados por um carro pequeno, com cinco jovens indígenas dentro. Buzinaram em saudação, respondi da mesma forma e eles seguiram na frente até sumir de vista. Poucos quilômetros depois, chegamos ao fim da linha. Era um grupo de casas na beira de um rio, todas fechadas, ninguém à vista, e a estrada fazia a volta. Paramos pra pensar e o carro deles apareceu atrás de nós. Estiveram nos observando. Fizemos a volta e paramos do lado deles, pra conversar. Expressão desconfiada, disseram que o cacique tinha viajado e só voltava quarta-feira. Perguntei se era o cacique que tinha virado pastor evangélico, eles falaram entre si e responderam que aquilo fora no ano passado e que o pastor não era mais cacique, tinha outro no lugar. Senti a resistência cultural, cacique convertido, cacique destituído. O campo pra conversa era bem pequeno, a desconfiança vibrava no ar. Imaginei o estrago que aquela conversão fez na comunidade, o cacique pastor deve ter arrebanhado muitas ovelhas antes de ser substituído. Agradeci e fomos embora, destino Regência, só estrada de terra.


Foz do rio Piraqueaçu, que passa nas terras indígenas.


A uns dez quilômetros de Regência eu vi, à esquerda da estrada, um agrupamento de casas e várias bandeiras vermelhas do MST. Olhei melhor e vi as lonas pretas – um acampamento. Paramos. Entramos em contato com os primeiros moradores, próximos ao portão. Expliquei nossa viagem e propósito, eles ofereceram café. Na conversa soubemos do canal aberto pra levar água do rio Doce pra uso industrial da Aracruz Celulose, através da Fíbria, que prepara celulose pra Aracruz, desfaz o eucalipto em massa. Nós havíamos passado em frente, uma indústria grande, imponente, soltando fumaça pelas chaminés modernosas. Nos campos em frente, do outro lado da estrada, o cheiro é forte e dá mal estar, dor de cabeça, trava na garganta. Vimos espaços como grandes pastos, mas cobertos de um material entre branco e cinza, onde o vento levanta uma espuma incompreensível, pois parece areia suja, sólida. Agora os caras nos mostravam o canal, a um quilômetro do acampamento. Construído pela Aracruz pra levar água do rio Doce até a indústria da celulose, azarou a pesca no baixo rio Doce até a foz e produziu peixe farto. Isso trouxe um monte de famílias pobres de pescadores pra viver junto ao canal, ganhando a vida. E assim viviam, apesar das águas já contaminadas mas não mortais ainda e cheias de peixes. Até chegarem os rejeitos da mineração, a lama vermelha da Samarco. Não havia uma barreira na entrada, o rio Doce escorria pra dentro sem obstáculo. O canal é uma linha reta até onde se pode ver, de uns quinze metros de largura por um e meio de profundidade, água translúcida que deixava aparecer marcas avermelhadas na cor da lama. Nos dias em que os rejeitos da mineração chegaram, com seu aspecto grosso e avermelhado, os peixes passavam desesperados, fugindo, entrando pelos pequenos canaletes e afluentes do canal, aos enxames, “dava pra pegar com a mão, aos punhados”, como disseram os moradores do acampamento. E morreram todos os peixes, pois todos os afluentes foram penetrados pela morte da mineração. Durou pouco a vermelhidão do canal, as máquinas da indústria seriam danificadas com os detritos metálicos, em pouco tempo a água clareou, ainda que deixando sua impregnação vermelha de resíduos sólidos no fundo, nas folhas, nos troncos submersos. Então é possível filtrar de algum modo os rejeitos da mineração, desde que haja interesse empresarial, no caso, da Aracruz em manter suas máquinas. Por que não usam o mesmo sistema no rio Doce, ainda que adaptado pro volume muito maior? Certamente pelos custos da operação. Existe como, mas não há interesse e não se divulga. A água ali, embora turva, está translúcida, num enorme contraste com a do rio Doce, que nem água parece. Bueno, não é.


A ponte sobre o canal e a turma do acampamento.
A folha boiava, verde por cima, lama tóxica por baixo.



Uma draga limpa constantemente o canal.

O tronco submerso em água transparente mantém o vermelho.


Entre os moradores, se apresentou um casal, ele claramente indígena, ela branca, de cabelo comprido, sem brincos, no estilo evangélico. Era primo do cacique destituído, aparentemente convertido também. Disse que o cacique estava na região, perguntei se era o pastor e ele disse que sim. Concordou com relutância sobre a substituição do primo e, perguntado, afirmou ter se “esquecido” o nome do novo cacique. Falsidade no ar, fomos embora.
O dia já se despedia quando nos aproximávamos de Regência. Passamos pela base de operações da Tamar, seguimos adiante, paramos ao por do sol. Faltavam poucos quilômetros pro povoado, estacionamos solitários ao lado da estrada e caminhamos meio quilômetro pra chegar no mar. Olhei as marcas da maré cheia, revi as cores que vi em Mariana, em Bento Rodrigues, Camargos, Paracatu de baixo. Estavam ali, em cima da areia da praia. O mar, avermelhado, mas diluído perto da densidade do rio Doce. Claro, estavam misturados rio e mar. Não havia ninguém, a praia vazia, alguns aglomerados de madeiras atirados pelas ondas na areia, talvez também vindas, talvez, lá do alto da serra, de Mariana. O mar cheio de ondas, espalhando aquela espuma com tonalidades do tóxico letal, deu uma sensação de fim de mundo próximo... de um mundo, pro nascimento de outro.


Em Regência, todo mundo investiu no verão, como sempre, temporada de salvação das dívidas, de acumulação pro ano inteiro. Ninguém contava com a morte que viria pelas águas do rio Doce.


A lama veio e foi limpa. Interesses empresariais. Ou limpa a água ou páram as máquinas. "Milagrosamente", as águas foram limpas. Mas não as do rio Doce.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.