segunda-feira, 8 de julho de 2019

Eduardo Marinho Já Dizia

Som de Douglas Vargas, que também acrescentou nas palavras, adaptando ao seu modo de fazer e de dizer. Gracias parceiro, tá bom isso aí, útil na evolução da humanidade. Oportunidade criada, como é função da arte.

sábado, 6 de julho de 2019

Percepção da farsa - também dentro de cada um de nós

Nisso que dizem ser uma democracia, nada é o que parece, nada é o que diz ser. Não há democracia além da fachada, o que há é apenas um cenário formado por instituições ditas democráticas, cenário falso, institucional, e marionetes a rodo, sorridentes e mentirosas, encenando a farsa nefasta de uma democracia falsa, um sistema parasita, escravista, desumano, anti-social, que produz ignorância, desinformação, egoísmo, ânsia de consumo e alienação pra se manter, invisível, sem ser percebido, no escuro dos bastidores da institucionalidade cênica e macabra.

O sistema de ensino, educação e preparação de pessoas para serem adultas se divide entre a parte que forma a grande maioria, para ser explorada, de baixa qualificação e salários, para serviços pesados, sacrificados, de maior risco e desgaste; a que forma, nas classes médias, os organizadores, gerentes, supervisores, diretores, os qualificados encarregados de exercer a perversidade social, sem questionar as injustiças, em nome de seus direitos garantidos e, talvez, alguns privilégios; e a parte mínima, de elite, formadora dos mandatários, dos que vão exercer seu poder econômico, social, midiático sobre os chamados poderes públicos - as marionetes no palco das "políticas" partidárias, institucionais, entre poderes falsamente públicos, num Estado seqüestrado, dominado, infiltrado pelos poderes econômico-financeiros e pressionado pelo controle das comunicações, com a mídia empresarial como porta-voz dos interesses banqueiro-empresariais e enganadora-mor da população, sedutora, usando conhecimentos de psicologia do inconsciente, trabalhando criminosamente na distorção da realidade, na mentira, na criação de mentalidades ainda que momentâneas e desde que atendam interesses imediatos. Estamos vendo acontecer com o 'ministro da "justiça"', peça fundamental pra impedir a continuação do ciclo petista de administração estatal e iniciar a destruição da indústria nacional, vista como "ameaça aos seus interesses" pelos gringos que manobram nos bastidores dos poderes na América Latina e pelo mundo afora, onde conseguem. A "peça fundamental" se torna descartável. As riquezas estão dominadas, petróleo, mineração, agricultura, indústrias em marcha lenta, exportação de matérias primas, o país sendo posto em grilhões, de joelhos, subalternizado, o território sendo entregue aos colonizadores estrangeiros, o povo roubado em seus direitos pela cumplicidade das elites locais já psicologicamente construídas em subalternidade completa.

O sistema de saúde é dominado por laboratórios, indústrias da medicina, interesses econômicos que têm no lucro sua maior importância, o que faz a doença mais interessante que a saúde, porque a saúde não compra remédio nem busca tratamento, a doença sim e isso é que é lucrativo. Nessa lógica, não há surpresa na existência de tráfico de órgãos, máfias de todo tipo, próteses, tratamentos psiquiátricos, coisas de dar terror em quem não tem idéia do que acontece nos subterrâneos da sociedade.

O sistema de transporte, máfia de todo tipo, transporte de carga é mais eficiente que o de passageiros, em toda parte se encontram sintomas de que a sociedade não tem no seu centro de importância o ser humano, mas o patrimônio, o interesse econômico. A vida, o povo, o ambiente, estão em plano secundário e isso se vê na própria formação das pessoas que constituem a coletividade, em sua visão de mundo, seus desejos e objetivos de vida, desumanizados na educação empresarista que faz do mundo uma arena competitiva onde é cada um por si. A busca da harmonia coletiva, o atendimento de toda necessidade básica da população e de cada um, o equilíbrio e a justiça social como objetivos comuns da sociedade como um todo não se vê em nenhuma escola.

Mineração, agricultura, pecuária, em todas as áreas prevalecem máfias, como o é o próprio modelo social, a própria estrutura da sociedade. Essencialmente empresarista e desumana, anti-social em função do lucro extremo a custo mínimo. Um custo em desrespeito e sofrimento para a maioria.

Nas formações acadêmicas programa-se mesmo as mentalidades revolucionárias, de forma a não oferecerem riscos à estrutura social como ela é. A a gente vê o resultado, na arrogância, na distância, na incapacidade de entender e participar do processo na humildade, com muito mais produtividade, em capacidade revolucionária, em mutações verdadeiras. É preciso perceber com profundidade as próprias grades e correntes, porque é nelas que começa o trabalho coletivo. A partir do trampo interno, íntimo, individual, em cada componente da coletividade humana, se faz o verdadeiro trabalho coletivo, sem pretensão e com espírito de serviço. É preciso estar pronto a largar tudo o que acreditávamos no momento em que percebemos dentro de nós mesmos que estávamos errados. Um apego aí e permanecemos atados ao passado e, por consequência, impedidos de seguir livremente em frente.

domingo, 30 de junho de 2019

Aviso a comentantes e opinantes



Em caso de ignorância na opinião, não mando se informar melhor, focalizar e pesquisar o assunto. Não digo nada, embora o meu pensamento e desejo seja exatamente esse. Porque a recepção costuma ser ruim, na maioria das vezes, defensiva, às vezes agressiva, a interpretação mais comum é de afronta, ofensa, desprezo e não a sugestão simples que é, apenas pra cobrir as próprias ignorâncias da realidade no opinar. É uma solidariedade, mas percebida, muitas vezes, da forma “socialmente” programada, como estopim de confronto. Por isso, no geral das vezes, é melhor calar. Não tenho tempo a perder com discussões improdutivas, que não me despertam, não trazem nenhum proveito, no final das contas, e que muito frequentemente acabam em brigas e ressentimentos, rompimentos, afastamentos e destruição, literalmente. Quando há tranquilidade, interesse verdadeiro, possibilidade de proveito, a conversa flui, as coisas acontecem, as sintonias aparecem. E naturalmente os proveitos se dão.

É preciso perceber as conveniências do falar ou calar e questionar qual o proveito ou prejuízo nessa escolha. O estímulo social ao conflito, à disputa é estratégico, porque dispersa o assunto em discórdias pessoais ou ideológicas e cria barreiras pra entendimentos em outras ocasiões. Além do mais, cada um tem seu caminho, suas vivências a viver, seus plantios e suas colheitas, assim como eu mesmo. Quem eu penso que sou pra escolher por outros? Com os demais, sempre que posso, me comporto como gostaria que se comportassem comigo.

Na minha área pessoal está o espaço onde minhas opiniões, opções e escolhas podem e devem tomar decisões, com efeitos imediatos. Aí, e só aí, eu tenho poder de interferência. Se houver um proveito coletivo das minhas escolhas, percepções, pensamentos, sentimentos e opiniões – que expresso, por extensão, no meu trabalho –, esse proveito não será por decisão pessoal arrogante e pretensiosa, cheio de sentimentos de superioridade que cegam e afastam a gente. Estes sentimentos impedem percepções, aprendizados e melhorias que só a humildade pode proporcionar. Se houver proveito, será como conseqüência da observação do mundo, conseqüência da própria receptividade, da busca permanente que move as consciências, as que vão se apurando no caminho da compreensão das coisas, caminho sem fim pelo menos à vista.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Sofrimento coletivo e anunciado - quanto mais embaixo, pior


Os poderes sociais revelam psicopatia geral. Ignoram-se as advertências, escondem-se as evidências, campanhas mentirosas enganam o público, a produção de miséria, criminalidade, escravidão, exploração extrema é permanente. Mantém-se longe do centro das atenções e importância o ser humano em si, a prioridade fundamental da miséria, da ignorância, da desinformação, da formação de seres humanos lúcidos, capazes de entender e decidir com a coletividade a solução dos problemas é cuidadosamente afastada, esses problemas são a base de existência dos privilégios de um punhado. Um punhado de podres de ricos psicopáticos, não só indiferentes ao sofrimento que causam, mas interessados em manter esse funcionamento anti-social da sociedade, criminoso contra as populações, sobretudo periféricas, excluídas dos seus direitos humanos.

As próximas gerações terão de tratar com as conseqüências, em meio ao sofrimento anunciado que fará parte da caminhada planetária, essa é a mutação permanente em que vivemos por poucas décadas cada um, num caminho coletivo que se perde nos tempos, tanto pra trás quanto pra frente. Imagino o quanto estará mudado daqui a cem, duzentos, quinhentos anos. O hoje será uma fumacinha no tempo, digno de calafrios nos historiadores. Mas passará, como tudo passa no tempo. O agora é a nossa participação nisso tudo.

Os endinheirados terão como se cuidar, ao menos de início. A maioria mais pobre, não. Quanto mais pobre, piores as condições, maior o sofrimento e mais profundas as conseqüências. Não se espere que se morra asi, no más. As reações virão em violência, em criminalidade, em revolta, em crueldade. São muitos e muitos milhões nestas condições.

Os poderes deixarão de ser poderes quando a multidão se desinteressar das instituições, não for mais lá, abandonando empregos e se juntando pra trabalhar e resolver seus problemas da melhor forma, em cooperação plena. O tempo mostrará como se farão as coisas. Os anúncios são terríveis. As soluções serão inevitáveis - e passam longe das instituições. Elas estão no meio de nós. Somos uma família que ainda não se reconheceu como família. Questão de tempo. E peleja. Tamo caminhando. O que vier, tem que encarar.


O planeta está a caminho do “apartheid climático”, adverte a ONU

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As empresas privadas devem ter um rol fundamental na luta contra as mudanças climáticas que o mundo enfrenta, mas não se pode confiar nelas para cuidarem dos mais pobres, segundo um informe apresentado no Conselho de Direitos Humanos da ONU, por Philip Alston, relator especial dessa organização sobre pobreza extrema.
A reportagem, publicada na última terça-feira, afirma que o planeta se dirige ao “apartheid climático”, onde os mais ricos podem se permitir maneiras de evitar a influência da crise climática, enquanto os pobres não podem e são os mais afetados.
Uma dependência excessiva do setor privado” – assinala o relator especial da ONU – “poderia conduzir a um cenário de apartheid climático em que os ricos pagariam para escapar do aquecimento global, da fome e dos conflitos, enquanto que o resto do mundo sofreria”.
Alston também afirma que confiar só neste setor para se proteger das futuras condições climáticas extremas e do aumento do nível do mar “quase garantiria violações massivas dos direitos humanos, com os ricos atendidos e os mais pobres abandonados”.
Inclusive no melhor dos casos, centenas de milhões enfrentarão a insegurança alimentar, a migração forçada, as doenças e a morte”, ele diz.
O especialista comenta o caso dos novaiorquinos que ficaram sem eletricidade nem atenção sanitária durante o furacão Sandy, em 2012, enquanto a sede do Goldmar Sachs – grupo banqueiro de investimentos e valores – funcionava com eletricidade do seu gerador e estava guarnecido por milhares de sacos de areia.
Trinta anos de convenções sobre o clima parecem ter sido pouco, nesse lapso “a linguagem tem sido notavelmente similar, à medida em que os Estados continuam caindo”.
Neste sentido, o informe critica os governos por fazer pouco mais que enviar funcionários a conferências para fazer “discursos”, apesar de cientistas e ativistas do clima estarem dando voz de alarme desce a década de 1970.
Alson condena as tentativas de Donald Trump de silenciar as afirma
ções da ciência a respeito do câmbio climático e critica Jair Bolsonaro por suas promessas de abrir a selva amazônica para as empresas mineradoras.
O especialista da ONU ressalta também acontecimentos positivos, como os casos legais contra companhias de combustíveis fósseis – petroleiras –, o ativismo de Greta Thunberg, as greves escolares e o movimento britânico Extinction Rebellion.
Para Alston, a resolução mais recente do Conselho de Direitos Humanos sobre a crise climática não reconheceu que o desfrute dos direitos humanos por um grande grupo de pessoas está gravemente ameaçado e que, se o objetivo é evitar uma catástrofe climática, é necessária e urgente uma profunda transformação econômica e social.
(Con información de Reuters y The Guardian)

Tradução – Eduardo Marinho


domingo, 26 de maio de 2019

Pai Inácio, cabeça da Chapada Diamantina.

Vista do alto do Pai Inácio, na cabeça norte da Chapada Diamantina.
Numa função de Lençóis a Palmeiras, entramos na estradinha e subimos o morro de pedra enorme, na beira da estrada. De cima se entende o Suassuna, "a beleza da zona da mata é graciosa, a do nordeste é grandiosa". A gente sente a pequeneza do ser diante da enormidade natural das pedras, dos grandes espaços, do horizonte longínquo. Muitas fotos foram tiradas, essas são as minhas.

A estrada por onde passávamos, entre Lençóis e Palmeiras, na sombra do Pai Inácio.
Ao sul, o Vale do Capão adentra pela Chapada Diamantina, que vai até o sul da Bahia.
Hare em função, na beira do abismo. A mão do violão é do Ravi.
Ravi, Satya e Hare no alto do Pai Inácio.
Entre as funções da viagem, uma parada pra alimentar o espírito de beleza grandiosa, de espaço, cor e ar. Pelo caminho que fizemos, pela passagem que passamos acabamos dando a volta na entrada. Soubemos depois e longe dali, que cobram doze reais por pessoa pra subir no morrão. Fomos poupados por ignorância. Mas ia ser um desfalque, em seis pessoas. Uma refeição pra todos.

domingo, 19 de maio de 2019

Fabio e Edu - cartas trocadas.

Fabio:

"Impressionante como conversar com as pessoas me é cada vez mais insuportável. Tenho cada vez menos paciência de explicar certas coisas. Vejo as pessoas cada vez mais apegadas as suas pequenas certezas e isso é um nojo. Não conseguem ver um centímetro adiante, não tem um mínimo de criatividade ou imaginação. Agora a moda é que para criticar você tem de obrigatoriamente ter uma proposta. Se você diz que não compactua com o sistema, elas vem logo perguntando como deveria ser feito então. Querem quer você dê respostas, precisam de um mapa pra seguir, necessitam de uma receita de bolo. As pessoas tem uma grande dificuldade com essa pegada igual você teve de não saber o que ia acontecer, mas a certeza era de que o que lhe era oferecido não servia. Você saiu pelo mundo sem saber que um dia ia chegar no Eduardo que chegou hoje. Entende? Eles tem pavor do desconhecido. Precisam de seus ismos para servir de bengala. Mergulhar no desconhecido e construir enquanto se caminha chega a ser uma heresia. Elas querem uma resposta pronta. Você não acredita em partido, não acredita no sistema como é, não quer escolher um menos pior para te representar, então como tem de ser? Daí tu tenta falar que você não tem respostas prontas, que a coisa precisa ser construída no coletivo enquanto se faz para ter algum sentido... E aí já enlouquecem. "Se você não sabe então está satisfeito do jeito que está." Entende isso? O potencial escroto dessa lógica? Você não pode ver que está ruim porque não pode adivinhar o futuro ou porque não tem a fórmula mágica.  E vem uma torrente de merdas imensuráveis. E isso tô falando de gente que se diz de esquerda e até uns que se dizem libertários estão aderindo a essa lógica, a essa necessidade de trabalhar com respostas e afirmações que criam polos que se retroalimentam. A necessidade de convencer o outro. Nojo total das pessoas. Muito cansativo dialogar quando a burrice está mais solidificada que nunca em ambos os lados."  

Edu:


"Nisso de fazer o caminho caminhando, minha opinião é que o clima de heresia aparece pra esconder o medo. Respostas e certezas tranqüilizam e evitam o pânico ao risco. A tal "segurança social" é um esterilizante, uma corrente que prende essas mentes tão instruídas na formalidade. É a ignorância instruída, adestrada a funcionar pelo sistema, mesmo sendo "contra", pra não perder seus direitos de abastados, pra se manterem na "casta" acadêmica. É a facilidade dos teóricos, na prática são prisioneiros dos seus próprios pensamentos - que, aliás, nem próprios são na esmagadora maioria das vezes. Evito perder tempo com essas mentalidades, por saber que é não só inútil, como desagradável. A maioria, na verdade, nem tá nessa. E a gente prefere trabalhar com a maioria, com a sabedoria e não com o saber. Com a prática na base das teorias vivenciais a que vamos chegando, sem esse cheiro de múmia das teorias eurocêntricas. Mais pra intuição do que pra lógica, mais pro sentir do que pro raciocinar, embora não se dispense a participação nem de lógica, nem de saber - apenas descidos dos seus pedestais e postos a serviço do sentir, do sentimento de família estendido pra toda humanidade, toda a vida planetária. Um passo distante ainda na caminhada. Estamos em meio aos espinhos e armadilhas, em direção ao colapso, aos escombros de onde apenas aqueles habituados às dificuldades rotineiras poderão reconstruir o mundo, menos desumano, menos desigual, menos arrogante, mais respeitoso e integrado em todas as suas formas de vida e existência. Coisa pra gerações ainda distantes. Agora estão chegando as da reciclagem, da auto-suficiência e dos desenvolvimentos necessários no momento, a partir da autonomia psicológica, mental e espiritual. Estas estão na base de todas as autonomias. É preciso ignorar os fracos que se fazem de fortes. Eles não são capazes de muita coisa. Há os que são e não se encontram entre teóricos sem prática verdadeira. Os simulacros abundam por aí, garimpamos exceções em qualquer meio. Não há só dois lados. Há infinitos."


Fabio da Silva Barbosa e seu novo livro - socos no estômago, tapas de vergonha na cara. Quem quiser encarar, pedidos por email a ele próprio. 
Fabio da Silva Barbosa fsb1975@yahoo.com.br


sábado, 6 de abril de 2019

A fachada era uma, a intenção era outra - crônica de um engodo

O vídeo apresenta as notícias dadas pela própria mídia comercial privada, com dados estatísticos de cada momento. No final, Mano Brown dá a letra, "acho que foi sabotagem". Uma clara sabotagem em grande escala, com trabalhos em cada setor, em cada classe social, em cada nível de escolaridade, com apoio e domínio das comunicações do país, já dominadas desde os militares - inclusive foram as maiores estimuladoras da saída deles, os militares.

Ridicularizando-os nos programas de humor, jornalistas e comentaristas apontando suas falhas, com a pressão internacional sobre as torturas e prisões denunciadas amplamente, impedindo-os de reagir como sabiam. Deslocados, entregaram o governo e saíram de cena, não sem antes se garantirem a impunidade pelos crimes cometidos e se colocarem como guardiães da "democracia".

Bom, voltando ao assunto, os efeitos mostram quais eram as reais intenções da tal "lava-jato". Demolir a indústria nacional, criar miséria e abandono, cortar programas sociais, deter a passagem de conhecimento, ainda em gotas, pra população mais pobre, manter e aumentar a ignorância e a desinformação, pra manter a dominação. Falo de forças econômicas, mercado financeiro, bancos... e sua corte inevitável de mega-empresários tóxicos às populações. O saque das riquezas brasileiras é o objetivo, a escravização da população, a criação de miséria que leva à violência e a criminalidade - que começam na cúpula dos poderes. na violência e na criminalidade do próprio Estado contra a população e se estende, por conseqüência, por todas as áreas, em toda estrutura social.

Se os poderes verdadeiros estão acima dos poderes ditos "públicos", estes são uma fachada, um teatro de marionetes e cartas marcadas. E isso reflete em todas as instituições, todas as áreas, observe-se. A forma comum em todos os setores é a de máfia. A partir de bancos, mega-empresas e grandes proprietários e se estendendo por todo o aparato público, todos os poderes e instituições. Com o domínio, precarizam a educação e dominam as comunicações, entre todas as áreas dominadas a de controle do povo. E convencem o povo que a corrupção começa no Estado. Não, ela é imposta ao Estado pelos poderes econômicos gigantescos de banqueiros internacionais, mega-empresários idem, com a cumplicidade dos banqueiros e mega-empresários locais que fazem a mentalidade das classes altas, dos "cargos importantes".

O que acontece com a indústria naval está acontecendo em todas as áreas da nação. Madeireiros derrubam mais rápido que nunca as florestas, indígenas estão sendo atacados como só na colonização pelos europeus, venenos agrícolas proibidos num monte de países foram liberados e estão empesteando ares, terras, águas, bichos, gente, tudo. Os predadores estão à solta, sem freio. As conseqüências se vê nas ruas, no número de desabrigados, drogados, abandonados, o aumento da violência, da criminalidade, das chacinas, da guerra civil por pontos de drogas e domínios de territórios, milícias se fortalecendo, forças de segurança matando livremente bandidos pobres e pobres trabalhadores, sem muita distinção porque têm imunidade pra matar com apoio governamental.

O vídeo é uma aula de ensino médio. O passo seguinte são as forças internacionais e suas artimanhas históricas e evolutivas. Mas cada passo no seu lugar, pra não cair no caminho.

sexta-feira, 15 de março de 2019

A morte do meu pai


Fui esperar o corpo no cemitério. Meu pai havia morrido durante as férias de verão, num hotel fazenda em Conservatória, interior montanhoso do estado do Rio. Ele passava sempre as férias ali, com minha mãe e uma penca de netos. Havia muitas atividades para crianças e adolescentes, passeios a pé ou a cavalo, uma lagoa onde se nadava, remava, mergulhava, além de recreadores, guias, contadores de histórias. A seresta é uma característica local e toda noite seresteiros encantavam os hóspedes.

Aquela era a primeira vez que Ravi, meu filho, havia sido convidado – ele estava com quinze anos e havia conhecido essa família pelos doze, sem nenhuma convivência antes. Na tarde daquele dia ele havia passado pelo avô no estacionamento do hotel, que estava limpando o carro com uma flanela e reclamando de um arranhão no parachoque, “não sei se fui eu que esbarrei em alguma coisa ou se alguém “ruim de roda” raspou aqui no estacionamento”.

À noite ele teve um acesso de tosse interminável e minha irmã mais velha, que passava uns dias das férias ali, sugeriu e foi com ele ao hospital local pra uma consulta de emergência. Depois dos primeiros exames, o médico achou melhor aprofundar e levou meu pai pra dentro, onde estavam os aparelhos mais pesados. Minha irmã viu meu pai pela última vez com o soro na veia, caminhando com o médico pro interior do hospital. O médico carregava a haste metálica onde se pendurava o soro, meu pai reclamava, “tira esse negócio do meu braço, doutor”. Tempo depois, o médico veio com a notícia: “infelizmente o seu pai teve uma parada cardíaca e, apesar de todas as nossas tentativas, não foi possível reanimá-lo. Meus pêsames”.

A notícia desabou sobre a família inteira. Ele tinha oitenta e dois anos – a mesma idade da minha mãe – e tinha uma saúde ótima, sem nenhuma das doenças comuns na velhice. Foi um choque geral. Recebi a notícia na manhã seguinte, por Helena, uma das “funcionárias” da família. Minha primeira reação foi idiota, “cê tá brincando”, como se alguém pudesse brincar com um assunto desse. “Pior que não”, foi a resposta. Eu entrei numa espécie de transe. E o resto do dia se passou entre lembranças e reflexões. Nosso abraço, tão esperado havia tantos anos, tinha sido adiado. Agora, só quando eu chegasse lá também.

Havia cinco anos que minha relação com eles tinha sido retomada, ainda que muito superficialmente. Aos dezenove anos eu deixei pra trás faculdade, casa, vida confortável e socialmente “segura”, com a finalidade de encontrar algum sentido numa vida que, até então, não tinha nenhum que me parecesse satisfatório.

Desde os quatorze anos, quando passei num concurso pro Banco do Brasil, eu questionava os objetivos da vida. Todos me pareciam pouco, vazios e frustrantes. “Deve haver algum sentido maior, não é possível que a vida seja só isso”, trabalhar no sacrifício, esperar pra viver nas horas vagas, nas férias, pra garantir conforto e segurança e nada mais. Em dez meses eu sentia repulsa à idéia de passar a vida naquele ambiente medíocre, com aqueles valores que não me diziam nada, e pedi demissão.

Então começaram as cobranças sobre o que eu queria da vida, o que eu seria, o que escolheria fazer, cobranças que não eram assumidas, mas sugeridas – eu havia “jogado fora” uma “oportunidade de ouro” de um emprego público, com plano de carreira, garantido até a aposentadoria – isso era o que me apavorava, passar a vida naquele ambiente – com privilégios e garantias como poucos outros empregos. A garantia de frustração não era considerada, nem pensada. Só eu sentia, era um vazio, uma falta de significado na vida que eu intuía a partir dos assuntos que ocupavam os mais velhos, dos valores que eu assistia serem exercidos. Era uma repulsa irresistível, incompreensível pra minha família. Pra mim também, "o que eu tenho de errado, que não me enquadro?" Na visão deles, isso era motivo de preocupação comigo e com o meu destino. Na minha também.

Eu não tinha ideia do que “fazer na vida”, estava no ensino médio e nenhuma das profissões universitárias me atraía, eu parecia não ter vocação pra nada. Procurando satisfazer as expectativas familiares, resolvi pela carreira militar – que me parecia fácil – e entrei por concurso na Preparatória de Cadetes do exército. A família comemorou, certa de que eu seguiria a carreira do meu pai. Um ano e meio depois eu pedia desligamento, enojado com aquela hierarquia e com o papel que entrevia das forças armadas, no controle e repressão do povo. Era pior que o BB. As finalidades sociais eram de envergonhar, eu não queria colocar minha vida a serviço daquelas finalidades. Não valiam o plano de carreira, a segurança, a moral social, nada valia a violação da minha consciência – e o sentimento de que seria uma necessidade cotidiana definiu minha decisão de sair dali.

Foi inevitável a enorme decepção familiar, principalmente a do meu pai. A família e os mais próximos viram na minha atitude uma afronta a ele. Não era. Era a minha visão projetada na vida que eu teria, seguindo por ali, em grande parte previsível. E que me dava angústia, por não ver sentido e me sentir obrigado a seguir ordens que não me respeitariam e me fariam violar minha consciência. Essa era a função da tal "hierarquia". Não questionar e obedecer, era o que me esperava. Me envergonhava a idéia, mas eu não podia dizer, era uma "heresia" imperdoável. Não havia opção, tive que sair.

Um ano e meio depois, entrei na universidade, ainda na tentativa de me enquadrar nas expectativas da família. As angústias do final da adolescência, começo da juventude, só aumentavam. Eu estava com dezoito anos e os três primeiros meses universitários foram de boa surpresa. Vi sendo discutidas as injustiças sociais e a estrutura da sociedade, assuntos que me ferviam na cabeça e que eu não encontrava com quem falar. Entrei com vontade nas discussões, só pra me decepcionar. Logo percebi que os discutidores não sabiam ligar suas teorias à realidade que eu vivenciava todo dia, que eram jovens de classe média em sua maioria, vindos do ensino particular, e não se aproximavam das dificuldades vividas pela maioria mais pobre, tinham aquele sentimento programado de superioridade e se achavam capazes de “conduzir as massas”, não tinham a menor dúvida disso. Eu tinha. Aliás, tinha certeza de que ali ninguém suportaria viver e superar as dificuldades cotidianas da maioria. Com o couro duro adquirido no exército, eu viajava de carona em férias e feriados, com muito pouco dinheiro, dormindo ao relento, em postos de gasolina, em casas abandonadas ou em construções, convivendo com os mais pobres e os observando com total interesse. Passava dias na reserva florestal do Mestre Álvaro, sozinho ou com um ou dois amigos, "esquecendo" a vida cotidiana na atividade mateira, facilitada pelos treinamentos militares. Encontrava pessoas vivendo em pobreza extrema, em casinhas pelo meio das trilhas, analfabetas e ainda assim com sabedoria de vida, com substância profunda e forte que me confundiam os valores aprendidos. Sentia haver alguma coisa errada no que me ensinaram.

Eu sentia uma diferença ainda incompreensível pra mim, mais espontaneidade, mais afeto, mais transparência de personalidade, mais solidariedade, mas capacidade de encarar e superar dificuldades. O sentimento de inferioridade que eu via neles não combinava com a vida que eles levavam. Eram muito mais fortes que os meus colegas universitários, embora se sentissem, eu via, inferiores. E a distância entre as teorias acadêmicas e a prática cotidiana se fez visível pra mim. Falava-se em “mudar a sociedade” ou “o mundo”, sem a menor condição pra isso. Falavam em "conduzir as massas" mas nem a língua das massas eles falavam. Logo estariam com seus diplomas, sentadinhos em seus lugares sociais, caladinhos pra não se darem mal em suas carreiras profissionais de “nível superior”. O tempo mostraria que eu estava certo.

As reflexões sobre a vida, a busca de sentido, os questionamentos que se aguçavam à medida em que eu me aproximava da idade adulta, me faziam sentir que estava diante de uma encruzilhada decisiva. Na minha frente, estava a opção entre a frustração e o risco. Os caminhos visíveis me pareciam de uma frustração certa, uma vida repetitiva, previsível, onde eu esperaria férias, fins de semana e feriados pra poder viver e ter algum prazer na vida. O objetivo seria apenas manter meu patamar social – de preferência subir degraus – privilegiado, isolado da realidade e conformado com as injustiças. “O mundo, infelizmente, é assim mesmo e não se pode fazer nada além de se garantir individualmente e, pra satisfação da própria consciência, se ela assim o exigir, fazer caridade ou algum trabalho voluntário de ajuda aos mais pobres”, nunca engoli esse egoísmo cheio de vaselina. 

A visão intuitiva da minha própria frustração foi se tornando insuportável. Aqueles valores, aqueles comportamentos, os privilégios e garantias, o conforto e a consideração social já não me diziam mais nada. Os privilégios me constrangiam, apareciam como usufruto de injustiças, davam a sensação de uma vida artificial e cheia de falsidades. Isso me fazia meio estranho no mundo em que vivia.

No auge das angústias, antevendo as frustrações de uma vida convencional e previsível, sentindo uma necessidade imperiosa de encontrar algum sentido maior na vida, que me satisfizesse a alma, me desliguei da universidade e fui procurar. Devia haver algum sentido além dos sentidos vazios que me apresentavam. Peguei a mochila e caí na estrada, “ou vou encontrar algum sentido pra essa vida ou vou morrer procurando”, falei muitas vezes, naquela época, a quem me perguntasse por que eu estava fazendo aquela “loucura”. E muitos me perguntaram, antes de cortar relações... eu havia ficado maluco, pra eles. Na minha visão, eu havia ficado incômodo. Precisavam me desqualificar pra não se sentirem prisioneiros, eu imaginava.

A família, horrorizada, decepcionada, não tinha condições de perceber os sentimentos que me moviam, de entender as minhas motivações. Não podiam aceitar, compreender, nem mesmo respeitar – era a suprema traição, pra eles. Meus pais achavam que eu não os respeitava, confundindo respeito com submissão. Era a minha vida e era meu direito e minha obrigação decidir o que fazer com ela – afinal, seriam minhas as conseqüências das minhas decisões. Mas eles não me ouviam mais e, depois de todas as tentativas de me manter no padrão de vida que eles me deram, sem sucesso, cortaram totalmente as relações comigo – corte que se estendeu a todo o meu convívio social, parentes, amigos e conhecidos.

Então as vivências se fizeram, a angústia desapareceu, a vida ficou muito mais interessante, embora muito mais arriscada também, e o aprendizado se intensificou, na prática do dia a dia. Era um outro ponto de vista pra observar a realidade, muito mais rico e profundo que os anteriores. A dor da incompreensão durou pouco. A vida tomava toda a atenção, o trato cotidiano com as variadas situações que se apresentavam não deixavam espaço pra lamentações, o dia a dia fez sumir a lembrança de um dia ter sido parte dos privilegiados. Ficava apenas na formação de visão de mundo, agora mendigo, maluco, hippie, micróbio, pária social. Com o passar dos anos, tive filhos, uma em Vitória, outra na Bahia, o caçula em Minas Gerais.

Dezoito anos se passaram até que minha segunda filha, então nos seus quatorze anos de idade, resolveu conhecer os avós. Tentei demover essa intenção – lembrando que já havia feito uma tentativa de apresentar as duas, pequenas, que foi sumariamente recusada por meus pais –, mas ela estava decidida. “São meus avós no documento? Estão na minha certidão de nascimento?” Sim, estão, são meus pais e tinham que estar. Ela fulminou, “então eu acho que tenho o direito”. Eu não tive o que dizer, além do número do telefone que, pra minha surpresa, saiu de uma vez só, sem esforço. E não precisei dizer duas vezes.

Ela telefonou, pensei que eles iam recusar de novo, mas a convidaram pra jantar. Ensinei como chegar, dei a grana das passagens. Ela foi de ônibus e voltou de táxi, pago por eles com um motorista conhecido. Acharam um absurdo mandar uma adolescente sozinha do Catumbi – estávamos morando na beirada do "complexo" do Fallet, em Santa Teresa - ao Leblon. Desconheciam a minha realidade e, por conseqüência, a realidade dela, desde pequena criada entre a periferia e a rua, a estrada, as situações de risco que a sociedade impõe a enorme parcela da população. E ela trazia um convite, que eu fosse jantar com eles no dia seguinte.

Começava ali uma nova relação, meus pais haviam envelhecido muito e, apesar deles esperarem uma continuidade da relação interrompida, não havia a menor condição disso acontecer. As vivências que eu trazia eram inimagináveis pra eles, assim como a visão de mundo que eu formara nas práticas atentas da sobrevivência com as dificuldades dos excluídos periféricos. Eu era outra pessoa, com a visão a partir de baixo, opiniões formadas na lida cotidiana, distante dos privilégios, convívio íntimo com a falta de direitos e com o desrespeito social pelas áreas periféricas e pelo povo mais pobre. 

Foram cinco anos de convívio rarefeito com a “antiga” família, até a partida do meu pai. A relação se mostrou distante, eu havia me tornado uma pessoa estranha – agora na prática, com vivências, além da teoria intuitiva da adolescência – àquele meio. Mas percebia, às vezes, meu pai me olhando de longe, com uma expressão que eu interpretava como a percepção de que eu não era uma pessoa tão ruim quanto ele havia pensado. Eu imaginava que aos poucos ele iria se tocando, até que a gente pudesse se reaproximar de verdade. Não deu tempo.

Quando recebi o telefonema com a voz emocionada da Helena, pensei “o nosso abraço foi adiado, vai ter que ser lá do outro lado”. Sempre admirei meu pai, como pessoa boa e reta que é, caráter honesto e temperamento amistoso. Onde há afeto, há ligação, é o que me diz a intuição. Mesmo com todo o afastamento, em todos esses anos, a ligação afetiva não se desfez.

As vivências e acontecimentos em minha vida, tantos aprendizados e experiências, não seriam possíveis se a relação com a família consangüínea não se tivesse rompido. Em várias ocasiões críticas eu teria pedido socorro. Mas o rompimento era total e em nenhum desses momentos eu sequer lembrei da existência deles. Estava igual a todo mundo à minha volta, nas periferias, exposto a tudo o que a maioria está. Era minha saga, minha sina, minha escola.

Mais tarde no mesmo dia, recebi o recado da minha mãe – eu devia ir ao cemitério São João Batista, onde o corpo chegaria à tarde. Era preciso alguém da família pra receber o corpo. O enterro seria na manhã seguinte. E eu fui.

Havia um salão preparado, com um caixão vazio e duas coroas de flores, uma do exército, outra da Petrobrás – onde meu pai fora assessor de segurança depois de reformado, o aposentado militar. Algumas luzes fracas, castiçais com velas apagadas, grossas e imponentes. Cortinas escondiam as vidraças que davam pra vastidão de túmulos dentro do cemitério e escureciam o ambiente. Lá fora, a tarde anoitecia. Uma escada larga dava pra portaria, de onde se via a rua e a entrada pelas portas de vidro. Subi e olhei pra fora, os pensamentos variando sobre sentimentos difíceis de definir. Nessa hora vi um carro funerário entrando pelo portão. “Está chegando”.

Em pouco tempo dois caras entraram empurrando a maca de rodas, o corpo do meu pai em cima, cabelos brancos, camisa social, calça comprida e meias. Eles me viram olhando do alto da escada, devem ter percebido a semelhança física e me cumprimentaram, sérios. Pensei em perguntar pelos sapatos, mas me contive, “pra quê?" Ele não precisava mais de sapatos. Fiquei observando quando eles encostaram a maca no lado do caixão e, com movimentos profissionais, transferiram o corpo num único impulso, ajeitando um travesseiro sob a cabeça. E foram embora ao mesmo tempo em que um funcionário do cemitério entrava com um carrinho cheio de flores. Cuidadosamente ele foi colocando as flores sobre o corpo, devagar, até ficarem de fora apenas a cabeça, as mãos entrelaçadas sobre o peito e as pontas dos pés. Todo o caixão eram flores até em cima. Aí ele saiu e então eu fiquei sozinho.

Cheguei perto. Ele parecia dormir, tranquilo como sempre. O pensamento corria, tanta distância, tanto tempo, tantos acontecimentos, tanta ligação... Senti que ele não estava dentro do corpo, não tinha ninguém ali mais. Desabitara. Senti também que ele podia estar por ali, por perto, no abstrato, vendo e ouvindo meu pensamento. “Será que você agora pode ver a minha alma? Será que pode ver quem eu sou, de verdade? Será que minha imagem se modificou pra você? Enxergar meus valores, meus propósitos, desfazendo a imagem que teve, de rebelde, desmiolado, drogado, perdido, largado e bandido? Ah, meu pai... quando chegar aí quero te abraçar como não foi possível nessa vida. Agora talvez você possa perceber que os valores do mundo são falsos, superficiais, que os verdadeiros valores são os da alma, abstratos e longe das convenções sociais que foram a base da sua vida. E que os mesmo motivos que te levaram a sentir vergonha de mim são, na verdade, motivos de orgulho.”

No meu sentimento, na minha intuição, a morte é reveladora, um portal que nos leva a dimensões de onde se vê a realidade física de outra maneira, percebendo a superficialidade, a falsidade dos valores sociais, ao mesmo tempo em que se vislumbra valores mais verdadeiros. Praqueles que vibram na sinceridade, na honestidade, na busca de melhores valores. Porque me parece óbvio que há outros níveis de sintonia, cada um vai sintonizar a vibração que cultivou, que exerceu e exerce, que carrega consigo. Mas isso é outro papo.

Os que vêem na morte uma tragédia, uma desgraça – e não uma conseqüência natural de ter nascido – devem ser os que mais se surpreendem. Assim como os fanáticos religiosos que apregoam “verdades” improváveis e, talvez por isso mesmo, têm pavor da morte.

Nathália apareceu sozinha ali pelas nove da noite. Era a primeira neta, minha sobrinha que conheci adulta e que não pude sentir como sobrinha – não a vi criança nem adolescente. Conversamos e depois ela se aproximou do caixão. Eu me afastei em respeito, havia um amor especial entre os dois e era a sua despedida do avô tão amado. Fiquei olhando de longe. Quando ela foi embora eu fiquei sozinho de novo com o corpo e a sensação de que meu pai estava por ali.

Passei a madrugada refletindo, “conversando” com ele, pensando que talvez agora ele pudesse me ver e estivesse surpreso com a visão sobre mim desta outra dimensão. Fui interrompido por três vezes, por pessoas que vivem de explorar a dor dos familiares, aproveitando a tristeza pra extorquir o máximo possível. O primeiro queria grana por uma coroa de flores que havia sido encomendada pela minha irmã. Estava indo embora, "largando", e precisava receber. Eu mostrei as duas coroas, a do exército e a da Petrobrás, não havia outra. Ele disse que estava sendo confeccionada na floricultura em frente, onde ele trabalhava. “Se foi encomenda da minha irmã, é dela que tu tem que cobrar”, eu disse. Eu não tinha nenhum dinheiro. E ele sumiu. Pouco tempo depois, outra assombração surgiu do escuro, perguntando se o falecido “merecia” uma chuva de pétalas e som ambiente na hora de descer ao túmulo. Olhei nos olhos dele, com raiva daquela covardia oportunista, “o falecido tá falecido e não precisa de mais nada deste mundo”, ele sentiu no meu olhar e foi embora. Antes de amanhecer, o primeiro voltou pra mais uma tentativa, demonstrando a mentira de que estava indo embora. Insistiu em receber a grana da tal coroa de flores. Eu fui direto, levantei o dedo na cara dele, “vou perder a paciência com você, urubu safado”. Aí desistiram de mim. Depois eu diria que passei aquela noite espantando os urubus.

O dia começava a clarear quando ajoelhei do lado do caixão, pra ficar mais perto do semblante tranquilo, dormindo. “Ah, meu pai, quanta distância e quanta proximidade ao mesmo tempo...” Tive o sentimento de ser uma relação antiga, de muitas vidas. “Dessa vez não pudemos conviver muito, né, pai...” Aos poucos entrei em estado de oração, não sei como se diz, em nível mais profundo de consciência, evocando luzes, ou irmãos, pra receber aquele cara tão amado, tão querido por todos que o conheceram. Não sei quanto tempo fiquei assim, as lágrimas descendo, numa espécie de transe natural, em estado mental mais profundo, refletindo, conversando com a dimensão onde ele estava, na minha imaginação.

Um burburinho distante apareceu e foi se aproximando, me trazendo de volta, abri os olhos e vi a primeira parte da família chegando. Enxuguei os olhos, levantei, saí de perto do caixão, que foi cercado, e fui lá fora respirar e ver o dia já claro. Saí caminhando entre os túmulos, mausoléus enfeitados com esculturas em granito, em mármore, lindas, bem acabadas, caras, pirâmides, cruzes enormes talhadas com perfeição, granito, mármore, quartzo negro e rosa, anjos, santos, divindades gregas, romanas, uma exposição e tanto. Fui caminhando a esmo, me afastando da administração e me aprofundando naquela “cidade dos mortos”. À medida em que me afastava, luxo era substituído pela sobriedade, pela simplicidade e, enfim, mais longe, pela pobreza. Túmulos de tijolos, com cruzes simples, os nomes e retratos dos enterrados, até os mais pobres, montinhos de terra, sem nada além da cruz tosca de madeira com o nome e data de nascimento e morte. Na morte, como na vida, ricos no centro de importância, pobres nos longes, nas periferias.

Caminhei de volta, de longe vi o salão cheio. Chegando, vi amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, gente que me conheceu criança e de quem eu não lembrava ou lembrava muito vagamente. O falatório era intenso, choros, reclamações, lamentações, “ele era tão bom...!”, fui abordado no meio do caminho, me parecia levemente conhecida, mas não sabia se prima, amiga da família, de qual parte, desolada, "por isso mesmo que ele tá bem, minha senhora, fica tranqüila". Ela olhou nos meus olhos e tinha confusão nos olhos dela. Mas eu não tinha mais nada pra dizer e segui adiante.

Minha mãe estava ao lado do caixão, chorava amparada pelas filhas e por alguns netos. Cheguei perto, dei um beijo na testa, ela me olhou sem expressão e voltou a olhar o rosto do meu pai, acariciando o cabelo dele com as pontas dos dedos. Falei no seu ouvido, “cê vai ter que esperar pra encontrar com ele”. Ela me olhou de novo, interrogativa em sua dor. E eu continuei, “pra onde cê acha que vai esse povo todo que tá aqui?”, fiz um gesto com o braço abrangendo todo o salão, ela acompanhou. “Ele passou pela porta que todo mundo vai passar, cada um no seu momento. Quando passar pela sua, seja no tempo que for, cê vai dar de cara com ele, porque o afeto, o amor une as almas, aqui e lá”. Ela me olhava com uma expressão de surpresa e distância, sem ânimo pra replicar. Mas tive a impressão de que um pouco de calma lhe chegou. Não posso saber se é verdade ou minha vontade.

Passei os olhos pela pequena multidão e fui andando, quase ninguém eu conhecia, nem mesmo os que me abordavam com cara de me conhecerem. As frases, as expressões de consolo e solidariedade, programadas, repetitivas, não me diziam nada e me incomodavam. Garções serviam água, refrescos, canapés, biscoitos, “caraca, contrataram um bifê”. Senti olhares sobre mim, o “filho perdido”, motivo de tanto sofrimento, olhares que me cobravam um arrependimento impossível, traidor da família que nunca me senti, apesar das acusações repetidas por décadas. Não era surpresa e não chegava a me incomodar, de previsível que era. Na mentalidade comum, natural que fosse assim. Diante das manifestações que me incomodavam, me afastei pra um canto e fiquei olhando. Até que alguém chegou, “sua mãe quer falar com você”.

Voltei ao centro do evento, ela permanecia junto do caixão. “Oi, mãe, tá me chamando?” “Meu filho, cê tem que fazer uma coisa muito difícil. Eles vão lá retirar o corpo da sua tia pra poder enterrar o seu pai, alguém da família tem que ir junto”. Parece que ninguém quis ir. “Sem problema, vou lá”.
Senti alívio em sair do ambiente fechado, abarrotado, e respirar o ar da manhã. Fui com dois funcionários do cemitério, era regra ter alguém da família naquela função. Eles levavam um pequeno guindaste que foi instalado em cima da tumba. Rasparam o cimento embaixo da pedra de mármore que cobria, depois passaram cordas e ergueram.

Minha avó, mãe do meu pai, havia sido enterrada ali em 1982. Pouco mais de dez anos depois, era vez da filha dela, irmã mais velha do meu pai, Dinda, a “madrinha” da família, nascida quatorze anos antes dele. Nunca se casara pra viver com minha avó que ficou viúva nos trinta e tantos anos. E se tornou a Dinda da família.

Olhei pra dentro do buraco. Da Dinda só tinha o vestido cor de vinho, com um nó grande sobre a barriga, que eu reconheci de eventos na minha infância e sempre havia achado horrível. Dentro, o esqueleto marrom não lembrava em nada minha tia. Um monte de baratas corriam no fundo e nas paredes. Estranhei, “ué, cadê o caixão?” Um dos caras pulou dentro, indiferente às baratas, dizendo “o caixão é o primeiro que acaba” e meteu a mão no pó lateral, puxando uma das alças metálicas, “tá vendo aí?” Em seguida passou a recolher os ossos e colocar numa caixa branca. A naturalidade com que ele fazia isso era constrangedora. Os ossos das mãos entrelaçadas ainda tinham os anéis de ouro e pedras e se desfizeram ao serem recolhidas com rapidez e jogadas dentro da caixa, com anéis e tudo. Eles tinham pressa e não era à toa. Depois de limpar o fundo, varreram e usaram o guindaste de novo. Pra minha surpresa, o fundo era “falso”. Retiraram a laje do fundo, a cova era maior do que parecia, e apareceu outra caixa branca, igual a que agora continha os ossos que foram da Dinda. Eram os da minha avó, entendi. A de Dinda foi colocada ao lado e a lage, reposta em seu lugar, escondeu as duas.

Acabaram o serviço e o cortejo já vinha caminhando pela alameda, em direção a nós. Tudo sincronizado, eles eram profissionais. Não precisei ir ao encontro. Um funcionário empurrava o carrinho, a família em volta e a multidão atrás.

Vi ao longe, na área pobre do cemitério, outro enterro acontecendo. Impossível não perceber o contraste. Poucas pessoas, o caixão parecia de papelão e era carregado nas mãos por quatro pessoas que não eram trabalhadores do cemitério, mas parentes ou amigos. O que esperava era um buraco no chão, ao lado de um monte de terra com uma pá cravada em cima e um coveiro esperando pra cobrir o caixão na cova.

Olhei pro “meu” cortejo. O caixão de madeira nobre, num esquife de rodinhas todo enfeitado com flores, um monte de gente bem vestida – uns poucos pobres, servidores da família. Atrás, a multidão era variadas, tinha de várias classes, de pobres a ricos. Meus pais tratavam muito bem os que os serviam, vi muito reconhecimento ali. 

Esperei chegar, minha mãe vinha ao lado, já sem lágrimas, abatida, amparada por vários parentes. O caixão foi colocado sobre o túmulo, em cima de duas ripas atravessadas, pro “último adeus” antes de descer ao fundo. Alguém me perguntou “quer falar?” Pego de surpresa e consciente da visão geral de que eu era o “filho maldito”, fui seco, “não”. Ficou um clima estranho, resolvido por um antigo amigo do meu pai que eu não conhecia, embora soubesse da sua existência. José Hermógenes, professor de ioga, companheiro da juventude dele, se adiantou e contou uma história da época em que eram estudantes. Engraçada no final, arrancou alguns poucos sorrisos. Depois o caixão foi descido e a pedra foi recolocada em seu lugar. O nome já estava colocado nela, em letras douradas, com as datas.

Então a multidão foi dispersando, lentamente, e eu me integrei à pequena comitiva familiar que acompanhava minha mãe no caminho de volta. Olhei distante na direção do outro enterro. O coveiro tinha terminado de encher a cova e enxugava a testa, enquanto pouco mais de dez pessoas caminhavam em direção à saída lateral do cemitério. Uma mulher mais velha era amparada por duas outras mais novas. Na minha tristeza pessoal, acrescentei uma tristeza social, “até a saída é outra”.

Fomos pela área “nobre”, saímos pela portaria principal onde um táxi já esperava minha mãe. Fui com ela e minhas irmãs até seu apartamento, onde lhe deram uma droga pra dormir. Não havia mais o que fazer por ali e eu fui embora, com a cabeça em branco.

Chegando em casa, peguei pincéis e tintas, preparei telas e pintei cinco quadros seguidos, coisa que nunca havia feito, mas que me serviram pra equilibrar o espírito. E pelo jeito, só pra isso mesmo, não criei nenhuma ligação. Dei três deles, com a sensação de que não teriam proveito algum, mas como se eu precisasse passar adiante. Os outros dois deterioraram com o tempo, a umidade, a chuva e a precariedade da minha casa. Não me importei. A vida segue e a matéria desaparece.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Rumores de guerra


Falam em "ajuda humanitária". Eu vi o que essa "ajuda" fez na Líbia, até hoje em caos, destruída em todos os setores. Na Síria, a mesma coisa, com a diferença que ali os "humanitários" se deram mal, mesmo matando tantos milhares de pessoas, mesmo destruindo o país, obrigando milhões e milhões a migrarem, por falta de condições pra sobreviver. Mas perderam e tiveram que se retirar.

O plano era ir por Pacaraima, no Brasil, ao mesmo tempo que pela Colômbia. O presidente do Brasil e o antecessor, fruto do golpe institucional, exibem a sua vassalagem ao império corporativo dos Estados Unidos da América, o atual mais ostensivo e fanfarrão que o golpista. Frente a câmeras e microfones o cara declara disposição de invadir a Venezuela, de abrir uma base dos Estados Unidos em território nacional - e os próprios militares deram um freio nele. Mourão, o general vice-presidente, foi contra ceder território e soldados nacionais pra fazerem o serviço de levar a tal "ajuda" à fronteira com a Venezuela. Tiveram que tentar pela Colômbia, um vassalo já antigo e muito mais infiltrado. Só de bases militares, até onde eu sei, tem treze - faz tempo, é possível que tenham mais e de todo o tipo, não só militares. Mas se deram mal na semana passada, na tentativa de romper a fronteira com a tal "ajuda humanitária".

Ouvi dizer que Mourão, o general, foi adido militar na embaixada brasileira da Venezuela. Deve conhecer os venezuelanos muito mais que a miopia bajulatória do mandatário brasileiro. Há contatos militares entre as forças armadas de países vizinhos, há entre venezuelanos e brasileiros. Além do mais, eles não estão de bobeira. Sabem de sobra e na própria carne do que são capazes os interesses desumanos no petróleo abundante deles, convivem com sabotagens, armações, atentados, difamação em massa na mídia mundial privada e dominante, criando condições pra guerra de destruição e saque, como temos visto em outras partes do mundo. Sabem dos vizinhos que têm, Colômbia e Brasil. Têm visto e ouvido o presidente brasileiro declarar total apoio a Trump - que prega abertamente a invasão militar na Venezuela -, praticamente se colocando às ordens. O plano é mais antigo, já houve treinamentos na tríplice fronteira onde o único estrangeiro era o exército estadunidense, perto do sul do país "alvo". E, como eu disse, Venezuela não está de bobeira.

As fronteiras foram fechadas pelo governo venezuelano, a energia enviada pra Roraima foi cortada, tropas e tanques foram posicionados na região fronteiriça. Mísseis russos que já derrubaram um monte de aviões da marinha estadunidense na Síria, foram colocados a 11 km de Pacaraima. Nas palavras de Paulo José Jarava, "os radares do sistem são poderosíssimos e criam, na prática, uma área de exclusão aérea com raio de 300 km, atingindo os aeroportos de Boa Vista e Manaus (Manaus sedia a Ala 8 da base aérea da FAB em Manaus, onde estão os doze MI-35, também russos, os únicos helicópteros de ataque das Forças Armadas, além de super-tucanos de ataque). Significa que já paralisaram as forças da FAB e do Exército Brasileiro, incluindo o famoso batalhão de selva de Manaus, que poderia ser transportado por helicópteros da Helibrás recém incorporados). Na prática, também quase todo o tráfego aéreo que sobrevoa Manaus e Boa Vista passa a ser controlado..." (www.contextolivre.com.br/2019/02/a-supremacia-venezuelana.html)

A tentativa da "ajuda humanitária" não deu certo no dia 23 último. Apesar dos soldados feridos por molotovs, do caminhão incendiado sobre a ponte da fronteira Colômbia-Venezuela, uma vitória, embora por enquanto. Os interesses nas riquezas petrolíferas não sossegam enquanto não se saciam, custe o que custar. Rumores de guerra continuam, procurando uma brecha, um pretexto, manobrando nos bastidores dos "poderes", insuflando ódio e desinformação pela mídia mega-empresarial, distorcendo a realidade e criando mentalidades e conduzindo a "opinião pública". Mas encontram, na Venezuela, um povo muito mais instruído e informado do que há vinte anos atrás, época em que um levante popular foi dizimado pelos militares de então, a serviço dos colonizadores euro-estadunidenses.

Os militares venezuelanos de hoje nasceram da dissidência, da revolta militar acontecida logo depois do assassinato em massa do povo venezuelano - contaram três mil mortos, em Caracas, fora os "desaparecidos"-, revolta essa liderada por um jovem oficial chamado Hugo Chávez. O massacre ficou conhecido como "Caracazo" ("não foi pra isso que nos tornamos militares, mas pra defender a pátria e o povo venezuelano", diria Chávez aos companheiros revoltosos), em favor dos interesses econômicos estrangeiros que tomaram os "poderes públicos" (como é de rotina na América Latina) e tornaram miserável a nação. A revolta perdeu, mas a semente brotou tempos depois. As forças armadas da Venezuela não têm a formação anti-social - de fundo empresarista - da Escola das Américas, no Panamá apesar de estadunidense, que impregna a mentalidade militar latinoamericana de acordo com os interesse do Império Corporativo dos Estados Unidos da América, na mentalidade e na prática do saque permanente das riquezas, nas políticas públicas de sabotagem da educação e controle das comunicações. É por isso que o presidente de lá se refere à união cívico-militar como pilar da resistência ao assédio das forças imperialistas, da mídia mundial, dos boicotes econômicos, da pressão desmedida para desestabilizar a economia, causar sofrimentos e carências à população e levar à queda esse governo que não entrega de bandeja suas riquezas em troca de miséria, ignorância, dignidade e soberania.

Não falo em Nicolás Maduro porque esse é o jogo da mídia, a estratégia de personalizar numa figura o país. Assim fica mais fácil criar ódio. Cá pra nós, nunca achei que Maduro tivesse vocação pra ocupar a presidência, ainda mais com a Venezuela sendo foco das atenções parasitas dos gigantes do petróleo. Suas colocações, suas posições, sua fala, careciam do carisma, da alma de um Hugo Chávez. Achei mesmo que ele seria deposto, questão de tempo. Mas a Venezuela não é Nicolás Maduro. Por trás dele existe todo o aparato público tornado pela primeira vez em nacionalista e interessado no desenvolvimento do povo e da nação. Desde os comandos militares até as chamadas milícias populares (mais de dois milhões de pessoas treinadas e armadas, que têm outras ocupações na vida, mas que estão prontas a se levantar em defesa da sua nação). Os brasileiros seriam buchas pra derramarem seu sangue em nome de interesses corporativos, através da subalternidade às políticas imperiais do governo estadunidense.

Com um detalhe... os venezuelanos estão defendendo o seu país, seu território, de invasores estrangeiros, de forças que pretendem desfazer todo o serviço público que foi criado nestes anos bolivarianos - o fim do analfabetismo, o atendimento médico sem restrições, a inclusão das periferias no mapa da cidadania, a conscientização da massa da população, coisas que devem interessar a qualquer nação que se pretenda independente, desenvolvida e soberana sobre si mesma. É exatamente isso que enfurece os exploradores, a ignorância, o analfabetismo, a carência, a desinformação, a condução mental, a miséria e o abandono são fundamentais ao alicerce da exploração, do saque e da dominação das corporações (banqueiras e mega-empresariais, no caso, das grandes petroleiras mundiais), com todo o apoio da mídia, da indústria de armamentos, das construtora que ganham muito "reconstruindo" os países destruídos e outros interesses igualmente desumanos.

No Brasil, por muito menos, derrubaram os governos ditos "populares", embora nem chegassem a tanto. As forças são estrangeiras e contam com parte da elite brasileira, entreguista e anti-nacional, traidora da nação e das populações  no território. Aqui não precisou mais do que campanhas publicitárias, difamações e distorções. Foi até fácil. Em 1964, pelos mesmos motivos se mobilizou a quarta frota pra atacar nosso país, quem quiser ver, veja em "O dia que durou 21 anos", baseado nos documentos secretos que, nos USA, são publicados depois de 40 anos, por lei. Em 2004 saíram os documentos de 64, revelando toda a articulação, preparação, execução e aprofundamento do golpe dito "militar", pra manter a dominação plena dos interesses corporativos multinacionais. Destruíram a educação pública, destroçaram as associações populares, sindicatos, tudo o que resistia ao domínio estrangeiro, esclareciam, conscientizavam, denunciavam e reivindicavam.

Os motivos de 64 foram os mesmo de 2016. O que mudou foram as instituições envolvidas no golpe, antes os militares, depois as instituições ditas "públicas". As mentiras midiáticas golpeam permanentemente o consciente e o inconsciente coletivo, distorcendo, deturpando, mentindo, difamando por interesses anti-sociais, desumanos, que já se exerceram de sobra em todo o mundo e ainda se exercem. Perceba-se.







terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Miséria moral no domínio social

Uma sensação estranha, vendo nos cargos do poder dito "público" figuras tão descaradamente mesquinhas, emanando grosseria e ignorância, insensibilidade social explícita. Vejo o aumento dos zumbis nas noites, do desabrigo, da miséria, das situações de fermentação da violência e da criminalidade externa, de rua, que alcança a esmagadora maioria e serve à mídia pra apavorar e paralisar a população. A criminalidade interna, que infesta os círculos de poder, não se mostra, não se vê, não se permite perceber. Estão nos bastidores, acima dos chamados "poderes públicos". E é daí que brotam as decisões perversas que criam o caos social, impõem a ignorância e a desinformação, impedem o Estado de cumprir a sua própria constituição, roubando direitos básicos à população. Assim se garante acesso ao roubo principal, os saques econômicos, financeiros e mega-empresariais dos recursos e das riquezas da nação, em benefício dos poucos podres de ricos, que já têm muito mais do que precisariam pra viver muitas vidas fartas. E na barbárie social causada, miséria, ignorância, exploração desenfreada, na exclusão, no abandono brota a fonte farta da criminalidade que fornece "trabalhadores" aos empresários dos crimes organizados, "mão-de-obra" inesgotável e sem direitos trabalhistas. Serviços públicos não fazem nem por merecer o nome, sabotados pelo próprio sistema social. É a exigência, indiferente ao sofrimento de milhões, dos poderes econômicos que dominam o Estado em todas as áreas, comandados por banqueiros internacionais que parasitam o mundo. A dor das multidões alimenta sua ambição desumana. Os cúmplices executivos, traidores dos seus povos, são pinçados da coletividade pra ocupar os cargos de mando social, a seu serviço. Desta vez, com raiva dos últimos "capatazes" - benevolentes demais com os escravizados -, puseram uma corja especialmente perversa, com todas as artimanhas da condução de mentalidades, na difamação, na produção de sentimentos de rejeição com o massacre midiático e pelas redes sociais, profundamente, usando os dados pessoais coletados pra isso e milhões de mensagens falsas, distorcidas, mentirosas, sutis e grosseiras, em todos os níveis, estimulando o ódio e o conflito pra evitar o entendimento do que estava acontecendo. Era uma troca de capatazes. Os benevolentes saíram, entraram os sádicos. E aos que perguntam qual é "a solução" ou "a saída", respondo que a saída é a morte e não há outra. E que é do enxergamento e do entendimento da criminalidade entranhada no "aparato público", sequestrado pelos poderes econômicos instalados acima dos tais "poderes", que vão brotar as soluções - e não "a solução" -, nos locais onde se fizerem necessárias. Soluções locais e decididas pelos locais. Um passo no processo que deve se seguir ao esclarecimento, à percepção de que é preciso tomar a vida nas próprias mãos, e não esperar por salvadores improváveis, na expectativa artificial e falsa que torna as pessoas passivas, sem iniciativa e sem poder de decisão.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Desarmando



Há pessoas que têm opiniões preconceituosas, teleguiadas, superficiais, e lançam essas opiniões com eloqüência, como desafios. Não contentes em mostrar barbaridades em forma de idéias, cobram concordância, “você não acha!?”, sempre em tom agressivo. É o convite à disputa, ao conflito, ao confronto, que afinal levará aos insultos, à briga, às ofensas sem medidas. Levantar a poeira pra não se enxergar razões e clarezas.

Quando encontro pessoas assim, não contraponho diretamente minha idéia. Aqui é preciso perceber se a terra tem fertilidade ou é árida. Se há condições de conversar ou não, no temperamento, na maneira de ser, na conduta, no olhar. Não se plantam sementes no deserto, há pessoas ainda no estágio “inconversável”.

Se houver espaço - e respeito - digo apenas que vejo de forma diferente, mas respeito sua forma de ver e prefiro nem dizer o que penso, pra não ter conflito ou mal estar - não tenho a menor necessidade de dar meu ponto de vista. Em geral ela diz que também respeita, que eu posso falar, mas se sente ainda a prontidão pro debate. Sigo então o desarmamento. Reafirmo meu respeito à sua opinião - “não quero dizer que tá errado, sei muito bem que também posso estar errado na minha maneira de ver”. Peço à pessoa pra observar minha visão e digo que, se ela encontrar alguma falha no meu pensamento, que me mostre. Eu mudo imediatamente de pensamento e agradeço pro ela ter me tirado do erro.

Aí ela vai receber minha idéia não como uma contraposição, não como uma afirmação do seu erro, mas como uma exposição que ela vai analisar livremente, procurando as falhas. Se eu souber expor direitinho, se eu souber evitar as “palavras-chaves” que detonam a repulsa, condicionadas no inconsciente coletivo pelo trabalho massacrante da mídia, se eu convocar a humanidade dela pra acompanhar meu raciocínio, ela não vai encontrar falhas e vai concluir como frequentemente se conclui, “não tinha visto por esse lado”. Tá cumprida a função, depois de desarmado o espírito.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Roubo em Santa Maria

Ontem, dia 4 de fevereiro, foi roubado o meu computador. Em Santa Maria, à luz do dia, enquanto estávamos almoçando. A noite havia passado e a kombi estava intocada, estive nela e conferi de manhã, nenhuma entrada ou tentativa tinha sido feita, como sempre. Celestina, a kombi, não é de chamar a atenção cobiçosa, velha e cheia de cicatrizes que é, ao contrário, desperta mais simpatia que olho grande.
Por volta das duas da tarde saímos pra almoçar, antes de partir pra Passo Fundo, eu carregava tudo o que era meu, a mochila pequena e a pastinha com o computador e o agadê com todo o material gravado pro filme Via Celestina, mais um monte de material de trabalho, textos, vídeos, áudios, gravações no rio Doce, muita coisa publicada e a publicar, além de coisas pessoais, fotos de todo o tipo. Arquivos sem conta, textos inacabados, fotos esperando os temas pra serem publicadas, idéias, esboços, acontecimentos, registros, fotos de família.
O restaurante era perto, fomos a pé. Abri a kombi e coloquei a pasta no seu lugar de sempre, no chão, junto ao freio de mão, ao lado dos pedais, e levei a pequena mochila comigo. Não me preocupei em trancar. Em pouco mais de uma hora, voltamos. A janela do motorista estava aberta, conferi o local e vi que não estava mais a pastinha. Frio na barriga, certeza do roubo. Alguém enfiou a mão pelo quebra-vento, abriu a janela e nem se deu ao trabalho abrir a porta - o pino permaneceu abaixado. Debruçou pra dentro e retirou a pasta. Ela não estava mais lá, e o vazio doeu no coração, muita coisa perdida.
Em princípio imaginei que algum cracudo perdido tinha visto a possibilidade de arrumar dinheiro pra comprar suas pedras. Depois, conferindo as coisas, percebi que nada mais havia sido tocado. Havia grana da mochila grande, havia câmeras, microfones e outros equipamentos, no porta-luvas estava bem visível uma caixa de som cilíndrica. Estava tudo em seu lugar, intocado, nada além do computador sumiu. Considerei o horário, entre duas e quatro da tarde, em plena luz do dia em uma rua movimentada do centro de Santa Maria, a Tuiuti, em frente ao número 2450, trecho de passagem intensa de veículos. Cracudos são da noite, do silêncio, do vazio. A possibilidade de agirem nesse horário é muito pequena, embora exista. A luz do dia, o movimento intenso do lugar, a passagem de gente inibem a ação desses restos sociais, dessas vítimas do abandono coletivo que se tornam zumbis nas noites.
Outra possibilidade surge, entre tantas. Renato, nosso anfitrião, abriu a casa nos dias em que estivemos abrigados e encheu o ambiente nas noites. Muitas pessoas passaram por ali, tomando cerveja, ouvindo música e conversando. Nem todos vibravam honestidade, vi muitos olhares vazios de sinceridade e atitudes confirmando. Trouxemos a cerveja que tomaríamos, como se deve, e esses simplesmente metiam a mão, sem perguntar ou avisar, e iam tomando como se fosse natural pegar o que não é seu e fazer uso como se fosse. Duas vezes tomei a garrafa de mãos folgadas, as duas últimas pelo menos. Houve algum mal estar, mas eu estava no meu direito e não abri mão. Perguntei ao Renato e ele não conhecia as figuras direito, não tinha convívio. Abrira a casa, simplesmente, e permitira a entrada. E a gente sente a vibração, havia gente boa e gente nem tanto, dissimulações e superficialidades se exibiam aos nossos olhos, na segunda noite estávamos visivelmente deslocados da maior parte das pessoas. Foi no dia seguinte.
Juntando os sinais, há possibilidade de ter sido observado ao sair de casa, visto colocando a pasta no chão da kombi. E esse ladrão veio na finalidade mesmo do computador, na cobiça dos meus arquivos, das coisas que tenho guardadas, por conta dessa visibilidade que surgiu, que nunca foi meu objetivo e que acho uma bobagem, um exagero na sociedade do “celebrismo”, mas que cria um olhar diferente em muita gente. Vi vários desses olhares “estranhos” na nossa direção, a intuição vibrou intenções desequilibradas algumas vezes. Não se pode ter certeza, mas os indícios alimentam essa possibilidade.
Santa Maria nos recebeu de braços abertos, fomos muito bem acolhidos nos lugares onde ficamos, entre a casa do Renato e a casa nove, onde projetamos o filme e trocamos idéias. Os encontros foram férteis, muitas exceções às regras compareceram nos dois eventos feitos por aqui. Apelo aos amigos pra ficarem atentos, quem sabe aparecem os sinais, os indícios, e o computador aparece? Os que têm contato com o submundo social, onde tudo pode ser revelado, têm acesso a informações das internas, por aí se pode conseguir. Se fosse obra de cracudos, tudo seria simplesmente apagado pra que se pudesse vender como se fosse novo, tanto o computador quanto o agadê. Mas acredito ter sido intencionado, mirado na minha pessoa, cobiça em cima dessa idiotice de “celebridade”.
Segue a vida, não é a primeira, nem a maior perda com que tive que tratar. O sentimento é mais de perda coletiva, acima das perdas pessoais. Muito trabalho em curso, muito arquivo precioso, muita coisa. Mas ficam braços, pernas, cabeça, o trampo continua. Perdas são percalços a serem superados, a gente não pode sentar pra se lamentar, o lamento é interno e deve aumentar a disposição pra fazer mais e mais, tudo novo já que o feito se foi. Mas é impossível não esperar, torcendo, que alguém descubra o paradeiro desse material, embora a consciência da possibilidade pequena.
Celestina, a kombi, no sertão da Bahia.
Estamos saindo de Santa Maria pra Passo Fundo, hoje. Não registramos B.O. em polícia, o nosso trato com esses profissionais é sempre na condição de “suspeitos”, no começo mesmo dessa viagem fomos abordados violentamente em Piraí, sob a desconfiança de que éramos ladrões de cargas, num posto de caminhoneiros. Assim como não confio no Estado, não confio em nenhuma das suas instituições. Prefiro confiar nos invisíveis e na boa vontade das pessoas de caráter. Nos “acasos” e “coincidências” da vida. Não me espantaria se alguém entrasse em contato dizendo que encontraram meu computador. O que não posso é me fiar nisso, a realidade é que todo esse material não está mais comigo. Só que a esperança é teimosa e persiste. Se a expectativa é indevida, só o tempo vai dizer. E nós não vamos esperar sentados, é muita coisa pra fazer e temos a necessidade de seguir fazendo. As fatalidades a gente tem que encarar, superar e continuar dando o mesmo sentido à vida.

Se alguém tiver a manha de localizar, o IP do computador roubado é 189.103.7.164, uma esperança.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.