segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Da simpatia à arrogância

Lembro dos pequenos diretórios do partido, ainda nos últimos anos da década de setenta, quando ensaiava viagens de carona, aprendendo a fazer pulseirinhas, mas com uma grana pequena "porém segura" na carteira. Pelos oitenta adentro, já por conta própria, pedinte, "micróbio", depois com crianças, vivendo de artesanato, viajando muito de carona, dormindo sobre papelão, em casas abandonadas ou em construção, em quebradas e cantinhos, sob marquises, quando via uma casinha com a estrela vermelha, um diretório, eu entrava e sempre encontrava um olhar simpático, oi, tudo bem? Os murais interessantes, a receptividade, quer uma água, um café? Papos questionadores como os meus, apontando as injustiças sociais, trabalhos nas comunidades, juntando as pessoas, com um trato afetivo e respeitoso, ainda que sempre insistindo na “filiação” e tendo que ouvir “já sou filiado à minha consciência”. A resposta meio que desconcertava, mas prevalecia o respeito e continuava a sintonia. Víamos o mundo de forma parecida e queríamos as mesmas coisas, justiça, respeito social, investimento pesado em educação, na formação de uma população instruída e consciente de si mesma, com auto-estima e capacidade de raciocínio e percepção, o tal senso crítico.

Os anos foram passando e meu trabalho evoluindo, os pequenos diretórios estavam desaparecendo, mas eu trabalhava entre sindicatos e associações, cheios de gente "de esquerda", onde encontrava pessoas mais reflexivas, mais engajadas em mudanças sociais, mais questionadoras e profundas que a maioria alienada. Esses compravam meu material e eram, digamos assim, o meu público. Tava sempre nas passeatas e manifestações, pintava faixas, fazia cartazes, distribuía geral, por conta própria. Eu olhava as formações coletivas com o olhar de fora – sentia o “de fora” por não ser “filiado” –, como os grupos se subdividiam com discordâncias – e era corrente pra todo lado. Os simpáticos continuavam simpáticos, mas eu percebia uma quantidade de pessoas arrogantes nesses meios. Eram os considerados “direita” pelas pessoas que tratavam comigo, “conservadores”, embora eles mesmos se considerassem elite de esquerda, ou esquerda ideológica, sei lá. O que eu percebia era que se sentiam portadores de verdades inegáveis e qualificados pra conduzir as massas, apesar de não falarem a língua popular, de não se sentirem à vontade entre periféricos, de se isolarem em seus grupos. Entre as correntes eu ia em festas, encontros, assembléias, congressos, muitas vezes expondo na entrada, entre barraquinhas de comidas e de material das entidades envolvidas. As conversas eram sempre boas no meu trabalho, sem problemas, até porque eu não tinha nenhuma corrente de pensamento pra defender. E no trampo, tinha coisas em comum com todo mundo por ali.

De 89 a 92 morei em Minas, por perto de Belorizonte. Eu ainda acompanhava os movimentos sindicais, cada vez menos. Em 89 eu tive encomendas de diversos trabalhos na campanha eleitoral, da CUT e dos sete partidos da coligação. Eu continuava “desfiliado” e com liberdade pra me mover entre eles, ignorando suas diferenças ideológicas. PT, PDT, PCB, PC do B, PSB, PV e PH (partido humanista, nem sei se existe ainda), lembro até hoje. Vi a campanha acontecendo, tinha amigos de diversas “tendências” que me sabiam “de fora” e também que era confiável. Ali eu ouvi e aprendi muitas coisas do que acontece nos bastidores, em mesas de bares de tradição revolucionária. Do meu ponto de vista, os bons estavam perdendo espaço nos cargos de mando, era a DS (democracia socialista) e a Articulação. Naquela eleição, resolvi que não votaria mais. Ainda freqüentei alguns sindicatos em seus eventos, dos professores, dos bancários, dos jornalistas, mas a simpatia não era mais farta. Quando saí de Beagá, já não lembrava mais de procurar eventos sindicais. Parei com esse meio que tava deteriorando.

Várias eleições presidenciais depois, a articulação tinha virado Campo Majoritário e a DS tinha começado a se pulverizar em "correntes" de onde brotariam pouco depois vários partidos “mais à esquerda”, PSol, PSTU, PCO e outros. Aí eu já não procurava mais os sindicatos. Morava na montanha, no meio do mato, vinha pras cidades pra expor e vender, às vezes, e comprar material de trabalho. Numa dessas, em São Paulo, eu passava pela Paranapiacaba, onde encontrava ferramentas, e descia a ladeira do São Bento pra chegar na Casa da Bóia, onde comprava chapas e arames de latão e alpaca. De repente vi o símbolo da CUT, "sede nacional", na porta de um prédio chique, entre logotipos de grandes empresas. Fiquei curioso. Lembrei dos pequenos diretórios lá no passado, senti que veria a continuação daquela antiga disposição de “mudar as coisas” e entrei. Na portaria, roletas, câmeras e seguranças. Pediram meus documentos, apalparam a banca, revistaram o violão, passaram minha mochila num raio X. Fizeram abrir e olharam tudo, viram que os metais eram ferramentas e material de trabalho, me deixaram passar. Eu era um extra-terrestre no prédio, todo mundo becado, arrumado e eu largadão, de mochila, banca e violão pendurados nos ombros. No andar indicado, entrei pela porta com o símbolo, olhei em volta. Paredes de divisórias, um banco pra três pessoas vazio, nada nas paredes, nenhum cartaz, quadro, aviso, nada, ninguém. Num ângulo formado pela divisória, tinha um vidro com um buraco redondo no meio, tipo caixa de bar. Eu estava parado, lembrando dos murais interessantíssimos de outrora, quando uma pessoa veio pegar alguma coisa e me viu pelo vidro. O olhar desceu e subiu a minha figura. “O que que foi?” ”Nada não.” “Cê quer o quê?” Eu fiz um gesto vago, com o braço, “sei lá... queria ver os murais, os cartazes...” Ele fez cara de estranheza, mudou o tom de voz, “murais?” Deu um segundo, fez uma cara brava e levantou o queixo, impaciente. “Cê quer falar com quem?” Dei um silêncio também, caminhei pra perto do vidro, olhando bem nos olhos do sujeito. “Com ninguém não..." abaixei a cabeça até o buraco no vidro, o cara recuou um pouco e eu falei baixinho, com um sorriso triste, "eu já vi o que tinha que ver”. E saí pela porta, sem dizer mais nada. Desci o elevador com um nó na garganta e nojo daquele lugar luxuoso, perfumado, falso e poderoso. Cheguei na rua com sentimento de fim daquele mundo que um dia eu frequentei, únicos lugares institucionais onde ainda encontrava alguma identificação. Fechou o ciclo, acabou, apodreceu. Fui comprar os meus metais e cuidar da minha vida.


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Política é busca de harmonia coletiva, não isso que taí.

Entendo política como busca de harmonia social, mas o que vejo com esse nome é quase o contrário disso, basta comparar a realidade da maioria e a desse grupo que se põe como “representante do povo”. A hipocrisia é uma evidência exposta na realidade. O aparato público se aplica a servir os interesses econômico-financeiros de um punhado e manter a população sob controle, ignorantizada, desinformada, mão de obra barata contida em qualquer manifestação de inconformação, de protesto ou reivindicação, por mais justa que seja, pelos agentes da “segurança pública”, na verdade da repressão geral, sobretudo ao povo mais pobre.

Estou na política há mais de quarenta anos, mas no que entendo por política. Inconformado com as injustiças sociais flagrantes, fiz da observação, absorção, entendimento e intuição da minha realidade social a minha vocação, colocando em meu trabalho artesanal e artísticos, pensamentos, reflexões, críticas, sugestões, ironias, desenhos, símbolos que me pareciam úteis pra estimular o questionamento, a busca de razões, de caminhos, o enxergar da realidade além do que nos é mostrado ou permitido. Minha política é na rua, na atitude, na busca das raízes dos desequilíbrios – sociais, pessoais, profissionais, vivenciais, espirituais. É a busca do entender o que acontece, como acontece e por quê acontece a partir do que se vê e do que se vive. A descoberta do que quero e do que fui pressionado, induzido ou seduzido a querer. Do que vejo em volta e do que era levado a ver. Da escolha dos meus valores e do meu comportamento diante de tudo isso, em vez de ter valores e comportamentos impostos por uma sociedade que deixei de respeitar, social e moralmente.

Por isso mesmo recuso a política partidária, por não ver ali política de verdade, mas simulação, traição, encenação, fingimento, na defesa de interesses econômicos e, sobretudo, financeiros. Aquilo não é a boa política, embora o massacre cultural, midiático, publicitário e ideológico faça a maioria não ver política fora dessa farsa - que produz inclusive o modelo de educação mercadológico e cria mentalidades frágeis, sem capacidade crítica, fácil de se enganar, de se conduzir e formar mentalidades de acordo com aqueles interesses parasitas. Claro que há exceções, pessoas minimamente bem intencionadas, nesse meio. Mas isso por razões estratégicas. É preciso, a bem da encenação, que existam vozes dissonantes, pra manter a imagem, legitimar as instituições – infiltradas e dominadas – e “provar” que essa fraude é uma democracia. São “dons quixotes” lutando contra moinhos – valiosos na exposição das falcatruas institucionais, embora em língua restrita que não chega à massa da população, boicotados e omitidos pela mídia empresarial dominante.

Uma democracia só pode existir, a meu ver, com um povo bem nutrido, bem instruído, conhecedor da sua história, da formação do povo, bem formado e bem informado, capaz de perceber e escolher por conta própria, conhecedor dos seus direitos e dos mecanismos coletivos de controle dos que se dizem seus representantes. Mas a estrutura social é formada minuciosamente pra impedir isso de acontecer. É preciso construir sem contar com o Estado. Ou contando o mínimo possível. Parece que a estrutura pública tem uma peste. E tudo o que toca, é contaminado. A vacina pra essa peste é consciência coletiva. E essa é uma grande conquista individual que chega devagar, aos poucos, vai se formando, na prática do dia a dia, no cotidiano das relações pessoais, na observação da coletividade sem fim que é a humanidade. 

E afinal, no sentimento de infinitas e diferentes humanidades pelo universo afora. Ou adentro.

Pouco a pouco, percebemos. Temos tempo, pra trás e pra frente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Entre empresarismo e humanismo

Esquerda, direita, esquerda, direita,...! Marcha ordinária, batida, em forma, no exército.

Querem definir o pensamento, as opções e escolhas, a visão de mundo como esquerda e direita. Tenho olhado isso das calçadas, há muitos e muitos anos. Antigamente expunha meu trabalho entre sindicalistas, nas assembléias, nos encontros, nas manifestações. Mas eles foram mudando de índole, a receptividade foi diminuindo, a hostilidade e a desconfiança foram aumentando, fui rareando minha presença, pouco a pouco, até perder a vontade de ir e preferir expor nas praças, nas ruas, às vezes marcando ponto, às vezes mudando de lugar em lugar.

De onde eu estava, formava minha visão.

A tal “direita” propõe mentiras descaradas. Meritocracia sem igualdade de condições é uma farsa. Empresas “dão” empregos, não exploram até o talo, não violam direitos trabalhistas, não chantageiam seus funcionários, outra inversão mentirosa. O tal do Estado mínimo só serve aos mais ricos, minoria ínfima da população, mas podre de rica e calçada nas classes favorecidas com direitos e privilégios. Tudo o que propõe a chamada direita é falso.

A tal “esquerda” tem propostas de uma sociedade menos perversa e injusta, mas induzida a um sentimento de superioridade falso, que a deixa cega de arrogância, de certezas e verdades duvidosas. De onde estamos, sob o jugo dos poderes econômico-financeiros, essa gente propõe “organizar os trabalhadores”, se sente “mais preparada” pra cargos de mando, cria coletivos de cima pra baixo, convencida de que trata com “inferiores”, “despreparados”, “ignorantes”, sem lembrar da sabedoria de um dos seus heróis “secundários”, Paulo Freire.

Este sentimento é planejado e estratégico pra afastar as pessoas, esterilizar as iniciativas e impedir qualquer ameaça à estrutura social. Humildade seria fundamental pra perceber a força da sabedoria sabotada, a capacidade da intuição desenvolvida e a resistência aos baques da vida, na superação cotidiana de dificuldades.

Mas esse troço de esquerda, direita, esquerda, direita nunca me desceu direito. Sei que houve um parlamento, num dos países colonizadores da Europa, há séculos atrás, onde se dividiram “o povo” e a nobreza. O povo era representado por comerciantes abastados, minoria no meio do povo, do lado esquerdo, e a nobreza se colocava à direita do parlamento. Isso não existe por aqui e nunca existiu, eu olho pros plenários e não tem esquerda e direita. Eles dizem que é definição ideológica, eu vejo é declaração de colonização cultural. Os colonizadores são foda, eles incutem as mentalidades mesmo dos que se opõem a eles. Não é à toa que a esquerda é toda dividida e gasta uma imensa energia brigando entre as diversas seitas – eles chamam de correntes ideológicas, mas são verdades tão rígidas quanto as das religiões.

Eu tenho um ranço danado de colonialismo – que visa o saque de riquezas, a exploração do povo, a manutenção da miséria, da pobreza e da ignorância, pra facilitar o domínio, e construir a “metrópole desenvolvida, de primeiro mundo” em cima do sofrimento nos territórios colonizados. Não consigo deixar de ver essa colonização mental à minha volta, em toda parte. Em camisas, em letreiros, em nomes de prédios e lojas, nas definições cotidianas, soando “naturalmente”, imperceptivelmente. A gente não vai num centro comercial, vai no “shopping”, por exemplo. E são milhares de exemplos como esse, que passam batido na percepção geral. Se eu me manifestasse a cada sinal de colonização mental, seria um chato insuportável. Mas não posso deixar de perceber, na verdade nem quero. Não vejo conforto na inconsciência.

Vejo da seguinte maneira: estamos num modelo de sociedade que tem no seu centro de importância, interesses econômico-financeiros. Ou seja, um punhado de podres de ricos, que são quem comanda os poderes públicos. Sua fonte de poder e grana é a exploração desenfreada das riquezas nos territórios, do trabalho das populações, mantendo a ignorância, a desinformação, a hierarquização econômica criando abismos desumanos e anti-sociais. A vida humana, animal, o equilíbrio do meio ambiente, a saúde das florestas e populações estão em plano secundário. Esta é uma sociedade empresarista, centrada em – e controlada por – bancos e mega-empresas, dos bastidores do teatro macabro de marionetes chamado de “política partidária”, reduto de máfias criminosas e dons quixotes brigando contra moinhos, danificando aqui e ali, mas sem capacidade de afetar a estrutura.

Os que se dizem de direita, exibem uma arrogância econômica, uma ignorância astronômica, uma agressividade brochante. Os que se dizem de esquerda exibem uma arrogância intelectual, donos da verdade que são, sempre de cima, desrespeitando mesmo que com benevolência os irmãos sabotados pela sociedade.

Não estamos entre direita e esquerda, estamos entre empresarismo e humanismo. O que se pretende é que no centro de importância da sociedade esteja o ser humano, a harmonia social, a formação das pessoas em humanidade, com as prioridades totais na satisfação de todas as necessidades básicas de todas as pessoas. Uma sociedade onde seja inadmissível a existência de miséria, fome e desabrigo. Onde as crianças recebam as melhores condições pra se desenvolverem ao longo da adolescência e da juventude, pra exercer as suas vocações na coletividade. Isso exterminaria a necessidade de presídios, secaria a maior fonte de criminalidade de rua. Todos seriam servidos dos seus direitos, alimentação, moradia, saneamento, educação, formação humana, instrução, informação. E a velhice produziria a sabedoria de que é capaz em benefício da coletividade, com todo o apoio social de que necessitasse, sem exclusão de nenhuma forma.

Digo “seriam”, “produziriam” apenas porque sei que, apesar de trabalhar nessa direção, não será no meu tempo de vida. Porque também sei que será assim, no fundo da alma. Quanto tempo, quantas gerações vai levar, e o que vai ser preciso pra que isso aconteça, não se sabe. Mas olhando pra trás, dá pra fazer projeções pro futuro, com a assessoria da intuição e do sentimento – nossos sintonizadores com dimensões espirituais. E que ninguém me peça pra definir “dimensões espirituais”... eu não me atreveria. Só sei que taí e levo em conta. A consciência ativa traz os recados, as instruções e os silêncios.

Quando a gente tá pronta pra saber, fica sabendo. Antes disso é só pretensão. É preciso ir se desenvolvendo, aumentando as capacidades de percepção e compreensão. E isso se faz no dia a dia, na auto-observação dos pensamentos, sentimentos, desejos, valores e comportamentos. O que se desenvolve internamente logo se estende ao coletivo.

Vivências - mais uma carona

 

Vai pra onde?

Pro norte.

Mas pra qual cidade?

Qualquer uma, a que tiver no caminho, qualquer lugar que tu me deixar, tá bom.

Tu é meio doido, né?

É o que dizem as más línguas.

Rimos os dois.

Vambora lá, gostei de tu.

Então bora.

Era mais um "doido" fazendo "minha cabeça".

Eram muitos papos, vários todo dia, na minha construção.

Muito variados.

E eu olhando tudo, tentando aprender por instinto.

Observando e absorvendo todo o tempo.

Crente de que não durava muito tempo

e tava tudo bem, eu tava vivendo no risco

que a liberdade impõe.

Mas o tempo passou, não morri.

Este ano faço sessenta.

Nunca nem imaginei isso.

Há cinco anos eu, que chegava a pé, chego de kombi.

E a idéia rola, de todo jeito, 

em qualquer lugar em que eu esteja,

porque esse é o trabalho que eu escolhi.

Idéia, reflexão, questionamento, 

ponho no meu trabalho o que vejo, o que penso, o que sinto.

E tô satisfeito com isso.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Depois do fim, o recomeço

 É como tatear no escuro.

Não dá pra confiar nas informações, é preciso peneirar muito e a maioria delas não passa, é distorção. Mas a realidade taí, muita coisa é verdade, apesar do mau caráter da mídia, sorridente e sedutora pra convencer a população das suas mentiras, desde sempre.  É preciso decidir o que fazer, todo o tempo, viver é fazer escolhas. Observo, desconfio, sinto, decido.

A pandemia também taí, inegável, embora pra maioria que vive sob riscos bem mais palpáveis, visíveis e rotineiros, essa é uma ameaça a mais, invisível, impalpável, distante. Uso a máscara, o álcool, mas não nego um aperto de mão a quem estende – se tiver álcool por perto, uso, senão deixo pra lá e esqueço. É na base do sejuquideusquisé. A máscara anda pendurada na orelha, horrível respirar com aquilo. Na direção da kombi, se precisar parar e falar com alguém pela janela, como os frentistas dos postos, coloco direitim, por uma questão de respeito. Pra entrar em estabelecimentos, mercado, correio, sempre de máscara, se tiver álcool na entrada, uso. Sempre bom cuidar dos sentimentos nos ambientes onde estamos, sobretudo quando entramos. Bons cultivos, boas colheitas.

Vamos andando, a vida tem que ser levada. No escuro que seja, tateando mas caminhando, com cuidado, atento. É a sociedade da escuridão, da mentira, do controle subterrâneo. As comunicações não merecem confiança, os governos não merecem confiança, a educação não merece confiança, a medicina não merece confiança, nada que tenha como objetivo final o lucro merece confiança.

É o empresarismo que torna a sociedade desumana, mentirosa, perversa e criminosa. A mentalidade empresarial implantada nos próprios servidores, nos explorados, nos empregados, desde a base e por dentro das suas camadas, impostas pelas conveniências interesseiras e dominadas a partir dos próprios valores, da própria visão de mundo, dos objetivos de vida, dos desejos e das escolhas de cada um, de cada grupo e da coletividade como um todo. A psicologia do inconsciente é fartamente utilizada e regiamente remunerada, no controle mental produzido pelo massacre ideológico da publicidade, do márquetim, do jornalismo empresarial, da cultura de consumo sobre (ou sob) a ignorância implantada pela sabotagem e modelagem da educação, conforme os interesses do “mercado”.

Vampiros sociais sempre existiram, desde que se formaram estruturas coletivas de sociedade humana, é um primitivismo ainda a ser superado. E se depender dessas esquerdas que andam por aí há séculos, manipuladas, induzidas e condicionadas a um sentimento de superioridade pelo próprio sistema social, é uma superação por demais longínqua. A esquerda tampouco merece confiança – e as exceções apenas confirmam a regra. A arrogância e a pretensão são características do atraso e são, também, induções estratégicas pra afastar as pessoas, separar e criar conflitos.

Alguns se verão sem saída, "senão a esquerda, então o quê?" Ara... o destino. O mundo tá envenenado, os resíduos dos descartes se acumulam sem parar, o clima se modificando a olhos vistos, os governantes cada vez mais descarados, a crueldade social criando fome, desabrigo, miséria e as conseqüentes violência e criminalidade, tanto de estado quando na população abandonada, roubada em seus direitos constitucionais, em sua cidadania. O apocalipse – não o da bíblia – tá batendo na porta, aliás, batendo não, arrombando. A desestruturação dos Estados, o apodrecimento das condições de vida, além de muito sofrimento, farão aparecer formas de autonomia e defesa das coletividades, obrigarão à busca da sobrevivência, da harmonia coletiva sem contar com o aparato estatal.

Talvez seja o princípio do que, num futuro de muitas gerações ainda por vir, seria ou será um mundo sem fronteiras – “cercas embandeiradas que separam quintais” -, onde o ser humano e a harmonia coletiva estejam no centro de importância, onde a prioridade sejam as necessidades primárias supridas pra uma vida digna, sem nenhuma exceção. Uma outra estrutura social construída com o foco de atender a todas as necessidades de todas as pessoas, onde a miséria, a fome, o desabrigo, a ignorância e a desinformação sejam inadmissíveis e extintas de todas as maneiras. Condições materiais pra isso já existem há muito tempo.

Estamos no desenvolvimento individual e coletivo das condições morais e mentais, na formação de valores mais apurados, mais humanos, mais sociais, mais amorosos e solidários. A gente ainda caminha no escuro da ignorância, da desinformação, da distorção da realidade, da mentira, da farsa falsamente política. Mas caminha. Tateando no escuro, mas andando.

O tempo não pára de passar, é sempre bom lembrar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O fluxo dos ciclos

























No mato, não tive reflexões. Ao contrário, fiquei na raríssima situação de não pensar em nada, em vários momentos. Tipo o objetivo da meditação. É como se houvesse uma atividade de acomodação mental, mas no inconsciente - a nível consciente era o nada, sem pensamentos além dos instintivos, o cuidado com a inclinação, com alguma cobra ou aranha que estivesse no meio das folhas e caules jogados no chão no dia anterior, pra chegar na terra e aplicar as ferramentas na abertura da trilha. 

A vida já anda longa, pra quem pensou que não passaria dos trinta anos. O tempo impõe as mudanças, o caminho não pára de passar, a mutação é permanente. O garoto de ontem passou pelo adulto e já se torna velho. Acontecimentos a perder de vista, aprendizados no próprio couro, no arriscado da exposição sem proteção. Espero pra saber o que acontece no inconsciente, de onde afloram os resultados na consciência e daí segue pra atividade, pra materialização, a dimensão do aprendizado prático, pro plantio no coletivo, seja da forma que for.

"Agora é nossa vez, somos os mais velhos", pensei no enterro do corpo da minha mãe. E falei com minha irmã. Meu pai já tinha ido em 2003, imagino que estivesse no grupo de recepção dela. Não senti a presença dela no acontecimento como senti a dele. Meu pai estava ali, vendo tudo e todos, no enterro dele - ou melhor, do seu corpo. Minha mãe foi levada dormindo. Não estava ali, não viu nada, só o corpo restava pras pessoas "se despedirem". Um dia vou saber o porquê. Um dia vou entender muita coisa que, por agora, não dá, é preciso aceitar, por inevitável. Há entendimentos acessíveis por fazer e é perda de tempo buscar explicações e entendimento inacessíveis, além do nosso alcance. O que mais precisamos aprender está acessível - mas às vezes é o que não queremos, não nos dispomos, impedidos por orgulho.

Fim de um ciclo, começo de outro. Foi assim desde que me entendo. Só que agora os ciclos são mais amplos, levam mais tempo. E a visão do caminho caminhado percebe nuances, profundidades e ligações antes despercebidas. É a digestão da vida enquanto chegam os sessenta anos nessa existência. Uma atividade cumprida no profundo do ser, na camada subterrânea da alma, no inconsciente - as palavras são precárias nessas definições que escapam à razão no estágio em que estamos.

Seguimos nas idas e vindas entre dimensões, numa caminhada onde temos chegadas, mas não vemos a chegada final. A cada fim corresponde um começo - ou recomeço -, a cada morte corresponde um nascimento. 


Fotos - Maria Clara Gusmão e Eduardo Marinho.



sábado, 15 de agosto de 2020

Um fim de mundo

Tenho ouvido muito "quando passar essa pandemia", "quando tudo voltar ao normal", "passando a quarentena"... sei não. Normal? Voltar a que normal? O medíocre? O desumano? Continuar com miséria, fome, desabrigo, abandono? De um lado uns poucos usufruindo de excessos, luxos e privilégios, de outro uma enorme maioria vivendo entre dificuldades, carências, roubada nos seus direitos básicos, humanos, constitucionais.

Voltar ao normal vai ser a pior coisa, se acontecer. Pra quê, então, morreram tantos de covid? Pra quê se dividiu a sociedade tão brutalmente, famílias que se estranharam, personalidades, mentalidades se revelando, se separando, se setorizando. Não se sabia com quem se tratava, ficou-se sabendo e se estabeleceram divisões.

Os descaramentos vieram de monte, os mecanismos de controle social se mostram às claras, pra quem tem olhos de ver. Os poderes chamados públicos nunca foram públicos, uma farsa institucional foi montada, desenvolvida e é permanentemente atualizada. O interesse de um punhado de podres de ricos se insinua pra dentro das instituições e as dominam, controlam, influenciam e corrompem. A propriedade, a grana, o lucro valem mais, bem mais que a vida humana. Todas as vezes que um governo começa a servir aos desservidos, passa a ser difamado, odiado e, afinal, derrubado.

Nunca vi tão descarada a estrutura da sociedade, perversa, empresarista, desumana, mentirosa, covarde, anti-social, controlada dos subterrâneos, dos bastidores do teatro macabro dos marionetes legislativos, executivos e judiciários. Interesses banqueiro-mega-empresariais prevalecem, são rapidamente atendidos em prejuízo das populações. Os que mandam são servidos primeiro. A força da sociedade, inconsciente, é servida de forma secundária, pra que o sofrimento não chegue a ponto de questionar as mentiras. É o que se pode perceber nos movimentos de fato, nas decisões dos poderes ditos “públicos”.

Não tem volta ao normal, esse normal injusto, anti-social e sem escrúpulos, sensibilidade ou respeito à vida. Há muito mais forças e entidades envolvidas do que se percebe. Isso não pode voltar, confio no "apocalipse", na morte desse mundo - pra poder nascer um outro. O "sacode planetário" tá só começando.

Passando a pandemia começa outra coisa, durante já tá acontecendo várias outras - o derretimento das calotas polares, por exemplo, parece que a do norte já foi, a do sul é um continente, tem muita terra por baixo do gelo e já tá aparecendo em várias partes; o nível do mar continua subindo; vulcões explodindo; avistamentos de extraterrestres relatados como nunca no mundo inteiro. Furacões, ciclones, terremotos, tsunamis, num ritmo característico de mutações intensas.

Outras virão na seqüência, dando continuidade ao fim desse mundo. Depois vem outra coisa, e outra, e outra, até que a estrutura institucional se desacredite, desmorone, fique sem condições de funcionar. E a gente comece a construir outra sociedade, cheia de autonomias, cooperativa, humana, solidária. Que tenha no centro de importância o ser humano,  a sua formação desde a infância, alimentação, abrigo, instrução, preparação, informação, desenvolvimento e integração - individual e, por consequência, coletiva - como parte da natureza, do equilíbrio planetário, de um universo de dimensões ainda desconhecidas.


domingo, 26 de julho de 2020

A opinião da esquerda negra sobre as eleições estadunidenses importa


A opinião da esquerda negra sobre as eleições estadunidenses importa
23 de julho, 2020.