quarta-feira, 8 de abril de 2020

Récordes de mortos em 24 horas, nos EUA e no Brasil. Fora o que não é notificado.

O Estado mantém o controle, por cartórios, sobre nascimentos e mortes dos brasileiros, na intenção das "políticas públicas" e pra suspender os pagamentos de pensões, aposentadorias e benefícios que a sociedade é obrigada a prover à maioria da população, sabotada e roubada em seus direitos constitucionais, humanos e fundamentais. Isso dá possibilidade de se demonstrar, agora, a omissão, a ocultação do número de mortes pelo coronavírus. As autoridades tentam minimizar a epidemia do covid-19, no momento a serviço de interesses empresariais. Daí ser possível compreender como esses interesses são precários em humanidade, em solidariedade, em consideração pela vida.

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2020/04/cartorios-revelam-como-governo-nao-esta-contabilizando-mortos-por-coronavirus.html?utm_source=push&utm_medium=social&utm_campaign=artigos

Levando em conta os registros oficiais, ontem à noite se publicou o maior números de mortes em 24 horas no Brasil. Foram 114 mortos pelo coronavírus, do dia 6 à noite até ontem, 7, às 21:47h, momento da publicação. Os EUA, que são o "exemplo" seguido pelo mandatário nacional em subalternidade explícita, registraram também um récorde nefasto, 1.939 mortos em 24 horas, conforme boletim oficial também de ontem à noite.

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-08/brasil-registra-recorde-de-mortes-por-coronavirus-em-24-horas-e-busca-garantir-estoque-de-respiradores-com-a-china.html#?sma=newsletter_brasil_diaria20200408

https://www.cartacapital.com.br/mundo/eua-t%C3%AAm-quase-2-mil-mortos-por-coronavirus-em-24-horas/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_08042020&utm_medium=email&utm_source=RD+Station

Ao mesmo tempo, se vê a população circulando, depois de alguns dias de confinamento. Em vários centros comerciais pelos interiores as pessoas estão em quase normalidade, a preocupação dispersa pela necessidade imediata e com o estímulo governamental pra "ir trabalhar", de acordo com pressões patronais - uma força eleitoral deste "governo". Em um monte de cidades vejo comentários de que as pessoas não respeitam distâncias, procedimentos, a maioria sem máscaras, sem álcool gel, sem cuidados, como se o vírus fosse uma grande mentira. Não se sabe quantas mentiras há por trás do Covid-19, como de resto por trás de todo o jogo "político" encenado no teatro dos "poderes públicos", mas se vêem as consequências e é preciso tratar com elas. As cenas de terror vividas no Equador (depois que milhares de imigrantes retornaram da Espanha infestada), com cadáveres pelas ruas, sendo queimados, postos fora de casa por familiares, lotando necrotérios e hospitais a ponto de juntar nuvens de urubus atraídos pelo cheiro da putrafação cadavérica, deveria ser advertência suficiente para a gravidade da situação. Deveria ser suficiente pra modificar a disposição de ir pra rua e retomar a vida em nome da economia, porque isso seria também em nome da contaminação em massa e suas macabras consequências. Mas aí se esbarra na irresponsabilidade dos interesses econômico-financeiros, na alma anti-social desta estrutura social. É de se esperar a tragédia. Que deve esclarecer, da pior forma, os que tiverem ainda alguma sensibilidade entre os que apóiam esse "governo". Pelo que parece, não são muitos.

https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-04-08/interior-de-sao-paulo-relaxa-quarentena-e-acelera-contagios-13-polos-podem-espalhar-coronavirus-em-efeito-cascata.html#?sma=newsletter_brasil_diaria20200408

https://www.atribunarj.com.br/covid-19-sao-goncalo-registra-mais-duas-mortes/

Centro de São Gonçalo, ontem. Não tá tão cheio como costuma, mas não está vazio como recomenda a pandemia. 


domingo, 29 de março de 2020

Duas provocações de mangueio separadas por tempo e espaço



Salvador, 1984. Eu tinha 23 ou 24 anos, duas filhas, Brisa e Adhara, e morava na Aldeia de Arembepe. Estava mangueando em Itapuã, bares lotados, quiosques de praia abarrotados, sol forte, praias cheias. Eu ia de mesa em mesa, quer dar uma olhadinha?, alô, alguém quer ver?, licença, dá uma olhada aí... Na maior parte, ignoram, recusam, negam, alguns ainda contemporizam, muito bonito, mas fica pra outra hora, eu pensava a hora é agora, ou não é, e seguia, mesa em mesa, grupo a grupo, às vezes alguém parava pra olhar, eu esperava, de longe em longe uma venda. Eu entrava nos bares que não expulsavam, já conhecia da prática cotidiana, chegava nas mesas cheias, ia primeiro na pessoa mais velha, ou na que parecia estar no comando, pagando, quando percebia essa “hierarquia”, por uma questão de ética própria – ou defesa.  
Cheguei numa mesa que eram quatro mesas juntas, umas doze pessoas. Mostrei pra um dos caras, ele me dispensou com um gesto de impaciência, no meio do papo dele, sem nem me olhar. Eu fui mostrando pras outras pessoas, circundando a mesa, até que duas meninas me pararam. Uma encontrou seu nome escrito num brochinho de arame, perguntou quanto era, comprou. A outra reclamou, mas não tem o meu nome. Sem problema, eu respondi, posso fazer agora. Ela quis. O cara aquele, então, vendo que eu me preparava pra fazer um trampo, não gostou de me ver sorrindo com as meninas e começou a me atacar. Isso não é trabalho. Cês são um bando de vagabundo, tinha mais é que arrumar um emprego. Eu não dizia nada, só percebia a revolta dele por eu ter parado pra servir duas meninas bonitas que estavam na mesa dele. E continuou no mesmo tom, enquanto eu torcia o arame pra confeccionar o broche, calado. As pessoas na mesa foram silenciando, espantadas e constrangidas com o que ele tava falando. Eu respondi uma e outra vez, vagabundo? e mostrava a mão cheia de calos, ele não se dava por vencido, isso não quer dizer nada, e eu desisti de falar, continuei fazendo o trabalho calado, ele me esculachando. Não era novidade pra mim, eu só queria terminar, pegar meu dinheiro e seguir adiante, sabia ser inútil responder, que o confronto ali só me marcaria pro dono do bar não me deixar mais entrar pra vender. Sabia que frustrados covardes se aproveitavam da minha “inferioridade” social pra descarregar suas frustrações, consegui ficar calado até terminar. Quando finalmente entreguei o brochinho pra menina e recebi minha grana, percebi que não só aquele pessoal da mesa estava em silêncio, como outras mesas em volta haviam se calado, espantadas com tanta agressão e ofensa, na expectativa da minha reação. Enquanto enfiava o dinheiro no bolso, olhei pro sujeito bem nos olhos. Ele me encarava agressivo, como quem espera o confronto. Eu pensei não pode ficar assim, mas sem querer conflito. Com a grana no bolso, alicate e arame na bolsa, aproveitei que a mesa estava entre ele e eu e perguntei, calmo e em bom som, meu irmão, cê quer briga? A tensão no ar ficou densa, ele se levantou, olho arregalado, e gritou – por quê!? Eu respondi sem alterar a voz, porque eu saí de casa pra trabalhar, tenho duas crianças pequenas me esperando chegar com o sustento, não tenho tempo nem disposição pra ficar trocando sopapo com ninguém. O espanto era geral, ainda em silêncio. Eu continuei pra arrematar, mas pode ficar tranqüilo que tá cheio de gente que adora brigar, cê vai encontrar fácil alguém que se disponha, eu é que não posso, vai desculpando, preciso trabalhar, tá? Dá licença. E, ato contínuo, ofereci na mesa ao lado, quer dar uma olhadinha? As pessoas estavam ainda espantadas e balançavam a cabeça negativamente, sem dizer nada. Fui de mesa em mesa, oferecendo, em volta da mesa grande onde havia vendido, sem olhar pro cara mais nenhuma vez, pra ele não se sentir provocado, mas sem tirar do meu arco de visão periférica, pra não ser pego de surpresa por um ataque repentino. Que não veio. Na útima mesa do entorno daquela, um cara sozinho, que havia presenciado a cena toda, topou como um desafio ao dizer quero, eu quero ver o que você tem aí. Parei, ele olhou e parou nos brochinhos de placa, onde eu fazia as primeiras frases, pensamentos, propostas, desenhos, tudo gravado em relevo, na época com ácido nítrico, fez comentários, eu respondi, o papo ficou interessante, ele ofereceu cerveja, eu aceitei, sentei e fiquei um tempinho conversando enquanto ele escolheu uns quatro broches com pensamentos. Na hora de pagar pra eu ir embora, percebi que aquela mesa cheia havia esvaziado, a conta fora paga e eles tinham ido embora. Alívio. Segue a lida.

Belo Horizonte, 1990. Área da Savassi, noite, mangueio de fim de semana. Mesa cheia de novo, de novo a repulsa explícita de um convencional. Desta vez, ele se recusou a acreditar que era tudo feito à mão. Fui perguntado e conversava, explicando como usava o percloreto de ferro pra corroer, como isolava com tinta asfáltica as partes que ficariam em relevo, como fazia os fechos com o alicate e soldava atrás, o cara com um dos brochinhos na mão, balançava a cabeça, tu não faz isso à mão não. Eu dizia que ele podia não acreditar, era direito dele, mas eu sabia que fazia. Ele retrucava que eu comprava em São Paulo. Eu ria, sentia as pessoas acreditando em mim, apesar dele – quando a gente fala a verdade, parece que as pessoas honestas podem sentir -, até que ele apelou. Disse que tinha chegado de Sampa no dia anterior e que estivera na loja onde eu comprava. Pedi pra ele olhar bem as peças, pra não se confundir, ele confirmou a mentira, são esses mesmos, eu vi, igualzinho, numa loja lá da 25 de março. Eu parei, percebendo que ele tava mentindo descaradamente, tentando me desmoralizar ou me fazer assumir que comprava. Olhei bem pra ele, vi que não acreditava mesmo ser possível eu ter feito aquele trabalho à mão. As pessoas da mesa pararam de falar pra ver minha reação. Era uma clara afronta, um desafio. Mas, por outro lado, no fundo era um elogio. E respondi, cara... vou tomar como um elogio. Todo mundo se olhou, sem entender, eu expliquei. Tu ta achando meu trabalho tão bom que é impossível que eu tenha feito à mão, né isso? Os olhos do cara ficaram confusos, alguns sorriram, eu arrematei antes de ir embora, valeu, 'brigado. Também acho meu trabalho muito bom. Nem precisa acreditar.  E fui embora em paz. Tinha vendido dois broches naquela mesa.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Busca e encontro


A busca é inevitável, o encontro é casual. Eu colocava isso num broche, pra vender, entre outros tantos. Vivia disso, gravava no metal, fazia o fecho com fio de metal, soldava atrás.
Casual é por acaso. Pensando bem, é preciso  aspas em acaso. A busca é qualquer uma, espírito ou matéria, iluminada ou equivocada.
A busca é inevitável, o encontro é “casual”.
Porque acaso é uma palavra pretensiosa. Pretendemos saber a causa de tudo e, quando não sabemos, concluímos que não há causa. Que não existe porque não percebemos. E assim não desenvolvemos a percepção.
Pretensão pura. Quantas coisas acontecem e não sabemos as causas... É preciso um pouco de humildade pra admitir o pequeno alcance da razão humana – diante do todo universal – e, por conseqüência, aprender o que se pode e não explicar o que não se pode. Não conceber o inconcebível e se dedicar ao desenvolvimento possível.
O que precisamos aprender, o que está no imediato desenvolvimento da evolução de cada um é o que está ao alcance. A dedicação ao inalcançável, a pretensão de entender o que está além da capacidade humana de compreensão impede a percepção do que se pode perceber, impede o desenvolvimento possível.
Daí tanta arrogância entre os “evoluídos” – que não percebem que este sentimento de superioridade é a demonstração da sua precariedade evolutiva. Somos um nível evolutivo, como um grupo, como uma família humana, com diversidade mas em unidade.
Os que melhor enxergam o caminho se tornam mais responsáveis com a caminhada do grupo. Não melhores, nem superiores, apenas mais responsáveis. Em decisões, atitudes e exemplos. E com a obrigação de orientar, sempre que possível, os que pedem orientação.
Cabe desenvolver bem a percepção do possível. Não se plantam sementes no deserto. Ali se procura água.

domingo, 22 de março de 2020

Crise mundial em meio à viagem

Pores e nasceres de sol, no cerrado, são de uma amplidão esmagadora. Ali se sente poeira insignificante em meio à beleza. Aí era chegando em Goiânia, antes de Rio Verde e de Brasília.

Paramos pra apreciar a esplanada dos ministérios, no estacionamento da catedral de Brasília. Ganhei uma miniatura da estátua Candangos, do Niemáier, de um vendedor que me reconheceu e até escreveu meu nome na peça.

O Teatro Dulcina é um belo espaço. Levamos um pouco de música, um bocado de idéia e a exposição reflexiva.

Saída do Guará, rumo norte, caminho de Alto Paraíso de Goiás onde teve exposição e fala. De banho tomado.

A vista do cerrado e seu céu, pela janela de Celestina, a kombi.

A exposição foi na pousada Linda Flor. A fala também, só que não foi gravada.

Depois de Alto Paraíso, surgiu a pandemia. Ou melhor, se intensificou e espalhou. Fiquei meio incrédulo, claro, mídia privada não merece confiança, mas vi a tsunami dos acontecimentos. Resolvemos parar numa cidadezinha fim de linha, que não é passagem e chega quem vem pra ela, pra observar os acontecimentos, absorver os impactos e as impressões e decidir o que fazer. A foto, de Amanda Mara, simboliza bem como estávamos de espírito, nos preparando pra uma tempestade.


"Não sou exemplo pra ninguém" é uma afirmação que já fiz muitas vezes. Minhas atitudes são minhas, como são minhas as consequências. Não tenho o costume arrogante de aconselhar, de "saber" o que outros devem fazer, nunca pretendi "conscientizar e esclarecer" além de mim mesmo. Só com o passar das décadas foi que percebi a utilidade coletiva do meu trabalho, certamente pela inspiração além da minha capacidade de percepção, atribuída por mim à espiritualidade que sinto sem racionalizar, sem permitir que minha razão se meta a entender ou explicar. Sentir é mais que saber. Quando eu estiver pronto pra saber, saberei. Antes disso, nem pretendo, me basta sentir. Deixa acontecer.
Creio que o coronavírus é armação, sim. Talvez um tiro que saiu pela culatra, uma pedra atirada que virou uma avalanche. Mais uma arrogância humana, estratégia de dominação, de destruição por controle. Que poderes acima dos que conhecemos estão usando na lapidação da espiritualidade no planeta. Nada havia conseguido parar a "economia", prioridade mundial imposta pelo mercado econômico-financeiro ao mundo inteiro. Estamos acompanhados desde outras dimensões nessa experiência coletiva, nesta aula intensiva em que estamos todos imersos, mais ou menos conscientes. Os "poderosos" do mundo, sobretudo mega-banqueiros, mega-empresários, a casta mínima dos podres de ricos mundiais não é tão poderosa quanto pensa, diante da espiritualidade. Enquanto todo o sofrimento que produziram no planeta foi necessário à evolução do mundo, tiveram liberdade de o produzir. A estrutura social mundial é uma armação estratégica, desumana, escravista, anti-social e criminosa. Não dá pra confiar em poderes públicos, nas mídias empresariais, em bancos ou empresas.
Parece que é chegada um momento de mudança brutal. A economia, pela primeira vez desde a tal "revolução industrial", está indo pra segundo plano. Indústria, comércio, bolsas de valores, transportes, movimentos de gente e de mercadorias estão sob controle rígido, caminhamos pra fechar fronteiras e criar autonomias locais - em todos os sentidos. Cobram-se sentimentos mais evoluídos, solidariedade, cuidado com os mais frágeis, enfim, tudo o que deve se tornar rotineiro, mas que hoje ainda aparecem como "virtudes".
É a evolução planetária num momento de pico, de choque. Uma necessidade nossa no caminho do desenvolvimento verdadeiro, interno, de almas. A alma do planeta se modificando na pressão.
Estamos no meio de uma viagem, que pretendia subir ao alto Tocantins e cruzar o sertão por Balsas, Picos, Crato, Campina Grande até João Pessoa. Fomos interrompidos em Goiás pelas notícias da pandemia mundial, em Alto Paraíso. Diante da comoção geral, paramos em Calvalcante, aproveitando um convite do Tiago Minuzzi, pra nos situar e escolher o que fazer. A viagem mudou de rumo, não pode mais ser a mesma. Até a fronteira com o Ceará foi fechada. Eventos foram desprogramados em Palmas e no Crato. Eventos potenciais despotencializaram. Agora é rumo de casa, de volta à base.
Mas... vamos na função. O que encontrarmos, vamos gravando e repassando. O caminho passa pelo rio São Francisco, de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, até Três Marias, na beira da BR 040. Se até lá não se constituírem barreiras, seguimos por essa estrada de volta, passando por Beagá e Juiz de Fora, além de todas as cidades pelos caminhos. Só não vamos expor, tocar e falar por conta da contra-indicação de aglomerados.
O risco da contaminação existe, não nego. Mas muito cedo, há mais de quarenta anos, assumi riscos bem maiores, imediatos e cotidianos, por saber que liberdade é risco e segurança é prisão, além do que a maior segurança que existe é a da morte. Nascer é a garantia de morrer. O que me propus é viver enquanto isso da forma que mais me satisfizesse. Morte é apenas a porta pra outra dimensão, mais real até do que essa física em que claramente estamos de passagem. Essa epidemia nos pegou longe de casa, o que temos a fazer pelos caminhos de volta - eu nem voltaria, se não fosse tudo estar parado e a hostilidade de locais estar em desenvolvimento contra os forasteiros, vistos como ameaças de contaminação.
Em tempos de confinamento, temos mais de dois mil quilômetros pra percorrer. É claro que vamos dar proveito à situação que não esperávamos. Vamos passar por bons pedaços do Brasil profundo e vamos divulgando tudo o que pudermos, até a chegada.
Espero que a placa de Niterói e a explicação de termos sido pegos de surpresa no meio da viagem sejam bons passaportes em eventuais barreiras pelos caminhos. Dependendo das informações, escolheremos as estradas.



sexta-feira, 13 de março de 2020

Campanhas midiáticas escondem jogos de bastidores - ou "causas escondidas e efeitos aumentados" ou "intenções criminosas em jogo sujo".



Olhaí a mídia gastando dez, quinze minutos de jornal, várias vezes por dia, pra falar na “ameaça”, na “pandemia”, nas dezenas de milhões de mortos, um salve-se quem puder. Já levanto as orelhas, desconfiado. Todo mundo de olho preso no coronavírus, enquanto na economia o descalabro é planejado e, como sempre, perverso, nocivo, covarde, criminoso, manobras do punhado dos “por cima” de governos e parlamentos, o poder verdadeiro nos bastidores dos poderes ditos “públicos”, das autoridades governamentais, judiciárias e parlamentares. Os poderes públicos têm cheiro de podridão.
Falcatrua do caralho. Deviam mobilizar isso tudo de saúde pública era pra acabar com as mortes de crianças e idosos por tuberculose, pneumonia e diarréia. Além da fome. Isso tudo é curável e sanável e mata muito mais que essa merda de coronavírus, que só matou 2,3% dos infectados, uma mixaria perto do abandono médico, mixaria diante dos crimes de Estado contra a população, diários, cotidianos.
O trânsito mata coisa de um milhão e meio por ano, mutila, detona e seqüela outros tantos, mais do que qualquer guerra, mais que qualquer peste ou epidemia, mais de um milhão, todo ano. E ninguém fala nada, não sai na mídia empresarial, óbvio, empresas automobilísticas, de auto-peças, de pavimentação, petroleiras, não têm interesse nessa divulgação.
Madeireiros e garimpeiros estão detonando terras indígenas, enquanto as autoridades governamentais tratam de amputar e desfazer mecanismos de defesa e proteção aos territórios indígenas, aos povos originários. São pobres atacando, “limpando” a área pra grandes madeireiras e mineradoras gigantescas que, em sua ânsia de lucros a baixo custo, empestearão de venenos as terras, os ares e as águas, matando e adoecendo – eles moram longe e não têm nenhuma responsabilidade social, moral, humana. Em sua desumanidade, vale tudo pra obter lucros gigantescos.
Desde a manhã, a mídia gasta muito tempo martelando coronavírus, coronavírus, coronavírus nas orelhas e nas mentes, apavorando, prometendo apocalipses, fazendo a campanha de apavoramento, jogos obscuros do poder sobre os poderes, dominando mentes e corações.
A soberania nacional tá esculachada, o centro de lançamento de satélites e outros foguetes da área espacial foi entregue aos EUA e brasileiros só entram lá com permissão deles. Nem polícia pode entrar, é área estadunidense (eu me recuso a chamar de “americano” qualquer coisa que seja estadunidense), não brasileira. Entregue de mão beijada. É preciso prestar atenção no coronavírus, olha pra lá que lá vem a peste, a epidemia, o horror, não preste atenção em mais nada.
Direitos trabalhistas esmagados, cada vez mais zumbis desabrigados, drogados, zanzando pela noite. Cada vez mais violentas e intratáveis as forças de segurança, ao contrário de segurança, dão medo. Cada vez mais doenças curáveis matam, com a força da fome que se alastra como se alastra a criminalidade, a começar pelas cúpulas dos poderes e se estendendo por todas as áreas da sociedade, ela mesma criminosa contra a população.
É preciso enxergar, cada vez mais, as falcatruas sociais. Gerações vindouras levarão adiante o trabalho de esclarecimento. Só vendo o que acontece, percebendo em nós a colaboração inconsciente, mudando de postura, de comportamentos, de valores e de objetivos de vida, se pode trabalhar em mudar o mundo. Pra nós mesmos, em primeiro lugar, pra coletividade humana, por extensão. Sem pretensões arrogantes e na humildade do fazer em si mesmo.

Obs.: Devo deixar claro aqui a minha opção pelo risco. Desde sempre me expus. O último exame dito médico que fiz foi em 1978, saindo do Exército, por exigência protocolar. De lá pra cá, nunca mais. Não tenho nenhuma confiança no sistema de medicina, nos laboratórios da atualidade - porque um dia já tiveram intenções humanísticas, antes do poder econômico tomar conta - e tenho medo da medicina do Estado. Daí não ter tido nunca a iniciativa de procurar por estes "serviços". E ter me alimentado e aos meus filhos com os melhores alimentos de que tinha conhecimendo, integrais, orgânicos e sem química industrial.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A visão da perifa e a academia

Emicida diz "os boy conhece Marx, nóis conhece a fome", uma realidade inegável. Mas já se levanta a voz da academia, com sua distância do chão social, sua arrogância programada e sua "sensibilidade" a críticas, que se torna intolerância quando a crítica é contundente e não vem de acadêmicos, mas de periféricos. Há uma cadeira subliminar de arrogância, nas academias, na criação de sentimentos de superioridade que não resistem à prática cotidiana, à realidade de superação de dificuldades que a coletividade acadêmica nem imagina, nem suporta.
Os boy conhece Marx, mas não sabe o que fazer com esse conhecimento - há séculos. Sentem superioridade por aqueles que constróem sua casa, costuram sua roupa, produzem o alimento que mata sua fome, servem de base pra universidade onde eles estudam Marx e recebem sua carga de arrogância pra simularem revoluções que não chegam a lugar nenhum - ou pior, recrudescem a repressão sobre os sabotados sociais. É parte da programação social de dominação criar essa distância entre o saber e a sabedoria. Servir de conhecimentos os que tiveram seu direito de acesso negado, com humildade e espírito de serviço, não é "ajudar", "conscientizar", "organizar os trabalhadores" ou "ensinar os ignorantes". Muito menos "conduzir as massas". É compartilhar, servir de saber aqueles que têm acesso a uma sabedoria que a academia não reconhece. É preciso reconhecer pessoalmente. Os fortes são os que superam dificuldades imensas, criadas por um Estado criminoso que rouba direitos humanos, básicos e constitucionais. Apenas são impregnados pelo massacre midiático, publicitário, ideológico e convencidos de uma falsa inferioridade (da mesma forma que há criação de superioridade entre minorias protegidas e privilegiadas socialmente). Estes, os periféricos, são quem têm condição de construir uma sociedade justa. Justamente os mesmos que constróem esta sociedade da farsa. Uma questão de consciência, que deve ser alimentada de conhecimentos amorosa e respeitosamente, reconhecendo a estratégia de distanciamento pelos sentimento de superioridade, de um lado, e inferioridade, do outro.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

"Parabéns por ter enfrentado seus pais", alguém me disse.

Eu precisava enfrentar era o mundo, sem privilégios além dos que eu já carregava na minha formação, pra vivenciar o que vivenciei e fazer hoje o que faço. Não me vejo como exemplo pra ninguém, ao contrário, mas exerço minha visão de mundo no meu trabalho, desde décadas atrás, como consequência das minhas vivências. Perdi todas as garantias e considerações sociais e segui no risco, como todo mundo à minha volta, no abandono social - e sem reclamar, amarradão, atento às lições preciosas que a vida me apresentava. Enfrentar os meus pais foi um momento curto, lá no comecinho, como a chave pra abrir essa nova existência, tão cheia de aprendizados, que jamais seria assimilada por eles. E que não seria possível vivenciar, em vários momentos críticos, se houvesse alguma proximidade com eles. Eu estava só diante do aparato público, sem intermediários, sem proteção, no nível mais baixo da sociedade. Tinha que tratar com isso e desenrolar com as pessoas do aparato, quando necessário, tratar com o descaso, com a indiferença, com a falta de recursos e a má vontade institucional com a imensa legião de pobres que a sociedade necessita produzir, pra manter minorias em privilégios. Os meus privilégios sociais, escolas particulares "de qualidade", cursos, boa alimentação, esportes e movimentações que me deram resistência e saúde, os hábitos de buscar e analisar informações em jornais e informativos, ainda que empresariais, tudo isso então foi comigo buscar as vivências que os privilegiados não têm. Não têm e morrem de medo de ter, se sentiriam humilhados, frágeis. Vivências que exigem resistência e criatividade, que desenvolvem a capacidade de superação, a solidariedade, a disposição de encarar os riscos de viver sem proteção.
Ali que eu percebi que os privilégios fragilizam, que os fortes estavam ali, encarando todas as durezas com naturalidade, disposição, alegria, união solidária diante das dificuldades. Ali eu percebi a riqueza da pobreza, a humanidade mais desenvolvida - não por alguma superioridade espíritual, mas por necessidade de sobrevivência, de superação das dificuldades que esta estrutura criminosa de sociedade cria. Os fortes não sabem que são fortes sociais, se sentem fortes apenas nos seus afazeres, socialmente se sentem pequenos, frágeis, insignificantes, incapazes, como a própria ideologia social os faz crer, com todas as artimanhas de convencimento e sabotagem, de exclusão e acorrentamento a valores falsos e planejados pra evitar que se tome consciência da própria importância na sociedade, da própria força e capacidade. Não se trata de levantar disputas e apontar saídas, trata-se apenas de ver a realidade como ela é, não como nos é mostrada, tomar consciência dela progressivamente e construir suas próprias soluções e caminhos. Eu construí, na minha vida, no meu mundo, já que não podia fazer isso com o mundo. E foi essa atitude, esses caminhos e essas práticas que se tornaram útieis ao mundo.
Só pra concluir, o enfrentamento com meus pais durou coisa de dois meses. Com a estrutura social já lá se vão quarenta anos.

Produzindo pra viagem e pensando no mundo, na vida, na humanidade.

Sexta-feira passada, na oficina. Gravação por Amanda Mara.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Eduardo Marinho - Nem esquerda, nem direita, a força tá na periferia.

A dita "esquerda" pode ter uma proposta menos injusta, mais igualitária, menos perversa e mais solidária, mas não tem a condição prática pra fazer isso. Programada pelas induções sociais, se arroga a capacidade de determinar como transformar a sociedade, sem se perceber condicionada e muito menos fazer a necessária revolução interna que lhe daria humildade e esta lhe permitiria perceber que os mais capazes de construir uma sociedade nova são exatamente os que constróem a sociedade todos os dias. Mesmo que tenham sido induzidos a sentir inferioridade, incapacidade e desvalor, da mesma forma que os que tiveram acesso são induzidos a sentir superioridade, sem reconhecer a dependência completa do trabalho braçal, em todos os espaços da sua vida. Os mais fortes não são os apontados pela sociedade ainda desumana, esta é apenas mais uma mentira social. Os mais fortes são os que se sentem mais fracos, são os que superam dificuldades enormes na sua rotina de vida, que convivem com todas as sabotagens - na educação, na saúde, no transporte, no trabalho...- e encaram os piores trabalhos, os mais duros e mal remunerados. É uma questão de tomar consciência. Tanto entre os instruídos quanto entre os sabotados. Sentimentos de superioridade e inferioridade falsas são construídos estrategicamente no subconsciente coletivo, com a função de afastar o conhecimento da capacidade de resistência, de impedir o encontro do saber com a sabedoria. A arrogância ou a humilhação são muros intransponíveis. Mas não são indestrutíveis.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Espionagem e controle mundial é rotina oculta permanente

CIA espionou comunicações no Brasil e em mais de 120 países do mundo


Governos estrangeiros pagavam a empresa suiça Crypto AG pelo privilégio de ter suas comunicações mais secretas monitoradas pelas agências de inteligência

DAVID BROOKS
Nova York (Estados Unidos)

Durante meio século até 2018, mais de 120 governos ao redor do mundo, incluindo o México, confiavam em uma única empresa suíça para manter secretas as comunicações com seus espiões, militares, diplomatas e outros governos, mas nenhum sabia que os donos reais dessa empresa eram a CIA e sua contraparte alemã BND, revelou o Washington Post.

A empresa, Crypto AG, se converteu no principal fabricante de máquinas de cifrado, e ganhou milhões de dólares vendendo o equipamento a governos na Europa, nas Américas, na Ásia e na África. O Vaticano e a Organização das Nações Unidas também eram clientes.

“Mas o que nenhum de seus clientes jamais soube é que a Crypto AG era secretamente propriedade da CIA” e sua sócia a inteligência da Alemanha ocidental, revelou o Post em uma reportagem exclusiva em colaboração com ZDF, um meio alemão, os quais tiveram acesso a uma história classificada da CIA e informes alemães sobre a operação, bem como entrevistas com alguns dos participantes.

“Foi o logro de inteligência do século”, conclui o informe da CIA, agregando que “governos estrangeiros pagavam um bom dinheiro aos Estados Unidos e à Alemanha Ocidental pelo privilégio de ter suas comunicações mais secretas lidas por pelo menos dois (e possivelmente até cinco ou seis) países estrangeiros”, reporta o Post.

Desde 1970 até 2018, a CIA e a Agência de Segurança Nacional (NSA), controlaram todas as operações da Crypto, sem o conhecimento de seus clientes, e de quase todos os seus funcionários. 
A evolução dos produtos e a adaptação de novas tecnologias, estavam desenhadas para trair seus compradores. A empresa começou a funcionar durante a Segunda Guerra Mundial sob o comando de seu fundador na Suíça, o qual colaborou com a inteligência estadunidense e europeia, mas foi em 1970 que foi comprada pela CIA e sua contraparte alemã. Algumas empresas, como Siemens e Motorola participaram para melhorar os produtos.
Com isso, a CIA e a NSA estavam monitorando comunicações de Anwar El Sadat em 1978, dos iranianos em 1979, como de outros desde a Arábia Saudita à Coreia do Sul, desde a Argentina, à Venezuela, Colômbia, México e Brasil.
A reportagem aborda a forma como foi manejada a empresa para evitar que seus funcionários ficassem sabendo da relação com as agências de inteligência, das disputas burocráticas entre e dentro dos Estados Unidos e Alemanha, como o tipo de informação que se conseguiu obter. Leia esta reportagem clicando AQUI.
O National Security Archive, centro de investigações de relações exteriores e documentação oficial secreta, disse hoje que a reportagem do Post confirma que entre os países que empregaram as máquinas da Crypto para suas comunicações secretas estão os regimes militares da Operação Condor encabeçada pelo Chile, Argentina e Uruguai quando “realizavam atos de repressão e terrorismo regionais e internacionais contra figuras da oposição”. 
Com o uso dos instrumentos da Crypto, a CIA e a NSA tinham a capacidade de monitorar operações golpistas e de repressão dentro do Cone Sul, até atos terroristas como o assassinato de Orlando Letelier em Washington ou a derrubada do avião da Cubana de Aviación em 1976. Portanto, afirma o Arquivo, a reportagem gera novas interrogantes sobre quando e o que sabia o governo estadunidense sobre essas operações na América Latina. 
O arquivo observa que documentos desclassificados pelo centro revelaram anteriormente que, na começo formal da Operação Condor, por seus cinco regimes, em 1975, se chegou a um acordo para se estabelecer um sistema de criptografia que foi batizado como Condortel. O equipamento para essa rede de comunicação veio da Crypto AG.
Para acessar outros documentos clique AQUI.

*David Brooks é correspondente de La Jornada em Nova York, EUA.
**La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.
***Tradução: Beatriz Cannabrava

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Espiritualidade não é religião

Não ter religião não significa de maneira nenhuma ser ateu. Significa apenas não acreditar nas interpretações religiosas sobre espiritualidade, arrogantes, repressivas, donas de verdades improváveis, que cobram crença sob ameaça de punição, de incorrer na "ira divina", expressão, a meu ver, ridícula, que atribui um dos piores sentimentos à divindade. É o ser humano projetado na imagem do "ser supremo".
Espiritualidade acima da média é amorosidade, generosidade, tolerância, respeito, senso de justiça, cooperatividade, além de humildade e espírito de serviço. Intolerância, julgamento, ameaça, irritação, acusação, preconceitos são característica da baixa espiritualidade, do primitivismo religioso, separatista, orgulhoso, atrasado, verdadeira âncora no desenvolvimento da humanidade.
Não preciso nem posso saber o que está fora do alcance da minha capacidade de compreensão. Tenho quase sessenta anos, não demora muito vou estar de cara pra essa realidade, sem intermediação de nada nem ninguém. E "alguma coisa" me diz que, se tenho uma consciência ativa, alerta, e estou de acordo com ela, em paz comigo mesmo e com o mundo a minha volta, estou bem espiritualmente pra encontrar as boas sintonias das outras dimensões. Saber, só assim mesmo. No momento, é intuição, sentimento e atuação na coletividade humana, minha família espiritual, primitiva e em desenvolvimento.

Arrogância como distância

Há uma produção intensa e intencional de arrogância, via estimulação de egos, pela mídia e pelo sistema social em geral. Vaidades, superficialidades, fragilidades são criadas, induzidas, estimuladas. Os motivos são simples, ligados à dominação da estrutura, da sociedade como um todo. A arrogância é o melhor conservante pra ignorância e desinformação. Bloqueia qualquer tentativa de esclarecimento com insultos programados e automáticos, de forma superficial e grosseira. Afasta as pessoas e torna as relações superficiais.

Arrogância é um recurso de domínio social, entre muitos outros. Induzida entre acadêmicos, é uma forma infalível de conter o conhecimento entre poucos, os que se destinam ao controle, à administração da maioria ignorante e desinformada, da massa explorável, escravizável, roubada em seus direitos constitucionais, fácil de conduzir pela mídia, pelas redes sociais, desarmada de senso crítico, de conhecimentos e informações, apesar de ser a classe mais forte, mais resistente e que, pelas dificuldades com que trata rotineiramente, desenvolve a sabedoria das vivências e convivências, da superação de obstáculos, problemas e dificuldades. Para o punhado de dominantes, o saber não pode se aproximar da sabedoria, é uma "heresia", pros que dominam, a idéia de instruir e informar, de verdade, a população. A ignorância é parte fundamental do alicerce desta estrutura social, a superficialidade, a desinformação, a alienação são básicas pra existência da injustiça, da exploração, a competição, a ânsia de consumo, o valor humano diretamente ligado e dependente do patrimônio, da forma muito além do conteúdo, tudo são armações psicológicas, induções criminosas na formação da mentalidade geral. A arrogância é uma barreira, mais uma entre tantas, no caminho do saber. 

A arrogância serve também como capa, biombo pra esconder a insegurança pessoal, social ou afetiva. Afasta as pessoas e tornam as relações superficiais e distantes. Um esconderijo, um castelo de areia, uma capa de invisibilidade que só convence os igualmente condicionados, induzidos a estes valores e procedimentos. Mesmo assim, entre os que acatam a arrogância dos "superiores", muitos sentem alguma coisa no ar, algum desequilíbrio, alguma falsidade, encenação, alguma coisa por trás da situação, que passa despercebida, embora intuída.

O que seria bom levar em conta é que a arrogância cega, muitas pessoas deixam de perceber os sinais sutis que a vida apresenta, os avisos e advertências diante de decisões e escolhas. Perdem boa parte da capacidade de aprendizado, sobretudo dos que lhe são “socialmente inferiores”, mais uma estupidez planejada. Arrogância diminui a sensibilidade, a capacidade de percepção, o senso de justiça. As coisas passam a ser analisadas de acordo com a própria conveniência, só se chegam a conclusões convenientes, só se vê o que se quer e não há como se esclarecer a respeito dos próprios erros. O arrogante tem enorme dificuldade em corrigir as próprias falhas porque não as admite. Os que tentam mostrar o que não se quer ver são desqualificados de imediato, quando não insultados e agredidos.

Arrogância – freqüentemente ligada a egoísmo, a vaidade, a interesses materiais e financeiros, a forma, a aparência, a superficialidade – é terra árida, infértil, desértica, onde só crescem cactos e plantas agressivas, até pela agressividade do meio. Quem tiver sementes pra plantar, melhor guardar pra terras férteis, que estão sempre por aí. Sei que todo deserto tem seus oásis, mas poucos têm condições de encontrar, melhor deixar pra especialistas, gente com mais sabedoria que eu. Não gosto e não quero perder sementes. Quando percebo a impossibilidade, a infertilidade, a hostilidade, a tranca, me calo, sem ranço, sem mágoas, sem julgamentos.

Conheço o mundo onde vivo, sei das fábricas de pensamentos e sentimentos rasteiros, atrasados, conflituosos, percebo os planos de causar discórdias e confrontos, a manipulação mental que acompanha a distorção da realidade pelo jornalismo empresarial, a sabotagem de todo sistema de ensino, cada setor de uma forma específica, na construção da sociedade onde vivo e das mentalidades que vigoram nesse momento da eternidade. Um emissor ocasional de barbaridades e desumanidades ideológicas é um repetidor de programações mentais, um papagaio de mídia, teleguiado e com pequena capacidade de criação do seu próprio pensamento, da própria visão de mundo. A própria sociedade é desumana e cria barbárie nas suas periferias. Eu sou igualmente condicionado se me aborreço com este repetidor, se o julgo e condeno, decompondo a pessoa em fatores químicos tóxicos, insultando e acusando. Ou mesmo se o responsabilizo pelo pensamento emitido. Sei que é produção em massa, que são usados conhecimentos profundos de psicologia do inconsciente, psicologia de massa, antropologia, sociologia, tudo quanto é estudo do ser humano e da sociedade. Contratam-se as “melhores cabeças” por fortunas que anestesiam as consciências, pra compor laboratórios de pensamento na intenção de construir valores, comportamentos, desejos, visão de mundo, objetivos de vida.

O mercado das consciências movimenta muita, muuita grana pelo mundo afora, monitorando academias e demais produtores de conhecimento. Salários altíssimos e garantias sociais são anestésicos potentes pra consciências e sensibilidades. E a arrogância é um ingrediente importante na composição desses anestésicos. Os efeitos colaterais são aqueles mencionados lá atrás, de passagem: a tendência à cegueira, à distorção da realidade, o desenvolvimento de egoísmo e de vaidades – sobretudo simbólicas, que confirmem sua falsa superioridade –, a queda no sentimento de solidariedade, a criação de isolamento, de dificuldades afetivas... e por aí vai. O plantio é livre, mas a colheita é obrigatória. Não como castigo, mas sim como conseqüência. A arrogância bloqueia a inteligência e impede que se tome consciência. Afasta e mantém distância.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Guerra en América Latina (II): Receita para incendiar un continente



Por: Claudio Fabian Guevara

Publicado 31 diciembre 2019



Um plano explícito e documentado se foca em detonar uma conflagração na América Latina em torno de Venezuela e Caribe. Agora se soma a transformação da Bolívia em um novo estado criminoso que colabore com a geração da guerra. No horizonte, um caos de longa duração e a subdivisão política do continente em unidades menores.
“Estados Unidos, em vista do seu retroceso mundial, quer reordenar seu espaço geopolítico …() e afundar Nuestra América num caos sem fim de ódios ideológicos implantados de fora”.
Miguel Angel Barrios
“A América Latina é, mais uma vez, o território da disputa geopolítica de colonização ou descolonização. Em todos os lugares – Bolívia, Chile, Argentina, Brasil, Venezuela, Uruguai...- e assim, no mesmo padrão: os liberais pró Estados Unidos (+ liberais de extrema direita) contra as forças de descolonização, em sua maioria de esquerda”.
Alexander Dugin

As peças vão se juntando. Com o desmentelamento da UNASUR e das instituições multilaterais que garantiam a paz e os projetos de integração entre as nações sulamericanas, todas as fichas se movem em direção a uma guerra induzida na América Latina. Nas duas últimas semanas, todas as variáveis se aceleraram.
As principais hipóteses de conflito partem do cerco multidimensional à Venezuela. Agora aparecem os perigos de uma “ruandização” da Bolivia e sua transformação em um novo estado criminoso que colabore com a geração da guerra, junto com Colômbia, Peru, Equador, Brasil e Guiana.
As nações latinoamericanas não têm motivos históricos verdadeiros para entrar em guerra. Um potencial conflito bélico só pode ser criado artificialmente, a partir de denúncias falsas, ataques de falsa bandeira ou decisões governamentais para queimar o continente no altar de uma quimera de origem estrangeira, como “a defesa da democracia” na Venezuela, ou “a luta contra o terrorismo” que alimenta o regime usurpador de La Paz.
Um plano detalhado para envolver um grupo de nações latinoamericanas em um conflito deste tipo veio à luz no ano passado e seus primeiros passos estão à vista.

A agenda profunda do “golpe de mestre”

No início de 2018, um artigo da jornalista Stella Calloni trouxe à luz um documento de 11 páginas, com a assinatura do almirante Kurt Walter Tidd, então comandante em chefe do Comando Sul (SouthCom) estadunidense: “Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship – Masterstroke”. Ali se esboça a agenda profunda da guerra contra a Venezuela que, em sua etapa mais avançada prevê uma operação multinacional. O documento manda executar passos práticos com o objetivo de desgastar o governo de Nicolás Maduro e forçar a sua queda:

- No plano econômico, incrementar a instabilidade interna, intensificando a descapitalização do país, a fuga de capitais estrangeiros e a deterioração da moeda nacional, mediante a aplicação de medidas inflacionárias que acelerem essa deterioração. Obstruir todas as importações e desmotivar os investidores externos. Sabotar a indústria do petróleo. Generalizar o desabastecimento de comida, remédios e bens básicos. Contribuir fazendo mais críticas à situação da população e fomentar o descontentamento. Todas as calamidades vividas pela população serão exploradas para “culpar o governo”.
- No plano social, apelar a aliados internos e agentes externos implantados no país para provocar protestos e atos violentos, gerar insegurança, saques e roubos. Promover os seqüestros de embarcações para desertar do país. Estruturar um plano para conseguir a deserção dos profissionais mais qualificados do país. Promover o desgaste entre os membros do partido governante e seus seguidores.
- No plano midiático, ridicularizar a figura de Maduro, fazê-lo cair em arroubos verbais e equívocos, para provocar desconfiança à sua figura. Acossá-lo, ridicularizá-lo e apontá-lo como exemplo de torpeza e incompetência. Minimizar sua importância internacional. Expô-lo como marionete de Cuba. Exagerar as diferenças entre os membros do grupo no governo.
- No plano militar, instigar um golpe de Estado, continuar o fogo contínuo na fronteira com a Colômbia, multiplicar o tráfico de combustíveis e outros bens, o movimento dos paramilitares, incursões armadas e tráfico de drogas. Provocar incidentes armados com as forças de segurança nas fronteiras. Também recrutar paramilitares, principalmente nos campos de refugiados de Cúcuta, Guajira e no norte de Santander.
Num primeiro nível de leitura, o plano é uma explícita declaração de guerra e de interferência descarada, que explica em grande parte os padecimentos da Venezuela hoje.
Num segundo nível de leitura, o documento pode ser interpretado como um manual para o assédio e controle das populações das colônias. Este conjunto de estratégias se aplicam em outros cenários, contra outros povos.
Em um terceiro, é uma instrução ideológica para os centros geradores de notícias. Os estereótipos e construções verbais propostos pelo documento para desacreditar o “líder inimigo” aparecem transversalmente na cobertura noticiosa sobre a Venezuela atual.
Preparação de una coalizão internacional
Enquanto se fomenta a instabilidade interna, se traça um plano para obter a cooperação das autoridades aliadas de “países amigos”: Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Guiana.
-As provisões das tropas, apoio logístico e médico se realizarão a partir do Panamá. Se fará uso das facilidades da vigilância eletrônica e dos sinais inteligentes, de hospitais e instalações levadas a Darién (selva panamenha), o equipamento de drones do Plano Colômbia, como também as terras das antigas bases militares de Howard e Albrood (no Panamá), assim como as pertencentes a Rio Hato.
- Além disso se utilizará o Centro Regional Humanitário das Nações Unidas, desenhado para situações de catástrofes e emergências humanitárias, que conta com um campo de aterrissagem e seus próprios armazéns.
- A operação militar será desenvolvida sob bandeira internacional, patrocinada pela Conferência dos Exércitos Latinoamericanos, sob a proteção da OEA e a supervisão, “no contexto legal e midiático, do secretário geral (da OEA) Luis Almagro (SIC).
- É prevista uma Operação Multilateral com a contribuição de Estados, organismos não estatais e corpos internacionais, antecipando especialmente os pontos mais importantes em Aruba, Puerto Carreño, Inirida, Maicao, Barranquilla e Sincelejo, em Colômbia e Roraima, Manaus e Boa Vista, no Brasil.
- Se unirão ao Brasil, Argentina, Colômbia e Panamá para contribuir com o número de tropas, com a presença de unidades de combate dos Estados Unidos e destas nações, sob comando geral do Estado Maior Conjunto, liderado pelos Estados Unidos.
Esta plano – pensa Stella Calloni – “torna compreensíveis as recentes manobras militares de Estados Unidos nesta região de fronteira entre Brasil e Venezuela (Brasil, Peru e Colômbia), no Atlântico Sul (EUA, Chile, Grã Bretanha, Argentina), no caso argentino sem autorização do Congresso Nacional”.
O “Golpe de Mestre” previa acelerar os acontecimentos antes das eleições de maio de 2018. Não conseguiu seus objetivos nos prazos anunciados. O almirante Tidd foi aposentado poucos meses depois das revelações jornalísticas. Mas o plano continua sua marcha.
Ultimas novidades na frente venezuelana

Internamente a Venezuela vive todos os ingredientes do plano previsto no “Golpe de Mestre”: ao boicote da economia se somam um acúmulo de ações desestabilizadores. Durante 2019, cinco conspirações violentas da direita venezulana foram descobertas e desativadas. O último incidente aconteceu em 23 de dezembro, com o  ataque de um grupo armado ao Batalhão 513 no estado sulista e fronteiriço de Bolívar, onde morreu um militar das FANB (exército venezuelano – n do T). O governo venezuelano informou o roubo de armamento de guerra, supostamente com o propósito de realizar uma ação de bandeira falsa, para provocar uma intervenção militar dos EUA contra a Venezuela.
Os governos da região, longe de impedir a propagação da violência, mostram uma convergência com as linhas de ação previstas no plano do Comando Sul. O ministro da informação da Venezuela, Jorge Rodríguez, disse que Colômbia, Peru, Equador e Brasil facilitaram os movimentos do grupo armado responsável pelo ataque ao Batalhão 513. Os fatos parecem lhe dar razão.
O presidente Maduro exigiu do Brasil a captura dos militares responsáveis, que no entanto foram recebidos em território brasileiro, no marco da “Operação Boas Vindas”. A chancelaria brasileira anunciou que os desertores solicitaram asilo e lhes foi concedido.
Isto é, por um lado há um estímulo à imigração, uma recepção “amigável”, inclusive se tratando de elementos violentos.
Por outro lado, se aponta o êxodo dos venezuelanos como um motivo de “alarme internacional”. No 11 de setembro de 2019, 11 países das Américas (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, El Salvador, Estados Unidos, Guatemala, Haiti, Honduras, Paraguai, República Dominicana) resolveram convocar uma reunião do TIAR (Tratado Inter Americano de Assistência Recíproca), com o argumento de que a situação atual na Venezuela tem um "impacto desestabilizador" y planeja una "ameaça para a paz e a segurança no hemisfério".
Esta reunião pode ser a ante-sala de uma operação militar conjunta.

As veias abertas da América Latina
A guerra já começou há muitos anos, com o epicentro na Colômbia. Há mais de meio século que a pátria de Gabriel Garcia Márquez é sangrada, com o Estado ausente em muitos meios rurais, hoje nas mãos de narcotraficantes e paramilitares. Colômbia, nas últimas décadas, registrou ao menos 260 mil mortos, 60 mil desaparecidos y mais de sete milhões de deslocados. Desde a assinatura dos acordos de paz, em 2016, se registrou o assassinato de 620 líderes sociales.
Neste clima, se teme que o presidente Iván Duque se aventure numa guerra contra seu vizinho, Venezuela. Duque se somou à campanha contra a pátria bolivariana, no início de 2019, com a operação de “assistência humanitária” em Cúcuta, e em setembro, com um show lastimável na ONU, onde denunciou a Venezuela por proteger guerrilheiros do Ejército de Liberación Nacional (ELN). Mas Duque apresentou como “prova” fotos falsas, e caiu em ridículo cuando a Agência France-Press o colocou em evidência.
A fronteira colombiana-venezuelana é uma zona de permanentes atritos. Desde junho em Cúcuta e Maicao, cidades fronteiriças com a Venezuela, há um contingente de “capacetes brancos” da chancelaria argentina. Na Síria e em outros cenários, os capacetes brancos têm sido responsáveis por operações de falsa bandeira e fraudes noticiosas. A missão, mais que uma ação de assistência sanitária, faz parte do cordão de pressão contra a Venezuela e pode detonar episódios que sirvam de pretexto para o início das operações.
América Central é outra zona de tensões. Cuba e Nicarágua estão advertidas mais uma vez  que são um marco militar do Pentágono. A fortaleza militar da ilha não parece haver diminuído, mas a Nicarágua deu mostras de ter sido infiltrada com o ensaio de guerra híbrida em abril de 2018. A NED e a USAID deram respaldo explícito aos estudantes/paramilitares nicaraguenses que no ano passado mobilizaram protestos violentos que provocaram centenas de mortos y feridos.
Bolívia é outro aríete contra a paz regional. O desgoverno de fato de Jeanine Añez começa a fazer o papel de cão raivoso, ao estilo de Israel no Oriente Médio. Há duas semanas houve uma incursão ilegal de miltares bolivianos em território argentino. Agora se anuncia a potencial invasão da embaixada do México em La Paz e a expulsão da embaixadora mexicana e diplomatas espanhóis. Este incidente segue a matriz da crise das embaixadas venezuelanas e o descrédito criado a partir do reconhecimento, em alguns Estados, dos falsos representantes diplomáticos de Guaidó. A política da Bolívia hoje é funcional à deterioração da institucionalidade da região, uma linha de ação persistente do “pentagonismo”. Trata-se de ridicularizar a ordem jurídica dos países da zona “não integrada”, entronizar líderes de papel, desconhecer normas elementais de convivência entre as nações e confundir a população com falsos debates.

Conclusões: os piromaníacos que se lancem ao fogo

Un programa de guerra de longa duração, criado pelo Pentagonismo, tem estratégias bem definidas para detonar uma conflagração na América Latina. O novo mapa do Pentágono vai se perfilando com preparativos no terreno, condições sociais longamente preparadas e uma narrativa que o justifica nos noticiários. Trata-se de um conjunto de elementos de grande dinamismo, com diferentes atores, capazes de entrar ou sair de cena, segundo o curso dos acontecimentos.
Esta receita para incendiar a América Latina não terá vencedores entre as nações latinoamericanas. O desenho da guerra tem como objetivo uma ruína generalizada, a imposição de um caos de longa duração, que facilite a reconfiguração da região e a subdivisão política do continente em unidades menores (a divisão de Santa Cruz, a balcanização da Venezuela e o desmembramento da Argentina figuram na agenda globalista).
Assim vê Stella Calloni: “Estados Unidos estão armando um cenário de guerra na Latinoamérica que depois ameaçará a todos os países da região, inclusiive os que hoje se prestam aos planos contra a Venezuela".
Em Caracas se dará uma batalha decisiva. Como disse Atilio Borón, Venezuela é a nova Stalingrado.

Tradução – Eduardo Marinho

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.