quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Poesia (?), textículo e percepção.

Eu dizia que não sei por que existe tanta miséria e ignorância,
nesse mundo tão cheio de violência, medo e ânsia.
Mas quando olho pra riqueza, pra luxos,
ostentações e desperdícios, sinto que sei, sim,
só não gosto de saber.
Não quero julgar ninguém,
mas não posso deixar de perceber
que o ter e o saber são impregnados de arrogância
e a sabedoria do conhecimento é afastada,
pra que a imensa maioria sabotada
não perceba seu poder e importância.

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Diante do quadro social constrangedor, miséria, abandono, ignorância, pobreza, exploração desenfreada e suas conseqüências, violência, criminalidade, angústia geral e frustrações a rodo, vejo direitos respeitados como responsabilidade social e privilégios como obrigações morais de serviço coletivo. Ninguém precisa concordar, mas é assim que vejo.

O usufruto de privilégios, de excessos e riquezas são demonstrações de pobreza de espírito, de indiferença com o sofrimento de milhões, de cumplicidade e conivência com os crimes de Estado cometidos contra a população por uma estrutura social desumana e dominada pelos mais podres de ricos, através do controle do teatro de marionetes da farsa política, a simulação de uma democracia.

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A angústia é companheira inseparável do egoísmo. Por mais que se esconda, é visível. Pra quem tem olhos de ver, claro.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mundo fabricado


Segue a dança das cadeiras no teatro de marionetes. O jogo sujo é descarado, claramente sujo, um jogo de parasitas subalternas fazendo o papel de mandar. Não caio nessa de "fora temer". Fora banqueiros e mega-empresários de cima das instituições públicas - privadas na prática, no escuro dos bastidores. A confiança na ignorância e na desinformação - criadas pelos modelos de educação e pelo controle das comunicações com a mídia privada, globo à frente - faz o descaramento e as mentiras deslavadas desses fantoches de financiadores de campanhas. Esse temer é um merda privilegiado como tantos, por seus serviços prestados na traição das nações brasileiras, na entrega de riquezas, do território, da própria população à exploração dos vampiros mundiais, em bajulação e subalternidade às forças que dominam estados, derrubam governos, controlam a mente das populações.
É preciso enxergar a realidade, profundamente, antes de decidir como agir, pra não se influenciar com os próprios condicionamentos - por exemplo, "lutar" contra um sistema social criador de confrontos, disputas e competições, confrontando suas instituições. Quando alguém fala da minha "luta", esclareço que não tenho luta. Tenho lida, serviço. Não estou "contra" o sistema social, mas a favor de outro sistema, que tenha no ser humano o centro de sua importância.
Os vampiros mundiais põem no tabuleiro institucional os parasitas locais, morcegos, sanguessugas e legiões de pulgas e carrapatos nacionais, em todos os níveis. Estes se entendem e desentendem, subalternamente, sem afetar a estrutura social ou significar nada para as populações.
É preciso que nos juntemos cá embaixo, no alicerce da sociedade, e tomemos iniciativas pra resolver nossos problemas. Quando a periferia se desinteressar do centro, perceber que dali o mais que vem é sofrimento, mentiras, humilhações, promessas e ilusões pra aceitar uma vida sem sentido e não sentir o tempo passando, pára tudo, a estrutura social desaba e se modifica. Quando o ser humano estiver no centro de importância na sociedade, não haverá abandonados, miseráveis, analfabetos. Ignorantes, só os que optarem por isso e serão poucos, se é que será possível. É preciso criatividade, solidariedade, autonomia. É preciso perceber a artificialidade dos desejos, a visão de mundo distorcida, a indução do comportamento e dos objetivos.
Só quando é tarde percebemos o vazio da vida, a desimportância de tudo o que fomos levados a considerar mais importante e a importância do que levamos a vida desconsiderando. Percebendo antes - e confiando nos próprios sentimentos -, podemos mudar esse final e gostar da vida que vivemos, mesmo numa sociedade primitiva como a nossa. E isso muda o mundo pra melhor.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Seqüência da viagem em São Paulo

Em São Mateus, com o Gavião e o Val, achamos um cara que fabrica cabeçotes. Ele tinha um, feito pra motores a gnv, que esquentam mais, reforçado pra segurar sem vazar. A grana dava pra comprar, mas não pra colocar - é preciso retirar o motor pra fazer a troca. Depois andamos por São Mateus, vendo novos e antigos grafites da rapaziada do grupo OPNI.
Clara e o grafite em tela
A sensibilidade sobrevive na barbárie social e se manifesta nas paredes.
O amor feito da dualidade universal, o yin-yang do sentimento, na expressão da menina.
De São Mateus fomos e voltamos no evento da Vila Guilherme, um casarão cultural no momento, administrada pela secretaria de cultura do município. Foi uma casa de fazenda e tem bem o tipo, paredes grossas, teto alto, passagens em arco, escadaria na frente. Um pouco estranha à urbanidade que o tempo trouxe, cercada pelas ruas, casas e construções, absorvida por um novo contexto social, foi transformada em escola por muito tempo, várias gerações estudaram nela. Mas a escola foi fechada, no processo de permanente desvalor à educação, numa sociedade dominada pelos poucos que mais exploram a ignorância, a desinformação, a alienação geral. E por muitos anos permaneceu fechada, abandonada, sem manutenção. Até que a rapaziada do skate, do grafite, da pichação, os socialmente "errados", entraram e começaram a fazer atividades ali dentro. A repressão não podia se fazer de rogada, rolou direto. Mas contatos com advogados amigos, apoio de pessoas que se relacionavam com as instituições ditas "públicas", desinteresse mega-empresarial (ausência de "pressóes irresistíveis" ao sistema social), vários fatores combinaram pra que o casarão cultural se fizesse. Claro, com a imposição da administração "pública". O espaço foi conquistado, mas quem administra é o Estado. 

A exposição e a palestra rolaram em sintonia.

A casa imponente dá idéia do que deve ter sido, como sede de uma fazenda, provavelmente, de café.
A conversa começou mais cedo que o marcado, porque já tinha gente esperando e a exposição estava armada ao lado.
Essa era a sala ao lado. Bueno, ainda é.
Foi chegando mais gente, tivemos que trocar de sala, pro segundo andar. Teto mais alto, antiga área dos mais "nobres".
Um dia depois fomos pra Santos, não sem antes comprar dois cabeçotes pra kombi. Era o que tinha faltado na garibada dada em Inhaúma no motor, que foi aberto e tratado nos seus meandros mais profundos. A grana não dava. Na viagem arrumamos e, "coincidentemente", em São Mateus conhecemos o Walter, que fabrica cabeçotes e tinha feito um tipo exclusivamente pra motores movidos a gás natural veicular (gnv). Compramos e levamos, Walter nos indicou uma mecânica que lhe encomendava cabeçotes, do patriarca seu Miguel, seus filhos com ele e todos com mais de quarenta anos, mais os mecânicos que trabalhavam com eles, na Praia Grande. "Gente honesta" foi o código, a senha pra seguir a indicação.
O convite pra Santos foi de Rodrigo Santo, parceiro nas movimentações de palestras e dações de idéias pra coletividades diversas, dentro do sistema social de enquadramento pela educação. Figura ímpar, arrumou todas as condições pra passagem pela baixada santista, que desenrolou depois em outros acontecimentos, de domingo em diante.

Na saída de Sampa, o cinturão de sempre, dos imprescindíveis que fazem a cidade funcionar, sem ter acesso à consciência dessa realidade, da sua importância no cotidiano social. A foto, obviamente, é da minha parceira amoramante, Maria Clara.
A palestra na escola periférica foi de bom proveito, com muitos olhos brilhantes. Contra as condições, vocacionados dão seu jeito.                 Foto - Pedro Céu
Com essa cara de maluco, inda vou escrever um texto e fazer teatro. História pra contar não falta. Será que é teatro ou contação de histórias?                 Foto - Pedro Céu
Exposição no Gonzaga.   Foto Pedro Céu
Rodrigo Santo é esse de barba, ele que arrumou a licença pra expor. Foto Pedro Céu.
Palestra rola sempre. Foto - Pedro Céu.
Depois dos eventos ficamos por Santos. O domingo acabou numa periferia de Guarujá, em casa de amigas, segunda fomos pra São Vicente, depois de rara praia. Terça era a hora dos cabeçotes e aí começa uma outra história. Na oficina do seu Miguel encontramos Rildo, que montou os cabeçotes no lugar. De caprichoso, apertou demais as válvulas, eu vi, mas como sou inguinorante na mecânica, não disse nada. Saímos dali pra subir a serra e nas subidas o problema se mostrou. A potência caiu e tivemos que parar algumas vezes pra esfriar o motor. Na primeira parada no acostamento, o guincho da via apareceu pra oferecer a volta pra Santos. Recusamos ligando o motor, que funcionava perfeito. O cara foi embora e seguimos viagem até uma subida longa onde a segunda não tava mais dando. Paramos na entrada de um túnel e abrimos o motor pra esfriar mais uma vez. Até fumaça tava fazendo.
Serrando um parafuso grande pra ficar no caminho do eixo das várvula, o balancim.
Edson Estrada, o guincheiro, apareceu pra salvar a situação. Até passeio turístico no Museu do Ipiranga ele nos proporcionou, nos deixando em frente à casa dele, no Ipiranga, com caminho certo e fácil pra São Mateus.
O motor estava ótimo, mas não subia, aquecia. Nem um pingo de óleo. Edson do guincho parou sem a gente pedir, opinou sobre o motor, "tá bom o barulho, o motor tá ótimo". Contei sobre a troca de cabeçotes, ele concluiu que apertaram demais as válvulas, perigava o superaquecimento, era preciso regular melhor. O problema era a subida. E ele resolveu isso levando a gente até o centro de São Paulo, na porta da casa dele, de onde pra São Mateus eram pouco mais de quinze quilômetros. Chegamos e estamos. Amanhã Celestina vai ter as válvulas reguladas. Seguimos.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Um caminho em São Paulo

Saímos na quarta à noite e quinta estávamos em São José, expondo e conversando na Clínica Espelho Mágico - seu reflexo interior, com Denise e Haedyl na pilotagem do encontro. As fotos falam mais e o vídeo também.
Celestina, a kombi, fecha o ambiente na entrada.
E papo rola...
Roquenrou observa a exposição da janela do
quarto.
Gente chegou e saiu, todo o tempo.


Na sexta fomos pra Guarulhos, chegamos à noite e baixamos a exposição na Praça da Matriz. Dia seguinte fomos pro evento no Esco Bar, com música e exposição de vários artistas e artesãos.

No Esco Bar, exposição variada.
Atenção e participação não faltaram.
A Matriz está aí. E nós também.



A viagem segue, amanhã na Vila Guilherme. Estamos agora em São Mateus, em casa de amigos, e partimos pra Santos na quinta-feira, onde ficamos até pelo menos domingo. Depois seguimos viagem, rumo Itapetininga. A rota está sendo feita na caminhada, temos um plano geral e devemos estar em casa no princípio de agosto, pra recomeçar a produção. Temos no caminho Campinas, Ribeirão Preto, Franca, Belo Horizonte, Juiz de Fora já a caminho de casa. Nada planejado, vai depender de convite pra expor, depender dos lugares e possibilidades. Somos em quatro, mais uma kombi sem tranca.
Temos Piracicaba, Tatuí, Limeira no caminho, semana que vem, sem convite pra nada ainda. O plano era ir até Ribeirão Preto, em princípio. A ver o que rola. Coletivos são prioridade, mas vender também é, até pra seguir viagem e resolver as coisas da vida que exigem grana.   

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A viagem decorre entre imprevistos e programações imediatas. Passamos por Volta Redonda, onde houve palestra e exposição. Conhecemos Max, o adestrador de cães, que nos arrumou uma consulta pro Roquenrou onde foi diagnosticada "alergia a pulgas", uma contradição pra um cachorro encontrado nas ruas de São Paulo. Medicamento caro, foi dado o derrame na grana das vendas. Dias depois ele parou de se coçar, já em Belo Horizonte, onde chegamos de manhã, depois de uma noite na estrada. Na madrugada, passando pela região da mineração de ferro, uma chuva forte marcou a kombi com o vermelho do minério - Celestina estava limpinha por um dos raros banhos, antes de sair de casa.
UFF, campus da Vila, em Volta Redonda.

Expusemos por dois dias na Praça Duque de Caxias, em Santa Teresa belorizontina, com bons encontros, conversas e vendas. Na terceira, encontramos a praça imersa em festa de São João, lotada, e não pudemos expor.

Fomos a Florestal, num campus da UFV (Viçosa), e fizemos exposição e palestra,

Voltamos de Florestal pra Contagem, onde fomos recebidos por William e Amapola, no dia anterior à exposição no Viaduto das Artes, no Barreiro. A exposição em si estava ótima, as artes cheias de sentimento, pinturas belas nascidas no coração dos artistas que estavam lá. Fui recebido como extra, entrei com a kombi e expus do lado de fora. Achei que o evento merecia maior público, pela qualidade, pelo nível da abordagem social, pelo engajamento e denúncia das injustiças cotidianas, das pressões e insatisfações em uma sociedade mentirosa, criadora de miséria e ignorância, que abandona pessoas e viola suas próprias leis.



Florestal foi uma das paradas nesta viagem centralizada em Belorizonte. Agora estou sem internet, na casa que está em obras, preparando viagem ao estado de São Paulo, durante o mês de julho. Começaremos por Sampa, estendendo pra Santos e, depois, por outras cidades até a fronteira com Minas.

Esta comunicação é pra dar satisfação aos que estão esperando o contato pra viagem, pra saber por onde vai o caminho. Vai desse jeito, improvisando no dia a dia. Não podemos saber como vai a kombi, ou dos percalços do caminho. Mas vamos assim, desse jeito.

Na seqüência de São Paulo, vamos terminar por Minas, no final do mês.

Comunico mais por aqui. E também pelo feice, https://www.facebook.com/eduardo.marinho.3152, meu feice pessoal.

sábado, 17 de junho de 2017

Panorama da falsa república

Logo depois da "abolição" da escravidão, Monteiro Lobato apresentou ao senado brasileiro, recém republicano, um projeto de alfabetização das vítimas escravizadas por tanto tempo, numa forma de resgate desse crime social. E ouviu, na lata, algo como "ô, Lobato, tá maluco? Se alfabetizar essa negrada, quem é que vai pegar no cabo da enxada?" O projeto foi desprezado e a escravidão, desinstitucionalizada, permanece em essência até hoje.

Em 1954, Getúlio Vargas estava cercado, difamado pela mídia, ameaçado de golpe, o "manifesto dos coronéis", afinado com os interesses econômicos das elites estrangeiras e nacionais, ameaçava a derrubada inconstitucional do governo. Ele havia cometido várias "heresias" para essas elites - ensino público gratuito e obrigatório para todos os brasileiros (até então o analfabetismo grassava entre os mais pobres), atendido as já velhas reivindicações trabalhistas de oito horas de jornada de trabalho, férias remuneradas, licença maternidade e outros, revoltando os patrões e, heresia das heresias, mandado investigar a tal "dívida externa" que, reveladas as falcatruas, caiu pra 40% do seu total. Independente da sua índole centralista e tirânica, Getúlio catalizou o ódio das elites estrangeiras e sua subalternidade brasileira e, pra evitar o golpe, cometeu um suicídio político que acuou os golpistas com o levante revoltado das massas populares que o adoravam.

Em 61, Paulo Freire, durante o governo João Goulart, foi convidado pra fazer um programa piloto de alfabetização de adultos, no interior de Sergipe. Cinquenta lavradores analfabetos foram alfabetizados em seis meses, a ponto de lerem em voz alta. A partir daí ele foi chamado para o ministério da educação, pra realizar o mesmo programa a nível nacional, com a finalidade de extinguir o analfabetismo no território nacional. Heresia recebida com ódio pelas elites, somada a outras que levantavam a histeria dos parasitas podres de ricos, como o incentivo à formação de associações de trabalhadores e sua organização na defesa contra os abusos patronais, a lei que limitava a remessa de lucros para o exterior por empresas estrangeiras instaladas no país e, heresia das heresias, decretou a reforma agrária, desapropriando dez quilômetros de cada lado de rodovias e ferrovias federais pro assentamento de pequenos agricultores familiares, facilitando o escoamento da produção, ligando o produtor, que ganharia mais, ao consumidor, que pagaria menos, eliminando as figuras dos atravessadores que encareciam os alimentos. Os mesmos coronéis que ameaçaram Getúlio, então generais, deram o golpe planejado, conspirado e articulado na embaixada dos Estados Unidos pelo então embaixador Lindon Gordon, que fez a quarta frota estadunidense sair carregada de armamentos e soldados pra iniciar uma guerra no Brasil como a do Vietnam, contando com as ações das elites locais, sempre traidoras do seu país e desprezadoras do seu próprio povo. Jango, sabedor dessas ações e intenções, não reagiu ao golpe, "pra evitar o derramamento de sangue de milhões, numa guerra fratricida", como ele mesmo disse. Sozinho, rejeitado pela arrogância da esquerda - como latifundiário e "lacaio" do capital, incapaz das mudanças sociais que só ela seria capaz - não encontrou apoio e seu governo foi derrubado, como disse Darcy Ribeiro, "não pelos seu erros, mas pelas suas virtudes".

Os militares, instalados no poder governamental, cumpriram a agenda programada. Destruíram a educação pública, incentivando a privada, perseguiram e destruíram sindicatos, associações e organizações populares, varreram das universidades todos os professores que tinham alguma preocupação social, com as injustiças históricas, com a miséria, a pobreza, a exploração, a ignorância e a desinformação, com a formação verdadeira de um povo mais evoluído em suas percepções e relações sociais. E pra ocupar os vastos espaços vazios, a Fundação Ford, de conhecido banqueiro estadunidense, se instalou em território nacional na "boa" intenção de formar professores universitários. Foi daí que começou a se formar a mentalidade empresarial que hoje submete o ensino acadêmico, a desumanização dos cursos, a maldade explícita que favorece os favorecidos e sacrifica as multidões historicamente sacrificadas. Ao mesmo tempo se desenvolvia o império midiático, com a Time-Life equipando a Globo golpista desde sempre, destinado a formar mentalidades, valores, comportamentos, desejos, objetivos de vida, relações sociais. E determinar "inimigos", comunistas na época, "terroristas" atualmente, sempre inimigos pra justificar os crimes contra as populações.

(https://www.youtube.com/watch?v=SaU6pIBv9f4https://www.youtube.com/watch?v=AVCoVVpVMTo)

É demonstrativo perceber que, mesmo numa casa pobre onde se encontra dificuldade até pra comer, se encontra uma televisão, com toda sua psicologia do inconsciente, programando mentalidades. É a estratégia do controle mental, direcionado a cada classe social com seu linguajar próprio, especialidade da mídia que as esquerdas nunca tiveram. A mídia inimiga fala a língua do público, em sua sedução criminosa baseada em mentiras, distorções e induções.

Quando os militares começaram a apresentar nacionalismos "incômodos" - a iniciativa de povoamento da amazônia, o reconhecimento da independência de Angola, mesmo levada por uma guerrilha socialista, o investimento no desenvolvimento de tecnologias nacionais,... - , começou-se a armar a "redemocratização", na verdade a remontagem da farsa da falsa democracia de sempre, com as instituições todas sob controle, infiltradas e dominadas pelos poderes financeiro-econômicos anti-populares. Tudo corria dentro do previsto, inclusive quando foi eleito o partido dos trabalhadores, devidamente "esterilizado" da influência popular e lavado das suas correntes mais coerentes com o programa do partido, para conter os movimentos populares que, redivivos, estavam em efervescência. Como planejado, esses movimentos se acalmaram e acomodaram, na ilusão de que "chegamos ao poder", sem considerar que os governos, há muito, não são o poder, mas sim manipulados pelo verdadeiro poder, o do punhado de parasitas sociais podres de ricos internacionais e nacionais. Mas os efeitos colaterais - pobres nas universidades, ascensão de parte da pobreza à capacidade de consumo de classes médias, menos miséria e desabrigo, adesão ao princípio de integração latinoamericana, informações escapando do controle midiático,... - levaram à derrubada desse partido, descaradamente de forma ilegal, com o judiciário elitista dando nó e desprezando leis com malabarismos jurídicos incompreensíveis ao cidadão comum confundido com as campanhas de ódio e difamação pela mídia privada.

Agora estamos vendo a extensão do programa de subalternização acelerada da totalidade institucional, e o povo se ferrando sem entender o que acontece, ignorantizado, desinformado, inferiorizado e enganado. A coisa toda é muito simples e fácil de entender quando se olha a situação de degradação social em que nos encontramos.Fecham-se as portas do conhecimento pras classes "inferiores", exterminam-se programas de inclusão social, ataca-se o ensino público mais uma vez, eliminam-se vagas nas escolas, ao mesmo tempo em que se constróem presídios que se pretende privatizar pra gerar lucros com os milhões de presos que essas atitudes vão criar. O futuro se apresenta escuro. Mas é na escuridão que se percebe o valor da luz. O sofrimento programado está a caminho, para além do sofrimento cotidiano das multidões. Na minha opinião, isso não vai ficar assim. Questão de tempo pra assimilação da realidade, no seu cotidiano.

Estamos trabalhando, os humanos, contra a desumanidade dos vampiros sociais que, cegos em sua arrogância, não sabem com quem estão tratando. As periferias estão, muito pouco a pouco, se ligando e tomando suas atitudes, de forma embrionária e despercebida. São os debaixo, os formadores inconscientes do alicerce da sociedade, quem vai impor as mudanças necessárias à harmonização social. Em seu tempo, que leva gerações, o que desespera os apressados condicionados ao sentimento de superioridade que desejam "conduzir as massas", na permanente pretensão dos declarados "revolucionários", que temem as favelas e não entendem nada do povo de verdade, nem falam uma língua que se entenda no chão da coletividade.

Quando se enxerga o panorama histórico, não há "absurdo" ou "retrocesso", mas a continuidade do programa estabelecido pelos inimigos de sociedades justas, pelos exploradores e mantenedores fervorosos da ignorância, da miséria, da desinformação que permitem a exploração desenfreada da população e dos recursos nacionais, as poucas dinastias de podres de ricos, verdadeiros demônios da humanidade. É preciso enxergar a realidade antes de resolver como agir, como participar da maneira que se quer, e não da forma programada pra ser ineficaz, impotente e cênica.

Quem pretende mudar o mundo está induzido pelos condicionamentos do sistema social escravista, inoculado de sentimentos falsos de superioridade sobre o povo roubado em seus direitos fundamentais. É preciso quebrar esses pedestais de vidro, artificiais e segregadores, criadores de distâncias que impedem a união solidária do saber da academia com a sabedoria das vivências sabotadas, que tem origem no sofrimento e na superação de dificuldades que nenhuma outra classe tem.



sábado, 10 de junho de 2017

Ravi, 29 anos.

Num dia com os números de hoje, em 1988, fomos de Prudente de Morais, cidade com três mil habitantes na sua área urbana, norte de Minas, pra Sete Lagoas, no fusca do prefeito de Prudente, por um motorista da prefeitura - a ambulância estava noutra missão -, onde havia uma maternidade. Às oito em ponto da noite, nascia Ravi, aos oito meses de gestação, de bunda. Moramos em Prudente durante quatro anos e depois fomos pra Visconde de Mauá, quando passei a morar só com meus filhos. De lá pra cá, tanta água passou debaixo desta ponte...

Hoje eu lembro da história. Uma história de muitas histórias. E ele é um homem vivendo.

sábado, 3 de junho de 2017

Investimento em escolas decentes, não em presídios.

Duvido que houvesse tanta oferta de crianças, adolescentes e jovens pro crime se as escolas fossem boas, se o investimento em educação fosse prioridade, como no tempo dos CIEPs. As crianças faziam questão de ir pra escola, exigiam dos pais mais relapsos. Havia café da manhã, almoço, lanches e janta, banho e escovar os dentes antes de entregar aos responsáveis, no fim do dia. Além de aulas tinha música, teatro, esportes, artes, havia interesse na formação integral e os resultados eram visíveis. A criminalidade nunca foi tão baixa, reduzida às bocas de fumo localizadas, assaltos eram raros, os índices eram muito mais baixos. A fábrica de escolas construída na época permitia a montagem em concreto armado de uma escola em um mês ou pouco mais, pra quinhentas, mil, mil e quinhentas crianças, conforme a necessidade local.

Escolas assim, interessadas na formação do ser humano como um todo, formam um povo mais instruído, mais esclarecido, mais capaz de pensar por si, mais difícil de se conduzir com mentiras, promessas e sorrisos. Daí a sabotagem do ensino público, na criação de ignorância, daí o enquadramento do ensino privado e do acadêmico em valores empresariais, apresentando o mundo como uma arena competitiva, um campo de batalha onde se deve vencer, e não como uma coletividade que tem, ou deve ter como objetivo a harmonia, a paz social, a inclusão e o cuidado de todos para com todos. 

Isso deve parecer impossível, nas determinações dos poderes sociais, os econômicos - exercidos sobre o aparato estatal e sobre as mentes formadas, induzidas e controladas com valores, comportamentos, objetivos de vida, desejos programados, visão de mundo distorcida. Acreditamos num monte de mentiras e, no fim da vida, temos a sensação de ter vivido em vão. Enxergar a realidade implantada dentro de si é o primeiro passo pra ver e pensar além do condicionado. E é fundamental na mudança de valores, de comportamentos, muitas vezes de coletividades - e muda o mundo, a vida, os gostos, os sentimentos em viver.

Me parece constrangedoramente óbvio que se o Estado investisse na sua população o que é de direito constitucional, os artigos básicos dos direitos humanos, a criminalidade cairia verticalmente. Como é também constrangedoramente óbvio que se vejo esse mesmo Estado fechar turnos e escolas, reduzir espaços e superlotar salas, desfazer programas que abriam portas de estudos a pessoas da parcela enorme sem condições de pagar, enquanto investe na construção de presídios, vejo as intenções que movem essas atitudes. Percebendo o processo de privatização do sistema carcerário, a fecha o quadro. Quem pretende diminuir a criminalidade não constrói presídios, investe em escolas, no ensino, na população. Prisões são escolas de crimes e se relacionam intimamente com a sociedade, todo o tempo, profundamente. Dorme quem não vê. A criminalidade se entranha em todos os níveis da sociedade, com a mídia como seu porta-voz, condutora da mentalidade, distorcedora da realidade, controladora das informações, malabaristas de verdades fabricadas. 

Refugiados do Desenvolvimento - filme



Uma sociedade comandada pelos interesses de poucos bilionários, com apoio dos milionários locais, sempre às custas das populações, de exploração, expulsão, criminalização de resistências, mortes e perseguições. Uma sociedade criminosa, um Estado seqüestrado pelas forças econômicas que clamam por desenvolvimento econômico - sem eliminar a miséria, a pobreza, a ignorância e a desinformação das multidões -, que louvam o desenvolvimento tecnológico - devidamente patenteado, negado à maioria e usufruído por minorias privilegiadas. Uma estrutura social baseada na competição, no confronto, na disputa, na busca frenética de lucro, consumo e propriedade, nas mentalidades artificialmente criadas em laboratórios de pensamento e implantadas pela mídia - com o apoio do modelo distorcido e tendencioso imposto ao sistema de educação, que marginaliza professores humanistas e vocacionados, que influencia a própria formação destes de acordo com interesses empresariais. Um modelo social de causar vergonha e revolta a qualquer espírito desejoso de harmonia social e minimamente consciente do que acontece na realidade, naturalmente inconformado com as gritantes injustiças e perversidades naturalizadas e costumeiras no cotidiano coletivo.

Uma sociedade criadora de "lixo humano", perpetuadora de "escórias", criminalizadora das suas próprias vítimas, contadas às centenas de milhões, bilhões em escala planetária.

Este filme mostra um pequeno pedaço, uma amostra de conseqüências humanas de uma estrutura social "naturalmente" desumana.

https://vimeo.com/160568538

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O fazendeiro de Linhares e o massacre de Pau Darco


Mais um massacre, mais uma história na barbárie rural que sempre houve, desde a chegada dos europeus. Eu estava em viagem, a vida tomada, quando soube do que aconteceu em Pau Darco, no Pará, um dos estados que conta mais mortos entre camponeses e indígenas, sempre em nome de interesses econômicos, madeira, criação de gado, monoculturas, a grana sempre valendo mais que a vida, característica do modelo de sociedade em que vivemos, ainda com muito pra evoluir. A harmonia social tem custado muitas e muitas vidas, sobretudo com a invasão e o domínio europeus em todos os continentes, impondo com armas uma civilização que nunca foi chamada pelos povos.

Lembro de uma vez, em Linhares, já com a mãe dos meus filhos mas ainda sem filho nenhum, passávamos a caminho da Bahia e paramos num puteiro pra dormir. Já sabíamos que nessas casas encontrávamos sempre uma boa solidariedade, vendíamos nossas pulseirinhas ainda toscas, arrumávamos o que comer barato ou mesmo de graça e dormíamos da mesma forma. Entramos, vendemos, conversamos, comemos e bebemos, quando chegou um fazendeiro conhecido, freqüentador, falando alto e centralizando as atenções. As meninas o tratavam com toda deferência - esse aí gasta muito quando vem - e ele parecia em casa. Nos olhou com curiosidade - éramos de fora e estávamos de passagem - e puxou conversa. Logo o papo corria solto e ele demonstrou uma grande simpatia por nós. Chamou pra jantar e nos levou a um restaurante chique, do outro lado da cidade. Coisa rara, fomos comer comida cara. Entre piadas e relatos - que eu ouvia atento - ele mencionou uns "vagabundos" que tinham "invadido" uma área esquecida e distante das suas terras, tão distante que quando ele ficou sabendo já estavam roçando e fazendo hortas. Um funcionário foi quem trouxe a notícia e ele resolveu o assunto a bala, como é características dos fazendeiros ricos, pelo que pude ver nos territórios onde andei. Era um cara grande, peludo, meio ruivo, e parecia ter gostado muito de nós. Falava alto e contava histórias, eu estava na época das pesquisas antropológicas de rua, a partir de um ponto de vista que nunca vivera, o de quem não tem nada. Não julgava, apenas ouvia e guardava minha opinião ainda em formação, sem conclusões definitivas.

Numa certa altura do jantar, ele viu um camburão da polícia local passando, acenou gritando e a viatura parou. Ele saiu da mesa e foi até eles, mandou os soldados descerem - pra meu espanto, desceram todos - e me chamou, "vem cá, Eduardo, agora cê vai dirigir camburão". Obviamente eu me recusei, na repulsa natural de quem se via hostilizado por aquela instituição cotidianamente, olhado com desconfiança, tratado com agressividade e tomando geral com freqüência. Ele insistiu, diante dos olhares contrafeitos dos policiais, que me viram cabeludo, de barba rala, cara de hippie, típico "inimigo", embora pacífico e desarmado. Pro alívio deles, mantive o pé dizendo, "aí eu só entro contra a vontade, e é lá atrás". Mas fiquei intrigado com a intimidade, com o poder que um civil tinha sobre os militares. Era o primeiro esboço da promiscuidade entre os poderes econômico e público. Ao longo do tempo, pude "apreciar" esse conluio, essa cumplicidade, muitas e muitas vezes.

A brutalidade do cara, embora a simpatia por nós, já estava me dando uma certa repulsa pessoal, a agressividade era evidente mesmo no afeto demonstrado por nós. Um afeto que eu intuía muito próximo de se transformar em raiva, por qualquer motivo que o desagradasse. Ele nos deixou de volta na casa das meninas, mandando cuidar bem da gente e prometendo voltar no dia seguinte, pra nos levar a uma das suas fazendas. De manhã cedo, tratamos de pegar a estrada e partir antes que ele chegasse.

Lembrei desse encontro, depois do massacre no Pará, na percepção de que os donos de terras sempre contaram com violência armada, com jagunços, "seguranças", sempre expulsando os camponeses ou os povos originários, seja das "suas" terras (nem sempre legais), seja de terras cobiçadas. E isso se aplica a empresas também, a Aracruz Celulose (hoje Fibria) também teve, segundo a mídia, a resistência dos indígenas quando instalou sua fábrica na Barra do Riacho, Espírito Santo. Na televisão saía que os "índios" tentavam impedir o desenvolvimento do estado. Depois eu soube que houveram vários massacres e, por fim, os indígenas foram dispersados a tiros. Os remanescentes que conseguiram fugir a tempo se reuniram sob a tutela da Funai e, vinte anos depois, constituídos em associação, conseguiram o "direito" de ocupar uma pequena área do que era seu e foi tomado. Imediatamente a empresa acusou o "absurdo", afirmando que ali nunca haviam existido originários e levantando uma enorme placa publicitária na estrada, dizendo "A Aracruz trouxe 1.500 empregos. A Funai trouxe os índios". É a canalhice criminosa que constitui a nossa sociedade.

O massacre do Pau Darco marca mais uma ação genocida no território nacional, pra vergonha de todos nós, imersos em valores falsos, induzidos a comportamentos e mentalidades que alimentam esse formato de sociedade, na visão de mundo produzida em laboratórios de pensamento e implantada pela mídia - como dizia Milton Santos (no filme "Conversas com Milton Santos - a globalização vista pelo lado de cá", do Silvio Tendler, documentário importante pra quem quiser formar uma visão de mundo própria, fora do padrão superficial que nos é imposto).

A barbárie social predomina, em áreas urbanas e rurais, em toda parte. A ação da polícia de Pau Darco, sob as ordens de um juiz local, não é novidade alguma. Vi o ódio das forças de segurança muitas e muitas vezes contra os pobres, urbanos ou rurais, que não se conformam com as injustiças que sofrem no cotidiano. Pelo que vejo, está carimbado na mente desses agentes que pobre tolerável é o de cabeça baixa, conformado em seu sentimento de inferioridade e impotência, agradecido por ser explorado e maltratado pelo sistema social - que é a "vontade de Deus", fazer o quê, né... Pobre que levanta a cabeça, questionando a injustiça social, reivindicando direitos constitucionais, é comunista, subversivo, inimigo da sociedade e da "democracia" - essa farsa absurda que descara o poder econômico, do mercado financeiro, do latifúndio, dos bancos e mega-empresas, sempre um punhado de parasitas podres de ricos que compram os candidatos em suas campanhas eleitorais e determinam as bases das políticas falsamente públicas.

Toda solidariedade às famílias dos assassinados, que ao menos se perceba como funciona esta sociedade anti-humana onde o patrimônio e o lucro valem mais do que a vida - não só a humana, mas todo o tipo de vida, o meio ambiente, as águas, as florestas, os micro-organismos, toda a base biológica da harmonia natural, da saúde do planeta. Uma sociedade injusta, perversa, covarde e suicida - em benefício de pouquíssimos e em prejuízo de todos nós.

http://apublica.org/2017/05/pau-darco-urgente-testemunhas-oculares-do-massacre-reforcam-tese-de-execucoes/

https://outraspalavras.net/deolhonosruralistas/2017/05/25/massacre-de-pau-darco-liga-dos-camponeses-diz-que-fazenda-fica-em-terra-publica/

http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/12586-pobre-para

Aqui se vê retrocesso no procedimento padrão, continuado, permanente desde a invasão européia. A Carta Capital é a esquerda de elite acadêmica, natural a visão sem pé no chão, embora também valiosa nas buscas de informação: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/para-sangrento-para

Na visão esterilizada da Globo, se vêem alguns elementos dispersores, embora os fatos sejam inegáveis e contundentes. Representantes de movimentos sociais continuam afirmando que a polícia é "despreparada", cegos ao fato que ela é preparadíssima pra fazer o que faz, que as forças de segurança existem contra os mais pobres desde sempre, porque são criadas pelas elites e não pela população. A necessidade de mídias independentes dos interesses comerciais se apresenta como pra "...enfrentar a guerra de comunicação e disputar a narrativa dos acontecimentos nas mídias sociais e alternativas para fazer frente a alguns parlamentares, comunicadores e grupos de policiais que estão incentivando a violência e criminalizando os trabalhadores assassinados" que estão incentivando a violência e criminalizando os trabalhadores assassinados". A mídia não pode assumir que esta é a pauta rotineira do seu "trabalho de comunicação", favorecer sempre a concentração de riquezas e poder, numa sociedade pobre de espírito. Taí: 
http://g1.globo.com/pa/para/noticia/vigilia-denuncia-violencia-no-campo-uma-semana-apos-chacina-em-pau-darco.ghtml

https://www.brasildefato.com.br/2017/05/31/chacina-em-pau-darco-tem-as-mesmas-raizes-do-massacre-de-carajas/

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Sobre o sistema jurídico da nossa sociedade

O foco do vídeo é o caso do Rafael Braga. Simbólico, retrata o funcionamento do sistema jurídico do país - que não se pode chamar de "justiça", porque trabalha por interesses, não por justiça. As escolas de direito formam malabaristas de leis, não agentes de justiça. Não há justiça institucional numa sociedade tão evidentemente injusta. Sem ingenuidade. Rafael, desabrigado, vítima de crimes do Estado, crimes sociais, como tantos milhões de brasileiros, foi preso num momento em que a polícia combatia manifestantes e tinha a incumbência de prender "vândalos", "baderneiros", na estratégia de criminalização das manifestações, como dar porrada nos grupos encurralados, atirar bombas e balas de borracha. Rafael não participava dos movimentos de protesto, ele passava numa rua próxima e viu, através de uma vitrine quebrada, um vidro de pinho sol e uma garrafa plástica de água sanitária. Lembrou da tia, morando em lugar insalubre, e pegou pra levar, colocou na mochila e seguiu em frente. Na primeira esquina deparou com o furdunço da fumaça, dos tiros, dos gritos e da correria. Ele estava atrás do pelotão policial que atacava os manifestantes e foi visto por um dos agentes. Mestiço, roupas pobres, foi interpelado imediata e agressivamente, enquadrado e revistado. A ordem era prender "vândalos" e o pinho sol com a água sanitária foram pretextos, quando o motivo era a condição social de Rafael. Qualquer um servia, melhor ainda pobre, preto, desabrigado e, pra "sorte" dos algozes, depois se descobriu que tinha uma passagem por furto - o que não é difícil, quando se vive na miséria dentro de uma sociedade francamente hostil aos miseráveis.

Há incontáveis casos igualmente simbólicos, embora pouco ou nada divulgados. 

A mulher que, abandonada pelo companheiro e com filhos pequenos, saiu a procurar emprego, deixando os filhos com uma vizinha - a quem destinaria parte do seu mísero salário de desqualificada. Estava sem água em casa e era repelida nas tentativas, por estar com mau cheiro. Entrou num supermercado - mal vestida, foi seguida - e usou um desodorante da prateleira. Antes que pudesse recolocar o desodorante de volta, se viu agarrada pela segurança, presa pela polícia e condenada em julgamento sumário a cumprir pena de cadeia. Seis anos depois, foi encontrada por uma dessas missões de advogados - geralmente em início de carreira - que acreditam no direito, e finalmente solta. Seis anos sem estar com os filhos, seis anos fora da vida, seis anos no inferno. Pelo uso de um desodorante, na intenção de encontrar trabalho.

O cara que, preso e condenado "por engano", inocente como se provou anos mais tarde, saiu da penitenciária contaminado com aids, em Belém. Inúmeros casos semelhantes, em que pobres pagam por crimes que não cometeram, ou são presos por pequenos delitos e se transformam em assassinos, vinculados a facções criminosas por uma questão de sobrevivência no cárcere.

Um sistema jurídico escroto, onde juízes se sentem deuses e dispõem de vidas com base em seus preconceitos sociais, pouco se importando com as conseqüências de suas decisões, destruindo vidas já sofridas, "inferiores sociais" que, na verdade, são vítimas de crimes contra a constituição cometidos pelo próprio Estado. A área jurídica, como todas as instituições, é corrompida pela própria natureza da estrutura social, ignorando os direitos básicos da maioria periférica, os serviçais da sociedade, os imprescindíveis que são mantidos na ignorância, na desinformação, condicionados a uma inferioridade falsa, artificial, planejada, estratégica na dominação de poucos sobre o todo, sobre toda a sociedade, fazendo do Estado uma espécie de Robinhude ao contrário, que rouba dos pobres pra dar aos ricos mais ricos, acima e por trás dos poderes que se fazem passar por "públicos", mas que nunca foram públicos de verdade.

Não é só na área jurídica que se impõe a falcatrua, mas em todo o espectro institucional. O que estamos vendo na farsa política - que de política só tem o nome - é mais uma demonstração da índole do sistema ditatorial no comando geral, onde mandam bancos e mega-empresas, associações patronais urbanas e rurais, sob a fachada de uma falsa democracia.

Segue a descrição do caso Rafael Braga, apresentado como "preso político" sem nunca ter participado de atos políticos, sem nunca ter pertencido a nenhuma organização de resistência e contestação ao sistema econômico-social. Um preso "político" sem consciência política, sem participação em movimentos organizados, sofrendo a ira de juízes conservadores cheios de ódio e ímpetos de vingança contra a população em protesto. Precisavam de bodes expiatórios e, diante de manifestantes presos que contavam com advogados ativistas, que eram de classes mais esclarecidas e politizadas e que tiveram como comprovar a ilegalidade da sua prisão, seguraram o pobre, preto, periférico - "esse não vai ter como sair". Mais uma demonstração da índole social que nos rege a todos.

Há milhares de Rafaéis Bragas no sistema penitenciário. Da mesma forma que há milhares de Amarildos, torturados e mortos pelas "forças de segurança", com ou sem culpa, crimes que ficam na impunidade porque o sistema é construído pra isso mesmo, perseguir, reprimir e agredir pobres, na manutenção dessa ordem espúria, vergonhosa, desumana, imposta pelos podres de ricos através dos seus fantoches falsamente "políticos", governantes, legisladores, magistrados, a porra toda.




domingo, 23 de abril de 2017

A barragem dos metais pesados nas águas do finado rio Doce

Em fevereiro de 2016 estive na parte capixaba do rio Doce, encontrei uma transposição do rio Doce, feito pela então Aracruz Celulose, hoje Fibria, que levava água para o rio Riacho, que não estava dando vazão às necessidades da fábrica de celulose. Isso por volta de 2009 ou 10, não estou bem certo, e contra a vontade da população, que se organizou, protestou, mas perdeu pros interesses empresariais, reprimidos pelo poder dito "público". 

Com a chegada dos metais pesados, nocivos à maquinaria, construíram uma barragem com filtros, que tirava os metais pesados da água, de modo que ela voltasse a servir na produção. Filmei, corri atrás de edição, analfabeto internético que sou e, finalmente, em julho, publiquei o vídeo. É a segunda vez que o trago a público, desta vez em foco principal.

A questão era: se há possibilidade de filtrar essa lama de rejeitos da mineração, por quê não se fazem filtros como esse desde lá de cima, no rio Gualaxo do Norte, onde estourou a barragem, e pelo rio do Carmo, até o encontro com o Piranga e a formação do rio Doce? Por que não se fazem quantas barragens dessa forem necessárias, na busca de uma diminuição no sofrimento dos cerca de três milhões de pessoas que vivem às margens do rio assassinado? Por quê as máquinas têm prioridade sobre as pessoas?

Perguntas fáceis de responder, quando se vê no Estado e em suas instituições uma grande farsa, a serviço dos poderes econômicos, na guerra das empresas contra os povos, uma guerra de dominação e conquista, de poder e controle, que cria ignorância e desinformação pra manter o sistema social sob a ditadura financeiro-empresarial em que se encontra.


sábado, 22 de abril de 2017

Relatos de delatores desmascaram o Estado

Nunca tinha visto as entranhas da sociedade serem expostas dessa maneira. Taí a explicação da miséria, da ignorância, da violência, da criminalidade, da barbárie, da situação de degradação social em que vivemos. Os relatos nas delações da Odebrecht mostram o corriqueiro dos procedimentos, nas relações da empresa com os poderes públicos. Não se trata só da área da construção. É óbvio que é da mesma forma em todas as áreas. A naturalidade das falas, "há trinta anos eu estou nesse ramo, há trinta anos que é assim"; os relatos das visitas, das conversas, dos encontros, das reuniões, mostram algo mais que um escândalo de corrupção entre uma empresa e um governo. Revelam como o Estado, o aparato público, as instituições funcionam, como é o seu modo de proceder rotineiro, recebendo dos ricos pra roubar os pobres. Pra enganar os pobres. Pra manter a pobreza.

O domínio de laboratórios farmacêuticos, indústria da medicina e as empresas de planos de saúde explica a situação da saúde pública, a penúria, o abandono, a desimportância, negada por números oficiais mas visíveis a quem quiser ver, na realidade.

As "revitalizações" que vieram em ondas, nestes tempos, puseram milhares de pessoas nas ruas. Só na Copa e nas Olimpiadas, as obras que interessavam às empreiteiras, financiadoras de campanhas eleitorais e midiáticas expulsaram de suas casas mais de trezentas mil famílias, grande parte sem direito a nada, exatamente as em piores condições. Em todo território nacional é a mesma coisa.

Em toda parte é senso comum obra pública superfaturada e sub-construída. Foi naturalizada a "roubalheira" que de vez em quando a mídia levanta pontual, focada em alguma área de interesse no momento, em disputas de espaço e controle, colocando todo mundo na rua a papagaiar suas falas inventadas, cheias de distorção calculada, controle mental em efeito. A sabotagem da educação facilita o trabalho da mídia, que foi toda construída pra fazer exatamente o que faz, distorcer a realidade e controlar a opinião pública. A gente aí, querendo o programado, vivendo condicionada, atrás de ilusões muito bem criadas pra ocupar as vidas.

De repente se descara o funcionamento do Estado. Tá explicado o massacre permanente dos povos originários, do massacre nas favelas, nas periferias. Tá explicada tanta maldade nos serviços públicos, tanta carência de recursos e tanto sofrimento. Tá explicada a ignorância, a miséria, a violência, a criminalidade. Tá explicado o abandono de tanta criança, tanto velho, tá explicada tanta exploração de tanta gente. Tá explicado o roubo geral de direitos constitucionais, humanos, básicos e fundamentais. São os interesses empresariais, com os bancos por cima, dando respaldo. É a "máquina de moer gente" do Darcy, em pleno funcionamento.

Grupos de milhares controlando uma sociedade de centenas de milhões, em seu benefício - como paga da sua traição pelos banqueiros e mega-empresários estrangeiros - e em prejuízo da própria sociedade.

As delações da Odebrecht são só a ponta do véu levantada, o véu institucional que cobre o funcionamento verdadeiro de toda a máquina pública, em sua dimensão nacional, regional e local, em todos os setores. As instituições, infestadas por dentro, servem de parte deste véu, sentem-se parte acima da sociedade, são induzidas a olhar os mais pobres como inferiores e não como vítimas de crimes sociais, a quem se deve reparação - no mínimo em respeito pessoal - em programas estatais de resgate das populações vitimadas pelo Estado. Pelo que se vê, a serviço empresarial, sempre, pois sempre há os que se beneficiam desses crimes coletivos. Toda a máquina estatal está aparelhada por interesses banqueiro-empresariais. As instituições não podem se resolver, foram criadas de forma a não funcionar em benefício da população, a não ser cenicamente, em pequena parte, infinitamente abaixo do que deveria, pra criar a imagem mentirosa de funcionamento.

Tá explicado também a brutalidade das forças de segurança, seu treinamento pra guerra, não pra paz social, verdadeiras forças de combate e de contenção de massa. Tá explicada a quantidade de investimento em armamentos "não letais" e caminhões pra dispersão de multidões. O povo é a principal vítima da estrutura, é de se esperar que se levante aqui e ali, em algumas ocasiões, mesmo com toda a idiotização da mídia. O investimento e a "formação" das forças de segurança é um elemento estratégico. É preciso que não se sintam parte do povo, é preciso distanciar, segregar, criar abismos. As instruções e treinamentos, de um lado, e o comportamento induzido dos agentes, agressivo com quase todos e violento com os mais pobres, cria a rejeição popular necessária, do outro lado. Taí a "cidade da polícia", "enclave" construído em Del Castilho, símbolo do que eu tô falando.

Tá explicado o predomínio dos valores empresariais na educação, em sua pequena fração que funciona, a particular, onde a sociedade é apresentada como uma arena competitiva, e não como uma coletividade que pretende a harmonia social. E que vença o melhor. Os outros merecem a "derrota". Essa a mentalidade criada, há muitas gerações. A educação pública é feita pra engabelar, claro, o mais imprescindível trabalho, sem o qual nada funciona, é o braçal, o "desqualificado" e o de "baixa qualificação", é preciso produzir a mão de obra, assim, traiçoeiramente. Interesses empresariais.

É preciso ver as instituições como elas são, uma fachada pra esconder o que acontece nos bastidores, de onde controlam a sociedade toda e infernizam geral. Não tenho aqui uma "solução" ou uma "saída", acho que antes de escolher o que fazer é preciso enxergar a realidade. Quanto mais gente vendo o que é e como funciona o Estado e suas instituições - e bancos, empresas e suas corporações, no controle - mais possibilidade de aparecerem soluções localizadas, onde e como se fazem necessárias. Decisões e mudanças pessoais são também são coletivas e modificam o trato com a coletividade.

Os que lutam contra moinhos, dentro das instituições, têm sua importância no constante denunciar, no apontar permanente das falcatruas institucionais. No uso de algo do aparato público em favor da população, por pouco que seja. Apenas não têm, de onde estão, a capacidade de mudança social desde a raiz.

sábado, 15 de abril de 2017

Chega de esperança

Esse vídeo foi gravado no final do ano passado, acho que não publiquei ainda. Fala em esperança. No momento, a palavra me pareceu ligada a "espera", a inatividade, sentaí e espera. É preciso atividade, serviço, fazer em vez de esperar. Como na frase que escrevi, "chega de esperança, é hora de atividança".

Minha visão é mutante, como tudo à minha volta. Mas à medida em que percebo a realidade, algumas coisas vão se firmando. É a sociedade da mentira, da simulação, do engano, da manipulação do pensamento, dos desejos, dos valores, dos comportamentos, dos objetivos de vida. Quando se percebe e não se deixa mais levar tão facilmente, a vida toma sentido, gosto, cor e valor. E não se confunde mais valor com preço.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Pensamentos no ônibus

A idéia era ir de bicicleta. Mas choveu e fui de ônibus. Aí tive que esperar sentado, no trânsito, enquanto pensamentos me passavam na cabeça. Tirei o caderno e anotei algumas coisas que passaram, entre tantas.
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Antes de exigir as respostas, é preciso aprender as perguntas. Perguntar também é um aprendizado. Se as respostas não estão satisfazendo, é preciso modificar as perguntas até ficarem tão claras e precisas que as respostas esclarecerão, mesmo sem precisar, sem dar precisão. No mínimo, ficará clara a vontade ou a existência de razões pra não haver respostas.
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Caminhei no escuro durante muito tempo na vida. Cheguei a pensar que nunca veria luz natural, que não existia, só as artificiais, falhas e falsas, sempre sucumbindo à escuridão. Ao longo dos anos, em alguns momentos tive a impressão de ver alguma claridade se esboçando longe, no céu. como um anúncio da madrugada.  Mas logo achava que era só impressão, mesmo. Vários anos se passaram até firmar a certeza de que tava clareando. Décadas. Hoje, percebo uma tonalidade claro escuro, tipo entre quatro e meia e cinco horas da manhã de dia limpo. O anúncio de que vem a aurora ainda distante, mas vindo sem contenção, a cada momento mais. Mais pra noite que  pra dia, a luz apenas deu o ar da sua graça. Longe ainda de nascer o sol, um conforto é a certeza intuitiva de que o calor e a luz virão acabar com o frio e a escuridão.
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Anotei essas, foram muitas, sempre são. O tempo todo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O descaramento da farsa

Pouca gente assistiu a tv senado durante a votação da pec 55. Os poucos senadores que se opuseram a essa traição do povo convidaram a economista Maria Lúcia Fattorelli, reconhecida internacionalmente e participante das auditorias das dívidas públicas de Equador e Grécia, pra expor as criminosas intenções dessa pec maligna. E ela expõe, magistralmente, apesar da linguagem inacessível a um povo estrategicamente sabotado em educação, as falcatruas mais que claras do projeto desses traidores da nação. Irrespondível intervenção, constrangedoras e dolorosas verdades são jogadas às caras-de-pau dessa casa legislativa que, depois, ignoraram tudo e aprovaram a emenda constitucional, mais um estupro à constituição brasileira em favor de banqueiros internacionais, de mega-empresas, dos parasitas sociais podres de ricos, miseráveis de espírito. Serviçais de luxo desses interesses, que financiam suas campanhas, os parlamentares não têm como não saber o que estão fazendo. A pec 55 foi aprovada e está em vigor, o resultado se vê nas ruas, com o aumento de desabrigados, de cracudos, da violência, da criminalidade explosiva que não pára de crescer. Enquando isso, a mídia aponta como solução o investimento no sistema de repressão e carcerário, sem tocar sequer nas causas. Seria uma estupidez, se não fosse intencional.

Se a intenção fosse diminuir a criminalidade e a violência, bastaria cumprir a constituição nos seus artigos de direitos humanos, bastaria o Estado garantir o que está previsto nessa chamada "lei maior", a "carta magna", base do funcionamento da sociedade. Garantir a cada brasileiro alimentação decente, moradia digna, instrução de qualidade, informação verdadeira, atendimento médico em qualquer necessidade, condições de desenvolvimento humano, seria muito mais barato que o pagamento de juros e amortizações dessa dívida, como afirma e reafirma Fattorelli, ilegal, ilegítima e socialmente catastrófica, permanentemente denunciada e não investigada. Basta falar em auditar essa dívida com os bancos internacionais e a mídia fica histérica, gritando "calote! calote!" pra difamar a iniciativa conduzindo - como é sua função - a opinião pública com suas mentiras criminosas. Demonstração clara do que é a mídia privada e a quem serve, traindo a população com suas seduções e distorções. É óbvio o interesse na manutenção do caos, da criminalidade apavorante e paralisante, da miséria e da ignorância que infernizam a sociedade.

Há muito tempo, Getúlio Vargas mandou investigar essa dívida, que era muito menor que hoje mas já esmagadora do patrimônio público, e se revelou ilegal em mais da metade, caindo pra 40% do que era. A grita dos traidores se fez ensurdecedora e as pressões foram tamanhas que levaram Getúlio ao suicídio político que impediu o golpe programado pra derrubá-lo. Dez anos depois, o governo João Goulart apontava na direção de uma democracia ainda distante, favorecendo a organização dos mais pobres, implantando um programa de erradicação do analfabetismo, investindo na educação do povo, implantando uma lei que controlava a remessa de lucros de empresas estrangeiras, decretando uma reforma agrária que distribuiria terras pra mais de um milhão de famílias de agricultores, estimulando a agricultura familiar na produção de alimentos e aproximando o produtor do consumidor, sem os intermediários que encareciam os produtos. Por isso mesmo, debaixo de calúnias e invencionices, esse governo foi derrubado e implantou-se a "ditadura militar", com a mídia proclamando a "volta da democracia". Era preciso manter a ignorância, a desinformação, destruir e impedir a organização dos explorados, destruir o sistema de educação pública e impor o enquadramento do ensino privado. E a ditadura banqueiro-mega-empresarial foi mantida, aprofundada, enraizada e se mantém a pleno vapor. O estado de degradação social em que vivemos é estrategicamente deliberado. A formação da ideologia reacionária, conservadora, raivosa e ignorante, quando não mau caráter, é produção encomendada por esses seres desumanos que chafurdam no luxo, na riqueza, na ostentação e no controle social pelo mercado financeiro, indiferentes ao sofrimento de milhões.

Investir pesado em educação verdadeira, em informação leal e nos direitos sociais é arrancar as raízes da barbárie periférica, da violência e da criminalidade. Mas isso é simplesmente proibido pelos usufrutuários dessa estrutura perversa, que financiam laboratórios de pensamento pra criar mentalidades que serão implantadas pela mídia, sempre baseadas em falácias, falsidades e mentiras, apontando soluções punitivas que jamais deram resultado em nenhum lugar do mundo. A base dessa mentalidade, atualmente  nos Estados Unidos, produziram naquele país a maior população carcerária do mundo - maior que a da China, que tem uma população mais de cinco vezes maior que os EUA. É nesse caminho que estamos postos, subalternizados pelas corporações financeiras. Não há polícia, não há sistema prisional que diminua a criminalidade produzida no atacado pela miséria, pelo abandono, pela exclusão, pela exploração desenfreada da população. Estamos "travando a inútil luta com os galhos, sem perceber que é lá no tronco que está o coringa do baralho", como já dizia Raul Seixas.

Gostaria de lembra à esquerda arcaica a fala profunda de Fidel Castro - "acabou o tempo da revolução com fuzis. Hoje a revolução só pode ser feita com a conscientização". É preciso substituir o espírito de combate pelo de serviço. Obviamente será preciso um trabalho interno, individual em primeiro lugar, pra escapar do sentimento induzido de superioridade acadêmica, na criação da humildade necessária ao trabalho. Ninguém está imune aos condicionamentos do sistema social - através do modelo de educação e, sobretudo, do massacre midiático-publicitário que assola a coletividade como um todo. É igualmente preciso substituir a visão míope e imediatista pela visão a médio e longo prazo, deixando de lado as instituições dominadas e controladas, servindo nas periferias onde se encontram as pessoas mais importantes, imprescindíveis, sem as quais nada funciona. O trabalho mais necessário, mais indispensável de todos, é o trabalho braçal. Sem ele, não tem doutor que consiga exercer o seu ofício, seja qual for. Uma obviedade que passa, estrategicamente, despercebida, mas que pode ser facilmente demonstrada - a quem interessa, claro, os periféricos.

Ali, nas periferias, se encontra a sabedoria, a capacidade de superação, a resistência, ainda que inconsciente. No centro dos valores sociais, nas academias, se encontra segregado o saber, restrito a camadas minoritárias da população. Quando os que têm acesso ao saber descerem dos seus pedestais de vidro - a indução do sentimento de superioridade - ganharem o privilégio da humildade e se dispuserem a servir os que tiveram seus direitos roubados dos conhecimentos que lhes foram vedados, o saber se encontrará com a sabedoria e a evolução do sistema social será inevitável. Isso sabem os parasitas sociais, daí a sabotagem sistemática da educação e o controle férreo das comunicações do país, dominadas por poucos podres de ricos traidores da nação, a serviço de mega-interesses estrangeiros.

É preciso enxergar a realidade além do que é permitido, a partir das conseqüências escancaradas na sociedade como um todo. Como dizia Helder Câmara, "quando eu divido meu pão com os pobres, me chamam de santo; quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista". É proibido desvendar as raízes da degradação social, porque elas são criadas e mantidas pelos que dominam a sociedade, muito acima dos "poderes públicos", nos bastidores da farsa apresentada como "política", cuja finalidade é criar a ilusão de que o sistema é democrático. Chamar de política essa encenação de marionetes, impotentes pra tocar na estrutura dominada pelos vampiros no mercado financeiro, mas com o poder de trair toda a população, é colaborar com essa falcatrua, essa armação que torna a sociedade injusta, violenta, perversa, covarde e suicida.

Pra assistir a exposição do descaramento, https://vimeo.com/160568538.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Tinha uma boca no meu caminho

Eu estava passando perto de uma boca de fumo, quando um dos caras - parecia o gerente - me reconheceu da internet e me abordou, perguntando o que eu achava do juiz Sérgio Moro. "Tu acha que ele veio pra acabar com a bandalheira?" Escondi meu incômodo com a pergunta e pensei que, se dissesse o que penso dessa triste figura, iria bater de frente com o que ele pensava, pelo brilho nos olhos dele. Era esperança.

Então falei da globo, citei várias falcatruas que vieram a público e toquei num ponto chave, Brizola e os CIEPs. O pai dele havia estudado num CIEP. Largou o crime pra estudar, porque tinha tudo na escola, comida, médico, dentista, futebol, capoeira, música, teatro, era o dia todo lá. Conseguiu passar num vestibular, mesmo trabalhando, quando ele era um bebê ainda, e só não se formou porque foi vítima de um tiro da polícia quando chegava em casa à noite, muitos anos depois de sair do crime. Foi confundido com um traficante conhecido na área, risco cotidiano pra quem mora em favela. Ele estava, na época, com nove anos e chorou quando me contou, "ele tava quase se formando, dizia que ia mudar pro asfalto com a família toda. Não ia pra longe da favela não, que todos os nossos amigos moram aqui. Ele só queria uma casa com quintal, com mais espaço pra todo mundo". Aproveitei essa revelação e lembrei de como a globo atacou a construção do sambódromo, boicotando até o primeiro carnaval lá, do ódio do jornalismo contra os CIEPs, evidenciando o horror que as elites dominantes têm da instrução popular, da fraude eleitoral revelada, com a globo desviando urnas pra impedir a eleição do Brizola, do apoio total ao Moreira Franco, que o sucedeu no governo do Rio e comandou o desmonte do projeto dos CIEPs. E depois, quando o sambódromo bombou, mundialmente, a globo comprou o espetáculo e dominou a área.

À medida que eu falava as coisas que ele sabia, mas não havia conectado, fui vendo a compreensão surgindo a respeito das comunicações criminosas que vigoram nesta sociedade dominada e aí foi só pegar a onda. "Pois é, a globo apresenta esse juiz como a salvação da pátria, como herói... por quê que tu acha que eles elogiam tanto o cara?" A resposta veio rápida, "porque ele fecha com esses furingo". Eu sorri e me despedi, "vou nessa parceiro". "Porra, eu sabia que tinha que falar contigo", ele disse. Eu me senti altamente elogiado. Aí ele me complicou, "então qual é a solução?" Mas eu me vali da intuição que é farta nas periferias e respondi "não tem solução, parceiro, tem caminho, tem serviço, tem a vida pra viver e a gente precisa aprender a ver a realidade sem se deixar levar pela televisão". Ele abriu um enorme sorriso cheio de dentes brancos, "aí tá certo".

Fui embora, ouvindo ainda ele falando com outro, "já viu esse cara falando na internet?"

segunda-feira, 13 de março de 2017

Chuva na noite em Itabuna

Uma vez, em Itabuna, eu viajava sozinho e tinha entrado na cidade pra arrumar um qualquer e seguir viagem, fui dormir na madrugada depois do mangueio nos bares e  nos puteiros da noite. Já tinha arrumado a mixaria pra pegar a estrada, mas resolvi aproveitar o restinho da noite pra dormir um pouco, ainda mais que as nuvens pesadas no céu anunciavam uma daquelas chuvas grossas. Era uma marquise com o degrau da loja largo, onde estendi o papelão e me estendi em cima, cabeça na mochila. Era próximo ao movimento da noite, que varava até dia alto, a presença de gente tornava a dormida mais segura. Ainda esperava o apagar do sono quando começou a chover, primeiro gotas esparsas, então o ritmo aumentava até o toró despencar. Olhei a rua, através do cinza da cortina de água que caía vi tudo vazio, algumas mesas e cadeiras na chuva, em alguns toldos pessoas se encolhiam dos respingos, a maioria havia entrado nas casas e bares. Eu estava abrigado pela marquise, mas a violência da água no chão salpicava gotas sujas, pensei "preciso dormir antes de ficar molhado, depois é mais difícil." Foi quando passou um grupo correndo, alguns protegiam a cabeça, com bolsas e pedaços de papelão, praguejando contra a chuva. Passou como um relâmpago na minha cabeça a necessidade de chuva naquela região, atentei no egoísmo inconsciente e falei comigo mesmo, "os caras tão indo pra casa, onde tem toalha, banho quente e roupa seca... não têm do que reclamar e estão reclamando." Me ajeitei melhor, de costas pros respingos, fechando os olhos e tentando dormir. E sonhei saudade. Não de algum lugar, de alguém ou de alguma situação específica, mas de ter uma casa, qualquer que fosse, mas que tivesse dentro panos secos, um fogão, um banheiro. Uma saudade boa, tranqüila, um sono que me descansou mais do que eu esperava e me pôs em ótimas condições de humor pra pegar a estrada e tratar com as caronas da vida. O molhado da roupa até refrescava no sol que esquentava desde o amanhecer. O céu estava limpo de nuvens. E secou os panos antes da primeira carona, no rumo norte que eu estava.

(Isso foi no início da década de 80)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Feira, estradas e Caetité

Seguindo a estadia no Capão, seguiram os acontecimentos. Estou com seis encomendas embaladas e prontas pro envio, até hoje sem postar. Um dia fomos a Palmeiras resolver umas coisas, levei os tubos com desenhos pra remeter. Paramos pra comer na chegada, estacionando ouvi o barulho da tampa de trás da kombi, estranha sensação - a de que poderia ter caído coisa do bagageiro na turbulenta estrada de terra, cheia de subidas, descidas e sacodes gerais. Fui conferir, estava mesmo aberta, já olhei esperando ver o tamanho do prejuízo. Dei falta de três das encomendas e, incrivelmente, mais nada. Caixas, estepe, bolsas, ferramentas, cajón, tava tudo ali. Lamentei pelas encomendas, com alívio porque podia ter sido bem pior. Mas perdi o ímpeto de ir ao correio e decidi refazer as remessas em casa. Na volta ao Capão, fui avisado de que pessoas andando pras trilhas haviam encontrado uns tubos que pareciam encomendas na estrada, um deles atropelado, mas dois outros intactos. Afinal, voltaram à noite pras minhas mãos, através de amigos que conheciam as pessoas que acharam. Alívio, congratulações, retribuições foram feitas, as encomendas recuperadas. Os desenhos atropelados foram substituídos, de amassados que estavam. Na verdade gosto desses amassados, marcas são cicatrizes de vivências. Separo pra interferir depois, com tintas ou não, e dificilmente ponho à venda. Cicatrizes são marcas de histórias. Ganharam personalidade própria, ficam guardados pra ocasiões especiais em que são presenteados. Mas a partir daí a viagem ganhou um ritmo que não permitiu a remessa dos seis, novamente juntos, até hoje que estou em Beagá, em pleno carnaval.

Fomos a Feira de Santana, convite na UEFS. No caminho, a gruta sacralizada que já tinha me chamado a atenção em outras passagens foi fotografada. Na paisagem impressionante da chapada, a religiosidade sertaneja mostra suas peculiaridades. Não parei nem pesquisei essa gruta, há um pequeno restaurante caseiro na estrada - estava fechado - e marcas de peregrinação no caminho até a pedra, onde há uma cruz branca na entrada da caverna.

São trezentos e cinquenta quilômetros até Feira. Chegamos no fim da tarde, quase na hora da palestra, fomos ao local e rolava um papo com desabrigados - os chamados "moradores de rua". Assisti um pouco, mas o cachorro se ouriçou com as palmas e roubou a cena, me obrigando a sair com ele do auditório. Fomos à casa dos nossos anfitriões, Vinícius, Ingredy e Iggor, aí banho, janta e toca de volta pro auditório. Expusemos também, claro, dormimos e retornamos ao Capão no dia seguinte, já na preparação pra descida de volta. A palestra estava cheia de gente e interesse, o sentimento de proveito justifica todo o esforço.

Auditório do módulo 2, na Universidade Estadual de Feira de Santana.
De Feira voltamos ao Capão, já no preparo pra começar a viagem rumo sul, com a primeira parada em Caetité. Saímos pela estrada de Seabra, onde Celestina exigiu um pneu novo. Eu não havia entendido um caroço surgido na sola, que acabou consumindo a borracha até aparecer a lona. Mas o borracheiro esclareceu tudo, alguma pancada forte arrebentou os arames internos e aí a pressão do ar estufou a área, desgastando o pneu. Com a quantidade de estradas de terra por onde temos passado, não é de se estranhar, algumas em estado tão precário, com tantas pedras, que a velocidade precisa ser a de caminhada a pé. Às vezes dá pra pegar uma velocidadezinha maior, sempre com o risco de empedrar depois de uma curva ou uma lombada - e é aí que tá o perigo, de repente encrespa em pedras ou buracos e fica difícil evitar algumas pancadas.

Seguimos de Seabra em sentido leste, até Lagoa de Dionísio, onde viramos pro sul, estrada ao longo da chapada no lado oposto a Lençóis, oeste da região. Eu tinha visto o mapa no gúgol e era o menor caminho. O que esse gúgol traíra não avisou era que as estradas por ali estavam em péssimas condições, desde sempre. Fomos em asfalto até a primeira cidade, Ibitiara, ali paramos pra comer e pedir informações. A expressão no rosto das pessoas era inequívoca, a estrada era terrível. Mas já estávamos ali e seguimos adiante. Houve até quem duvidasse da Celestina, "com aquela kombi ali? Cês não chegam lá não". Ora, minha senhora, não tem arrego, vamos em frente. Dali a Novo Horizonte o caminho foi duro, a estrada era muito ruim. Realmente mais perto, mas a buraqueira obrigava à lentidão. Foram mais de quatro horas pra percorrer os oitenta quilômetros.        
       
O sol acabara de se pôr quando, numa das encruzilhadas, encontramos uma placa indicativa improvisada, a primeira legível. O caminho passava por Novo Horizonte e seguia pra Ibiajara. Anoiteceu e a estrada, toda esburacada e cheia de pedras, não permitia desenvolver velocidade acima da caminhada. A impressão era de que não tinha fim, ao longe não víamos nada, nenhuma luz. Uma hora pedi a Clara pra fotografar a estrada pelo parabrisa, em movimento mesmo. Ficou uma imagem meio surreal, mas eu gostei.
A máquina tava com flash, não houve jeito de tirar.
                                                                                 Havia bifurcações, entradas, e eu no instinto, escolhendo, raras placas indicativas, algumas ilegíveis. Chegamos em Novo Horizonte, passamos, continuava estrada de terra, pior, mais esburacada e empoeirada. Mais bifurcações e entradas. Depois de muito tempo sem encontrar nada, cruzamos um cara de moto, fiz sinal e ele parou. Perguntei se era a estrada certa, ele coçou a cabeça e, enquanto confirmava com um aceno, disse "mas tem uma serrinha terrível de passar aí, a estrada vai piorar muito". Nós nos olhamos sem dizer nada, nem precisava - voltar nem pensar -, vamos em frente. A gente já tinha uma dica, dada em Novo Horizonte, "quando encontrar uma ladeirona braba, repare uma saída antes, de pedra, meio escondida no mato, passe por ali que contorna o morro e sai do outro lado". Tão escondida no mato que passamos direto, subindo uma "parede" de pó e buracos até ficar impossível. Aí percebemos que era a "ladeirona braba", descemos de costas, de um lado o barranco, do outro um abismo escuro. Pisca-alerta ligado, por via das dúvidas, bem devagar, mas como não passava nada, não houve problemas. Passamos pela estradinha de pedras, também inclinada ao extremo mas, com a aderência melhor, passamos.
                                                                              
Estávamos na BA 152 e, até chegar a um asfalto, muito precário ainda, passamos por Ibiajara e Tanque Novo. Aí começou um asfalto tão esburacado que me fez ter saudade da terra. Era a BA 156, nos levou à BR 430, aí, sim, uma estrada transitável. Chegamos a Caetité no início da madrugada. Thulio e Ailton nos esperavam na entrada da cidade. A pousada MCM, de Márcio e Ione, que nos acolheram, ficava ao lado, diante de uma praça, ao lado de um quartel.

A exposição foi no dia seguinte, na praça da árvore. Pra minha surpresa dois policiais armados levaram o som e instalaram. Eram amigos dos que me convidaram, músicos ambos. A exposição começou bem antes da palestra, coisa rara, ficamos por ali papeando, trocando idéias, enquanto chegava mais gente. A data não favorecia, véspera de carnaval, mas veio gente suficiente pra fechar o círculo da arena no meio da praça. Roquenrou, o cão, andou livre na área até a hora de começar o papo, aí se recolheu - ou foi recolhido - à Celestina, ali bem próxima.

Chegamos cedo, armamos a exposição e esperamos o povo chegar. Celestina ficou perto.
À noite, palestra - de camisa vermelha, falo (com microfone) ao fundo. Clara e Tito na exposição.
O dia seguinte, sábado "de carnaval", tomamos o rumo de Montes Claros, a caminho de Belo Horizonte. Paramos pra dormir a 50 km de Sete Lagoas, às quatro da manhã. Asfalto bom é outra coisa.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.