terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

De Carapebus a Regência

















No terraço da casa de Patrícia e Adilson, se vê o mar e a nuance.


As praias cheias, ainda que a cor da água lembre a lama diluída


















Era o final da manhã quando começamos a subir o litoral norte do Espírito Santo. Há trinta anos atrás eu andei por estas praias, época de angústias e dúvidas, de opções e decisões definitivas a respeito da vida e dos seus caminhos. Se reclamava do minério do porto de Tubarão, no ar e na água do mar. No rumo norte, eram longe os povoados, muito mato e espaço até Barra do Riacho. O minério continua no ar, a fuligem preta toma Carapebus. Do terraço da casa que nos abrigou, ao norte da siderúrgica de Tubarão e de Vitória, vimos o mar com leve nuance barrenta, com uma faixa mais densa lá no fundo, a alguns quilômetros da praia. Será a lama da Samarco, imagino, pelas notícias já chega na praia da Costa, em Vila Velha, início do litoral sul. Agora, além do eterno minério, há os resíduos da extração deste minério, metais pesados, cancerígenos, diluídos na água em quantidades impensáveis, desde mil quilômetros, do alto das Minas Gerais e sendo vomitado pela boca do rio Doce, direto no mar antes claro.


Um vago aviso, ignorado pela maioria.


Saímos de Carapebus, pegamos a via litorânea. Não havia mais espaço aberto, tudo construído, o trânsito congestionado. As praias se seguiram, dia de sol quente, cheias de gente, uma atrás da outra, Manguinhos, Jacaraípe, Nova Almeida, ninguém parece dar importância à lama da mineração, ao colapso do rio Doce e seus resíduos sendo despejado no mar, às toneladas, infestando norte e sul da foz, abrindo um leque avermelhado oceano adentro e ao longo dos litorais. Numa sociedade humana que merecesse este nome, o poder público estaria esclarecendo sobre os perigos mortais do contato com esses resíduos, indicando nas praias a contaminação gravíssima, contaminação que leva a gravíssimos problemas de saúde, desde doenças neurológicas até variados cânceres. Mas o poder empresarial fala mais alto que a consciência das chamadas autoridades e dos funcionários qualificados pra mentir sobre a realidade.


Nova Almeida, cada vez mais ao norte, a mesma indiferença.


Perto de Barra do Riacho, em território guarani, encontramos umas barracas com artesanatos indígenas de vários tipos, paramos pra assuntar. Das duas uma: ou aquelas pessoas temem responder perguntas ou não sabiam de nada, nem sobre o bloqueio de ferrovia e rodovias – “aquilo foram os tupiniquins, não nós” -, nem sobre a lama tóxica, nem sobre os motivos que levaram os tupiniquins àquela atitude. Os tupiniquins estavam em Comboios, em sua terra, distante ainda. Seguimos.

Vários congestionamentos pelo caminho, tudo parecia estar normal em seu movimento de verão. Não pude evitar um sentimento de nojo pelas administrações públicas em suas sucessivas omissões – em sua cumplicidade irrestrita com o poder econômico e em prejuízo permanente da população. Ali estavam milhares e milhares de pessoas sem a menor noção do perigo. Um vendedor de picolé me esclareceu que a lama estava passando a 25 quilômetros mar adentro, tinha passado longe dali e chegado em Vitória e na Praia da Costa, em Vila Velha. Ele viu na televisão, não tinha perigo...
Entramos no território tupiniquim de Comboios, já vínhamos em estradas de terra desde Vila do Riacho, deixamos o caminho pra Regência ao passar no marco da terra indígena. Estrada precária, cheia de costelas, íamos devagar quando fomos ultrapassados por um carro pequeno, com cinco jovens indígenas dentro. Buzinaram em saudação, respondi da mesma forma e eles seguiram na frente até sumir de vista. Poucos quilômetros depois, chegamos ao fim da linha. Era um grupo de casas na beira de um rio, todas fechadas, ninguém à vista, e a estrada fazia a volta. Paramos pra pensar e o carro deles apareceu atrás de nós. Estiveram nos observando. Fizemos a volta e paramos do lado deles, pra conversar. Expressão desconfiada, disseram que o cacique tinha viajado e só voltava quarta-feira. Perguntei se era o cacique que tinha virado pastor evangélico, eles falaram entre si e responderam que aquilo fora no ano passado e que o pastor não era mais cacique, tinha outro no lugar. Senti a resistência cultural, cacique convertido, cacique destituído. O campo pra conversa era bem pequeno, a desconfiança vibrava no ar. Imaginei o estrago que aquela conversão fez na comunidade, o cacique pastor deve ter arrebanhado muitas ovelhas antes de ser substituído. Agradeci e fomos embora, destino Regência, só estrada de terra.


Foz do rio Piraqueaçu, que passa nas terras indígenas.


A uns dez quilômetros de Regência eu vi, à esquerda da estrada, um agrupamento de casas e várias bandeiras vermelhas do MST. Olhei melhor e vi as lonas pretas – um acampamento. Paramos. Entramos em contato com os primeiros moradores, próximos ao portão. Expliquei nossa viagem e propósito, eles ofereceram café. Na conversa soubemos do canal aberto pra levar água do rio Doce pra uso industrial da Aracruz Celulose, através da Fíbria, que prepara celulose pra Aracruz, desfaz o eucalipto em massa. Nós havíamos passado em frente, uma indústria grande, imponente, soltando fumaça pelas chaminés modernosas. Nos campos em frente, do outro lado da estrada, o cheiro é forte e dá mal estar, dor de cabeça, trava na garganta. Vimos espaços como grandes pastos, mas cobertos de um material entre branco e cinza, onde o vento levanta uma espuma incompreensível, pois parece areia suja, sólida. Agora os caras nos mostravam o canal, a um quilômetro do acampamento. Construído pela Aracruz pra levar água do rio Doce até a indústria da celulose, azarou a pesca no baixo rio Doce até a foz e produziu peixe farto. Isso trouxe um monte de famílias pobres de pescadores pra viver junto ao canal, ganhando a vida. E assim viviam, apesar das águas já contaminadas mas não mortais ainda e cheias de peixes. Até chegarem os rejeitos da mineração, a lama vermelha da Samarco. Não havia uma barreira na entrada, o rio Doce escorria pra dentro sem obstáculo. O canal é uma linha reta até onde se pode ver, de uns quinze metros de largura por um e meio de profundidade, água translúcida que deixava aparecer marcas avermelhadas na cor da lama. Nos dias em que os rejeitos da mineração chegaram, com seu aspecto grosso e avermelhado, os peixes passavam desesperados, fugindo, entrando pelos pequenos canaletes e afluentes do canal, aos enxames, “dava pra pegar com a mão, aos punhados”, como disseram os moradores do acampamento. E morreram todos os peixes, pois todos os afluentes foram penetrados pela morte da mineração. Durou pouco a vermelhidão do canal, as máquinas da indústria seriam danificadas com os detritos metálicos, em pouco tempo a água clareou, ainda que deixando sua impregnação vermelha de resíduos sólidos no fundo, nas folhas, nos troncos submersos. Então é possível filtrar de algum modo os rejeitos da mineração, desde que haja interesse empresarial, no caso, da Aracruz em manter suas máquinas. Por que não usam o mesmo sistema no rio Doce, ainda que adaptado pro volume muito maior? Certamente pelos custos da operação. Existe como, mas não há interesse e não se divulga. A água ali, embora turva, está translúcida, num enorme contraste com a do rio Doce, que nem água parece. Bueno, não é.


A ponte sobre o canal e a turma do acampamento.
A folha boiava, verde por cima, lama tóxica por baixo.



Uma draga limpa constantemente o canal.

O tronco submerso em água transparente mantém o vermelho.


Entre os moradores, se apresentou um casal, ele claramente indígena, ela branca, de cabelo comprido, sem brincos, no estilo evangélico. Era primo do cacique destituído, aparentemente convertido também. Disse que o cacique estava na região, perguntei se era o pastor e ele disse que sim. Concordou com relutância sobre a substituição do primo e, perguntado, afirmou ter se “esquecido” o nome do novo cacique. Falsidade no ar, fomos embora.
O dia já se despedia quando nos aproximávamos de Regência. Passamos pela base de operações da Tamar, seguimos adiante, paramos ao por do sol. Faltavam poucos quilômetros pro povoado, estacionamos solitários ao lado da estrada e caminhamos meio quilômetro pra chegar no mar. Olhei as marcas da maré cheia, revi as cores que vi em Mariana, em Bento Rodrigues, Camargos, Paracatu de baixo. Estavam ali, em cima da areia da praia. O mar, avermelhado, mas diluído perto da densidade do rio Doce. Claro, estavam misturados rio e mar. Não havia ninguém, a praia vazia, alguns aglomerados de madeiras atirados pelas ondas na areia, talvez também vindas, talvez, lá do alto da serra, de Mariana. O mar cheio de ondas, espalhando aquela espuma com tonalidades do tóxico letal, deu uma sensação de fim de mundo próximo... de um mundo, pro nascimento de outro.


Em Regência, todo mundo investiu no verão, como sempre, temporada de salvação das dívidas, de acumulação pro ano inteiro. Ninguém contava com a morte que viria pelas águas do rio Doce.


A lama veio e foi limpa. Interesses empresariais. Ou limpa a água ou páram as máquinas. "Milagrosamente", as águas foram limpas. Mas não as do rio Doce.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Indo pro litoral norte, depois de expor em Vitória.

A exposição em pleno curso, no oásis Gruta da Onça, centro de Vitória.
Fotos - Maria Clara

Saímos ontem de Vitória, onde fomos bem recebidos num oásis do centro da cidade, o parque Gruta da Onça, casa de Filipe e Patrick, um foco de produção cultural independente e anárquico - até onde vi, sem teorias extemporâneas. Os dois dias de exposição garantiram uma autonomia de viagem de alguns dias. A quantidade de pessoas com olhar brilhante que conheci foi bem grande. A hospitalidade e a cordialidade deram o tom do contato. Gente que pensa por si - ou se dedica a esse trampo - é sempre rara e agradável de encontrar.

             




Juliana, Patrick, Filipe, Eduardo e Clara, na foto da despedida.


Agora seguimos o litoral norte do Espírito Santo, sabendo que esse mar já contém os metais pesados dos resíduos de mineração que saem pela foz do rio Doce, às toneladas, desde novembro, todos os dias e noites, sem parar. A cor da água nas praias não é vermelha, mas se percebe nuances cor de terra diluída, em várias áreas. Há notícias da passagem por Vitória das primeiras diluições desses metais cancerígenos, anunciando o que vem atrás, se alastrando em todas as direções, levado pelas correntes, pelos ventos, em área cada vez maior. O assunto não se fala, as praias estão cheias. No que depender do poder público ou da samarco ou da vale e, claro, da mídia, o silêncio vai prevalecer. Quem quer se informar sobre o assunto tem que buscar outras fontes. E elas não faltam.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Chega de "que país é esse?"!

Acho que devíamos trocar a expressão "que país é esse?", quando nos deparamos com ações aparentemente absurdas dos serviços públicos, por outras como "que Estado é esse?" ou "que sociedade é essa?" ou "isso é serviço público?"
Talvez assim se pudesse perceber que o aparato público de administração do Estado mentirosamente democrático foi seqüestrado por poderes econômicos. E é um punhado de podres de ricos, parasitas sociais, quem manda na porra toda. Construíram uma fachada de democracia e manobram nos bastidores pra manter miséria, pobreza, ignorância, desinformação, exploração e altos lucros em cima do sacrifício de direitos constitucionais da população como um todo.
O país não é feito dessa corja minoritária e seus servidores, somos mais de 200 milhões nesse território chamado Brasil, nós é que somos esse país e esse país não é essa vergonha que o administra. Acordando, percebemos. Percebendo, mudamos de atitude. Mudando de atitude, em sentimento, pensamento e comportamento, muda o mundo.
Os serviços públicos não são uma merda por "descaso" ou "incompetência". A medicina lucrativa - laboratórios farmacêuticos e procedimentos da indústria médica - e os planos de saúde impõem um sistema público deterioriado, incapaz, sem recursos, congestionado. Banqueiros, mega-empresários e mercadores da educação impõem a ignorância, a desinstrução, impedindo investimentos numa educação de qualidade pra todos. A estrutura social precisa de ignorância pra se manter. As comunicações concentradas em mãos empresariais garantem a desinformação, a distorção da realidade, a condução da mentalidade geral e da opinião pública. O transporte ferroviário ficou restrito a cargas por ser barato, acabaram com o transporte de passageiros pelo mesmo motivo, por ser barato. E foi substituído pelo transporte rodoviário, que consome muito mais coisas, entre combustíveis, borrachas e toda uma gama de produtos.
O lucro é mais importante que a vida. As forças de segurança são treinadas pra fazerem exatamente o que fazem. Não há nenhum absurdo nisso, a meu ver, é parte da estratégia de domínio e controle social por esses poucos, que investem nas campanhas políticas e lucram com o patrimônio e os direitos públicos, comandando as políticas públicas em seu benefício, como é de se esperar.E que tá na cara de qualquer um que tenha olhos de ver, estampado à nossa volta, no comportamento dos agentes ditos públicos, no trato das instituições com a população.
Absurdo é perceber isso tudo e não mudar completamente de valores e comportamentos, de desejos e objetivos de vida. Esquecer a idéia de competição e adotar a de cooperação, entender o egoísmo plantado, o confronto induzido, a desqualificação das melhores intenções pela mídia e deixar de ser teleguiado, pois esse teleguiamento nos leva ao vazio, ao engano, à frustração, às falsas vitórias.


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Alguns pensamentos esporádicos que pude anotar nesses dias... achei agora aqui.

Disseram que o mundo era uma arena competitiva, um mundo cruel onde vence o mais forte. Tive medo, tive raiva, competi, perdi, ganhei, comecei a ficar forte e ganhar mais. Até ser natural ganhar. Então percebi a tristeza dos vencidos. Não gostei de produzir este sentimento. Acabou minha alegria. Ganhar incomodou. Que valor tem a alegria da vitória, se ela é construída em cima da tristeza dos vencidos? Não gostei e não quis mais. Mentira. O mundo não é um campo de batalha. E os meus irmãos não são meus inimigos. Não quero a derrota de ninguém, não quero competir. Não preciso vencer na vida, preciso mesmo é viver. E a idéia de vencer, na verdade, me inferniza a vida. Desde aí, nunca mais pretendi vitória nenhuma. E minha vida ganhou paz e fluxo, se mostrou como um manancial de ensinamentos, de aprendizados, de ganhos que se dividem sem diminuir, ao contrário, essa riqueza se multiplica quando é dividida.  
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Como quando se trata com uma pessoa mentirosa, depois que percebi a quantidade de mentiras que a sociedade me conta, deixei de acreditar no que ela me diz. É convenção, desconfio. Vem de instituições, não acredito. Há sempre interesses por trás. Sempre? Não, há exceções. Mas a regra é essa. Que se desenvolva o discernimento pra perceber. Aí há um trabalho interno. Somos prisioneiros cotidianos de valores fabricados e falsos, de comportamentos induzidos, de objetivos que não satisfazem o espírito humano e de uma vida vazia de significado além da forma, da matéria, da superfície.
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A freqüência pessoal determina simpatias e antipatias pela vida, sintoniza pessoas e acontecimentos, influencia sentimentos e situações. Esta freqüência é emanada por cada um, permanentemente, com as variações de momento, mas com a base pessoal, única, formada por temperamento, visão de mundo, caráter, desejos, sentimentos, conceitos, valores, pelo corpo abstrato do ser, de cada indivíduo. Sintonizamos a nossa freqüência e a realidade que vivemos se faz a partir daí. Como disse Einstein, “isso não é filosofia, é física”. (28.12.15)
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Quem pretende vencer, pretende a derrota de outros. Não é um bom desejo pra se abrigar. Assim se estabelece a sintonia da disputa, do confronto, do conflito. Esta é a forma de relação induzida e estimulada por este modelo de sociedade que se alimenta de exploração, angústia, miséria, ignorância, abandono e sofrimento. Uma estrutura social que nos atira uns contra os outros, em busca de vitórias enganosas da forma sem conteúdo, sacrificando a alma em nome do falso vencer pra poucos, da derrota pra muitos e pro inferno pra todos. E que culpa as próprias vítimas.  (28/12/15)
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A sociedade está tão impregnada de valores falsos quanto cada um de nós. Quem quiser pensar em mudanças sociais deve olhar pra dentro de si mesmo, enxergar seus próprios condicionamentos e trabalhar o próprio íntimo, nos padrões impostos pelo incessante massacre escolar, cultural, artístico, comportamental – em todas as áreas da sociedade. As reformas íntimas são fundamentais nas reformas sociais. Sem elas, toda contestação é falha, fraca, carente de verdade. E os contestadores – se dizem “revolucionários” – exercem plenamente os condicionamentos esterilizantes, orgulhos e vaidades, sentimentos de superioridade, compulsão ao confronto, ao conflito, visão superficial, alcance socialmente nulo – como vemos já há séculos. Vivem isolados em seus pequenos grupos, cheios de bandeiras e arrogância, incapazes de falar a língua geral, de se misturar com a população, de servir de informações e conhecimentos que são intencionalmente vetados à maioria. Acreditam que o fato das pessoas não serem acadêmicas as torna “ignorantes”, convenção imposta e esterilizante, desunião estratégica e planejada. Esses “revolucionários” acabam, no final das contas, servindo à fachada de uma falsa democracia, que os aponta como prova de que o sistema é democrático, “eles podem falar assim porque estamos numa democracia” e é uma grossa mentira. Eles podem falar assim porque não têm poder de mobilização, de conscientização, de contaminação. E porque servem ao cenário construído pra enganar o povo, sem nem perceber, acreditando que estão fazendo “a revolução”. Repito, a revolução interna, íntima, é fundamental pra qualquer idéia de revolução social. (28/12/15)
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Quando digo que as instituições estão infiltradas, influenciadas e dominadas pelo poder real sobre a sociedade; que o controle dos poucos podres de ricos está estabelecido e não há caminho institucional pras mudanças necessárias; que o próprio Estado está seqüestrado e voltado contra a população sempre que os interesses econômicos o obrigam; aí alguns perguntam, "então qual é a saída, qual é a solução?"

Não há solução nem saída. O que há é o caminho e caminhamos nele. Podemos escolher como caminhar, mas costumamos caminhar como nos mandam, como nos induzem, como nos condicionam e nos fazem crer que é melhor. Mentiras interesseiras nos conduzem. E, quando nos revoltamos, há modelos de revolta programados. Levamos os condicionamentos à frente, em iludidas lutas por mudanças. Não estamos em tempos de luta, as lutas são programadas pelo sistema pra se manter. Estamos em tempos de serviço, de trabalho, de instrução, de informação, de conscientização. Lutar é uma ancestralidade a ser superada na evolução humana, como tantas outras foram, são e serão, mas o sistema incita a competição, o confronto, a disputa, estimula e atiça ao máximo - pela mídia avassaladora e seu massacre publicitário, pelo modelo de educação enquadrador, pela arte e pela cultura em geral, transformadas em produtos de consumo e celebrismos. O confronto é fácil pro controle do sistema social. O domínio dos parasitas podres de ricos não teme o confronto, o aparato da segurança pública taí pra isso. O que essa corja teme, e treme de pavor e ódio, é a instrução, a informação, a solidariedade, a autonomia, a tomada de consciência, o esclarecimento e a união dos povos. Esse é o trampo, desde muito antes de nascermos e até muito depois de morrermos. É preciso dar sentido à vida e o caminhar é permanente. (5.1.16)


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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Estrutura dominada – a raiz pessoal


A mineradora que infestou de lama tóxica, rejeitos da mineração carregados de metais pesados, toda a maior bacia hidrográfica do sudeste brasileiro, afirma que a lama é inerte e inofensiva, diante de toda destruição de vida que ainda continua matando mar adentro. Os governos fecham escolas públicas, superlotando as unidades restantes e arrasando qualquer possibilidade de ensino que mereça esse nome pra população. Ao mesmo tempo, constroem presídios que, na certeza da superlotação pela ausência de formação profissional, pela criação de mais e mais miséria e exploração da pobreza que aumentam e continuam aumentando a criminalidade, já estão sendo privatizados pra que as prisões em massa, planejadas, gerem lucros empresariais. Não se fala na previsível explosão da criminalidade na região destruída, onde centenas de milhares de família simplesmente perderam suas fontes de sobrevivência e não têm como se manter. É possível crer que ficarão todos conformados com a miséria, com a fome e o abandono? O que me parece é que o evento se encaixa no planejamento carcerário “nacional”. Também não se fala no câncer anunciado pelo contato direto com os metais pesados dos rejeitos da mineração. O Estado e a empresa, com seus laboratórios de análises químicas, dizem que a lama é inerte e inofensiva à saúde, ao contrário de todos os exames independentes que foram feitos indicarem alarmantíssimos índices de contaminação de um monte de metais pesados, que entram pela pele, se alojam em várias partes do corpo e, em alguns anos, aparecem como tumores cancerosos, problemas neurológicos e tantos mais. Os laboratórios farmacêuticos e a indústria da medicina lucrativa esfregam as mãos, sorrindo.

As delegacias de crime contra o patrimônio demonstram que a vida vale bem menos que o patrimônio, se comparadas às delegacias de crimes contra a vida. As ciências exatas são as mais consideradas, as que recebem mais investimentos, em detrimento das ciências sociais, relegadas a um segundo plano de importância na sociedade humana, reduzidas ao plano assistencialista nos âmbitos oficiais. Os sinais estão aí, escritos à nossa volta.

Recebi um comentário falando da situação atual, “decepcionante”. É comum essa reação entre os que se deixavam enganar e vão tomando consciência da realidade ao mesmo tempo em que percebem as mentiras de que foram e são vítimas desde que começaram a pensar. Um pensamento acomodante e amedrontado que senta e lastima. Respondi.

“A situação atual é esclarecedora sobre todas as situações que existiram na história do nosso povo. É preciso enxergar a realidade antes de pensar em mudá-la. Na verdade nascemos em um mundo em constante mutação e a vida é nossa participação no processo. Consciente ou inconscientemente participamos todos da permanente mutação, que vem de sempre e irá adiante depois da saída de cada um de nós. Ninguém vai mudar o mundo, pois este muda independente de qualquer um. O que se pode é escolher como participar do processo e é aí que está a dificuldade. Escolhemos o que queremos ou o que somos levados, induzidos a querer? Sentimos por conta própria? Enxergamos com nossos próprios olhos ou com as lentes impostas por uma educação falsa ou enquadradora, por um massacre midiático-publicitário que usa conhecimentos profundos sobre o psiquismo humano?

Depois, continuei refletindo.

O aparato induzidor da realidade social em que vivemos está enraizado em toda a estrutura social, a partir do inconsciente coletivo, o inconsciente individual de cada um de nós em média, na formação do modo de vida que vemos normalizado, no tipo de relações entre as pessoas, entre nós e o meio em que vivemos. Valores sociais e pessoais, objetivos de vida, desejos cotidianos, comportamentos são criados em laboratórios de pensamento e impostos sedutoramente, impositivamente pela mídia, essencialmente concentrada em mãos empresariais - e comandada por cabeças empresariais, é preciso lembrar. A televisão fala com as pessoas na sua intimidade, especializada em tocar e conduzir sentimentos, visão de mundo, em alienar as mentalidades, em.condicionar comportamentos, em criar valores falsos, em acomodar e paralisar as consciências.

Os políticos são comprados a peso de ouro de acordo com sua importância e influência, em financiamentos de campanha, apoio midiático e facilidades milionárias, leis são feitas de acordo com interesses empresariais, direitos trabalhistas são violados, direitos humanos, básicos, constitucionais são ignorados por um Estado dominado, seqüestrado pelo poder econômico de bancos e mega-empresas. As ações dos poderes públicos são claramente contra a população toda vez que interesses econômicos determinam. Comunidades são expulsas de seus locais de origem, desabrigados perambulam pelas ruas, a miséria e a pobreza criando violência e criminalidade, o desatendimento dos direitos aceito como inevitável, “no caminho do desenvolvimento econômico e tecnológico” e ninguém fala em desenvolvimento moral, humano, social. Aliás, não sei se vão concordar comigo, a palavra “social” muitas vezes é dita entre a ironia, o deboche e o desprezo – sentimentos induzidos. A mesma distorção foi feita com a expressão “direitos humanos”, sinonimizado com “defender bandidos”.

As universidades sofreram um grande expurgo, verdadeira caça, durante a cara militar da ditadura, com o exílio, a prisão, a perseguição, a tortura e a expulsão das melhores cabeças, as mais sensíveis, as mais humanizadas e interessadas no desenvolvimento de uma sociedade justa. Essa dizimação intelectual das academias abriu espaços enormes no quadro de professores dos cursos superiores, faltavam mestres, os melhores. Isso foi “resolvido” estrategicamente, com a formação, pelo Instituto Ford – envolvido no golpe –, de professores universitários, no atacado, com a mentalidade empresarial, cérebros lavados e enxaguados pra atacar o estado e exaltar a qualidade e a eficiência das empresas como modelo ideal de sociedade, senão o único possível. Aos poucos as empresas foram se infiltrando no ensino superior e hoje ditam regras, valores, comportamentos profissionais desumanizados no serviço prioritário do lucro, do ganho pessoal, da competitividade desenfreada, do mundo apresentado como uma arena de guerra onde vencem os melhores e os perdedores merecem as agruras da miséria, da pobreza, da exploração e do abandono, enquanto o luxo e a ostentação nojenta de privilégios se apresenta como sinal de sucesso, de eficiência, demonstração de competência. As ciências sociais são vistas como menores, a pesquisa é exaltada e enaltecida, tendo a parceria e o investimento empresarial – em troca de conhecimentos exclusivos e patentes – enquanto a extensão... bem, quem é universitário e tá inteirado, sabe. O tripé “ensino, pesquisa e extensão” foi desequilibrado em favor dos interesses empresariais. O que inclui a manutenção da ignorância, da desinformação, da alienação, da “educação” enquadradora e condicionante, do consumismo como valor pessoal e social, do inferno pra maioria.

A parada é uma rede complexa, insidiosa, infiltrada desde as instituições públicas, governos, legislaturas, até o íntimo de cada um de nós, pelos condicionamentos do inconsciente, passando pelos detalhes das relações sociais e humanas. Superioridades e inferioridades são implantadas, invisibilidades sociais, competitividades, vaidades, egoísmos são estimulados ao máximo, a restrição da solidariedade é apresentada como única possível. O linguajar acadêmico, o academês, serve de cerca de arame farpado pro conhecimento ficar restrito aos iniciados, ao grupo restrito que será usado na administração da estrutura social, minoria pra comandar e controlar a maioria, com direitos respeitados e privilégios graduais. Com o preço, claro, dos medos inerentes a essa classe, num mundo de pobreza, miséria e conseqüente criminalidade, da queda no padrão, sob pressão de cobranças e ameaças, de angústias e frustrações pessoais, de turbulências espirituais e de consciência, sobretudo pros mais sensíveis, mais honestos e bem intencionados.

Assim, o acadêmico é levado a um sentimento condicionado de superioridade quando, a meu ver, deveria perceber que está tendo acesso a conhecimentos que são negados à grande maioria da população – e é um direito constitucional. Além do mais, a própria universidade depende dessas vítimas pro seu funcionamento, sem o que não teria condições de existir. E as explora socialmente, com salários que não permitem uma vida digna, impondo e se valendo da inferioridade e invisibilidade social ostensiva, no quadro de degradação social em que vivemos. De um lado, a superioridade, do outro a inferioridade, ambos condicionamentos sociais a serem percebidos e superados, tanto individualmente em primeiro lugar, tornando a vida melhor, mais em paz, quanto coletivamente, por conseqüência e nunca antes – quando certamente seria ilusão, como já se provou em sistemas que se pretenderam socialistas. As pretensões acadêmicas de superioridade, de melhor preparo, de direito ao comando, esbarram na realidade. Tudo depende de pobres.

Não se pode comandar, conduzir, ensinar, aqueles de quem se depende. É preciso servir. Dos conhecimentos que são seu direito roubado pelo próprio Estado. Falo de vítimas de crimes sociais, não de necessitados, ignorantes ou inferiores. É preciso aprender com a vivência social dos considerados de baixo, com a sabedoria adquirida na prática cotidiana de uma sociedade que persegue e discrimina, que seduz pro consumo e nega condições econômicas de consumir – um convite ao crime -, que violenta no trabalho, no transporte, no trato com qualquer setor público do estado, seja escola, hospital, qualquer repartição públicas. Se há exceções, apenas confirmam a regra e basta observar pra perceber razões – políticas, econômicas ou cenográficas – pra qualquer uma delas. É preciso servir os conhecimentos acadêmicos e colher os da sabedoria popular – rotineiramente ridicularizada nas academias, em clara estratégia de separação. Socialmente, interessa muito mais misturar esses conhecimentos, retirando os interesses empresariais dos estudos – pois o que não dá lucros, ou os diminui, não interessa, ainda que favoreça às populações, o que tampouco interessa.

Por isso o brasileiro é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo e não há no Estado nenhum apoio à agricultura orgânica, familiar, não há reforma agrária, nem incentivo à produção de alimentos livres de químicas nocivas à saúde humana e ambiental. As indústrias alimentícia, de pesticidas e venenos agrícolas, sobretudo as de trangênicos, com o apoio e a adesão do agronegócio (e da mídia, sempre), impõem o comportamento do poder público e impedem a divulgação da realidade do câncer e tantas outras doenças provocadas pelo agrotóxico em milhões de pessoas, bilhões entre os que plantam e os que comem, de tantas nascentes e mananciais contaminados. A saúde não dá lucro. O que dá lucro é a doença. Então os laboratórios farmacêuticos e a indústria da medicina se infiltraram nas escolas de medicina, na formação dos médicos que, hoje, se reduziram a receitadores de remédios e de procedimentos em máquinas. Mal tocam nos pacientes, preferem tocar nos exames e seguir o que está escrito nos compêndios médicos impessoais, receitando remédios mesmo desnecessários, quando há acordos com laboratórios e prêmios por vendas.

Também a saúde pública é precarizada, abandonada pelo Estado em condições de penúria, por força e influência de planos de saúde e das empresas da medicina lucrativa, a quem interessa uma saúde pública apavorante. Há planos de saúde populares pra aplacar o medo. Financiamentos de campanhas eleitorais garantem sabotagens políticas e supressão de verbas, tanto pra saúde pública quanto pra educação e outros “gastos” sociais.

A educação pública, sabotada como é, serve pra criar ignorância, enquanto tortura alunos, professores e funcionários com permanente falta de verbas e condições de ensino mínimas. É preciso manter farta a mão de obra barata, ignorante, desinformada, conduzível, condicionável, fácil de enganar. Já a educação particular, destinadas às camadas da classe média, tem como função formar os diversos níveis dessa classe nas hierarquias da estrutura e, por conseqüência, nas hierarquias sociais, desde as supervisões e gerências até as diretorias e altos cargos, tanto civis quanto militares. É impedida a visão da sociedade como um todo harmônico, onde a solidariedade seja estimulada, a instrução seja qualificada pra todos, as comunicações sejam pulverizadas em todos os espaços públicos. Onde prevaleça a cooperação e não a competição.

É proibido denunciar o porquê de tanta injustiça, ignorância, miséria e criminalidade. É preciso vencer na vida, ser melhor que os demais, o mundo é assim, a pobreza é inevitável e é culpa dos pobres, infelizmente, o máximo a fazer é enriquecer pra ser caridoso.

O trabalho é um sacrifício necessário. Ensinam isso pras crianças quando elas entram na escola, ávidas pelo prazer e divertimento em aprender e lhe ensinam que o prazer ficará pra hora do recreio, pros fins de semana, pros feriados e férias. Ao contrário da sua prática cotidiana até ali, as crianças devem saber agora que aprender não pode ser um prazer, mas uma responsabilidade, séria e ameaçadora. As avaliações são periódicas e o proveito medido em notas. É a preparação pro mercado de trabalho. Viver nas horas vagas, trabalho é sacrifício, tortura, sofrimento. Por isso a sexta-feira é tão ansiosamente esperada e a segunda é fonte de depressão. Por isso os feriados, as férias, as horas vagas se tornaram válvulas de escape das pressões que se convencionou aceitar no trabalho. Por isso se toma tanto anti-depressivo, pra alegria dos laboratórios farmacêuticos. Por isso o consumo compulsivo foi passível de ser implantado como um alívio pros sacrifícios da vida – um proveito empresarial pra angústia e uma forma de esterilizar arte e cultura, elementos potencialmente subversivos, transformando em produtos e criando celebridades, tanto na arte quanto na cultura, pra serem vendidos como mercadorias.. E se faz a marginalização das formas populares não controladas de cultura e arte. As controladas são desconteudizadas e apresentadas como folclore. Arte mesmo é a européia – ou estadunidense, sua decorrência.

Outro foco de sujeição social é a subalternização da mentalidade, do conhecimento, da cultura ao padrão estadunidense e europeu, branco, melhor se louro e de olhos azuis. É a imposição do colonizador, a inferiorização do dominado. Por quê a Grécia é vista como o berço da filosofia nas academias, se a Índia e a China, apenas como exemplo, tinham códigos filosóficos formados e sociedades organizadas sete e dez mil anos antes, quando na região da Grécia os hominídeos ainda batiam pedras e esfregavam paus pra acender fogueiras? Houve muitas outras civilizações e formulações filosóficas antes, mas a filosofia grega é a base da filosofia vigente. Criação de subalternidade. Imposta, assimilada e reproduzida no cotidiano, no dia a dia, em valores, comportamentos e créditos. Pra aceitação da exploração pelos superiores. O resultado é uma sociedade inferiorizada, fragilizada diante dos interesses banqueiros e mega-empresariais e dominadas por elites locais subalternizadas. Em todos os setores, inclusive e sobretudo os estratégicos.

É preciso ver que o poder político, as instituições públicas, a administração ainda chamada de “pública” não representa o público, a população brasileira, mas sim os interesses de um punhado de podres de ricos que se impõem a uma estrutura construída pra ser controlada, dominando a sociedade. Assim o Estado se tornou um criminosos contra seu próprio povo, roubando os direitos constitucionais mais básicos, fundamentais e humanos da grande maioria, em defesa e a serviço dos lucros astronômicos daquele punhado de parasitas das multidões. É preciso perceber que a política partidária não tem condições de oferecer resistência ao poder vigente, o econômico, porque foi construída conforme os mesmos interesses, com todos os recursos pra impedir as ações efetivas de atendimento e respeito aos direitos de todos. Financiamento de campanhas e controle das comunicações (com a mídia privada) num ambiente de ignorância e desinformação são a garantia da manutenção desse modelo criminoso. No máximo se consegue denunciar – alguns dons quixotes que conseguem furar o controle eleitoral, solitários e isolados nos parlamentos ou furiosamente atacados e difamados pela mídia, quando no executivo, como Brizola e Luiza Erundina, entre outros –, sem repercussão jornalística, os crimes cometidos por governantes e legisladores comprados, sob o silêncio estrondoso da mídia.

A raiz primeira desta situação está, volto a afirmar, dentro de cada um de nós, ainda que pareçamos insignificantes no oceano populacional e na complexidade estrutural. É possível e necessária a mudança interna, a percepção da própria vontade bloqueada por vontades artificiais, dos próprios valores influenciados pelos trabalhos permanentes de formação ideológica, desde as escolas infantis, fundamentais, de ensino médio e superior até o massacre midiático-publicitário permanente, nos meios de comunicação e em toda parte onde vamos ou passamos, em bombardeio constante e profundo. Essa mudança interna, trabalho permanente, é que se reflete pra fora, na coletividade, com a eficiência do exemplo, da prática de outros valores e comportamentos. Não há como pensar numa verdadeira mudança desta estrutura pra outra mais solidária, humana, igualitária, sem esse trabalho interno eliminando preconceitos, valores, comportamentos padrão e criando valores de integração e serviço, com base no respeito e no afeto, no interesse do bem estar coletivo e da harmonia social.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Satisfação aos contribuintes, aviso e pedido...

Chegando na Moita, mais exatamente na Pocilga, onde fomos recebidos com carinho e liberdade, por duas vezes.

Voltamos a Mariana, daqui vou pra casa. Tô precisando expor, devo estar em Santa Teresa sábado, 19, e de segunda a quarta, 21 a 23. Dia 25, madrugada, vamos pra Visconde de Mauá dar uns abraços e beijos na descendência, filha e netas, seguindo pra Sampa dia 26, a ver a movimentação da molecada nas escolas ocupadas,com o parceiro Adelson DeChaves Del, que tá lá agitando com a moçada, a mais antenada em décadas. Fico até 29 ou 30, volto à serra de Mauá, exponho no fim do ano, fico dois ou três dias a mais, vendendo, passo em casa, resolvo problemas mais urgentes da kombi e sigo pro vale do rio Doce. Aprofundar o serviço, porque ir ao fundo cria condições de revelar essa fração da sociedade que, por sua vez, pode criar a oportunidade de ver a realidade como ela é, como funciona e por quê é assim.

A grana que deu pra levantar nesta primeira parte, em torno de três mil reais, pouco menos, sustentou a viagem. Ainda tem pro gás de volta, com direito a uma refeição e um lanchinho. Agradeço demais as contribuições que possibilitaram nossa liberdade de ação entre os vários pontos onde fomos, na maior catástrofe ambiental da história do Brasil. Pra quem não sabe, postamos muito do que captamos na página do feice Narrativas do Vale, graças aos contribuintes desta iniciativa.

O Rafael Lage, fotógrafo e cineasta que tá juntando as cenas pra formar um documentário, armou um financiamento coletivo internético, tal de craudifáundim, logo que começamos o trampo. Isso tem uma data de recolhimento, uma declaração de quanto se pretende como necessário pra fazer o que nos propomos e um prazo pra botar a mão na grana. Estamos juntos nesta iniciativa. Ambos já pusemos grana do bolso, mas ambos temos bolsos muito pequenos. Já atingimos quase 70% do pretendido, mas faltam 13 dias pro encerramento do troço. Os que puderem, que não contribuíram ainda, gostaram do trabalho de divulgação e querem contribuir, ou que desejam contribuir de novo, o link taí, bora lá, moçada, tá na hora.



O Rafael vai ficar pela região na época do fim do ano, entre os afetados e as ruínas, colhendo mais material. Eu volto no início de janeiro pra continuar até o litoral, captando e transmitindo, colhendo e distribuindo informações, imagens e opiniões que não são ouvidas ou mostradas.

A tragédia do rio Doce mostra a estrutura social, pelo ângulo da mineração. "Buraco de Rato - um filme sobre a Vale S.A."


Em todas as áreas da sociedade, o seqüestro dos poderes públicos pelos poderes econômicos mantém no poder real um punhado de famílias podres de ricas, sobre a sociedade inteira. A educação não educa, ignorantiza e enquadra. A saúde pública, claramente sabotada, é um cenário horroroso, em sua precariedade, pra induzir aos diversos planos de saúde - escolas de medicina infiltradas por laboratórios e indústrias da medicina ensinam médicos a receitar remédios e procedimentos. Construtoras da indústria imobiliária financiam governos pra expulsar comunidades pobres das áreas valorizadas. Transportes, energia, água, vias públicas, em todas as áreas prevalece o interesse empresarial sobre o público. As populações, desinstruídas, são facilmente teleguiadas, exploradas e incutidas de sua impotência, sua inferioridade, ou de que tudo é assim mesmo e nada se pode fazer senão tratar de si e dos seus mais próximos, que é incompetência ou corrupção dos políticos a causa de todas as mazelas sociais provocadas pelos mesmos interesses parasitas. O controle banqueiro-empresarial, confirmado por nossos valores, comportamentos, objetivos de vida, visão de mundo, tudo construído em nosso próprio inconsciente pela educação condicionante e pelo massacre publicitário midiático, com o apoio tradicional da religião, das tradições e outros fatores complementares, nos fazem construtores e colaboradores desta estrutura social injusta, perversa, covarde, destrutiva, suicida.
Aqui se trata da área da mineração, a catástrofe do rio Doce foi causada pela mineração predadora das grandes empresas, infiltradas no aparato público de todas as formas, desde o financiamento de campanhas políticas até a indicação de seus agentes para cargos públicos estratégicos pros seus interesses, sempre contra as populações e seus direitos. Um dos maiores desastres ambientais do planeta é minimizado em suas conseqüências.

A medicina lucrativa pisca pra mineração, "valeu, parceria". Daqui a uns anos os metais tóxicos renderão uma grana com os problemas neurológicos, cânceres e outras doenças causadas pelos metais pesados que estão sendo absorvidos em quantidades imensas, desde o rompimento da barragens e o espalhamento dos seus rejeitos altamente tóxicos por todo o vale do rio Doce. Há que se considerar, também, a construção de presídios - evidentemente privados - pra abrigar a criminalidade que surgirá breve, diante das centenas de milhares de pessoas que perderam seus parcos ganhos com a morte do rio, gente que, de muitas formas, viviam do rio Doce. A miséria, o desespero, a fome são os maiores produtores mundiais de criminalidade. Os programas cênicos de assistência aos prejudicados fazem parte de um jogo velho que acaba assim que outros assuntos tomarem os noticiários - que voltarão a se ocupar da área quando as conseqüências aparecerem, mas nunca revelando as causas e sempre tirando algum proveito.

Os vampiros agem nas sombras. A nação está permanentemente em risco e em prejuízo com sua atuação infiltrada nas instituições do poder público, em todas as áreas. Seus eleitos conspiram nos bastidores e nas encenações a serviço dos interesses vampirescos, banqueiro-mega-empresariais. Detonam o público em favor do privado.
Não há democracia além da fachada, cenário armado e controlado, apesar de quixotescas figuras que ainda acreditam que podem mudar essa estrutura social criminosa através dessa "democracia" farsesca infernal, descumpridora de sua própria constituição.

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"Este filme é uma produção da Comunicação do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração com o apoio da "Ajuda" da Igreja da Noruega e da "Bem-Te-Vi Diversidade" e conta um pouco da história da Vale com foco na prática da espionagem.

O filme mostra como a empresa Vale S.A espiona movimentos sociais, lideranças comunitárias e ONGs que defendem os direitos das comunidades impactadas pela exploração e escoamento do Minério.
A Rede Justiça nos Trilhos assim como outros tantas organizações, movimentos e lideranças, também foi espionada pela empresa."
http://www.justicanostrilhos.org/
http://www.justicanostrilhos.org/Assista-ao-filme-Buraco-de-Rato


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Passagem rápida pelo território Krenak, saímos pesados de tristeza.

Watu, o rio Doce, sem vida, "não pode nem botar o pé", como diz o cacique.

A ponte da área onde mora o cacique Rondon e sua família.

As únicas vidas são as que vivem da carniça. Se vão morrer pelos metais pesados, não sei. Acredito que sim, espero que não.

Estivemos ontem na área indígena dos Krenak, perto de Resplendor, na beira do rio Doce. Ninguém, em toda a região do vale, tem tanta consciência da importância, do tamanho desse colapso. O rio, que eles chamam de Watu, espírito de união do povo, está morto. Os olhos do cacique mostram o espanto diante do vazio, perderam a condição de ver o futuro, de ter esperança, não há mais nada no futuro. Não há peixe, não há bichos, não há mais a água sagrada que, mesmo suja, poluída pela civilização com esgotos e rejeitos vários, ainda curava, dava o alimento, unia o povo krenak. Os rituais religiosos eram no templo do Watu. “No fim do ano a gente faz o ritual de limpeza do espírito, de união, nas águas do Watu. Toda segunda, quarta e sexta nós reunimos no ritual do rio. O que que a gente vai fazer agora?” Quando pergunto “... como é que vai ser daqui pra frente?”, Rondon desvia o olhar, “nem quero pensar nisso...”, mostra a pauta das necessidades imediatas num documento que fizeram através da Funai, “tudo vai depender disso aqui”, e chora. O histórico das mentiras civilizadas, através dos séculos, invariável, é arrasador. Minha alma chora com ele.

Ninguém se deu ao trabalho de avisar os Krenak. Eles não souberam da barragem de rejeitos químicos rompida, a não ser quando chegou a lama venenosa, de madrugada, trazendo os peixes mortos em primeiro lugar, com mais um montão de destroços, troncos, animais mortos e o mau cheiro que caracterizou todos os lugares onde passou a lama tóxica da morte. Rondon foi o primeiro que viu. Ninguém lembrou deles, ninguém pensou neles, só se olha pra eles quando, por exemplo, interromperam a passagem dos trens que transportam minérios de Minas pro litoral. Aí são bugres, ignorantes, subversivos, baderneiros, obstáculos ao progresso – tecnológico, claro, pois não se pensa nem se fala no progresso moral, tão ausente em nossa sociedade, essa da forma sem conteúdo, do corpo sem alma. Eles conseguiram, com sua “subversão”, um pouco de água pra beber, ração pro gado, algumas caixas dágua que eles não têm como encher sem os caminhões-pipa da prefeitura que, eles sabem, deixarão de levar água assim que puderem, que o assunto esfriar, que os olhares forem pra outros lados. E eles não têm outras fontes. Como é que vai ser daqui pra frente?

Rondon tinha acordado cedo, inquieto com a premonição da sua mãe, e saído de casa pra beira do rio, ouvindo um barulho estranho. Chegando nas pedras, viu milhares de peixes mortos chegando, aquela lama espessa cobrindo a água. Sua mãe, Laurita, anciã respeitada por todos, previu a morte do rio, “Watu veio chorando no vento, eu ouvi o choro e disse, a morte vem pelo rio”. Era noite, duas antes da morte do rio. Ninguém pôde imaginar o tamanho da devastação, apesar de já esperarem mais um acontecimento ruim.

Enquanto o povo originário não recebe informações dignas, o vale inteiro do rio Doce está à mercê das mentiras institucionais, tanto da empresa quanto do estado.

A lama carregada de metais pesados, altamente tóxicos, que se acumulam no organismo pra explodir em problemas neurológicos, cânceres e várias outras doenças, é declarada “inerte”, inofensiva, até mesmo sugerida como adubo, num escândalo de cara de pau, de cinismo e hipocrisia. O cenário é tratado por eles (funcionários da mineradora e representantes do poder "público") como um cenário mesmo. A realidade não importa, desde que se possa mascará-la o suficiente pra continuar o processo de destruição, pra se manterem nos poderes os mesmos que estão, os parasitas, os inimigos da humanidade, criadores e mantenedores dessa estrutura social criminosa. Não importam as doenças que aparecerão daqui a oito, dez anos. Não importam as conseqüências que caírem sobre a população. Os laboratórios farmacêuticos, a indústria da medicina lucrativa saberá dar uso a todo esse sofrimento, oferecendo seus serviços em troca dos bilhões que resultarão. É um escárnio diante da humanidade.

Os trens passam do outro lado do rio, o dia inteiro, vários por hora. E apitam diante dos krenak. Vai entender...

A ponte destruída desde a enchente de 2013 não recebeu reparo. Nem município, nem estado, nem união assumem.

A cara mais sinistra dessa ponte é a da chegada.

Abandono pelo poder público, uma realidade permanente. E ainda é pior quando empresas estimulam o ódio, por interesses.

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O massacre dos povos originários é feito desde a chegada dos colonizadores europeus. Oficialmente portugueses, mas vários países da europa estavam representados aqui, entre os invasores. Relações amistosas só eram mantidas por interesse dos exploradores. Nesse território não havia acumulação de bens e as riquezas estavam à disposição de todos, igualmente – as verdadeiras riquezas. O povo krenak, originalmente botocudos – a mudança de nome serve à estratégia de esquecimento que envolve os crimes estruturais da sociedade – passou por inúmeros massacres, desde a “guerra justa” decretada por d. João VI, quando veio pro Brasil fugindo do exército de Napoleão Bonaparte e aqui ficou por uns quantos anos. Houve dispersão e reencontro, várias vezes, do recôncavo baiano se reagruparam no vale do Mucuripe, eram perseguidos, dispersados, muitos morriam, os que escapavam se reencontravam e seguiam, até que o vale do Watu os acolheu. Aí chegaram os interesses mineradores, grandes empresas que compravam governos e impunham ferrovias, ah, mas tem uns índios lá, fodam-se os índios, bota pra correr, isso é igual bicho, tem que enxotar. Expulsos, assassinados, dispersos, se reuniram de novo e seguiram vivendo. Muito tempo depois, apareceu a Funai e os remanescentes receberam as terras que lhes pertenciam. De um lado só do rio Doce, do outro passa a ferrovia da mineração, toda hora passa um trem, vários por hora. Em frente às casas dos krenak, apitam, do outro lado do rio. Um cumprimento dos maquinistas, em solidariedade intuitiva com aquele povo injustiçado que conseguiu uma migalha do que lhe foi roubado? Ou um deboche dos exploradores, requinte de ironia marcando o sentimento de desprezo diante das casas das suas vítimas?


Um grupo pequeno de mãe e um casal de filhos, Laurita, Ni e Rondon, encontra um agente do estado que lhes afirma, incauto, que era impossível eles serem krenak porque os krenak estavam extintos. A senhora desferiu um arsenal de insultos em seu idioma, diante de um funcionário atônito e sem saber o que fazer. A filha, Ni, interveio nesse momento, “o senhor sabe o que ela falou? Ele, espantado, “não...” “como o senhor está dizendo que nós estamos extintos, se até nosso idioma está vivo?” Foi o início da luta que lhes devolveu ao menos um pedaço do que lhes foi tomado. Um pedaço mínimo.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.