quarta-feira, 13 de junho de 2018

O domínio interno é a base do externo


Constrangedora subalternidade cultural, psicológica, política, social, econômica, entre tantas subalternidades sovadas pelos colonizadores, na manutenção da submissão nacional aos interesses banqueiro-mega-empresariais. É de envergonhar tanto letreiro em inglês, tanta programação derivada da cultura do consumo, tantas "estátuas da liberdade" em frente a chópins (shoppings). Os exploradores europeus, a que se somaram os estadunidenses depois da segunda guerra mundial, pra estender sua dominação pra além das "independências" nacionais, criaram elites dirigentes em cada uma das suas colônias, de forma bem parecida. Geralmente brancas, com profundo desprezo pelo seu próprio povo e repulsiva admiração, idolatria e servilismo pelo colonizador, explorador e escravizador.
Em toda ação destinada a realizar verdadeiramente a independência e a soberania nacional, se vê o levante das elites, protestando até em inglês contra o investimento social, no desenvolvimento - com instrução, informação, com o atendimento dos direitos constitucionais - das populações. Cúmplices e usufruintes da escravidão não declarada, da ignorância, da desqualificação, da pobreza e da miséria do povo, que resulta em baixos salários e na extrema exploração do trabalho, as elites locais tremem de pavor e ódio diante dos coletivos mais conscientes e conscientizadores, criminalizando, atacando, difamando toda iniciativa de esclarecimento, de reivindicação, de união dos de baixo, o alicerce fundamental da sociedade como um todo.
Nessa atividade reacionária estão colocados os meios de comunicação (de forma inconstitucional inclusive) e as instituições do Estado, em todas as áreas. A saúde pública é sabotada por pressão de planos de saúde e da indústria da medicina lucrativa; o ensino público é sabotado pra manter a ignorância fundamental pra se facilitar a eficiência da mídia em formar a opinião pública de acordo com interesses empresariais; a mineração é uma sinistra caixa preta, saqueando permanentemente as riquezas da nação no escuro da desinformação; a indústria armamentista vende horrores, sem que se tome conhecimento; as forças de segurança são treinadas e preparadas ideológica e psicológicamente contra sua própria população, sem noção de cidadania, de história e da realidade, consciências distorcidas sob a pressão insuportável das "instruções" ideologicamente formadas (ou deformadas) em laboratórios de pensamento anti-social, anti-humano, a serviço de um punhado de podres de ricos, dominantes internacionais, fabricantes de guerras genocidas, destruidores de países inteiros - quando não se submetem aos seus interesses.
Não é por acaso que países produtores de petróleo estejam sempre na alça de mira do atual imperialismo euro-estadunidense (só um exemplo). Os países árabes são difamados, criminalizados e atacados quando não se ajoelham no altar das mega-petroleiras, enquanto os "aliados" são protegidos, mesmo sendo ditaduras sanguinárias de verdade, por massacrarem os movimentos nacionalistas que se opõem a essa colonização tardia. Ninguém fala na Arábia Saudita, um reino dinástico extremamente violento não só com seu próprio povo, mas também com países vizinhos que se atrevem a "pisar fora da risca".
Os "golpes de Estado" na América Latina estão todos dentro deste contexto, sejam institucionais ou não. As artimanhas das corporações - atualmente representadas pelos "países de primeiro mundo", os colonizadores continentais - não conhecem limites. A formação ideológica - através do modelo de educação e, sobretudo, pelo massacre midiático-publicitário - mostra seus resultados nas reações de classes médias e altas, furiosas, em pânico diante da possibilidade do desenvolvimento social verdadeiro, na formação de um povo instruído, solidário e consciente, que busca atingir a harmonia social, a erradicação da situação de lixo humano - que é prova mais que suficiente de que a vida vale menos que o patrimônio e os interesses mega-empresariais.
Acordar pra essa realidade acaba resultando na mudança de valores e comportamentos. As mudanças internas, íntimas, pessoais, são fundamentais pra se realizarem verdadeiras mudanças sociais. Se não se faz a revolução interna, qualquer revolução social é ilusória. E aí voltamos aos sinais de subalternização em cada um. Admirar a "evolução social" dos países do "primeiro mundo", não por acaso os maiores escravizadores, invasores, saqueadores do planeta, é subalternidade mental. Admirar pessoas formadas em Sourbone, em Harvard, em Oxford, quando na verdade elas deveriam ser suspeitas de desprezar seu próprio povo e tender ao favorecimento dos algozes euro-estadunidenses, é subalternidade mental. Ter orgulho em ostentar marcas caras - sempre escravizando trabalhadores nos países menos desenvolvidos em leis trabalhistas - é subalternização publicitário-midiática. São as marcas do inimigo e deve ser uma vergonha ostentá-las, pra quem tem um mínimo de consciência social. É constrangedor o sentimento de inferioridade diante do márquetim imperial estrangeiro, que planta no inconsciente coletivo essa falsa incapacidade, essa inferioridade construída pra manter o domínio sobre os povos e, sobretudo, as riquezas das nações.
É tempo de enxergamento, de acendimento de luzes. Mas que ninguém se engane. O processo leva gerações e quem esperar ver um mundo justo e equilibrado e alguns anos, vai se frustrar, desistir, amargar o sentimento de impotência e desqualificar os mais novos que pensam em "lutar" por mudanças de verdade. É preciso se dar conta que cada um de nós nasce num processo milenar e participa, por algumas dezenas de anos, dessa marcha permanente, desse caminhar mutante através dos tempos do planeta como um todo. Ter satisfação em estar vivo, em trabalhar no que se gosta, em determinar os próprios valores e comportamentos - e não adotar os valores falsos impregnados no inconsciente coletivo - é a atitude mais revolucionária no momento histórico, o embrião de um outro modelo de sociedade, mais humana, menos perversa, menos injusta e mais solidária.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Vida, serviço e satisfação


Há gerações de serviço pra trás, milênios a perder de vista. Há gerações de serviço pela frente... tamo no proveito do serviço passado e preparando o terreno pro serviço que vem. Quem quiser ver algum resultado final, vai desistir pelo meio do caminho. Não tem final. Ou tem, mas são finais provisórios, sinais de novos inícios. Participar da construção, consciente da sua ínfima participação, dá sentido à vida. Criar expectativas é o passaporte pra frustração. Antes de "fazer a sua parte", é preciso perceber qual é a sua parte. Somos insignificantes no todo, mas somos tudo o que temos.

Querer fazer o que não se pode é frustração certa. Deixar de fazer o que se pode é um desperdício, de tempo, de vida, de oportunidades. Discernimento é o canal, o desenvolvimento pessoal necessário. Participamos de um processo de mutação permanente e universal que já vem de não se sabe quando, bilhões, trilhões de anos. O que são 50, 70, 90 anos nessa eternidade, nesse passar contínuo do tempo? Nascemos, vivemos a infância, a juventude, amadurecemos, envelhecemos e morremos, assim é o ciclo. As pressões se fazem fortes pra que escolhamos como programado, vivamos vidas vazias e frustrantes, lutando e disputando o que não tem valor verdadeiro, o que se dissipa e perde o sentido com o tempo. De tal forma que a maioria só percebe a merda de vida que viveu na iminência da morte, quando a vida anuncia seu final e se percebe o vazio dos valores que exercemos no caminho. Evitar isso é fundamental. Qualquer coisa, menos isso. Mas aí é preciso encarar o mundo.

Ao que parece, escolher desenvolver e seguir a própria consciência, as próprias tendências e vocações, procurar o que se gosta pra viver, não é bem visto ou bem aceito na esmagadora maioria das vezes. É preciso estar pronto pra estranheza, pra desconfiança, pro preconceito. É um mundo mau caráter, que estimula e cobra o mau caráter, a conivência, a indiferença com a injustiça, a omissão. Não existem à toa a miséria, a ignorância e o abandono pela sociedade de grande parcela das pessoas. Uma sociedade planetária que cria e mantém milhões, bilhões de pessoas em situação de lixo, com todas as condições materiais de desenvolvimento social e humano, não merece meu respeito nem pode me impor o que devo escolher na minha vida. Não tem moral pra me criar valores ou me cobrar comportamentos. Só a profunda lavagem cerebral permanente feita pela mídia, pelo massacre publicitário, pela superficialização de pensamentos e sentimentos, em campo aberto pelo ensino empresarista e anti-social que forma competidores alucinados em vez de pessoas equilibradas pra integrarem a busca - que seja - de uma sociedade menos desarmônica, só essa lavagem cerebral pode criar aceitação pra aberração social em que vivemos.

Um ensino humanista - e público, tão amplo que abranja todos -, que estude as causas dos problemas em profundidade, que aponte a direção de uma sociedade harmonizada, sem miséria, ignorância e abandono, com investimento verdadeiro no desenvolvimento do ser humano e sua coletividade como um todo, no desenvolvimento de um sentimento solidário de família humana, é considerado um ensino subversivo, criminalizado, difamado e perseguido. Um ensino que revele como foi construída esta sociedade e a sua história, que aprofunde os fatos e suas causas, que procure as raízes de todas as coisas, que trate o conhecimento como direito, é o terror dos dominantes da atualidade. A formação de cidadãos conscientes da realidade, em condições de pensar, analisar e escolher os seus caminhos, naturalmente desfaria toda a estrutura atual da sociedade, construindo outra muito diferente. Onde o ser humano, a vida, o equilíbrio ambiental e a harmonia social estejam em primeiro plano, não o poder econômico, a propriedade, o lucro, os interesses mega-empresarias de muito poucos, que desprezam tudo o que está no caminho das suas ambições. E que mantêm o poder público seqüestrado e a seu serviço.

Estes poucos podres de ricos, miseráveis de espírito, produtores mundiais de sofrimento, estiveram por muito tempo na escuridão completa. Mas os ciclos se sucedem e pequenas luzes aparecem, iluminando precariamente a escuridão, dando os vislumbres dos mecanismos que movem a realidade que nos cerca. É tempo de acendimento de luzes, cada vez mais gerais. Muitos acreditam que estão vendo uma degradação geral, um retrocesso abissal, que regredimos como sociedade. Mas não, a visão é que está se apliando, está se vendo o que sempre existiu e até pior, mas não se via. As mentiras, as escabrosas armações por trás dos poderes constituídos estão se escancarando, pouco a pouco. Há muitas gerações nesse trabalho. Pra trás e pra frente.

São milênios de história, de mutação, de experiências, de modelos de sociedade, de evolução humana neste planeta. Nascemos num processo de mutação e participamos dele. A questão é como participamos, em geral de forma programada, com valores induzidos, como desejos, objetivos de vida, gostos, comportamentos, visão de mundo, tudo fabricado, estratégico, mentalidades produzidas no atacado. Perceber isso, na minha opinião, é um dos trabalhos em foco neste momento da história. A pulverização das comunicações é um foco importante e será ainda por várias gerações, é preciso se comunicar, trocar informações, buscar raízes nos fatos, nos acontecimentos, desenvolver a capacidade de percepção e o discernimento. Escolher como participar, de vontade própria, já é uma satisfação na vida. É preciso perceber os próprios condicionamentos e ver que o descondicionamento é um trabalho profundo e sem final... são muitos, entre primários, secundários, sutis e profundos.

No pequeno tempo que temos, algumas décadas, se tanto, fazemos muito se conseguimos pensar por conta própria e escolher com critérios próprios. No meu caso, aos dezenove anos tive um pavor imenso de chegar ao fim da vida sem ter sentido nenhum, com a sensação de ter vivido uma vida vazia. Em todas as possibilidades que a sociedade me apresentava, só via frustração, vazio e falta de sentido, parecia tudo ilusão. Então saí atrás de sentido, tomando várias atitudes, e a vida ganhou sentido com todas as mudanças que rolaram, embora então eu só me encantasse com as novidades e, mesmo sem perceber o quanto estava aprendendo, tudo já ficou muito mais interessante. Eu pensava que morreria logo, diante dos riscos a que me expunha e dos acontecimentos à minha volta. Achava que não passaria dos trinta, mas ainda estou vivo. Vivito y coleando por aí, com meus fazimentos. E com a única pretensão de gostar de estar vivo, que foi o que consegui. Com todas as dificuldades, gosto muito da minha vida. Até que termine. Na consciência de que a vida é uma passagem, na certeza intuitiva e íntima de que não acaba com a morte, quero comemorar minha vida vivida nesta passagem, quando passar pra outra dimensão. Não lamentar, embora sempre haja algo pra se lamentar. Que seja pouco.

A espiritualidade é um estado de consciência, nada mais. Que se reflete na conduta, no caráter, nos sentimentos, no temperamento, na própria vida e suas relações.

sábado, 12 de maio de 2018

Exército treina policiais pro genocídio popular


O fiasco da tal "intervenção" continua sendo escamoteado pela mídia e pelas instituições. Em seu lugar, a fantasia. "Forças de segurança prendem 153 em festa de milícia", na zona norte da cidade. A maioria não tinha nada com milícia, pagou ingresso pra entrar e estava só se divertindo. O movimento dos familiares e as denúncias nas redes sociais se impuseram, em parte, e até ontem a "justiça" havia mandado soltar 138, que tinham provas da sua inocência e familiares ativos em manifestações. Quantos não tinham familiares pressionando, quantos não têm "provas" de inocência? A injustiça contra os pobres é institucional. E a ação, puramente cênica, causa efeito na mídia. Cara de pau deslavada.

Anunciam pelos jornais que o exército vai treinar policiais. Pra alguns, isso seria "a solução", mentalidade superficializada pelo massacre midiático, especializado em convencer de mentiras. O exército treina combatentes que têm como objetivo a eliminação do inimigo ou sua incapacitação completa. É a demonstração de que o Estado, com essas "autoridades constituídas", não tem interesse nenhum na paz social, mas sim na guerra total. As tais "autoridades" são reles marionetes enfeitadas e cheias de pose, controladas dos bastidores da farsa política pelos "donos" do poder, dinastias de podres de ricos acostumados a fazer dos "governos" seus servidores, sempre em prejuízo do todo, da população em geral, em favor dos seus interesses egoístas, perversos e anti-sociais. Protegidos em suas bolhas de segurança, de riquezas e privilégios, circulando não pelas ruas, mas em helicópteros e jatinhos, dominam as instituições ditas "públicas" de acordo com seus interesses, que atropelam interesses coletivos, indiferentes ao sofrimento causado a milhões, à miséria e ao abandono das periferias, áreas de abandono social.

Está declarado e em execução intensiva o genocídio nas favelas e periferias. A própria estrutura da sociedade cria o campo da criminalidade, descumprindo sua constituição em tudo o que diz respeito à maioria do povo. E, ao invés de eliminar suas causas, cria a idéia mentirosa de "combate ao crime". As vítimas "colaterais", trabalhadores pobres, periféricos e favelados, não têm importância social suficiente, nem instrução, informação e consciência pra impor as soluções óbvias da criminalidade epidêmica. São mentirosos os governos, são mentirosas as empresas de comunicação. Mas é verdadeira a guerra civil em que vivemos.

Os gastos com deslocamento de tropas, com armamentos e munições, com caminhões e tanques, helicópteros e caveirões são colossais. Bilhões e bilhões são gastos nessa "guerra", sem nenhum resultado positivo, sem acabar nem diminuir a criminalidade. Ao contrário, quanto mais brutais são as ações do Estado, mais brutais se tornam os crimes, quanto mais se mata "bandidos", mais os bandidos matam sem hesitar. Com a vida em alto risco, não consideram a vida de ninguém. Com esses recursos aplicados no simples cumprimento da sua constituição, em seus artigos sobre os direitos da população e de todo brasileiro, a criminalidade cairia vertiginosamente. Quem vai arriscar a vida pegando em armas, se há condições de se desenvolver, se as necessidades básicas estão atendidas e a sociedade centraliza seus esforços na resolução dos primitivismos sociais? A mão de obra do crime não seria tão farta como agora, quando a miséria campeia, o desabrigo é visível em todas as cidades e a exclusão é perseguida, desprezada e reprimida. O crime organizado surge como uma espécie de vingança social que dá acesso ao que a publicidade massacrante impõe.

Se as populações das periferias fossem atendidas em seus direitos, isso sim seria um fator de diminuição da criminalidade. Escolas bem estruturadas, com professores bem preparados e bem pagos, com um modelo de ensino voltado à harmonia social e não puramente para o mercado de trabalho, com ensino de qualidade e recursos didáticos e formadores de senso crítico e consciência social; saneamento básico e condições de vida digna e cidadã, transporte público sem a tortura imposta pelos empresários do transporte; comunicações honestas, sem o domínio empresarial que distorce as informações e falseia a realidade, produzindo com seu massacre ideológico-publicitário valores falsos, conflitos de ego, necessidades artificiais e consumo compulsivo como finalidade da vida. Aí sim, se estaria trabalhando a causa, a fonte da criminalidade, a ausência de perspectiva e de possibilidades de melhor qualidade de vida, que levam milhares e milhares de adolescente desatendidos a ansiarem por uma vaga no crime organizado - organização que parte das elites, onde estão os empresários bandidos cujos "funcionários" morrem como moscas e são facilmente substituídos, sem nenhum encargo trabalhista, vivendo e morrendo por conta própria e sem se darem conta de ao quê estão servindo. O tráfico e os demais crimes organizados têm uma infinita fonte de reserva de trabalhadores. A miséria, a ignorância e a ânsia de consumo e de ostentação que os publicitários fazem crer - usando psicologia do inconsciente e todos os recursos de indução - que é a "valorização" social.

Falam em repressão e encarceramento, uma estupidez, e o investimento na formação de um povo instruído, informado e consciente é ostensivamente sabotado. Cadeias são escolas superiores do crime, da perversidade, instrumentos de vingança da classe média, vítima primeira das ações criminosas mas inconscientes das causas verdadeiras, conduzidas pela hipnose midiática ao ódio vingativo que, ao invés de resolver, agrava a situação.

Vamos à constituição. Ali está escrito que cada brasileiro tem o direito, garantido pelo Estado, à boa alimentação, à moradia digna e sã, ao ensino de qualidade, à informação honesta, ao atendimento médico que for necessário, ao desenvolvimento humano e profissional, entre outros. E o Estado não cumpre nenhum desses artigos. Seqüestrado pelos poderes econômicos, pelos mais ricos do mercado financeiro, pelos banqueiros e mega-empresários, o "poder público" é impedido de cumprir a sua constituição, a "carta magna", a "lei maior" - permanentemente violada pelo Estado e deformada pelos legislativos comprados, exercidos pelos poucos ricos em prejuízo da totalidade.

Os bolsões de miséria, pobreza, ignorância e exclusão, estimulados pelo massacre ideológico, midiático e publicitário, fornecem inesgotável fonte de "funcionários" às empresas dos crimes organizados. A idéia de combater o crime com "guerra", com operações de combate, na base do armamento pesado e sempre nas periferias, seria estúpida se não fosse mal intencionada. Ao mesmo tempo em que estabelece um controle populacional com o extermínio de pobres, cria pavor nas classes médias que possuem voz social, pra que apóiem com sua "opinião pública" induzida pela mídia o incremento e o investimento nas forças de "segurança pública". Que, pelo que se vê, não tem nem de longe o objetivo de criar paz social, ao contrário, são elementos do caos, ingênuos ou perversos mas, de toda forma, utilizados pelos criminosos do verdadeiro poder.

Na idéia desumana de explorar o trabalho e a inconsciência, está a eliminação dos excessos, porque "pobre reproduz demais e isso pode ser perigoso", como ouvi de um podre de rico que não vê gente nas periferias, mas sim estatísticas, uma sub-gente merecedora das condições em que é mantida pela estrutura empresarista da sociedade. Uma certa quantidade de miséria é necessária pra pressionar os trabalhadores a aceitarem qualquer condição de trabalho, mas é preciso manter essa miséria sob controle, monitorada pra não se perder o controle.

São esses seres desumano que controlam toda a estrutura social, dos bastidores. Seu porta-voz é a mídia privada, conduzindo com mentiras, distorções, difamações e campanhas massivas a opinião pública que, planejadamente sem condições de pensar criticamente, acaba apoiando decisões e ações contra a população, em benefício dos seus algozes, dos criminosos engravatados e institucionalizados, dos reais donos do sistema social. Como bem dizia Eduardo Galeano, a criminalidade do poder é a mãe de todas as criminalidades. Não é de se estranhar que a sociedade seja constituída por máfias, desde as altas - banqueiros, mega-empresários, grandes fazendeiros - até as baixas - flanelinhas, taxistas, camelôs -, passando por todos os níveis, comerciantes, transportadores, distribuidores, etc, etc. Sem ser mafiosa, uma empresa não entra numa licitação sequer. É a natureza do sistema em que vivemos, que de humano só tem o nome, pois existe em torno dos interesses de um punhado que chafurda em riquezas, privilégios e poderes acima dos poderes constituídos, chamados falsamente de públicos e totalmente subalternizados.

É isso que está se revelando na atualidade. As tais "delações premiadas", o jogo jurídico escandalosamente interesseiro, os cortes nos poucos direitos ainda concedidos à população, tudo isso não revela a "corrupção" de empresas com governos. Revela, isso sim, o funcionamento de um Estado que desde a sua criação é como um "robinhude" ao contrário, rouba dos pobres pra dar aos que menos precisam. Estão se revelando os mecanismos internos do funcionamento desta sociedade, nos bastidores dos seus cenários de poder público, que nunca foi público. A descoberta, a revelação do funcionamento, das relações ocultas entre os "poderes da república" e os poderes de verdade, mostra as causas tenebrosas da manutenção desta estrutura desumana e empresarista. Está em curso a percepção desta realidade, a quebra das ilusões institucionais, a tomada de consciência, é tempo de acendimento de luzes. O processo já vem há milênios e tem seu ritmo, que ninguém tenha a pretensão ingênua de o conduzir, mas sim de participar dele da forma que escolhermos, não como fomos induzidos a participar. Com valores próprios, não com os valores induzidos por uma educação tendenciosa e pelas falcatruas sedutoras da mídia. Com objetivos de vida além dos materiais, paz de espírito, solidariedade e união entre todos. Uma sociedade humanista, que tenha nas pessoas e na harmonia social seu principal objetivo e não na economia, no patrimônio e nos interesses empresarias que põem em plano secundário o ser humano, a vida, o bem estar e a harmonia social.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A “inconveniência” das leis trabalhistas


No final do século dezenove, sob pressão do Império Britânico, foi “abolida” a escravidão, depois de toda uma arrumação pra evitar que os ex-escravos se tornassem verdadeiros cidadãos, com acesso à instrução, à informação, ao desenvolvimento pessoal, humano e profissional. Monteiro Lobato, um raro mestiço com presença social, sugeriu no senado da recente “república” um programa de alfabetização para as vítimas da escravidão, até como uma reparação às incalculáveis injustiças sofridas por séculos. A pergunta que ouviu de um senador – um latifundiário do café, então um dos maiores produtos de exportação – é simbólica e explica a posição da elite até hoje, “ô Lobato, se ensinar essa negrada a ler e escrever, quem é que vai pegar no cabo da enxada?” A ignorância sustenta a escravidão, informalmente. É a natureza hipócrita do sistema social em que vivemos.

É uma sociedade escravista. A “república” proclamada por banqueiros e latifundiários nunca teve nada de república. Fala-se em nome do povo sem se levar em conta as necessidades e os direitos do povo. A base da sociedade é o trabalho escravo, braçal, ignorante, desinformado, inconsciente da estrutura social pela própria formação estrutural. Os luxos e privilégios dos pequenos grupos dominantes necessitam da exploração brutal do trabalho e, pra isso, direitos humanos e constitucionais, tidos como fruto do desenvolvimento humano, das sociedades e das relações entre as pessoas, são roubados à esmagadora maioria da população. O desenvolvimento espiritual, moral e afetivo demora mais a chegar na minoria mais rica, pois é quem depende da exploração pra manter privilégios, excessos, luxos e poderes. Ali se valoriza apenas o desenvolvimento tecnológico – inclusive pra servir à manutenção desse estado de coisas. O desenvolvimento tecnológico sem o desenvolvimento moral, espiritual, torna-se facilmente criminoso.

A espiritualidade foi feita refém de religiões que, ao mesmo tempo que funcionam como controle de grupos, servem à formação de divergências e divisões, separando, segregando e impedindo a união e a solidariedade irrestrita como elemento agregador e harmonizador na coletividade. A nível institucional, não há ligação entre religião e espiritualidade. Na arrogância religiosa, não basta perceber a interação entre várias dimensões, a existências de realidades além da matéria como a conhecemos. É preciso explicar, entender e acreditar. A razão humana, tão precária e restrita, torna mesquinha a espiritualidade. E a espiritualidade amesquinhada é um elemento conservador da estrutura social, um obstáculo ao desenvolvimento verdadeiro na formação de uma sociedade sem excluídos, sem miséria, sem ignorância. Um entre tantos elementos estratégicos armados pra manter o domínio de tão poucos sobre o todo, tentativas de parar a mutação natural de tudo o que existe. Nada fica como está e, quando se bloqueia o fluxo das coisas, há um gradual acúmulo e depois é a avalanche que leva tudo de arrasto. É o que estamos vendo acontecer a nível planetário.

Alguns anos atrás, a organização Repórter Brasil divulgou uma pesquisa concluindo que quarenta mil pessoas são escravizadas por ano, no país. Naquele mesmo ano, as equipes estatais de busca e eliminação de trabalho “análogo” à escravidão – um total de seis, chamadas força-tarefa, pra todo o território nacional – anunciava a libertação de quinze mil trabalhadores encontrados nestas condições, de fazendas amazônicas às fabriquetas de roupas pra grifes famosas, em São Paulo. Dos outros vinte e cinco mil, não se falou.

O centro de importância da nossa atual sociedade está longe do ser humano. Mais importante que a vida é o lucro e o patrimônio. E os privilégios de uns poucos consomem direitos da esmagadora maioria. É preciso ver a realidade como ela é – e limpar a visão de mundo das lentes distorcedoras que nos impõem – pra conseguir decidir o que fazer, sem as induções e condicionamentos que são a marca registrada deste sistema. De outra forma, decidimos como induzidos, como fomos condicionados – e até as contestações são feitas da forma programada, incapazes de tocar na estrutura social tão profundamente quanto é preciso pra torná-la menos injusta, perversa, covarde e desumana.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Documentário sobre a ordem social vigente.

Não sei o ano exato, mas esse filme foi feito muito antes da crise dos bancos, em 2008. O que significa crise geral, por extensão. Uma crise fabricada, que drenou quinze trilhões de dólares (TRILHÕES), dinheiro público arrancado de muitos Estados do mundo, submetidos pelo sistema financeiro. O domínio banqueiro-mega-empresarial submete Estados, países, governos, e dita a ordem criminosa da sociedade, a estrutura onde vivemos todos. Os privilegiados se encastelam atrás de muros e grades, com segurança armada, vivem ameaçados e cheios de medo do mundo "lá fora". Os garantidos e os que têm seus direitos respeitados no mínimo necessário se defendem como podem, muito mais próximos do assédio que a criminalidade e violência que a miséria, o abandono, a ignorância e a desinformação produzem - sem que existam "forças de segurança" capazes de conter. Está-se vendo repetidas vezes, todos os dias. O combate ao crime não impede o crime de crescer cada vez mais, inclusive contaminando a fundo as próprias forças de segurança, os parlamentos, os tribunais e os governos. É o "alto nível" do crime organizado que comanda a segurança pública, através do controle do Estado como um todo, em todas as suas instituições, com uma bolha de honestidade aqui, outra ali, isoladas pra não "contaminar" o sistema e muito úteis pra exibir como "provas" da honestidade do próprio sistema. A mídia taí pra isso.

Alguns sentirão arrepios quando ouvirem o nome de Marx, citado um par de vezes pelo Jean. Mas eu não tenho essa alergia, embora não seja devoto, e isso não diminui em nada a importância das informações e visões de mundo expostas no filme. Achei brilhante o Galeano, como sempre, em suas metáforas e ironias finas na interpretação da realidade. Ele toca fundo nos conceitos impostos, nas estratégias de criação de imagens e idéias a serviço do punhado de parasitas podres de ricos que explora a humanidade, mantendo o sistema criador de miséria e sofrimento.

A construção de uma sociedade verdadeira humana, que tenha na vida o seu maior valor, e não na propriedade, no lucro e nos interesses banqueiro-empresariais, passa pelas percepções necessárias a respeito da realidade à nossa volta mas, sobretudo, em nossa própria visão de mundo, em nossos valores, nossos objetivos de vida, nosso comportamento, na forma de se relacionar com as pessoas, com os acontecimentos, em nossas expectativas e no que acreditamos. É preciso perceber os próprios condicionamentos, porque ninguém está imune ao massacre publicitário-midiático-ideológico, estendido ao sistema de educação do primeiro ao último patamar.

No documentário, Galeano e Ziegler apontam "o que fazer", no último bloco. Ver é o primeiro passo pra modificar a si e à própria vida, pois é isso que cria condições de mudar o mundo. Exemplificando para as gerações que  não páram de chegar, sucessivas e permanentes, se trabalha na evolução social, planetária, no longuíssimo prazo que é sua característica e não adianta querer apressar - só frustra. Essa arrogância pretensiosa de querer "mudar o mundo", "fazer a diferença", "organizar a classe trabalhadora" só resulta em desistências sucessivas, enquanto os que insistem passam a vida dando murro em ponta de faca e colecionando decepções. E já vi várias vezes se transformar em descrença total, "isso nunca vai mudar", outra ingenuidade. A mutação é permanente e nada permanece como é, nascemos em pleno processo de mutação que, neste nosso planeta, conta com coisa de quatro bilhões de anos. A civilização ocidental, essa que nos domina, tem cerca de dois mil e quinhentos anos de existência, passando por mudanças que a história nos mostra, ao longo dos séculos. Uma vida tem algumas décadas e já se pretende mudar como se deseja a realidade. Ingenuidade ou estímulo ao ego, à arrogância, à vaidade, à hierarquização, pelo sistema social, de todas as formas?

Bueno, aí está o filme que considero valioso na formação de visão de mundo, no repensar os próprios pensamentos, no desconfiar de si mesmo - até onde penso por minha própria conta, até onde pude escolher os meus valores e comportamentos, o que desejo da vida?

                                       A ordem criminosa do mundo


quarta-feira, 28 de março de 2018

Viagem ao vale do rio morto, ex-Doce - o saldo

Em território Krenak, encontramos com o cacique Leonir. Mais de uma hora de conversa.
Pescadores em atividade, ao longo de todo o rio dos rejeitos da mineração, antigo rio Doce.

Atoleiro a caminho de Regência.
Saindo de Regência, o sentimento de final de rota se misturava com o peso da conformação. Desde Mariana se passava a expectativa de que tudo está voltando ao seu normal, o assunto metais pesados tá ficando pra trás. Os moradores dos povoados destruídos já se tornam um estorvo, responsabilizados pela paralisação dos escritórios, das atividades burocráticas, pela queda no comércio da cidade, do movimento dos funcionários das mineradoras, que na verdade não pararam com a extração - porque o minério continuou descendo o vale nos trens, até os portos de exportação, todo o tempo. Até as crianças desabrigadas eram discriminadas nas escolas de Mariana como "pés de lama".

Houve algumas interrupções momentâneas, como quando os Krenak bloquearam os trilhos com troncos, logo no início, e conseguiram algumas necessidades vitais de sobrevivência. Mas depois, quando as pessoas de Pedra Corrida quiseram pressionar pra conversar com algum representante, alguma autoridade, na tentativa de conseguir ao menos a água de beber, foram corridos sob ameaça de ataque da polícia, com balas de borracha em cima de crianças, mulheres, velhos e homens da povoação. Sem conversa, sem argumento, sem nenhum representante de empresa ou governo presente. Pedra Corrida cozinha e toma banho com água de poços artesianos. Um escritório da Renova, armação da Samarco, foi aberto no povoado. Segundo os moradores, pra nada, ali não se resolve nada, se anota qualquer coisa e se promete "algum encaminhamento" e uma resposta que nunca vem. Dá em nada.

O márquetim da empresa cria novidades na condução do pensamento e do sentimento das populações envolvidas. Manobra rivalidades, cria outras tantas, constrói cenários, usa a publicidade na mídia, distorce a realidade. E começa a trabalhar o sentimento de que tudo está se resolvendo, tudo vai voltar à normalidade, já tem peixes no rio, as coisas voltam, pouco a pouco, a ser como eram antes. Crime total contra a informação, os problemas ainda estão começando e prometem continuidade a longo prazo.

Há dois anos a vida acabou no rio Doce. Há dois anos a vida mudou em toda região. Há dois anos o povo, sem saber o que fazer, espera os acontecimentos. A vontade é muito grande, todos querem a "volta do rio" que não volta. Pescadores circulam em suas canoas, lançam suas redes, colhem seus peixes. O rio Doce tem muitos e grandes afluentes, que despejam suas águas cheias de peixes no veneno da mineração. No princípio, os peixes simplesmente morriam ou voltavam rio acima, ficando numa área menos densa, mas já em contato com os metais pesados. Nas procriações, com o tempo e as mutações genéticas, adaptações naturais ao ambiente e novas gerações já conseguem sobreviver, pelo menos algum tempo, nos rejeitos da mineração. Estes peixes estão sendo pescados, exibidos com orgulho - "os peixes voltaram" - e comidos com prazer, sem nenhum tipo de análise da carne. É fácil perceber a vontade enorme que as pessoas têm de retomar seus costumes ribeirinhos, a pesca, o nado, os encontros familiares, o lazer na beira, nas praias, nas ilhas. A depressão tomou conta, várias pessoas morreram de tristeza, a mãe do cacique Rondon foi uma delas, dois ex-moradores de Bento Rodrigues, que foram enterrados no cemitério de lá, mesmo sem povoado. Nos mais de 800 quilômetros, muitos dramas, muitas tragédias com a morte do rio. "Não é tão grave quanto estão dizendo" foi uma frase que ouvi várias vezes no percurso. Mas a índia krenak que se recusou a deixar o costume de se banhar no rio está doente, muito doente, nos contou o cacique Leonir. Nos postos de saúde, muitas doenças que não haviam antes, agora são numerosas. São mais de duzentos municípios, todos em silêncio com relação aos perigos do contato com esse veneno metálico. A promiscuidade público-privada é uma cumplicidade criminosa contra a população. O clima é de superação da catástrofe, uma grande mentira. A catástrofe ainda está em seu início, doenças provocadas pelos metais pesados podem levar oito, dez, doze, quinze anos pra se manifestar, depois do acúmulo no organismo, de forma avassaladora.

Em Regência, o clima ficou mais pesado. A comunidade vivia em torno da foz do rio Doce, seu encontro com o mar, da pesca, do surf, do turismo. Agora está como em suspensão, todos esperando a "normalização", com tanta vontade que se convencem da irrealidade. Regência é um povoado deprimido, com características de bloqueio mental pra realidade. À medida em que se trabalha o sentimento de superação, a empresa vai suspendendo suas ações compensatórias, deixando a população entregue à própria sorte, aos poços contaminados, à exposição aos rejeitos debaixo de mentiras repetidas até o convencimento conveniente. No litoral, várias comunidades de pescadores estão proibidas de pescar. Mas pescam. Sem saber fazer outra coisa, os pescadores vão longe atrás de peixe, voltam na madrugada e já encontram caminhonetes com gelo pra transportar os pescados pro interior, onde são vendidos.

O governo mineiro autorizou a pesca profissional e artesanal no rio envenenado. Tudo parte do cenário construído e falso de superação do desastre, sem nenhuma responsabilidade social, nenhuma responsabilidade moral com a população, sempre traída pelos poderes constituídos sob o domínio econômico-financeiro que desumaniza a sociedade. Os surfistas do rio Doce pegam ondas nas corredeiras, em Valadares. Os surfistas da boca do rio entram no mar todos os dias, desde a primeira semana da lama, hoje mais numerosos. Essa rapaziada deveria estar fazendo exames pra detectar metais pesados no sangue. Mas eles não querem saber, preferem acreditar que "não é tão grave assim", que "está passando" a situação, que "tudo está voltando ao normal". O espectro da tragédia paira no silêncio.

"O rio Doce sempre foi assim, eu tenho 68 anos e sempre pesquei aqui, agora os peixes voltaram, não é tão grave quanto estão falando, tudo está voltando ao normal. O rio sempre teve essa cor, sempre foi barrento." - acampado a vinte quilômetros da foz, na beira do rio, pra três dias pescando de caniço.
"Eu vou viver até os cinqüenta anos. Tô com quarenta agora, né, e comendo esse peixe não vou durar muito..." - pescador em Governador Valadares.
"A gente tá com a Samarco. Ela me dá noventa reais por mes e água mineral pra beber. Tem muita gente que não recebe, eu não posso reclamar" - pescadora sem ter o que fazer, em Naque, MG.
"Muita gente que precisa não tá recebendo nada. E tem gente que não precisa e tá recebendo. Água, ajuda, cartão... gente que nem mora aqui na beira do rio... e tá recebendo"- duas senhoras numa rua de Periquito, a outra completou, "recebe quem tem proteção, quem tem indicação".
"Eu nunca mais vou ver o rio, meu filho. Tô com 84 anos, talvez meus netos ainda vejam esse rio de novo, mas eu... nunca mais", em Rio Doce, a cidade, dezembro de 2015. Há os que morrem vivos, na apatia, no sem vontade de viver, na espera de que tudo acabe de uma vez.

As vítimas são chamadas de "impactados", os que conseguem alguma indenização são os "beneficiários". O departamento de máquetim da mineradora capricha nos deboches. E estimula a criminalização das vítimas, um procedimento milenar nesta sociedade ainda desumana, por lapidar e construir uma convivência social harmônica. A mentalidade empresarista impõe todos os obstáculos possíveis neste caminho. Com a criação de uma falsa "volta à normalidade" as mineradoras vão se livrando das indenizações e da responsabilidade sobre tanta destruição.

Mais uma vez sinto a composição entre empresas e poderes "públicos" como uma cumplicidade criminosa contra a população, mentem mineradoras e Estado, como cotidiano das comunicações com o povo. Mentem, roubam, ameaçam, atacam as contestações, criminalizam vítimas, o rol de crimes cometidos cotidianamente, rotineiramente, pela própria natureza de uma sociedade empresarista, onde o patrimônio, o lucro, os interesses de um punhado são mais importantes do que a vida, os direitos, a saúde da população. Empresarismo é o contrário de humanismo. Enquanto o ser humano não for o centro de importância da sociedade pretensamente humana, a barbárie empresarial vai destruir, condenar, perseguir suas próprias vítimas. A vida vale menos que o lucro, estamos em tempo de percepção dos enganos impostos por este modelo de sociedade. Caminhamos ao longo dos milênios, em processo de mutação permanente. As próximas gerações colherão os frutos plantados por tanto tempo, frutos da destruição, do empesteamento, da impregnação de elementos tóxicos, mortais. Os frutos apocalípticos da irresponsabilidade de tão poucos serão colhidos por todos.

E sem essa de "o ser humano está destruindo o planeta". Os que concentram poderes, riquezas e privilégios materiais se esforçam por socializar as responsabilidades pelas suas ações. Novamente, é tempo de percepção, de acendimento de luzes. Com isso, surgirão as soluções, novos valores e comportamentos serão raízes de novas formas de relações sociais. O tempo não dá pulos. O caminho é permanente, como são permanentes as mutações individuais e coletivas.

Os afluentes trazem suas águas limpas, com peixes, pra desaguar na lama tóxica. Aí ainda é o Gualaxo.
Pequena usina hidroelétrica destruída, próxima a Camargos.
Exposição em Ouro Preto
Exposição em Mariana
Exposição em Penedo
Exposição na casa Bananal, Juiz de Fora












Exposição em Gov. Valadares



sexta-feira, 23 de março de 2018

Exposição em Valadares

Chegamos no meio da tarde e fomos ficando, a kombi estacionada num espaço de quatro vagas, com uma placa de "veículos oficiais". Parei ali pensando em tirar se fosse preciso, mas coloquei os painéis em volta da viatura, com dois numa árvore próxima. Era dia de feirinha, os expositores começavam a chegar, algumas barracas já estavam montadas. Logo chegou Cláudia, presidente da feira há vinte e tantos anos, simpática e comunicativa, conversamos um pouco e me senti bem vindo. Então chegou Zazá e a mesa foi posta com livrinhos, fanzines e quadrinhos, servindo ainda de apoio pros mostruários de ímãs. Ailton chegou e papeamos praticamente o resto da tarde. Várias pessoas chegaram, vários papos rolaram, tava escuro quando Ailton se despediu. Bueno, se despediu em termos, porque depois que ele foi embora, lembrou de que era fotógrafo e voltou. As fotos são todas dele. Fomos os últimos a sair da praça, fora algumas barracas de comidas e bebidas.








Tava mesmo precisando vender, e deu o suficiente pra seguir, talvez até Regência. Mas há possibilidades de vendas pelo caminho, não muitas, mas algumas já dão pra ir adiante. Espero que Vitória dê uma salvada, porque preciso chegar pra saldar dívidas ainda, no Rio. Sem crise, tá tudo no sossego. O motor tá ótimo, os sistemas funcionam, tem mercadoria pra expor, comida pra comer e combustível pra seguir viagem. O resto se vê.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Em Naque, MG, dona Sofia


Devagar, quase na velocidade de uma caminhada, íamos na kombi, olhando. O rio morto estava ali, a vinte metros. Na faixa entre a estrada cheia de terra e o rio, casinhas ao longo, pobres e muito pobres, improvisadas sobre o terreno inclinado, telhados escorados, muros remendados, a vida apertada em todos os sentidos. Uma senhora negra, cabelos brancos, sorri pra nós quando cumprimentamos e responde alto. Paramos a kombi, ela chega pra conversar. É dona Sofia, mora ali há muito tempo, tem filhos criados, morando fora. Ela fala que depois da lama dos rejeitos, a vida acabou. E a samarco? Ela fica séria, parece compenetrada, põe a mão no queixo, olha pro lado como quem não quer encarar e diz "a gente tá com a samarco". A senhora trabalha com o quê? Ela sorri sem responder, uma passagem de insanidade no olhar, tento consertar, vive de quê? Ela retorna à serenidade, me olha cheia de condescendência, ainda sorrindo e ainda sem responder, como se eu fosse incapaz de compreender. Baixo o tom de voz, a senhora era pescadora? Ela abre mais o sorriso, fecha os olhos e confirma com a cabeça, "eu e meu marido". Há uma tristeza forte no seu sorriso conformado. E agora? Ela ergue os ombros, olha pro céu. A mineradora "dá" a ela noventa reais por mês. E tem dado água, pouca, mas tem. Há muitos que não recebem nada. Com os noventa "dados" ao marido, cento e oitenta pra passar o mês. E isso porque ela "tá com a samarco".

A educação pública não merece o nome, é sabotagem e criação de ignorância, fornecimento de mão de obra não qualificada ou de baixa qualificação, pra ser explorada, manipulada, controlada, reprimida e descartável na miséria extrema. Enquanto isso, o sistema de comunicações distorce a realidade, superficializa mentalidades, aliena, induz, condiciona e comete todos os crimes contra a verdade que os interesses banqueiros e mega-empresariais - sempre o mesmo punhado - julgarem "necessário". Isso é o que cria o campo pras "donas Sofias" acreditarem nos parasitas sociais.

Num dos poucos momentos sem sorriso.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Do Bento a Barra Longa

Bento Rodrigues em foto de dezembro de 2015. Desta vez não tivemos acesso.
Bento Rodrigues sumiu. O plano da mineradora se cumpriu. Há anos a mega-empresa pressionava os moradores, queria comprar suas casas pra construir um novo dique de venenos da mineração, além das de Fundão, Santarém e a gigante Germano. Ninguém quis, ninguém aceitou. Todos faziam questão de continuar "no Bento", era um disparate pensar em vender seu espaço, seria como vender a alma, as raízes da vida, seria como vender alguém da família, um pedaço do próprio corpo. A mineradora não desistiu, "os acionistas exigem que se construa mais um depósito de rejeitos em Bento Rodrigues". A Vale do Rio Doce foi praticamente dada de presente pra mega-empresários estrangeiros, que primeiro tiraram o Rio Doce do nome, depois mataram os quase oitocentos quilômetros do vale, deixando um rastro de metais pesados cancerígenos, altamente tóxicos. Toda a vida do meio ambiente morreu e o que sobrou adoece aos poucos, deteriora, se acaba. Milhões de pessoas afetadas, atingidas, feridas de morte. As cifras não correspondem à realidade, os dezenove mortos de Mariana são um punhado dos que morreram anônimos, gente muito pobre que ocupava as beiras dos rios. Garimpeiros, lavradores, criadores de galinhas, cabritos ou porcos, que arrancavam a vida das margens, expostos a enchentes, acostumados com elas. Gente analfabeta, esquecida pela sociedade e pelo Estado, ocupando as beiras em casas de barro, sem energia elétrica. Nos períodos de chuva o nível do rio era observado com atenção, documentos e coisas mais importantes já preparados pra fuga, quando o nível subisse a ponto de ameaçar as casas. Gente disposta a reconstruir tudo, depois que as águas baixavam, que não tinham outra opção, sem terra, sem propriedades. Se aproveitavam das margens, onde é propriedade do Estado, pra fazerem suas moradias, já que a sociedade não cumpre sua lei máxima, determinando que todo brasileiro tem direito à moradia garantido pelo Estado - além de alimentação, instrução, informação, formação profissional, atendimento médico, tudo ignorado, tudo sabotado, revelando a estrutura social como uma organização criminosa contra as populações e a serviço dos poucos podres de ricos que o controlam, parasitas sociais, dos bastidores da farsa política, manipulando suas marionetes e contando com os meios de comunicação como porta-voz, formadores da opinião pública sem nenhuma consciência moral ou social e sem nenhum compromisso com a verdade. No dia da tragédia, não era época de chuva. Todos os moradores estavam em casa, dormindo, sem saberem de nada. A avalanche de lama, troncos, tratores, carros, caminhões, pedaços de paredes, máquinas de todo o tipo, pegou os ribeirinhos de surpresa, pela noite e madrugada.

Os crimes da samarco, e são muitos, podem ser encarados como da natureza de um sistema social empresarista, onde a vida vale menos que a propriedade, que os interesses empresariais, uma sociedade empresarizada, de mentalidade empresarista, infiltrada em todas as áreas, educação, medicina, cultura, transportes, mineração, enfim, todos os setores. Os que falam em "absurdo" têm uma visão superficializada. Não é absurdo, é da natureza do sistema social, que está longe de ter na vida o seu valor máximo. O ser humano está em segundo plano na sociedade que se diz humana, mas ainda não alcançou esse patamar. Não adianta punir a empresa e manter o sistema onde as empresas ditam as normas e violam as leis, se infiltram no poder público e determinam políticas "públicas".

Descemos margeando o rio Gualaxo do Norte, o que leva os rejeitos da mineração vale abaixo. Em 2015 essa estrada estava toda interditada, submersa na lama de rejeitos da mineração. Tivemos que andar distantes, fazendo voltas pra acessar as margens onde era possível. Agora fomos por ela e não perdemos o rio de vista. As marcas de dois anos permanecem nas margens, o nível da lama está marcado nos troncos, muito acima das nossas cabeças, em vários lugares. Pontes arrastadas pela maré dos rejeitos, cheia de troncos arrancados das encostas, foram reconstruídas num único padrão, de ferro e corrimões amarelos. Passamos por várias. Depois da ponte do Gama, seguimos alguns quilômetros errados, pra perguntar numas casas pelo caminho. Quando a dona ouviu pra onde íamos, sorriu e disse "Paracatu de Baixo, a bem dizer, não existe mais". Voltamos e seguimos o caminho certo, passamos pelo povoado destruído, agora o asfalto passa pela antiga rua central, mourões uniformes e brancos cercam a estrada, marcando a lama alta e tóxica, as ruínas vermelhas dão o tom da destruição entre os verdes que cresceram sobre os rejeitos. Apenas no final das casas, numa encruzilhada, encontramos algumas pessoas. Soubemos que restam nove famílias morando ali, nas duas ruas que não foram afetadas. A sensação é de morte de uma povoação.
Fomos adiante, numa estrada que, em 2015, estava intrafegável, seguindo o Gualaxo. Passamos a Fazenda Gualaxo, portentosa, provável estância turística, sem ninguém à vista, tudo fechado, apenas alguns animais presos. Próximas, as casas dos trabalhadores. Entramos em Pedras, passamos Campinas, descemos até a beira do rio numa entrada sem saída onde encontramos um posto de trabalhos, sempre um clima de mistério e máfia, até que relaxam com nossa inofensibilidade. Fora a Carolina Rubinato, nada parece ameaçador. Na verdade, a máquina fotográfica grande é temida pelos funcionários, há um histórico de ocultamentos que deixam os funcionários inseguros, qualquer coisa eles podem se dar mal na empresa, aí se cria um clima de repulsa a tudo o que significa divulgação, a não ser quando vêm com a autorização e a indicação da própria empresa. Aí fazem o que a gente vê na mídia privada.

A ponte caída na estrada real continua caída

As armações pro "conserto" e o marco da estrada real.

Passamos Gesteira, onde nem pudemos ir da outra vez, as pontes haviam caído. Um povoado dividido em dois, depois da enchente de 79, quando muitos foram morar no alto da colina. Gesteira de baixo e Gesteira de cima. A de baixo não existe mais. Ali eu percebi a mesma coisa que depois, em Barra Longa. As árvores tiveram o tronco pintado de branco até o nível marcado em lama vermelha. Bem a cara da mineradora, maquiagem, escondimento, mentira, distorção da realidade, pressões, induções. O aspecto acima da realidade, o cenário montado sobre os crimes.

Assim chegamos em Barra Longa, à noite. No posto de abastecimento, encontramos Sérgio Papagaio, bom amigo, que nos convidou à sua casa. Como em 2015.

Pequena usina de energia elétrica, destruída e contaminada, no Gualaxo, entre Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.
Isolamento e abandono no povoado de Paracatu.

Paracatu - a lama continua no mesmo lugar, o mato tem crescido em cima.
O mato cresceu sobre a lama, nas margens. Mato empesteado.
Mais uma pequena hidrelétrica destruída.
A escola mantém a marca da lama, há mais de dois anos. Ensinos fundamental e médio. Uma creche também foi destruída.
A altura da avalanche está marcada nos troncos de algumas árvores, às margens do Gualaxo do Norte.
Os afluentes, muitos, se atiram limpos no líquido contaminado que corre no Gualaxo.
Na casa de Papagaio encontramos o estandarte levado em manifestações da população. 

sábado, 10 de março de 2018

Viagem preparando viagem

Esta "viagem ao rio Doce" começou no carnaval, mas teve etapas de arrecadação da grana necessária. Subimos a serra pra Visconde de Mauá pra expor no feriadão, descendo na quarta de cinzas pra Penedo, na casa cultural "Não é Hostel", onde rolou palestra, exposição e música. Dali iríamos a Pouso Alegre, MG, expor e palestrar, mas a kombi deu problema e precisou esperar acabar a semana do carnaval pra trocar umas peças. Então fomos direto a Juiz de Fora, à casa Bananal, exposição e palestra, artista pra todo lado. Fomos e voltamos da estrada, dessa vez pra regular o motor, a alimentação de gás, o controle de troca de combustível, troca de velas e da bomba de gasolina. Afinal, estávamos indo pra um mês seguindo o rastro da lama tóxica, os rejeitos da mineração que destruíram a vida do rio Doce, muita estrada de terra, muito buraco e pouca assistência técnica com qualidade. Era melhor ter as peças em bom estado, qualquer problema seria superficial. De Juiz de Fora fomos a Ouro Preto, encontramos o Douglas e expusemos um dia e meio. No meio do segundo a fiscalização surgiu, alguém (com voz de poder) convocara a guarda pra retirar a exposição da rua São José, esquina com a direita, de frente pro fórum (que é cheio de janelas grandes). Fomos à ocupação Chico Rei, dar uma idéia e força à ocupação, que é direito de quem não teve seus direitos constitucionais respeitados pelo Estado,  "apenas" a maioria da população. Claro, a parte mais pobre, sempre, até que essa parte tome consciência de sua força, sua capacidade de carregar o mundo nas costas, sua importância imprescindível na construção, na manutenção, no funcionamento e no financiamento da sociedade como um todo. Então chegamos a Mariana, na casa Pocilga no espaço da Moita, residências estudantis da UFOP em Mariana.
Alice Luz, na loja onde expusemos, brincando com a câmera. 
Última noite no vale das Cruzes. Leo, Eduardo e Ravi no som, na casa de Cláudia.

Primeira exposição, Visconde de Mauá, no carnaval.


Canu, Pedro Pura Luz, Chico, Eduardo, Mariana e Victor. Na casa de Pedro e Adriana ficamos hospedados, no vale das Cruzes.




Não consegui postar o resto das fotos até Ouro Preto e Mariana. Faço a próxima só com essas.
















sexta-feira, 9 de março de 2018

Mentalidade induzida pela mineração

Numa porta da casa que nos recebeu, Pocilga, na Moita.



Até onde pude perceber, o procedimento das grandes mineradoras internacionais seguem certos padrões de comportamento nas relações com o poder público, as populações e o meio ambiente. Sendo as piores poluidoras de todo o sistema industrial, com rejeitos químicos altamente tóxicos, armam o esquema onde se instalam. Financiam campanhas eleitorais de prefeitos e vereadores, pondo na mão os poderes públicos, criam empresas de assistência social, fachadas benfeitoras, influenciam os municípios a desinvestir em outras áreas da economia local para criar dependência econômica. Isso faz as cidades dependerem das mineradoras, que passam a constituir poderes acima dos poderes ditos "públicos". Daí ser comum encontrar pessoas que vêem essas empresas como "benfeitoras", pelo trabalho de publicidade e márquetim intenso e profundo no inconsciente coletivo das populações.

Em Mariana podemos constatar essa realidade. As vítimas do crime da Samarco, que perderam tudo em Bento Rodrigues, são vistas com hostilidade na comunidade marianense. No comércio, quando se apresenta o cartão distribuído pela Samarco para manutenção dos que perderam suas casas, seus trabalhos, seus bens por causa da tragédia, o tratamento muda, o preconceito se apresenta, hostilidades aparecem, má vontade, desprezo e grosseria. Nas escolas, as crianças vindas de Bento Rodrigues são chamadas "pés de lama", numa demonstração perversa da mentalidade implantada. Os ex-habitantes de Bento Rodrigues são responsabilizados pela interrupção dos trabalhos da mineradora. Parece que não se sabe de denúncias, há mais de doze anos, do alto risco desta mesma barragem de Fundão, ignoradas pela empresa, pela fiscalização e pelo poder público. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) tem todos os dados comprovados, além de denúncias iguais sobre mais de sessenta barragens de rejeitos de mineração em todo o estado de Minas Gerais.

A inconsciência coletiva é oferta do sistema social, plantada profundamente pela infiltração mega-empresarial no aparato de administração pública. As vítimas, como é freqüente, são transformadas em "culpadas". A educação apresenta um modelo de ensino empresarista, não humanista, que forma competidores pro mercado e não pessoas preparadas pra integrar harmonicamente uma sociedade onde o ser humano está no centro de importância. A cada passo vejo o interesse empresarial e o patrimônio valendo mais do que a vida, a justiça, os direitos das populações.

Estamos em tempos de percepção da realidade, do acendimento de luzes, da revelação dos mecanismos de funcionamento e controle do Estado, dos chamados "poderes públicos", que jamais fizeram por onde merecer esse nome. Ninguém vai "mudar o mundo", mas o mundo não pára de mudar. Cada um que perceba seus próprios condicionamentos. Ninguém está imune.

Rua Direita, centro de Mariana.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Telefone celular (ou a prisão do privilégio)

Não uso celular, quase nunca. Tenho um, velho, de teclas, sem câmera, que não lembro de carregar a bateria a não ser por algum motivo, um encontro, um evento em que vou precisar encontrar pessoas num lugar que não conheço bem, por algum motivo assim. Fora isso, o telefone fica esquecido no porta luvas da kombi (na verdade um buraco sem tampa furado no fundo), numa bolsa, num bolso da mochila. Às vezes carrego e não adianta nada, ele não atende por falta de créditos há muito tempo, a empresa corta até o recebimento de chamadas.
Tenho motivos de sobra pra não gostar do celular no meu bolso. Ganhei esse que uso há anos e acostumei a carregar sempre, por crédito sempre, usar sempre. Mas fui percebendo que a maioria das chamadas só me atrapalhavam o que estivesse fazendo, com propagandas, anúncios, oferecimentos de "vantagens" de todo tipo, a troco de mensalidades que eu pagaria, "módicas" pra quantidade de "serviços" que me seriam disponibilizados, ou conversas vazias de significado e proveito, repetindo fórmulas sociais, convites inaceitáveis, uma série interminável de inutilidades, entremeadas por uns poucos telefonemas que valiam a pena.
Com o tempo, o sentimento que me despertava o toque do celular no meu bolso, no momento mesmo do primeiro toque, era ruim, desagradável, "putaquilpariu, lá vem encheção de saco". Principalmente quando eu estava fazendo alguma coisa que cobrava atenção e continuidade, ou numa conversa de bom proveito, em algum planejamento ou acerto e a interrupção era inconveniente - a maior parte das vezes, assédio comercial. Então me perguntei, por quê colocar no bolso um troço que vai me causar maus sentimentos na hora que tocar? Não fazia sentido, se não houvesse necessidade.
Desde então, faço minhas comunicações por imeio, pelo feicebuque, por mensagens, no tempo que escolho pra fazer isso. Às vezes estou combinando alguma coisa com alguém pela internet, sem nenhuma dificudade, e a pessoa pergunta "não tem um telefone pra gente conversar?" Uai, por quê? Não estamos nos entendendo tão bem por aqui? Qual a necessidade de falar ao telefone, tem algum problema em escrever? Aliás, não é melhor o papo escrito, pra gente não esquecer nada e, se esquecer, poder conferir os combinados? Realmente não gosto de usar esse troço, de conversar nele, se ficar mais de três minutos começa a esquentar a minha orelha. Celular serve pra marcar encontro e, quando chegar e não encontrar, perguntar onde está a pessoa. Pelo jeito isso não acontece com muita gente, vejo pessoas que passam horas falando no celular, andando na rua, nos ônibus, em todo lugar. Ou feicebuqueando em qualquer lugar, todo mundo de cabeça baixa, alheio do mundo, da realidade em volta.
Aliás é o que me diz Clara. O celular hoje tem acesso à internet, dá pra acessar de qualquer lugar, essa é a vantagem. Eu prefiro usar o computador, o lépi-tope que tenho desde 2015, nos uaifai de estrada, dos bares e da vida, quando estou na rua. Ah, não dá pra usar em qualquer lugar... quem disse que eu quero acessar de qualquer lugar? Gosto de olhar em volta, em estar envolvido no lugar onde estou, de viver a vida material, observar as coisas, as pessoas, os acontecimentos que rolam todo tempo em todo lugar. Na hora de acessar a internet, paro pra isso pelo tempo necessário - ou possível -, e dedico minha atenção toda a isso.
Quando em viagem, é comum ir alguém comigo que tem um aparelho desses, que tem até os mapas pra ensinar os caminhos, não só no traçado do mapa, mas "falando" por onde ir. É ótimo isso, mas quando não tem vejo o caminho no gúgol-méps e anoto as referências em papel. Viajo desde que nasci, chego mesmo sem referências, mas com elas se evitam os erros, as voltas na procura do caminho. E basta. O resto é improviso, criatividade, superação e aventura.
Liberdade é risco. Segurança é prisão. Não é à toa que se chama a pior prisão de "segurança máxima". A segurança do privilégio são as grades, muros e guardas dos condomínios, dos chópincenteres, dos clubes fechados, das bolhas de proteção, fora das quais está o medo, o pavor, a insegurança. Os prisioneiros das grades de ouro não sabem que as algemas de diamantes são mais profundas e difíceis de escapar que as de aço e ferro, porque aprisionam a alma. É preciso desapego pra viver mais em paz, nada é de fato nosso, até o corpo em que vivemos é um empréstimo da natureza e será cobrado, a seu tempo.
Posso ser atrasado, antiquado, ultrapassado, não me importa. Não gosto de celular na maior parte do tempo. Uso pouco, quando quero.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Promiscuidade entre mineração e poderes "públicos"

A mineração é uma atividade pouco abordada pela imprensa - sobretudo a comercial. O poder econômico esmagador das multinacionais desse ramo, no entanto, pode ser percebido nas cidades "ocupadas" por essas mega-empresas, em suas estratégias de convivência, tanto com o poder público quanto com a população das cidades. Seus resíduos são os mais venenosos de toda a indústria, seu potencial de contaminação é elevadíssimo e fácil de perceber, quando a gente não se deixa levar pelas estratégias de márquetim dessas empresas que, se infiltrando no poder público e na vida das comunidades - e se aproveitando da ignorância e da desinformação implantadas pelo estado e pela mídia comercial - e criando mentalidades favoráveis à sua existência com base em distorções, mentiras e omissões.

A mina junto à cidade de Paracatu.

Em Paracatu, noroeste de Minas Gerais, onde o índice de câncer e doenças degenerativas está entre os maiores do mundo, a mina de ouro foi denunciada pelo médico Sérgio Ulhoa Dani no plenário do CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutrição), na Alemanha, num conjunto de notícias estarrecedor pra quem acredita num Estado legítimo em que as relações empresariais se submetem - inteiramente - às leis. Nada vale mais do que o lucro, para o poder econômico, nem mesmo a vida, seja humana ou do meio ambiente. Não é à toa que esse médico foi morar na Suíça. Os capangas das mineradores - empresas de segurança privada - não brincam em serviço e denunciar com repercussões é risco de vida (http://alertaparacatu.blogspot.com.br/2010/12/fala-do-dr-sergio-u-dani-no-plenario-do.html). A mina lá é a céu aberto, a sotavento da cidade, e lança arsênico no ar e  na água em grande escala (cada quilo de ouro extraído significa o descarte de 2.500 quilos de arsênico). Duas universidades, UFMG e a Universidade Técnica de Freiberg, na Alemanha, fizeram coleta de poeira em vinte pontos diferentes da cidade e a proporção de arsênio encontrada levou os pesquisadores a falar em genocídio. Há um documentário francês a respeito desse genocídio: http://paracatu.net/view/7355-documentario-europeu-questiona-acao-da-mineradora-kinross-em-paracatu. Este fala por si. "Ouro é para um punhado de ricos, o que a maioria das pessoas não é. Os pobres devemos nos contentar com o veneno que nos empobrece cada vez mais até matar-nos. Até quando vão abusar da nossa paciência?" Sérgio Ulhoa Dani
Em Jacobina, norte da Bahia, a produção de ouro bruto chegou a 2 milhões de toneladas, o que, limpos, geraram mais de 160 milhões de reais. Em 2008 a empresa anunciou o mais que triplicamento da sua produção. No entanto a população, como sempre, não se beneficiou com isso. "As condições de saneamento em toda a região da Serra de Jacobina se apresentam bastante precárias, com baixos índices de abastecimento domiciliar de água potável e a quase total ausência de sistema de esgotamento sanitário, especialmente em zonas rurais (VALE, 2005)."

http://amazonia.inesc.org.br/artigos-inesc/amazonia-paraiso-extrativista-e-tributario-das-transnacionais-da-mineracao/

Na Amazônia, a coisa é sinistra. Um estudo sobre a tributação mostra o poder e a promiscuidade da mineração com as "autoridades constituídas". http://amazonia.inesc.org.br/artigos-inesc/amazonia-paraiso-extrativista-e-tributario-das-transnacionais-da-mineracao/
Em Mariana - e nos municípios do vale do falecido rio Doce - o procedimento foi o mesmo. Promiscuidade com os poderes públicos, financiamento de campanhas eleitorais que impuseram a redução de investimento em produções locais, tornando os municípios dependentes das mineradoras. Em conjunto com o márquetim e a publicidade mentirosos, formam-se as condições para que, diante da descoberta das falcatruas e prejuízos ambientais e em vidas, a própria população caia na defesa das empresas, em nome dos empregos e dos impostos que "sustentam" os municípios e são parte indispensável da arrecadação estadual - com as relações espúrias com os poderes públicos. Sendo, como são, as maiores poluidoras do planeta, esse é o procedimento comum. Daí ser comum encontrar, em Mariana, grande parte da população "contra" os desabrigados e a favor da empresa - intervenções "benéficas" são propagandeadas na formação da imagem "benfeitora" da Samarco - testa de ferro da Vale estrangeira.
Seria de espantar o silêncio marianense a respeito da destruição causada por essa empresa criminosa - há mais de dez anos eu já ouvia a denúncia sobre a iminência do desabamento da barragem de Fundão -, se não se levasse em conta o conjunto de fatores que favorece este silêncio e a ignorância a respeito do assunto. A sabotagem e o controle do ensino escolar, de modelo empresarista - que tem nos interesses empresariais importância maior que a da vida - formando mentalidades convenientes, e o controle das informações através da mídia empresarial. Além da repressão e difamação de toda denúncia fundada.
No fim das contas, mais importante que a "punição" da empresa - freqüentemente multas alardeadas pela mídia que, ao final, jamais são pagas -, é preciso perceber nosso modelo de sociedade dominada por poderes econômicos, que cria as condições pra que essas coisas aconteçam. Estamos sob poder banqueiro-mega-empresarial com uma fachada democrática falsa, apenas cenários que são comandados dos bastidores, sem que a população se dê conta, levada a crer que está num sistema democrático, que os poderes públicos são realmente públicos e que as leis são feitas pra serem cumpridas por todos. A necessidade de investimento em formação popular, com ensino de qualidade e de modelo humanista, não empresarista - para a constituição de um povo capaz de entender o que acontece e decidir coletivamente - é exatamente o terror desses dominantes, que pressionam permanentemente pelos cortes nos "custos sociais", expressão estratégica que deforma o que seria "investimento" na formação de um povo intruído, informado, capaz de ver a realidade com olhos próprios. 
Estamos numa sociedade que tem no patrimônio um valor maior do que a vida. Isso vai se descarar à medida em que formos descendo o rio morto, antigo rio Doce, o Watu dos Krenak.

Mais uma demonstração de como as empresas adquirem poder sobre os eleitos. Há muitas, o financiamento direto de campanhas eleitorais são tão importantes quanto as campanhas publicitárias e de márquetim. As primeiras, pra fazer do poder público serviçal dos seus interesses; as segundas pra formar a mentalidade geral da população, no controle mental exercido pelo massacre midiático-publicitário. No Espírito Santo como em qualquer parte onde exista interesses e "autoridades":
http://seculodiario.com.br/19686/10/empresas-de-mineracao-dominam-doacoes-a-eleitos-da-bancada-capixaba-no-congresso-1

Em dezembro de 2015, chegando em Bento Rodrigues. Ou no que foi o Bento.

Entrada da fazenda "Cachoeira", em Camargos, o terceiro povoado atingido.

Entre Bento e Paracatu de Baixo, o apocalipse da lama tóxica fez a paisagem.

Em Bento Rodrigues, a imagem simboliza o acontecido.

O tal carro, tão filmado pelos drones da mídia privada.

Entre Linhares e Colatina, o rio morto mata tudo.

Animais perdidos com a destruição, à mercê dela, esmagadora maioria condenada à morte. Os que ficaram vivos.




observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.