sábado, 16 de maio de 2015

Viagem ao sul... rolando.

Nas estradas do sul estava frio e lindo.


Saímos meio dia do Rio, fomos pela Dutra e Régis Bittencourt, dormimos às três da manhã em Curitiba, num posto de abastecimento. Foi difícil achar gás combustível. Às oito saímos de Curitiba, fomos até a madrugada, já na gasolina, quebrando na estrada de Ijuí, no RS, estradinha estreita de mais estreito acostamento. Dormimos dentro, sacudindo a cada passagem de carreta a um palmo da kombi. Manhã seguinte, mais uma aula de mecânica e seguimos viagem. Não era nada demais, apenas velas queimadas e falta de combustível. Mas gastamos o dia, partimos tarde e encaramos noite alta, pra chegar a Santiago por uma estradinha ainda mais deserta e toda esburacada. Não havia um posto nos cem quilômetros e o tanque ia abaixo da reserva quando entramos na cidade. Eu já contava com uma parada a mais na estrada, Pepe e eu respiramos quando vimos o posto, esperávamos a qualquer momento o motor parar, havia uns quinze quilômetros no escuro da estrada.
Depois da proveitosa estadia em Santiago, onde pudemos descansar por inteiro num hotel, partimos pra Santa Maria, onde dormimos uma noite na casa nove, depois de um sarau bueno e de uns vinhos ótimos, e seguimos pra Porto Alegre. Há histórias nesse caminho que tornariam esse texto uma enormidade. Numa das madrugadas, em Porto Alegre, fomos guiados por um carro de polícia por várias ruas, perdidos, até a rua que procurávamos. Não pedi nada, apenas informações a um segurança numa casa noturna que ficou satisfeito comigo por uma atitude casual e parou um carro patrulha, mandando que nos levassem ao lugar que ele tentava me explicar, com tantos detalhes que se perdia a explicação. Ele era sargento, fazendo um bico de segurança. Foi engraçado seguir, a distância segura, um carro em patrulhamento, por várias ruas, até a Cristóvão Colombo, onde estávamos. Mais engraçado ainda era o meu estado esse tempo todo.
Domingo vamos ao Sarau no Sarandi, segunda arrumamos a kombi, terça seguimos pra Santa Maria.
Aula de mecânica ao amanhecer do dia. A noite foi fria, acordei cedo e parti pra dentro.



O defeito não era na frente. Troquei a bomba de gasolina - antes nem sabia que no motor tem uma bomba de gasolina. Troquei também a bobina de ignição. A aula foi completada com a interferência de um mecânico de verdade. O problema começou por falta de combustível. Certo constrangimento. Mas tivemos que trocar as velas, que estavam queimadas. Pelo menos não era só falta de combustível.

Primeira parada, Santiago. Esse é o bosque da URI.

Na falta de som decente - só dá pra ouvir o rádio em baixa velocidade - assovio.

Todas as fotos são do Pepe (Julio Jaen Higino, el buda peruano)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Inferno Social

foto pescada de Hugo Pontes, no feicebuque, com o comentário "um pouco sobre o tal sistema que pretende 'ressocializar' os jovens". 

 Todas as promessas do nosso sistema social, no que diz respeito às suas funções básicas constitucionais, são falsas.

O sistema prisional é produtor de monstros - destruídos em sua sensibilidade humana -, que irão infernizar a sociedade e bater de frente com monstros - destruídos em sua sensibilidade humana - produzidos pelas forças de segurança do Estado.

Constróem-se mais cadeias pra "conter a criminalidade", mas não se procura a fonte, a origem de tanta criminalidade. Na miséria, na pobreza, na exploração extrema do trabalho com salários insuficientes, não se fala, não se pensa, não se percebe, "vai pra Cuba", dizem os idiotas prisioneiros dos seus condomínios e das suas bolhas, apavorados com o mundo "lá fora".

As causas são fáceis demais de se ver, como seria fácil demais resolver. Se os artigos constitucionais fossem prioridade, apenas isso resolveria. Há condições, tecnologia, transportes, conhecimentos, produção, grana - relativamente pouca - pra acabar com miséria, ignorância, alienação, desatendimento, abandono, pra acabar com essas vergonhas na sociedade.

A principal falta que o povo tem é de respeito. Se o Estado respeitar o povo, a sociedade se harmoniza, supera essas situações primárias que nos prendem ao passado e não nos deixam seguir adiante. Mas seqüestrado como está pelos poderes econômicos, o Estado viola sua lei hipocritamente chamada "máxima", sua constituição, rouba direitos da população pra gerar privilégios pra uma minoriazinha insignificante no contexto social. Encastelados no topo do poder, controlando dali todo o funcionamento da estrutura, com a cumplicidade das marionetes políticas, de altos cargos na "república", de administradores, legisladores, juristas, régiamente pagos, ou propinados, esses vampiros da humanidade espremem o sangue dos povos.

A guerra das empresas contra os povos será ganha pelas empresas enquanto as populações não tomarem consciência de que são enganadas, ignorantizadas, alienadas e condicionadas a comportamentos e valores que constróem e mantêm a estrutura social. Não é à toa que o ensino é inexistente pras camadas mais pobres e enquadrador e violento pras outras camadas. Não é à toa que as comunicações são dominadas por empresas privadas. Não é à toa que se vê o mundo como uma arena competitiva onde é cada um por si e é preciso vencer a qualquer custo. É mentira em cima de mentira pra manter o mundo como é. Muitos sentem culpa por não se adequarem a um mundo inadequável, pensam que têm alguma coisa errada, ou a menos. Faz parte das induções.

Agora investe-se em cadeias. Leitura evidente, sem comentários. A idéia genial é privatizar o sistema prisional, que beleza, haverá incentivos às prisões, planos de metas, prêmios por quantidade de presos, juízes implacáveis ganharão cruzeiros marítimos com suas famílias a cada fim de ano. Cada preso vale uma grana e, de quebra, pode-se alugar o trabalho escravo. O inferno social resultante não afetará os que decidem, em suas fortalezas guardadas por empresas de segurança, seus carros blindados, jatos e ilhas.


Dá uma olhada de novo na foto. Essas são as salas de aula do inferno social. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

DÍVIDA PÚBLICA - assunto proibido ao público, que é quem paga.



Uma das estratégias de dominação usadas pelos bancos e mega-empresas corporativas que dominam o império estadunidense foi a imposição de dívidas impagáveis. Isso dá poderes sobre os governos, submete os povos à economia ditada de fora, transforma a política num teatro de marionetes sob controle dos mega-parasitas mundiais, mantém a miséria, a ignorância e a criminalidade que infernizam a vida das populações. Não é um modelo aplicado apenas ao Brasil, mas a todos os países em que esses poderes se impuseram - na América Latina, todos os países foram submetidos. Poucos, como o Equador, conseguiram forças internas pra investigar essa dívida criminosa. Ali, onde Maria Lucia Fattorelli foi convidada a participar da auditoria da dívida, se descobriu que mais de 90% da dívida era ilegal. Essa parte foi simplesmente anulada. E nada foi divulgado pelas comunicações dominadas por interesses empresariais, pela mídia privada. Um silêncio retumbante esconde o assunto.



Todos os anos o orçamento nacional é dilapidado em quase metade, coisa de trilhão de reais, no pagamento de JUROS e AMORTIZAÇÕES, sem diminuir a dívida, pra que no ano seguinte se faça a mesma sangria. O resultado vemos na "qualidade" dos serviços públicos, cujas primeiras vítimas são a educação e a saúde, estrategicamente favorecendo a ignorância, a alienação, os planos de saúde e a medicina lucrativa. O livro "Confissões de um assassino econômico", de John Perkins, revela a estratégia de dominação através do endividamento dos países. O autor trabalhou nessa estratégia e, com problemas de consciência diante da deterioração social que viu com o passar dos anos, como conseqüência, escreveu suas confissões.



Nesse filme aparece uma porrada desses esquerdistas mal falados pela mídia - quando são falados, porque de preferência são ignorados e omitidos. São carimbados como malditos, deliberadamente antipatizados. Muitos deles ajudam inconscientemente, com arrogância doutrinária, apegados às suas cartilhas revolucionárias, teorias européias de revolução que não levam em conta nosso valor, nossa formação e nossas referências. Mas as informações que eles trazem são valiosas para o esclarecimento a respeito da nossa estrutura social, na tomada necessária de consciência da realidade pra que se possa perceber a dominação, não só sobre a sociedade como um todo, mas no pensamento de cada um, nos valores, na visão de mundo, nos objetivos de vida, nos desejos, no comportamento geral.



Informações mais que necessárias, fundamentais na formação de opinião e, por isso mesmo, escondidas pelo sistema de comunicações brasileiro, basicamente privado e visceralmente ligado aos interesses banqueiro-empresariais que sugam o sangue do povo de todas as formas.



Divulgue-se.





terça-feira, 31 de março de 2015

Juninho

Conheci Juninho numa ocupação em que morei, Jacarepaguá, rua Tirol. Ele era chefe da turma que chegou no prédio depois da ocupação geral pelos que se tornaram moradores. Tava na maior consideração comigo, que tinha ajudado a mina dele numa situação, sem querer nada em troca - comportamento incomum. Na época ele tava guardado, a mina tava na rua, vi a confusão, ela pequena com um gargalo na mão, encarando no grito várias outras, maiores que ela. Dei o papo, "sai daí, irmãzinha, é muita gente contra". Ela resistia, "que nada, vou praonde, aqui eu moro e vou ficar, tenho pra onde ir não". Olhou pra mim, desconfiada, "quero nada contigo não, mina, tenho minha família pra cuidar, tô só te dando o canal, é um prédio cheio de apartamento desocupado, tu taí no maior veneno... vai pra lá que é melhor patu". No fim ela acabou vindo, ainda que prevenida, até ficar num apartamento sozinha. Depois, ficou amiga da "minha mulher" e, quando o Juninho fugiu da cadeia e apareceu lá, passou a fita. Ele ficou quase um filho. Tinha 21 anos, mal esboçava uns pelos em cima da boca.

Condenado a mais de quatrocentos anos de prisão, por crimes acumulados, ele me contou sua história. Os pais desceram do nordeste tocados pela fome, num pau de arara, a mãe com ele na barriga, chegaram sem saber o que fazer. O pai carregou caixote na feira, fez de um tudo, como ajudante de pedreiro aprendeu a ser pedreiro e exercia a profissão quando ele tinha sete anos. Então uma incursão policial, como é comum em favelas, irrompeu casa adentro bem na hora do jantar, pai, mãe e filho sentados na mesa, como era do seu costume. Eles sabiam que acontecia da polícia invadir as casas, mas nunca tinha acontecido com eles. Na reação, o pai levantou gritando "na minha casa não!" Foram suas últimas  palavras, os tiros o derrubaram em cima da mesa. A mãe aos gritos, o menino estatelado na cadeira, vendo a cena, enquanto os policiais vasculharam a casa e, como vieram, foram embora, deixando só o rastro de arraso, frustração e ódio.

Dois anos depois, a mãe de Juninho, que passara a lavar roupa pra sustentar sozinha o filho, descobriu a tuberculose e morreu uma semana depois. A tosse freqüente já durava muito tempo, ela resistia à medicina, tinha medo. Com razão, a medicina pública não se recomenda, dá medo mesmo. E o medo deu em morte, como é comum. O menino, de nove anos, ficou sozinho no mundo. Na favela. Os pais eram queridos, gente boa, e muita gente se dispôs a alimentar o menino, a abrigar, ajudar sua criação. Solto na vida, numa sociedade que estimula o consumo, a ostentação como valor pessoal e social, o caminho natural foi a cooptação pelo tráfico. Soltava uma pipa, com certas manobras servindo de comunicação, e tava garantido com a lei do lugar, ganhava moral e alguma grana, que aumentou quando passou a fogueteiro, já com onze anos. Aos treze, deu seus primeiros tiros. Revelou-se rápido e certeiro, Matou uma, duas, tres vezes, ganhou moral e posto, chegou na gerência da boca, foi dono de favela. Preso uma, duas vezes. Na terceira, grade geral, segurança máxima. Demorou pra fugir. E tava ali. Cheio de afeto, cuidado, "se precisar de qualquer coisa tô aí, ó, qualquer coisa mesmo". Era o chefe de uma turma de uns dez, que ocupavam os andares de cima do prédio, o quinto e o sexto. Todos saíam à noite pra trabalhar, cada um no seu ramo, mansões, transeunte na zona sul, carros, motos caras, Juninho trabalhava na miúda, assaltava pessoas. Fiquei horrorizado quando ele me falou, candidamente, que era mais seguro atirar primeiro e revistar a vítima depois, pra evitar reações. Passei um dia inteiro pensando intensamente, angustiado, até que ele chegou, como sempre, depois das quatro da manhã pra fumar maconha e ir dormir. Então, no meio da conversa, enfiei um "tu já pensou se um desses caras que tu derruba pra roubar não tem um filho de sete anos esperando por ele em casa?" Observei tenso a reação dele, empalidecendo, o olhar fixado na parede em frente. Em cima da mesa, eu sabia que tava o revólver, ele sempre deixava ali. Esperei o olhar dele exprimir algum ódio, pronto pra me atracar com ele se ele fosse na direção da arma. Mas o olhar só mostrou confusão, ele se levantou de chofre, sem me dar tempo de nada, pegou o 38, meteu na cintura dizendo "não tinha pensado nisso" e saiu sem falar mais nada.

Demorou uns quatro dias pra ver Juninho de novo. Ele chegou na madrugada, "jesus, quero falar com você". Eu tinha cabelo comprido e barba e os bandidos me chamavam assim. "Desde aquele dia que tu falou aquele negócio eu não atirei. Não consegui e não consigo mais. Eu encosto a figura, digo 'não reage não que eu te mato' e funcionou até hoje. Agora mesmo eu enquadrei o cara, dei a ordem, o cara reagiu, eu atirei nele, ele caiu. Na hora que fui ver se ele tava vivo, virou na esquina um carro de polícia e eu tive que fugir. Agora eu tô nessa agonia, não sei se matei o cara ou não!" Senti uma onda forte de sentimento, abracei o cara e chorei. Ele não entendeu e chorou também, justificando "ele não tinha nada que reagir, porra, tá vendo que eu tô com o ferro na mão apontado pra ele?", mas não era esse o motivo, o que eu vi naquele momento foi um passo dado. Ontem mesmo o cara matava sem o menor problema de consciência. Com a minha participação, foi dado um grande passo pra ele e, por conseqüência, pra humanidade. "Não, cara, não, é bom que tu agora não queira matar, não queira machucar. Tô contigo nessa, tu tá no caminho", eu dizia ainda chorando, mas já rindo, sorrindo pro Juninho, sabotado, torturado, perseguido, judiado desde a infância, se sensibilizando, descobrindo a humanidade que a sociedade escondeu dele. Um pequeno passo, pequeníssimo, mas um entre tantos passos necessários a qualquer um que vive, a qualquer caminhada.

Isso foi durante o plano Cruzado, 1985, mais ou menos. Juninho certamente está morto, como Aninha, a mina dele. Uma vida curta, planejadamente curta, socialmente planejada.

Quando saímos de lá, rumo a Petrópolis, Juninho ainda reinava com Aninha no prédio e na área. Ele não conseguia entender porquê eu ia embora sendo que ali tinha "toda proteção". Mas eu sentia que tinha que tirar minhas filhas dali e fomos sem ter pra onde, deixamos as coisas num depósito na rodoviária - depois pagamos com coisas - e variamos entre rua e hotelzinho, dependendo da grana que se arrumava. Primeiro, comer, depois hotel, se der. Uma ou duas semanas depois vi nos jornais a desocupação do prédio, debaixo de muito tiro, gás lacrimogênio, pancadas e prisões. Houve resistência. A ponto trinta que eu vi passar na escada do prédio furou uma quantidade de camburões, até ser desalojada, morto o bandido por atiradores de elite em  prédios vizinhos, bem mais altos. Não soube quem era, nem o que aconteceu com ninguém. É uma história velha e dá pra imaginar um monte de conclusões possíveis. A gente não estranha nada. E minha vida já tava bastante tomada em Petrópolis, onde afinal alugamos um porão no Itamarati e vivemos um ano, até subir pra Montes Claros, durante a gravidez do Ravi.

Quinze dias depois de chegar em Montes Claros, pelos jornais, acompanhei a pior enchente de Petrópolis, verão de 87 pra 88, milhares de mortos, casas destruídas, famílias desabrigadas. Nossas coisas foram nessa, nem voltamos pra buscar. O meu prejuízo foi um caixote cheio de cadernos escritos, com histórias vividas por anos de estrada, com datas, nomes, locais, acontecimentos ali, acabados de acontecer. O maior prejuízo que já tomei - há de existirem razões e eu até imagino algumas. Muita gente perdeu muito mais ali, nem tenho do que reclamar.



http://petpol.org/2015/03/25/nem-pra-menor-nem-pra-maior-prisao-e-a-forma-mais-cara-de-tornar-pessoas-piores/

segunda-feira, 23 de março de 2015

Primeira viagem maior - Celestina engole estrada

Foram mais de duas semanas, desde que saímos pela zero quarenta (BR 040) pra Belorizonte. Na verdade deveríamos ter ido por Magé, pra pegar o documento definitivo de Celestina, a kombi, mas o costume me levou a entrar direto na ponte Rio Niterói. Quando me liguei, já tinha entrado nela, comentei com o Pepe e paramos num espaço grande à direita, esperando vir algum veículo da CCR, a concessionária, que nos autorizasse a utilizar o retorno funcional que estava ali, na cara, com uma placa ameaçando de multa quem fizesse o retorno por conta própria. Depois de um tempão esperando - certamente estávamos vistos ali, a ponte é qualhada de câmeras -, resolvemos seguir sem o documento, mesmo. Atravessamos e pegamos a linha vermelha, única via expressa do Rio de Janeiro que não tem pedágio - construída no governo Brizola, que deixava claro que via pública era função do Estado, não de empresas - e chegamos à estrada na subida pra Petrópolis. Dois cilindros de gás pra chegar em Beagá. Chegamos no vermelho e tivemos que cruzar a cidade pra encontrar abastecimento. Depois fomos dormir na Praça do Papa, com o visual da cidade lá do alto. Expusemos no Maletta na outra noite, mas não foi bom. Dormimos uma segunda noite na mesma praça, desta vez os barraqueiros já cumprimentaram a gente. Os outros dois dias fomos abrigados na casa do Edson, Celestina teve garagem - de outra forma teríamos que dormir dentro, porque ela não tem tranca - e nós, tratamento dentário qualificado. O dotô Edson Saleme Júnior é desses que gosta do que faz e, portanto, faz bem feito.

Seguimos viagem pelo norte de Minas, desde as nove na estrada, de tarde passamos por Corinto e chegamos em Montes Claros, onde ficamos duas horas procurando alguém, sem encontrar, pra nos hospedar. Sem isso, não fazia sentido ficar e fomos embora, já escuro, em direção a Janaúba, Mato Verde, Monte Azul e fronteira com a Bahia. Nesse percurso, já madrugada na estrada deserta, em plena curva à esquerda aparece um enorme zebu atravessando a estrada. Pepe dormia no último banco, chamei no freio até bem perto do bicho, soltei pra guinada à direita e à esquerda em seguida, pra não perder o controle. O zebu levantou a cabeça na hora certa e passamos raspando nela, aprumando a Celestina na estrada. Pensei que Pepe podia ter caído do banco ou batido em algum lugar, mas o silêncio no salão do carro continuou. Soltei ainda um "caralho, foi quase", mas não houve resposta. Depois ele me disse que acordou com o solavanco, levantou o corpo, olhou, mas não viu nada e voltou a dormir quase de imediato. Aquilo deu energia pra seguir até depois da fronteira, onde precisei de duas ou três horas de sono. Então seguimos e às quatro e meia parávamos num raro posto, pra abastecer e tomar café. O dia começava a se anunciar, num lindo clarear que paramos pra registrar.

Vi o Pepe fotografando a Celestina, por minha vez fotografei a cena.
 E o céu mereceu mais de uma foto, pegando fogo por cima do teto e refletindo nele. O esforço da noite valia a pena, no espetáculo do amanhecer no sertão suave do sul da Bahia. Dali seguimos, Guanambi, Caetité, moinhos e mais moinhos de vento, captação de energia eólica, dezenas, centenas de cataventos modernosos, linhas arrojadas, três pás apenas, longilíneas, quase sensuais.

Vimos centenas, e também caminhões enormes, transportando as pás ou pedaços da haste, enormes também, com batedores e ocupando a maior parte da estrada, de forma que tínhamos que ir pro acostamento ao cruzar com eles.

Assim fomos até Brumado e voltamos, pra descobrir numa oficina, em Belzonte, que estávamos sem freios. Era o ar infiltrado servindo pra freiar, quando se fez uma sangria, afinal não era pro ar estar ali, acabou o freio. Lembrei do zebu com um sentimento estranho.

Mas na primeira grande viagem se saiu muito bem Celestina, a kombi. Promete ser a engolidora de estradas, como se propõe, por esse Brasil afora - ou adentro, o que dá no mesmo. A meu ver - e gosto é gosto - ela tem uma bela forma. Embora o que importe, mesmo, é o conteúdo que ela carrega, na permanente intenção de causar reflexão, pensamentos, questionar valores e existir dentro do processo de caminhada humana, planetária, nesse momento em que existimos.

Na volta, desci a Dutra pra São José dos Campos e tive que passar por Itatiaia e Resende, onde está a entrada pra Visconde de Mauá. Não resisti a visitar os descendentes. E tive a grata surpresa de encontrar meus três netos lá, Alice, Olívia e Noé - que Adhara registrou como Noah. Foi um dia de descanso, quase se pode dizer assim. Coisa rara.                            

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Estamos em guerra - as empresas contra os povos.




Oficialmente o Brasil está em paz. A foto na Maré, há poucos dias, mostra o quanto a verdade oficial é mentirosa.

Estamos em guerra mundial. Em toda parte, em qualquer lugar. Onde se levanta a resistência, a repressão cai em cima, impiedosa. Os poderes da sociedade não se declaram, há uma infinidade de pretextos, biombos, cenários e discursos pra esconder as reais motivações de tamanha barbárie, tamanho inferno imposto a bilhões de seres viventes que apenas desejariam viver em paz.

Enquanto isso permanece a estrutura social infame. E nela vamos vivendo, pressionados, angustiados, ameaçados e submissos a valores falsos, correndo atrás de cenouras na ponta da vara, como burros puxando carroças. Romper essas barreiras é mais fácil do que nos fazem parecer. A vida não é uma competição permanente, vencer na vida não é um objetivo natural. Não nascemos pra vencer - essa é só mais uma mentira em que acreditamos idiotamente -, mas pra viver em harmonia na coletividade humana. A estrutura foi montada assim pra privilegiar elites e, pra isso, é preciso roubar direitos e distorcer a realidade de tal forma que não se enxergue o que acontece. Pra isso, é preciso falsear a realidade. E pra ter sucesso na farsa, é preciso impedir a instrução e a informação da maioria, é preciso impor sob ameaça o enquadramento nos comportamentos condicionados, dominar as comunicações e discriminar ou reprimir os que não se submetem.

Eu teria vergonha de querer o que me mandam querer, de viver como me mandam viver, de ser como me pressionaram a ser.

Há furos na blindagem informacional. Alarguemos esses furos. É preciso buscar as informações nos meios alternativos - a mídia comercial é desmascarada todo o tempo, mas ainda com pouco alcance, embora seja  bom lembrar que antes da net não havia alcance nenhum. Estamos em processo.

Seria mais um auto de resistência. O sobrevivente teria ido pra cadeia como bandido. Mas havia um celular ligado. O do morto.

Isso aí acontece geral, aos montes, nas periferias. Ali é situação de guerra declarada, a polícia atua de forma bárbara, agressiva, arrogante, ignorante de qualquer tipo de cidadania. São milhares e milhares de mortos, torturados, estuprados, feridos, espancados, contem-se os tais "autos de resistência". Nesse caso, por "azar" dos policiais, um celular gravava tudo e não foi percebido - se fosse, o caso passaria batido entre tantos, o negro evangélico não teria como se defender das acusações absurdas, mas cotidianas, repetitivas, que justificam os assassinatos em massa. Não duvido nada da estratégia de extermínio, como um planejamento do punhado de cima da sociedade, os poderes "ocultos", acima do teatro político. Pobre se reproduz demais, é preciso um controle populacional e a saúde pública não dá conta de matar o suficiente. Daí a brutalidade dos treinamentos das forças de segurança, desumanizando e preparando psicologicamente seus agentes pra uma guerra sem trégua aos pobres. Se não são bandidos ou cúmplices, são coniventes. E são culpados, até prova em contrário que os inocente. Se a prova não for detectada, porque se for é destruída. Prevalece a versão policial, correu, morreu. Nessas áreas, correr é suspeito. Ou é "prova" de bandidagem.



Enquanto isso, os idiotas teleguiados, os cérebros lavados, enxaguados e entorpecidos seguem acreditando nas mentiras e encenações. Ouço idiotices contundentes, "se tá preso, alguma coisa fez", "se tomou tiro, foi porque mereceu" e outros absurdos.



Estamos numa sociedade torta, primitiva, carente de muita lapidação. O trabalho, porém, começa por se enxergar a realidade e suas raízes, no inconsciente de todos em maior ou menor grau. Uma estrutura construída, dominada e controlada por poucos podres de ricos em seu próprio benefício, sacrificando, enganando, sabotando, explorando, roubando a grande maioria, por trás de uma fachada mentirosa de democracia, por cima dos valores falsos, implantados no inconsciente coletivo e que tornam a vida um inferno de medo e ansiedade, de angústias e frustrações. Trabalho interno. Pra evitar, o medo é implantado junto, no pacote de condicionamentos, pra imobilizar. Todos sob ameaça, paralisados de medo.



Foi o medo que moveu minha vida. Não o medo implantado, mas o medo de viver uma vida sem sentido, como a vida que me foi apresentada pra viver com a "aprovação" social.



Como compartilhar os valores de uma sociedade tão indigna? Não houve ameaça que me fizesse recuar, pra viver como um zumbi, acreditando nessas mentiras descaradas. Eu preferia nem viver. Teria vergonha de me comportar como me era indicado, induzido, condicionado, imposto e cobrado, nessa ordem. A discriminação e a perda dos relacionamentos de até então foram o meu "prêmio". O preconceito e o desprezo social me ajudaram muito a ver o mundo como vejo, selecionaram meus relacionamentos e arrancaram a capa colorida que cobre a barbárie social. Pra fudido a sociedade não finge, mostra sua cara medonha sem constrangimentos. Afinal, os fudidos não têm voz e, se por um acaso da sorte tiverem, não terão crédito. A não ser que gravem tudo no celular...



A sociedade, nas pessoas desses policiais, apresentaria esses garotos como bandidos, sem vergonha, sem remorso, sem o menor pudor - porque é um comportamento cotidiano, rotineiro - e o caso não teria maior repercussão numa sociedade anestesiada, sabotada em instrução e em  informação. São milhares e milhares de casos, todo dia morre pobre nas mãos do Estado - um assassino a serviço de banqueiros e mega-empresários, cada vez mais descarado.



Aí eu me pergunto... como assimilar os valores, os comportamentos, os padrões desta sociedade? Como querer vencer na vida, subir na vida, como aceitar a visão de uma arena competitiva onde são todos contra todos? Como se enquadrar numa coletividade que abandona pessoas à mais absoluta miséria e ignorância? Como acreditar em tantas mentiras óbvias tratadas como verdades inevitáveis? Como aceitar o trabalho como sacrifício e deixar pra viver nas horas vagas - os recreios da vida? Como se deixar conduzir como gado, do nascimento à morte?



A polícia afastou os policiais e ordenou investigação. Não por terem o costume e a prática de atirar e matar inocentes - e mentir, criminalizando as vítimas -, mas por terem sido flagrados por um celular que ficou ligado, passou despercebido e veio a público, provando a mentira descarada. Serão punidos, não pelo assassinato, mas pelo fato ter vindo a público, com provas irrefutáveis. Esses assassinatos são rotina e contam com o tal "auto de resistência", aberração jurídica pra livrar os assassinos que se escondem nas fardas das forças de segurança. "Foi um caso isolado", dirão os pilantras, os covardes e os imbecis. Não foi. É prática cotidiana e é pra isso que as forças de segurança são treinadas, pra combater, enquadrar e reprimir as vítimas dos crimes de estado contra sua própria população - seqüestrado como é pelos maiores criminosos, os vampiros da humanidade, que saem nas colunas sociais e são apresentados pela mídia como exemplos de empreendedorismo. Nessa linha, esses criminosos são "benfeitores" que não exploram até o talo, sem piedade, os seus funcionários, mas sim "dão empregos". Tampouco articulam a expulsão de comunidades pobres, famílias inteiras aos magotes, dos locais onde tenham interesses empresariais, não importa há quantas gerações estejam ali. Não, os vampiros "trazem desenvolvimento". Eca.












segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

17 minutos de Eduardo Marinho no lançamento do documentário Malucos de Estrada, do Rafael Lage.

Editado por Álvaro Barbosa Silva.

Eu sou um convidado distraído. O tema era o filme, as relações da malucada com a sociedade. E eu saindo do tema toda hora. O Álvaro tirou o suco das minhas desviadas.

Tem hora até que o Rafael puxa um cigarro, na impaciência de ver o assunto se distanciar compulsivamente. Mas outras horas vejo que ele gosta, tomara que uma coisa compense a outra.



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

As montanhas de Mauá, a saúde da Celestina e a morte de Tina Tâner

Foto - Cleide Cardoso


Pela segunda vez, a Celestina negou fogo. Desta vez, pelo menos, percebi que ela não subiria a serra logo depois da Capelinha, quando a estrada começa as curvas da subida. Do meu lado tava o Ravi, no banco de trás, Alice, Brisa e Olívia no último banco.

Na primeira vez quem tava era a Marta, conseguimos chegar uns cinco quilômetros depois do Ponto Pergunta - onde, quando era estrada de terra, as pessoas paravam pra perguntar se estavam mesmo no caminho certo pra Visconde de Mauá, dava a impressão de ser muito mais longe. Aí, numa subida mais inclinada, Celestina perdeu a força. Ficamos até de noite, quando um reboque pago e caro chegou pra nos levar de volta até o trevo de Penedo com a Via Dutra - a estrada Rio-Sampa. No dia anterior, era madrugada quando entramos no trevo e ali mesmo a homocinética - eixo da roda de trás - soltou, quebrou os parafusos. Já havíamos dormido essa noite na kombi, de manhã conhecemos Tiago e Bruno, dois mecânicos que moram ali mesmo, num pequeno bairro rural chamado Marechal Jardim. Foi com eles que deixamos a Celestina, depois da tentativa frustrada, e subimos a serra. Só viemos buscar pra ir embora pro Rio. Então ela passou por algumas intervenções, extração de dois carburadores barulhentos e irreguláveis, implantou um novo, ganhou novos pés, um retrovisor, teve fixados, ainda precariamente, os dois bancos de trás e três cintos de segurança novos, exatamente pra viajar com Alice, Olívia e Brisa. Elas vieram passar os dias do natal e voltariam pra casa comigo, que iria expor na serra, até janeiro.

Saímos de Niterói, atravessamos a ponte e o calor sufocante da baixada, chegamos na serra das Araras e, depois de um tempo subindo, um cheiro de óleo apareceu forte, olhei os retrovisores e vi fumaça branca saindo das entradas de ar. Paramos numa barraca de frutas, das várias ao longo da serra. Abri a tampa do motor, a rotação alta das marchas de força pressionara o óleo e espirrou pra cima do motor quente, daí a fumaça. Percebi que a tampa do óleo estava frouxa. Deixei aberto pra esfriar e fomos tomar água de coco. Olívia andou atrás de umas galinhas, brincou numa banheira com água de nascente, Alice comeu polpa de coco até enjoar. Uma paulista estava ali, chorando, abandonada pelo namorado. O cara parou o carro, atirou todas as coisas dela pra fora, expulsou a moça e foi embora, segundos antes da gente chegar com a Celestina fumaçando. Enquanto eu tomava água de coco, o cara me pedia uma carona pra ela e ela chorava, dizendo "sete anos de namoro e ele me faz uma dessa..." Mas, minha filha, em sete anos de namoro não deu pra ver que o cara era capaz de atitudes assim, não? O cara da barraca deu um pequeno sorriso de concordância, "pois é, né..." Mostrei as condições da kombi, ainda fumaçando um pouco, expliquei que não iria pra Sampa, mas pra Resende, que dali até Resende não haveria lugar melhor que aquele onde ela estava, pra arrumar carona. Perguntei ao vendedor se não parava gente indo pra São Paulo por ali, "toda hora" ele respondeu. Disse que levaria sim, mas que era melhor pra ela ficar por ali pra pegar uma carona direta. E fui ver o motor. Limpei o óleo e estava examinando a tampa e o retentor, frouxos - merda, vai continuar vazando. Um carro parou, um cara sozinho, tomou uma água de coco e levou a paulista. Olívia e Alice andavam por ali, achando coisas pra fazer na beira da floresta, Brisa monitorava de longe, Ravi desceu a estrada e voltou com uma jaca madura. Perguntei ao barraqueiro a distância pro alto da serra, "dois quilômetros". Ah, tá perto, o motor já esfriou, vambora. 

Em Piraí, de novo o cheiro de óleo, a fumaça branca menos densa, paramos num posto de caminhões, as meninas vão no banheiro, tomam banho, eu fico no motor. Tampa e retentor tinham pulado, óleo por todo lado, queimando. Limpei de novo, improvisei uma ferramenta pra apertar o retentor, cortei uma arruela num feltro duro que tava no chão pra colocar na tampa, completei o óleo e partimos. Senti umas rateadas, achei que as velas tinham se sujado de óleo. Sabia de nada. "Precisa limpar as velas antes de subir a montanha", pensei. O problema era ser domingo. Paramos no trevo de Penedo pra falar com Tiago e Bruno, ver se eles podiam fazer o serviço. Nada, Tiago tinha ido pras cachoeiras e o Bruno ninguém sabia onde estava. "Ah, vambora, sejoquedeusquiser". Nas subidas e descidas até a Capelinha tava tudo tranquilo. Mas é ali que se tá de cara pra montanha, a estrada ganha inclinação e o curvaréu toma conta da estrada. Paramos e comemos na Capelinha. Abri o motor, pouco vazamento, a gambiarra tava funcionando, precariamente mas tava.

Barriga cheia, embarcamos com a agradável expectativa de encontrar um clima fresco mais acima. Na primeira subida mais inclinada, Celestina começou a ratear seriamente. Lembrei do engasgo anterior, com a Marta, no meio da serra, à noite, e resolvi voltar. Tem que limpar as velas, eu disse. Ravi pegou um ônibus na Capelinha, tinha marcado com Satya lá em cima. Sugeri a Brisa ir de ônibus, pra chegar em casa com as crianças, enquanto eu procurava resolver o problema. Ela recusou e, bem Brisa, afirmou que o conserto seria rápido e logo estaríamos chegando. Avisei que poderíamos ter que dormir na kombi, ela riu do meu "pessimismo", Alice adorou a idéia e Olívia não disse nada, porque sabe poucas palavras e não tava entendendo nada, ficando perto da mãe tava tudo certo, pois ali estavam os dois peitos cheios de leite que lhe pertenciam por direito. Voltamos ao trevo de Penedo, nada do Tiago, nem do Bruno. Procuramos outros mecânicos na área, nenhum estava disponível. Já era noite. Lembrei que a Dutra é cheia de postos 24 horas naquela área, algum deveria ter um mecânico. Saímos de Marechal Jardim nessa procura, mas antes de Resende o motor perdeu a força, tivemos que parar no acostamento e esperar o socorro da estrada, que é de graça e tem como finalidade retirar os carros da via, despejando em qualquer lugar. Troquei uma idéia com o motorista, sujeito simpático, e ele se prontificou a deixar a gente num posto que tinha o contato de um mecânico. Era um frentista, cara dos seus vinte e poucos anos, o contato. Ligou pro mecânico e a proposta dele foi até engraçada. Ele viria com seu guincho, levaria o carro pra oficina dele, nós iríamos pra uma pousada e no dia seguinte ele veria o que fazer no motor e prepararia a facada pro final. Eu ri, falei com o frentista ainda com o celular na orelha, "ele não sabe com quem tá falando". Ele riu também, enquanto via a gente se preparando pra dormir ali mesmo. Havia banheiros limpos, lanchonete e restaurante, estávamos bem estruturados. 

Brisa ainda queria empurrar a kombi "pra um lugar mais escondido", mas eu rechacei a idéia, quanto mais expostos, melhor. Sair empurrando o carro por um motivo tão besta não ia dar. Ela improvisou cortinas nas janelas, criando uma privacidade, e dormiram Alice no banco do meio, Brisa e Olívia no último banco. Eu dormi no banco da frente, com as janelas abertas.

No dia seguinte vieram o Bruno e o Tiago, conseguiram fazer andar a Celestina, aos trancos e barrancos, até a oficina deles, no trevo, depois de comprar algumas peças, parafusos, coisa pequena. Levamos o dia e a bicha não pegava força. Lá ficou, subimos a serra, Tiago nos levou, em troca do combustível e da cerveja que tomamos no ponto pergunta e depois que deixamos  as meninas em casa. Fomos pra Maromba e ficamos trocando idéia.

Ficou marcado de descer no dia 31 de manhã, eu pretendia expor à noite na Celestina, ao lado do Café Coiote, na Maromba. Faltavam dois dias. Encontrei a Cleide em Maringá, passando onde exponho. Tomamos umas brejas, contei a história, ela se dispôs a ir comigo buscar a Celestina. Fomos de ônibus até o  trevo, uma volta com ela e senti que não tava no jeito, rateava demais pra subir a montanha. A coisa era mais séria que uma troca de velas e cabos. Era preciso olhar o coração do motor, o bloco, abrir os cilindros, ver os pistões. Serviço pesado. E lá ficou a Celestina. Tiago nos levou de novo, tomamos várias no próprio Coiote, mas não expus.

Dia cinco desci de ônibus, em situação bizarra, que demonstra bem o desprezo do patrão por seus funcionários e pelos que são a fonte de renda, os passageiros. Não havia cobrador, a catraca estava travada e o motorista, constrangido, se desdobrava em explicações a cada passageiro que entrava, estava sem cobrador, a roleta travada, ele anotava os passageiros um por um, num papel, que era preciso pagar a ele, descer e entrar pela porta de trás. Isso, nos pontos mais cheios de gente, gerava uma demora enorme. Vários passageiros, inclusive eu, tomaram a iniciativa de encurtar a explicação do motorista, “paga na frente e entra por trás”, “a roleta tá travada”, mas ele fazia questão de demonstrar sua honestidade, exibindo o papel cheio de tracinhos a cada passageiro e aos grupos próximos, muitas vezes. Os idosos deviam mostrar a identidade à câmera no fundo do carro. Ele gritava lá da frente, as pessoas explicavam lá atrás e o idoso finalmente entendia, mostrava a carteira pra câmera e a viagem continuava. Encheu. E demorou muito mais tempo que o necessário.

Desci no trevo de Penedo, mais uma vez, certo de ir embora pra casa, já vim com mochila e pasta de desenhos. Mas tava tudo na mesma, hoje é que viria o guindaste – que eles não tinham – pra levantar o carro e tirar o motor pra expor o seu miolo, o tal do cabeçote. Vou ter que entender essas coisas, agora que pretendo andar por aí nessa kombi. Voltei a subir, expus em Maringá. E também nos dias seguintes. Quinta, dia 8, acertei com o Tiago uma meia sola pra andar, porque precisava fazer o motor. Uma retífica. E os caras tinham que examinar as condições de proveito, não dava pra definir nada. Mas a retífica demoraria mais dias, eu tava totalmente fora do planejado, era pra ter voltado dia 5. Preferi a meia sola no cabeçote, que “dá condição de andar por aqui, patrão, mas não pra distância toda que o senhor quer”. Odeio ser chamado de patrão ou mesmo de senhor. Mas não disse nada. Quando tomamos uma cerveja consigo fazer ele parar com isso. Agora quero saber se a meia sola é pra hoje. “Talvez no fim do dia, o motor tá todo desmontado, em último caso dá pra pegar amanhã de manhã”.

Tchutcha, amanhã é sexta, devo expor sábado em Santa Teresa e preciso imprimir, retocar e embalar um monte de desenhos que acabaram. Era pra ter ido segunda ou terça. O vizinho que ficou de alimentar os bichos sabe que pode pegar ração fiado no Nico, eu pago quando chegar. Mas tô atrasando muito.

Pelo menos estou escrevendo. Tanto tempo sem publicar, parece compensação essa overdose de palavras, como uma dívida paga com juros literários.

A Cleide tem uma foto da Celestina, tirada em Santa Teresa, vou pedir a ela pra colocar aqui a imagem da simpática senhora, ainda em tratamento pra se tornar engolidora de estradas. Quando estiver pronta quem for me chamar pra palestra pode pagar o gás, em vez das passagens de avião, pelo menos na região sudeste, embora a viagem de maio seja pro sul. Se possível, será o batismo estradeiro. 

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Fico  pensando nas arrumações das coincidências, dos acasos, arrumando caminhos. Há muitos anos, quando vendia artesanato de mesa em mesa, bar em bar, em relação intensiva com um monte de gente, pensante do mundo e da vida, avesso a qualquer tipo de religião e já descrente do ateísmo, dizia que eu tinha duas divindades, uma dualidade, um casal divino, o Acaso e a Coincidência. Divindades sem ego, que não precisavam de louvores nem de reconhecimento, não tinham necessidade de serem conhecidos, atuavam entre nós sem que nos déssemos conta. Uma brincadeira, uma intuição, uma escolha de imagens. Com o tempo, meu trabalho foi diminuindo em adornos e ganhando em reflexão, lentamente. A necessidade de falar, de questionar, se impunha. Até que predominaram os pensamentos e os desenhos se misturaram com a função social. 

Eu andava satisfeito em ver meu trabalho causar reflexão, em provocar pensamentos, questões, questionar valores, comportamentos, objetivos de vida, as relações humanas, a estrutura social, nas calçadas, nas exposições, em qualquer lugar. Um dia, por acaso, vieram estudantes de jornalismo fazendo um documentário como conclusão de curso, me entrevistaram e publicaram na internet. Então outras entrevistas foram feitas e fui chamado em Curitiba pra fazer a primeira palestra numa semana acadêmica direito e psicologia, se bem me lembro. Era uma mudança de ciclo e eu não sabia, o ciclo das palestras. As calçadas continuam, mas perdi a conta da quantidade de palestras, conversas, debates, mesas, associações, entidades várias me chamando pra falar. A esmagadora maioria da região sul, a partir de Porto Alegre, Florianópolis e várias cidades do interior.

Em meus tempos de carona, de nomadismo, o sul foi a única região por onde não viajei. De São Paulo pra cima andei geral, amazônia, planalto central, cerrado, sobretudo nordeste, até chegar no sudeste. Depois de estabelecido no Rio e desde aquela entrevista em 2009 é que conheci o sul, tanta gente, tanta riqueza e variedade, tanta história, línguas próprias, uma variedade enorme de culturas convergindo e se relacionando. Pra mim, uma nova forma de me relacionar com  o mundo. Conheço o sul a chamado, a convite, e me sinto agradecido. Mas não decidi fazer o batismo da Celestina no sul por nada disso, mas sim uma coincidência. Recebi dois convites pra falar no Rio Grande do Sul, Santiago e Santa Maria, imaginei que a kombi estaria pronta até lá e, já que vão me pagar passagens de avião, podem pagar o gás. Sugeri por alto e encontrei alguma estranheza, mas vai se ver o que ou como fazer. Na volta, devo parar ao longo do caminho pra expor, entrar em contato com as pessoas de várias cidades, arrumar a grana das despesas, dos custos e do material. Se o gás estiver pago, uma preocupação a menos. Há amigos e oportunidades várias nessas estradas de volta. Levo caixa de som e microfone, já que me chamam a falar. A kombi entra na história dessa mudança de ciclo, proporcionando possibilidades que não existiam, mas que surgem como complemento ao desenrolar do meu caminho. Sua primeira viagem grande ser pra região sul tem uma carga simbólica. Daí pra diante, a ver lo que pasa.

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Fiz palestras desde a Cidade Nova, em Foz do Iguaçu, passando por universidades e associações de moradores, até a federação das indústrias do RS. 

Cidade Nova é um bairro criado distante pra jogar os removidos das cinco favelas formadas na beira do Rio Iguaçu, que foi transformada num lugar aprazível, lindo e rico, sem levar em conta as facções inimigas dos camelôs do tráfico, os traficantes de favela. "Eles puseram todo mundo aqui e como que disseram 'se vira aí'", me disse o Zeu, "a polícia nem vinha aqui". Um bairro que nasceu do inferno e hoje é um exemplo de superação, sem contar com o poder público ou encontrando formas de pressionar pra que o "poder" cumpra leis, pois ele foi privatizado e só serve a interesses empresariais. É na Cidade Nova que habita Mano Zeu - tá no youtube, se alguém quiser ver o trampo do cara - que foi quem  me chamou pra falar na biblioteca da CNI (Cidade Nova Informa).

Na FIERGS era um encontro de empresários jovens, uma outra classe de gente, outros costumes e visão de mundo, outra freqüência vibracional. E uma outra forma de abordar a realidade, pois é preciso levar em conta a recepção das idéias, o tipo de terra a ser plantada deve definir as sementes possíveis. 

A parte mais importante da comunicação é o receptor. Sem sua compreensão, qualquer comunicação tá perdida. Encontrei exceções às regras de cima a baixo na escala social, são como missionários em seus meios, pessoas abertas a diferenças, a outras visões de mundo, interessadas em aprendizado, inconformadas com a estrutura injusta da sociedade, que não se satisfazem com as ilusões dispersivas, com privilégios e consumo, com a superficialidade reinante. É preciso sempre falar a língua local. Com respeito e, se possível, com afeto.

Barreiras hierárquicas são obstáculos intransponíveis, distanciadores sociais de primeira linha, uma condição a ser superada no caminho. É preciso desierarquizar a humanidade, e que todos tenham acesso a pleno desenvolvimento - uma condição futura, penso eu. Não quero desdenhar aqui a hierarquia que se torna uma necessidade, em muitas circunstâncias na vida. Mas penso que é preciso ligar essa hierarquia a essa necessidade. Suprida a necessidade, alcançado o objetivo comum, desaparece qualquer distinção de superioridade ou inferioridade. Esse, no momento, é um trabalho sobretudo interno a cada um, impregnados que somos na competitividade, na hierarquização de tudo, desde o inconsciente e desde a menor infância. É a partir de dentro que podemos atuar na coletividade, com sinceridade, humildade e espírito de serviço. Há hierarquia de conhecimentos, de experiências, de habilidades, de muitas coisas. Mas isso não se transfere às relações pessoais. Nessas, se  houver hierarquia, é moral, espiritual, e esta não se impõe como superioridade, mas sim como responsabilidade, em esforço, compreensão e tolerância, nunca em acusações e cobranças.

Como se vê, na minha opinião a hierarquia é uma concepção e uma forma de relação - entre inúmeras - a serem superadas no caminhar da humanidade através do tempo, do espaço e das dimensões. Características enraizadas em cada um de nós, trabalho interno - sempre -, que precisa de sinceridade pra ver o que é e não o que se deseja, profundidade pra encontrar as raízes, as causas, as razões que nem sempre se mostram claras, humildade pra reconhecer as próprias precariedades e poder trabalhar nelas., Enfim, um trabalho de consciência e individual, o princípio do trabalho coletivo.

Competitividade, desejos intensos de consumo, usufrutos e excessos, vaidades, egoísmos, intolerâncias, preconceitos, a própria estrutura social, a forma de viver, de se relacionar, a lista de superações é imensa. E se isso desanima os acomodados, de outro lado estimula os inconformados, pra quem é impossível se acomodar. O caminhar se percebe, fácil, quando se busca ter olhos de ver e não moldados por "conveniências". A mudança é a única permanência que percebo. Devo participar do processo da forma que eu escolher, e não como me foi determinado, condicionado, imposto e cobrado - dentro do leque de "escolhas aceitáveis". E isso exige constantes faxinas internas. Essas escolhas me levaram a ser o que sou - ou às vivências que tenho - e a fazer o que faço. Que deram sentido à minha vida dentro da realidade em que vivo, daí a necessidade de me informar além do que é mostrado "oficialmente", de fontes menos corrompidas e mais diversas. E fazer do meu trabalho minha forma de dizer ao mundo o que sinto e como vejo as coisas que considero importantes.

Agora entrou a Celestina no processo. De repente, vou poder carregar muito mais coisas do que posso carregar na mochila. Ainda não está pronta, mas sua função é clara. Deve transportar e servir de base pra expor as coisas que faço - e quem sabe o que mais, eventualmente. A capacidade de carga aumentou e eu penso que é na razão direta da responsabilidade sobre o que levar.

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Olívia acorda séria, não zangada, apenas não sorri. Não responde a cumprimentos e afagos. Olha e se espreguiça. A mãe troca sua fralda molhada. Depois disso ela ri pela primeira vez, pra mãe, depois pra mim. Saio do quarto pra tomar um café e escuto ela falando com Brisa, vovô.

Lembro de Brisa nessa idade, já acordava rindo, olhos arregalados olhando em volta, procurando as novidades do dia, cada pessoa que seus olhos encontravam ela abria um sorrisão. Lembro de ter visto o processo todo, estava olhando ela dormindo, ela abriu os olhos, se deu conta de que estava acordada e sentou depressa e contente, olhando em volta em busca de alguma coisa. Ou de tudo. Como naquela manhã, final de 83 na aldeia de Arembepe, na Bahia. Acordei de madrugada com batidas fortes na porta da casa de palha, a casa tremia toda -  "é o leite!". Leite, aqui na aldeia? Eu demorava a acordar já abrindo a porta. Eram dois policiais federais, armas em punho e carteirinha esticada na minha cara. "Polícia Federal!" Cabeça em branco, disse tudo bem, amarrei a porta na palha - senão ela fecharia sozinha na cara dos sujeitos - e continuei falando baixinho, meio dormindo, cabelo comprido e todo desgrenhado, só vou pedir pra não fazer  barulho que tem uma criança recêm nascida aqui, e apontei a caixa de papelão, toda forrada e coberta com um mosquiteiro, com furos nas laterais como entrada de ar. Eles baquearam, "recém nascida"? É, e de sete meses. "Sete meses?!" Espanto. Olhando em volta, pro teto, pro interior da casa, "ela vai morrer aqui!" Foi aí que Brisa acordou - era um único cômodo, na época - e foi sentando, viu os caras e abriu o maior sorriso debaixo dos impressionantes olhos azuis. Eu aproveitei pra responder, que nada, essa aí nasceu aqui, olha pra ela, não é saudável? Aí a mãe acorda, loura também, os canas perguntam, "essa aí é alemã?" Ela olha agressiva com aquela invasão de privacidade, "não, sou brasileira!" Eles, meio desconcertados, voltam a atenção pra Adhara, na caixa de papelão - Ovos Caipiras escrito do lado de fora. "Cês são maluco", diz um, o outro fala "não vou nem botar a mão" e escuta de volta a mãe, "ah, não vai mesmo!". Eles se olham e saem pra varanda, falando entre si baixinho. Brisa não tinha nascido ali, era mentira, mas não resisti à oportunidade, era a resposta que ele precisava ouvir no processo de desarmamento. Ela nasceu no Espírito Santo e já tinha morado em mais lugares que muita gente por aí, nos seus menos de dois anos. Mas eu estava ameaçado em minha casa por um Estado corrupto e tirânico, sob pretexto de ser um território maldito, a "aldeia dos ripe", onde rolavam sexo e drogas à louca, uma grande mentira que trazia a agressividade policial e a ilegalidade pra ameaçar qualquer vivente da área. Tocados onde menos esperavam, a sua humanidade, os canas foram embora sem fazer o mal que vieram programados pra fazer, ao menos com a gente. Muitos na aldeia foram levados embora por eles, estrangeiros sem documentos legais. Mas isso são outras histórias.

"Preso" na montanha pelos problemas com a Celestina, achei desenhos que tinha guardado pra esvaziar a pasta, quando cheguei, numa prateleira dos fundos da casa de Brisa. Não lembrava e foi um alívio. Pelo menos tenho desenhos pra expor amanhã, vou precisar imprimir menos do que pensava. Isso alivia a pressa e garante a exposição de sábado.

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"Em último caso, dá pra pegar amanhã". Não deu. A Celestina tava lá, bunda pra cima, apoiada em dois tocos, sem o motor, que tava aberto entranhas expostas na bancada da oficina. Todo fudido por dentro. Solução, retífica, depois de uma avaliação. Thiago e Bruno convocaram uma avaliação pro final daquele sábado, quando vários mecânicos amigos entravam e folga e viriam pra olhar, analisar e opinar. Marcamos segunda e voltei à serra pra expor novamente no muro do estacionamento em Maringá. Penso que o motor deve ser retificado e devo fazer isso antes do carnaval, até lá vou na meia sola, mesmo, que "o tempo ruge". Depois da retífica, a Celestina vai subir com um pé nas costas, carregada de material, ainda menos do que pretendo. Ao mesmo tempo em que se prepara a kombi, a oficina de produção corre em paralelo.

Estive hoje na oficina de metais da Priscila. Saudade dos metais. Na oficina pretendo manter uma bancada pra metais, tenho ferramentas e pretendo voltar a usar, embora não seja como centro do trampo. Vivi desse trabalho por muito tempo e exclusivamente, é um sacrifício enorme e não sobra tempo pra muita coisa. Agora o contexto é outro, o metal entra como acréscimo, um prazer, uma pequena seção do trampo, pra ser apresentado quando possível.

Tiago mecânico ligou. A junta de mecânicos condenou o motor. Nem pra retífica serve, ou serve mas sem garantia de que funcione muito tempo. Não sei o que aconteceu que marcou fundo o bloco de aço maciço, mas a conclusão foi a pior possível. Seria preciso trocar o motor. Pelo menos é o mesmo preço da retífica, num bloco de motor inteiro, muito mais conservado.

Minha intenção de arrumar uma terrinha na montanha se desfez no ar. É preciso arrumar a base da minha vida, a oficina de produção e o transporte e loja, a Celestina. 

Segunda, de frente pra kombi sem motor, lembrei que esqueci o telefone na casa de Brisa, carregando na tomada. Hoje vai. Colei em Tiago e Bruno, "amanhã é aniversário da minha mãe, 94 anos, não dá pra não ir", resolvo pressionar e funciona. Pra mim essas datas não têm significado além de motivo pra reflexão. Mas isso é pra mim, pra ela sei que é importante e seria uma alegria. Voltando à Celestina, o transplante de coração tá decidido. Vamos e voltamos a Resende, acertamos o motor, voltamos, pegamos o velho, prende o reboque, carrega o motor, suja a roupa nova de graxa (quem mandou colocar a túnica novinha que Brisa me deu?), leva, descarrega, avalia, não vale nada, prepara o novo, carrega, leva, descarrega, solta o reboque, devolve ao vizinho que emprestou. Começa às seis e tanto a colocação no lugar. "Dessa vez ela vai ficar pronta pra encarar qualquer subida", eles dizem. Resolvo fazer o teste. Vou subir a montanha pra buscar meu telefone, aproveito pra testar. E na continuação, desço e vou pra casa, na madrugada. Aproveito pra tomar um banho lá em cima, antes de viajar de volta. Pelos meus cálculos eu chegaria em casa entre quatro e seis da manhã, se tudo corresse bem. E daria pra almoçar com minha mãe. Eles ficaram espantados com minha disposição, "é mesmo? Tu vai emendar direto?" Era mais de meia noite, eles davam os acabamentos na colocação do motor, quando chegou um amigo de infância deles, traficante da área a espera de clientes, e ficou olhando o conserto, ouvindo a conversa de Bruno e Tiago, abaixado, "virou mecânico mesmo, hein Tatu..." Eu tava em pé, mais afastado, pensando na vida, quando ele me olhou de repente - ouviu na conversa deles o que eu pretendia fazer - e perguntou espantado, "tu vai subir a serra pra Mauá a essa hora?" Eu respondi "vou tentar, né, já tentei duas vezes e não deu, agora eu acho que vai". Ele  balançou a cabeça, disse "eu não subo essa hora de jeito nenhum". Ué, por quê? Ele me olhou sério, "é cheio de assombração". Não ri, continuei, sério, "e depois ainda desço pra Niterói", pra espanto maior ainda. Acho que saí dali cheio de moral com ele. Se me encontrar de novo, na certa ele pergunta como foi.

O tempo estava fechado desde o fim da tarde, depois das nove começou a pingar esporadicamente, no horizonte apareceram raios e relâmpagos, cada vez mais freqüentes, junto com um vento forte que fazia soarem e voarem folhas, galhos e poeiras.  Isso fazia mais impressionante minha intenção, parecia um agouro pra viagem. Nuvens pesadas escondiam as estrelas, pingos grossos e esporádicos pareciam avisos, rajadas de ventos balançavam as árvores, em frenesis ocasionais. Os raios e relâmpagos por trás do Pico das Agulhas negras revelavam por instantes a silhueta da serra de Itatiaia, preta na escuridão da noite, me esperando.

Afinal, tudo pronto, meia noite e quarenta. Despedidas, agradecimentos, desejos de boa sorte, vais com deus, pagamento, mais bons desejos e adeuses. Peguei o trevo, passei por debaixo da via Dutra e embiquei  na direção do escuro da montanha. Quase ninguém na estrada, passei por dois carros até o último trevo de Penedo, depois escuridão de floresta e em dez quilômetros cruzei um carro. Celestina, lépida, passou na amostra de serra até a Capelinha sem problemas, subindo até em quarta, sem pedir a segunda nenhuma vez. Da Capelinha em diante, a estrada afunda na floresta e começa a subir, entre as árvores altas, abrindo uma vista de vez em quando da planície que vai ficando lá embaixo. A ventania continuava, eu via as folhas se agitando, pedaços de galhos na estrada, recém caídos, alguns batendo no chão sob a luz dos faróis, tive que desviar de vários maiores, atento nas encostas pra perceber algum deslizamento, nas partes mais íngremes, cheguei a ver um pequeno, ainda inofensivo. Em grande parte dessa estrada se passa entre a vegetação sem ver o céu, as árvores misturam seus galhos grandes sobre a pista e mesmo de dia fica escuro. A kombi se comportando bem, se  resolvia em terceira e quarta marchas, poucas vezes pedindo a segunda, em locais onde eu imaginava que só de primeira ela passaria. Cheguei no alto da serra e parei. Afinal. Saí do carro, olhei em volta, a chuva tinha parado como se estivesse mais pra baixo na montanha. Eu via as nuvens mais abaixo, de um e de outro lado. Na terceira tentativa, Celestina superou a subida. A ladeira da casa de Brisa era o último e pior teste, eu sentia que seria fácil com o motor novo. Desci até Mauá com atenção nos freios - ainda não pude conferir o sistema, apesar de saber que as pastilhas estão em boas condições -, passei pelo povoado deserto e tomei a estrada que sobe o rio Preto. Feliz da vida, Celestina respondendo direitinho aos controles, forte, tranqüila, segura. Agora chovia pouco na noite escura e na estrada vazia. Desviando dos galhos e ramos caídos na estrada, chegamos à ladeira crítica. Subida em primeira, sem fazer muita força, Brisa tinha deixado o portão aberto - eu havia falado com ela pelo telefone do Tiago -, imaginou que seria difícil parar naquela inclinação - o freio de mão não segura -, e deu pra entrar sem dificuldade. Alice e Brisa acordaram. Enquanto eu tomava banho, Brisa esquentou a comida. Jantei e o corpo amoleceu. Eram duas e meia da manhã, considerei o cansaço do dia e concluí que seria forçar a barra sem necessidade. No dia seguinte eu teria tempo de sobra pra chegar na casa da minha mãe, ainda que não na hora do almoço, antes de ir pra minha própria casa.

Dito e feito, cheguei às quatro no Leblon, sem problemas. Confraternizações feitas, fui pra casa de noite. E encontrei a situação crítica.

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Quando saímos, Ravi, Olívia, Alice, Brisa e eu, dia 28 de dezembro, havíamos iniciado o processo de preparação da oficina, juntado vários montes de entulho, galhos, folhas e lixo no quintal, pra resolver na volta. Um vizinho se encarregou de alimentar os bichos e colocar água, todo dia. Havia uns carrapatos, mas o gato parece imune a carrapatos e Tina Tâner tomou uma vacina preventiva que envenena o sangue do cachorro e elimina os carrapatos. Achei que daria pra resolver na volta, mas a ausência durou muito mais tempo que o esperado e a infestação tomou conta. Os montes de entulhos e resíduos viraram focos, empesteados por milhares de pulgas e carrapatos, um mar desses bichos se espalhou no quintal todo, mesmo dentro de casa.

Parei no portão, vi Tina deitada na varanda da cozinha, olhando. Estranhei ela não estar no portão, fazendo seu habitual estardalhaço, com choros, latidos, voltas e abanos de rabo. Chamei, ela levantou devagar e vinha andando, mas eu disse ficaí e ela parou. Coloquei o carro pra dentro, só então desci e olhei de perto. Um estado lastimável, havia tufos de carrapatos aglomerados em toda parte do seu corpo, a começar pelas orelhas. Horrorizado, sabia que tirar um por um a deixaria em carne viva e inflamaria depois. Fui com Ravi - que estava em casa no dia anterior - numa veterinária e trouxemos um anticarrapaticida forte, pra passar em Tina, e outro, pra passar no ambiente. Ela demonstrava uma fraqueza enorme, recusava comer, mesmo com os carrapatos caindo às dúzias, condenados pelo sangue envenenado. Ravi chegou a comprar uma lingüiça pra incrementar a ração. Ela comia, mas muito pouco.

Eu tianha um compromisso no Piauí, no fim de semana. Pelo que vi, não daria pra deixar a casa nesta situação, estava muito a fim de ir no evento, uma semana acadêmica na cidade serrana de Dom Pedro II, que não conheço, numa área onde passei uma única vez na vida. Lamentei profundamente sacrificar essa viagem, mas como se provou, era uma questão de vida ou morte. Alguns dirão que não adiantou nada, que Tina morreu assim mesmo, mas eu sei que se ela morresse comigo longe, ainda mais consciente do problema e da minha omissão, eu me sentiria muito pior. Escrevi pra eles, avisando da urgência, duas vezes. Ninguém respondeu nada.  Devem ter ficado furiosos, dar pra trás assim, em cima da hora. Mas foi inevitável e a vida tem dessas coisas, né não? Provavelmente ganhei antipatia por ali, mas não pôde ser de outro jeito.

Continuamos com o tratamento e a limpeza do ambiente, nada fácil com tantas reentrâncias e buracos, com uma peste dos diabos infestando toda parte da casa. Aos poucos, os bichos foram cedendo, mas a cachorra não resistiu. Tina Tâner fez a passagem no domingo, enquanto eu expunha em Santa Teresa, assistida em seus últimos momentos por Ravi. Deitou, ofegando, e expirou em silêncio, sob massagem raviana. O veneno pra carrapato deve ter tido sua participação, mas nós perdemos já uma ótima cachorra, apesar de idosa, no hospital veterinário, por overdose de sedativos, daí o medo. As profissões da saúde, subjugadas por interesses empresariais, têm prioridade no consumo de remédios e procedimentos que geram lucros. Não dá pra confiar. Acabou que nós é que envenenamos nossa familiar, inadvertidamente, pensando em atacar os carrapatos que a torturavam.

Partiu a cachorra mais mansa com quem já convivi. Sua delicadeza, apesar do seu tamanho, lhe
permitiu ter a amizade de Chico Bento, o gato, conquistada com sábia paciência. Ela quase falava
Foto - Alice Luz
com a gente, se fazia entender, não exigia nada, mas pedia como ninguém o que lhe faltasse. Deixa sua marca na vida da gente.

 Até hoje persiste esse combate, dentro da casa não há mais pulgas - que se tornaram uma infestação pior que os carrapatos - mas ainda há combates no quintal. E eu sozinho em casa. Bueno, ontem a Cleide estava aqui e não negou fogo, demos um grande adianto no processo. Mas espero os outros pro combate final, o extermínio definitivo vai ser um trabalho de grupo, em todos os cômodos da casa e em todo o seu entorno.

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Eduardo.




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Comuno-bolivarianismo, a nova neurose ignorantelítica desvairada.

"Peticionamos ao governo Obama para:

Posicionar-se contra a expansão comuno-bolivariana no Brasil promovida pelo governo Dilma Rousseff
No dia 26 de outubro Dilma Rousseff foi reeleita e vai continuar os planos de seu partido de estabelecer um regime comunista no Brasil (sic) — em moldes bolivarianos propostos pelo Foro de São Paulo.
Nós sabemos que, aos olhos da comunidade internacional, a eleição foi inteiramente democrática, mas as urnas não são confiáveis, além do fato de que os cabeças do Judiciário são em sua maior parte integrantes do partido vencedor (sic).
Políticas sociais são influenciadas pela escolha do presidente e as pessoas foram ameaçadas com a perda de sua ajuda alimentar se não reelegessem Dilma (sic).
Pedimos à Casa Branca que se posicione em relação à expansão comunista na América Latina. O Brasil não quer ser uma nova Venezuela (sic) e os Estados Unidos precisam ajudar os promotores da democracia e da liberdade no Brasil."

No universo populacional brasileiro, são 112.832 pessoas, na contagem mais recente. Essas informações são da época da "eleição", a farsa, como reação à não eleição do Aecim do pó, o deboche internacional.

http://www.viomundo.com.br/humor/nossa-little-havana-mais-de-100-mil-brasileiros-querem-washington-contra-regime-comuno-bolivariano.html

E não se fala da dívida pública, que deixa o país de joelhos e o orçamento nacional à mercê do sistema financeiro internacional, os mega-bancos internacionais. Dá uma olhadinha...

Documento do senado federal e texto de Thi Borges sobre a dívida pública:

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

"feliz" natal...

Os povos nórdicos não conseguiam acreditar num deus que se deixou matar por um bando de soldados na cruz da humilhação romana. O império ganhou as guerras, os territórios, os romanos venceram os guerreiros e seus líderes foram submetidos e convertidos à fé cristã, a religião do império. Mas o povo continuava com seus deuses e deusas guerreiros, comemoravam no dia do solstício, 25 de dezembro, a fertilidade dos campos, ao mesmo tempo em que pediam e ritualizavam por nova fertilidade na próxima colheita. As atividades varavam a noite, em cultos pagãos, sacrifícios e sexo ritual, pra horror dos padres. Patrulhas foram enviadas pra acabar com aquilo, sem muito sucesso, em algumas ocasiões houve levantes e patrulhas foram destroçadas pela fúria da multidão. Era preciso outra estratégia. Depois de muita discussão, muito pensar, ficou decretado que naquele dia seria comemorado o nascimento de Jesus, a festa máxima da cristandade - que até então se confundia com a páscoa dos judeus e marcava a "paixão e morte". Os líderes locais foram instruídos a abrir os seus castelos, oferecer presentes e comida e bebida ao povo, armar presépios e exaltar a cristandade. Os mais antigos desconfiaram daquela novidade, mas os jovens viam a oportunidade de comer e beber à farta, dançar e ganhar presentes. E começou a enfraquecer a comemoração do solstício, da fertilidade. Com o tempo, ficaram só os mais velhos e mais preocupados em preservar sua tradição independente da influência romana. Poucos, foi fácil criminalizar, perseguir, prender, matar os seguidores dos deuses e deusas nórdicos, ainda mais que era tempo de inquisição, de acusações de bruxarias, pactos com o demônio, torturas e fogueiras.

Assim foi decretado o dia do nascimento de Jesus, nascido numa época em que o império não registrava o dia do nascimento das crianças, mas sim o ano. Quando nem o ano é consenso, como marcar o dia? Só levando em conta as razões. É uma festa socialmente cruel, injusta, exclusiva. O que se prega neste dia é o que deveria ser todos os dias. Não é a afirmação de um dia, é a negação de todo o tempo. Ainda por cima, boçal. Reconheço, óbvio, a existência de pessoas de boa vontade, realmente comovidas com esta data. Mas isso não a justifica.

Abaixo, um texto que já compartilhei duas vezes. É de ocasião, merece uma terceira investida.


"Estimado Santa Claus, Papai Noel, Bom Velhinho,
ou como queira chamar-se ou ser chamado.

Confesso que sempre lhe tive simpatia porque, em geral, me agrada a Escandinávia, sua roupa vermelha me dá um sentimento premonitório e porque, por trás dessas barbas sempre acreditei reconhecer um filósofo alemão que, a cada dia, tem mais razão no que afirmou, em vários livros muito citados, mas pouco lidos.

Não tema pelo teor desta carta, não sou o menino chileno que, há muitos anos lhe escreveu: “Velho safado, no ano passado te escrevi contando que, apesar de ir descalço e em jejum à escola, consegui tirar as melhores notas e que o único presente querido era uma bicicleta, sem querer que seja nova. Não teria que ser uma mountain bike, nem para correr o Tour de France. Queria uma bicicleta simples, sem marchas, para ajudar minha mãe na condução das roupas que ela busca, lava, passa e entrega. Isso era tudo, uma humilde bicicleta. Mas chegou o natal e eu ganhei uma estúpida corneta de plástico, brinquedo que guardei e te envio com esta carta, para que enfies no cu. Desejo que pegues AIDS, velho filho da puta”.

Foram seus elfos, os responsáveis por tão monstruoso desrespeito? Pois bem, estimado Santa Claus, seguramente este ano receberá muitos pedidos de bicicletas, pois o único porvir que espera os meninos do mundo é como entregadores, mensageiros e trabalhos sem contrato de trabalho, condenados a distribuir pacotes e quinquilharias até os 67 anos de idade. No entanto, não lhe peço uma bicicleta. Peço, em troca, um esforço pedagógico, que ponha seus elfos, anões, duendes e renas para escrever milhões de cartas explicando o que são e onde estão os mercados.

Como você bem sabe, eles nos têm fodido a vida, rebaixado os salários, arrasado as pensões, retirado benefícios das aposentadorias e condenado as pessoas a trabalhar permanentemente, para tranqüilizar os mercados.

Os mercados têm nomes e rostos de pessoas. São um grupo integrado por menos de um por cento da humanidade, donos de 99% das riquezas. Os mercados são os integrantes dos conselhos de acionistas, como são acionistas, por exemplo, de um laboratório que se nega a renunciar aos royalties de uma série de medicamentos que, se fossem genéricos, salvariam milhões de vidas. Não o fazem porque essas vidas não são rentáveis. Mas a morte sim, é, e muito.

Os mercados são os acionistas das indústrias que engarrafam suco de laranja e que esperaram até que a União Européia anunciasse leis restritivas para os trabalhadores não comunitários, que serão obrigados a trabalhar na Espanha ou outro país da U.E., sob as regras de trabalho e condições salariais de seus países de origem. Logo que isto aconteceu, nas bolsas européias dispararam os preços da próxima colheita de laranja. Para os mercados, para todos e cada um destes acionistas, a justiça social não é rentável, mas a escravidão sim, e muito.

Os mercados são os acionistas de um banco que suspende o salário mínimo de uma mulher que tem o filho inválido. Para todos e cada um dos acionistas, gerentes e diretores dos departamentos, as razões humanitárias não são rentáveis. Mas os despojos, as expulsões da pobreza para a miséria sim, é. E muito. E para os ladrões de esperança, sejam de direita ou de direita – pois não há outra opção para os defensores do sistema responsável pela crise causada pelos mesmos mercados –, despojar da sua casa aquela senhora idosa foi um sinal para tranqüilizar os mercados.

Na Inglaterra, a alta criminosa das tarifas universitárias se fez para tranqüilizar os mercados. O descontentamento social levará a ações inevitáveis pela sobrevivência e os mercados pedirão sangue, mortes, para tranqüilizar seu apetite insaciável.

Que seus duendes e elfos expliquem, detalhadamente, que no meio desta crise econômica gerada pela voracidade especulativa dos mercados – e pela renúncia do Estado a controlar os vai-véns financeiros –, nenhum banco deixou de ganhar, nenhuma sociedade multinacional deixou de lucrar e até os economistas mais ortodoxos das teorias de mercado concordam em que o principal sintoma da crise é que os bancos e as empresas multinacionais lucram menos mas, em nenhum caso deixam de lucrar. Que os elfos e duendes expliquem até ficar claro que foi o mercado quem se opôs a (e conseguiu eliminar, financiando campanhas de legisladores a seu serviço - n do T) qualquer controle estatal às especulações, mas agora impõem que o Estado castigue os cidadãos com a diminuição dos seus rendimentos.

E, por último, permita-me pedir-lhe algo mais: milhares, milhões de bandeiras de combate, barricadas fortes, paralelepípedos maciços, máscaras anti-gases, e que a estrela de Belém se transforme numa série de cometas incandescentes com alvos fixos: as Bolsas, que queimem até os alicerces, pois as chamas dos formosos incêndios nos dariam, ainda que temporariamente, uma inesquecível Noite de Paz.

Muito fraternalmente,"


Luís Sepúlveda

Fuente: Le Monde Diplomatique                                            
Tradução - Eduardo Marinho


observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.