segunda-feira, 13 de julho de 2020

Ao vivo, amanhã à noite. Detalhes na formação da visão de mundo.


Terça-feira faremos uma espécie de "sala" no youtube às 20 horas, na intenção de contar minhas vivências e a formação do que sou hoje, como vejo, sinto, penso a realidade à minha volta, a sociedade, seus valores e imposições, suas seduções e ameaças, suas ofertas e cobranças. Na intenção também de arrecadar grana pra tratar de Celestina, a kombi, e chegar em casa nas condições necessárias pra comprar matéria-prima e garantir um tempo de produção pra repor o material vendido na viagem. Daí a proposta do ingresso voluntário - que não fecha entrada pra quem não pode pagar mas pode assimilar os conteúdos, a visão de mundo e da sociedade onde vivemos. Não desejo restringir o público, conto com a colaboração dos que puderem e acharem que vale. Cada atitude de acordo com a própria consciência.

A idéia é tratar de temas, separadamente, em cada “sala”.

A primeira será sobre a formação da minha visão de mundo, as mesmas visões que apresento a toda hora, inclusive que são a base do meu trabalho, serão abordadas nas suas formações, em detalhes, suas composições e reconfigurações ao longo do tempo e, sobretudo, nas vivências e experiências pelos caminhos. Será uma oportunidade pra detalhar a formação dessa visão de mundo que carrego hoje, embora sempre em mutação, mas com o alicerce já formado e forte de experimentações com a própria vida.

 “Numa circunstância pandêmica, onde o trânsito e a ocorrência da tradicional e calorosa aglomeração das exposições e encontros não são recomendados, encontramos uma forma alternativa internética de nos aglomerar e dar continuidade ao trampo. Nestes salões online teremos a oportunidade de partilhar as histórias e os acontecimentos que contribuíram – e contribuem – na formação da visão de mundo do Eduardo. Esse salão: “A formação da Visão de mundo” é o primeiro de uma série de encontros que acontecerão no canal do YouTube “Observar e Absorver – Eduardo Marinho” (link abaixo), e será aberto à todos, sem restrições. Haverá na descrição um link para contribuições voluntárias, via PagSeguro, sem muitas burocracias.”  (Amanda Mara)

Terça-feira, dia 14, às oito da noite. No canal do YouTube.

*Informações/dúvidas email para: observareabsorver.em@gmail.com


sexta-feira, 19 de junho de 2020

Uma olhada mais profunda

As mentalidades superficiais, ignorantes de história e teleguiadas pelo massacre midiático-publicitário-ideológico, reagirão negativamente a este artigo, pelo simples fato de ter origem em Cuba, país que pode, diante do mundo, dizer a frase de Fidel, num tribunal, depois da tentativa fracassada de tomar o quartel de Moncada, onde estava sendo julgado: "condenem-me, não importa. A história me absolverá".

A dialética destrutiva de Bolsonaro e o bolsonarismo:
Algumas chaves para decifrá-la

Jair Messias Bolsonaro, o ex-capitão-presidente que desejaria ser a encarnação de Donald Trump nesta parte do mundo, não é - por mais paradoxo que pareça – o principal problema do Brasil, que as políticas de Lula levaram a condição de sexta economia mundial e transformaram em referência da luta contra a pobreza, a partir de programas sociais com alcances sem precedentes no país.
O ex-capitão que desconhece seus deveres republicanos e apoia de forma explícita o retorno da ditadura como regime político é, apenas, uma das expressões grotescas das múltiplas crises que hoje afetam, de maneira simultânea, a esta naçãosul-americana. Todas elas agravadas pelo desempenho, pelos interesses de dominação e o ódio genético do chamado “bolsonarismo”, muito bem identificado pelo ex-ministro Celso Amorim [1].
Sobram análises da imprensa que concentram em Bolsonaro a atenção na hora de explicar a conflitiva evolução da política interna de seu país, porém este é o caminho mais curto para confundir o galho com a floresta. As crises que hoje dilaceram a vida dos brasileiros e que põe em perigo o regime democrático no país, têm raízes mais profundas. Em consequência, a história e os nexos/relações estruturais dos atuais problemas econômicos, sociais, políticos e ambientais do gigante sul-americano, são maiores e mais complexos que os derivados da gestão recente de um governo ou outro, de um presidente ou outro.
Uma pandemia, a do corona vírus SARS-CoV-2, se transformou em catalizador de todos eles, os levou ao status de crise multidimensional agudizada e pôs a nu as desigualdades inerentes a um sistema político que segue funcionando a favor de uma insultante minoria privilegiada.
Os atuais problemas internos do Brasil guardam relação, em primeiro lugar, com o regime de dominação de classes cujas estruturas de desigualdade, desde a colônia até aqui, nunca foram rompidas e hoje provocam estragos.
Se explicam pelo tipo de inserção a economia mundial que fizeram as elites oligárquicas do país no século XIX, depois da independência de Portugal, a partir de um modelo de desenvolvimento capitalista dependente e anuente às principais potências ocidentais, que agora retoma força com o bolsonarismo.
Revelam, em altíssimo grau, os inevitáveis efeitos do processo de crescente transnacionalização da propriedade e da riqueza no país, sobre a cultura e a prática política dos distintos grupos de poder que dominaram (e dominam) a economia e a vida nacional, sempre amparados no papel tutelar das Forças Armadas. Assim, confirmam as principais constituições do país, incluindo a vigente, aprovada em 1988 com conteúdos mais avançados que suas antecessoras. Isso explica por quê hoje Bolsonaro ataca com tanta veemência seus conteúdos “esquerdistas”.
A compreensão do momento político passa, também, pela necessidade de decifrar o alcance dos nexos/relações orgânicas entre os interesses do grande capital brasileiro e do capital transnacional, ao qual o primeiro está subordinado em diversos graus.
Demanda identificar como estão operando no sistema das distintas expressões institucionais (políticas, econômicas, parlamentares, judiciais, militares e ideológicas) dessa elite brasileira com seus pares/parceiros externos, e inclui também conhecer as zonas de conflito que de fato se estão observando no seio dela, porém dentro de um marco de retrocessos múltiplos para o país.
A partir das premissas expostas [2], é possível antecipar que uma eventual implosão do governo de Bolsonaro, seja via impeachment ou outra, passa hoje pelo comportamento que assumem as Forças Armadas como corporação; depende do modo como se dão as contradições de interesses no seio da direita que facilitou sua ascensão e, em particular, está sujeita ao grau em que se debilite o “bolsonarismo”; e guarda relação com o nível de apoio externo que, de maneira pouco clara e via aliados internos, tem Bolsonaro e a ultradireita que o sustenta.

Para desembaraçar os fios

Jair Bolsonaro se torna presidente graças a uma vasta operação política da direita nacional e internacional, que alcançou seus objetivos retrógrados não porque portassem bandeiras alternativas favoráveis a maioria dos brasileiros, mas graças às aberrações processuais do então juiz Sérgio Moro, que impediram Lula de ser candidato à presidência. 
Foi beneficiário, via Operação Lava-Jato, de uma estratégia geopolítica articulada a partir dos Estado Unidos com objetivos múltiplos. Entre eles, pôs-se a serviço das petroleiras estadunidenses, principalmente, as vastas riquezas do Pré-Sal, anulando, também, o protagonismo internacional do Brasil a partir da política exterior ativa e altiva instalada por Lula.
Alcançou a primeira magistratura porque mentiu-se à todos sem escrúpulos de nenhum tipo em relação ao Partido dos Trabalhadores (PT) e seus líderes, e em grande parte porque a direita soube cavalgar com eficácia sobre certas falhas, omissões e erros do PT e do campo aliado.
Nesse contexto, o “bolsonarismo” surge e se constitui como uma conjunção tão heterogênea como contraditória de grandes interesses econômicos e financeiros, de objetivos revanchistas no campo político e de valores retrógrados no terreno dos costumes. Bolsonaro os representa a todos, uma vez que na política externa busca ser mais trumpista do que o Trump.
É, em rigor, expressão de prejuízos anticomunistas reciclados, próprios dos piores momentos do macarthismo, como ilustram as “teses” extravagantes do “filósofo” Olavo de Carvalho, com residência nos EEUU. Expressa o primitivismo e a intolerância dos evangélicos fundamentalistas que acolheram Bolsonaro como fiel privilegiado, após seu batismo nas águas do Jordão.
Ganha vida em setores sociais principalmente urbanos, intoxicados pelo ódio promovido por uma guerra midiática desenhada milimetricamente para tentar a deslegitimação, desde a raiz, do PT e da esquerda aliada. E revela as nostalgias militaristas e repressivas dos protagonistas mais diretos, civis e militares, da ditadura instalada em abril de 1964, os que acreditam ter encontrado o momento de retomar, desta vez de forma menos sangrenta e até mais hábil, o controle direto do poder executivo.
E, o fundamental, o bolsonarismo é o projeto político, social, ideológico e econômico que no Brasil representa o ultra-neoliberalismo que o capital transnacional, sobretudo o de nacionalidade estadunidense, concebe como o caminho inevitável para recuperar seu poder de dominação ao sul do Rio Bravo. E, neste sentido, antinacional por seu caráter econômico e político, elitista por sua projeção social, e tão autoritário como repressivo em seu modo de proceder.
No terreno dos direitos, Bolsonaro confirma todos os dias o expressado em outros textos: é extremamente obstinado em levar adiante suas ideias e não se deixa controlar com facilidade.
Concluído o primeiro ano de Governo, o núcleo militar que lhe dá sustento teve convincentes evidências de que não alcançou impor seu papel tutelar sobre a questão presidencial, conforme a expectativa inicial. O tema, por suas complexidades, merece atenção particular.
Tal como Trump, Bolsonaro atua como se ainda estivesse em campanha eleitoral. E está. Todos seus passos, os de sua “família” e os do “núcleo ideológico” olavista em cruzada contra o inexistente comunismo, vão em direção a 2020. Este dado é chave: o objetivo é manter o sistema de privilégios obtidos a qualquer preço.
Neste ponto onde começam os problemas para os grupos de poder, que necessitam de certa ordem interna para assegurar a agenda ultraliberal em mãos do ministro da economia. As transnacionais têm pressa, desejam mais do Pré-Sal e as grandes estatais em fase de privatização. Para a Casa Branca, enquanto isso, é essencial o controle geopolítico integral do Brasil.
A direita oligárquica que facilitou o fim precipitado do Governo de Dilma se inquieta com o rumo recessivo da economia; o incremento de outros indicadores sociais, não só porque antecipam insatisfação social, mas também tensões internas que considera conveniente moderar com medidas paliativas, uma vez mais, com interesse de assegurar as cotas da ganancia do capital.
Porém, o plano de Bolsonaro vai por outra direção: abaixo da ideia de que “não queremos negociar nada”, exposta pelos manifestantes pró-ditadura no último 20 de abril, o que quer é armar as suas milícias e a todos seus seguidores, afim de que defendam o presidente que se auto percebe como a expressão de “todo o povo”, no mais pervertido sentido de populismo de direita.
Desta maneira, e com apoio da sua base social cativa (30-33%), o “novo Messias” está colocando o Brasil diante de sérios perigos de confronto civil, ou dizendo de outra maneiro, está jogando com a paz interna do país. Tudo isso com o discutível objetivo de consolidar uma liderança pela via das posições autoritárias. E o incentivo do medo na sociedade. As últimas pesquisas de opinião confirmam que tal opção está a virar-se contra.
O manejo/ a gestão/ o controle voluntarista da crise sanitária generalizada pela COVID-19, facilitou uma crise institucional que está em pleno desenvolvimento. Setores do Congresso, o Supremo Tribunal Federal, os próprios interesses que estão por traz dos meios de comunicação que os ajudaram a vencer as eleições passadas, as figuras mais lúcidas da intelectualidade e a academia estão reagindo com intensidade crescente para evitar o retorno a expressões fascistas de governo, como as que Bolsonaro e o bolsonarismo representam. Isso foi revelado, de corpo inteiro, na reunião do ministério bolsonarista em 22 de abril passado, magistralmente descrita por Frei Betto no “Circo dos Horrores”.
As mentes mais lúcidas do país, muitas delas distantes de todo projeto de esquerda, percebem que o mandatário / representante confundiu os votos que recebeu nas eleições passadas, com um cheque em branco para retroceder o país aos anos 60, quando ao calor do Ato Institucional AI-5 se podia torturar em nome da democracia e da luta contra o comunismo.
Em meio aos casos em ascensão, as forças de esquerda e progressistas, obrigadas pela pandemia ao distanciamento social que o presidente considera desnecessário, estão dando passos alentadores. Cresce a consciência coletiva de que há que se unir a luta pela democracia, dentro da composição mais plural possível, com a reorganização do campo da esquerda. Isso não será fácil na atual correlação de forçasEla não é nada política. Como nada é impossível se há decisão política, objetivos claros e apoio das massas. A dialética destrutiva do binômio Bolsonaro-bolsonarismo poderia, mais cedo ou mais tarde, criar o cenário social e político que possibilite a negação, desta vez com mais qualidade, de seus efeitos perversos para o país que, por seus recursos materiais e humanos, tem todas as condições potenciais para ser um facilitador da integração e cooperação soberana na região, assim com um ator global que propicie o multilateralismo, a partir de políticas de paz e cooperação, como já demonstraram os governos de Lula e Dilma.
Por: Rafael Hidalgo Fernández
Tradução: Amanda Mara Lopes

Notas:

·         [1] Ver: Celso Amorim ao portal TUTAMÉIA: “Os militares se meteram em uma armadilha” – 22 de abril de 2020. Ele sugere a oposição: “deveria se concentrar menos em Bolsonaro e mais no Bolsonarismo e em Guedes (o ministro da economia ultra neoliberal). Na área econômica as maldades continuam sendo encaminhadas” (leia-se as privatizações e a desnacionalização da economia, entre outras “maldades”).

·        [2] Em uma análise integral do assunto não poderia faltar, como princípio variável, “o nível de pressão sobre o Governo e Bolsonaro que exercem as forças de esquerda e democráticas”. A não inclusão desta variável se explica pelo fato de que neste momento ela não tem um rol determinante. Prevalece no país uma correlação conjuntural de forças que diverge da esquerda e dos setores progressistas. Estes se encontram em plena fase de reorganização, para a qual possuem experiência e o ânimo de passar pela contraofensiva necessária. Um processo de consenso, promissório, está em fase de gestação.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

X9 Internacional



Sérgio Moro e o FBI

 Uma recente investigação da Agência Pública afirma que Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça do Governo Bolsonaro e máximo juiz da Lava-Jato, foi o encarregado de garantir a atuação do FBI no Brasil durante os últimos anos.
O FBI está proibido de realizar investigações em territórios estrangeiros, já que precisa de jurisdição em outros países.
As conexões entre Moro e os órgãos de justiça e inteligência dos EEUU não são novas. Esta relação foi revelada anteriormente pelo Wikileaks, quando se tornou pública a existência do Bridges Project, em outubro de 2009, ainda que o empenho de parte das diferentes Administrações estadunidenses por subordinar a segurança brasileira a sua própria estratégia e interesses nacionais venha de muitos anos atrás. Durante a década de 90, o então chefe do FBI no Brasil, Carlos Costa, concedeu várias entrevistas ao jornalista Bob Fernandes nas quais revelou, sem dissimular, diversos fatos que demonstram este tipo de vínculo. Em 2004, Costa reconheceu que a Policia Federal do Brasil “se sente inferior e desmoralizada devido a dependência dos fundos do Governo dos Estados Unidos”.
Após os atentados contra as Torres Gêmeas em 2001, as autoridades estadunidenses começaram a utilizar o “terrorismo” como bode expiatório para a concretização de objetivosde interferência em diferentes partes do mundo, incluindo o Brasil.
A investigação
Em 18 de março de 2019, Sérgio Moro e o agora ex-diretor da Polícia Federal (PF), Mauricio Valeixo, se reuniram em Washington com o então secretário de Segurança Nacional, Kirstjen Nielsen, e o diretor do FBI, Christopher Wray. Ambas as partes firmaram um acordo afim de legalizar o “intercâmbio de informação sobre grupos criminosos e terroristas através do acesso compartilhado ao registro de impressões digitais e outros dados de identidade”.
Em outubro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto para unificar a base de dados que reúne a informação biométrica de cidadãos e cidadãs de todo o Brasil.
Segundo o tratado firmado em Washington, EEUU pode acessar os antecedentes de qualquer pessoa considerada “suspeita”, independente de que em seguida se prove sua inocência ante tal delito. Conforme esta disposição, o marco legal de atuação por parte das autoridades estadunidenses para acessar informações confidenciais é bastantepermissivo, ainda mais, considerando-se a relação de subordinação que mantém o Governo Bolsonaro para com as políticas que emanam de Washington.
Na mesma reunião, Valeixo firmou outro acordo, dessa vez com o chefe de Alfândega e Proteção Fronteiriça dos EEUU, Kevin McAleenan, que autoriza a atribuição de um agente do Departamento de Segurança Nacional dos EEUU dentro da PF do Brasil, afim de “coordenar as ações de segurança fronteiriça”.
Em meio ao escândalo da Vaza-Jato, Moro realizou uma viagem cuja agenda não foi revelada. A Agência Pública informou que o então Ministro da Justiça do Brasil preparava a instalação do Centro de Fusão ou Centro Integrado de Operações Fronteiriças (CIOF).
O CIOF é um gabinete de inteligência situada na Tríplice Fronteira (Foz do Iguaçu). O projeto foi criado com base em um edifício “modelo” da DEA que se encontra localizado na fronteira entre EEUU e México. Segundo a Agência Pública, tal estabelecimento é “o projeto sonhado da Embaixada estadunidense” pelo qual vem pressionando as autoridades locais há 10 anos. Como publicou Wikileaks, em janeiro de 2008, o Governo Lula se negou a classificar de terroristas os grupos que EEUU considerava como tal.
A viagem oficial de Moro começou em 24 de junho de 2019 e contou com a presença de Mauricio Valeixo, diretor da PF no momento, e outros dois funcionários. O itinerário incluiu duas visitas, uma ao centro de inteligência da DEA, situado em El Paso (México) e outra a um escritório do FBI dedicado a “luta contra o terrorismo”. Ainda que Moro tenha precisado voltar antes do tempo, no segundo dia depois de iniciar seu itinerário, as conversas continuaram semanas depois, quando o ex juiz recebeu uma delegação estadunidense no Palácio da Justiça em Brasília. A comitiva estava composta pelo subdiretor geral do Departamento de Segurança Nacional dos EEUU, David Peter Pekoske.
A CIOF foi inaugurada finalmente em 16 de dezembro de 2019, embora não sem antes ser “ungida” por “um pequeno séquito de estadunidenses” que visitou o recinto um mês antes e contou com a presença anfitriã de Sérgio Moro. O cônsul estadunidense em São Paulo, Adam Shub, e alguns membros do FBI fizeram parte do mesmo.
Em meados de julho de 2019, um mês depois de explodir o caso Vaza-Jato, Moro tirou uma licença não remunerada de uma semana para tirar férias nos EEUU junto à sua esposa. Segundo a investigação da Agência Pública, existem fortes indícios de que o ex juiz se reuniu em segredo com funcionários do FBI. Cinco dias após o regresso de Moro, Walter Delgatti Neto foi detido pela Polícia Federal, depois de ter confessado o hackeio das contas do Telegram pertencentes a membros do grupo de trabalho da Lava-Jato.
O agente Brassanini

Desde 2017, o escritório do FBI no Brasil está sob o comando de David Brassanini, ainda que seus trabalhos para esta filial se remontam, pelo menos, a 2006. Brassanini foi o encarregado de coordenar o trabalho da Embaixada dos EEUU em Brasília, os consulados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre, incluindo o trabalho dedicada a investigação sobre a Lava-Jato.
Uma reportagem produzida por The Intercept Brasil e Agência Pública revelou que já em 2015 o FBI realizava interrogatórios a denunciantes que estavam fechando acordos com os fiscais no marco da operação Lava-Jato. Os mesmos se realizaram sem o conhecimento (nem consentimento) do Governo Federal, então a cargo de Dilma Rousseff.
De acordo com a investigação da Agência Pública, quem posteriormente se transformou em chefe do FBI no Brasil participou destas instâncias de trabalho conjunto entre os gabinetes judiciais de ambos os países e inclusive as classificou como “dignas de elogio”.
Durante o Governo de Bolsonaro, Brassanini foi o responsável pela posição da Polícia estadunidense que cobrava maior hierarquia no esquema dirigido por Moro, conclui o informe.

Alejandra Loucau 31.05.2020



Tradução – Amanda Mara Lopes.


terça-feira, 2 de junho de 2020

Há política além de partidos

A afirmação de que "sem partidos não se faz política", que a gente escuta de vez em quando por aí, é um grande engano, na minha opinião.
Eu fiz política a vida inteira, sem me filiar a nenhum partido. Participei de ações, manifestações, passeatas, ativamente, produzindo cartazes, levando filho pequeno, convivi com os partidários de diversas linhas e grupos. Quando me chamavam à filiação, às vezes fazendo cobrança de "posicionamento", eu dizia que era filiado à minha consciência e a nada mais, jamais pensaria de acordo com as conveniências de um partido, de um grupo, de uma linha de pensamento que não partisse da minha própria consciência, com base na minha visão de mundo, na minha vivência.
Com o tempo e a convivência, fui vendo na política partidária - comprada, na minha visão, mas que poderia ser tomada pela sinceridade, honestidade e espírito de serviço à coletividade como um todo - verdadeira farsa institucional, montada em todos os seus detalhes pra não ameaçar a estrutura social, dominada dos bastidores pelos poderes econômicos esmagadores de mega-banqueiros internacionais, acompanhados pelo seu séquito de mega-empresas transnacionais, com seus acionistas podres de ricos e ávidos de mais e mais. Esse domínio se vê nas prioridades dos governos e instituições, sua proximidade com os mais ricos, sua promiscuidade público-privada, que só confirma essa fachada safada e mentirosa de "democracia", quando o que se vê são "instituições democráticas" infiltradas, influenciadas e dominadas por poderes econômicos e financeiros. 
"Políticos" de partidos, pra mim, ou são meros farsantes, ou iludidos que pensam que através dessas instituições se vai poder afetar a estrutura social ou são os que se conformam em fazer o que for possível dentro do esquema armado e passam a agir de acordo, armando, fingindo, mentindo, jogando com a imagem, com a mídia, com interesses, sem perceber que são úteis ao sistema social empresarista e patrimonial - desumano e anti-social - ao figurar como "prova" de que isso é uma democracia - "eles podem falar assim porque isso aqui é uma democracia" . São os dons quixotes institucionais, sem poder pra sequer tocar na estrutura. Nem a CPI da dívida pública, relutantemente instaurada, deu algum resultado prático. A dívida criminosa taí, firme e forte. E as esquerdas, em sua arrogância, não têm contato verdadeiro e profundo com a população. Seus condicionamentos de falsa superioridade são uma barreira imensa, tanto no trabalho imprescindível de conscientização dos sabotados sociais, quanto no enxergamento verdadeiro da realidade. Acabam dando legitimidade à farsa.
"Sem partido não se faz política" é um grande equívoco, uma indução estratégica em que os interessados em construir uma sociedade menos injusta caem, por não fazerem a revolução de base, a interna, se reconhecendo condicionado e induzido por estrategemas dos poderes reais, nos subterrâneos dos poderes falsamente chamados de públicos. Democracia é um povo bem nutrido, com uma boa educação, instruído, informado de verdade, consciente do seu valor, dos seus direitos e dos mecanismos de controle sobre os seus representantes. Ou seja, estamos muito longe de uma verdadeira democracia.

sábado, 30 de maio de 2020

A distância dá valor ao abraço

Paramos pra comprar uma coisinha numa loja de variedades. Ela desceu e foi, a criança (quatro anos) começou a gritar "mamãe, eu vou também!", ela já atravessava a rua, ele insistiu, "quero ir, quero ir, mamãe!". Ela já nem ouvia, eu respondi, "eu também queria ir, moleque, mas não dá pra gente ir todo mundo". Ele alongou a voz, contrariado e triste, "por quee, eduuu...? "Porque não estamos mais no tempo de chegar perto, não pode entrar em grupo, olha lá como não tem ninguém na loja. É tempo de ficar longe das pessoas, por isso que a gente tem essas máscaras". Ele não disse mais nada. E eu fiquei pensando, não é tempo de aproximação, de abraços, de apertos de mãos, de toque. Que tempos são esses...
Sinto falta dos abraços tão frequentes, do sorriso, das conversas, das risadas, da troca de sintonia, das percepções de dessintonias e suas raízes. Passei a vida toda expondo nas ruas, nas praças, vendendo minhas artes diretamente às pessoas, artes reflexivas que geram papos reflexivos, profundos, esclarecedores, instrutivos a todos os que participam com o canal de recepção aberto.
Olhei a loja do outro lado da rua, sentado ao volante da kombi, as prateleiras cheias de variadas coisas, eu adoraria estar lá dentro vendo tudo, falando com as pessoas, assuntando, dando risada. Mas não é tempo, agora, e não sei por quanto tempo será assim.
E me pergunto, por quê razão profunda isso tá acontecendo? Bueno, assim se vai perceber o valor do abraço, do contato, da troca. A humanidade, em sua maioria, não aprendeu a abraçar de verdade. Só conheceu o abraço no seu círculo restrito, que é muito bom, mas que precisa ser estendido pra muito mais, pra longe, pro todo. Abraçar toda a humanidade, toda a diversidade, toda a vida no planeta, incluindo bichos, plantas, águas, terras e ares. A gente ainda não aprendeu, não se desenvolveu a esse ponto como coletividade humana, embora existam muitas coletividades de exceções que sim, aprenderam e colocam na prática cotidiana. É preciso no geral e, por ainda não termos aprendido, fomos proibidos de abraçar. Os poucos vão no bolo. As exceções colhem os frutos do plantio geral, sem terem plantado em suas vidas. Algum motivo haverá.
Imagino um dia isso passando - ou mudando de etapa - daqui a alguns anos, quando a gente puder se abraçar de novo, sem medo, o alívio que vai ser. Talvez então o abraço possa ser mais que corporal, seja de alma, de irmandade, pra muitos mais. Pra todos sei que é impossível, mas haverá redução de hostilidades e aumento de afeto. Não posso afirmar certezas, mas é o que diz minha intuição. Ou isso ou iremos mais pro fundo do poço, pra ver se finalmente tomamos impulso pra nos tornarmos mais humanos pra constituir uma sociedade menos injusta, mais humana, menos perversa e mais solidária.
No indivíduo como no coletivo, o sofrimento é sempre oportunidade de crescimento, de desenvolvimento, de superação, sensibilização e entendimento. Daí que o espanto não é surpresa, tudo isso tá prometido há muito tempo, pela mística há milênios, pela ciência há décadas muitas. E ignorado, omitido pela mídia empresarial, porta-voz dos que se beneficiam da destruição e do desequilíbrio.
É preciso criar e desenvolver resistência pra esses tempos de mutação forçada, acelerada. A dor é certa, as revelações estão se fazendo a respeito da estrutura social em que vivemos, distraídos pelo massacre publicitário, midiático, ideológico, exercendo valores que não escolhemos, obrigados a uma vida sem sentido verdadeiro, com sentidos superficiais e falsos, a caminho da sensação de vazio, de inutilidade da vida, da falta de sentido. O sentido da vida é abstrato e vai muito além da vida, somos um grupo muito maior do que pensamos, do que enxergamos. A matéria não é a única dimensão da existência, temos portais interdimensionais à vista, nascimento e morte. Pra mim, é óbvio que a razão, o objetivo da vida não está no mundo físico, pois que temos entrada e saída - com apenas algumas décadas de passagem numa realidade "eterna". Entre aspas porque a eternidade está fora da minha capacidade de compreensão e alcance. Mas o pouco que alcanço já é muitíssimo maior que a vida física. Assim os valores do mundo são temporários e, no momento, artificiais, induzidos e ilusórios.
Os tempos de hoje impõem distanciamento pra que aprendamos a tratar melhor com as aproximações.  Não só, evidentemente, mas sobretudo. E como processo coletivo, são tempos de gerações várias, um hoje estendido a décadas, talvez séculos. Os abraços ainda serão amplos, gerais e de almas, mas o processo não termina aí. O sentimento de coletivo deve alcançar o nível de não admitir mais fome, miséria e abandono. Será o tempo de uma sociedade humana, finalmente. O que for necessário pra chegar a esse ponto, será.


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Artigo interessante sobre a geopolítica mundial da atualidade


As novas equações no sistema de poder mundial

Por: Nicola Hadwa y Silvia Domenech
Publicado 25 maio 2020



Na atualidade, a política externa norteamericana já não tem um epicentro. Os focos vitais para os Estados Unidos estão no mundo inteiro. E cada vez são mais perigosos para todos.
Há algumas décadas, as potências ocidentais criaram um sistema de poder que, praticamente, as converteu em juízes permanentes de um mundo dominado pelo imperialismo, a cujos ditames os países deviam se submeter sob pena, caso não o fizessem, de se verem invadidos, sob diferentes pretextos, ou ser alvo de golpes de estado ou, simplesmente, enfrentar sua destruição econômica e política.
O desenrolar dos acontecimentos, a arrogância do poder unipolar norteamericano e a necessidade de sobrevivência interna do capitalismo e das estruturas econômicas internacionais feitas à sua maneira, leva, no entanto, este sistema de poder a tentar submeter outras economias, como a chinesa e a russa, e colocá-las sob sua esfera de controle direto. Lancemos uma rápida vista aos últimos acontecimentos.
Comecemos pela tentativa de derrubar o governo sírio e tirar a Rússia do mar Mediterrâneo, privando-a do único porto russo no Mediterrâneo, Tartús, onde chegam os navios da Criméia, no mar Negro. O iminente fracasso desta ação leva o império a derrubar o governo ucraniano para colocar um fantoche e depois privar a Rússia do porto de Sebastopol, na Criméia. O resultado desta manobra significou a separação de algumas províncias do Donbass e um referendo onde a população da Criméia votou de forma esmagadora em pertencer à Rússia, e não à Ucrânia, intensificando as pretensões norteamericanas de isolar a Rússia.
Logicamente, soaram os alarmes e se preparam condições para derrotar novas conspirações anti-russas.
A administração dos Estados Unidos se volta para a China, pretendendo atrasar e diretamente minimizar o desenvolvimento econômico desse país, para dominar sua economia e favorecer as transnacionais norteamericanas, cujos interesses estão entrelaçados com os das européias, a fim de que estas mantenham a hegemonia comercial e estabeleçam o controle sobre o comércio chinês. Isto leva o império a tentar cortar e anular todos os projetos de desenvolvimentos comerciais da China, principalmente os relacionados com a nova rota da seda e, em particular, com a Organização de Cooperação de Shangai que inclui ainda, entre outros, a Rússia, e à qual se integram países como Irã, que é um aliado estratégico desta última.
China, então, amplia e adapta o porto de Chabahar, no sudeste do Irã, na fronteira entre o oceano Índico e o mar de Omã, o que lhe permite conectar-se com o Golfo Pérsico para que funcione como centro de distribuição para todo o mundo, principalmente Europa, do novo comércio pela rota da seda, que necessariamente integra a países como Paquistão, Irã e Rússia, entre outros, a qual aglutinaria 65% do comércio mundial e concentraria países que possuem ao redor de 70% dos recursos do mundo. No centro deste comércio estarão Rússia e China e, de forma crescente, o Irã.
O império, em sua tentativa de isolar a Rússia, junta a intenção de bloquear a China. O que, evidentemente, levou ambos países a estreitar suas alianças político-comerciais e atuar em conjunto, já não somente na Ásia, mas em todo o mundo, e a se protegerem e colaborar com seus aliados.
Os Estados Unidos se dá agora a tarefa, em conjunto com seus obedientes e submissos colaboradores Arábia Saudita e outros como Qatar e os Emirados Árabes, de bloquear tanto a Rússia quanto a China, de forma conjunta.
Desta perspectiva, criam um movimento terrorista de envergadura, o Daesh (ISIS) ou Estado Islâmico, organização ultra-terrorista e selvagem. Seu objetivo central seria derrubar o governo sírio e depois o iraquiano, para fechar a passagem da China pela nova rota da seda e, fechando o porto de Tartús à Rússia, transportar o petróleo saudita e dos Emirados – por um oleoduto que desembocaria em Haifa – para a Europa. Seu preço quase monopolizado permitiria anular o comércio do petróleo e gás da Rússia com a Europa e, dado que a fonte do abastecimento seriam as monarquias feudais, a quem não importa desperdiçar os recursos do país, este sempre teria um preço preferencial, o que daria ampla margem à possibilidade de debilitar profundamente a economia russa e ao país. Os riscos para a Europa de uma campanha anti-russa, de forma direta e decidida, no entanto, eram muitos, já que qualquer contradição entre as empresas européias e norteamericanas e a falta de alternativas de abastecimento poderia significar um preço monopolizado e/ou a perda de liberdade comercial.
Por outro lado, seguindo esses desígnios ianques, a monarquia feudal Saudita inicia uma guerra insensata contra o Yemen, com o objetivo de satisfazer o desejo norteamericano-israelense de controlar o estreito de Bab El Mandeb*, gargalo que dá acesso ao Mar Vermelho desde o oceano Índico, pelo golfo de Adén, o que o faz passagem obrigatória até o canal de Suez e o Mediterrâneo, tendo portanto uma imensa importância para o comércio e a segurança internacionais ao ser o que liga os portos europeus com a Ásia e com o Golfo Pérsico, passando por em torno de 10% do petróleo mundial transportado por mar.
Foi a aliança da Rússia com o Irã e com as forças anti-imperialistas e anti-sionistas do Oriente Médio – a Frente da Resistência formado pelo Movimento Libanês Hezbollah, o governo da Síria, o Movimento Yemeni Ansarolá e outros grupos aliados, como Hezbollah Al Nuyaba, do Iraque, Hashad Al Shaabi, Ansar Allah, Hamas, Jihad Islâmica Palestina e a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) – o que permitiu mudar o rumo da guerra contra o terrorismo na Síria e deter a desintegração desse país. E fazer, em geral, que todos estes projetos de domínio imperial do Oriente Médio estejam sendo derrotados.
Arábia Saudita e seus aliados, no entanto, têm demonstrado ser os traidores não só dos seus povos, mas do mundo árabe e islâmico, num trabalho absolutamente contrário a estes, colocando seus recursos à disposição do regime sionista e dos Estados Unidos, para promover o domínio destes sobre os pontos estratégicos do Oriente Médio e, ao mesmo tempo e de forma ativa, a normalização dos laços com aqueles que os exploram e, em especial, com esta entidade anti-árabe e anti-islâmica que é a entidade sionista. Mas há mais ainda. Traíram também o povo palestino e sua luta contra a ocupação sionista.
Mas a guerra contra a China não pode parar. É a guerra do petróleo. E aí está a entidade sionista, que segue fiel ao seu rol de gendarme do imperialismo, apesar da estratégia de usá-la como meio para agredir e derrotar os países da Frente da Resistência e obrigá-los a se submeterem aos Estados Unidos ter falhado. Não importa, os estadunidenses sempre os apoiaram. Os sionistas coordenam as atividades contra os povos do Oriente Médio e em outros continentes, cooperando ativamente nos complôs contra Venezuela, Cuba, Nicarágua e Bolívia, tratando de deter o inexorável despertar independente e libertário destes países, os quais também desafiaram o controle imperial. Países que este controle tenta sufocar, por meio de bloqueios ilegais, ilegítimos, que Rússia, China e Irã têm contribuído para resistir, transferindo suas ações de confrontação com o domínio norteamericano para a América Latina.
O interessante é que, se como base territorial do sionismo, sua entidade (Israel), em quilômetros quadrados, não é muito grande, ela representa o capital financeiro mundial e seu poder é imenso, pelo que seu lobby controla a política externa (e o congresso - n do T) dos Estados Unidos. O governo norteamericano, então, pressionado pela entidade sionista que controla sua política externa para os países árabes e tira vantagens aceleradamente da presença no poder de uma administração pró-sionista arrogante e soberba – que simplesmente há demonstrado não ter nada de estadista, apenas ser inábil em política, acostumada à busca de fortuna e sem conhecimentos –, inicia gestões para reforçar Israel. E agora doa terras e cidades, que não lhe pertencem, ao colonialismo sionista, aprofundando ainda mais seu conflito com o povo palestino, que resiste à ocupação e ao roubo do seu país.
Em meio a todo este panorama e afundado na crise gerada pela pandemia do COVID-19, Estados Unidos anuncia o deslocamento de uma “estranha” operação militar antidroga, ao que segue um frustrado atentado de incursão marítima na Venezuela. A realidade é que os Estados Unidos quer lançar mão do poder na Venezuela para controlar o mercado de petróleo e gás no mundo e, assim, poder novamente estabelecer um preço que, enquanto dana a economia russa, não lhe gera perdas – pois o prejuízo deverá ser absorvido pelo povo venezuelano – e não afeta as reservas ianques. E com o terrorismo e suas próprias bases militares no Oriente Médio, poderia manter a guerra terrorista contra a Síria e o Iraque, desta vez com o apoio da Turquia, e prolongar pela maior quantidade de anos possíveis, tentando assim paralisar e bloquear o projeto chinês da nova rota da seda, ao qual se incorporaram e trabalham ativamente a Rússia, o Irã e o Iraque.
Tudo isso quer dizer que o governo da Venezuela não só constitui um incômodo exemplo para a América Latina. Se transformou no ponto chave para fazer fracassar os planos globais do império, dirigidos a dominar o mundo com o enfraquecimento de Rússia e China. Países estes que, junto ao Irã, sustentam e apóiam a Venezuela e a queda do governo venezuelano nas mãos de um fantoche dos Estados Unidos como o auto-proclamado presidente Juan Guaidó constituiria para eles uma derrota estratégica.
Não é por acaso, então, que estes países estejam ajudando a ressurgir adequadamente a produção petroleira venezuelana. Assim, Rússia e China aportam capital, instrução militar e armas para que tenha capacidade de resistir ao embate criminoso do império contra o povo da Venezuela. Império que espera um levante popular cada dia mais distante. Com ajuda russa se reativou um complexo de refinarias com capacidade para 140.000 barris e agora, com a ajuda do Irã, pretende-se recuperar toda a capacidade de produção de combustíveis refinados. O Irã está enviando neste momento ajuda de emergência à Venezuela. Ajuda que os Estados Unidos ameaça deter, cinco superpetroleiros, além do pessoal que está no país trabalhando para reativar a dita capacidade de produção, que se quer levar novamente a cerca de 1.000.000 de barris de petróleo por dia e convertê-los em 66.000.000 de litros de gasolina, lubrificantes e outros derivados. O que romperia o bloqueio ianque sobre este país latinoamericano e terminaria por fazer fracassar o plano israeli-estadunidense contra a Venezuela, que pretendem substituir o governo por um à maneira dos planos imperiais.
Na Venezuela se joga, como na Síria, portanto, o destino dos planos norteamericanos. Em ambos, as desesperadas manobras imperialistas de desestabilização estão fracassando. O Estado sionista, que depende do músculo norteamericano, vai cavando sua própria sepultura, junto ao império. A nova equação já não tem só o Oriente Médio como centro de gravidade. Este é a América Latina, a Europa e o mundo inteiro, posto que o império se move sobre areias movediças. Mais por seu desespero em deter o rompimento do bloqueio à Venezuela, está colocando o mundo em uma perigosa rota de colisão.


*Nos últimos anos, este estreito tem passado por vários conflitos e se converteu em cenário da rivalidade entre potências regionais e mundiais, que pretendem se assegurar do seu controle. Ali se concentram aspectos de grande importância na atualidade do Oriente Médio e África Oriental: a guerra no Yemen, as constantes disputas e enfrentamentos no Sudão e na Somália, o confronto entre Irã e Arábia Saudita e é passagem obrigatória do petróleo e gás procedentes do Golfo Pérsico, pelo que constitui um ponto estratégico que atrai a presença e a influência de diversos países.

Nicola Hadwa – Analista internacional chileno-palestino. Ex-treinador da Seleção Palestina de Futebol. Diretor da Liga Latinoamericana pelo Direito ao Retorno e coordenador do Comitê de Solidariedade com o Povo Palestino do Chila. Especialista em temas principalmente do Oriente Médio. É colaborador de varias redes de notícias internacionais.
Silvia Domenech – Pesquisadora cubana com vários livros publicados. Doutora em Ciências Econômicas e Professora Titular da Universidade de La Habana e da Escola Superior do PCC.
Tradução – Eduardo Marinho.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Andorra agradece


Andorra é um principado encravado ao norte da Espanha, sem litoral, em área montanhosa. Muitas referências dizem "Andorra, Espanha", como no googlemaps, por exemplo. Mas espanhóis lá são considerados estrangeiros. Como "principado" imaginei que fosse uma monarquia, como a Espanha que, como reino, tem alguma superioridade sobre um principado. Mas na guerra espanhola, o exército do general Franco não passou da fronteira, o que demonstra que a Espanha respeita Andorra. Verdade que o exército francês tava lá dentro, pra garantir. Aí é que tá. O presidente francês é também co-príncipe de Andorra, são dois co-príncipes lá, o outro é o bispo católico da Diocese de Urgel, em território espanhol, nomeado pelo Papa, do Vaticano. Isso é um acordo que vem da idade média, sei lá como rolou, mas vem assim desde o século 12 ou 13. Por isso Andorra não é uma monarquia, é uma diarquia, a única no mundo - eu nem imaginava que existisse uma coisa dessa. 
Do tamanho de um município brasileiro médio, tem dez cidades - a maior com pouco mais de 24 mil habitantes e a menor com pouco mais de 1 mil e 600. Vive basicamente do turismo, embora produza alguma coisa nas suas áreas rurais, e é o segundo país mais alto da Europa, o primeiro é a Suíça. Hoje é uma diarquia parlamentarista, com governo, legislativo e judiciário. Não tem exército, França e Espanha garantem sua segurança, até com seus territórios, que Andorra só faz fronteira com esses dois países, e pelo fato dos dois co-príncipes viverem nesses países. Que acordo medieval criou esse quadro, nem imagino.
Recentemente, com o desastre do coronavírus na Espanha, o lado francês com um pouco menos violência mas igualmente ameaçador, Andorra se viu frigideira com fogo dos dois lados. Com apenas um hospital e uma dúzia de centros de atenção primária, a pequena população - perto de oitenta mil habitantes - viu a pandemia entrar com força. Eu não sabia de nada disso.
Chamou minha atenção as declarações que o ministro da saúde de Andorra fez esses dias, agradecendo os médicos cubanos por terem ajudado a conter a propagação da pandemia, "quando a brigada chegou, a incidência do SARS-Cov-2 era muito alta e o trabalho dos cubanos teve um impacto favorável no declínio da letalidade". A ministra das relações exteriores agradeceu a Cuba pelo envio dos profissionais, "por sua ajuda diante da pandemia".
As declarações foram feitas na despedida de 13 profissionais de saúde que regressavam a Cuba. Ficaram por lá ainda 26, por solicitação das autoridades locais, acompanhando os trabalhos na continuação. Fiquei curioso sobre os números de Cuba, busquei informações. Lá puseram grupos de saúde andando de casa em casa, testando todo mundo, todo contaminado teve sua rede de relações pesquisada e testada com atenção redobrada. E medicina é uma das maiores especialidades de Cuba, assim como a educação é outra, na formação de seres humanos solidários e conscientes.
Cuba teve 1974 casos confirmados, 467 internados, 1724 recuperados e 82 mortos pelo corona. Numa área próxima a Espírito Santo e Rio de Janeiro juntos, com menos de 12 milhões de habitantes. Botaí em proporção às populações. E pensar que os cubanos foram os primeiros a serem enxotados do Brasil por esse "governo", antes mesmo da posse, com ameaças e estímulos à agressividade a esses médicos - que servem ao mundo com sua medicina e seu amor. Teve médico cubano nos países europeus em crise corônica, Itália, Espanha, já ao longo da história Cuba exporta medicina e educação, sobretudo em países pobres. Nada é divulgado na mídia empresarial, ao contrário, se difama, se insufla o ódio contra eles e seu país. "Que medicina gratuita é o cacete, aqui é medicina lucrativa" dizem os poderosos da doença, como o que reclama da queda de acidentes de trânsito, assim não dá, os hospitais estão quebrando, é preciso quebrar e adoecer pessoas pra estimular o negócio.

Em español. 

Sobre Andorra eu pesquisei na wikipédia mesmo.



sábado, 23 de maio de 2020

Crenças, sentimentos, realidade e conduta. Disparate entre forma e conte...

Primeiro "ao vivo" feito na Chapada dos Veadeiros, onde fomos bloqueados em viagem pelas restrições devido à pandemia do coronavírus. Como sempre, sinto que falo o óbvio. O óbvio sentido e desacreditado.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

O desperdício de julgar

Quem tem uma consciência atenta e atuante não se importa com julgamentos alheios. Um julgador é vítima dos condicionamentos sociais, programado pra arrogância, pro conflito e pra cegueira em relação a si mesmo. A atenção nas "falhas alheias" não permite perceber as próprias falhas. Só cria conflitos inúteis e piora as situações.
A formação social estimula os egos, as cobranças, os julgamentos, as disputas, os conflitos. É da natureza social encontrar mentalidades programadas pra intolerância, pra posse das verdades, pro confronto, pro insulto. Quando encontro idéias fabricadas, colocadas de forma agressiva, minha raiva se dirige à sociedade que produz essas mentalidades no atacadão, geral, pra todo lado, não às pessoas que as emitem. Seria não só um desperdício de raiva - ela pode ser criativa, ou um estímulo a lavar aquele monte de coisa amontoada na pia da cozinha -, como o despertar de um bate-boca inútil, a criação de conflito do jeitinho que é induzido. Eu me sentiria idiota. Já me senti, algumas vezes. Mas prefiro evitar.
No meu entender da vida, cada um produz sua própria freqüência, querendo ou não, sabendo ou não, consciente ou inconscientemente. Essa freqüência encontra suas sintonias, naturalmente. Encontros, desencontros, simpatias, antipatias, atrações, repulsões, "acasos" e "coincidências", muitas vezes são frutos da freqüência pessoal de cada um - só pra não dizer todas. Sentimentos, pensamentos, desejos, caráter, temperamento, visão de mundo, atitudes, tudo isso e muito mais formam essa vibração, ou padrão vibracional. É único, pessoal, mas na coletividade se formam faixas, áreas de freqüência - quem sabe física pode explicar em detalhes. Eu só sinto.
Estamos aí, na lida. É bom lembrar que o latido dos cães não impede a passagem da caravana. Seguimos sempre, variando a dimensão.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Helvio Rech, Franck Maciel Peçanha e eu - em tempo de pandemia

Conheci Franck em Uruguaiana, convidado por ele a participar de um evento na Unipampa. Fiquei por lá, expondo, por uns dias, atravessei a fronteira argentina pra experimentar uma cerveja com ele. Sentia tanto frio que mesmo vestindo todas as roupas que tinha levado, tremia. Penalizado com minha situação, Franck me deu um casaco pra frio congelante e o frio ficou fora. Esse casaco eu só uso de raro em raro, em alto de montanha no inverno.
O Hélvio fui conhecer na fronteira com o Uruguai, num evento centrado na união latinoamericana, a chamado do Franck. Ali, vi Pepe Mujica fazer uma fala e receber o único título honoris causa da Unipampa. Ele estava na mesa ao lado do mestre de vida, aparece no filme "Via Celestina", que a gente estava fazendo naquela viagem - o Hare como diretor-câmera-contra-regra. A cada fala certeira do Mujica, ele sorria. Bueno, estamos os três nesse papo de quase duas horas. Quem tiver paciência e interesse, que agüente. A quem der proveito, agradeço.
Ah, ia esquecendo, numa certa altura o Hélvio me situou no Tocantins, talvez por eu ter dito antes a ele que estava próximo à fronteira entre Goiás e Tocantins. Na verdade estou em Goiás.



domingo, 26 de abril de 2020

Desconfio



Desconfio que estou vendo um tabuleiro, um imenso tabuleiro cheio de peças sendo jogadas, todos de olho nas peças. Os movimentos de cada uma geram comentários, opiniões, debates, denúncias fundadas ou alucinadas. Conclusões são tiradas, previsões estabelecidas. “Está se armando pra ser presidente na próxima eleição”, “está se preparando pra dar um golpe de Estado”, nomes são sugeridos pra cargos, candidatos se posicionam, uns dentro do tabuleiro, outros prontos pra entrar, alguns outros na penumbra, em espera de ocasião favorável. No escuro dos bastidores, longe das luzes e dos olhares, os poderes que  movem as peças estudam suas jogadas. A platéia se agita diante do “espetáculo”, se divide nas torcidas várias, de diferentes linhas, idéias, opiniões, visões de mundo. Propostas, saídas e soluções são colocadas pra resolver todos os problemas. O “fim da corrupção” volta à baila. E não se vê a corrupção como regra fundamental do jogo. Como parte da estrutura social. Não aparecem os “jogadores”, não estão neles os holofotes das mídias empresariais, as peças são apresentadas como quem decide seus próprios movimentos. A mentira é pregada no inconsciente coletivo: o bom político serve ao povo, o mau político serve a si mesmo e a seu grupo. E não se vêem as forças tenebrosas que decidem as “políticas públicas”, o nível de atendimento à população, que determinam o modelo de ensino, dominam as comunicações e criam as mentalidades induzidas, em todos os níveis sociais e educacionais, que verão poder de decisão e autonomia nas peças do jogo. Os níveis se hierarquizando entre si, uns vendo e entendendo mais, outros menos, mas sobre a mesma ilusão. De tudo isso, desconfio.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

"É o fim do mundo...", diziam os mais velhos no meu tempo de criança

Em 24 horas, 407 mortes de coronavírus no Brasil. E as mortes por problemas respiratórios se multiplicaram sem se considerar a possibilidade. Sem exames, não contam esses mortos. Ao que me parece, a multiplicação de óbitos (mortes) por questões respiratórias está acontecendo em muitos lugares. Os registros oficiais de óbitos dão conta da multiplicação desses casos, em cemitérios e em cartórios. Ridículo não ligar as coisas.
Quando se fala nisso se ouve falar em conspiração, em torcidas, comunismos incríveis e outras superficialidades toscas, ignorantes ao extremo. Estamos chegando nos 50 mil infectados sem levar em conta os não examinados nem os mortos "por fora". Quanto mais vamos precisar pra essas pessoas silenciarem, raivosas e constrangidas, até que a raiva se transforme em medo, pânico, até que a covardia aflore e se negue tudo o que se disse e defendeu até então? Qual a força que obrigará a reclusão desse ódio nos corações que o abrigam e sua transformação em arrependimento e vergonha? Não serão todos, certamente. Mas serão muitos.
Quantas vezes ouvi os mais velhos do meu tempo de criança - por motivos hoje "triviais", como uma minissaia exagerada, uma briga de torcidas, um homem com feminilidade, uma criança grávida, um assassinato brutal,... -, "é o fim do mundo!" E eu achava graça, criança que era. Agora sou eu a dizer "é o fim do mundo". Só que o fim do mundo, pra mim, é outra coisa.
Cada fim se liga a um novo começo, cada começo se destina a um fim. O fim de um mundo leva ao surgimento de um outro mundo. Esse "outro mundo possível" de que alguns falam, onde não existam a miséria, a ignorância, a fome e o abandono, onde a prioridade seja o ser humano como um todo, a prioridade esteja no atendimento de toda necessidade fundamental da vida, na eliminação de toda conseqüência da desumanidade de um sistema social onde a economia das empresas é mais importante que a vida, a saúde, a educação verdadeira, humanizada, direcionada à formação de seres humanos que se integrem com harmonia na sociedade, solidariamente, uma educação que tenha como objetivo a harmonia social. E não a formação de competidores implacáveis pro mercado de trabalho ou, muito pior, o mercado financeiro. Mercados pra quem a vida não vale nada, diante da ânsia de lucro, de riquezas e poder. 
Valuá diria que gosta do meu otimismo, porque ele vê péssimas possibilidades à frente, no sentido social. Eu não me sinto nem um pouco otimista, o que estou vendo é muito sofrimento pela frente, como é sofrimento tanto morte quanto parto. Serão gerações nessa lida, não é coisa de pouco tempo. Mas sinto a lapidação acontecendo, a partir de mim mesmo e no mundo à minha volta. Esse sentir está ligado ao alcance que posso ter de espiritualidade, onde as dimensões de existência são muitas - a material é apenas uma delas, o campo de provas e aprendizados onde podemos crescer e nos desenvolver - embora eu não tenha o atrevimento de "entender" ou "explicar". Não permito que minha razão se meta onde não tem alcance. Ali o que vai mais fundo é o sentir, a intuição, ainda sem a pretensão de chegar nem perto da totalidade, apenas vai muito mais longe que a razão na percepção da realidade. Valuá é ateu por completo.
A vantagem que tenho nessas discordâncias é saber que, se eu estiver certo, vou poder dizer pra ele, "viu? Não te falei? Eu te disse, eu te disse". Já ele, se estiver certo, não vai poder falar nada.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.