sexta-feira, 11 de abril de 2014

Saindo da Caixa, pensando com a cachola.

Cachola, era assim que se escrevia no meu tempo de menino. Albert Einstein dizia que era muito difícil encontrar uma pessoa que olhasse com os próprios olhos, pensasse com a própria cabeça e sentisse com o próprio coração. Somos condicionados de todas as maneiras e, se olharmos bem, veremos que muitos do nossos valores não são nossos, comportamentos, objetivos de vida... Há programação e pressão neste sentido, no enquadramento, na formação de opiniões, de visões de mundo.

Sair da caixa é sair do enquadramento, descobrir o que queremos de verdade e realizar, partir pra executar.

Quarta desço de Visconde de Mauá pra esse evento. Ô, Dani, não dá pra pagar as passagens, não? Falo isso porque o trem tá brabo.

 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Propaganda, publicidade e márquetim - atividades criminosas

Vito Giannotti possui fontes preciosas. Encontrou os filmes de propaganda anticomunista que foram repetidos à exaustão na preparação da "opinião pública" pro golpe de 1964 e despertando ódio contra o comunismo e os comunistas. Na ainda primitiva televisão, nas rádios, nos jornais, nos cinemas, em cartazes e placas, se fez um massacre publicitário, com orientação da matriz estadunidense. Em suas palestras, começou a utilizar os filmes pra denunciar a força da propaganda, as distorções e mentiras anunciadas como verdades absolutas, o despertar do medo como forma de paralisar. Mas desistiu. O troço é tão insidioso que as pessoas vinham opinar que "de certa forma", algumas coisas eram "verdade", se deixando levar mesmo diante das advertências. A porra é demoníaca.


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"A publicidade é um cadáver que nos sorri."         Oliviero Toscani


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A publicidade, a propaganda, o márquetim têm sido atividades criminosas dentro da sociedade humana. Mentem com extrema eficiência, distorcem a realidade de forma convincente, induzem opiniões, valores e comportamentos nocivos, doentios, que dispersam o pensamento e aprisionam as consciências. E se orgulham disso, quando deviam se envergonhar. O engano se comemora como êxito. A mentira é um sucesso.

O maior e mais profundo trabalho revolucionário está dentro de cada um de nós, condicionados que somos, sem defesa, desde o útero materno, por toda a infância, adolescência, juventude e maturidade, pra quem já chegou nela. Repetimos, sem perceber, condicionamentos do nosso próprio inconsciente, profundamente trabalhados pela psicologia aplicada na criação dos padrões vigentes.

Vivemos com medo e desconfiança, tememos derrotas que o mundo oferece por atacado, almejamos vitórias reservadas a poucos, amargamos a angústia de uma vida sem sentido verdadeiro, perdidos em sentidos artificiais que se impõem sob ameaça velada ou descarada. Alegrias tristes pontuam nossas vidas, superficiais e fugidias, enquanto tristezas abissais nos aguardam a cada silêncio, a cada momento de solidão e pensamento, na forma de angústia e falta de sentido na vida.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Reflexões em ziguezague

Maduro tá metendo os pés pelas mãos, enquanto os conservadores reacionários tentam reverter as mudanças na sociedade venezuelana, as mesmas que foram combatidas com o ódio característico dos privilegiados diante da ameaça aos seus privilégios. Eles não foram revogados diretamente, mas dependem da ignorância geral, da desinformação, do predomínio midiático narcotizando consciências. O acesso a uma educação de qualidade, ao atendimento médico que antes não havia, a visibilidade social antes inexistente, as políticas públicas voltadas a quem de direito, a população, são dinamites colocadas nos alicerces dessa estrutura social baseada na miséria e na exploração da maioria, sequestrado o Estado pelas forças econômicas de banqueiros e mega empresários, com todo o apoio da minoria privilegiada que deve seus privilégios à manutenção das desigualdades imensas sob sua gerência especializada. Daí o ataque furioso às políticas públicas implantadas e em curso, formando novas mentalidades e capacidades, com acesso garantido à população em geral.

Sem a tarimba de Hugo Chávez – que foi uma criança de pés descalços -, Maduro não consegue o grau de comunicação necessário pro entendimento popular - tomara que eu esteja errado. Atacando o “nazi-fascismo” ele fala com acadêmicos e letrados, minoria dentro do povo. Desce daí, Maduro, que não dá pra te ouvir de cima desse pedestal de vidro. Que nazi-fascismo é o caralho, são os ricos querendo retirar os direitos dos pobres, conseguidos a duras penas, sob ataque direto, indireto, enviesado, por cima, por baixo, por trás das elites venezuelanas, contando até com uma tentativa de golpe que passou raspando. Pra mobilizar as massas é preciso falar a língua das massas, é preciso ser um com as massas, é preciso pertencer à população, ter o sentimento do povo acima do conhecimento acadêmico, tão isolado da realidade do chão da sociedade. A elite venezuelana simula uma divisão, oposição “democrática”, dentro da lei, e oposição golpista, claramente hidrofóbica contra o “chavismo”e em relações carnais com interesses de mega-empresas e bancos internacionais, a típica elite local subalterna aos vampiros internacionais que dominam estados inteiros com seu poderio econômico-financeiro-midiático, acostumados a sugar o sangue de populações inteiras. Não é uma ruptura, mas uma divisão em alas. Enquanto uma permanece na legalidade e mantém a imagem, outra tem liberdade de agir criminosamente, simular ataques de falsa bandeira – aqueles que se faz pra culpar o inimigo – sabotar, simular, difamar, enfim, o velho arsenal sujo pra manter as desigualdades, a miséria, a ignorância e a exploração. Tudo com o apoio descarado das forças reacionárias dos anglo-saxônicos estadunidenses, sua grana sem fim e sua tecnologia de ponta. A única vantagem da Venezuela é a falta de inteligência dos conservadores – bem maior que a dos governantes da nação bolivariana, embora estes pareçam ter dificuldades em manter a comunicação próxima, quase íntima, que Hugo Chávez mantinha e que o tornava imbatível diante da histeria vampiresca. Espero que a previsão de Maduro se confirme pra logo, aquela que ele disse durante a comemoração da sua vitória nas eleições, “virão mais Chávez!”.

Black Blocs

Os blequibloques só apareceram no Brasil depois que a polícia atacou barbaramente as manifestações, instigadas pela mídia e por políticos apavorados. Alguém percebeu que as primeiras manifestações que ressoaram no país – e que foram brutalmente reprimidas pelas polícias estaduais - não apresentavam nenhum grupo de "combatentes civis"? Os blequibloques surgiram como uma reação à violência do Estado contra sua população insatisfeita em manifestação contra os desmandos e crimes da sociedade contra sua maioria, sem acesso a direitos básicos constitucionais e cada vez mais espremida por interesses empresariais que tomaram as instituições públicas e as levaram aos crimes contra a humanidade naturalizados no cotidiano. Manifestações pacíficas foram violentamente atacadas pelas forças de segurança, sem nenhum motivo, apesar das alegações posteriores, mentirosas e repetidas na mídia. Eu estava lá e vi, ninguém me contou. Em várias manifestações - as que eu fui e posso falar, além de outras que me contaram -, as bombas partiram da polícia, sem aviso nem motivo compreensível - embora se possa imaginar a estratégia de aterrorizar, criminalizar, caçar bodes expiatórios pra exemplar, forjar flagrantes, espancar, prender, barbarizar. Bombas e tiros foram a constante, no meio ou ao final das manifestações. Como se disse e repetiu por lá, “do nada”. Chegou-se ao requinte de armar emboscadas, postar tropas em locais estratégicos pra atacar as multidões em fuga. Algo repugnante, escandaloso. E agora a mídia (e esses políticos de merda) querem atribuir a violência nas manifestações aos próprios manifestantes, aos grupos de blequibloques, que defenderam os professores do ataque violento e inesperado da polícia - os próprios professores agradeceram em público a eles - isso a mídia jamais divulgaria. Manifestantes pagos, essa é boa... na ditadura se usou o mesmo expediente, apresentava-se uma ou outra declaração de alguém preso – que teria recebido dinheiro pra “se manifestar”- e a mídia fazia o resto, martelando que todos os manifestantes são pagos por forças do mal. Ora, uma olhada nas manifestações e se percebe o ridículo da idéia mentirosa. A gari paraense que, mesmo fugindo das manifestações, morreu por inalação de gás lacrimogêneo; o camelô de 70 anos, na Central do Brasil, atropelado por um ônibus ao fugir das bombas da polícia; o rapaz que passava pela manifestação na Paulista e nem participava, morto por um tiro das forças de segurança; os caras que caíram do viaduto em belorizonte, fugindo da cavalaria em carga; os mortos, mutilados e feridos vários pela repressão oficial às manifestações de um povo enganado, sabotado, roubado em direitos e patrimônio público, além de explorado até o talo, tudo passa batido e a mídia diz que o vandalismo vem dos manifestantes. Como conter o desprezo?

Não tem medida a estupidez de não enxergar o vandalismo criminoso do Estado no cotidiano da maioria das pessoas. Quem vê seus parentes mais velhos serem tratados com desprezo pela saúde pública, quem convive com a arrogância brutal dos “agentes de segurança pública”, quem precisa usar qualquer serviço público, inclusive os privatizados, como transporte, energia, fornecimento de água e tantos outros, sabe na própria pele que democracia é uma grande mentira. Sabe, mas não sabe que sabe, porque tem roubadas as condições de se instruir – o ensino público não é mais que uma fachada, no fundamental e no médio – e de se informar – a mídia foi construída privada e estendida por todo o território nacional, numa estratégia óbvia de roubar as consciências. No entanto, a intuição sente. E grupos de informação, de comunicação periférica, comunitária, estão se formando, ainda pouco a pouco, mas com uma força contagiante.

Esquerda governista e direita opositora se unem na grita contra os blequibloques. (Sei que há esquerdistas que negam ser o governo de esquerda, mas isso é outra discussão). A direita, com seu ódio irrefreável contra tudo o que ameace a estrutura social, apavorada com a falta de cabeças pra cortar e criando pretextos pra investir mais e mais na repressão (aos movimentos populares de insatisfação) a que foram reduzidas as “forças de segurança pública”. A esquerda, em seu vício intelectual autoritário, rejeita tudo o que não pode ou consegue controlar, na sua velha ilusão de “conduzir as massas”, em seu velho cacoete de dominar – e, sobretudo, sobrepor a teoria à prática. As chamadas esquerdas me parecem velhas, desinformadas, míopes, medíocres, acuadas, repetindo velhos erros e vícios, com o medo das periferias misturado com um sentimento de superioridade imposto nos “cursos superiores”. Não aprenderam os códigos de comunicação dos mais pobres, sua integração afetiva, sua percepção intuitiva e alimentam sentimentos de superioridade falsa, condicionada pelas convenções. Daí não poderem ter o respeito devido às multidões de excluídos, não conseguirem falar a língua da maioria e atribuir a responsabilidade pela incompreensão ao próprio povo. Tampouco conseguirem entender a dinâmica e o procedimento dos blequibloques.


Questionar, não!

A senhora indignada no elevador do Leblon, descendo a lenha nesses políticos petistas safados, nas cotas, na bandalheira das upepês que não deram solução na criminalidade, eu calo mas penso, ora minha senhora, esses são só os bonequinhos da vez, que fazem o que mandam os verdadeiros patrões, os banqueiros e mega empresários que precisam manter o povo nessa ignorância horrorosa, sem direitos constitucionais e tratado debaixo de porrada, esses poucos riquíssimos é que comandam e produzem essa criminalidade toda. Pensei, mas não disse. Quando eu tinha esses arroubos lembro do monte de problemas que arrumei. Uma pacata velhinha de cabelos brancos se transforma em um monstro de garras e dentes afiados, olhos de fogo em ódio pleno, capaz de te devorar num instante, se a porta do elevador não abre a tempo de sair correndo na frente sob os olhares reprovadores na portaria, em ver a doce anciã sendo deixada pra trás por um marmanjo mal educado. Olhando de longe, ninguém diz. Nem de perto – a não ser que se pronunciem umas palavras mágicas... Não se questiona a pobreza e suas causas entre privilegiados, a não ser que se queira barulho e mal estar. Dom Hélder Câmara, bispo, ou arcebispo, não sei, foi quem disse “quando divido meu pão com os mais pobres, me chamam de santo; quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista”. É isso aí – vai pra Cuba! 

Rolezinhos

Os tais rolezinhos são uma homenagem ao deus consumo, em seus templos máximos, os chópins, a confirmação dos valores criados pelos publicitários e marqueteiros pagos pelos reais poderes da sociedade – acima da política, obviamente – e impostos pelas mídias privadas, eletrônicas ou não, pra produzir desejos irrefreáveis de consumo. Pra maioria, consumos impossíveis. Mas o condicionamento cola. O movimento dos rolezinhos estão de acordo com os valores vigentes, a não ser por um detalhe – essa parcela da população tem como destino programado a invisibilidade. É essa invisibilidade violada que levantou a reação, seguranças e polícias pra reprimir as vítimas de sempre, os pobres que não se contentavam em ficar nos seus guetos, bem longe dos olhares medrosos das classes mais abastadas –  os “finos”, como diz Leonardo Sakamoto.

Ler nas entrelinhas...

O ano passado deixou montes de lições que percebo difíceis de serem assimiladas com os padrões de pensamento dominantes, mesmo entre os que se pretendem revolucionários. Alguém ligou a renúncia (surpreendente, inesperadíssima) do Serra ao helicóptero de pó dos Perrela, ainda por cima indicando seu desafeto, o Aécio, como o “melhor” candidato? Acho que a deduragem do helicóptero pra sujar o Aécio de pó cutucou um monstro muito maior, o tráfico internacional. Não se entrega uma carga desse tamanho, com a qualidade que tinha, impunemente. O resto é fácil de imaginar, com o resultado que se viu.

  Vi gente boa, que tem na imagem verde-amarela o símbolo do seu amor à raiz, à união nacional, à população e ao território em torno, algo assim, ser acusada de fascista, ser dicriminada como “positivista” e outras idiotices arrogantes de acadêmicos inseguros de si e agarrados às suas linhas ideológicas. Essas pessoas, arrogantes, julgadoras, cobrativas, têm a oportunidade de perceber a distância em que se colocam com esses sentimentos de superioridade, esterilizando a maior parte das possibilidades de desenvolvimento social ou individual que podem produzir. O que o cidadão comum tem, ao vestir a bandeira brasileira, é um bom sentimento, não necessariamente ligado à ideologia dos criadores do símbolo ou a nenhuma outra. 

Levar em conta o pensamento dos pensadores não significa repetir seus erros, muito menos abrir mão de pensar com a própria cabeça e sentir com o próprio coração, ver com os próprios olhos e ouvir “cas própria zurêia”. Peguei antipatia pela palavra fascista, ninguém a conhece fora dos meios acadêmicos, ou talvez em algumas pequenas bolhas anexas. Neguinho não sabe que porra é essa e esse jargão faz tempo  que causa uma certa antipatia e prevenção, trabalho bem feito pela mídia privada pra ridicularizar e esterilizar os modos “revolucionários”, desqualificando o tipo, desacreditando, criando motes e jargões desmoralizantes. E dá-lhe luta de classes, burguesia, paradigma, contra-revolucionário, nazi-facistas, marco regulatório, disputa de hegemonia, lacaios do capital, interesses do capital,... Esses caras fogem da língua brasileira, nem a conhecem e querem esclarecer e conduzir as massas, falando academês. Ora, faça-me o favor...

Repetir expressões revolucionárias seculares, adotar cartilhas ideológicas sem levar em conta a dinâmica das coisas é se bater contra gigantes entranhados no inconsciente coletivo. A rejeição ao linguajar revolucionário está entre eles. É preciso violar essas formas. Agir de outra maneira, criar, acompanhar a comunicação intuitiva da maioria, aprender antes de ensinar, buscar a igualdade, primeiro, internamente. Uma busca permanente. Aprender os códigos de comunicação das periferias e usar no cotidiano é uma necessidade. Tudo o que se diz em academês pode ser dito na língua geral brasileira. Einstein dizia que “se você não consegue expressar qualquer idéia de maneira simples, é porque não entendeu direito”. Repito, cabe aprender, permanentemente. Com mais velhos e com mais novos, com situações e acontecimentos, com vivências e convivências, com letrados e com analfabetos. É preciso distinguir o saber da sabedoria. Todo o cuidado com o saber é pouco, não é à toa que ele está cooptado e controlado nas instituições pra servir a interesses empresariais.O saber facilmente estimula a arrogância. A sabedoria, ao contrário, contém a humildade em si, ou não é sabedoria. Ela vem da vivência, do cotidiano, do dia a dia levado em conta, do sentimento, da intuição. Pro orgulho, a humildade é humilhante. Para a humildade, o orgulho é estúpido.

Sentimento

Considerando que os sentimentos são o fator mais determinante no bem estar da gente, observo a pouca atenção que se dá. Não cuidamos dos sentimentos que permitimos se desenvolverem em nós, quando vemos estamos envolvidos por eles e agindo de acordo. Se o sentimento da raiva (não conheço ninguém que tenha prazer em sentir) é tão desagradável, por que permitimos que ela nasça e cresça dentro de nós com tanta facilidade, destruindo a paz de espírito e o bem estar, além de afetar todo o ambiente onde estamos? Não cuidamos tampouco dos sentimentos que produzimos em torno, nas pessoas com quem estamos em contato. Se cuidamos desse lado, muda a visão de mundo, o sentimento de vida, a percepção do que acontece tanto individual quanto coletivamente.

É preciso mais sentimento e menos razão. Não é que a razão não tenha seu imensurável valor, na análise e compreensão das coisas, no desenvolvimento tecnológico, no conhecimento humano... claro. O que digo é que a razão não pode estar no comando. A razão sem o sentimento, movida por interesses materiais, em poderes e riquezas, pode se tornar facilmente criminosa, pode ser usada na traição da coletividade, conduzindo pensamentos, valores, comportamentos, de forma a escravizar a maioria para privilegiar pequenos grupos. Como se explica a estrutura social em que vivemos? Aqui eu deixo claro que não estou escrevendo pra quem acredita na realidade distorcida que a mídia privada nos enfia güela abaixo da consciência – que é roubada cotidianamente –, esses podem abandonar aqui, se é que já não abandonaram. Um texto da veja deve estar mais a gosto. Um editorial do globo.

Duvido, se o sentimento estivesse acima da razão, que existisse gente abandonada à própria sorte, na miséria das periferias, que existisse a situação de tortura diária nos transportes públicos, essa priorização absurda de interesses empresariais em prejuízo de coletividades inteiras, o ser humano  colocado abaixo do patrimônio, da propriedade, a maioria sem valor diante de uma minoria supervalorizada, mediados pelas classes médias pressionadas. Uma aberração que só a razão pode arrumar explicação, mas que o sentimento nem responde, só balança a cabeça e vê as mentiras e distorções ideológicas pra sustentar o absurdo, a injustiça e a desumanidade. Valorizando o sentimento em nós mesmos, valorizamos os sentimentos do mundo, porque é tudo interligado, como sabem os orientais e os povos originários daqui. A partir de dentro é que podemos participar do processo universal de mudanças que rola, percebendo com os sentimentos e a razão em equilíbrio, a razão para servir ao sentimento de coletividade, a serviço do bem geral. Em última análise, ao ser humano como um todo, colocado no centro da sociedade em relação com todo o ambiente, planetário e cósmico. A realidade que nos toca são as nossas relações, a nossa sociedade e sua estruturação, mutante ao longo do tempo mas sempre encontrando reações violentas dos beneficiados pelas injustiças. Nossa espiritualidade, no momento, é exercida na matéria e nela se desenvolve. Daí ser muito mais importante o que se faz do que o que se pensa ou acredita. Isto se muda de uma hora pra outra. Já o que se faz, uma vez feito, não se pode mudar.

Acredito ser um grande equívoco pensar que rituais e louvações, rezas e orações, doações e oferendas são mais importantes que as ações e reações do dia a dia, dos sentimentos que se têm e causa nos demais, os relacionamentos, a sinceridade, a boa vontade, o respeito. Não posso crer que deuses gostem de puxa-sacos, que precisem de louvações – não seria supor vaidade? – ou oferendas. Respeito, no entanto, e admito a possibilidade de estar errado. Também não quero aqui me arrogar o direito de classificar de certo ou errado atitudes e escolhas alheias. Acredito que certa é a crença que torna uma pessoa melhor, mais tolerante, compreensiva, respeitosa, enfim, mais sábia. Em todas se encontra. Como em todas se encontra hipócritas. Quantos acendedores de insenso, entoadores de mantras e ôhms, em contato com "as energias mais sutis" vi por aí, vestindo sua máscara de superioridade espiritual pelas ruas, isolados em seus medos e preconceitos, julgadores de todos, menos de si mesmos, revelando na prática o que tentam esconder na teoria – há sempre incautos, ingênuos e inseguros pra sustentar a farsa.

Vi um sargento da peeme de Petrópolis ficar indignado com a proibição da maconha, sempre haviam dito a ele que ela provocava instintos destruidores. E ele estava se sentindo mais em paz do que nunca, com um sentimento tão bom que era revoltante tudo o que até então ele pensava que sabia. Era a primeira vez que ele experimentava e se sentiu enganado. Mas só teve a oportunidade dessa experiência, que certamente frutificou nas idéias que ele levou pro seu meio militar, porque foi recebido, na sua primeira abordagem, com consideração e respeito. O que foi se transformando, pouco a pouco, em afeto, em confiança e a oportunidade se apresentou. Com certeza ele não vê mais o usuário como bandido. Mas é preciso paciência com os que se deixam levar pela mídia de que o usuário é o responsável porque “sustenta” o tráfico. Se for terra fértil, é preciso lembrar  que se usam plantas alucinógenas e alteradoras de consciência desde que a humanidade existe, há muitos milhares de anos, pra tirar por baixo. Sempre se usou sem problema, no império era comum se fumar a ganja em qualquer ambiente, sobretudo entre os de baixo, mas não apenas. O tráfico só começou muito depois das proibições. Se há consumo de qualquer coisa que se proíba, se estabelece o “mercado paralelo”, corrompendo instituições e se infiltrando, com o poder econômico avassalador dos donos desse “mercado”. O usuário é o primeiro prejudicado, de inúmeras maneiras fáceis de imaginar, mesmo pra quem não conhece.

Copa

A tal da copa taí, se abeirando. Promete-se barulho. Forças de segurança foram treinadas pra atacar, dissolver, espancar, prender, forjar,... providências jurídico-legislativas foram descaradamente tomadas, leis foram feitas equiparando grupos de manifestantes a quadrilhas formadas para roubar e, eventualmente, matar. Uma aberração que até me formiga a mente quando tento entender. Só má intenção pode explicar, só a certeza da impunidade pra sustentar tal mentira, claramente a serviço de uma entidade privada internacional a quem foi entregue boa parte da soberania nacional sobre o território, sobre as leis vigentes e sobre o que eles puderam querer. Além, claro, de proteger esta estrutura social injusta. Não faço previsão. Vejo “forças políticas” de governo e de oposição se preparando pra “capitalizar” os movimentos. Não vai ter copa tá ressoando no ar. É preciso criatividade, os movimentos parecem previsíveis, bora ver os resultados, as consequências. Não creio na centralização – embora perceba os preparos neste sentido. São os profissionais da cooptação, instalados na política institucional. A mim parece que eles se exporão a vários sustos. Se sentindo experientes, não percebem a tsunami que se forma no horizonte. Surfistas de marolas, de pequenas coletividades, envolvidos em suas ilusões e agarrados em suas cartilhas revolucionárias, não sabem o que os espera... Gostaria de falar com eles, mas não tenho crédito, não tenho referências... e ainda me aplico a dispensar muletas e estimular a dispensa. Que cada um pense com a própria cabeça e trataremos de arrumar convergências. Os revolucionários ortodoxos não gostam disso.

Impérios

A China tá lá, crescendo a olhos vistos, fazendo seus malabarismos pra compor o capitalismo predador que domina o mundo, contra o qual não se pode contrapor diretamente, e o comunismo de origem maoísta dominante. Pra isso contam com a sabedoria milenar das suas dinastias, da sua história escrita que torna a história européia uma historinha. Os títulos da dívida pública estadunidense estão em suas mãos – embora não se possa cobrar, é um bom fator de pressão – e a preocupação das elites já se reflete no recuo dos Estados Unidos nos conflitos do oriente médio, compondo com o Irã, se acertando por vias tortas com a Síria, deixando os interesses imediatos dos israelenses meio de lado e investindo nas manobras com o Vietnã do Sul, seu aliado, com a Coréia do Sul, com a Austrália, como com o Japão, deslocando tropas e armas pra região do Pacífico, ao sul da Ásia e da China, que observa as movimentações com atenção e já se pronunciou a respeito várias vezes, investindo também no seu poderio militar. A Rússia, de olho, também sofre assédio em outras áreas e tem atuação decisiva no equilíbrio do Oriente Médio. É um aliado potencial da China e desequilibra a balança contra os Estados Unidos. Nesse caso, os poderosos já estão prontos pra abandonar o barco. Sua pátria é financeira, qualquer lugar serve.

Clarividência ou viagem?

Na minha percepção, o mundo caminha pra não ter nenhum lugar que lhes sirva. Pegarão naves espaciais e sumirão no Universo? Imagino imensas estações orbitais, com vôos regulares para a superfície do planeta, em busca de suprimentos, com soldados armados e funcionários truculentos, a recolher as produções de áreas cercadas e protegidas, destinadas a abastecer as estações onde toda a tecnologia mundial foi utilizada. Imagino também as filas de cooptações de serviçais, foguetes ônibus a levar as multidões de serviçais pra fazer funcionar tudo. Isso é o que eles pensam. Sem eles aqui, cooperaremos, nos irmanaremos e, com o tempo, ocuparemos as áreas de produção, nos irmanando com os antigos guardas e funcionários que, ao ver a população cooperando, criando áreas independentes de produção, reativando o trabalho artesanal, valorizando as coletividades, vivendo em solidariedade, perceberão o que estão perdendo servindo à mentalidade egoísta dos seus patrões. As filas de candidatos ao trabalho nas estações desaparecem. Os que lá estão são escravizados e disputados entre os antigos privilegiados. Matam-se os que tentam fugir, morrem muitos em rebeliões, os maus tratos se enormizam. O drama vai virar história.

As enormes estações em órbita estarão em pandarecos, sem os servidores para a manutenção, sem os empregados que tornam a vida dos ricos possível. Nada funciona, passa-se sede e fome. Enfim, depauperados, desesperados, desamparados e esfomeados, começam a chegar os próprios privilegiados, descendo das suas ilusões orbitais, pouco a pouco, a pedir comida e água, a sentir o mesmo sofrimento que tanto produziram direta ou indiretamente, mas sempre com indiferença – talvez um lamento longínquo e inócuo. Mas encontrarão a solidariedade que não tiveram, aprenderão a produzir pro seu próprio consumo e a resolver os próprios problemas, porque não haverá mais pobres pra servir, embora existam irmãos prontos a cooperar. Virarão gente, finalmente, e nos assumiremos como a família que sempre fomos.

Bueno, termino com este sonho.



Preciso estar fora por um tempo desse mundo virtual. Não que não vá postar mais, ou nunca mais, é apenas uma redução drástica. Outras áreas me chamam a serviço, tenho andado indolente nelas. Vez por outra devo fazer uma postagem. Abraços a todos.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Documentário esclarecedor demais - nem ponho o nome no título, pra não chamar a atenção...

Esses são os links de um documentário que acho essencial pra entender a realidade em que vivemos. A primeira vez que vi tava livre na internet, depois foi dificulltando e hoje é difícil de encontrar. Se eu tiver o direito de recomendar alguma coisa, recomendo  assistir logo, antes que desapareça - há interesses nisso, obviamente. Tomar consciência é tudo o que o poder real, muito acima da política rasteira que somos obrigados a engolir, quer evitar. É preciso ignorância e desinformação pra se sustentar este sistema social em que vivemos. É muita exploração e desumanidade em nome de lucros empresariais.


The Century of the Self (doc BBC Parte 1 - Máquinas de felicidade):http://www.dailymotion.com/video/x15ov47_parte-1-maquinas-de-felicidade_shortfilms?search_algo=2
>> The Century of the Self (doc BBC Parte 2 - A engenharia do consentimento):http://www.dailymotion.com/video/x15p6mp_parte-2-a-engenharia-do-consentimento_shortfilms
>> The Century of the Self (doc BBC Parte 3 -Há um policial dentro de nossas cabeças. Ele deve ser destruído): http://www.dailymotion.com/video/x15p6pk_parte-3-ha-um-policial-dentro-de-nossas-cabecas-ele-deve-ser-destruido_shortfilms>>
The Century of the Self (doc BBC Parte 4 -Oito pessoas bebendo vinho em Kettering): http://www.dailymotion.com/video/x15p6q5_parte-4-oito-pessoas-bebendo-vinho-em-kettering_shortfilms 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Pavão Pavãozinho Cantagalo

As periferias dormem um sono induzido. Mas está-se acordando, as exceções contaminam de senso crítico à sua volta, estão nascendo cada vez mais focos no meio das populações sabotadas, exploradas, inferiorizadas de quem tudo depende, o Estado, a sociedade, as elites em sua opulência egoísta e arrogante. Nada funciona sem a atuação direta dos mais pobres. A inconsciência da maioria é uma necessidade do sistema. Conscientizar é a melhor maneira de cortar o fornecimento de energias pra essa estrutura social.



Conscientizemo-nos a nós mesmos e uns aos outros, com respeito e com afeto.



quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Em Floripa, entrevista à rádio Campeche

No centrinho da Lagoa, eles vieram trabalhar comigo. Tranqüilos, a conversa rolou fácil. Também, assuntos óbvios...



Foi rápida a rapaziada da rádio Campeche, um monte de entrevistas por aí nunca vi no ar, tô esperando hasta hoy. Vez por outra aparece uma. Não tô cobrando nada nem acusando ninguém, tô só relatando um fato.



A Elaine Tavares costurou essa rapidinha...



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Viagem ao sul - tava emperrando, mas saiu...

Viagem resolvida no final do ano passado, vamos Ravi e eu pro sul, hoje. A rota já foi feita e desfeita e agora vamos pra rodoviária apenas com a noção da direção, o sul. Provável que a primeira parada seja em Floripa, já que o Uruguai, por um tempo fora do circuito, foi recolocado no caminho. Assim faremos a volta nas fronteiras brasileiras pelo lado de fora, até Foz do Iguaçu, onde reentramos em território nacional.

Havia combinado com Ravi que eu iria pra Visconde de Mauá, entre Rio e Sampa, exporia um fim de
A descendência, em Mauá. Moram lá Brisa, à esquerda, Ravi,
à direita, Alice, de boné, e Olívia, no colo de Alice.  
Foto: Helena Cristina
semana na montanha, o segundo do ano - aproveitando pra rever a descendência -, e de lá seguiríamos pra Sampa, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Pelotas, Uruguai, Argentina, Foz do Iguaçu. Daí a Visconde de Mauá de novo, já nos dias do carnaval, antes de voltar pra casa. Mas o material estava precário e tive que me aplicar na produção.

Combinamos então que Ravi desceria a serra na terça e viajaríamos na quarta, pra chegar em Porto Alegre a tempo de participar do Conexões Globais (https://www.facebook.com/pages/Conex%C3%B5es-Globais/237310399670494). Deu terça, nada. Aproveitei que Adhara tinha subido a serra e mandei recado, porque lá o celular não pega em muitos lugares e, além disso, Ravi costuma esquecer de recarregar. Quarta-feira, perto das dez horas, o Ravi telefona do telefone de Adhara, dizendo que vai pegar o ônibus das onze, em Resende. Duas horas de viagem e ele estaria no Rio, três horas pra chegar em casa. Imaginei que ele já tava em Resende, que Adhara havia descido lá por algum motivo e ele aproveitara. Não perguntei onde ele estava - um erro.

Arrumei mochila, deixei tudo pronto, ele chegaria e nós sairíamos. Três da tarde e nada. Quatro, nada, já tô acostumado com essas coisas... Ligo o computador, penso em perder o Conexões. Desde o ano passado espero essa viagem. Mas a origem da idéia era a viagem com Ravi, há anos não viajamos juntos, estamos morando em cidades diferentes, seria um prazer e uma aproximação. Mas o incômodo da irresponsabilidade sempre dá sentimentos ruins. Estava escuro já e eu senti um brotar de raiva - "porra, isso já é sacanagem". Parei ao perceber. "Não quero sentir isso". Que fazer? Eu tinha duas opções. Podia pegar a mochila e me adiantar, pegar a estrada sem ele, seria bem de acordo comigo, natural até - e foi o que ele imaginou, me disse depois. Mas podia esperar pra viajar com meu filho, e relaxar a respeito do evento em Porto Alegre. Preferi a segunda opção e aí o embrião do aborrecimento desapareceu.

Dez e meia da noite, toca o telefone, é Adhara. Diz que Ravi ligou do telefone dela quando estava no alto da serra, que tinha perdido o ônibus e ido pra estrada tentar carona. Ah, entendi, às dez da manhã ele disse que pegaria o de onze em Resende e não estava, como eu tinha imaginado, na rodoviária de Resende, mas sim no alto da montanha. E não contava com nada garantido pra chegar no horário. A viagem começou incerta, não tinha como saber quando ele chegaria - se desse azar, poderia demorar indefinidamente. Deu até um desânimo, mas como tinha mudado de postura, aceitei calmo a situação. Agora seja o que deus quiser, a gente vai na hora que der. Dançou a chegada no Conexões.

Conversando com a Claudia pela net, expus a situação e ela, como mãezona que é, começou a se preocupar. Parecia não entender a minha calma. Já ia assumindo a preocupação, "mas até essa hora...", "tá demorando muito...", essas coisas de mãe noiada, enquanto eu dizia "conheço meu eleitorado, esquentar a cabeça é queimar a mufa de graça. No auge do desespero, eles aparecem com cara de 'ué, o que que tá acontecendo'". Tava falando com ela, ouvi o barulho no portão. "Só pode ser ele". Em instantes ele entra no quarto, olho meio arregalado e sorriso, na expectativa de ver como tava o meu humor - ele já esperava que eu estivesse brabo. Mas eu tava calmo - quem já tava ficando nervosa era a Cláudia, que sentiu um alívio com a chegada. E já me dispensou na hora, "vai cuidar das tuas crias". Quase desligou na minha cara.

Ravi sentou pra conversar. Contei que depois que Adhara disse que ele ligou da estrada, na montanha, e que tinha descido de carona, eu relaxei, mudei até a rota da viagem e não tinha mais Uruguai no caminho. Que eu tinha imaginado que ele telefonou de Resende, vendo o ônibus das onze. E que, já que tinha perdido o Conexões, mudara a rota da viagem, tirando o além fronteiras. A cara de decepção dele me fez incluir de novo o Uruguai - "não tenho nada resolvido, cara, decidi sem falar contigo porque não tinha como falar contigo. Mas nada tá definitivo não, a gente vai conversando e resolvendo". Aí entra Adhara pela porta, riso de quem "enganou um bobo na casca do ovo". Eles tinham vindo juntos, no carro dela. Ri também, que jeito... "tá se divertindo, né Adhara..."

Bueno, estamos saindo, primeira parada Floripa, depois Porto Alegre. Em Florianópolis temos a casa de um filho afetivo pra nos abrigar, se der pra expor devemos ficar uns dias.
Primeira parada, Floripa.        Foto: Juliana Lehmen
Já em Porto Alegre o meu mano Fabio tá com a casa lotada, a densidade demográfica tá coalhada com parentes, não vai dar pra impregnar por lá. Chegando na cidade a gente se arranja. Pensei em arrumar uns papelões e falar com o Branco, tem um espaço na sobreloja do armazém que ele não usa, a não ser como passagem pro banheiro. Ali estaria legal, mas o Fabio me demoveu da intenção, "ali bate sol a tarde toda, quando ele fecha de noite vira uma estufa, cês vão fritar lá dentro". Bueno, como foi dito, chegando em Porto Alegre a gente se arruma.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

"Mensalão"

Ora bolas. Lá vou eu falar no “mensalão”, de novo.

Existem vários interesses na criação desse espectro, o “mensalão”, dinheiro usado pra comprar parlamentares. Na verdade é uma figura de mídia. O parlamento, desde que foi fundado por um rei, Dom Pedro primeiro, sempre foi um balcão de negócios do patrimônio público com o poder privado. Os parlamentares sempre foram comprados e todo mundo sabe disso. Não entendo o que acontece pras pessoas irem votar nessa farsa, acreditarem nas mentiras cotidianas, deixarem sua visão de mundo, suas idéias, seus desejos, seus objetivos de vida serem ditados por um condicionamento planejado e implantado sobretudo pela mídia, rádios e televisões, formando visões de mundo, comportamentos, deformando a realidade de forma a manter privilégios pra uma minoria e, pra isso, negar direitos a uma enorme maioria. Esse é, como gostam de dizer os acadêmicos, o “modus operandi” do parlamento.

Um boy do parlamento do Rio de Janeiro me contou, em 2000 ou 2001, que entregava um envelope da fetranspor, a federação patronal das empresas de transporte rodoviário – não sei se de cargas também, além de passageiros – em todos os gabinetes dos deputados, ou vereadores, sei lá, não lembro, de todos os partidos. Eu estranhei, quis saber como era isso, conversa de calçada, em beira de banca, expondo, o que dá até mais liberdade pras figuras falarem a verdade sem medo. Ele disse que os envelopes dos partidos do governo, os direita, eram mais gordos, mais pesados. O do partido comunista – e aí eu fiquei pasmo – era bem magrinho, mas não deixava de ir, e os caras recebiam.

As propostas podem ser lindas, mas a realidade do procedimento institucional é espúria. Não só pelo relato do cara, são muitos os acontecimentos, esse é só mais um. O parlamentar, por mais bem intencionado que seja, precisa adotar comportamentos, procedimentos e maneiras que são inerentes àquele meio, o político partidário. Se não por si, por meio dos seus assessores, os partidários, adaptados aos procedimentos. Meios sujos, fingir, simular, trocar segredos, armar o jogo, usar insinceridade, sorrir pra quem cê tá armando. Há quem vá por aí e não sou ninguém pra condenar, pra dizer que tá errado. Apenas eu não consigo. Sigo por outro lado, digamos assim. São tantos, infinitos modos de se viver com proveito, dentro da coletividade...

Vejo pessoas instruídas falando nesse “mensalão” de uma forma que me deixa triste. Reproduzem a repulsa de classe, assimilam o ódio antipetista como se fosse um partido o responsável por esse descalabro social em que vivemos. E abrem mão de ver a realidade de uma estrutura social dominada por interesses empresariais, com mentalidades implantadas neste sentido, num mundo de concentração total de poderes, tanto políticos quanto econômicos. Aliás, os poderes políticos estão dominados pelos econômico-financeiros. E é a nossa mentalidade, a geral, que alimenta isso. Competitividade, busca de excessos, desejos de “vencer na vida”, ser melhor que os outros, usufruir de privilégios enquanto existe miséria, consumos e consumos, ver o mundo como uma arena onde são todos contra todos e que vença o melhor. O inferno.

Não me venha falar de mensalão, por favor. Pra mim, é um atestado de alienação. Pior, uma demonstração de teleguiamento, se é que se pode falar assim.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eduardo marinho - Uberlândia (MG)

Isso me chegou recente, mas data de outubro de 2012. Na falta de postagem melhor, vai aí. Gabriel Serafim é autor de "Riso, risco, aliso, enrosco", livro pra cujo lançamento fui convidado. Bibi conseguiu superar a corrida de obstáculos burocráticos, psicológicos e ideológicos dos editais públicos e obteve o financiamento pra todas as necessidades da produção. Fui incluído graças a isso.

Pouco tempo atrás ele esteve em Santa Teresa, onde exponho, foi um prazer rever esse camarada. Disse que em janeiro mudaria pro Rio e disse mais, que faria essa corrida de obstáculos pra me conseguir a mesma coisa. Ele insistiu pra que eu fizesse, apesar de eu afirmar minha incapacidade. Não há dinheiro que me encante a ponto de encarar o desgosto do contato com as instâncias burocráticas do Estado. O sentimento de sem fim - vai pra cá, vai pra lá, falta uma assinatura, um número, um carimbo, volta, busca, não está, aguarde sua vez, volta na segunda, ... - me perturba. Aí ele disse que era fácil e que ele mesmo iria fazer isso, usando o material que existe a meu respeito por aí. E brotou a sensação, "será?" e a imaginação fez o resto.

Pra quê que tu foi falar isso, Bibi? Agora já era. Perdeu, pleibói, vou ficar na tua cola. Quem sabe eu não aprendo o caminho? Aí, sim, vai se poder fazer muita coisa que não se faz por falta de condições. E o trampo vai voar por aí. Grande abraço.


Ah, sim, a respeito do vídeo, no final eu falo em amor irrestrito pelo ser humano. Preciso dizer que não me sinto nesse patamar de elevação, penso nisso como objetivo da humanidade como um todo. Em certo momento senti que passei essa impressão.

Carrego comigo todas as mazelas que vejo na humanidade à minha volta, senão de forma explícita, pelo menos em potencial. Eu me debato interiormente contra meus próprios e ainda inevitáveis sentimentos ruins, destrutivos, desequilibrados que influenciam minha vibração pessoal e toda a realidade à minha volta. Prestando atenção aos sentimentos que permito brotarem dentro de mim e nos sentimentos que provoco nas minhas relações, posso perceber e evitar constrangimentos, atritos, mágoas ou rancores. Quase sempre. É desnecessário e nocivo provocar sentimentos de mal estar. E a gente arruma menos problemas.


sábado, 14 de dezembro de 2013

Republicando um textículo natalino

O rompimento com a família fora tão brutal que eu rompi com tudo o que havia vivido. O natal não significava nada. Ainda mais depois que soube ser uma data criada mais de oitocentos anos depois, pela igreja católica apostólica romana, para submeter as religiões nórdicas que nesse dia comemoravam o dia do solstício, da fertilidade da terra, de homenagem às deusas e deuses da natureza. E que só sobreviveu como data porque interessava aos empresários da época uma festa de consumo, onde se gastaria pra eles lucrarem. Aí dá-lhe publicidade, massacre midiático, tudo gira em torno do natal, como do carnaval, do dia das mães, dos pais, dos namorados,...

Mas não adianta, nessa época as pessoas vibram diferente, o astral muda, dá pra sentir. As pessoas ficam mais solidárias, as famílias se reúnem, há todo um clima. Melancolia nas periferias, alguns conseguem amenizar com  uma confraternização em família, grupos se reúnem, os mais diversos, em todas as partes. O pouco se torna muito, há reuniões de excluídos e são lindas, por se basearem inteiramente no afeto. Ali o ser humano mais barbarizado mostra seu lado afetivo, amoroso. Muitas vezes vi acontecer.

Nessa época me parecem muito gritantes as diferenças sociais. Se houvesse uma visão humanística, uma visão de família humana, seria constrangedor dispor de excessos enquanto há tanta gente sem o necessário pra sobreviver. Não é possível entender o porquê da miséria, da pobreza, do abandono, da ignorância. Com todo o desenvolvimento acadêmico, toda a capacidade tecnológica, não se pode acabar com a ignorância, com a desassistência médica e tantas abjeções da sociedade? Duvido. Capacidade tem. O controle empresarial é que não deixa.

A imagem imposta de papai noel é a inteira hipocrisia da sociedade. Quem não come direitinho, as três refeições do dia, fora lanchinho, não ganha presente. A maioria das crianças não ganha.

Eduardo.


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A Santa Claus


Por Luis Sepúlveda


Estimado Santa Claus, Papai Noel, Bom Velhinho,
ou como queira chamar-se ou ser chamado.

Confesso que sempre lhe tive simpatia porque, em geral, me agrada a Escandinávia, sua roupa vermelha me dá um sentimento premonitório e porque, por trás dessas barbas sempre acreditei reconhecer um filósofo alemão que, a cada dia, tem mais razão no que afirmou, em vários livros muito citados, mas pouco lidos.

Não tema pelo teor desta carta, não sou o menino chileno que, há muitos anos lhe escreveu: “Velho safado, no ano passado te escrevi contando que, apesar de ir descalço e em jejum à escola, consegui tirar as melhores notas e que o único presente querido era uma bicicleta, sem querer que seja nova. Não teria que ser uma mountain bike, nem para correr o Tour de France. Queria uma bicicleta simples, sem marchas, para ajudar minha mãe a levar as roupas que ela busca, lava, passa e entrega. Isso era tudo, uma humilde bicicleta. Mas chegou o natal e eu ganhei uma estúpida corneta de plástico, brinquedo que guardei e te envio com esta carta, para que enfies no cu. Desejo que pegues AIDS, velho filho da puta”.

Foram seus elfos, os responsáveis por tão monstruoso desrespeito?

Pois bem, estimado Santa Claus, seguramente este ano receberá muitos pedidos de bicicletas, pois o único porvir que espera os meninos do mundo é como entregadores, mensageiros e trabalhos sem contrato de trabalho, condenados a distribuir pacotes e quinquilharias até os 67 anos de idade. No entanto, não lhe peço uma bicicleta. Peço, em troca, um esforço pedagógico, que ponha seus elfos, anões, duendes e renas para escrever milhões de cartas explicando o que são e onde estão os mercados.

Como você bem sabe, eles nos têm fodido a vida, rebaixado os salários, arrasado as pensões, retirado benefícios das aposentadorias e condenado as pessoas a trabalhar permanentemente, para tranqüilizar os mercados.

Os mercados têm nomes e rostos de pessoas. São um grupo integrado por menos de um por cento da humanidade, donos de 99% das riquezas. Os mercados são os integrantes dos conselhos de acionistas, como são acionistas, por exemplo, de um laboratório que se nega a renunciar aos royalties de uma série de medicamentos que, se fossem genéricos, salvariam milhões de vidas. Não o fazem porque essas vidas não são rentáveis. Mas a morte sim, é, e muito.

Os mercados são os acionistas das indústrias que engarrafam suco de laranja e que esperaram até que a União Européia anunciasse leis restritivas para os trabalhadores não comunitários, que serão obrigados a trabalhar na Espanha ou outro país da U.E., sob as regras de trabalho e condições salariais de seus países de origem. Logo que isto aconteceu, nas bolsas européias dispararam os preços da próxima colheita de laranja. Para os mercados, para todos e cada um destes acionistas, a justiça social não é rentável, mas a escravidão sim, e muito.

Os mercados são os acionistas de um banco que suspende o salário mínimo de uma mulher que tem o filho inválido. Para todos e cada um dos acionistas, gerentes e diretores dos departamentos, as razões humanitárias não são rentáveis. Mas os despojos, as expulsões da pobreza para a miséria sim, é. E muito. E para os ladrões de esperança, sejam de direita ou de direita – pois não há outra opção para os defensores do sistema responsável pela crise causada pelos mesmos mercados –, despojar da sua casa aquela senhora idosa foi um sinal para tranqüilizar os mercados.

Na Inglaterra, a alta criminosa das tarifas universitárias se fez para tranqüilizar os mercados. O descontentamento social levará a ações inevitáveis pela sobrevivência e os mercados pedirão sangue, mortes, para tranqüilizar seu apetite insaciável.

Que seus duendes e elfos expliquem, detalhadamente, que no meio desta crise econômica gerada pela voracidade especulativa dos mercados – e pela renúncia do Estado a controlar os vai-véns financeiros –, nenhum banco deixou de ganhar, nenhuma sociedade multinacional deixou de lucrar e até os economistas mais ortodoxos das teorias de mercado concordam em que o principal sintoma da crise é que os bancos e as empresas multinacionais lucram menos mas, em nenhum caso deixam de lucrar. Que os elfos e duendes expliquem até ficar claro que foi o mercado quem se opôs a (e conseguiu eliminar, financiando campanhas de legisladores a seu serviço - n do T) qualquer controle estatal às especulações, mas agora impõem que o Estado castigue os cidadãos com a diminuição dos seus rendimentos.

E, por último, permita-me pedir-lhe algo mais: milhares, milhões de bandeiras de combate, barricadas fortes, paralelepípedos maciços, máscaras anti-gases, e que a estrela de Belém se transforme numa série de cometas incandescentes com alvos fixos: as Bolsas, que queimem até os alicerces, pois as chamas dos formosos incêndios nos dariam, ainda que temporariamente, uma inesquecível Noite de Paz.

Muito fraternalmente


Fuente: Le Monde Diplomatique                                                                     Tradução - Eduardo Marinho

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O poder real, por trás dos poderes públicos. Ou por cima.

O livro, "Confissões de um assassino econômico", discorre em detalhes todos os dramas internos, além dos procedimentos do poder financeiro sobre os países, que passaram em seu sentimento. A culpa e o conflito interno sempre existiram enquanto ele cumpria seu papel corporativo, dentro do esquema. O livro foi escrito nessa base. E é precioso, pelas informações que espantam alguns, mas não surpreendem, por explicar porquê a sociedade é tão injusta, porquê se tem tanta miséria, ignorância, abandono e sofrimento. E porquê a "política" é tão corrupta, a partir dos corruptores.

Estamos com a “terrível presença do norte” em nossas almas. Esse vídeo faz o resumo de um livro que li alguns anos atrás, “Confissões de um assassino econômico”, de John Perkins (esse mesmo do vídeo), que explica de forma simples e clara de como funcionam as coisas mundiais. John foi um executivo das multinacionais. Um economista que fazia planos de infraestruturas nacionais, sendo construídas pro desenvolvimento dos países, na verdade uma forma torpe de atrelar financeiramente os países aos poderes econômicos. Quem construía eram empresas dos Estados Unidos, o dinheiro nem chegava nos países, eram passados diretamente às construtoras que se escondiam sob o governo, comandando-o.

Não questionamos se o que desejamos é o que nós desejamos mesmo, ou o que nos fizeram desejar. Não percebemos toda a rede de convencimento, de criação de idéias, de valores, de visões de mundo. Exercemos valores e comportamentos condicionados, que servem à manutenção dessa estrutura social. Uma rede criada por um punhado de pessoas que perceberam formas de controlar e dominar a sociedade, de criar vontades e opiniões a seu serviço. Há televisões em todas as casas, formando opinião, empurrando uma visão de mundo que só serve aos poucos riquíssimos, donos de bancos e mega-empresas. São esses que plantam os desejos de consumo, o julgamento de valor humano pela forma, pela roupa ou classe social, os que vivem da angústia das populações, explorando, enganando, controlando políticos e mídia, a televisão, o rádio, os jornais... A vida é um inferno pra grande maioria. É preciso questionar a nossa própria visão de mundo, é preciso pesquisar entre as nossas vontades, entre os nossos valores, quais nos foram implantados? Quais são realmente nossos? De quantas mentiras a gente se deixou convencer? Quanta coisa que a gente acredita que é simplesmente mentira? Eu mesmo não tenho a menor pretensão de “vencer na vida”. A mim me basta viver. Não quero ser melhor que ninguém, se possível gostaria de ser melhor do que eu fui, ontem, de estar aprendendo e melhorando como possa.

Somos nós quem sustenta essa porra toda, somos nós quem pode realmente mudar alguma coisa. Individualmente antes, coletivamente por conseqüência. Essa é a razão da educação pública ser uma merda. Os que comandam têm pavor da idéia de um povo instruído, informado e com um nível de consciência alto, capaz de debater, resolver e decidir os rumos da sociedade. Por isso as escolas públicas não são de qualidade, ai do político que se atrever a investir dinheiro público em educação, ai do que servir à maioria. Há uma televisão na casa de cada um, cada família, mentindo barbaridade, distorcendo a realidade, superficializando o pensamento, induzindo ao consumo como valor social, entre tantos crimes morais, senão legais. Somos (nós, a maioria) mantidos ignorantes e desinformados por decisão dos que dominam, dos que ostentam luxos e desperdícios, convencidos da sua superioridade humana. É preciso perceber o nosso próprio valor. É preciso não se deixar convencer pelos absurdos que a mídia propaga – é preciso ver a mídia como inimiga pública, enquanto for empresarial. Não pra desprezar ninguém, mas pra não se sentir inferior como nos mandam. Dignidade não é arrogância, é preciso não confundir as coisas. Humildemente, não me sinto inferior a ninguém. E se me aparece um convencido da própria superioridade, eu acho é graça. Nem discordo e, se for preciso, faço uma reverência pra ele ir embora. Tenho mais com o que me ocupar nessa vida. O sentimento de inferioridade que se propaga por aí não me toca. O valor é humano, é sentimento, é pensamento, é integração na coletividade humana, é consciência. O problema é confundir valor com preço.

As escolas ensinam a consumir, a disputar, a competir, a querer ser melhor que os outros, a criar conflitos e viver confrontos, com sentimentos de vitória e derrota, ambos deprimentes, cada um à sua maneira. As instituições estão dominadas através do poder “político”.
Pra ter sentido na vida, é preciso andar na contramão.

“Hoje há mais escravidão no mundo do que nunca existiu antes”.  John Perkins

Hoje os escravos fazem fila pra se escravizar.



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O vídeo deixa uma questão em aberto. Acima dos vampiros da humanidade, dos megadominadores, há um poder maior, exercido por todos. É a nossa concordância geral o que sustenta esse sistema social espúrio, criador de sofrimentos pra grande maioria. É preciso ver por si, pensar por si, escolher por si o que se quer da vida. É preciso conferir até onde os próprios valores não foram implantados por artimanhas da publicidade midiática, os comportamentos, os objetivos de vida... há muita coisa pra se criar, pela frente. No mínimo dar um sentido à existência, além das fumaças da ilusão do consumo.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Malucos de Estrada - A reconfiguração do movimento "hippie" no Brasil (ou o outro lado do sistema, seus furos e imoralidades)

Mais uma vez esse apelo é feito ao público pra financiar o filme - documentário a meu ver importante no sentido de expor opções fora do padrão de existência imposto pelas convenções. Em busca de um sentido mais profundo na vida do que consumir, acumular, disputar e desfrutar de bens materiais egoizados, vive-se de modo solidário, amoroso, em harmonia com a natureza e com as coletividades do planeta, sem ambições além das da alma, de viver em paz. Ou pelo menos se tenta.

Rafael Lage é uma pessoa que emana essa freqüência, olhar carinhoso e firme, opiniões suaves, profundas e fortes, talhadas na lida do viver, encarando o sistema social repressor e a difamação pela mídia de todo sistema de vida fora do comum, pela mentalidade convencional preconceituosa e superficial. Esse moleque, com suas três décadas, merece confiança.

Aí um pedacinho dos retalhos que formarão o doc. Quem puder, compareça como possa. Vale demais a pena.

Entrevista depois da palestra - Santa Maria, RS

Essa entrevista foi feita logo depois da palestra, em Santa Maria, RS. Rápida e certeira, fala simples e diretamente das motivações pra essa vida arriscada que arrumei, sem contar com proteção. Mas senti muitas vezes a interferência inexplicável, em muitos momentos críticos, com acontecimentos, encontros e "acasos" providenciais na hora agá. Deve haver uma conta enorme pra mim, quando chegar do outro lado da vida, pelo trabalho que dei aos protetores, se é que dá pra chamar assim. Várias vezes senti presenças, toques e inspirações que alguns explicam, sobretudo espíritas, umbandistas, candomblecistas, budistas e demais reencarnacionistas. Há até explicações católicas e evangélicas. Mas eu, em minha teimosia de mula, me agarro na dúvida e não tenho nenhuma explicação como certa. Não sei, não posso saber, só sentir. E não permito à minha razão a arrogância de explicar o inexplicável, entender o incompreensível, conceber o inconcebível. Não tenho pressa. Minha espiritualidade é exercida na matéria, no trato com o mundo, com os acontecimentos, nas relações pessoais, na vida. Pelo menos enquanto eu estiver na matéria, meu sentimento, minha intuição, vale mais que minha razão. De explicações impostas sob ameaça o mundo tá cheio.

Santa Maria foi de ótimos contatos, muita gente de olho brilhando, exceções que se multiplicam.


domingo, 10 de novembro de 2013

Tapa na cara do secretário - quem diria que eu aprovaria... LIBERDADE PARA EDUARDO FAUZI - O tapa do povo.

Esse é o cara que agrediu o secretário do governo, que foi mostrado na mídia sem nenhum aprofundamento. Ouvindo o que ele tem a dizer, é fácil entender. Essa história precisa ser conhecida, acontece todo o tempo, em todas as partes. O que tem de raro aí são as razões serem mostradas, além da simples criminalização que esconde os motivos. Não interessa ao poder vigente - e não estou falando de políticos, governantes ou autoridades em geral - o esclarecimento da estrutura social espúria, dominada por interesses econômicos. Nem do deboche, desrespeito e ações criminosas do Estado contra o povo, principalmente os mais pobres, mais sacaneados pelas instituições, sabotados, explorados, enganados e torturados a vida toda.

Nunca imaginei que aprovaria um tapa na cara, embora não seja bem 'aprovar'. É que entendi tão completamente essa explosão de raiva que não consigo desaprovar. Pequeneza minha? Talvez. Todos temos muitas pequenezas. Mas se eu estivesse nas mesmas circunstâncias - e sou favorecido nesta análise por ter passado muitas situações parecidas, embora não com um secretário de estado dando mole por perto - não sei se não teria a mesma explosão. Espero que fosse com palavras, mas tão precisas, afiadas e contundentes que o cara me avançasse por conta própria. Aí sim, eu me sentiria em casa, pelo menos pra bandar ele e falar um pouquinho mais enquanto ele se levantasse - nada de chute na cara.

Lendo por trás de tudo que o cara fala se vê a estrutura macabra por trás do poder político, os vampirescos interesses megaempresariais que comandam a sociedade falsamente democrática. Cada vez mais claro, embora a narcose midiática, somada à ausência de educação (sinto um mal estar quando ouço alguém falar em "melhorar" a educação, pois não se melhora o que não existe - por ter sido destruído) faça seu papel alienante. As exceções se multiplicam e se põem a trabalhar. Sua existência se torna sua função na coletividade.

Os que se apresentam como autoridades e representantes do povo ou do Estado, não são nada mais que marionetes numa fachada mentirosa, construída pra encenar uma democracia hipócrita onde se vê a população ser desrespeitada cotidianamente, usada na sustentação da estrutura social que a massacra e estraga a vida desde antes do nascimento. Foi pra manter essa estrutura que se destruiu a educação, cooptando a pequena parte eficiente pra formar profissionais de mercado, e não seres humanos pra viver em harmonia numa coletividade justa. É preciso levantar os véus e a comunicação é a área mais importante nessa tarefa. Não é à toa que os conglomerados midiáticos se empenham tanto em impedir o acesso da população às comunicações e à sua produção. O monopólio lhes é vital.

O espetáculo das marionetes da política institucional e partidária se desmoraliza e desmascara. Muito pouco a pouco, pro meu gosto, mas não se pode impor o ritmo. É preciso perceber as oportunidades e aproveitar, trabalhar com elas e nelas, pra não perder o ânimo com expectativas indevidas. Trabalhar na direção de uma sociedade melhor já é uma satisfação que justifica a vida. O que não se justifica é criar a expectativa de viver em um mundo justo, com tantas raízes a arrancar - esse é um trabalho de gerações no processo da grande família humana através dos tempos. Caminhamos, ora, caminhamos sem parar. O destino é a caminhada. E é caminhar neste sentido que satisfaz.
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Importantes colocações desvendam o funcionamento do estado e suas instituições a serviço das empresas que o seqüestraram com a conivência de políticos comprados. As colocações de Eduardo Fauzi escancaram o desprezo cotidiano do falso poder público pela maioria mais pobre. Ele foi preso de novo depois de três horas desta entrevista. A família tá com uma página pra tentar defender o cara da vingança a que ele está sendo alvo. O ataque foi simbólico, lava a alma de muita gente e, na cabeça dos criminosos institucionais, deve ter conseqüências "exemplares". Aí o link:  https://www.facebook.com/liberdadeeduardofauzi?hc_location=timeline

                                      Liberdade para Eduardo Fauzi




O discurso do prefeito no final deve ser outro "tapa na cara" pra muita gente. Pra mim, a surpresa é apenas por essa fala vir a público. Claro que um público restrito aos que buscam se informar e já sabem a estupidez que é acreditar na mídia além de receitas culinárias e da previsão do tempo. Mas antes isso não acontecia. Essa é a diferença fundamental, devemos exercer e ampliar ao máximo as comunicações. Divulgar, sensibilizar, esclarecer, conscientizar são tarefas fundamentais nesse momento histórico. O prefeito não fala de "vender" apenas sua cidade, mas de vender o país. É essa corja que se aboleta nos poderes públicos pra cometer "crimes de estado" contra a população a favor de um punhado de podres de ricos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Florianópolis, Rua do Marfim, 52, Monte Verde - Clube Cultural Pro-Ecológico Independente (CCPEI). Hoje, às 20 h.

Chegado na semana, recebido pela rapaziada da lida em Monte Verde, converso hoje com quem estiver no centro cultural, foco de encontros nas lutas do bairro. Muito a ser preservado em natureza, matas e cachoeiras, muito a ser desenvolvido entre as pessoas, em consciência e união. Uma luta contra o sistema social (ou apesar dele) e contra as tendências plantadas no inconsciente coletivo pra causar desunião, desconfiança, competitividade.

Tamos lá pra remar contra a corrente anti-humana imposta à coletividade. Na função de concentrar riquezas e poderes, plantam-se ervas daninhas sociais, no impedimento da instrução, da informação, da solidariedade, da união. Por isso gosto de estar entre os abridores de caminhos, os capinadores, os foiceiros da consciência humana. Eles estão espalhados por aí, em toda parte, poucos, mas brilhantes e contaminantes. Essa é a função.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Uma em cima, outra em baixo - no fundo é a mesma coisa.

Cheguei em Foz do Iguaçu e fui recebido por Detrudes, Luiz e Rodrigo. Fomos ao hotel onde me hospedaria e a umas cervejas, na seqüência. Eles foram receber outros palestrantes depois, eu fiquei no hotel, completando o serviço com o frigobar. No dia seguinte fomos às cataratas, impressionante volume de água, impressionante estrondo - mas tive ali a mesma sensação que me provocam o Corcovado e o Pão de Açúcar, tomados por interesses empresariais que impregnam a sociedade de todas as formas, com a elitização da área. Ali se apaga a sociedade onde vivemos, como é característica das áreas elitizadas, se apossando das belezas naturais, e se esquece a precariedade em que são atiradas imensas parcelas da população, inclusive os que se incumbem dos trabalhos do parque. Tudo parece armado em nome da grana, excluindo e ignorando os grandes desequilíbrios humanos, a pobreza material da maioria e a pobreza espiritual da nossa coletividade. Isso me incomoda bastante e não permitiu que eu usufruísse plenamente das belezas naturais, consciente de sua "exclusivização". A comida do almoço era ótima, mas a ostentação do restaurante sempre me estraga o sentimento. Ao menos as companhias eram ótimas.

Não pretendo aqui reclamar de nada, nem responsabilizar quem quer que seja, a recepção e o tratamento foram exemplares, não podia ser melhor. Boas pessoas que se percebe pelo olhar, faziam parte da equipe do TEDxAvCataratas, desde o Sebastian, que estava na cabeça da organização, até os meninos e meninas da base, recebendo, preparando, fazendo o evento acontecer em harmonia. Os palestrantes, todos, evidenciavam um bom coração; as palestras foram ótimas, todas indutivas à reflexão, ao questionamento de valores como se faz necessário desde sempre, mas que é tão raro, desestimulado pelo sistema vigente. Me parece, porém, que eu era o único periférico da área, com vivência de rua, de carência, de marginalidade e exclusão - se não na origem, a partir dos dezenove anos e até hoje, com quase 53 anos. Os primeiros dezenove anos da minha vida me deram condições próprias de interpretar a realidade do ponto de vista da miséria material. Daí portar algumas visões diferentes dos outros palestrantes, algumas vivências não experimentadas ali - embora não faltassem vivências fortes, profundas e modificadoras, como se vê pelas palestras feitas. Em minha cabeça e coração, a maioria sabotada, explorada e excluída dos benefícios das tecnologias jamais desaparece, eu a vejo toda hora, em todas as partes, mesmo na sua invisibilidade. As mãos pobres estão nas paredes, nas poltronas, nas cortinas, na limpeza, na comida de alto nível que comemos, nas roupas e sapatos à minha volta, nos equipamentos, no asfalto, na calçada, em toda parte eu vejo. E me incomoda ver como isso é esquecido, ou não percebido. Parece que tudo foi feito automaticamente, não é fruto de injustiças sociais. Não consigo nem quero esquecer o suor, o esforço, a exploração dos que construíram todos os espaços, desde os públicos até os privados, desde os simples até os luxuosos. A base de tudo em nossa sociedade primária é a exploração do trabalho dos mais pobres, mantidos desonestamente na ignorância, na desinformação, na exclusão, na inferioridade social. E isso me dói, quando vejo explícito.

Sem querer ferir susceptibilidades, restringi a palestra às minhas vivências, aproveitando o escasso tempo. Não me parece produtivo levantar barreiras acenando com responsabilidades não percebidas, usufrutos indevidos e excessivos. Cobranças e acusações são prejudiciais, diante da naturalidade da inconsciência, quando se pretende apresentar reflexões e vê-las recebidas. Com carinho e afeto se é sempre bem recebido; com arrogância apenas se levantam antagonismos e mal estar. Uma tendência comum e imbecil.

Além do mais, meus pontos de vista são meus e não me sinto no direito de impor a outros.

Abaixo, a palestra, curtíssima, como é o padrão do TED.



À noite, depois da palestra, fomos a um bar no lado argentino. Por coincidência, de dois brasileiros. Um desenho meu ficou lá, na parede, o da América Latina, "pela integração dos povos latinoamericanos". Chamou minha atenção não ter visto nenhum carro de polícia pelas ruas cheias de casas noturnas. Só vi na fronteira. Ali tive que mostrar a identidade pra moça do computador.

Saí do hotel no dia seguinte e fui pra Cidade Nova, pra casa do meu camarada Mano Zeu, lutador incansável das periferias de onde é originário, com suas letras ácidas e esclarecedoras, em protesto permanente contra as falcatruas do poder vigente e a inconsciência em que são mantidas as favelas e bairros pobres. Ali não se espera pelos poderes ditos "públicos", se parte pra fazer e se faz. Do cinco estrelas ao barraco foi uma trajetória - parecerá estranho a alguns - ascendente. Se não em matéria, mas em alma, em comportamentos espontâneos sem formalidade alguma. Ali ninguém diz "pois não, senhor", nem usa qualquer tipo de formalidade chique, como no hotel onde estava. Não vai aqui nenhuma reclamação, nenhuma condenação aos costumes formais dos "altos" da sociedade. Apenas revelo muito mais identificação com a simplicidade, com o mínimo necessário, com as condições dos de baixo, resistentes da sobrevivência contra todo o esquema montado desde séculos - benefícios pra poucos, sacrifícios pra maioria. As condições favorecem a aproximação e a solidariedade.

Encontrei o Danilo Georges, também, logo na seqüência. Na casa do Zeu, com três colchões dormimos em seis, um argentino, um venezuelano, um colombiano, um pernambucano e o próprio Zeu. E eu, claro.

No dia seguinte, almoço na casa do Zé, muita preparação no CNI (Cidade Nova Informa), a biblioteca pau pra toda obra que eles conseguiram montar lá, cobrando de deus e o mundo na prefeitura, até conseguir, com as migalhas e as doações, colocar pra funcionar. É o centro cultural da área. Heróico. Assim como heróicas as pessoas que se dedicam a levar adiante, como diz o nome do próprio fanzine deles, o "Adelante". Trouxe dois deles, vou restaurar a capa de um e reproduzir.

Biblioteca comunitária Cidade Nova Informa.

Teve rep (ritmo e poesia), teve apresentações teatrais das crianças, muita manifestação de opiniões, baita exercício de formação de pontos de vista. No abandono cultural, se faz a cultura espontânea e local, abrindo a mente pro mundo, tentando descondicionar da midiatização dominante, mostrando outras existências fora dos padrões impostos.

Falei dos sentimentos induzidos, superficiais e falsos, com base na forma e não no conteúdo, disse da realização real e da falsidade das propostas convencionais. De enxergar o que está por trás do que nos é mostrado, de criar nossos próprios valores e comportamentos, de ver o que acontece e como se distorce a realidade pra que não vejamos o predomínio empresarial sobre o poder público, a verdadeira guerra das empresas contra os povos. De perceber nosso próprio valor e não nos deixar impressionar com as imposições culturais de mídia, que inferioriza quem tem menos e superioriza quem tem mais. Falei da maior importância do ser, em lugar do ter. Não faz sentido uma sociedade que maltrata alguém honesto, generoso, solidário e maltrapilho; e que louva os podres de ricos que compram políticos e se apropriam do patrimônio público, em prejuízo de milhões que não têm nem os seus direitos básicos respeitados. É preciso destoar desse conjunto, ainda que ao preço da discriminação.

Ali não houve como gravar a palestra, mas penso que o que falei ali é pra ficar por ali, mesmo. Muitos dos que não conhecem essa realidade cotidiana não entenderiam várias colocações que fiz. Percebi me observando que meu vocabulário, meu pensamento e meu sentimento fazem uma adaptação inconsciente. Da palestra no TED à fala no CNI houve uma mudança total. Nada premeditado ou resolvido, ao contrário, eu não sabia o que iria falar até pegar no microfone.

A Elza, com o microfone na mão, tem uma fala guerreira.
Na região da tríplice fronteira existe, entre os de baixo na sociedade, um sentimento de integração que me surpreendeu. Paraguaios, argentinos e brasileiros pobres se respeitam e se irmanam em dificuldades e lutas semelhantes.

Estive expondo na UNILA (Universidade pela Integração Latinoamericana), quer dizer, na rua em frente.  O que me valeu um contato com a segurança de uma empresa vizinha. É que eu havia pregado meus desenhos na parede da tal empresa e os caras vieram me dizer que não podia. O episódio vale um escrito à parte. Uma pequena historinha de fazer pensar. Deve ser a próxima postagem.



domingo, 13 de outubro de 2013

Orçamento devorado - que se dividam os restos com o povo





Eu lembro dos enfermos sem atendimento, dos postos de saúde fechados ou sem recursos, sem remédios, sem médicos; das escolas periféricas, praticamente abandonadas à própria sorte e à criatividade e sacrifício de educadores e funcionários, o ensino público sabotado e em ruínas, sem condições de instruir com um mínimo de dignidade e cidadania; lembro dos transportes superlotados todos os dias, em situação de tortura coletiva, sem o menor respeito pela população que constrói, mantém, sustenta e põe pra funcionar a sociedade como um todo, desinstruída e alienada pela mídia; das forças de segurança preparadas pra contenção de massas, em caso de inconformação com as situações de barbárie.

Vejo as forças de segurança atacarem a população que se manifesta por seus direitos constitucionais, defendendo os interesses dos patrões, de mega-empresários que se apossaram da política, com suas milionárias doações de campanhas eleitorais. São meros investimentos para ter lucros gigantes em obras públicas superfaturadas, isenção de impostos e todas as vantagens que o aparato "público" pode oferecer, às custas do sofrimento cotidiano da maioria. As políticas públicas são ditadas por banqueiros e mega-empresários, por associações patronais, pelo poder econômico. Dominam as instituições, sabotam a educação e contam com a mídia empresarial pra distorcer a realidade, manipular a opinião pública e impor valores e comportamentos de acordo com os interesses empresariais.

A dívida é uma armação estratégica pra submeter o país aos banqueiros mundiais, às mega-empresas transnacionais, ao punhado de vampiros da humanidade. No livro "Confissões de um assassino econômico", de John Perkins, as denúncias são claras e evidenciam essa estratégia criminosa de controlar e tornar países inteiros miseráveis, com exceção de elites locais que gerenciam o crime contra a humanidade.

Depois de "Confissões", sugiro completar o ciclo com "A melhor democracia que o dinheiro pode comprar", de Greg Palast, jornalista que, depois de publicar esse livro, teve que sair do seu país (Estados Unidos) e foi viver e trabalhar em Londres. A partir da segunda edição, ele incorporou o Capítulo Brasileiro, relatando como o Citygroup forneceu a fortuna que comprou o congresso pra aprovar a emenda constitucional que reelegeria FHC - que assumiu o compromisso de privatizar (doar pros mega-empresários) o patrimônio público do povo brasileiro, as mais lucrativas estatais, as áreas estratégicas de energia e transportes, mineradoras como a Vale do Rio Doce, Usiminas e tantas outras. Há outro livro sobre o tema, que não li ainda, "O príncipe da privataria", de Palmério Dória. Além, claro, de "Privataria Tucana", de Amaury Ribeiro Júnior.

Por isso, quando vejo esses "políticos" protestando contra investimentos sociais, contra o financiamento público de campanha, simulando defender os dinheiros e o patrimônio público, sem mencionar essa dívida-draga, sinto cheiro de podre, nojo e uma imensa raiva.

Artigo de La Fattorelli - http://www.auditoriacidada.org.br/wp-content/uploads/2013/09/Artigo-Orcamento-2014.pdf


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

É pública minha posição apartidária - não confundir com "apolítica", que é uma posição impossível -, pela idéia de que a estrutura política, assim como todas as estruturas da sociedade, estão infestadas de interesses empresariais, que se infiltram por todas as brechas dos poderes e das instituições. A luta por espaço nas comunicações é crucial, a luta por uma educação verdadeira, por uma tributação justa, por uma sociedade mais solidária passa pela conscientização geral. A partir de dentro de cada um, nos seus próprios condicionamentos em valores e comportamentos, o trabalho externo se torna mais eficiente. Esta é a minha opinião, há quem discorde.

Dentro das instituições, porém, há gente decente trabalhando. Convivendo dentro da estrutura corrompida e sofrendo a angústia da própria diferença com o ambiente rotineiro. Não é à toa que vazam informações, denúncias, se tomam ações que resolvem problemas pontuais. Pessoalmente, estamos do mesmo lado, desejosos de uma sociedade em nome de todos, não de uns poucos e em prejuízo da maioria.

É preciso lembrar que NÃO INTERESSA a esses poucos vampiros encastelados em palácios, luxos e ostentações uma educação verdadeira. A ignorância da população é fundamental pra manter esse Estado corrupto que não cumpre nem mesmo sua própria constituição, pomposa e ironicamente chamada de "carta magna". A pompa impressiona a ignorância, a mídia a conduz. É preciso saber contra o que lutamos.

A Sônia fez um pronunciamento que traduz o que sinto diante desse quadro. Ela é parlamentar. Vereadora. Eu acho. Não me ligo muito porque não acredito que a política partidária possa ir muito além da cosmética e de ações pontuais. Válido, mas já tem gente trabalhando aí e eu tenho outras vertentes no mesmo trabalho.

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"Assistimos nesta terça-feira, dia 1, a um dos mais degradantes episódios de submissão de decisão parlamentar à vontade do Poder Executivo, através da aprovação do Plano de Cargos e Salários dos profissionais da Educação, contra a vontade de seus funcionários e sem qualquer discussão com a sociedade civil.
Uma votação feita sob regime de urgência e a portas fechadas pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar do Plenário da Câmara de Vereadores!  Nada pior poderia ficar registrado nos anais da história da Casa Parlamentar e da Educação no Rio. 
Lá dentro, 36 vereadores da base do prefeito, absolutamente fiéis não ao que acreditam como valores educacionais, mas ao que creem como lógica política. Ou seja, a troca constante de favores e benesses em seus bairros – não diretamente “mensalões, – mas empregos, cargos, asfaltos, licenças, internações, obras, entre outros. Enfim, verdadeiros xerifes das áreas.
Em algum momento sentiu-se neles qualquer preocupação, ainda que vaga ou genérica, de que talvez fosse prudente e necessário ouvir as pessoas para  poder debater esse importante Plano de Cargos de Salários dos professores e dos profissionais da Educação que cuidam por décadas de mais de 750 mil crianças do nosso Município e que comprometem o nosso futuro no mínimo pelos próximos vinte anos?
Estavam eles preocupados em saber o que se tinha a dizer a respeito das proposta dos membros do Conselho Municipal de Educação? Por algum momento seu entes foram ouvidos pelos vereadores?
E os notáveis do Conselho da Cidade foram ouvidos?  Ou os notáveis também nada tinham a dizer sobre esta questão “menor”, que é o Plano de Cargos e Salários a Educação?
Por que nem os vereadores, nem mesmo os membros das Comissões de Educação, fizeram audiência pública para escutá-los?  Por que não ouviram os inúmeros e excelentes especialistas em Educação que desenvolvem, há anos, magníficos trabalhos na cidade do Rio de Janeiro?

Plano de Carreira do pessoal da Educação na Cidade do Rio não é, definitivamente, assunto nem de palpiteiro, de novato ou de twitteiro. Não temos mais tempo a perder neste assunto. Não basta somente a informação maniqueísta do que diz o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação em confronto do que diz o prefeito ou a sua secretária.
Queremos o debate com os pais, professores, pedagogos, alunos e técnicos. Uma politica de estado na educação básica no Rio que atraia jovens para esta profissão, que exige sempre uma doação espiritual e social.
Por isso, digo e repito, me envergonho do que vi acontecer no Plenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, com professores da rede publica apanhando da polícia do lado de fora na rua e vereadores escarrapachados em suas cadeiras, com ares de absoluta indiferença, “cumprindo o determinado”.
Hoje, o Rio não amanheceu como sendo a nossa Cidade Maravilhosa. Mas, esta história ainda não chegou ao seu final, definitivamente, pois quem faz a Cidade ser maravilhosa somos nós e não eles…"
 Confira como votaram os vereadores:
Votaram SIM os vereadores Alexandre Isquierdo, Átila A. Nunes, Carlos Bolsonaro, Chiquinho Brazão, Dr. Carlos Eduardo, Dr. Eduardo Moura, Dr. Gilberto, Dr. Jairinho, Dr. João Ricardo, Dr. Jorge Manaia, Edson Zanata, Eduardão, Eliseu Kessler, Elton Babú, Guaraná, Jimmy Pereira, João Mendes de Jesus, Jorge Braz, Jorginho da S.O.S, Junior da Lucinha, Laura Carneiro, Leila do Flamengo, Luiz Carlos Ramos, Marcelino D’Almeida, Marcelo Arar, Paulo Messina, Prof. Uoston, Rafael Aloísio Freitas, Renato Moura, Rosa Fernandes, S. Ferraz, Tânia Bastos, Thiago K. Ribeiro, Vera Lins, Willian Coelho e Zico.
Votaram NÃO os vereadores Carlo Caiado, Cesar Maia e Tio Carlos.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Papo com Ricardo

Esse papo rolou em 2011, de lá pra cá o Ricardo teve um casal de filhos, Fernando e Eduarda. Sempre pensei em publicar nossas conversas, mas a intenção era colocar no papel, fazer livrinhos manuais, por serem curtos, pequenos e fáceis de vender. Além de serem bons de ler, na minha opinião, claro. 

Ricardo é meu amigo há anos, dessas amizades raras que duram a vida inteira. É como se a gente fosse formando uma família com base na afinidade, não na consangüinidade. Se a reação for boa, publico outros.

Sei que o blogue tá meio abandonado de novo, por isso vim dar uma capinada no mato. Logo devo recomeçar as publicações. Espero. A vida não anda fácil, não, e o que me banca é o trampo de rua, os desenhos, as pinturas. Daí a ausência. Abraços a todos e bom proveito.

Eduardo. 

A Lua de mel e o pastor de Jesus

- Falaí, Edu... já voltou ou não?
- Tô em casa.
- Quando chegou?
- Quinta-feira antes do carnaval.
- Ah, tem tempo, então. Fez alguma coisa no carnaval? Viajou?
- Passei o último fim de semana num sítio em Parati.
- Que beleza, hein, foi acompanhado?
- Fui. Com aquela dona que te falei, tava em banho maria.
- Que dona é essa... a cantora?
- É.
- Ah, tá. E foi legal, lá? Levou os trampos?
- Demais, o sítio é lindo, cheio de cachoeiras, longe pra raio, isoladão. Não tinha porque levar trampo. Mas ela me pagou pra ir. Motorista. A motorista dela, amigona – a mina é motorista de ônibus, cara –, faz um bico dirigindo pra ela, que precisa ter carro, mas não dirige. Ofereceu o que pagaria a ela, pra ir no sítio. Até porque, quando me chamou, eu disse que não iria a lugar nenhum, sem trabalhar.
- rsrsrs... gigolô!!!!
- Tu não podia deixar passar essa, né?
- kkkkkkkk... Não podia mesmo. Aqui... tá sabendo a novidade? Tô casando em outubro... eu acho. Rsrs
- Eu acho? Que é, pressão?
- rsrs Não... é que eu não sei se vou conseguir arrumar tudo, até lá. Vamos fazer uma coisa simples, pra poucos convidados.
- Arrumar o quê?
- É muito detalhe. Cartório... local da festa... casa... mobília... lua de mel... etc, etc, etc...
- Bobagens... Lua de mel?
- Lua de mel, sim. Bobagens que custam dinheiro, tempo... e disponibilidade, claro.
- Seria melhor ‘festival inicial de sexo”.
- huahuahuahuahuahuau... tem que ter um lugar legal pra esse festival.
- Lua de mel é xaropada. Careta.
- Tudo bem, concordo com a expressão “festival continual de muito sexo”. Continual porque não vou iniciar nada, né?
- Não. Mas serão dias dedicados, principalmente, ao sexo comemorativo da união estabelecida.
- Ah, entendi.
Estamos escolhendo entre o Morro de São Paulo, na Bahia – minha irmã foi pra lá no carnaval, disse que é uma coisa maravilhosa – ou então um desses navios de cruzeiro.
- Morro de São Paulo é Argentina...
- Que Argentina o quê, ô maconha, é na Bahia. Pelo menos esse que eu tô falando.
- É na Bahia, mas é Argentina.
- Ah, entendi.
- Cê falou em cruzeiro?
- Falei. A Faby quer ir nessa merda de qualquer jeito.
- Navio de cruzeiro?!
- É, transatlântico. Desses que passam por Fernando de Noronha.
- Tem vergonha na cara, não, ô pequeno burguês?
- kkkkkkkkkkk... é a vontade dela.
- Putz, que deprimente... quer ir pra ilha da fantasia...
- Eu vou fazer o quê? Prefiro essa parada na Bahia, mas se ela bater o pé, eu vou.
- Que triste.
- Obrigado. Também estou muito feliz.
- Lamento sua sorte, companheiro. Em pouco tempo, vai ter uma barriga nesse teu corpo magro.
- Dispenso seus lamentos e lamúrias. E eu já estou com barriga. Ela vai muito bem, obrigado.
- Daqui a pouco cê vai estar contando como foi feliz a sua juventude.
- Ah, que bom que você acha isso. Realmente é tudo o que espero, que suas palavras se transformem na mais pura realidade.
- Alienado, flácido, acomodado e “feliz”. Cada um com sua sina...
- De pau ereto, fazendo muito sexo e aproveitando a vida. Muito “feliz”. Eu adoro a minha sina. Kkkkkk
- Questão de tempo. Com 35 vai estar mais velho que eu.
- Questão de tempo, eu vou dizer como você está errado.
- Ah, eu já vou ter morrido.
- Mas discutir com você é impossível. Então vou deixar que o tempo revele quais são realmente meus planos.
- Seus planos são bem planos, mesmo, hein?
- É, cara, meus planos são muito maiores do que um simples julgamento de como será a minha vida, baseado numa lua de mel... que nem decidi ainda pra onde vai ser.
- Há sinais, vê quem é capaz.
- E você é o capaz na história, né?
- Questão de prática, bundão. Reconhecimento, precisa não. Crédito, precisa não. Vai aí, boi. Passarinho de gaiola.
- Você não sabe de nada, seu babaca. Agora eu sou um novo homem. Parei de fumar maconha e de beber. Entrei pra Igreja Internacional.
- Tu gosta mesmo é de alpiste.
- E o pastor me disse que eu vou me dar muito bem na vida, terei todo o dinheiro que eu quiser e o mais importante...
- Cê vai é dar muito na vida.
- ... se eu der um pouco pra ele... não vou para o inferno.
- Tá vendo aí?
- Ou seja, estou no caminho certo.
- São os parâmetros de felicidade. Vai aí, boi. Ou vaca.
- Eu vou passar aí, Edu. Vou levar umas revistas que o pastor me deu. É muito importante que você leia e aceite Jesus.
- É bom, acabou o papel higiênico aqui em casa.
- Não queira conhecer o inferno... se você pedir perdão pelos seus pecados eu vou lhe conceder a luz divina.
- Sua luz divina você pode enfiar no olho cego.
- Oh!!!!!!! Não quero mais ouvir essas blasfêmias... que Ele te perdoe. Você não sabe o que diz... acho que está possuído. Tô ligando pro pastor e dando seu endereço... ele vai passar aí pra tirar o capeta do seu corpo... calma, amigo, eu vou te salvar.
- Vem, viado, que eu vou te mostrar o tamanho do que tu vai salvar.
- huahuauhuahuauhuahuauhauah Deixa eu trabalhar, cara. Tô rindo aqui, sozinho, e neguinho já tá me olhando estranho. Kkkkkkkkkkkk
- Eu também tenho mais o que fazer. Aparece depois.
- O recado tá dado. Vou casar. E mesmo você estando possuído, está convidado. Será um prazer contar com a sua presença na comemoração. Vou dar uma passada aí essa semana.
- Me lembra quando chegar mais perto. Daqui pra lá, eu esqueço.
- Beleza.
- Abraço, compade.
- A gente ainda se fala, antes. Abração.

- Inté.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.