terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dívida Pública, uma dívida que o público não fez e é obrigado a pagar sem entender.

Sem entender que o orçamento nacional é roubado por banqueiros que, mancomunados com a elite nacional, inclusive a política, impedem deliberadamente o investimento nas necessidades e nos direitos constitucionais da população.

O filme diz que a dívida começou com a "ditadura militar". Não confere de todo. O governo de Getúlio Vargas já havia feito uma auditoria - limitada, mas auditoria - que a tinha reduzido a 40% do seu valor - o que foi um dos motivos pras pressões que se fizeram em cima dele e que, no seu auge, o levaram ao suicídio pra evitar o golpe, que atrasou dez anos. No governo João Goulart a dívida era em torno de seis bilhões de dólares, a tal "ditadura" a ampliou pra mais de cem bilhões, o que faz parecer que a dívida não era nada antes dos militares. Mas já era um fator de pressão e foi ampliado pra ficar irresistível, aumentando a força das pressões internacionais com todo o apoio subserviente das elites locais.

Do jeito que se fala no filme, parece que a responsabilidade recai sobre os governos. Não se fala da apropriação das instituições pelo poder privado, do controle da política - governo e parlamentos - e do judiciário, verdadeiro seqüestro do Estado, com o apoio da mídia, da desinstrução e da desinformação impostas à população que facilita o controle e a indução da opinião pública, alienando e anestesiando as consciências. Não é um punhado de intelectuais, economistas e outros estudiosos, que vai modificar esse quadro, mas a instrução e a informação do povo. Mas parece que essa é uma tarefa a que poucos se dedicam, condicionados que são em inferiorizar a importância e a capacidade da população. O trabalho deve ser profundo, a partir das raízes sociais, e deveria estar sendo feito geração após geração. Exatamente por não estar sendo feito é que não se encontra respaldo pras denúncias escandalosas que aqui são feitas.

Enquanto a mídia bradava histérica contra o "mensalão", essa "dívida" imoral levava o equivalente a mais de quinze mensalões POR DIA. Mas disso a mídia não fala, traidora compulsiva da população em benefício dos bancos, sobretudo os internacionais.

"O Sarney chegou a instaurar a CPI dos bancos. Não durou mais do que algumas horas." Assinaturas de parlamentares foram retiradas, inviabilizando a comissão. Isso demonstra mais que claramente o controle (e não apenas o poder) dos bancos sobre os parlamentares, sobre a "política" (que nunca foi política, apesar da aproximação tentada por João Goulart e destruída pela convocação dos militares) e sobre o Estado. O filme parece não destacar o óbvio. De onde vem esse apego à visão de que aqui há qualquer coisa além de uma tremenda farsa? Não se vê que não existe e nunca existiu democracia por aqui além das palavras e da simulação cênica? Qual é a dificuldade desses intelectuais, sindicalistas e demais ativistas? Que democracia é o cacete, rapaziada! É preciso deixar isso claro, antes de pensar em promover mudanças reais. Não se muda como se deve, quando não se vê a realidade como ela é.

Constituição fraudada no seu artigo 166, favorecendo o pagamento da dívida pública pelo orçamento nacional, sem votação. Como diz no filme, uma falsificação grosseira, cuja contestação por ação ajuizada pelo presidende da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e arquivada pelo Supremo Tribunal Federal, outra prova do controle das instituições pelos interesses financeiros dos vampiros da humanidade que sujeitam países e sacrificam seus povos com a cumplicidade das suas elites locais, sempre traidoras da nação e das populações.

O Brasil, no ano passado, teve o 7º maior PIB (produto interno bruto) do mundo. No índice de desenvolvimento humano (IDH), foi o 85º do mundo. Essa diferença brutal se deve ao saque do orçamento pro pagamento dessa dívida, que nunca se investigou como foi feita e como se desenvolveu - todas as tentativas foram sabotadas e frustradas. O Estado brasileiro está impedido de investir na sua própria população, o que seria bom para todos em todas as classes, menos pra esse punhado que anda de helicópteros e jatinhos, nas suas bolhas de opulência e luxo, de onde controlam seus fantoches "públicos" e determinam, sem serem eleitos, as "políticas públicas". Crimes contra a humanidade cometidos dentro de uma pretensa e falsa legalidade.

Essas informações teriam que ser passadas à população, num trabalho capilar, profundo e persistente, na língua geral - e não em academês. Parece que os contestadores sucumbem ao mito da incapacidade do povo em entender o que acontece e esse trabalho, fundamental pra ter força perante as instituições dominadas, não é feito. Na minha opinião, os condicionamentos impedem a integração verdadeira entre os teóricos e os viventes que fazem a esmagadora maioria da população. Já existem focos de comunicação nas periferias, falta o respeito devido, o reconhecimento de que estes são os melhores tradutores pra língua falada pelo povo da base. Com um pouco de humildade, os acadêmicos poderiam aprender com eles - ou reaprender, rendidos que estão à língua restrita de minorias intelectualizadas, verdadeira barreira pro entendimento geral.

Bueno, sem querer alongar demais, eis o filme, precioso pelas informações e denúncias. Taí uma das raízes da nossa pobreza, da exploração em que vive a maioria, da ignorância, da desinformação, da miséria, da violência e da maior parte da criminalidade. O Estado está proibido de investir nas suas obrigações constitucionais pra com os brasileiros todos, seqüestrado como está pelos poderes vampirescos dos bancos internacionais - e de quebra pelas mega-empresas de todos os setores.

Dado importante no filme, que a mídia jamais divulgaria. A Islândia não só suspendeu o pagamento da dívida pública como também prendeu os banqueiros. Ninguém falou nada, no mundo inteiro.


domingo, 31 de agosto de 2014

Importância escondida (Pençá nº5)

Escuto falar que, no dia em que o morro descer pro asfalto - ou a periferia "invadir" o centro, será o caos. Concordo. Mas um caos de violência, de saques, destruições e repressão armada, com gases, fuzis, helicópteros, bombas, choques, espancamentos, prisões, feridos e mortos.

Imagino um caos bem melhor - e revelador - no dia em que o morro não descer pro asfalto - ou a periferia não vier pro centro. Porque aí, nada funciona. Ninguém pra ligar as máquinas, acionar os motores, fazer os transportes; ninguém pra abrir as portas e os portões, ninguém pra trazer a comida, nem pra fazer, nem pra servir. Ninguém pra limpar, nem pra tirar o lixo, arrumar as prateleiras e as coisas, ninguém pra atender, pra fazer as entregas, ninguém nas portarias. Nem secretários, nem acensoristas, nem operários, nem serventes, nem balconistas, nenhum engraxate, ninguém nas recepções. Ninguém pra carregar os doentes e feridos, ninguém pra cuidar.

Aí, sim, se perceberia a classe de pessoas mais indispensável de toda a sociedade. E se veria sua real importância na coletividade.

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As pessoas que têm os seus direitos respeitados, acesso à instrução, à informação, à moradia decente, a esporte e lazer, à boa alimentação e saúde, e que reconhecem a injustiça social com a imensa maioria roubada em seus direitos, muitas vezes se penalizam e desejam fazer alguma coisa pra "ajudar os mais pobres". A esses eu digo - os mais pobres precisam é de respeito. Que a sociedade respeite seus direitos e invista realmente nas obrigações do Estado com sua população em primeiríssimo lugar e o desenvolvimento será acelerado grandemente, pra todo mundo, sem miséria a nos constranger a todos. A capacidade de superação da miséria e da ignorância existe, tá na cara, conhecimentos, produção, grana, tudo existe pra mudar essa realidade. Menos consciência.

Que se perceba o trabalho intenso, extenso e profundo no sentido de criar ignorância e alienação, pra favorecer um punhado em prejuízo de todos. Instrução, informação e consciência espalhados são tudo o que "deve ser evitado".

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Bagé e Porto Alegre

Amanhã vou a Bagé pra VI Semana Acadêmica de Letras: Sons e Palavras são Navalhas. Amanhã, não, hoje. Ainda preciso dormir e acordar daqui a quatro horas, pegar um avião pra Guarulhos, depois pra Porto Alegre, um carro até Bagé, palestra, boteco prometido na seqüência, manhã de sábado pra Porto de carro, exposição na Lima e Silva à noite no sábado, à tarde e noite do domingo, volto segunda pra casa.

Adicionar legenda



Essa ida ao Rio Grande do Sul vai ser uma rapidinha. Tá tudo muito corrido. Quem quiser desenhos, apareça. Não levo livros, a editora tá fechando e faltam ainda trinta livros, mas não recebi ainda. Levo só desenhos, mesmo. Levo idéias, também. Os que quiserem desenhos, agora é a hora. Tô sempre precisando vender... vivo disso. E de mais nada.

Devo encontrar muitos amigos, pena que é tão pouco tempo.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Alerta, Minas, alerta, Belorizonte. Mas alerta, Brasil inteiro. Desmascara-se o sistema, no dia a dia, de toda forma.

Estado anuncia despejo das Ocupações do Isidoro

Recebo isso como quem recebe um tapa na cara. Um tapa dado por esse Estado cooptado por interesses empresariais e descaradamente contra seu povo, especialmente sua parte mais frágil, mais desatendida, vítima desse mesmo Estado que descumpre sua própria constituição nos quesitos básicos, alimentação, moradia, educação que mereça o nome, atendimento médico de qualidade, transporte sem tortura, outros tantos.

Oito mil famílias, um novo Pinheirinho se anuncia. Estado criminoso, as instituições públicas viradas contra o público, o povo. Descara-se a ditadura empresarial, o que chamamos governo é mera gerência, pronta a atacar a população em nome de interesses empresariais.

Só a manifestação geral é que põe um freio nessas ações. São muitas famílias, é preciso que as pessoas se manifestem, falem no assunto, pressionem os poderes de fachada que, ainda que sejam de fachada - e por isso mesmo - se borram de medo de manifestações, de multidões se pronunciando, fazendo ouvir sua vontade, se comunicando e se solidarizando.

Nesse caso, solidariedade é a palavra e o sentimento chave. Vamo nessa, moçada. Sobretudo os mineiros, sobretudo os de belorizonte, mas vale pra todo mundo, pro Brasil inteiro, que a força que nos ataca é a mesma em todo o país. Só muda o sotaque, as expressões, os costumes, mas o arroxo é o mesmo, com a mesma origem e da mesma forma. Vale pro mundo, que essa forma social se impõe no planeta.

Quem de Beagá puder fechar com eles, tão precisando e agora é a hora.

domingo, 27 de julho de 2014

Entrevista à tv Gambiarra

Eu tava nas Brigadas Populares, em Belzonte, ele me ligou. Queria gravar uma entrevista, minhas opiniões sobre a copa. Tá, vamo lá. Era o Fernando da tv Gambiarra, canal na net, nos encontramos no fim da tarde, fomos presse boteco de esquina, próximo à praça grande de Santa Teresa, não lembro o nome agora. A interferência veio a calhar. O miserável catador de latinhas, como um representante dos sabotados sociais, que não tinha como chegar em casa sem levar o que comer, tomou o centro da história e encheu de sentimento, mexeu com a alma. A alegria por um pacote de feijão... A presença dele acrescentou muito, me pergunto o que o trouxe até ali. Acaso, coincidência? Sinto que aí tem coisa, mas não permito à minha razão o atrevimento de entender, de explicar, de se meter onde não é capaz. À razão é permitido criar hipóteses, em equilíbrio com a intuição, sem a pretensão de chegar a conclusões. Fora disso acaba caindo no ridículo.


Algumas cervejas depois o papo já rolava pro lado do desenvolvimento pessoal como base pro desenvolvimento coletivo. Não consegui colocar aqui, fica repetindo o mesmo vídeo e não entra o seguinte. Então publico primeiro o segundo, depois este, que é o primeiro. Estéticamente fica melhor.



Tv Gambiarra - 2ª parte - Realidade, sentimento e a falsa inferioridade dos pobres

Esta é a raspa do tacho, o final de um papo que começa no vídeo da próxima postagem.

O cara da TV Gambiarra é o Fernando Fonseca, grande cara.

sábado, 26 de julho de 2014

Assistindo um jogo em Mauá


No primeiro jogo, Brasil e Croácia, desci da casa de Brisa pra expor os desenhos e, depois de armar a exposição, comecei a observar os preparativos. Os poucos bares em verdeamarelo, fitas, bandeiras e bandeirinhas, decorações nas paredes e tetos, bastante gente, camisas amarelas da seleção, com a marca da cbf, uma empresa privada denunciada por incontáveis falcatruas. Resolvi subir até o Pretinho, ninguém ia ver desenhos por enquanto. Fui passando e olhando a expectativa, as expansões de euforia, as expressões, os gritos, apitos, vuvuzelas, poucas mas barulhentas, achando tudo muito idiota e ao mesmo tempo me sentindo arrogante com esse pensamento. Cheguei lá, peguei uma cerveja e sentei em frente. Havia uma televisão em cima do telhado do bar, na parede do segundo andar. Resolvi escrever o que viesse na cabeça, abri o caderno, ponhei a caneta do lado e comecei a apreciar os acontecimentos. O tempo andou e achei que o texto ficou velho pro momento, ia deixando pra um dia mais longe, talvez, mas uns amigos leram em Beagá e acharam que teria proveito publicar. Bueno, taí.
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Catarse coletiva, produzida e conduzida, gera lucros gigantes.
À custa de muito sofrimento da população mais pobre, maioria.

Assim vi o jogo...
Eduardo Marinho

Fui andando por Maringá, do muro onde exponho até o Pretinho. Ele colocou uma televisão no alto da parede acima do bar, no outro lado da rua construiu umas mesas anos atrás e deu uma garibada, cadeiras e bancos, improvisando uma minúscula pracinha. Sentei ali, peguei uma cerveja e abri o caderno.

Pelo caminho vinha observando. Camisas amarelas, muitas, os poucos bares lotados, fitas verdeamarelas penduradas, bandeirinhas, falas entusiasmadas, bonés e expectativas, tudo soa falso. Não hostilizo, não tenho nenhum sentimento de condenação, de reprovação, de repulsa, observo com respeito, um pouco de tristeza, só um pouco. Não é novidade. Falar em direito à alienação seria forçar a barra, mas não me dou o direito de julgar, não tenho. É preciso reconhecer a eficácia do trabalho de distorção, de alienação, feito por exércitos de marqueteiros, publicitários, animadores, comentaristas e todo o aparato midiático. Transformam um evento criminoso, que tem no Estado seu principal cúmplice e apoiador, numa festa de cores, sons e emoções, de entusiasmo e estupidez, de consumo e lucros gigantes pros patrocinadores e empresas agregadas. Tranformam tragédias em alegria - só podia ficar falso.

"De arrepiar", "momento histórico", "emoção à flor da pele", disparam a cada momento os chamados jornalistas esportivos. Ridículo, infantil, primário. Momento histórico foi o encontro de comunicadores periféricos, meses atrás na Rocinha. Fala-se em emoção, em alegria, e não se lembra que duzentos e cinqüenta mil famílias (duzentos e cinqüenta MIL famílias) foram expulsas das suas casas em nome da copa pra favorecer a especulação imobiliária, construtoras e outras empresas, além de "varrer" a pobreza que a sociedade produz pra longe dos olhos abastados, a tal "limpeza social", tão repulsiva quanto vergonhosa. "Dia de festa", grita o apresentador na televisão, inúmeras vezes. "Momento histórico" também é repetido à exaustão - pobres historiadores, pobre história.

Cenas coloridas, limpas, nítidas, muitas câmeras em todos os ângulos, alta tecnologia. Torcidas uniformizadas cantando e pulando sem parar. "Festa na arena esportiva!"

"Vem aí o Brasil!" E entra a seleção dos milionários do futebol, porta-bandeiras das multinacionais. Uma copa de mentiras e perversidades sem conta nos seus bastidores, sob o silêncio criminoso da mídia. O jogador famoso, agora comentarista, carrega o filho nos braços e diz que está "feliz e contente". Um paraplégico chuta a bola, amparado por um equipamento de última geração, do qual a população não vai sentir nem o cheiro. A televisão repete o chute chôcho vezes sem conta. Os comentaristas falam sem parar, não podem parar, fofocam, falam merda em cima de merda, incansáveis. Da responsabilidade dos jogadores com seus países - não se fala em patrocinadores -, de "união dos povos"- coexistência de torcidas no mesmo espaço geográfico, nada além disso, obviamente, "momento especial", "significativo", "simbólico", a fanfarra não tem limites.

Rolam os hinos. Olhos fechados, mãos nos corações, parecem acreditar nessa presepada toda. São muito bem pagos pra isso, embora a ilusão acabe nos contratos. O hino brasileiro é interrompido na primeira parte, regras da fifa, é muito grande. Mas a população canta a segunda parte por conta própria, os jogadores acompanham. Lágrimas, comoção, locutores embargados, "é muita emoção!"

Dada a partida, foguetório, gritaria, cachorros se escondem, apavorados, ovos goram nos ninhos, nos galinheiros, com as explosões. "O Brasil fica com a posse da bola!" e o país que eu conheço não possui nem a si mesmo. Publicidade explícita, implícita, subliminar, insinuada, a psicologia como crime contra a humanidade. Em inglês, croata, português. Nas imagens e à minha volta, olhares hipnotizados. Incômodo suave, nada novo, apenas um lamento cotidiano.

Gol contra. Simbólico. É o que se faz com o povo, autoridades mancomunadas com empresas, gol contra em cima de gol contra, em nome do lucro de bancos e grandes empresas.

Falta de frente pro gol, o jogador mais caro bate e erra. E o blablablá continua, babaca, falastrão.

Gol do Brasil! Gritaria no povoado, foguetório, pavor canino, tragédia aviária. Melhora a qualidade do jogo. A publicidade, frenética, sacode as marcas onde as câmeras acompanham o jogo. Ao fundo de cada jogada, logotipos dançam, aparecem, piscam, se movimentam, penetram no inconsciente coletivo, em inglês, croata, português...

No intervalo se intensifica o festival de falação de besteiras, a publicidade intensiva e ostensiva, o desrespeito à inteligência. O inimigo mostra a cara deformada pela mídia, bonita e falsa. Noticiam manifestações, sempre "baderneiros" que "obrigam" a polícia a "reagir". Inconformados com a putaria da copa, com a promiscuidade político-empresarial, com a entrega da soberania não existem pra mídia. São todos mal intencionados, no mínimo ingênuos que se deixam levar. Bem intencionada é a copa.

Pênalti no segundo tempo. Neimar beijou a bola. Neimar beijou a bola, repetem os locutores. Gol do Brasil. Quase que o goleiro pega,"o desespero do goleiro" é exibido várias vezes. Gritaria ao longe, poucos fogos, mais uns sustos na fauna local. Dois a um. "Jogo difícil, jogo sofrido" dramatiza o narrador. "Brasil prende a bola", "jogo complicado" diz o idiota, digo, o jornalista mais bem pago do Brasil - e se não for, tá nas cabeças. "Haaaaaja coração!!", grita ele. Haja estômago, digo eu, pouta quel pariu, "não é fácil controlar os nervos nessa altura!"

Gol de novo, chute de bico no sufoco dentro da área. Tres a um pro "Brasil". Gritaria de novo, acho que acabaram os rojões, não pipocou, ainda bem. "Uma vitória sofrida", diz o imbecil. Mais sofrida que a expulsão da própria casa, aos milhares, centenas de milhares? Mais que os feridos, espancados e presos por uma polícia treinada e preparada pra atacar a própria população, violar leis, agredir, machucar pessoas que nada têm a ver com nenhum tipo de crime?

Acaba o jogo, vitória do "Brasil". Não sinto a menor euforia, nem mesmo alegria. Nessa copa, cada vitória, cada jogo já começa com gosto de derrota.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Por fora da medicina comercial - além do controle empresarial.

Postei em 2012, aqui neste blogue, esse precioso documentário. No iutube, a descrição do vídeo passa muito mais informações, inclusive de outros filmes a respeito da terapia e contatos a respeito.



Não dá pra confiar na medicina. As faculdades, o ensino, a prática de rotina, o sistema é totalmente moldado e poucos têm intuição, sensibilidade e personalidade pra exercer a medicina com propriedade, com amor ao ser humano, com respeito e humildade, delicadeza e atenção. A medicina, atividade sagrada - como a do ensino, a da alimentação... - foi invadida e saqueada no que possui de melhor, em nome do lucro, dos interesses empresariais. A esmagadora maioria dos médicos não tem condição de alma pra ser médico, foi dessensibilizado na escola e é embrutecido no sistema público de saúde. Poucos escapam e é preciso reconhecer, são remadores contra a maré.



Impressionante o filme, merece pesquisa, atenção e divulgação.



terça-feira, 24 de junho de 2014

Uruguaiana, Santa Maria, Porto Alegre e desculpas ao Branco

Mês passado estive em Uruguaiana, convidado por Franck Peçanha, fisioterapeuta que dá aulas na Unipampa. Fui recebido pelo Patrick no aeroporto de Santa Maria e ele me levou pra jantar na casa dos seus avós. Com um acolhimento de familia, provei do vinho delicioso feito pelo avô - que comentou espantado eu ter bebido dois grandes copos. Prometeu uma garrafa quando eu passasse na volta, mas não acertei o endereço e deixei de trazer aquela delícia pra casa. Dia seguinte partimos pra Uruguaiana e perdi a conta de quanta gente com brilho nos olhos encontrei por lá, a partir do próprio Franck. O frio era de freezer e meus agasalhos cariocas não davam conta. Fomos a Paso de Los Libres, na fronteira argentina, pra comprar um casaco, mas só comprei pra Alice Luz, minha neta que mora no frio da montanha de Visconde de Mauá. Pra mim tava caro. O Franck acabou me dando o melhor casaco que já tive, penalizado com minha situação.

Dali fui a Santa Maria, a palestrar no evento Direito e Política, e conheci outros tantos olhares brilhantes, dessa vez com o paletó e a gravata indefectíveis no meio jurídico. O mundo está sendo revelado aos poucos. A angústia da vida sem sentido que nos forçam a engolir e viver ajuda a recepção de visões mais reais desta sociedade mentirosa que existe em função dos interesses nos lucros por parte de grandes bancos e empresas, ou seja, uma sociedade centrada nos podres de ricos. Que, em sua ganância insaciável, precisam manter a maior parcela da população na miséria, na ignorância, na pobreza, pra poderem explorar os trabalhadores até o talo, em condições precárias e sem reclamação - por medo. E pra isso compraram a política, se infiltraram nas instituições e implantaram a ditadura empresarial disfarçada de democracia, sabotando os serviços públicos, mesmo os constitucionais, e controlando as informações com a mídia privada.

Então fui pra Porto Alegre, passar uns dias e rever os amigos, além de expor na Lima e Silva. O Fabio, meu ex-vizinho em Niterói que está no patamar de irmão, e o Branco de Oliveira, compositor, cantor e botequeiro no Azenha, onde baixei com mochila e tudo, vindo da rodoviária. Entrei e me aproximei do Branco, ocupado com as coisas do caixa. Ele nem tinha me visto quando eu falei "tem pão velho aí, parceiro?" junto dele. Levantou os olhos e deu um grito, "aaaahh, carioca!", surpreso. Me deu aquele abraço apertado e, não contente com isso, tentou beijar minha boca de novo. Escaldado com a experiência anterior, que me deixou enjoado uma semana, consegui virar a cara e ele acertou a bochecha. Ali fiquei até a chegada do Fabio. O papo rolou alcoólico, com vários amigos no bar, até que fui dormir na casa do Fabio.

Seria demais descrever os acontecimentos dos dias que passei em Porto Alegre. Mas registro um vacilo meu. O Branco, na sua afeição superlativa, fez questão de bancar uma noite comigo, Fábio e mais um camarada, Cássio, que apareceu no dia e nos acompanhou na noite. Tomamos todas, jantamos, tomamos mais, abrimos o bar do Branco na madrugada e depois fomos pra casa - o Branco foi pra um cabaré, como ele mesmo diz. No dia seguinte, Fabio me aconselhou a procurar o Branco e dar alguma explicação a ele, pois eu o tinha esculachado a noite toda, a partir de um certo grau alcoólico. Tive dificuldade em me lembrar e ele me ajudou, enquanto eu ia me constrangendo. Saí dali direto pro bar do Branco, mas ele tava fechado. As memórias iam voltando e eu engasgando pra falar com o Branco, pra me desculpar as grosserias. Sem poder descarregar essa angústia, fui pra Redenção e ali, debaixo das árvores, escrevi o que diria, pra aliviar. Depois, antes de ir pra Lima e Silva, passei de novo pelo bar. Tava aberto e eu entrei. Dei de cara com o Branco na porta e ele me olhou sério. Disse que vinha me desculpar, que tinha sido injusto e estava envergonhado. Vi seu rosto relaxar e sorrir, que nada, tudo bem, não tem nada, pega uma cerveja aí. Então li o que escrevi pra ele. Emotivo, ele me abraçou e tentou, de novo, beijar minha boca. Sem conseguir, claro, virei de novo a bochecha. Avisei que publicaria e aí está.

"Porra, Branco vacilei contigo. Tô aqui envergonhado, mas tô aqui pra te dar essa explicação. Tu não merecia a perseguição que eu te fiz ontem à noite. Vi tua cara triste no fim da noite, mas tava por demais bêbado pra enxergar, só enxerguei hoje, lembrando aos poucos. O Fabio me ajudou. Tu, só querendo me agradar, e eu te espancando as idéias. Foi injusto, foi sem noção. Depois de me lembrar, arrependido e com vergonha, refleti procurando os motivos da minha grosseria. E se os motivos não estão em ti, é porque estão em mim. Então refiz o roteiro desde o começo, pra tentar entender.

Tu sabes que não gosto de elogios pra cima de mim, já te disse várias vezes. O Fabio também já te falou, também várias vezes. E tu nem aí. Não cabe aqui explicar de novo as razões, tô só levantando o porquê do meu procedimento - que não é o meu normal, não gosto de ser assim, de maltratar ninguém, de ser grosseiro e muito menos injusto como fui contigo.

Ontem tu tava me exaltando, me presenteando, me homenageando. Eu sempre me incomodo um pouco mas, como já tinha falado várias vezes e não adiantava nada, aceitei como o que não tem jeito. Pra não criar caso, não ser chato, não ficar te cortando, até pra não te magoar. Mas, com o tempo e a cerveja, o freio foi afrouxando, afrouxando... e o controle foi embora. Incomodado com tanta deferência, tanto elogio e homenagem, acho que inconscientemente eu quis te expor um lado bem ruim pra mostrar que não era essas coisas todas, que não merecia tanta exaltação. Não vejo outra hipótese, a meu ver só pode ter sido isso.

Preciso me educar pra não reagir desse jeito. Me estudar melhor pra compreender essa minha aversão e minha capacidade de me irritar. Um problema psicológico, psiquiátrico ou espiritual, sei lá. Rejeitar elogios é uma característica (ou compulsão) minha, mas não quero reagir da forma que usei contigo, não tenho esse direito.

Por sorte - ou azar - tu és pinguço como eu e pode entender. E se pode entender, pode perdoar. É só o que eu preciso. Desculpaí, parceiro."


Galeanas


Essas foram pescadas no livro "De pernas pro ar - a escola do mundo ao avesso", de Eduardo Galeano. Presente do amigo Franck Peçanha, capixaba de Uruguaiana, que além do livro me deu o melhor casaco que eu já tive, ao me ver tiritar no frio de congelador com meus agasalhos cariocas, de papel crepom praquelas temperaturas. Segue o garimpo, ainda que não tenha retirado todas as pedras preciosas que esse livro contém. Não são cópias literais dos escritos, uso muitas palavras minhas - daí não haver tantas aspas.


Em 1960, os 20% mais ricos possuíam trinta vezes mais que os 20% mais pobres. Em 1990 a diferença tinha aumentado pra noventa vezes mais.

Os produtos pra animais de estimação movimentam, por ano, mais dinheiro que toda a produção da Etiópia.

As vendas da Ford e da General Motors somam uma quantia maior que toda a produção da África negra.

Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento econômico declara que "dez pessoas, os dez mais ricos do planeta, têm uma riqueza equivalente à produção total de cinqüenta países. E 447 milionários somam uma fortuna maior que o ganho anual de metade da humanidade."

Nos finais dos anos 90, numa assembléia do Banco Mundial (BM) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) em que se celebrava a boa marcha do controle mundial pelos dois organismos, James Wolfenson, presidente do BM, lançou a advertência: se as coisas continuarem nesse caminho, em trinta anos haverá cinco bilhões de pessoas pobres no mundo "e a desigualdade explodirá, como uma bomba relógio, na cara das próximas gerações". Parece catastrófico mas, se por um lado isso aprisionará a parcela gerencial da humanidade nas correntes do pânico, justificando o aumento do sistema repressivo, por outro se planeja, de várias formas, o extermínio em massa, até a redução dos pobres a níveis "controláveis".

"A delinqüência do poder é a mãe de todas as delinqüências". Chamo a atenção pro fato de que não se deve confundir, como é comum demais, o poder com os governos. Governos são marionetes do poder, meras gerências sob o comando dos interesses empresariais, banqueiros, vampirescos. Democracia é farsa e tem sido assim desde o seu nascedouro - o do cenário, porque democracia nunca existiu por estas plagas.

"São muitos os cidadãos que perdem a opinião por falta de uso".

terça-feira, 17 de junho de 2014

Reação a uma dispensada

Esse texto foi escrito há um tempo, não é a situação em que me encontro agora. Ninguém precisa se solidarizar com meu "sofrimento", porque ele já foi digerido. Publico porque achei que, diante das reações raivosas, magoadas, acusadoras e cobrativas, comuns nos momentos de separação, seria uma fonte de reflexão pra muita gente. A inconformação com a realidade estende e aumenta o sofrimento, em vez de superar - que é o mais necessário nesses momentos. Bons sentimentos permitem enxergar melhor a realidade e as possibilidades que o tempo e a vida apresentam. Maus sentimentos fazem o contrário. Se não for possível ter bons sentimentos nessa hora, pelo menos é preferível a tristeza natural, a dor de uma ferida recém aberta, que a destrutividade. Feridas recentes sabemos que doem por um tempo, mas passam. Serenidade na tristeza é sinal de maturidade espiritual. O tempo é o melhor cicatrizante, a não ser que o rancor, a inconformação, a raiva mantenham a ferida sempre aberta, impedindo a cicatrização. 

Se vemos a vida como uma caminhada, é como se a gente desse uma canelada dessas fortes, que fazem a gente dar uma parada, esfregando o lugar da pancada, e logo andar de novo, pela necessidade do viver, mancando no princípio, enquanto a dor vai passando. Mais na frente, dor passada, estaremos mais atentos, mais sensíveis, mais perceptivos aos sinais que a vida nos dá. Há sinais, vê quem é capaz - e temos muitas capacidades a serem desenvolvidas, se favorecemos os sentimentos. A raiva, a mágoa, o rancor nos cegam a visão sobre a vida e nos prendem a atitudes destrutivas. Seguindo adiante e aceitando os acontecimentos, os fatos, superamos com proveito as situações, nos melhorando por dentro e nos preparando melhor pras coisas que a vida apresenta todo o tempo. 

É preciso tomar a vida com suas alegrias e dores, tirar dela o melhor proveito na construção interna, serenando o espírito pra ter clareza de visão. A revolta e a depressão turvam a visão e impedem as percepções necessárias ao crescimento inevitável - quem se recusa, é empurrado com a dor que se impõe, soberana e implacável, muitas vezes na forma de "inexplicáveis" angústias, outras vezes em atitudes pequenas de forra, tentativas inúteis e nocivas de "devolver" o sofrimento. Primário.

Com calma se pode ter melhor proveito dos percalços no caminho.

Prelúdio de um pé na bunda

Acho que já falamos, né...
Tô me desenrolando de você. Tá difícil, doído, mas se sobrevive, eu acho.
O cara se apavorou quando te viu comigo, ele te conhece, sabe como te tocar, viu que cê tava arrumando um lance sério. Imagino que tenha tocado seus pontos sensíveis, te mexeu, tu tem uma filha com ele, uma ligação forte. "Fiquei mexida", você disse. Sobrei nessa.
Fico pensando se não vai ser tarde quando você perceber que ele é a mesma pessoa que te fez desistir da relação.
Foi muito bom ficar contigo, imaginei que era pro resto da vida. Mas não foi, não era. Dói, pessoa, eu tenho amor por você, queria você comigo e era questão de tempo pra gente colar.
Mas não posso insistir, não posso interferir nessa história que não é minha.
Preciso seguir adiante, não posso ficar me lamentando.
Carrego uma dor comigo e não te responsabilizo por isso.
Vai em frente, linda.
Espero que você se realize.
Que faça tua vida ter sentido.
Admiro você, por sua disposição. Cê é uma guerreira.
Boa sorte, irmãzinha.

Não se preocupe comigo.

Toda dor passa. Tudo passa.

Depois disso, houve ainda uma continuação, à distância, até o primeiro encontro. E aí a relação gorou, por outros motivos. Fora de controle. Coisa da vida, sem ranço nem mágoa.

Continuo lhe desejando o bem, como de resto a todo mundo.


domingo, 15 de junho de 2014

A copa que não se vê - Domínio Público

Não tem como se empolgar com esse evento nefasto. A alienação programada dá seus resultados, a gente vê por aí. Mas nunca vi tanta gente desinteressada na copa do mundo de futebol, descaradamente empresarizada, descaradamente usada pelo interesse no lucro, sempre dos mesmos poucos, sempre com o sacrifício dos mais sacrificados da sociedade. A festança da opulência cobra seu preço pisando nos de baixo.



Já publiquei esse filme, mas não custa insistir, pra quem não viu ainda. Como acreditar que os poderes são públicos? Estamos num Estado seqüestrado pelos poderes econômicos em que o ser humano não é prioridade, mas sim os interesses empresariais - que tratam a vida da maioria como lixo e a miséria como combustível. Não dá pra assumir a alegria de boiada.



Estamos acordando e acordar muda o sentido da vida.



terça-feira, 3 de junho de 2014

Pra não dizer que não falei da copa.

Os que conseguem esquecer fazem a festa. Os que não conseguem estão se conscientizando.

Copa do Mundo, 2014 - A mídia faz a festa sobre as tragédias cotidianas, agora sufocando mais pelo clima festivo. Os mega-empresários aproveitam a ocasião de lucrar a todo custo, indiferentes ao sofrimento causado. Especulação imobiliária, construtoras, indústria do turismo e suas múltiplas facetas, terceirizadas de todo o tipo, o lucro acima das pessoas. O governo mostra sua cara de gerente dos ricos empresários que financiaram as campanhas eleitorais. E põe a polícia militar e civil - estaduais -, a guarda municipal, as forças armadas, todo o aparato público, tudo pressionando os moradores pra que saiam, tudo preparado pra encarar as manifestações "contra a copa". O governo federal, o estadual e o municipal, em franca distorção das suas funções, atacam a população, violam direitos, atacam com fúria usando o "monopólio da violência" , de forma truculenta, ferindo, matando, prendendo, forjando, torturando na defesa de interesses empresariais.  

Eu teria vergonha de me empolgar com essa copa da fifa. Teria vergonha de chamar essa seleção de milionários, atletas bancados por multinacionais, de Brasil. Grandes empresas mundiais se atrelam e tomam o território nacional - há governo nessa porra?- com suas leis determinando, entre tantos absurdos, proibido o comércio informal, num país com 70% de trabalhadores na informalidade. Agora, com a má repercussão, estão distribuindo alguns uniformes e crachás e dizendo que será uma "informalidade controlada". A violação da soberania continua. Tentaram até proibir o acarajé na Bahia, pra não concorrer com seus hambúrgueres que não apodrecem nunca. 
Teria vergonha de participar dessa festa do egoísmo, da indiferença com o sofrimento permanente de milhões de pessoas, mais de duzentos e cinqüenta mil famílias expulsas das suas casas por conta do pretexto da preparação pra copa. Sou obrigado a assistir a esses gasto de milhões, saber dos lucros de bilhões pro punhado de poderosos. Essa alegria falsa, encenada, o consumo estimulado ao extremo diante da miséria espalhada pela concentração de riquezas, mega-empresas patrocinando e embolsando rios de dinheiro diante da desinstrução planejada e da narcose midiática, implantada meticulosamente na estrutura tanto da sociedade como da mentalidade geral. É uma festa macabra pra quem conhece a realidade além das distorções da mídia. 
Também sinto um pouco de vergonha desses que se consideram revolucionários, mas vestem a camisa amarela da CBF, uma empresa privada de criminoso histórico, e torcem apaixonadamente pela seleção das multinacionais que se representam com seus patrocinados e se apresentam como "Brasil". Não consigo esquecer nada disso, mesmo no caso de estar no bar e assistir na televisão. Gosto de futebol, mas não me empolgo, não torço além de ver gols, dos dois lados - prefiro do lado brasileiro, claro, não estou isento dos condicionamentos, mas admiro qualquer gol, ou quase. 
Os torcedores apaixonados que se julgam politizados acabam mostrando que são revolucionários de superfície que não enxergam sua própria superficialidade, não vêem em si mesmos a reprodução dos condicionamentos impostos pelo sistema dominante e os praticam no seu dia a dia, não só no "futebol espetáculo". A própria entrega do sentimento, a empolgação esquecida que o evento foi razão e pretexto pra tantos crimes, demonstra a fragilidade revolucionária. Há uma dificuldade imensa em se olhar pra dentro, com sinceridade pra reconhecer os erros, profundidade pra perceber as raízes e humildade pra trabalhar nelas e se reformular constantemente. Se a revolução não começar dentro de si mesmo, não é revolução, mas simulação, casca sem conteúdo. Da construção interna e individual é mais fácil trabalhar na coletividade, mais fluido, mais sereno e produtivo.
Seria simplista dizer que sou contra a copa. Sou evidentemente contra tudo o que a ganância dos poderosos fez com a população sob o pretexto da copa. Mas essa porra é um fato e eu não vejo porque ficar brigando com todo o alienado que agora tá envolvido pela televisão. É um sentimento estranho conviver com isso tudo, mas à minha volta há vítimas, não idiotas, mentalidades produzidas em laboratórios de psicologia do inconsciente, de publicidade e márquetim, implantadas no inconsciente coletivo pela mídia, diariamente, diuturnamente. Confraternizo, opino diplomaticamente, mas sem falsidade, de forma que as pessoas se constrangem um pouco e não voltam a me pedir opinião. Algumas sim, poucas, e ficam sabendo o que penso, delicadamente e com respeito, pra ninguém se sentir acusado. Acaba havendo um constrangimento respeitoso e se muda de assunto. Geralmente.
Os responsáveis por isso não põem a cara na rua, não andam por aí. Passam de helicóptero, dentro de carros blindados e com escolta, têm bancos e empresas gigantes, compram políticos e mandam na "política". Que deixou de ser política há muito tempo, se é que algum dia foi, pra ser uma farsa descarada, a serviço dos interesses de poucos e em prejuízo da maioria da população, com o nome fantasia de "democracia". As "instituições democráticas" são cenários onde dançam as marionetes do poder visível, presas pelos fios que somem no alto escuro do poder real, os pouquíssimos mais podres de ricos. O povo, infantilizado, assiste ao espetáculo hipnotizado, os sentimentos, os valores, os comportamentos conduzidos com maestria por cabeças geniais muito bem pagas, na "política", na mídia, na economia e em todos os setores. Nessa alegria se constrói a desgraça coletiva, inclusive da esmagadora maioria dos alegres, dos apaixonados do "futebol'. Mas sobretudo e perversamente sobre os de baixo, os sabotados da sociedade.
As seleções foram compradas e já não representam os países dos quais ostentam os nomes, mas as empresas patrocinadoras, multinacionais que se insinuam nas marcas expostas estrategicamente nos subliminares e descaradamente em toda parte. Com a cumplicidade do Estado e das "instituições democráticas", a narcose midiática consumista come solta em meio à ostentação do evento e a alienação dos torcedores..
Sociedadezinha de merda. Não dá pra partilhar dos seus valores.

Eduardo Marinho 

                                                                                                       

Entrevista no Frio - pra Larissa, da Ocupação Saraí, Porto Alegre.

Ela chegou pra conversar e trouxe uma câmera dentro da mochila. Depois de bastante papo, ela perguntou se eu me importava de dar uma entrevista. É engraçado. Não vejo nada demais no que falo, acho tudo muito na cara, descarado até, mas vejo um efeito nas pessoas que me fazem sentir como uma obrigação em falar, em responder, opinar, mostrar meus pontos de vista. Uma obrigação moral pra com a família humana - pra mim, a humanidade é uma familia que ainda não se deu conta disso. E vivem mais em paz os que já perceberam, pelo menos em paz consigo mesmos. Faltou uma partezinha da gravação, em que dou um papo pro governador - a Ocupação Saraí tá no direito, o histórico do local é claro, falta apenas uma assinatura dele pra desapropriar a área. Eu não soube colocar o outro vídeo na mesma postagem e não vale a pena outra, são alguns segundos dedicados a pedir pro gerente, digo, governador do RS, que assine logo a desapropriação do prédio há tantos anos abandonado e que nunca pagou impostos, conforme eu soube.

Larissa, olhar lúcido de busca, inconformada como é preciso pra ter algum sentido na vida, tem sensibilidade humana, poder de captação e inteligência aguda. Responsa. Pelo menos me pareceu assim, em pouco mais de uma hora de conversa.







domingo, 1 de junho de 2014

Okilombo recebe Eduardo Marinho

Chamado por Raphael Galvano, esse foi um papo, não uma palestra, em que as pessoas deram o rumo dos assuntos. Ficou rica a conversa e é preciso algum esforço pra ouvir as perguntas e intervenções porque só haviam dois microfones, um comigo e outro na câmera. Mas dá pra ouvir, aumentando o volume quando não sou eu quem fala.

Encontrar pessoas reflexivas é sempre um privilégio, um alimento pra seguir na lida. A evolução das coisas e a evolução pessoal caminham juntas. É o caso do Raphael e de toda essa turma que compareceu ao encontro.

A sensação de impotência prevalece entre as pessoas que desejam mudança no mundo mas não se dispõem a mudar internamente, a construir seus valores em vez de exercer os valores impostos, a escolher seus comportamentos em vez de seguir os comportamentos induzidos, a refazer objetivos de vida, a reformular a visão do mundo distorcida pela mídia e seu jornalismo desonesto. Os acomodados caminham em direção à frustração, à mediocridade, à vida sem sentido, vazia e angustiante. Os laboratórios agradecem - dá-lhe rivotril, lexotan e outras porcarias anti-depressivas. O medo plantado pela mídia, pela cultura do consumo, da forma sem conteúdo, paralisa. Mas não se tem medo de uma vida sem sentido, de chegar na velhice com a sensação de ter vivido em vão. Quando se percebe, é tarde e não tem volta. Melhor perceber antes. Foi esse o medo que me moveu as buscas, pra viver daquele jeito, eu preferiria não viver, como disse com 19 anos. Fui buscar um sentido pra vida e dizia que ou iria encontrar ou iria morrer procurando, porque a vida que se apresentava na minha frente não fazia, pra mim, o menor sentido.

Ganhei sentido quando percebi que meu trabalho produzia reflexões, atraía e revelava pessoas sensíveis e pensantes. Individualmente, vendendo nas mesas dos bares, nas ruas e praças onde expunha, sem ambições maiores. Já estava satisfeito com esse efeito, quando apareceu a primeira câmera pra gravar minha visão de mundo e a coisa se ampliou. E eu comecei a entender porque não morri cedo, como tinha certeza que aconteceria quando peguei a estrada, mochilinha murcha nas costas, procurando a razão da existência nesta nossa sociedade tão injusta, tão perversa, tão covarde com a maioria da nossa família humana.



PARTE 1 - https://www.youtube.com/watch?v=SvXj7fMIZI0
PARTE 2 - https://www.youtube.com/watch?v=5wR_99DWM5U
PARTE 3 - https://www.youtube.com/watch?v=vkEIIiyISZ4
PARTE 4 - https://www.youtube.com/watch?v=pPsWOqdaIEc
PARTE 5 - https://www.youtube.com/watch?v=XGxRJSEaoXA

sábado, 31 de maio de 2014

Palestra na FIERGS - há mais de ano...

Cheguei do Rio Grande do Sul ontem, ou anteontem, pelo horário. Encontrei lá a rapaziada que produziu esse evento, há mais de ano. Na FIERGS, federação das indústrias do Rio Grande do Sul. Um evento de Jovens Empreendedores. Encontrei na rua onde exponho, a Lima e Silva. Hoje recebi a notícia dessa publicação e reproduzo aqui. Espero que dê bom proveito, apesar de não ter nenhuma novidade no que falo.



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Documentário importante, "o veneno está na mesa", do Silvio Tendler.

A primeira parte está fácil de encontrar no youtube. Esta achei mais visceral, toca mais no que me toca, mostra a crueldade do que nos é mostrado como bom, pela mídia, pela publicidade. O Brasil tem 5% das terras agricultáveis no planeta e consome 20% dos venenos agrícolas. Os índices de doenças por conseqüência não só do consumo, mas principalmente pelo plantio - "90% das aplicações vão pro solo, pra água e pro ar, só 10% vão pras plantas a que se destinam" -, são escondidos, espalhados, difíceis de achar. Não há dados estatísticos ligando o câncer ou qualquer doença aos agrotóxicos.

É preciso ver esse filme com caderno e caneta, muitos são os dados interessantes, escandalosos, escondidos pela mídia e pelas instituições - dominadas pelos interesses empresariais do agronegócio.

Silvio Tendler é uma preciosidade do cinema brasileiro, por seu engajamento nas lutas por um país melhor pro seu povo, menos subalterno a interesses mega-empresariais e financeiros. Um guerreiro da luz, veio pra turma das exceções preciosas no serviço de esclarecer, acender luzes, nas trevas criadas em benefício de tão poucos e em prejuízo de tantos.

Vale copiar, carregar num pendraive, por em dvd, divulgar o mais possível.



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Dia dos trabalhadores

Republico esse texto, na falta de coisa melhor...            


A luta dos explorados é todo dia. Dos espoliados, dos mal servidos, dos sabotados, dos excluídos. Uma luta não só deles, e sim de todos que se pretendem participantes da coletividade humana. Mas precisa começar dentro de si mesmo, em cada um, e daí para a coletividade. Não de fora pra dentro, nem de cima pra baixo. De dentro para fora o trabalho ganha força, raiz, nutrição e substância.












No princípio era o caos. As fábricas eram escuras, úmidas, fechadas, barulhentas, cheias de fumaças, poeiras e resíduos venenosos. As engrenagens eram toscas, enormes, perigosas, qualquer descuido e moíam dedos, mãos, pés, braços, às vezes corpos inteiros eram esmagados entre rodas dentadas, correias de transmissão, rolos compressores. Era o princípio da chamada revolução industrial.

Os operários eram camponeses ou descendentes de camponeses expulsos dos campos pelas milícias da época, a serviço dos poderosos que tomavam terras para a criação de ovelhas e as plantações de algodão. A nascente indústria de tecidos na Inglaterra precisava de matéria prima para suas máquinas. Sem opção, a população expulsa e sobrevivente dos massacres sofridos pelos que resistiam, formava legiões de sem nada. Eles caminhavam sem rumo até as periferias dos centros urbanos, se aglomerando em situação de miséria e desespero, prontos a aceitar o trabalho insano nas condições terríveis das indústrias, sem nenhum direito.

Diante das multidões em desespero, mão de obra farta, os patrões não se importavam com as condições infernais de trabalho nas suas fábricas. Os mortos eram imediatamente substituídos, da mesma forma que os mutilados - estes eram, simplesmente, atirados à própria sorte, ao amparo dos próximos ou à mendicância.

Com o tempo – e com a força que a resistência ao sofrimento impõe – começaram a surgir organizações entre os trabalhadores. Crianças, velhos, homens e mulheres eram massacrados pelas condições de vida e de trabalho e os patrões, atentos, proibiam qualquer tipo de organização. Sabiam que seriam obstáculos à sua exploração desenfreada. Escolhiam os mais fortes e de pior caráter, para controlar os demais em troca de migalhas um pouco maiores. Capatazes, feitores, chefes, gerentes, cagoetes eram os olhos e ouvidos do patrão, armas e ferramentas de desunião e controle.

As primeiras organizações muitas vezes tinham que ser às escondidas, entre conversas rápidas, sussurros e combinações sob o olhar atento do patrão e seus xisnoves*, em reuniões noturnas e encontros em segredo. A luta foi árdua desde o início, o ódio, a covardia e a perversidade dos privilegiados não teve limites, muitos foram e são os mortos, os banidos, os perseguidos e penalizados por lutarem pelos direitos básicos, para não morrerem de fome, de cansaço, de acidente ou de abandono. São "baderneiros", dizem os patrões.

Num primeiro de maio, na Inglaterra de 1848, entra em vigor a primeira lei limitando o trabalho a dez horas por dia. As manifestações eram reprimidas com fúria pelas forças de segurança, muitas vezes terminando em massacres sangrentos. As bandeiras operárias eram tão freqüentemente banhadas em sangue e, depois, erguidas novamente, que a cor vermelha foi escolhida para simbolizar as lutas por direitos básicos, até hoje não atendidos pela sociedade, pelo Estado, em violação flagrante da sua própria constituição e demonstração clara do predomínio dos interesses empresariais, sobre os direitos da população como um todo. A cor vermelha é o sangue do povo.

Num primeiro de maio foi iniciada a greve geral nos Estados Unidos que resultou no massacre de Chicago, com dezenas de mortos, centenas de feridos, em 1886.

Quatro anos depois operários estavam organizados entre países, na Europa, nos Estados Unidos, na África e na América Latina houve manifestações, greves, barricadas, confrontos com a polícia. 1890. Em 91, o 2º Congresso da organização operária já conhecida como Internacional Socialista decreta o dia 1º de maio o Dia Internacional dos Trabalhadores.

Impotentes para evitar, os patrões se esforçam, todo ano, para transformar a data em comemoração festiva, de celebrações, espetáculos, sorteios e premiações, na clara intenção de distorcer o significado deste dia de luta dos explorados por condições dignas de vida e trabalho. Dia do trabalho é todo dia. O primeiro de maio é o dia dos trabalhadores.

                                                                                                                                 Eduardo Marinho

* xisnove – ou X-9, informante da polícia.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Saindo da Caixa, pensando com a cachola.

Cachola, era assim que se escrevia no meu tempo de menino. Albert Einstein dizia que era muito difícil encontrar uma pessoa que olhasse com os próprios olhos, pensasse com a própria cabeça e sentisse com o próprio coração. Somos condicionados de todas as maneiras e, se olharmos bem, veremos que muitos do nossos valores não são nossos, comportamentos, objetivos de vida... Há programação e pressão neste sentido, no enquadramento, na formação de opiniões, de visões de mundo.

Sair da caixa é sair do enquadramento, descobrir o que queremos de verdade e realizar, partir pra executar.

Quarta desço de Visconde de Mauá pra esse evento. Ô, Dani, não dá pra pagar as passagens, não? Falo isso porque o trem tá brabo.

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https://www.facebook.com/RIDnews?fref=ts

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Já é maio, as palestras estão aí...

https://www.youtube.com/watch?v=AQxtSJ1cAgQ&list=PLhAsEO0e3mhBjgGMvpVLBKhD8smeHjJOu

sexta-feira, 21 de março de 2014

Propaganda, publicidade e márquetim - atividades criminosas

Vito Giannotti possui fontes preciosas. Encontrou os filmes de propaganda anticomunista que foram repetidos à exaustão na preparação da "opinião pública" pro golpe de 1964 e despertando ódio contra o comunismo e os comunistas. Na ainda primitiva televisão, nas rádios, nos jornais, nos cinemas, em cartazes e placas, se fez um massacre publicitário, com orientação da matriz estadunidense. Em suas palestras, começou a utilizar os filmes pra denunciar a força da propaganda, as distorções e mentiras anunciadas como verdades absolutas, o despertar do medo como forma de paralisar. Mas desistiu. O troço é tão insidioso que as pessoas vinham opinar que "de certa forma", algumas coisas eram "verdade", se deixando levar mesmo diante das advertências. A porra é demoníaca.


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"A publicidade é um cadáver que nos sorri."         Oliviero Toscani


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A publicidade, a propaganda, o márquetim têm sido atividades criminosas dentro da sociedade humana. Mentem com extrema eficiência, distorcem a realidade de forma convincente, induzem opiniões, valores e comportamentos nocivos, doentios, que dispersam o pensamento e aprisionam as consciências. E se orgulham disso, quando deviam se envergonhar. O engano se comemora como êxito. A mentira é um sucesso.

O maior e mais profundo trabalho revolucionário está dentro de cada um de nós, condicionados que somos, sem defesa, desde o útero materno, por toda a infância, adolescência, juventude e maturidade, pra quem já chegou nela. Repetimos, sem perceber, condicionamentos do nosso próprio inconsciente, profundamente trabalhados pela psicologia aplicada na criação dos padrões vigentes.

Vivemos com medo e desconfiança, tememos derrotas que o mundo oferece por atacado, almejamos vitórias reservadas a poucos, amargamos a angústia de uma vida sem sentido verdadeiro, perdidos em sentidos artificiais que se impõem sob ameaça velada ou descarada. Alegrias tristes pontuam nossas vidas, superficiais e fugidias, enquanto tristezas abissais nos aguardam a cada silêncio, a cada momento de solidão e pensamento, na forma de angústia e falta de sentido na vida.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Reflexões em ziguezague

Maduro tá metendo os pés pelas mãos, enquanto os conservadores reacionários tentam reverter as mudanças na sociedade venezuelana, as mesmas que foram combatidas com o ódio característico dos privilegiados diante da ameaça aos seus privilégios. Eles não foram revogados diretamente, mas dependem da ignorância geral, da desinformação, do predomínio midiático narcotizando consciências. O acesso a uma educação de qualidade, ao atendimento médico que antes não havia, a visibilidade social antes inexistente, as políticas públicas voltadas a quem de direito, a população, são dinamites colocadas nos alicerces dessa estrutura social baseada na miséria e na exploração da maioria, sequestrado o Estado pelas forças econômicas de banqueiros e mega empresários, com todo o apoio da minoria privilegiada que deve seus privilégios à manutenção das desigualdades imensas sob sua gerência especializada. Daí o ataque furioso às políticas públicas implantadas e em curso, formando novas mentalidades e capacidades, com acesso garantido à população em geral.

Sem a tarimba de Hugo Chávez – que foi uma criança de pés descalços -, Maduro não consegue o grau de comunicação necessário pro entendimento popular - tomara que eu esteja errado. Atacando o “nazi-fascismo” ele fala com acadêmicos e letrados, minoria dentro do povo. Desce daí, Maduro, que não dá pra te ouvir de cima desse pedestal de vidro. Que nazi-fascismo é o caralho, são os ricos querendo retirar os direitos dos pobres, conseguidos a duras penas, sob ataque direto, indireto, enviesado, por cima, por baixo, por trás das elites venezuelanas, contando até com uma tentativa de golpe que passou raspando. Pra mobilizar as massas é preciso falar a língua das massas, é preciso ser um com as massas, é preciso pertencer à população, ter o sentimento do povo acima do conhecimento acadêmico, tão isolado da realidade do chão da sociedade. A elite venezuelana simula uma divisão, oposição “democrática”, dentro da lei, e oposição golpista, claramente hidrofóbica contra o “chavismo”e em relações carnais com interesses de mega-empresas e bancos internacionais, a típica elite local subalterna aos vampiros internacionais que dominam estados inteiros com seu poderio econômico-financeiro-midiático, acostumados a sugar o sangue de populações inteiras. Não é uma ruptura, mas uma divisão em alas. Enquanto uma permanece na legalidade e mantém a imagem, outra tem liberdade de agir criminosamente, simular ataques de falsa bandeira – aqueles que se faz pra culpar o inimigo – sabotar, simular, difamar, enfim, o velho arsenal sujo pra manter as desigualdades, a miséria, a ignorância e a exploração. Tudo com o apoio descarado das forças reacionárias dos anglo-saxônicos estadunidenses, sua grana sem fim e sua tecnologia de ponta. A única vantagem da Venezuela é a falta de inteligência dos conservadores – bem maior que a dos governantes da nação bolivariana, embora estes pareçam ter dificuldades em manter a comunicação próxima, quase íntima, que Hugo Chávez mantinha e que o tornava imbatível diante da histeria vampiresca. Espero que a previsão de Maduro se confirme pra logo, aquela que ele disse durante a comemoração da sua vitória nas eleições, “virão mais Chávez!”.

Black Blocs

Os blequibloques só apareceram no Brasil depois que a polícia atacou barbaramente as manifestações, instigadas pela mídia e por políticos apavorados. Alguém percebeu que as primeiras manifestações que ressoaram no país – e que foram brutalmente reprimidas pelas polícias estaduais - não apresentavam nenhum grupo de "combatentes civis"? Os blequibloques surgiram como uma reação à violência do Estado contra sua população insatisfeita em manifestação contra os desmandos e crimes da sociedade contra sua maioria, sem acesso a direitos básicos constitucionais e cada vez mais espremida por interesses empresariais que tomaram as instituições públicas e as levaram aos crimes contra a humanidade naturalizados no cotidiano. Manifestações pacíficas foram violentamente atacadas pelas forças de segurança, sem nenhum motivo, apesar das alegações posteriores, mentirosas e repetidas na mídia. Eu estava lá e vi, ninguém me contou. Em várias manifestações - as que eu fui e posso falar, além de outras que me contaram -, as bombas partiram da polícia, sem aviso nem motivo compreensível - embora se possa imaginar a estratégia de aterrorizar, criminalizar, caçar bodes expiatórios pra exemplar, forjar flagrantes, espancar, prender, barbarizar. Bombas e tiros foram a constante, no meio ou ao final das manifestações. Como se disse e repetiu por lá, “do nada”. Chegou-se ao requinte de armar emboscadas, postar tropas em locais estratégicos pra atacar as multidões em fuga. Algo repugnante, escandaloso. E agora a mídia (e esses políticos de merda) querem atribuir a violência nas manifestações aos próprios manifestantes, aos grupos de blequibloques, que defenderam os professores do ataque violento e inesperado da polícia - os próprios professores agradeceram em público a eles - isso a mídia jamais divulgaria. Manifestantes pagos, essa é boa... na ditadura se usou o mesmo expediente, apresentava-se uma ou outra declaração de alguém preso – que teria recebido dinheiro pra “se manifestar”- e a mídia fazia o resto, martelando que todos os manifestantes são pagos por forças do mal. Ora, uma olhada nas manifestações e se percebe o ridículo da idéia mentirosa. A gari paraense que, mesmo fugindo das manifestações, morreu por inalação de gás lacrimogêneo; o camelô de 70 anos, na Central do Brasil, atropelado por um ônibus ao fugir das bombas da polícia; o rapaz que passava pela manifestação na Paulista e nem participava, morto por um tiro das forças de segurança; os caras que caíram do viaduto em belorizonte, fugindo da cavalaria em carga; os mortos, mutilados e feridos vários pela repressão oficial às manifestações de um povo enganado, sabotado, roubado em direitos e patrimônio público, além de explorado até o talo, tudo passa batido e a mídia diz que o vandalismo vem dos manifestantes. Como conter o desprezo?

Não tem medida a estupidez de não enxergar o vandalismo criminoso do Estado no cotidiano da maioria das pessoas. Quem vê seus parentes mais velhos serem tratados com desprezo pela saúde pública, quem convive com a arrogância brutal dos “agentes de segurança pública”, quem precisa usar qualquer serviço público, inclusive os privatizados, como transporte, energia, fornecimento de água e tantos outros, sabe na própria pele que democracia é uma grande mentira. Sabe, mas não sabe que sabe, porque tem roubadas as condições de se instruir – o ensino público não é mais que uma fachada, no fundamental e no médio – e de se informar – a mídia foi construída privada e estendida por todo o território nacional, numa estratégia óbvia de roubar as consciências. No entanto, a intuição sente. E grupos de informação, de comunicação periférica, comunitária, estão se formando, ainda pouco a pouco, mas com uma força contagiante.

Esquerda governista e direita opositora se unem na grita contra os blequibloques. (Sei que há esquerdistas que negam ser o governo de esquerda, mas isso é outra discussão). A direita, com seu ódio irrefreável contra tudo o que ameace a estrutura social, apavorada com a falta de cabeças pra cortar e criando pretextos pra investir mais e mais na repressão (aos movimentos populares de insatisfação) a que foram reduzidas as “forças de segurança pública”. A esquerda, em seu vício intelectual autoritário, rejeita tudo o que não pode ou consegue controlar, na sua velha ilusão de “conduzir as massas”, em seu velho cacoete de dominar – e, sobretudo, sobrepor a teoria à prática. As chamadas esquerdas me parecem velhas, desinformadas, míopes, medíocres, acuadas, repetindo velhos erros e vícios, com o medo das periferias misturado com um sentimento de superioridade imposto nos “cursos superiores”. Não aprenderam os códigos de comunicação dos mais pobres, sua integração afetiva, sua percepção intuitiva e alimentam sentimentos de superioridade falsa, condicionada pelas convenções. Daí não poderem ter o respeito devido às multidões de excluídos, não conseguirem falar a língua da maioria e atribuir a responsabilidade pela incompreensão ao próprio povo. Tampouco conseguirem entender a dinâmica e o procedimento dos blequibloques.


Questionar, não!

A senhora indignada no elevador do Leblon, descendo a lenha nesses políticos petistas safados, nas cotas, na bandalheira das upepês que não deram solução na criminalidade, eu calo mas penso, ora minha senhora, esses são só os bonequinhos da vez, que fazem o que mandam os verdadeiros patrões, os banqueiros e mega empresários que precisam manter o povo nessa ignorância horrorosa, sem direitos constitucionais e tratado debaixo de porrada, esses poucos riquíssimos é que comandam e produzem essa criminalidade toda. Pensei, mas não disse. Quando eu tinha esses arroubos lembro do monte de problemas que arrumei. Uma pacata velhinha de cabelos brancos se transforma em um monstro de garras e dentes afiados, olhos de fogo em ódio pleno, capaz de te devorar num instante, se a porta do elevador não abre a tempo de sair correndo na frente sob os olhares reprovadores na portaria, em ver a doce anciã sendo deixada pra trás por um marmanjo mal educado. Olhando de longe, ninguém diz. Nem de perto – a não ser que se pronunciem umas palavras mágicas... Não se questiona a pobreza e suas causas entre privilegiados, a não ser que se queira barulho e mal estar. Dom Hélder Câmara, bispo, ou arcebispo, não sei, foi quem disse “quando divido meu pão com os mais pobres, me chamam de santo; quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista”. É isso aí – vai pra Cuba! 

Rolezinhos

Os tais rolezinhos são uma homenagem ao deus consumo, em seus templos máximos, os chópins, a confirmação dos valores criados pelos publicitários e marqueteiros pagos pelos reais poderes da sociedade – acima da política, obviamente – e impostos pelas mídias privadas, eletrônicas ou não, pra produzir desejos irrefreáveis de consumo. Pra maioria, consumos impossíveis. Mas o condicionamento cola. O movimento dos rolezinhos estão de acordo com os valores vigentes, a não ser por um detalhe – essa parcela da população tem como destino programado a invisibilidade. É essa invisibilidade violada que levantou a reação, seguranças e polícias pra reprimir as vítimas de sempre, os pobres que não se contentavam em ficar nos seus guetos, bem longe dos olhares medrosos das classes mais abastadas –  os “finos”, como diz Leonardo Sakamoto.

Ler nas entrelinhas...

O ano passado deixou montes de lições que percebo difíceis de serem assimiladas com os padrões de pensamento dominantes, mesmo entre os que se pretendem revolucionários. Alguém ligou a renúncia (surpreendente, inesperadíssima) do Serra ao helicóptero de pó dos Perrela, ainda por cima indicando seu desafeto, o Aécio, como o “melhor” candidato? Acho que a deduragem do helicóptero pra sujar o Aécio de pó cutucou um monstro muito maior, o tráfico internacional. Não se entrega uma carga desse tamanho, com a qualidade que tinha, impunemente. O resto é fácil de imaginar, com o resultado que se viu.

  Vi gente boa, que tem na imagem verde-amarela o símbolo do seu amor à raiz, à união nacional, à população e ao território em torno, algo assim, ser acusada de fascista, ser dicriminada como “positivista” e outras idiotices arrogantes de acadêmicos inseguros de si e agarrados às suas linhas ideológicas. Essas pessoas, arrogantes, julgadoras, cobrativas, têm a oportunidade de perceber a distância em que se colocam com esses sentimentos de superioridade, esterilizando a maior parte das possibilidades de desenvolvimento social ou individual que podem produzir. O que o cidadão comum tem, ao vestir a bandeira brasileira, é um bom sentimento, não necessariamente ligado à ideologia dos criadores do símbolo ou a nenhuma outra. 

Levar em conta o pensamento dos pensadores não significa repetir seus erros, muito menos abrir mão de pensar com a própria cabeça e sentir com o próprio coração, ver com os próprios olhos e ouvir “cas própria zurêia”. Peguei antipatia pela palavra fascista, ninguém a conhece fora dos meios acadêmicos, ou talvez em algumas pequenas bolhas anexas. Neguinho não sabe que porra é essa e esse jargão faz tempo  que causa uma certa antipatia e prevenção, trabalho bem feito pela mídia privada pra ridicularizar e esterilizar os modos “revolucionários”, desqualificando o tipo, desacreditando, criando motes e jargões desmoralizantes. E dá-lhe luta de classes, burguesia, paradigma, contra-revolucionário, nazi-facistas, marco regulatório, disputa de hegemonia, lacaios do capital, interesses do capital,... Esses caras fogem da língua brasileira, nem a conhecem e querem esclarecer e conduzir as massas, falando academês. Ora, faça-me o favor...

Repetir expressões revolucionárias seculares, adotar cartilhas ideológicas sem levar em conta a dinâmica das coisas é se bater contra gigantes entranhados no inconsciente coletivo. A rejeição ao linguajar revolucionário está entre eles. É preciso violar essas formas. Agir de outra maneira, criar, acompanhar a comunicação intuitiva da maioria, aprender antes de ensinar, buscar a igualdade, primeiro, internamente. Uma busca permanente. Aprender os códigos de comunicação das periferias e usar no cotidiano é uma necessidade. Tudo o que se diz em academês pode ser dito na língua geral brasileira. Einstein dizia que “se você não consegue expressar qualquer idéia de maneira simples, é porque não entendeu direito”. Repito, cabe aprender, permanentemente. Com mais velhos e com mais novos, com situações e acontecimentos, com vivências e convivências, com letrados e com analfabetos. É preciso distinguir o saber da sabedoria. Todo o cuidado com o saber é pouco, não é à toa que ele está cooptado e controlado nas instituições pra servir a interesses empresariais.O saber facilmente estimula a arrogância. A sabedoria, ao contrário, contém a humildade em si, ou não é sabedoria. Ela vem da vivência, do cotidiano, do dia a dia levado em conta, do sentimento, da intuição. Pro orgulho, a humildade é humilhante. Para a humildade, o orgulho é estúpido.

Sentimento

Considerando que os sentimentos são o fator mais determinante no bem estar da gente, observo a pouca atenção que se dá. Não cuidamos dos sentimentos que permitimos se desenvolverem em nós, quando vemos estamos envolvidos por eles e agindo de acordo. Se o sentimento da raiva (não conheço ninguém que tenha prazer em sentir) é tão desagradável, por que permitimos que ela nasça e cresça dentro de nós com tanta facilidade, destruindo a paz de espírito e o bem estar, além de afetar todo o ambiente onde estamos? Não cuidamos tampouco dos sentimentos que produzimos em torno, nas pessoas com quem estamos em contato. Se cuidamos desse lado, muda a visão de mundo, o sentimento de vida, a percepção do que acontece tanto individual quanto coletivamente.

É preciso mais sentimento e menos razão. Não é que a razão não tenha seu imensurável valor, na análise e compreensão das coisas, no desenvolvimento tecnológico, no conhecimento humano... claro. O que digo é que a razão não pode estar no comando. A razão sem o sentimento, movida por interesses materiais, em poderes e riquezas, pode se tornar facilmente criminosa, pode ser usada na traição da coletividade, conduzindo pensamentos, valores, comportamentos, de forma a escravizar a maioria para privilegiar pequenos grupos. Como se explica a estrutura social em que vivemos? Aqui eu deixo claro que não estou escrevendo pra quem acredita na realidade distorcida que a mídia privada nos enfia güela abaixo da consciência – que é roubada cotidianamente –, esses podem abandonar aqui, se é que já não abandonaram. Um texto da veja deve estar mais a gosto. Um editorial do globo.

Duvido, se o sentimento estivesse acima da razão, que existisse gente abandonada à própria sorte, na miséria das periferias, que existisse a situação de tortura diária nos transportes públicos, essa priorização absurda de interesses empresariais em prejuízo de coletividades inteiras, o ser humano  colocado abaixo do patrimônio, da propriedade, a maioria sem valor diante de uma minoria supervalorizada, mediados pelas classes médias pressionadas. Uma aberração que só a razão pode arrumar explicação, mas que o sentimento nem responde, só balança a cabeça e vê as mentiras e distorções ideológicas pra sustentar o absurdo, a injustiça e a desumanidade. Valorizando o sentimento em nós mesmos, valorizamos os sentimentos do mundo, porque é tudo interligado, como sabem os orientais e os povos originários daqui. A partir de dentro é que podemos participar do processo universal de mudanças que rola, percebendo com os sentimentos e a razão em equilíbrio, a razão para servir ao sentimento de coletividade, a serviço do bem geral. Em última análise, ao ser humano como um todo, colocado no centro da sociedade em relação com todo o ambiente, planetário e cósmico. A realidade que nos toca são as nossas relações, a nossa sociedade e sua estruturação, mutante ao longo do tempo mas sempre encontrando reações violentas dos beneficiados pelas injustiças. Nossa espiritualidade, no momento, é exercida na matéria e nela se desenvolve. Daí ser muito mais importante o que se faz do que o que se pensa ou acredita. Isto se muda de uma hora pra outra. Já o que se faz, uma vez feito, não se pode mudar.

Acredito ser um grande equívoco pensar que rituais e louvações, rezas e orações, doações e oferendas são mais importantes que as ações e reações do dia a dia, dos sentimentos que se têm e causa nos demais, os relacionamentos, a sinceridade, a boa vontade, o respeito. Não posso crer que deuses gostem de puxa-sacos, que precisem de louvações – não seria supor vaidade? – ou oferendas. Respeito, no entanto, e admito a possibilidade de estar errado. Também não quero aqui me arrogar o direito de classificar de certo ou errado atitudes e escolhas alheias. Acredito que certa é a crença que torna uma pessoa melhor, mais tolerante, compreensiva, respeitosa, enfim, mais sábia. Em todas se encontra. Como em todas se encontra hipócritas. Quantos acendedores de insenso, entoadores de mantras e ôhms, em contato com "as energias mais sutis" vi por aí, vestindo sua máscara de superioridade espiritual pelas ruas, isolados em seus medos e preconceitos, julgadores de todos, menos de si mesmos, revelando na prática o que tentam esconder na teoria – há sempre incautos, ingênuos e inseguros pra sustentar a farsa.

Vi um sargento da peeme de Petrópolis ficar indignado com a proibição da maconha, sempre haviam dito a ele que ela provocava instintos destruidores. E ele estava se sentindo mais em paz do que nunca, com um sentimento tão bom que era revoltante tudo o que até então ele pensava que sabia. Era a primeira vez que ele experimentava e se sentiu enganado. Mas só teve a oportunidade dessa experiência, que certamente frutificou nas idéias que ele levou pro seu meio militar, porque foi recebido, na sua primeira abordagem, com consideração e respeito. O que foi se transformando, pouco a pouco, em afeto, em confiança e a oportunidade se apresentou. Com certeza ele não vê mais o usuário como bandido. Mas é preciso paciência com os que se deixam levar pela mídia de que o usuário é o responsável porque “sustenta” o tráfico. Se for terra fértil, é preciso lembrar  que se usam plantas alucinógenas e alteradoras de consciência desde que a humanidade existe, há muitos milhares de anos, pra tirar por baixo. Sempre se usou sem problema, no império era comum se fumar a ganja em qualquer ambiente, sobretudo entre os de baixo, mas não apenas. O tráfico só começou muito depois das proibições. Se há consumo de qualquer coisa que se proíba, se estabelece o “mercado paralelo”, corrompendo instituições e se infiltrando, com o poder econômico avassalador dos donos desse “mercado”. O usuário é o primeiro prejudicado, de inúmeras maneiras fáceis de imaginar, mesmo pra quem não conhece.

Copa

A tal da copa taí, se abeirando. Promete-se barulho. Forças de segurança foram treinadas pra atacar, dissolver, espancar, prender, forjar,... providências jurídico-legislativas foram descaradamente tomadas, leis foram feitas equiparando grupos de manifestantes a quadrilhas formadas para roubar e, eventualmente, matar. Uma aberração que até me formiga a mente quando tento entender. Só má intenção pode explicar, só a certeza da impunidade pra sustentar tal mentira, claramente a serviço de uma entidade privada internacional a quem foi entregue boa parte da soberania nacional sobre o território, sobre as leis vigentes e sobre o que eles puderam querer. Além, claro, de proteger esta estrutura social injusta. Não faço previsão. Vejo “forças políticas” de governo e de oposição se preparando pra “capitalizar” os movimentos. Não vai ter copa tá ressoando no ar. É preciso criatividade, os movimentos parecem previsíveis, bora ver os resultados, as consequências. Não creio na centralização – embora perceba os preparos neste sentido. São os profissionais da cooptação, instalados na política institucional. A mim parece que eles se exporão a vários sustos. Se sentindo experientes, não percebem a tsunami que se forma no horizonte. Surfistas de marolas, de pequenas coletividades, envolvidos em suas ilusões e agarrados em suas cartilhas revolucionárias, não sabem o que os espera... Gostaria de falar com eles, mas não tenho crédito, não tenho referências... e ainda me aplico a dispensar muletas e estimular a dispensa. Que cada um pense com a própria cabeça e trataremos de arrumar convergências. Os revolucionários ortodoxos não gostam disso.

Impérios

A China tá lá, crescendo a olhos vistos, fazendo seus malabarismos pra compor o capitalismo predador que domina o mundo, contra o qual não se pode contrapor diretamente, e o comunismo de origem maoísta dominante. Pra isso contam com a sabedoria milenar das suas dinastias, da sua história escrita que torna a história européia uma historinha. Os títulos da dívida pública estadunidense estão em suas mãos – embora não se possa cobrar, é um bom fator de pressão – e a preocupação das elites já se reflete no recuo dos Estados Unidos nos conflitos do oriente médio, compondo com o Irã, se acertando por vias tortas com a Síria, deixando os interesses imediatos dos israelenses meio de lado e investindo nas manobras com o Vietnã do Sul, seu aliado, com a Coréia do Sul, com a Austrália, como com o Japão, deslocando tropas e armas pra região do Pacífico, ao sul da Ásia e da China, que observa as movimentações com atenção e já se pronunciou a respeito várias vezes, investindo também no seu poderio militar. A Rússia, de olho, também sofre assédio em outras áreas e tem atuação decisiva no equilíbrio do Oriente Médio. É um aliado potencial da China e desequilibra a balança contra os Estados Unidos. Nesse caso, os poderosos já estão prontos pra abandonar o barco. Sua pátria é financeira, qualquer lugar serve.

Clarividência ou viagem?

Na minha percepção, o mundo caminha pra não ter nenhum lugar que lhes sirva. Pegarão naves espaciais e sumirão no Universo? Imagino imensas estações orbitais, com vôos regulares para a superfície do planeta, em busca de suprimentos, com soldados armados e funcionários truculentos, a recolher as produções de áreas cercadas e protegidas, destinadas a abastecer as estações onde toda a tecnologia mundial foi utilizada. Imagino também as filas de cooptações de serviçais, foguetes ônibus a levar as multidões de serviçais pra fazer funcionar tudo. Isso é o que eles pensam. Sem eles aqui, cooperaremos, nos irmanaremos e, com o tempo, ocuparemos as áreas de produção, nos irmanando com os antigos guardas e funcionários que, ao ver a população cooperando, criando áreas independentes de produção, reativando o trabalho artesanal, valorizando as coletividades, vivendo em solidariedade, perceberão o que estão perdendo servindo à mentalidade egoísta dos seus patrões. As filas de candidatos ao trabalho nas estações desaparecem. Os que lá estão são escravizados e disputados entre os antigos privilegiados. Matam-se os que tentam fugir, morrem muitos em rebeliões, os maus tratos se enormizam. O drama vai virar história.

As enormes estações em órbita estarão em pandarecos, sem os servidores para a manutenção, sem os empregados que tornam a vida dos ricos possível. Nada funciona, passa-se sede e fome. Enfim, depauperados, desesperados, desamparados e esfomeados, começam a chegar os próprios privilegiados, descendo das suas ilusões orbitais, pouco a pouco, a pedir comida e água, a sentir o mesmo sofrimento que tanto produziram direta ou indiretamente, mas sempre com indiferença – talvez um lamento longínquo e inócuo. Mas encontrarão a solidariedade que não tiveram, aprenderão a produzir pro seu próprio consumo e a resolver os próprios problemas, porque não haverá mais pobres pra servir, embora existam irmãos prontos a cooperar. Virarão gente, finalmente, e nos assumiremos como a família que sempre fomos.

Bueno, termino com este sonho.



Preciso estar fora por um tempo desse mundo virtual. Não que não vá postar mais, ou nunca mais, é apenas uma redução drástica. Outras áreas me chamam a serviço, tenho andado indolente nelas. Vez por outra devo fazer uma postagem. Abraços a todos.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.