quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Os resistentes

  • Os índios da Amazônia
Eles são hoje 306 mil, de acordo com o Censo 2010 do IBGE. No sempre difícil e desvantajoso contato com os selvagens do asfalto, tentam fazer com que lhes respeitem a cultura milenar e o modo de vida, baseados na pesca, caça e agricultura. Na Amazônia, perduram seis famílias linguísticas: tupi, aruaque, tukano, jê, karib e pano. A Constituição assegura a eles a posse e o uso da terra, mas, com o aval dos Três Poderes, que fizeram da Carta de 1988 letra morta, têm se repetido na floresta emboscadas, ataques e morticínio por parte de grileiros, garimpeiros e madeireiros contra os nativos da Amazônia. Como os xerifes do capital consideram os índios vagabundos e improdutivos, delegaram a seus capitães do mato a responsabilidade do – por mais que escondam o nome – genocídio. 
  • Raoni Metuktire

JEFF PACHOUD/AFP
Líder dos Kayapo do Xingu, tornou-se 30 anos atrás embaixador da causa dos indígenas ameaçados da Amazônia. Usou de cara o prestígio e o palco do cantor Sting e, aos 89 anos, continua ativo nas suas missões de conversão. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O último de um povo massacrado

A fuga era desde criança, desde que se lembrava. Seus pais, avós, os ancestrais, muitas aldeias foram deixadas pra trás, muitos lugares, sempre mudando quando se aproximavam os civilizados, com suas armas de fogo e máquinas de derrubar as florestas. Enquanto viviam sossegados, caçavam, pescavam, faziam suas coisas, canoas, casas, redes, comidas, festas, danças, cultuavam os espíritos da floresta, do céu, da terra, da água, do dia e da noite. Até chegar de novo o povo das armas, da destruição e da morte, das doenças e do sofrimento. Aí era pegar o que dava pra levar e sair fora mais uma vez, os velhos na frente pra dar o ritmo, mulheres e crianças logo depois e os guerreiros atrás, dando proteção. O cacique ia na frente com os velhos pra ouvir os conselhos. Mas essa decisão e organização se deu depois de muitas mortes, os civilizados traziam presentes, o povo adoecia e morria. Chegaram os garimpeiros, os madeireiros, os jagunços dos fazendeiros. Trouxeram a água ardente e muita arma. Os civilizados atiravam, tocavam fogo na aldeia, matavam os homens, escravizavam as mulheres, abandonavam os curumins nos matos, foram muitos tempos, foi perdida a esperança de pacificar os civilizados, agora é só fugir e fugir, a cada aproximação. A tribo diminuía, poucas crianças, muitos mortos. Então fugiam em canoas, de noite pra não ser visto, de dia se escondia as canoas com folhas, comer, dormir, esperar a noite pra continuar viagem, sempre em busca de floresta ainda não atingida, de terras sem civilizados. Onde os mais velhos diziam, se fazia a nova aldeia.
Depois chegaram máquinas que voam. Umas de asas abertas, soltando veneno que queimava a gente por dentro. Outras eram como besouros, paravam no ar, tão alto que as flechas não alcançavam, de lá jogavam paus de trovão que vinham explodir cá embaixo, destruindo, matando, despedaçando casa, gente, tudo. Morreu gente, velho, criança, homem, mulher e toca fugir de novo. A última aldeia tinha pouca gente, mas ainda tinha família, mulher com filho, cacique, pajé, era pouco mas era um povo ainda. Caçava, pescava, plantava a roça, colhia, vivia enfim.
Aí veio o ataque que acabou com o povo. No amanhecer do dia, de repente, o barulho dos tiros explodiu, seguido de gritos de dor, raiva e desespero. Ele se jogou da rede no chão antes de entender o que acontecia. Viu a rede da mulher, de baixo, já pingando sangue. Desesperado, levantou e correu até ela, que tinha a criança no peito, as balas já tinham varado as duas, da cabeça da mãe escorriam os miolos cinzas, a criança soltara o peito, uma bala atravessara seu pequeno corpo inteiro, da perna ao ombro, na diagonal. O desespero deu lugar ao instinto de sobrevivência, ele correu em direção à porta, abaixado, olhou e viu várias luzes explodindo a cada tiro, nos matos em volta. Disparou na direção do mato mais próximo, abaixou atrás do primeiro capim e viu, do seu lado, um homem com a espingarda apontada pra aldeia, pros parentes em pânico. Que também o viu e já virava o cano na sua direção, quando ele, com um pulo certeiro, arrancou a arma pelo cano, girou no ar e, como uma borduna, arrebentou a cabeça do sujeito com o cabo de madeira. Sumiu pela floresta ainda escura e só tempos depois percebeu a mão queimada e o tiro na perna. A dor e, depois, a febre, a inflamação até que a bala saiu pelo outro lado da perna. Pensou que ia morrer, quis mesmo morrer, mas a ferida foi melhorando até cicatrizar.
Tempos depois encontrou cinco parentes que tinham sobrevivido ao ataque. Todos homens. O encontro foi de euforia, de alegria, apesar de rápida, com o peso da lembrança recente trazendo o silêncio. Estavam mortos como povo. Sabiam serem os últimos, que a tribo fora condenada. E viveram conformados com isso, sem outra alternativa, só restava viver mesmo e esperar o destino. Anos passaram, conseguindo manter distância do povo da morte, das máquinas da destruição, se embrenhando nas matas, sempre em movimento, raramente parando tempo suficiente pra plantar e colher. Caçavam e coletavam, só plantavam quando estavam bem seguros do seu isolamento.
Um dia estavam num igarapé se banhando, haviam já comido uns peixes e se lavavam. Do outro lado, no meio do mato, estavam uns civilizados armados que, como é comum, atiraram sem motivo nenhum, só por serem índios. Pegos de surpresa, morreram cinco, sobrou um, que sumiu voando baixo pelos escuros da floresta, ele, sozinho agora e pra sempre.
Em Rondônia, 1998, dois indigenistas da FUNAI souberam da existência de um índio solitário, que vivia na floresta fechada. Os indícios espantaram os indigenistas, abrigos com profundos buracos cavados na terra - um tipo de habitação não catalogado por antropólogos. Ele mudava de abrigo a cada aproximação. Uma única vez o viram, e ele demonstrou com agressividade e clareza não querer nenhum contato. E sumiu novamente na mata fechada.
No relatório foi escrito:"...ele, no seu desespero e ódio, não deseja neste momento dialogar ou receber a visita de quem quer que seja. É seu direito: mais do que qualquer um ele sabe o que foi perder seus parentes e seu povo, envenenado e baleado pelos mesmos" (na sua visão - n do A) "que agora aparecem como amigos, para lhe oferecer ferramentas e comida. Ele está só e parece querer morrer assim. É seu direito".
E o Estado o deixou em paz. Embora eu duvide que a "sociedade", em sua ambição, o tenha feito.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Tudo cênico, tudo mentiroso.

No sistema carcerário não há e nunca houve intenção de "re-socialização", de recuperação, de reintegração à sociedade. O segundo maior massacre de presos foi cometido num presídio chamado "Centro de Recuperação Regional de Altamira". Só mais uma entre tantas mentiras institucionais. Governos não governam, escolas não ensinam, hospitais matam, em toda parte se vêem máfias instaladas e operantes. O Estado é uma organização social, pra mim, totalmente desmoralizada, não merece consideração nem respeito, apenas medo do seu aparato de cobrança, perseguição, ameaça e repressão, apenas a intenção de passar o mais despercebido possível. O que o Estado faz na área falsamente chamada de segurança pública, o que a sociedade em sua minoria comandante quer é vingança, é causar sofrimento, é morte, é caça àqueles que não se enquadram na situação de explorados, de escravizados com a cabeça baixa, conformados, que se fiam nas exceções pra contar com a sorte, que sofrem a vida inteira nesse sonho até, decepcionados consigo mesmos e se culpando pelo próprio "fracasso" socialmente programado, encontrar a morte.

Se não fosse um escândalo internacional nesse grau evolutivo da planetaridade, os presídios seriam oficialmente centros de extermínio e de trabalhos forçados. Perversidade ainda existe pra isso, pode-se ver, quando se olha atrás da farsa, da fraude social apresentada nisso que chamam "democracia" ou, pior ainda, pra deboche, "mundo livre". Algumas pessoas até expressam essa "opinião", sem nenhum pudor - opinião fabricada e estimulada de muitas, incontáveis formas, que encontra eco no próprio primitivismo humano e social a ser superado no caminhar permanente através do tempo. É a opinião que interessa aos poderes econômicos, implantada profundamente na mentalidade coletiva pela mídia, porta-voz e indutora ideológica do poder econômico-financeiro a partir do inconsciente da população - induções e condicionamento diferenciados por classes sociais. E ainda há quem resista, há sempre exceções às regras.

Uma semana antes do massacre de mais de cinqüenta no presídio de Altamira, um preso avisa à mãe, em visita, da tensão na cadeia. Pede pra ela memorizar sua bermuda e camisa, pro caso de ser necessário reconhecer o corpo. Nas classes protegidas, parece irreal, parece "absurdo", parece outra realidade. O mundo dos direitos garantidos, o mundo dos privilégios parece outro mundo mesmo. Não se percebe a ligação entre o privilégio e a barbárie social. Quem conhece esta situação sabe que isso é regra, não exceção. É este o sistema que pretenderia "recuperar criminosos para a sociedade". Esta é uma sociedade que se diz humana. Que mente em todos os sentidos, engana, apresenta farsas que se desmentem na prática cotidiana e, sobretudo, nas conseqüências. Gente como lixo, ignorância analfabeta, desinformação, massacre midiático-publicitário incitando violência e criminalidade em permanente produção, organizações criminosas empresariais, forças de segurança que aterrorizam a população pobre e têm comportamento oposto nos bairros mais ricos, postos de saúde sem condições de atendimento, transportes públicos torturantes e precários, trabalho escravo comendo solto.

Dizem que presídios vão diminuir a criminalidade, que a punição mais dura vai conter a violência. Ora, vão pro raio que os parta! Isso é estupidez ou mau-caráter? O camarada que cai preso por ter roubado uma galinha, ou melhor, por ser pobre, tem que matar, arrancar uma cabeça e brandi-la aos outros, pra ganhar "respeito". Tem que se incorporar às quadrilhas, às organizações do crime - que têm suas raízes no próprio "mercado", seus empresários financiando e controlando autoridades e posições de mando "público" - pra sobreviver. Periculosidade, destrutividade significa respeito, a cadeia é a formação acadêmica do crime, a especialização, a insensibilização plena. O sistema carcerário é formador de criminosos, deformador de almas, sua visão é um painel demonstrativo de como somos uma sociedade primitiva, precisando evoluir a forma humana de existência.

A maior parte dos presidiários sofreu crimes de Estado desde a infância, muitos foram levados ao crime pelo próprio Estado criminoso e esses crimes continuam sendo praticados no cotidiano, na rotina da sociedade, contra a maioria mais pobre, a parte mais explorada, por isso mesmo mantida na ignorância e na desinformação, num círculo vicioso sem fim. Educação e informação também são áreas sociais regidas por mentiras de enorme gravidade, por interesses empresariais óbvios, impondo a ideologia do consumo, do conflito, da competição permanente, a superficialidade como regra. O controle social pelo mercado é obviamente negado com toda a ênfase e veemência, raivosamente ou debochadamente pelos mesmo ideólogos da mídia, jornalistas, especialistas, comentaristas, todos de consciência comprada ou ignorância social comprovada - malabaristas da fala, da idéia, enroladores muito bem pagos pra confundir as coisas e deformar a realidade. A mídia é porta-voz dos interesses empresariais mais desumanos e anti-sociais da corte dos parasitas, banqueiros e mega-empresários que se escondem nos bastidores dos poderes falsamente apresentados como públicos.

Quando houver (Se houvesse) alguma intenção verdadeira em diminuir a violência e a criminalidade social, veremos (veríamos) investimentos verdadeiros, profundos e maciços em educação, em alimentação, em saúde e moradia, em dignidade na existência e na formação das pessoas, sem exceções, investimentos nos direitos da população como um todo. E o retorno dos investimentos se fariam com uma população mais instruída, informada, consciente, em condições de pensar e escolher com base e com senso crítico, os caminhos coletivos da sociedade na construção de harmonia social. Como a intenção no sistema social de agora é a escravidão, a exploração injusta do trabalho de baixa qualificação, o sistema de ensino público é mentiroso, não tem intenção de instruir a maioria, ao contrário, o desestímulo ao desenvolvimento é marca registrada, visível, patente, óbvio. O incômodo causado pelas pessoas vocacionadas, as que têm o dom, o prazer, a intenção de instruir, de formar as pessoas desde a infância, provoca discriminação, perseguição e, no limite, exclusão dessas pessoas. Por isso se vê professores adoecendo tanto, a educação pública adoece os bem intencionados.

Por outro lado, o sistema de saúde não tem interesse em saúde, mas em doença. Como toda a estrutura social é impregnada com a ideologia empresarista, desumana e anti-social, o interesse na medicina, como em todas as áreas, é o lucro. Saúde não gera lucro, doença sim. A medicina lucrativa vende remédios, procedimentos, internações, consumos, tudo na finalidade do lucro e não da "saúde", como se apresenta. É mentira em cima de mentira.

Educação, saúde, transporte, habitação, mineração, agricultura, turismo, construção, comunicações, em todas as áreas da sociedade é máfia, é mentira, é farsa. Assim se pode entender  tanta miséria, ignorância, abandono e sofrimento desnecessários. DESNECESSÁRIOS diante da capacidade atual de produção, transporte e distribuição, diante do desenvolvimento tecnológico, diante das condições materiais de eliminação desses primitivismos. Mas necessários, fundamentais na manutenção do controle social por poucos, pouquíssimos podres de ricos, parasitas da sociedade, escravistas e torturadores de multidões em nome de seu poder, patrimônio e lucro, indiferentes ao sofrimento de milhões. Abjeções tão necessárias quanto a mentalidade superficial, consumista, alienada da realidade, a visão egoísta e pequena, focada no entorno imediato e não na situação geral, nas razões de ser, nas raízes dos problemas a serem resolvidos e superados. O desenvolvimento da consciência, o desenvolvimento verdadeiro do ser humanos, da coletividade humana, da harmonia social e planetária não interessa a esse punhado desumano, que fez, faz e fará tudo e qualquer coisa pra impedir. A cooptação de inteligências brilhantes e consciências compráveis é permanente. E a grande mentira é caprichada e convincente. Consciência social é o terror dos dominantes - pra esse pequeníssimo grupo, consciência é um mercado privatizado. Desde as "melhores" universidades. Desde o próprio "poder público", seqüestrado, dominado, feito marionete do Mercado - sempre o mesmo punhado e os mesmos cúmplices, mudam personagens, permanecem as entidades tenebrosas, macabras, nos bastidores escuros dos poderes - vislumbráveis por olhos atentos em algumas ocasiões, ou sempre nas suas conseqüências coletivas - miséria, ignorância, abandono, sofrimento e a violência, a criminalidade que acompanha estas situações, nas sociedades de consumo chamadas ironicamente de "mundo livre". Livre pros demônios do poder econômico-financeiro, pelo que se vê. A escravidão mental é característica social.

Voltando ao sistema prisional, não há nada que aponte na direção de paz e harmonia social (aliás, nem no sistema de educação).Expressões ridículas ou absurdas como "combate à violência" ou "à criminalidade", ou mesmo "guerra às drogas" escondem crimes de Estado. Crimes sociais cometidos todos os dias, no atacado, contra a população como um todo, focados principalmente nas classes pobres, nas periferias, nas pessoas que têm seus direitos humanos, fundamentais e constitucionais, roubados pela própria sociedade, pela própria estrutura social montada pra favorecer àquele punhado parasita social e à sociedade de castas como a vemos, minorias privilegiadas e maiorias escravizadas.  Não há um departamento de psicologia em cada presídio pra estudar cada caso de cada preso que chega e determinar suas necessidades e atividades enquanto preso. Não há ocupações socializantes, aulas, cursos profissionalizantes, nada, o preso é tratado como quem "merece" punição, como lixo e nada mais. Não se vê a causa da criminalidade na própria estrutura da sociedade, nas mazelas que ela mesma cria e não pretende resolver, mas reprimir, jogar longe, esconder, segregar, exterminar, encarcerar. Ilusão estúpida pra maioria, ilusão criminosa pra minoria que se protege com cercas eletrificadas, segurança privada, helicópteros e jatos, bolhas de isolamento. Esporadicamente, bolhas estouram.

Na questão da "guerra ao tráfico", me custa acreditar que pessoas instruídas acreditam na honestidade dessa falsa guerra. A mim parece uma evidência essa mentira - aliás, como tantas, é bom frisar. Há décadas, muitas décadas, praticamente todos os países movem o combate ao narcotráfico, em todos os lugares, de todas as formas. Aparatos pesados, armamentos caríssimos são mobilizados, navios, aviões, helicópteros, tropas e mais tropas, destróem-se plantações, apreendem-se cargas, prendem-se e matam-se pessoas. Há décadas e décadas sem parar e o tráfico só cresce, se desenvolve e continua servindo ao mercado riquíssimo do consumo, movendo bilhões no sistema financeiro, espalhando propinas, comprando autoridades, consumindo armas, munições e dinheiros públicos em grande escala, mais que qualquer guerra "oficial" no planeta. É o tráfico uma entidade extraterrestre, fora do alcance das tecnologias e armas terráqueas? É um exército imbatível, inalcançável às tropas e armas que se movem com esse pretexto? Ou é mais fácil perceber que o tráfico está entranhado na própria estrutura da sociedade e tudo o que toca esse assunto é falso, é encenação? E que serve de biombo pra esconder interesses gigantescos como gigantescos são os lucros. Pretexto pra investimentos no aparato de repressão que visa não a paz ou a segurança pública, muito menos acabar com a produção e o tráfico de drogas ilegais, mas sim garantir a permanência desta estrutura social, na contenção da massa periférica sabotada e sem direitos, no terrorismo de estado, na repressão geral.

"Os pretextos ofendem a inteligência, as motivações reais inflamam a indignação." Quem disse isso, mesmo?

Pós escrito:

Os resultados do poder banqueiro-empresarial sobre o Estado estão aí, à nossa volta, em ignorância, miséria, abandono, violência e criminalidade. Essas aberrações sociais existem porque são necessárias neste modelo de sociedade que consentimos, que sustentamos - com nossas atitudes, com os valores induzidos, os comportamentos planejados, os objetivos de vida impostos, a visão de mundo distorcida... não há o que autoridade alguma diga que receba o meu crédito. Nem representantes de empresas ou interesses econômicos. Com estes e diante do quadro social, primeiro a desconfiança. Nenhuma autoridade, nenhum porta-voz de interesses banqueiro-empresariais, diante da desumanidade social, merece confiança. A não ser que denuncie a grande falcatrua da democracia, onde mandam os que dominam a economia, a mídia, o poder econômico-financeiro, mantendo forçosamente a ignorância, a desinformação, a indução, o condicionamento, a distorção da realidade, a coação psicológica e publicitária e o controle das comunicações, do "jornalismo", da mentalidade e do comportamento geral. Nesse caso, não será autoridade muito tempo e só terá chegado neste posto por descuido desse poder no escuro, nos bastidores dos poderes encenados públicos, na verdade privados. Tô cansado de ver os que fazem pela coletividade serem derrubados. Mesmo servindo aos poderes dominantes, econômico-financeiros, adaptados ao sistema social, cumprindo os crimes cotidianos do Estado contra a população, se deixam cair migalhas, se possibilitam instrução, acesso á informação, à formação de consciência, ainda que pontualíssimo, é o suficiente pra cair. O domínio banqueiro-empresarial mantém o aparato estatal sob seu controle, com arapucas contratuais entre o público e o privado, em velhíssima promiscuidade ainda a ser superada no caminhar da humanidade, em seu desenvolvimento verdadeiro, o da alma, do abstrato, em seus valores e em tudo o que decorre disso. Fazemos isso em nossas próprias vidas, e estamos fazendo na sociedade. Não dá pra contar com as instituições, dominadas, infiltradas, seqüestradas pelos poderes econômicos, prontas a reprimir o desenvolvimento de direitos e de respeito com as pessoas todas, arrumadas pra impedir tomadas de consciência e de atitudes organizadas e coletivas. Fazer em si o que se quer no mundo, como dizia Gandhi, e exercer no coletivo, sem impor e sem cobrar, apenas servindo com o que se pode, com respeito. A estratégia de dominação está aí, fala a língua de cada classe, de cada profissão, cada caminho no mundo, impregnada nos valores, comportamentos, visão de mundo... até os revolucionários estão impregnados de condicionamentos e, na sua arrogância, não se percebem reproduzindo essas induções. Bom perceber que há sempre as exceções, em qualquer lugar, em qualquer meio coletivo, em qualquer classe ou grupo. Entre estas há uma ligação além do perceptível à razão, coisa de intuição, de sentimento mesmo. O sentimento de sermos exceções e parte do grande grupo humano, com a responsa que a visão impõe, responsa e não superioridade.









 

Desmatamento amazônico, degradação social.

Agora tá a três campos de futebol oficial por minuto. Mil, quinhentos e quarenta por dia, cento e seis mil e duzentos campos de futebol por mês. Falo do desmatamento na Amazônia, índice nunca dantes alcançado. Mais uma vitória desse governo capacho de interesses empresariais estadunidenses. O governo anterior, pelo menos, era só toalha de mão, servidor, mas não tão capacho assim. Por isso mesmo é que foi retirado: enquanto servia os colonizadores, encarnados no "mercado", sobretudo o financeiro, sem se opor ao saque cotidiano das riquezas brasileiras, investia migalhas na população mais pobre, historicamente roubada em seus direitos, desde que direitos foram criados nas instituições do Estado. Isso, a longo prazo, criaria condições de entendimento da realidade e poderia dificultar as regalias na exploração, criando senso crítico e resistência inteligente na população. Mas, sem tocar nos privilégios banqueiros, sem regular as comunicações do país, tomadas pela mídia comercial, empresarial, privada, sem regular nenhum setor estratégico, sem investigar a fundo os acontecimentos durante os governos militares, sem questionar a dívida "pública" criminosa que rouba metade do orçamento nacional todo ano, ficou fácil pros verdadeiros poderes derrubarem essa falsa "esquerda" dos cargos de mando. O que fizeram com sua incompetência, com seu vôo de galinha, com sua arrogância, foi preparar o caminho pra essa corja descarada que está cumprindo as ordens de reduzir a nação a uma colônia conformada com seu destino de escravidão, miséria, ignorância e, por conseqüência, violência e criminalidade, a começar pelo próprio aparato público e os crimes de Estado contra sua população, seu patrimônio, suas riquezas e sua soberania.

A área de preservação ambiental, o Parque Nacional do Xingu, sob o cuidado dos povos originários, não foi tocada. O governo capacho adoraria acabar com esse parque e com todas as terras indígenas do território nacional, seria uma tremenda puxada de saco nos exploradores do norte, aos pés de quem rasteja constrangedoramente a "autoridade máxima" deste país e seu grupo institucional - secretários, ministros, assessores, parlamentares, empresários, grupo elitista, escravista, anti-social, a fina flor da ignorância, da agressividade, do teleguiamento ideológico, da colonização mental e da truculência vingativa. A fina flor da indiferença com o sofrimento de milhões que só vem aumentando, com todas as medidas tomadas até agora por isso que ainda chamam de "governo".

As projeções nefastas, macabras, a médio e longo prazo. As de curto prazo já se vêem nas ruas, na quantidade de desabrigados, mendigos, drogados, abandonados sociais. Já há conseqüências, previstas e acontecendo, demonstrando a realidade das projeções com base no que está sendo feito. Violência do Estado e nas ruas, quadrilhas de bandidos pra todo lado, traficantes, milicianos, grupos se formando em empresas dos mais variados crimes... e o exemplo dado de cima dos poderes públicos.

É preparar o lombo, a criatividade e a resistência. 


Em cima do muro?

Tem quem diga que estou em cima do muro porque não voto. Visão superficial de quem só vê os dois lados. Eu me sinto no centro de um círculo e posso caminhar na direção que minha consciência decidir. Não me vejo em cima de muro porque não vejo só dois lados pra pular. Que pulem os que pensam assim, escolham seus lados. Na minha visão, é pura indução midiática, cultural, comportamental, da natureza de uma sociedade competitiva, superficial e estrategicamente enraizada no inconsciente coletivo, adaptadas às mentalidades antagônicas, criadas pra dar a ilusão de que se muda alguma coisa desse jeito. Os banqueiros, em suas fortalezas, dão risada.
Não é só não votar, é não ter patrão nem empregado, é detestar ostentação de luxos e consumos "de elite", é não desejar mais do que se precisa, é ter vergonha de privilégios da riqueza, é respeitar o modo de ser dos outros, é olhar com igualdade mesmo pras diferenças. É querer pouco e reconhecer a própria pequeneza diante do todo e grandeza diante de si mesmo. É gostar do respeito alheio, mas não abrir mão do próprio. É ouvir a própria consciência acima da própria conveniência. Essas são algumas posições que aplico em minha vida. Sem querer posar de exemplo ou dar conselho a ninguém. Não é o que acho certo, é só o MEU certo.
Cada um com sua própria consciência. E sem cobranças.


Nota - Texto escrito em agosto de 2018, perdido nos arquivos do computador roubado em Santa Maria, RS.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Colonialismo Mental

A mentalidade colonizada é criada pelo colonizador e implantada nas elites coloniais, responsáveis pela administração da colônica saqueada, explorada, escravizada, miserabilizada. Mantidos privilégios, a subalternidade venera o explorador e despreza o explorado - e se contenta em manter seus privilégios diante das populações sabotadas, roubadas em seus direitos. Nas colônias, os privilegiados devem necessariamente desprezar e trair os seus irmão de nação, não devem nem reconhecê-los como irmãos e sim vê-los inferiores, com desprezo, merecedores da sua própria desgraça.

É isto ou cair em suspeita, digno de perseguição. Falar de injustiças sociais é ser "cumunista". Conivência garante os direitos, cumplicidade já traz privilégios, perversidade leva a cargos de mando. Assim é formada a estrutura social, assim ela precisa ser vista pra que assim possa ser modificada, a partir de dentro de cada um de nós, que é o melhor rastilho de pólvora - o exemplo. 

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Americanos somos todos nós, viventes deste enorme continente. Chamar os estadunidenses assim é reconhecer neles a referência das Américas, os donos, os principais. Uma lavagem cerebral, estratégia antiga, já exercida pelos romanos, pelos gregos, pelos europeus em geral, criando subalternidade não só econômica e política, mas também cultural e psicológica. É preciso perceber pra não colaborar com esse jogo, inconscientemente. Sentimentos de superioridade e inferioridade são criados artificialmente pra manutenção desse estado de coisas social onde vivemos. Em todos os níveis. 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Declarações reveladoras - o presidente e o cientista.

O cara começa a responder com uma frase desconexa, precariamente articulada como toda a explicação. "“Se toda essa devastação que vocês nos acusam que estamos fazendo e que já foi feita no passado (sic) (aqui ele esquece de incluir um 'fosse verdade', talvez?), a Amazônia já teria sido extinta, seria um grande deserto”. O cara em questão aqui é o presidente da república, Jair Bolsonaro. Ele não parou por aí. Em resposta a jornalistas que apresentavam os dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, entidade constituída na década de 70, com um respeito internacional construído pela credibilidade dos seus dados por todas essas décadas) mostrando a aceleração do desmatamento, da destruição, da contaminação da floresta amazônica. 

Consciente das forças que o apóiam - mineradoras, madeireiras, empresas latifundiárias ávidas por pastos, monoculturas transgênicas, assassinos de indígenas, dos povos da floresta, dos ribeirinhos, das comunidades que "atrapalham" o caminho do lucro destrutivo -, e seus interesses, ele não pestaneja antes de barbarizar, contando com a ignorância, com a cegueira da desinformação e com a perversidade induzida. Responde o presidente:

"A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos. Até mandei ver quem é o cara que está à frente do Inpe para vir explicar aqui em Brasília esses dados aí que passaram para a imprensa. No nosso sentimento, isso não condiz com a realidade. Até parece que ele está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum." 

Pois bem, o "cara que está à frente do Inpe" está louco pra ir a Brasília explicar esses dados. Ele mesmo afirma isso e desafia o presidente a cumprir o que disse. Não deixa barato, não acredita que o cara fique de frente com ele, que é covarde pra isso. 

Aqui não trato de "atacar" ou "defender" nada nem ninguém, tô observando os fatos. Esse simplismo - atacar, defender, acusar, insultar, escolher um lado - impede a gente de ver com profundidade, de perceber raízes, ao contrário, induz à superficialidade, ao conflito, ao insulto, exatamente pra impedir o entendimento do que acontece, as razões de ser das decisões no poder dito público. É o debate dos ignorantes. Pra que não se perceba a farsa, os poderes verdadeiros que dominam o Estado impedem o investimento social na extinção da miséria, da ignorância, na criação de condições pra existência de um povo digno, instruído, informado e bem nutrido, com capacidade de entendimento e decisão, com senso crítico, capaz de escolher os caminhos que levem a uma sociedade harmônica, onde não existam abandonados, miseráveis, onde não se crie condições de produção da criminalidade esmagadora em que vivemos. E falo tanto da criminalidade de rua quando da criminalidade no aparelho estatal, sobre e dentro dos poderes públicos. Aliás, agora como "nunca antes na história desse país", descarada, sem nenhum pudor. Mentiras que só alcançam o nível mais primário de ignorância e as mentes psicopáticas da intolerância e agressividade socialmente produzidas e extremamente estimuladas pela própria cultura social da atualidade.


Desde que vi no Estado uma organização criminosa contra sua própria população, nunca tinha visto tamanho descaramento, não imaginava que fosse possível se piorar tanto o que já era tão ruim. Pelo menos não sem reação, como foi visto. Mas a reação não se faz e os prejuízos vão só aumentando. O sofrimento que já começou está apenas começando. Suas conseqüências sociais se anunciam terríveis. Fica difícil escolher sobre o que falar, todas as áreas da sociedade estão sendo afetadas pra piorar a situação da maioria - universidades, programas de saúde, educação básica, povos indígenas, agricultura familiar e orgânica, mineração, construção civil, indústria naval e em geral, comércio, tudo, tudo está piorando. A população desabrigada, sem casa, faminta, drogada, só aumenta, as cidades grandes e pequenas se infestam de abandonados sociais, miseráveis, de zumbis na madrugada. Tô só olhando, nada surpreso, os movimentos que venho observando já apontavam há tempos nesta direção. 

Não entro na disputa induzida entre bolsonaristas e esquerdistas, entre mínions e petralhas, nessa troca de ódio e superficialidade fabricados pela psicologia do inconsciente em laboratórios de pensamento. E aplicados cuidadosamente nas classes sociais - pra maioria, os 80% sem acesso a uma educação que mereça o nome, a tevê aberta, com parte menor das redes sociais; pras classes médias a maior parte dessas redes internéticas, os canais a cabo e fechados, os veículos de mais uso. Criando mentalidades, visões de mundo, distorção e engano. Entendo cada opinião induzida, cada agressividade, cada insulto como programações sociais, sei a origem dessas opiniões e não "culpo" seus interlocutores, seu repetidores tanto de idéias quanto de comportamentos. Diante do quadro, exerço minha responsabilidade humana e não me deixo levar. Que briguem, mas não contem comigo. Eu tô ocupado fazendo coisas que me parecem mais úteis.



Constrangedor ver um cientista reconhecido, respeitado no mundo todo por sua capacidade, por sua história, por seus merecimentos próprios em décadas de existência e atuação no meio da ciência, dos cientistas, ser esculachado dessa forma por interesses empresariais, desumanos, destrutivos, anti-sociais que se escondem atrás de uma figura grotesca, bruta, perversa, inconsciente social completa, assumidamente criminosa, posta à frente dos poderes institucionais na intenção - pra mim, clara - de, no final das contas, colocar um país, que já estava de joelhos diante dos poderes econômico-financeiros mundiais, completamente de quatro.


Deixo aqui a resposta do diretor do INPE - instituto que apenas fez o que vem fazendo desde a década de 70, quando foi criado, com o respeito público de milhares de consultas do mundo inteiro, ou seja, divulgar a quem tiver interesse os dados coletados por satélites da superfície do planeta na parte que lhe compete - por ser um "instituto nacional" -, o território nacional conhecido por Brasil, do qual a Amazônia faz parte. Seu nome, Ricardo Magnus Osório Galvão, diretamente ofendido pelo pronunciamento presidencial. Diz ele:


"Os dados são acessados pelo Ibama na nossa página na internet. Estão abertos para todo mundo, todo mundo pode verificar. São publicados em revistas científicas internacionais. Temos mais de mil citações pelos nossos dados, qualquer um pode testar."

Ele comenta o desprezo oficial pela ciência e tecnologia, na minha opinião uma área estratégica onde este governo atual tem a função de embarreirar o desenvolvimento e destruir os mecanismos que o promovam. Assim como a indústria tem sido, a união latinoamericana e outras iniciativas, tudo o que signifique autonomia, soberania, dignidade, desenvolvimento de verdade deve ser sabotado, desfeito, desarticulado. É um claro processo de refortalecimento das relações coloniais, subalternas, que roubam o país e o povo, mantendo miséria, ignorância, criminalidade pra que se mantenha o parasitismo, o saque das riquezas e a manutenção da desumanidade social que está à nossa volta. E se propõem mentiras como "solução". Claro engodo.

O diretor do INPE, em nome da ciência brasileira, afirma:

"Este ano, em junho, o doutor Antonio Divino Moura, coordenador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Inpe, ganhou o equivalente ao prêmio Nobel de meteorologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Não teve uma carta de congratulações nem do presidente nem do ministro de Ciência e Tecnologia. O presidente não tem noção da respeitabilidade que os dados do Inpe e que os pesquisadores do Inpe têm. É uma ofensa o que ele fez."

E comenta a reveladora manifestação do atual presidente da república:

"Ele tomou uma atitude pulsilânime, covarde, de fazer uma declaração em público talvez esperando que peça demissão, mas eu não vou fazer isso. Eu espero que ele me chame a Brasília para eu explicar o dado e que ele tenha coragem de repetir, olhando frente a frente, nos meus olhos. Eu sou um senhor de 71 anos, membro da Academia Brasileira de Ciências, não vou aceitar uma ofensa desse tipo. Ele que tenha coragem de, frente a frente, justificar o que ele está fazendo."

"Ao final da entrevista, fiquei mais chocado ainda, Bolsonaro teve a coragem de dizer que os ministros de Ciência anteriores não sabiam distinguir gravidez da lei da gravidade. Com isso ele atacou nomes de extremo prestígio na ciência nacional, como o ministro Renato Archer, o ministro José Israel Vargas, Sérgio Resende, talvez um dos cientistas mais destacados do País no mundo todo, e o Marco Antonio Raupp, que foi presidente da SBPC. Dizer que eles não sabem distinguir gravidez da lei da gravidade é um absurdo. É uma ofensa de botequim."

Não é preciso dizer muita coisa. A realidade taí. Não na teoria, mas na prática cotidiana, no aumento da miséria, da criminalidade, da pobreza, da violência de Estado e, evidentemente, da violência social como conseqüência. Não existem argumentos diante de fatos. Desenvolvimento que não tenha como objetivo o extermínio da miséria, da ignorância, da exclusão, não é desenvolvimento humano, não é desenvolvimento social. O desenvolvimento econômico de que tanto se fala, apresentado pela mídia e pela corja que exerce os poderes públicos, é destruidor, envenenador, escravista, explorador, sem responsabilidade humana ou ambiental. Um desastre pras populações, pro meio-ambiente, pra harmonia social e planetária. Um desenvolvimento que só interessa e serve a um punhado de parasitas sociais podres de ricos que dominam os Estados e impõem esse modelo de sociedade criminoso, violento e perverso - entranhado na mentalidade geral pela lavagem cerebral profunda e permanente imposta pela cultura da superficialidade, do consumo compulsivo, da competitividade, do egoísmo, através do massacre midiático-publicitário nas comunicações e do modelo de ensino empresarista e anti-social - que é preciso superar. Temos todo o tempo do mundo, embora o melhor seja o fazer agora.

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As falas foram retiradas desta entrevista:
https://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/ambiente-se/bolsonaro-tomou-atitude-pusilanime-e-covarde-diz-diretor-do-inpe/

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Eduardo Marinho Já Dizia

Som de Douglas Vargas, que também acrescentou nas palavras, adaptando ao seu modo de fazer e de dizer. Gracias parceiro, tá bom isso aí, útil na evolução da humanidade. Oportunidade criada, como é função da arte.

sábado, 6 de julho de 2019

Percepção da farsa - também dentro de cada um de nós

Nisso que dizem ser uma democracia, nada é o que parece, nada é o que diz ser. Não há democracia além da fachada, o que há é apenas um cenário formado por instituições ditas democráticas, cenário falso, institucional, e marionetes a rodo, sorridentes e mentirosas, encenando a farsa nefasta de uma democracia falsa, um sistema parasita, escravista, desumano, anti-social, que produz ignorância, desinformação, egoísmo, ânsia de consumo e alienação pra se manter, invisível, sem ser percebido, no escuro dos bastidores da institucionalidade cênica e macabra.

O sistema de ensino, educação e preparação de pessoas para serem adultas se divide entre a parte que forma a grande maioria, para ser explorada, de baixa qualificação e salários, para serviços pesados, sacrificados, de maior risco e desgaste; a que forma, nas classes médias, os organizadores, gerentes, supervisores, diretores, os qualificados encarregados de exercer a perversidade social, sem questionar as injustiças, em nome de seus direitos garantidos e, talvez, alguns privilégios; e a parte mínima, de elite, formadora dos mandatários, dos que vão exercer seu poder econômico, social, midiático sobre os chamados poderes públicos - as marionetes no palco das "políticas" partidárias, institucionais, entre poderes falsamente públicos, num Estado seqüestrado, dominado, infiltrado pelos poderes econômico-financeiros e pressionado pelo controle das comunicações, com a mídia empresarial como porta-voz dos interesses banqueiro-empresariais e enganadora-mor da população, sedutora, usando conhecimentos de psicologia do inconsciente, trabalhando criminosamente na distorção da realidade, na mentira, na criação de mentalidades ainda que momentâneas e desde que atendam interesses imediatos. Estamos vendo acontecer com o 'ministro da "justiça"', peça fundamental pra impedir a continuação do ciclo petista de administração estatal e iniciar a destruição da indústria nacional, vista como "ameaça aos seus interesses" pelos gringos que manobram nos bastidores dos poderes na América Latina e pelo mundo afora, onde conseguem. A "peça fundamental" se torna descartável. As riquezas estão dominadas, petróleo, mineração, agricultura, indústrias em marcha lenta, exportação de matérias primas, o país sendo posto em grilhões, de joelhos, subalternizado, o território sendo entregue aos colonizadores estrangeiros, o povo roubado em seus direitos pela cumplicidade das elites locais já psicologicamente construídas em subalternidade completa.

O sistema de saúde é dominado por laboratórios, indústrias da medicina, interesses econômicos que têm no lucro sua maior importância, o que faz a doença mais interessante que a saúde, porque a saúde não compra remédio nem busca tratamento, a doença sim e isso é que é lucrativo. Nessa lógica, não há surpresa na existência de tráfico de órgãos, máfias de todo tipo, próteses, tratamentos psiquiátricos, coisas de dar terror em quem não tem idéia do que acontece nos subterrâneos da sociedade.

O sistema de transporte, máfia de todo tipo, transporte de carga é mais eficiente que o de passageiros, em toda parte se encontram sintomas de que a sociedade não tem no seu centro de importância o ser humano, mas o patrimônio, o interesse econômico. A vida, o povo, o ambiente, estão em plano secundário e isso se vê na própria formação das pessoas que constituem a coletividade, em sua visão de mundo, seus desejos e objetivos de vida, desumanizados na educação empresarista que faz do mundo uma arena competitiva onde é cada um por si. A busca da harmonia coletiva, o atendimento de toda necessidade básica da população e de cada um, o equilíbrio e a justiça social como objetivos comuns da sociedade como um todo não se vê em nenhuma escola.

Mineração, agricultura, pecuária, em todas as áreas prevalecem máfias, como o é o próprio modelo social, a própria estrutura da sociedade. Essencialmente empresarista e desumana, anti-social em função do lucro extremo a custo mínimo. Um custo em desrespeito e sofrimento para a maioria.

Nas formações acadêmicas programa-se mesmo as mentalidades revolucionárias, de forma a não oferecerem riscos à estrutura social como ela é. A a gente vê o resultado, na arrogância, na distância, na incapacidade de entender e participar do processo na humildade, com muito mais produtividade, em capacidade revolucionária, em mutações verdadeiras. É preciso perceber com profundidade as próprias grades e correntes, porque é nelas que começa o trabalho coletivo. A partir do trampo interno, íntimo, individual, em cada componente da coletividade humana, se faz o verdadeiro trabalho coletivo, sem pretensão e com espírito de serviço. É preciso estar pronto a largar tudo o que acreditávamos no momento em que percebemos dentro de nós mesmos que estávamos errados. Um apego aí e permanecemos atados ao passado e, por consequência, impedidos de seguir livremente em frente.

domingo, 30 de junho de 2019

Aviso a comentantes e opinantes



Em caso de ignorância na opinião, não mando se informar melhor, focalizar e pesquisar o assunto. Não digo nada, embora o meu pensamento e desejo seja exatamente esse. Porque a recepção costuma ser ruim, na maioria das vezes, defensiva, às vezes agressiva, a interpretação mais comum é de afronta, ofensa, desprezo e não a sugestão simples que é, apenas pra cobrir as próprias ignorâncias da realidade no opinar. É uma solidariedade, mas percebida, muitas vezes, da forma “socialmente” programada, como estopim de confronto. Por isso, no geral das vezes, é melhor calar. Não tenho tempo a perder com discussões improdutivas, que não me despertam, não trazem nenhum proveito, no final das contas, e que muito frequentemente acabam em brigas e ressentimentos, rompimentos, afastamentos e destruição, literalmente. Quando há tranquilidade, interesse verdadeiro, possibilidade de proveito, a conversa flui, as coisas acontecem, as sintonias aparecem. E naturalmente os proveitos se dão.

É preciso perceber as conveniências do falar ou calar e questionar qual o proveito ou prejuízo nessa escolha. O estímulo social ao conflito, à disputa é estratégico, porque dispersa o assunto em discórdias pessoais ou ideológicas e cria barreiras pra entendimentos em outras ocasiões. Além do mais, cada um tem seu caminho, suas vivências a viver, seus plantios e suas colheitas, assim como eu mesmo. Quem eu penso que sou pra escolher por outros? Com os demais, sempre que posso, me comporto como gostaria que se comportassem comigo.

Na minha área pessoal está o espaço onde minhas opiniões, opções e escolhas podem e devem tomar decisões, com efeitos imediatos. Aí, e só aí, eu tenho poder de interferência. Se houver um proveito coletivo das minhas escolhas, percepções, pensamentos, sentimentos e opiniões – que expresso, por extensão, no meu trabalho –, esse proveito não será por decisão pessoal arrogante e pretensiosa, cheio de sentimentos de superioridade que cegam e afastam a gente. Estes sentimentos impedem percepções, aprendizados e melhorias que só a humildade pode proporcionar. Se houver proveito, será como conseqüência da observação do mundo, conseqüência da própria receptividade, da busca permanente que move as consciências, as que vão se apurando no caminho da compreensão das coisas, caminho sem fim pelo menos à vista.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Sofrimento coletivo e anunciado - quanto mais embaixo, pior


Os poderes sociais revelam psicopatia geral. Ignoram-se as advertências, escondem-se as evidências, campanhas mentirosas enganam o público, a produção de miséria, criminalidade, escravidão, exploração extrema é permanente. Mantém-se longe do centro das atenções e importância o ser humano em si, a prioridade fundamental da miséria, da ignorância, da desinformação, da formação de seres humanos lúcidos, capazes de entender e decidir com a coletividade a solução dos problemas é cuidadosamente afastada, esses problemas são a base de existência dos privilégios de um punhado. Um punhado de podres de ricos psicopáticos, não só indiferentes ao sofrimento que causam, mas interessados em manter esse funcionamento anti-social da sociedade, criminoso contra as populações, sobretudo periféricas, excluídas dos seus direitos humanos.

As próximas gerações terão de tratar com as conseqüências, em meio ao sofrimento anunciado que fará parte da caminhada planetária, essa é a mutação permanente em que vivemos por poucas décadas cada um, num caminho coletivo que se perde nos tempos, tanto pra trás quanto pra frente. Imagino o quanto estará mudado daqui a cem, duzentos, quinhentos anos. O hoje será uma fumacinha no tempo, digno de calafrios nos historiadores. Mas passará, como tudo passa no tempo. O agora é a nossa participação nisso tudo.

Os endinheirados terão como se cuidar, ao menos de início. A maioria mais pobre, não. Quanto mais pobre, piores as condições, maior o sofrimento e mais profundas as conseqüências. Não se espere que se morra asi, no más. As reações virão em violência, em criminalidade, em revolta, em crueldade. São muitos e muitos milhões nestas condições.

Os poderes deixarão de ser poderes quando a multidão se desinteressar das instituições, não for mais lá, abandonando empregos e se juntando pra trabalhar e resolver seus problemas da melhor forma, em cooperação plena. O tempo mostrará como se farão as coisas. Os anúncios são terríveis. As soluções serão inevitáveis - e passam longe das instituições. Elas estão no meio de nós. Somos uma família que ainda não se reconheceu como família. Questão de tempo. E peleja. Tamo caminhando. O que vier, tem que encarar.


O planeta está a caminho do “apartheid climático”, adverte a ONU

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As empresas privadas devem ter um rol fundamental na luta contra as mudanças climáticas que o mundo enfrenta, mas não se pode confiar nelas para cuidarem dos mais pobres, segundo um informe apresentado no Conselho de Direitos Humanos da ONU, por Philip Alston, relator especial dessa organização sobre pobreza extrema.
A reportagem, publicada na última terça-feira, afirma que o planeta se dirige ao “apartheid climático”, onde os mais ricos podem se permitir maneiras de evitar a influência da crise climática, enquanto os pobres não podem e são os mais afetados.
Uma dependência excessiva do setor privado” – assinala o relator especial da ONU – “poderia conduzir a um cenário de apartheid climático em que os ricos pagariam para escapar do aquecimento global, da fome e dos conflitos, enquanto que o resto do mundo sofreria”.
Alston também afirma que confiar só neste setor para se proteger das futuras condições climáticas extremas e do aumento do nível do mar “quase garantiria violações massivas dos direitos humanos, com os ricos atendidos e os mais pobres abandonados”.
Inclusive no melhor dos casos, centenas de milhões enfrentarão a insegurança alimentar, a migração forçada, as doenças e a morte”, ele diz.
O especialista comenta o caso dos novaiorquinos que ficaram sem eletricidade nem atenção sanitária durante o furacão Sandy, em 2012, enquanto a sede do Goldmar Sachs – grupo banqueiro de investimentos e valores – funcionava com eletricidade do seu gerador e estava guarnecido por milhares de sacos de areia.
Trinta anos de convenções sobre o clima parecem ter sido pouco, nesse lapso “a linguagem tem sido notavelmente similar, à medida em que os Estados continuam caindo”.
Neste sentido, o informe critica os governos por fazer pouco mais que enviar funcionários a conferências para fazer “discursos”, apesar de cientistas e ativistas do clima estarem dando voz de alarme desce a década de 1970.
Alson condena as tentativas de Donald Trump de silenciar as afirma
ções da ciência a respeito do câmbio climático e critica Jair Bolsonaro por suas promessas de abrir a selva amazônica para as empresas mineradoras.
O especialista da ONU ressalta também acontecimentos positivos, como os casos legais contra companhias de combustíveis fósseis – petroleiras –, o ativismo de Greta Thunberg, as greves escolares e o movimento britânico Extinction Rebellion.
Para Alston, a resolução mais recente do Conselho de Direitos Humanos sobre a crise climática não reconheceu que o desfrute dos direitos humanos por um grande grupo de pessoas está gravemente ameaçado e que, se o objetivo é evitar uma catástrofe climática, é necessária e urgente uma profunda transformação econômica e social.
(Con información de Reuters y The Guardian)

Tradução – Eduardo Marinho


domingo, 26 de maio de 2019

Pai Inácio, cabeça da Chapada Diamantina.

Vista do alto do Pai Inácio, na cabeça norte da Chapada Diamantina.
Numa função de Lençóis a Palmeiras, entramos na estradinha e subimos o morro de pedra enorme, na beira da estrada. De cima se entende o Suassuna, "a beleza da zona da mata é graciosa, a do nordeste é grandiosa". A gente sente a pequeneza do ser diante da enormidade natural das pedras, dos grandes espaços, do horizonte longínquo. Muitas fotos foram tiradas, essas são as minhas.

A estrada por onde passávamos, entre Lençóis e Palmeiras, na sombra do Pai Inácio.
Ao sul, o Vale do Capão adentra pela Chapada Diamantina, que vai até o sul da Bahia.
Hare em função, na beira do abismo. A mão do violão é do Ravi.
Ravi, Satya e Hare no alto do Pai Inácio.
Entre as funções da viagem, uma parada pra alimentar o espírito de beleza grandiosa, de espaço, cor e ar. Pelo caminho que fizemos, pela passagem que passamos acabamos dando a volta na entrada. Soubemos depois e longe dali, que cobram doze reais por pessoa pra subir no morrão. Fomos poupados por ignorância. Mas ia ser um desfalque, em seis pessoas. Uma refeição pra todos.

domingo, 19 de maio de 2019

Fabio e Edu - cartas trocadas.

Fabio:

"Impressionante como conversar com as pessoas me é cada vez mais insuportável. Tenho cada vez menos paciência de explicar certas coisas. Vejo as pessoas cada vez mais apegadas as suas pequenas certezas e isso é um nojo. Não conseguem ver um centímetro adiante, não tem um mínimo de criatividade ou imaginação. Agora a moda é que para criticar você tem de obrigatoriamente ter uma proposta. Se você diz que não compactua com o sistema, elas vem logo perguntando como deveria ser feito então. Querem quer você dê respostas, precisam de um mapa pra seguir, necessitam de uma receita de bolo. As pessoas tem uma grande dificuldade com essa pegada igual você teve de não saber o que ia acontecer, mas a certeza era de que o que lhe era oferecido não servia. Você saiu pelo mundo sem saber que um dia ia chegar no Eduardo que chegou hoje. Entende? Eles tem pavor do desconhecido. Precisam de seus ismos para servir de bengala. Mergulhar no desconhecido e construir enquanto se caminha chega a ser uma heresia. Elas querem uma resposta pronta. Você não acredita em partido, não acredita no sistema como é, não quer escolher um menos pior para te representar, então como tem de ser? Daí tu tenta falar que você não tem respostas prontas, que a coisa precisa ser construída no coletivo enquanto se faz para ter algum sentido... E aí já enlouquecem. "Se você não sabe então está satisfeito do jeito que está." Entende isso? O potencial escroto dessa lógica? Você não pode ver que está ruim porque não pode adivinhar o futuro ou porque não tem a fórmula mágica.  E vem uma torrente de merdas imensuráveis. E isso tô falando de gente que se diz de esquerda e até uns que se dizem libertários estão aderindo a essa lógica, a essa necessidade de trabalhar com respostas e afirmações que criam polos que se retroalimentam. A necessidade de convencer o outro. Nojo total das pessoas. Muito cansativo dialogar quando a burrice está mais solidificada que nunca em ambos os lados."  

Edu:


"Nisso de fazer o caminho caminhando, minha opinião é que o clima de heresia aparece pra esconder o medo. Respostas e certezas tranqüilizam e evitam o pânico ao risco. A tal "segurança social" é um esterilizante, uma corrente que prende essas mentes tão instruídas na formalidade. É a ignorância instruída, adestrada a funcionar pelo sistema, mesmo sendo "contra", pra não perder seus direitos de abastados, pra se manterem na "casta" acadêmica. É a facilidade dos teóricos, na prática são prisioneiros dos seus próprios pensamentos - que, aliás, nem próprios são na esmagadora maioria das vezes. Evito perder tempo com essas mentalidades, por saber que é não só inútil, como desagradável. A maioria, na verdade, nem tá nessa. E a gente prefere trabalhar com a maioria, com a sabedoria e não com o saber. Com a prática na base das teorias vivenciais a que vamos chegando, sem esse cheiro de múmia das teorias eurocêntricas. Mais pra intuição do que pra lógica, mais pro sentir do que pro raciocinar, embora não se dispense a participação nem de lógica, nem de saber - apenas descidos dos seus pedestais e postos a serviço do sentir, do sentimento de família estendido pra toda humanidade, toda a vida planetária. Um passo distante ainda na caminhada. Estamos em meio aos espinhos e armadilhas, em direção ao colapso, aos escombros de onde apenas aqueles habituados às dificuldades rotineiras poderão reconstruir o mundo, menos desumano, menos desigual, menos arrogante, mais respeitoso e integrado em todas as suas formas de vida e existência. Coisa pra gerações ainda distantes. Agora estão chegando as da reciclagem, da auto-suficiência e dos desenvolvimentos necessários no momento, a partir da autonomia psicológica, mental e espiritual. Estas estão na base de todas as autonomias. É preciso ignorar os fracos que se fazem de fortes. Eles não são capazes de muita coisa. Há os que são e não se encontram entre teóricos sem prática verdadeira. Os simulacros abundam por aí, garimpamos exceções em qualquer meio. Não há só dois lados. Há infinitos."


Fabio da Silva Barbosa e seu novo livro - socos no estômago, tapas de vergonha na cara. Quem quiser encarar, pedidos por email a ele próprio. 
Fabio da Silva Barbosa fsb1975@yahoo.com.br


sábado, 6 de abril de 2019

A fachada era uma, a intenção era outra - crônica de um engodo

O vídeo apresenta as notícias dadas pela própria mídia comercial privada, com dados estatísticos de cada momento. No final, Mano Brown dá a letra, "acho que foi sabotagem". Uma clara sabotagem em grande escala, com trabalhos em cada setor, em cada classe social, em cada nível de escolaridade, com apoio e domínio das comunicações do país, já dominadas desde os militares - inclusive foram as maiores estimuladoras da saída deles, os militares.

Ridicularizando-os nos programas de humor, jornalistas e comentaristas apontando suas falhas, com a pressão internacional sobre as torturas e prisões denunciadas amplamente, impedindo-os de reagir como sabiam. Deslocados, entregaram o governo e saíram de cena, não sem antes se garantirem a impunidade pelos crimes cometidos e se colocarem como guardiães da "democracia".

Bom, voltando ao assunto, os efeitos mostram quais eram as reais intenções da tal "lava-jato". Demolir a indústria nacional, criar miséria e abandono, cortar programas sociais, deter a passagem de conhecimento, ainda em gotas, pra população mais pobre, manter e aumentar a ignorância e a desinformação, pra manter a dominação. Falo de forças econômicas, mercado financeiro, bancos... e sua corte inevitável de mega-empresários tóxicos às populações. O saque das riquezas brasileiras é o objetivo, a escravização da população, a criação de miséria que leva à violência e a criminalidade - que começam na cúpula dos poderes. na violência e na criminalidade do próprio Estado contra a população e se estende, por conseqüência, por todas as áreas, em toda estrutura social.

Se os poderes verdadeiros estão acima dos poderes ditos "públicos", estes são uma fachada, um teatro de marionetes e cartas marcadas. E isso reflete em todas as instituições, todas as áreas, observe-se. A forma comum em todos os setores é a de máfia. A partir de bancos, mega-empresas e grandes proprietários e se estendendo por todo o aparato público, todos os poderes e instituições. Com o domínio, precarizam a educação e dominam as comunicações, entre todas as áreas dominadas a de controle do povo. E convencem o povo que a corrupção começa no Estado. Não, ela é imposta ao Estado pelos poderes econômicos gigantescos de banqueiros internacionais, mega-empresários idem, com a cumplicidade dos banqueiros e mega-empresários locais que fazem a mentalidade das classes altas, dos "cargos importantes".

O que acontece com a indústria naval está acontecendo em todas as áreas da nação. Madeireiros derrubam mais rápido que nunca as florestas, indígenas estão sendo atacados como só na colonização pelos europeus, venenos agrícolas proibidos num monte de países foram liberados e estão empesteando ares, terras, águas, bichos, gente, tudo. Os predadores estão à solta, sem freio. As conseqüências se vê nas ruas, no número de desabrigados, drogados, abandonados, o aumento da violência, da criminalidade, das chacinas, da guerra civil por pontos de drogas e domínios de territórios, milícias se fortalecendo, forças de segurança matando livremente bandidos pobres e pobres trabalhadores, sem muita distinção porque têm imunidade pra matar com apoio governamental.

O vídeo é uma aula de ensino médio. O passo seguinte são as forças internacionais e suas artimanhas históricas e evolutivas. Mas cada passo no seu lugar, pra não cair no caminho.

sexta-feira, 15 de março de 2019

A morte do meu pai


Fui esperar o corpo no cemitério. Meu pai havia morrido durante as férias de verão, num hotel fazenda em Conservatória, interior montanhoso do estado do Rio. Ele passava sempre as férias ali, com minha mãe e uma penca de netos. Havia muitas atividades para crianças e adolescentes, passeios a pé ou a cavalo, uma lagoa onde se nadava, remava, mergulhava, além de recreadores, guias, contadores de histórias. A seresta é uma característica local e toda noite seresteiros encantavam os hóspedes.

Aquela era a primeira vez que Ravi, meu filho, havia sido convidado – ele estava com quinze anos e havia conhecido essa família pelos doze, sem nenhuma convivência antes. Na tarde daquele dia ele havia passado pelo avô no estacionamento do hotel, que estava limpando o carro com uma flanela e reclamando de um arranhão no parachoque, “não sei se fui eu que esbarrei em alguma coisa ou se alguém “ruim de roda” raspou aqui no estacionamento”.

À noite ele teve um acesso de tosse interminável e minha irmã mais velha, que passava uns dias das férias ali, sugeriu e foi com ele ao hospital local pra uma consulta de emergência. Depois dos primeiros exames, o médico achou melhor aprofundar e levou meu pai pra dentro, onde estavam os aparelhos mais pesados. Minha irmã viu meu pai pela última vez com o soro na veia, caminhando com o médico pro interior do hospital. O médico carregava a haste metálica onde se pendurava o soro, meu pai reclamava, “tira esse negócio do meu braço, doutor”. Tempo depois, o médico veio com a notícia: “infelizmente o seu pai teve uma parada cardíaca e, apesar de todas as nossas tentativas, não foi possível reanimá-lo. Meus pêsames”.

A notícia desabou sobre a família inteira. Ele tinha oitenta e dois anos – a mesma idade da minha mãe – e tinha uma saúde ótima, sem nenhuma das doenças comuns na velhice. Foi um choque geral. Recebi a notícia na manhã seguinte, por Helena, uma das “funcionárias” da família. Minha primeira reação foi idiota, “cê tá brincando”, como se alguém pudesse brincar com um assunto desse. “Pior que não”, foi a resposta. Eu entrei numa espécie de transe. E o resto do dia se passou entre lembranças e reflexões. Nosso abraço, tão esperado havia tantos anos, tinha sido adiado. Agora, só quando eu chegasse lá também.

Havia cinco anos que minha relação com eles tinha sido retomada, ainda que muito superficialmente. Aos dezenove anos eu deixei pra trás faculdade, casa, vida confortável e socialmente “segura”, com a finalidade de encontrar algum sentido numa vida que, até então, não tinha nenhum que me parecesse satisfatório.

Desde os quatorze anos, quando passei num concurso pro Banco do Brasil, eu questionava os objetivos da vida. Todos me pareciam pouco, vazios e frustrantes. “Deve haver algum sentido maior, não é possível que a vida seja só isso”, trabalhar no sacrifício, esperar pra viver nas horas vagas, nas férias, pra garantir conforto e segurança e nada mais. Em dez meses eu sentia repulsa à idéia de passar a vida naquele ambiente medíocre, com aqueles valores que não me diziam nada, e pedi demissão.

Então começaram as cobranças sobre o que eu queria da vida, o que eu seria, o que escolheria fazer, cobranças que não eram assumidas, mas sugeridas – eu havia “jogado fora” uma “oportunidade de ouro” de um emprego público, com plano de carreira, garantido até a aposentadoria – isso era o que me apavorava, passar a vida naquele ambiente – com privilégios e garantias como poucos outros empregos. A garantia de frustração não era considerada, nem pensada. Só eu sentia, era um vazio, uma falta de significado na vida que eu intuía a partir dos assuntos que ocupavam os mais velhos, dos valores que eu assistia serem exercidos. Era uma repulsa irresistível, incompreensível pra minha família. Pra mim também, "o que eu tenho de errado, que não me enquadro?" Na visão deles, isso era motivo de preocupação comigo e com o meu destino. Na minha também.

Eu não tinha ideia do que “fazer na vida”, estava no ensino médio e nenhuma das profissões universitárias me atraía, eu parecia não ter vocação pra nada. Procurando satisfazer as expectativas familiares, resolvi pela carreira militar – que me parecia fácil – e entrei por concurso na Preparatória de Cadetes do exército. A família comemorou, certa de que eu seguiria a carreira do meu pai. Um ano e meio depois eu pedia desligamento, enojado com aquela hierarquia e com o papel que entrevia das forças armadas, no controle e repressão do povo. Era pior que o BB. As finalidades sociais eram de envergonhar, eu não queria colocar minha vida a serviço daquelas finalidades. Não valiam o plano de carreira, a segurança, a moral social, nada valia a violação da minha consciência – e o sentimento de que seria uma necessidade cotidiana definiu minha decisão de sair dali.

Foi inevitável a enorme decepção familiar, principalmente a do meu pai. A família e os mais próximos viram na minha atitude uma afronta a ele. Não era. Era a minha visão projetada na vida que eu teria, seguindo por ali, em grande parte previsível. E que me dava angústia, por não ver sentido e me sentir obrigado a seguir ordens que não me respeitariam e me fariam violar minha consciência. Essa era a função da tal "hierarquia". Não questionar e obedecer, era o que me esperava. Me envergonhava a idéia, mas eu não podia dizer, era uma "heresia" imperdoável. Não havia opção, tive que sair.

Um ano e meio depois, entrei na universidade, ainda na tentativa de me enquadrar nas expectativas da família. As angústias do final da adolescência, começo da juventude, só aumentavam. Eu estava com dezoito anos e os três primeiros meses universitários foram de boa surpresa. Vi sendo discutidas as injustiças sociais e a estrutura da sociedade, assuntos que me ferviam na cabeça e que eu não encontrava com quem falar. Entrei com vontade nas discussões, só pra me decepcionar. Logo percebi que os discutidores não sabiam ligar suas teorias à realidade que eu vivenciava todo dia, que eram jovens de classe média em sua maioria, vindos do ensino particular, e não se aproximavam das dificuldades vividas pela maioria mais pobre, tinham aquele sentimento programado de superioridade e se achavam capazes de “conduzir as massas”, não tinham a menor dúvida disso. Eu tinha. Aliás, tinha certeza de que ali ninguém suportaria viver e superar as dificuldades cotidianas da maioria. Com o couro duro adquirido no exército, eu viajava de carona em férias e feriados, com muito pouco dinheiro, dormindo ao relento, em postos de gasolina, em casas abandonadas ou em construções, convivendo com os mais pobres e os observando com total interesse. Passava dias na reserva florestal do Mestre Álvaro, sozinho ou com um ou dois amigos, "esquecendo" a vida cotidiana na atividade mateira, facilitada pelos treinamentos militares. Encontrava pessoas vivendo em pobreza extrema, em casinhas pelo meio das trilhas, analfabetas e ainda assim com sabedoria de vida, com substância profunda e forte que me confundiam os valores aprendidos. Sentia haver alguma coisa errada no que me ensinaram.

Eu sentia uma diferença ainda incompreensível pra mim, mais espontaneidade, mais afeto, mais transparência de personalidade, mais solidariedade, mas capacidade de encarar e superar dificuldades. O sentimento de inferioridade que eu via neles não combinava com a vida que eles levavam. Eram muito mais fortes que os meus colegas universitários, embora se sentissem, eu via, inferiores. E a distância entre as teorias acadêmicas e a prática cotidiana se fez visível pra mim. Falava-se em “mudar a sociedade” ou “o mundo”, sem a menor condição pra isso. Falavam em "conduzir as massas" mas nem a língua das massas eles falavam. Logo estariam com seus diplomas, sentadinhos em seus lugares sociais, caladinhos pra não se darem mal em suas carreiras profissionais de “nível superior”. O tempo mostraria que eu estava certo.

As reflexões sobre a vida, a busca de sentido, os questionamentos que se aguçavam à medida em que eu me aproximava da idade adulta, me faziam sentir que estava diante de uma encruzilhada decisiva. Na minha frente, estava a opção entre a frustração e o risco. Os caminhos visíveis me pareciam de uma frustração certa, uma vida repetitiva, previsível, onde eu esperaria férias, fins de semana e feriados pra poder viver e ter algum prazer na vida. O objetivo seria apenas manter meu patamar social – de preferência subir degraus – privilegiado, isolado da realidade e conformado com as injustiças. “O mundo, infelizmente, é assim mesmo e não se pode fazer nada além de se garantir individualmente e, pra satisfação da própria consciência, se ela assim o exigir, fazer caridade ou algum trabalho voluntário de ajuda aos mais pobres”, nunca engoli esse egoísmo cheio de vaselina. 

A visão intuitiva da minha própria frustração foi se tornando insuportável. Aqueles valores, aqueles comportamentos, os privilégios e garantias, o conforto e a consideração social já não me diziam mais nada. Os privilégios me constrangiam, apareciam como usufruto de injustiças, davam a sensação de uma vida artificial e cheia de falsidades. Isso me fazia meio estranho no mundo em que vivia.

No auge das angústias, antevendo as frustrações de uma vida convencional e previsível, sentindo uma necessidade imperiosa de encontrar algum sentido maior na vida, que me satisfizesse a alma, me desliguei da universidade e fui procurar. Devia haver algum sentido além dos sentidos vazios que me apresentavam. Peguei a mochila e caí na estrada, “ou vou encontrar algum sentido pra essa vida ou vou morrer procurando”, falei muitas vezes, naquela época, a quem me perguntasse por que eu estava fazendo aquela “loucura”. E muitos me perguntaram, antes de cortar relações... eu havia ficado maluco, pra eles. Na minha visão, eu havia ficado incômodo. Precisavam me desqualificar pra não se sentirem prisioneiros, eu imaginava.

A família, horrorizada, decepcionada, não tinha condições de perceber os sentimentos que me moviam, de entender as minhas motivações. Não podiam aceitar, compreender, nem mesmo respeitar – era a suprema traição, pra eles. Meus pais achavam que eu não os respeitava, confundindo respeito com submissão. Era a minha vida e era meu direito e minha obrigação decidir o que fazer com ela – afinal, seriam minhas as conseqüências das minhas decisões. Mas eles não me ouviam mais e, depois de todas as tentativas de me manter no padrão de vida que eles me deram, sem sucesso, cortaram totalmente as relações comigo – corte que se estendeu a todo o meu convívio social, parentes, amigos e conhecidos.

Então as vivências se fizeram, a angústia desapareceu, a vida ficou muito mais interessante, embora muito mais arriscada também, e o aprendizado se intensificou, na prática do dia a dia. Era um outro ponto de vista pra observar a realidade, muito mais rico e profundo que os anteriores. A dor da incompreensão durou pouco. A vida tomava toda a atenção, o trato cotidiano com as variadas situações que se apresentavam não deixavam espaço pra lamentações, o dia a dia fez sumir a lembrança de um dia ter sido parte dos privilegiados. Ficava apenas na formação de visão de mundo, agora mendigo, maluco, hippie, micróbio, pária social. Com o passar dos anos, tive filhos, uma em Vitória, outra na Bahia, o caçula em Minas Gerais.

Dezoito anos se passaram até que minha segunda filha, então nos seus quatorze anos de idade, resolveu conhecer os avós. Tentei demover essa intenção – lembrando que já havia feito uma tentativa de apresentar as duas, pequenas, que foi sumariamente recusada por meus pais –, mas ela estava decidida. “São meus avós no documento? Estão na minha certidão de nascimento?” Sim, estão, são meus pais e tinham que estar. Ela fulminou, “então eu acho que tenho o direito”. Eu não tive o que dizer, além do número do telefone que, pra minha surpresa, saiu de uma vez só, sem esforço. E não precisei dizer duas vezes.

Ela telefonou, pensei que eles iam recusar de novo, mas a convidaram pra jantar. Ensinei como chegar, dei a grana das passagens. Ela foi de ônibus e voltou de táxi, pago por eles com um motorista conhecido. Acharam um absurdo mandar uma adolescente sozinha do Catumbi – estávamos morando na beirada do "complexo" do Fallet, em Santa Teresa - ao Leblon. Desconheciam a minha realidade e, por conseqüência, a realidade dela, desde pequena criada entre a periferia e a rua, a estrada, as situações de risco que a sociedade impõe a enorme parcela da população. E ela trazia um convite, que eu fosse jantar com eles no dia seguinte.

Começava ali uma nova relação, meus pais haviam envelhecido muito e, apesar deles esperarem uma continuidade da relação interrompida, não havia a menor condição disso acontecer. As vivências que eu trazia eram inimagináveis pra eles, assim como a visão de mundo que eu formara nas práticas atentas da sobrevivência com as dificuldades dos excluídos periféricos. Eu era outra pessoa, com a visão a partir de baixo, opiniões formadas na lida cotidiana, distante dos privilégios, convívio íntimo com a falta de direitos e com o desrespeito social pelas áreas periféricas e pelo povo mais pobre. 

Foram cinco anos de convívio rarefeito com a “antiga” família, até a partida do meu pai. A relação se mostrou distante, eu havia me tornado uma pessoa estranha – agora na prática, com vivências, além da teoria intuitiva da adolescência – àquele meio. Mas percebia, às vezes, meu pai me olhando de longe, com uma expressão que eu interpretava como a percepção de que eu não era uma pessoa tão ruim quanto ele havia pensado. Eu imaginava que aos poucos ele iria se tocando, até que a gente pudesse se reaproximar de verdade. Não deu tempo.

Quando recebi o telefonema com a voz emocionada da Helena, pensei “o nosso abraço foi adiado, vai ter que ser lá do outro lado”. Sempre admirei meu pai, como pessoa boa e reta que é, caráter honesto e temperamento amistoso. Onde há afeto, há ligação, é o que me diz a intuição. Mesmo com todo o afastamento, em todos esses anos, a ligação afetiva não se desfez.

As vivências e acontecimentos em minha vida, tantos aprendizados e experiências, não seriam possíveis se a relação com a família consangüínea não se tivesse rompido. Em várias ocasiões críticas eu teria pedido socorro. Mas o rompimento era total e em nenhum desses momentos eu sequer lembrei da existência deles. Estava igual a todo mundo à minha volta, nas periferias, exposto a tudo o que a maioria está. Era minha saga, minha sina, minha escola.

Mais tarde no mesmo dia, recebi o recado da minha mãe – eu devia ir ao cemitério São João Batista, onde o corpo chegaria à tarde. Era preciso alguém da família pra receber o corpo. O enterro seria na manhã seguinte. E eu fui.

Havia um salão preparado, com um caixão vazio e duas coroas de flores, uma do exército, outra da Petrobrás – onde meu pai fora assessor de segurança depois de reformado, o aposentado militar. Algumas luzes fracas, castiçais com velas apagadas, grossas e imponentes. Cortinas escondiam as vidraças que davam pra vastidão de túmulos dentro do cemitério e escureciam o ambiente. Lá fora, a tarde anoitecia. Uma escada larga dava pra portaria, de onde se via a rua e a entrada pelas portas de vidro. Subi e olhei pra fora, os pensamentos variando sobre sentimentos difíceis de definir. Nessa hora vi um carro funerário entrando pelo portão. “Está chegando”.

Em pouco tempo dois caras entraram empurrando a maca de rodas, o corpo do meu pai em cima, cabelos brancos, camisa social, calça comprida e meias. Eles me viram olhando do alto da escada, devem ter percebido a semelhança física e me cumprimentaram, sérios. Pensei em perguntar pelos sapatos, mas me contive, “pra quê?" Ele não precisava mais de sapatos. Fiquei observando quando eles encostaram a maca no lado do caixão e, com movimentos profissionais, transferiram o corpo num único impulso, ajeitando um travesseiro sob a cabeça. E foram embora ao mesmo tempo em que um funcionário do cemitério entrava com um carrinho cheio de flores. Cuidadosamente ele foi colocando as flores sobre o corpo, devagar, até ficarem de fora apenas a cabeça, as mãos entrelaçadas sobre o peito e as pontas dos pés. Todo o caixão eram flores até em cima. Aí ele saiu e então eu fiquei sozinho.

Cheguei perto. Ele parecia dormir, tranquilo como sempre. O pensamento corria, tanta distância, tanto tempo, tantos acontecimentos, tanta ligação... Senti que ele não estava dentro do corpo, não tinha ninguém ali mais. Desabitara. Senti também que ele podia estar por ali, por perto, no abstrato, vendo e ouvindo meu pensamento. “Será que você agora pode ver a minha alma? Será que pode ver quem eu sou, de verdade? Será que minha imagem se modificou pra você? Enxergar meus valores, meus propósitos, desfazendo a imagem que teve, de rebelde, desmiolado, drogado, perdido, largado e bandido? Ah, meu pai... quando chegar aí quero te abraçar como não foi possível nessa vida. Agora talvez você possa perceber que os valores do mundo são falsos, superficiais, que os verdadeiros valores são os da alma, abstratos e longe das convenções sociais que foram a base da sua vida. E que os mesmo motivos que te levaram a sentir vergonha de mim são, na verdade, motivos de orgulho.”

No meu sentimento, na minha intuição, a morte é reveladora, um portal que nos leva a dimensões de onde se vê a realidade física de outra maneira, percebendo a superficialidade, a falsidade dos valores sociais, ao mesmo tempo em que se vislumbra valores mais verdadeiros. Praqueles que vibram na sinceridade, na honestidade, na busca de melhores valores. Porque me parece óbvio que há outros níveis de sintonia, cada um vai sintonizar a vibração que cultivou, que exerceu e exerce, que carrega consigo. Mas isso é outro papo.

Os que vêem na morte uma tragédia, uma desgraça – e não uma conseqüência natural de ter nascido – devem ser os que mais se surpreendem. Assim como os fanáticos religiosos que apregoam “verdades” improváveis e, talvez por isso mesmo, têm pavor da morte.

Nathália apareceu sozinha ali pelas nove da noite. Era a primeira neta, minha sobrinha que conheci adulta e que não pude sentir como sobrinha – não a vi criança nem adolescente. Conversamos e depois ela se aproximou do caixão. Eu me afastei em respeito, havia um amor especial entre os dois e era a sua despedida do avô tão amado. Fiquei olhando de longe. Quando ela foi embora eu fiquei sozinho de novo com o corpo e a sensação de que meu pai estava por ali.

Passei a madrugada refletindo, “conversando” com ele, pensando que talvez agora ele pudesse me ver e estivesse surpreso com a visão sobre mim desta outra dimensão. Fui interrompido por três vezes, por pessoas que vivem de explorar a dor dos familiares, aproveitando a tristeza pra extorquir o máximo possível. O primeiro queria grana por uma coroa de flores que havia sido encomendada pela minha irmã. Estava indo embora, "largando", e precisava receber. Eu mostrei as duas coroas, a do exército e a da Petrobrás, não havia outra. Ele disse que estava sendo confeccionada na floricultura em frente, onde ele trabalhava. “Se foi encomenda da minha irmã, é dela que tu tem que cobrar”, eu disse. Eu não tinha nenhum dinheiro. E ele sumiu. Pouco tempo depois, outra assombração surgiu do escuro, perguntando se o falecido “merecia” uma chuva de pétalas e som ambiente na hora de descer ao túmulo. Olhei nos olhos dele, com raiva daquela covardia oportunista, “o falecido tá falecido e não precisa de mais nada deste mundo”, ele sentiu no meu olhar e foi embora. Antes de amanhecer, o primeiro voltou pra mais uma tentativa, demonstrando a mentira de que estava indo embora. Insistiu em receber a grana da tal coroa de flores. Eu fui direto, levantei o dedo na cara dele, “vou perder a paciência com você, urubu safado”. Aí desistiram de mim. Depois eu diria que passei aquela noite espantando os urubus.

O dia começava a clarear quando ajoelhei do lado do caixão, pra ficar mais perto do semblante tranquilo, dormindo. “Ah, meu pai, quanta distância e quanta proximidade ao mesmo tempo...” Tive o sentimento de ser uma relação antiga, de muitas vidas. “Dessa vez não pudemos conviver muito, né, pai...” Aos poucos entrei em estado de oração, não sei como se diz, em nível mais profundo de consciência, evocando luzes, ou irmãos, pra receber aquele cara tão amado, tão querido por todos que o conheceram. Não sei quanto tempo fiquei assim, as lágrimas descendo, numa espécie de transe natural, em estado mental mais profundo, refletindo, conversando com a dimensão onde ele estava, na minha imaginação.

Um burburinho distante apareceu e foi se aproximando, me trazendo de volta, abri os olhos e vi a primeira parte da família chegando. Enxuguei os olhos, levantei, saí de perto do caixão, que foi cercado, e fui lá fora respirar e ver o dia já claro. Saí caminhando entre os túmulos, mausoléus enfeitados com esculturas em granito, em mármore, lindas, bem acabadas, caras, pirâmides, cruzes enormes talhadas com perfeição, granito, mármore, quartzo negro e rosa, anjos, santos, divindades gregas, romanas, uma exposição e tanto. Fui caminhando a esmo, me afastando da administração e me aprofundando naquela “cidade dos mortos”. À medida em que me afastava, luxo era substituído pela sobriedade, pela simplicidade e, enfim, mais longe, pela pobreza. Túmulos de tijolos, com cruzes simples, os nomes e retratos dos enterrados, até os mais pobres, montinhos de terra, sem nada além da cruz tosca de madeira com o nome e data de nascimento e morte. Na morte, como na vida, ricos no centro de importância, pobres nos longes, nas periferias.

Caminhei de volta, de longe vi o salão cheio. Chegando, vi amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, gente que me conheceu criança e de quem eu não lembrava ou lembrava muito vagamente. O falatório era intenso, choros, reclamações, lamentações, “ele era tão bom...!”, fui abordado no meio do caminho, me parecia levemente conhecida, mas não sabia se prima, amiga da família, de qual parte, desolada, "por isso mesmo que ele tá bem, minha senhora, fica tranqüila". Ela olhou nos meus olhos e tinha confusão nos olhos dela. Mas eu não tinha mais nada pra dizer e segui adiante.

Minha mãe estava ao lado do caixão, chorava amparada pelas filhas e por alguns netos. Cheguei perto, dei um beijo na testa, ela me olhou sem expressão e voltou a olhar o rosto do meu pai, acariciando o cabelo dele com as pontas dos dedos. Falei no seu ouvido, “cê vai ter que esperar pra encontrar com ele”. Ela me olhou de novo, interrogativa em sua dor. E eu continuei, “pra onde cê acha que vai esse povo todo que tá aqui?”, fiz um gesto com o braço abrangendo todo o salão, ela acompanhou. “Ele passou pela porta que todo mundo vai passar, cada um no seu momento. Quando passar pela sua, seja no tempo que for, cê vai dar de cara com ele, porque o afeto, o amor une as almas, aqui e lá”. Ela me olhava com uma expressão de surpresa e distância, sem ânimo pra replicar. Mas tive a impressão de que um pouco de calma lhe chegou. Não posso saber se é verdade ou minha vontade.

Passei os olhos pela pequena multidão e fui andando, quase ninguém eu conhecia, nem mesmo os que me abordavam com cara de me conhecerem. As frases, as expressões de consolo e solidariedade, programadas, repetitivas, não me diziam nada e me incomodavam. Garções serviam água, refrescos, canapés, biscoitos, “caraca, contrataram um bifê”. Senti olhares sobre mim, o “filho perdido”, motivo de tanto sofrimento, olhares que me cobravam um arrependimento impossível, traidor da família que nunca me senti, apesar das acusações repetidas por décadas. Não era surpresa e não chegava a me incomodar, de previsível que era. Na mentalidade comum, natural que fosse assim. Diante das manifestações que me incomodavam, me afastei pra um canto e fiquei olhando. Até que alguém chegou, “sua mãe quer falar com você”.

Voltei ao centro do evento, ela permanecia junto do caixão. “Oi, mãe, tá me chamando?” “Meu filho, cê tem que fazer uma coisa muito difícil. Eles vão lá retirar o corpo da sua tia pra poder enterrar o seu pai, alguém da família tem que ir junto”. Parece que ninguém quis ir. “Sem problema, vou lá”.
Senti alívio em sair do ambiente fechado, abarrotado, e respirar o ar da manhã. Fui com dois funcionários do cemitério, era regra ter alguém da família naquela função. Eles levavam um pequeno guindaste que foi instalado em cima da tumba. Rasparam o cimento embaixo da pedra de mármore que cobria, depois passaram cordas e ergueram.

Minha avó, mãe do meu pai, havia sido enterrada ali em 1982. Pouco mais de dez anos depois, era vez da filha dela, irmã mais velha do meu pai, Dinda, a “madrinha” da família, nascida quatorze anos antes dele. Nunca se casara pra viver com minha avó que ficou viúva nos trinta e tantos anos. E se tornou a Dinda da família.

Olhei pra dentro do buraco. Da Dinda só tinha o vestido cor de vinho, com um nó grande sobre a barriga, que eu reconheci de eventos na minha infância e sempre havia achado horrível. Dentro, o esqueleto marrom não lembrava em nada minha tia. Um monte de baratas corriam no fundo e nas paredes. Estranhei, “ué, cadê o caixão?” Um dos caras pulou dentro, indiferente às baratas, dizendo “o caixão é o primeiro que acaba” e meteu a mão no pó lateral, puxando uma das alças metálicas, “tá vendo aí?” Em seguida passou a recolher os ossos e colocar numa caixa branca. A naturalidade com que ele fazia isso era constrangedora. Os ossos das mãos entrelaçadas ainda tinham os anéis de ouro e pedras e se desfizeram ao serem recolhidas com rapidez e jogadas dentro da caixa, com anéis e tudo. Eles tinham pressa e não era à toa. Depois de limpar o fundo, varreram e usaram o guindaste de novo. Pra minha surpresa, o fundo era “falso”. Retiraram a laje do fundo, a cova era maior do que parecia, e apareceu outra caixa branca, igual a que agora continha os ossos que foram da Dinda. Eram os da minha avó, entendi. A de Dinda foi colocada ao lado e a lage, reposta em seu lugar, escondeu as duas.

Acabaram o serviço e o cortejo já vinha caminhando pela alameda, em direção a nós. Tudo sincronizado, eles eram profissionais. Não precisei ir ao encontro. Um funcionário empurrava o carrinho, a família em volta e a multidão atrás.

Vi ao longe, na área pobre do cemitério, outro enterro acontecendo. Impossível não perceber o contraste. Poucas pessoas, o caixão parecia de papelão e era carregado nas mãos por quatro pessoas que não eram trabalhadores do cemitério, mas parentes ou amigos. O que esperava era um buraco no chão, ao lado de um monte de terra com uma pá cravada em cima e um coveiro esperando pra cobrir o caixão na cova.

Olhei pro “meu” cortejo. O caixão de madeira nobre, num esquife de rodinhas todo enfeitado com flores, um monte de gente bem vestida – uns poucos pobres, servidores da família. Atrás, a multidão era variadas, tinha de várias classes, de pobres a ricos. Meus pais tratavam muito bem os que os serviam, vi muito reconhecimento ali. 

Esperei chegar, minha mãe vinha ao lado, já sem lágrimas, abatida, amparada por vários parentes. O caixão foi colocado sobre o túmulo, em cima de duas ripas atravessadas, pro “último adeus” antes de descer ao fundo. Alguém me perguntou “quer falar?” Pego de surpresa e consciente da visão geral de que eu era o “filho maldito”, fui seco, “não”. Ficou um clima estranho, resolvido por um antigo amigo do meu pai que eu não conhecia, embora soubesse da sua existência. José Hermógenes, professor de ioga, companheiro da juventude dele, se adiantou e contou uma história da época em que eram estudantes. Engraçada no final, arrancou alguns poucos sorrisos. Depois o caixão foi descido e a pedra foi recolocada em seu lugar. O nome já estava colocado nela, em letras douradas, com as datas.

Então a multidão foi dispersando, lentamente, e eu me integrei à pequena comitiva familiar que acompanhava minha mãe no caminho de volta. Olhei distante na direção do outro enterro. O coveiro tinha terminado de encher a cova e enxugava a testa, enquanto pouco mais de dez pessoas caminhavam em direção à saída lateral do cemitério. Uma mulher mais velha era amparada por duas outras mais novas. Na minha tristeza pessoal, acrescentei uma tristeza social, “até a saída é outra”.

Fomos pela área “nobre”, saímos pela portaria principal onde um táxi já esperava minha mãe. Fui com ela e minhas irmãs até seu apartamento, onde lhe deram uma droga pra dormir. Não havia mais o que fazer por ali e eu fui embora, com a cabeça em branco.

Chegando em casa, peguei pincéis e tintas, preparei telas e pintei cinco quadros seguidos, coisa que nunca havia feito, mas que me serviram pra equilibrar o espírito. E pelo jeito, só pra isso mesmo, não criei nenhuma ligação. Dei três deles, com a sensação de que não teriam proveito algum, mas como se eu precisasse passar adiante. Os outros dois deterioraram com o tempo, a umidade, a chuva e a precariedade da minha casa. Não me importei. A vida segue e a matéria desaparece.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.