quinta-feira, 18 de maio de 2017

Sobre o sistema jurídico da nossa sociedade

O foco do vídeo é o caso do Rafael Braga. Simbólico, retrata o funcionamento do sistema jurídico do país - que não se pode chamar de "justiça", porque trabalha por interesses, não por justiça. As escolas de direito formam malabaristas de leis, não agentes de justiça. Não há justiça institucional numa sociedade tão evidentemente injusta. Sem ingenuidade. Rafael, desabrigado, vítima de crimes do Estado, crimes sociais, como tantos milhões de brasileiros, foi preso num momento em que a polícia combatia manifestantes e tinha a incumbência de prender "vândalos", "baderneiros", na estratégia de criminalização das manifestações, como dar porrada nos grupos encurralados, atirar bombas e balas de borracha. Rafael não participava dos movimentos de protesto, ele passava numa rua próxima e viu, através de uma vitrine quebrada, um vidro de pinho sol e uma garrafa plástica de água sanitária. Lembrou da tia, morando em lugar insalubre, e pegou pra levar, colocou na mochila e seguiu em frente. Na primeira esquina deparou com o furdunço da fumaça, dos tiros, dos gritos e da correria. Ele estava atrás do pelotão policial que atacava os manifestantes e foi visto por um dos agentes. Mestiço, roupas pobres, foi interpelado imediata e agressivamente, enquadrado e revistado. A ordem era prender "vândalos" e o pinho sol com a água sanitária foram pretextos, quando o motivo era a condição social de Rafael. Qualquer um servia, melhor ainda pobre, preto, desabrigado e, pra "sorte" dos algozes, depois se descobriu que tinha uma passagem por furto - o que não é difícil, quando se vive na miséria dentro de uma sociedade francamente hostil aos miseráveis.

Há incontáveis casos igualmente simbólicos, embora pouco ou nada divulgados. 

A mulher que, abandonada pelo companheiro e com filhos pequenos, saiu a procurar emprego, deixando os filhos com uma vizinha - a quem destinaria parte do seu mísero salário de desqualificada. Estava sem água em casa e era repelida nas tentativas, por estar com mau cheiro. Entrou num supermercado - mal vestida, foi seguida - e usou um desodorante da prateleira. Antes que pudesse recolocar o desodorante de volta, se viu agarrada pela segurança, presa pela polícia e condenada em julgamento sumário a cumprir pena de cadeia. Seis anos depois, foi encontrada por uma dessas missões de advogados - geralmente em início de carreira - que acreditam no direito, e finalmente solta. Seis anos sem estar com os filhos, seis anos fora da vida, seis anos no inferno. Pelo uso de um desodorante, na intenção de encontrar trabalho.

O cara que, preso e condenado "por engano", inocente como se provou anos mais tarde, saiu da penitenciária contaminado com aids, em Belém. Inúmeros casos semelhantes, em que pobres pagam por crimes que não cometeram, ou são presos por pequenos delitos e se transformam em assassinos, vinculados a facções criminosas por uma questão de sobrevivência no cárcere.

Um sistema jurídico escroto, onde juízes se sentem deuses e dispõem de vidas com base em seus preconceitos sociais, pouco se importando com as conseqüências de suas decisões, destruindo vidas já sofridas, "inferiores sociais" que, na verdade, são vítimas de crimes contra a constituição cometidos pelo próprio Estado. A área jurídica, como todas as instituições, é corrompida pela própria natureza da estrutura social, ignorando os direitos básicos da maioria periférica, os serviçais da sociedade, os imprescindíveis que são mantidos na ignorância, na desinformação, condicionados a uma inferioridade falsa, artificial, planejada, estratégica na dominação de poucos sobre o todo, sobre toda a sociedade, fazendo do Estado uma espécie de Robinhude ao contrário, que rouba dos pobres pra dar aos ricos mais ricos, acima e por trás dos poderes que se fazem passar por "públicos", mas que nunca foram públicos de verdade.

Não é só na área jurídica que se impõe a falcatrua, mas em todo o espectro institucional. O que estamos vendo na farsa política - que de política só tem o nome - é mais uma demonstração da índole do sistema ditatorial no comando geral, onde mandam bancos e mega-empresas, associações patronais urbanas e rurais, sob a fachada de uma falsa democracia.

Segue a descrição do caso Rafael Braga, apresentado como "preso político" sem nunca ter participado de atos políticos, sem nunca ter pertencido a nenhuma organização de resistência e contestação ao sistema econômico-social. Um preso "político" sem consciência política, sem participação em movimentos organizados, sofrendo a ira de juízes conservadores cheios de ódio e ímpetos de vingança contra a população em protesto. Precisavam de bodes expiatórios e, diante de manifestantes presos que contavam com advogados ativistas, que eram de classes mais esclarecidas e politizadas e que tiveram como comprovar a ilegalidade da sua prisão, seguraram o pobre, preto, periférico - "esse não vai ter como sair". Mais uma demonstração da índole social que nos rege a todos.

Há milhares de Rafaéis Bragas no sistema penitenciário. Da mesma forma que há milhares de Amarildos, torturados e mortos pelas "forças de segurança", com ou sem culpa, crimes que ficam na impunidade porque o sistema é construído pra isso mesmo, perseguir, reprimir e agredir pobres, na manutenção dessa ordem espúria, vergonhosa, desumana, imposta pelos podres de ricos através dos seus fantoches falsamente "políticos", governantes, legisladores, magistrados, a porra toda.




domingo, 23 de abril de 2017

A barragem dos metais pesados nas águas do finado rio Doce

Em fevereiro de 2016 estive na parte capixaba do rio Doce, encontrei uma transposição do rio Doce, feito pela então Aracruz Celulose, hoje Fibria, que levava água para o rio Riacho, que não estava dando vazão às necessidades da fábrica de celulose. Isso por volta de 2009 ou 10, não estou bem certo, e contra a vontade da população, que se organizou, protestou, mas perdeu pros interesses empresariais, reprimidos pelo poder dito "público". 

Com a chegada dos metais pesados, nocivos à maquinaria, construíram uma barragem com filtros, que tirava os metais pesados da água, de modo que ela voltasse a servir na produção. Filmei, corri atrás de edição, analfabeto internético que sou e, finalmente, em julho, publiquei o vídeo. É a segunda vez que o trago a público, desta vez em foco principal.

A questão era: se há possibilidade de filtrar essa lama de rejeitos da mineração, por quê não se fazem filtros como esse desde lá de cima, no rio Gualaxo do Norte, onde estourou a barragem, e pelo rio do Carmo, até o encontro com o Piranga e a formação do rio Doce? Por que não se fazem quantas barragens dessa forem necessárias, na busca de uma diminuição no sofrimento dos cerca de três milhões de pessoas que vivem às margens do rio assassinado? Por quê as máquinas têm prioridade sobre as pessoas?

Perguntas fáceis de responder, quando se vê no Estado e em suas instituições uma grande farsa, a serviço dos poderes econômicos, na guerra das empresas contra os povos, uma guerra de dominação e conquista, de poder e controle, que cria ignorância e desinformação pra manter o sistema social sob a ditadura financeiro-empresarial em que se encontra.


sábado, 22 de abril de 2017

Relatos de delatores desmascaram o Estado

Nunca tinha visto as entranhas da sociedade serem expostas dessa maneira. Taí a explicação da miséria, da ignorância, da violência, da criminalidade, da barbárie, da situação de degradação social em que vivemos. Os relatos nas delações da Odebrecht mostram o corriqueiro dos procedimentos, nas relações da empresa com os poderes públicos. Não se trata só da área da construção. É óbvio que é da mesma forma em todas as áreas. A naturalidade das falas, "há trinta anos eu estou nesse ramo, há trinta anos que é assim"; os relatos das visitas, das conversas, dos encontros, das reuniões, mostram algo mais que um escândalo de corrupção entre uma empresa e um governo. Revelam como o Estado, o aparato público, as instituições funcionam, como é o seu modo de proceder rotineiro, recebendo dos ricos pra roubar os pobres. Pra enganar os pobres. Pra manter a pobreza.

O domínio de laboratórios farmacêuticos, indústria da medicina e as empresas de planos de saúde explica a situação da saúde pública, a penúria, o abandono, a desimportância, negada por números oficiais mas visíveis a quem quiser ver, na realidade.

As "revitalizações" que vieram em ondas, nestes tempos, puseram milhares de pessoas nas ruas. Só na Copa e nas Olimpiadas, as obras que interessavam às empreiteiras, financiadoras de campanhas eleitorais e midiáticas expulsaram de suas casas mais de trezentas mil famílias, grande parte sem direito a nada, exatamente as em piores condições. Em todo território nacional é a mesma coisa.

Em toda parte é senso comum obra pública superfaturada e sub-construída. Foi naturalizada a "roubalheira" que de vez em quando a mídia levanta pontual, focada em alguma área de interesse no momento, em disputas de espaço e controle, colocando todo mundo na rua a papagaiar suas falas inventadas, cheias de distorção calculada, controle mental em efeito. A sabotagem da educação facilita o trabalho da mídia, que foi toda construída pra fazer exatamente o que faz, distorcer a realidade e controlar a opinião pública. A gente aí, querendo o programado, vivendo condicionada, atrás de ilusões muito bem criadas pra ocupar as vidas.

De repente se descara o funcionamento do Estado. Tá explicado o massacre permanente dos povos originários, do massacre nas favelas, nas periferias. Tá explicada tanta maldade nos serviços públicos, tanta carência de recursos e tanto sofrimento. Tá explicada a ignorância, a miséria, a violência, a criminalidade. Tá explicado o abandono de tanta criança, tanto velho, tá explicada tanta exploração de tanta gente. Tá explicado o roubo geral de direitos constitucionais, humanos, básicos e fundamentais. São os interesses empresariais, com os bancos por cima, dando respaldo. É a "máquina de moer gente" do Darcy, em pleno funcionamento.

Grupos de milhares controlando uma sociedade de centenas de milhões, em seu benefício - como paga da sua traição pelos banqueiros e mega-empresários estrangeiros - e em prejuízo da própria sociedade.

As delações da Odebrecht são só a ponta do véu levantada, o véu institucional que cobre o funcionamento verdadeiro de toda a máquina pública, em sua dimensão nacional, regional e local, em todos os setores. As instituições, infestadas por dentro, servem de parte deste véu, sentem-se parte acima da sociedade, são induzidas a olhar os mais pobres como inferiores e não como vítimas de crimes sociais, a quem se deve reparação - no mínimo em respeito pessoal - em programas estatais de resgate das populações vitimadas pelo Estado. Pelo que se vê, a serviço empresarial, sempre, pois sempre há os que se beneficiam desses crimes coletivos. Toda a máquina estatal está aparelhada por interesses banqueiro-empresariais. As instituições não podem se resolver, foram criadas de forma a não funcionar em benefício da população, a não ser cenicamente, em pequena parte, infinitamente abaixo do que deveria, pra criar a imagem mentirosa de funcionamento.

Tá explicado também a brutalidade das forças de segurança, seu treinamento pra guerra, não pra paz social, verdadeiras forças de combate e de contenção de massa. Tá explicada a quantidade de investimento em armamentos "não letais" e caminhões pra dispersão de multidões. O povo é a principal vítima da estrutura, é de se esperar que se levante aqui e ali, em algumas ocasiões, mesmo com toda a idiotização da mídia. O investimento e a "formação" das forças de segurança é um elemento estratégico. É preciso que não se sintam parte do povo, é preciso distanciar, segregar, criar abismos. As instruções e treinamentos, de um lado, e o comportamento induzido dos agentes, agressivo com quase todos e violento com os mais pobres, cria a rejeição popular necessária, do outro lado. Taí a "cidade da polícia", "enclave" construído em Del Castilho, símbolo do que eu tô falando.

Tá explicado o predomínio dos valores empresariais na educação, em sua pequena fração que funciona, a particular, onde a sociedade é apresentada como uma arena competitiva, e não como uma coletividade que pretende a harmonia social. E que vença o melhor. Os outros merecem a "derrota". Essa a mentalidade criada, há muitas gerações. A educação pública é feita pra engabelar, claro, o mais imprescindível trabalho, sem o qual nada funciona, é o braçal, o "desqualificado" e o de "baixa qualificação", é preciso produzir a mão de obra, assim, traiçoeiramente. Interesses empresariais.

É preciso ver as instituições como elas são, uma fachada pra esconder o que acontece nos bastidores, de onde controlam a sociedade toda e infernizam geral. Não tenho aqui uma "solução" ou uma "saída", acho que antes de escolher o que fazer é preciso enxergar a realidade. Quanto mais gente vendo o que é e como funciona o Estado e suas instituições - e bancos, empresas e suas corporações, no controle - mais possibilidade de aparecerem soluções localizadas, onde e como se fazem necessárias. Decisões e mudanças pessoais são também são coletivas e modificam o trato com a coletividade.

Os que lutam contra moinhos, dentro das instituições, têm sua importância no constante denunciar, no apontar permanente das falcatruas institucionais. No uso de algo do aparato público em favor da população, por pouco que seja. Apenas não têm, de onde estão, a capacidade de mudança social desde a raiz.

sábado, 15 de abril de 2017

Chega de esperança

Esse vídeo foi gravado no final do ano passado, acho que não publiquei ainda. Fala em esperança. No momento, a palavra me pareceu ligada a "espera", a inatividade, sentaí e espera. É preciso atividade, serviço, fazer em vez de esperar. Como na frase que escrevi, "chega de esperança, é hora de atividança".

Minha visão é mutante, como tudo à minha volta. Mas à medida em que percebo a realidade, algumas coisas vão se firmando. É a sociedade da mentira, da simulação, do engano, da manipulação do pensamento, dos desejos, dos valores, dos comportamentos, dos objetivos de vida. Quando se percebe e não se deixa mais levar tão facilmente, a vida toma sentido, gosto, cor e valor. E não se confunde mais valor com preço.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Pensamentos no ônibus

A idéia era ir de bicicleta. Mas choveu e fui de ônibus. Aí tive que esperar sentado, no trânsito, enquanto pensamentos me passavam na cabeça. Tirei o caderno e anotei algumas coisas que passaram, entre tantas.
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Antes de exigir as respostas, é preciso aprender as perguntas. Perguntar também é um aprendizado. Se as respostas não estão satisfazendo, é preciso modificar as perguntas até ficarem tão claras e precisas que as respostas esclarecerão, mesmo sem precisar, sem dar precisão. No mínimo, ficará clara a vontade ou a existência de razões pra não haver respostas.
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Caminhei no escuro durante muito tempo na vida. Cheguei a pensar que nunca veria luz natural, que não existia, só as artificiais, falhas e falsas, sempre sucumbindo à escuridão. Ao longo dos anos, em alguns momentos tive a impressão de ver alguma claridade se esboçando longe, no céu. como um anúncio da madrugada.  Mas logo achava que era só impressão, mesmo. Vários anos se passaram até firmar a certeza de que tava clareando. Décadas. Hoje, percebo uma tonalidade claro escuro, tipo entre quatro e meia e cinco horas da manhã de dia limpo. O anúncio de que vem a aurora ainda distante, mas vindo sem contenção, a cada momento mais. Mais pra noite que  pra dia, a luz apenas deu o ar da sua graça. Longe ainda de nascer o sol, um conforto é a certeza intuitiva de que o calor e a luz virão acabar com o frio e a escuridão.
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Anotei essas, foram muitas, sempre são. O tempo todo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O descaramento da farsa

Pouca gente assistiu a tv senado durante a votação da pec 55. Os poucos senadores que se opuseram a essa traição do povo convidaram a economista Maria Lúcia Fattorelli, reconhecida internacionalmente e participante das auditorias das dívidas públicas de Equador e Grécia, pra expor as criminosas intenções dessa pec maligna. E ela expõe, magistralmente, apesar da linguagem inacessível a um povo estrategicamente sabotado em educação, as falcatruas mais que claras do projeto desses traidores da nação. Irrespondível intervenção, constrangedoras e dolorosas verdades são jogadas às caras-de-pau dessa casa legislativa que, depois, ignoraram tudo e aprovaram a emenda constitucional, mais um estupro à constituição brasileira em favor de banqueiros internacionais, de mega-empresas, dos parasitas sociais podres de ricos, miseráveis de espírito. Serviçais de luxo desses interesses, que financiam suas campanhas, os parlamentares não têm como não saber o que estão fazendo. A pec 55 foi aprovada e está em vigor, o resultado se vê nas ruas, com o aumento de desabrigados, de cracudos, da violência, da criminalidade explosiva que não pára de crescer. Enquando isso, a mídia aponta como solução o investimento no sistema de repressão e carcerário, sem tocar sequer nas causas. Seria uma estupidez, se não fosse intencional.

Se a intenção fosse diminuir a criminalidade e a violência, bastaria cumprir a constituição nos seus artigos de direitos humanos, bastaria o Estado garantir o que está previsto nessa chamada "lei maior", a "carta magna", base do funcionamento da sociedade. Garantir a cada brasileiro alimentação decente, moradia digna, instrução de qualidade, informação verdadeira, atendimento médico em qualquer necessidade, condições de desenvolvimento humano, seria muito mais barato que o pagamento de juros e amortizações dessa dívida, como afirma e reafirma Fattorelli, ilegal, ilegítima e socialmente catastrófica, permanentemente denunciada e não investigada. Basta falar em auditar essa dívida com os bancos internacionais e a mídia fica histérica, gritando "calote! calote!" pra difamar a iniciativa conduzindo - como é sua função - a opinião pública com suas mentiras criminosas. Demonstração clara do que é a mídia privada e a quem serve, traindo a população com suas seduções e distorções. É óbvio o interesse na manutenção do caos, da criminalidade apavorante e paralisante, da miséria e da ignorância que infernizam a sociedade.

Há muito tempo, Getúlio Vargas mandou investigar essa dívida, que era muito menor que hoje mas já esmagadora do patrimônio público, e se revelou ilegal em mais da metade, caindo pra 40% do que era. A grita dos traidores se fez ensurdecedora e as pressões foram tamanhas que levaram Getúlio ao suicídio político que impediu o golpe programado pra derrubá-lo. Dez anos depois, o governo João Goulart apontava na direção de uma democracia ainda distante, favorecendo a organização dos mais pobres, implantando um programa de erradicação do analfabetismo, investindo na educação do povo, implantando uma lei que controlava a remessa de lucros de empresas estrangeiras, decretando uma reforma agrária que distribuiria terras pra mais de um milhão de famílias de agricultores, estimulando a agricultura familiar na produção de alimentos e aproximando o produtor do consumidor, sem os intermediários que encareciam os produtos. Por isso mesmo, debaixo de calúnias e invencionices, esse governo foi derrubado e implantou-se a "ditadura militar", com a mídia proclamando a "volta da democracia". Era preciso manter a ignorância, a desinformação, destruir e impedir a organização dos explorados, destruir o sistema de educação pública e impor o enquadramento do ensino privado. E a ditadura banqueiro-mega-empresarial foi mantida, aprofundada, enraizada e se mantém a pleno vapor. O estado de degradação social em que vivemos é estrategicamente deliberado. A formação da ideologia reacionária, conservadora, raivosa e ignorante, quando não mau caráter, é produção encomendada por esses seres desumanos que chafurdam no luxo, na riqueza, na ostentação e no controle social pelo mercado financeiro, indiferentes ao sofrimento de milhões.

Investir pesado em educação verdadeira, em informação leal e nos direitos sociais é arrancar as raízes da barbárie periférica, da violência e da criminalidade. Mas isso é simplesmente proibido pelos usufrutuários dessa estrutura perversa, que financiam laboratórios de pensamento pra criar mentalidades que serão implantadas pela mídia, sempre baseadas em falácias, falsidades e mentiras, apontando soluções punitivas que jamais deram resultado em nenhum lugar do mundo. A base dessa mentalidade, atualmente  nos Estados Unidos, produziram naquele país a maior população carcerária do mundo - maior que a da China, que tem uma população mais de cinco vezes maior que os EUA. É nesse caminho que estamos postos, subalternizados pelas corporações financeiras. Não há polícia, não há sistema prisional que diminua a criminalidade produzida no atacado pela miséria, pelo abandono, pela exclusão, pela exploração desenfreada da população. Estamos "travando a inútil luta com os galhos, sem perceber que é lá no tronco que está o coringa do baralho", como já dizia Raul Seixas.

Gostaria de lembra à esquerda arcaica a fala profunda de Fidel Castro - "acabou o tempo da revolução com fuzis. Hoje a revolução só pode ser feita com a conscientização". É preciso substituir o espírito de combate pelo de serviço. Obviamente será preciso um trabalho interno, individual em primeiro lugar, pra escapar do sentimento induzido de superioridade acadêmica, na criação da humildade necessária ao trabalho. Ninguém está imune aos condicionamentos do sistema social - através do modelo de educação e, sobretudo, do massacre midiático-publicitário que assola a coletividade como um todo. É igualmente preciso substituir a visão míope e imediatista pela visão a médio e longo prazo, deixando de lado as instituições dominadas e controladas, servindo nas periferias onde se encontram as pessoas mais importantes, imprescindíveis, sem as quais nada funciona. O trabalho mais necessário, mais indispensável de todos, é o trabalho braçal. Sem ele, não tem doutor que consiga exercer o seu ofício, seja qual for. Uma obviedade que passa, estrategicamente, despercebida, mas que pode ser facilmente demonstrada - a quem interessa, claro, os periféricos.

Ali, nas periferias, se encontra a sabedoria, a capacidade de superação, a resistência, ainda que inconsciente. No centro dos valores sociais, nas academias, se encontra segregado o saber, restrito a camadas minoritárias da população. Quando os que têm acesso ao saber descerem dos seus pedestais de vidro - a indução do sentimento de superioridade - ganharem o privilégio da humildade e se dispuserem a servir os que tiveram seus direitos roubados dos conhecimentos que lhes foram vedados, o saber se encontrará com a sabedoria e a evolução do sistema social será inevitável. Isso sabem os parasitas sociais, daí a sabotagem sistemática da educação e o controle férreo das comunicações do país, dominadas por poucos podres de ricos traidores da nação, a serviço de mega-interesses estrangeiros.

É preciso enxergar a realidade além do que é permitido, a partir das conseqüências escancaradas na sociedade como um todo. Como dizia Helder Câmara, "quando eu divido meu pão com os pobres, me chamam de santo; quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista". É proibido desvendar as raízes da degradação social, porque elas são criadas e mantidas pelos que dominam a sociedade, muito acima dos "poderes públicos", nos bastidores da farsa apresentada como "política", cuja finalidade é criar a ilusão de que o sistema é democrático. Chamar de política essa encenação de marionetes, impotentes pra tocar na estrutura dominada pelos vampiros no mercado financeiro, mas com o poder de trair toda a população, é colaborar com essa falcatrua, essa armação que torna a sociedade injusta, violenta, perversa, covarde e suicida.

Pra assistir a exposição do descaramento, https://vimeo.com/160568538.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Tinha uma boca no meu caminho

Eu estava passando perto de uma boca de fumo, quando um dos caras - parecia o gerente - me reconheceu da internet e me abordou, perguntando o que eu achava do juiz Sérgio Moro. "Tu acha que ele veio pra acabar com a bandalheira?" Escondi meu incômodo com a pergunta e pensei que, se dissesse o que penso dessa triste figura, iria bater de frente com o que ele pensava, pelo brilho nos olhos dele. Era esperança.

Então falei da globo, citei várias falcatruas que vieram a público e toquei num ponto chave, Brizola e os CIEPs. O pai dele havia estudado num CIEP. Largou o crime pra estudar, porque tinha tudo na escola, comida, médico, dentista, futebol, capoeira, música, teatro, era o dia todo lá. Conseguiu passar num vestibular, mesmo trabalhando, quando ele era um bebê ainda, e só não se formou porque foi vítima de um tiro da polícia quando chegava em casa à noite, muitos anos depois de sair do crime. Foi confundido com um traficante conhecido na área, risco cotidiano pra quem mora em favela. Ele estava, na época, com nove anos e chorou quando me contou, "ele tava quase se formando, dizia que ia mudar pro asfalto com a família toda. Não ia pra longe da favela não, que todos os nossos amigos moram aqui. Ele só queria uma casa com quintal, com mais espaço pra todo mundo". Aproveitei essa revelação e lembrei de como a globo atacou a construção do sambódromo, boicotando até o primeiro carnaval lá, do ódio do jornalismo contra os CIEPs, evidenciando o horror que as elites dominantes têm da instrução popular, da fraude eleitoral revelada, com a globo desviando urnas pra impedir a eleição do Brizola, do apoio total ao Moreira Franco, que o sucedeu no governo do Rio e comandou o desmonte do projeto dos CIEPs. E depois, quando o sambódromo bombou, mundialmente, a globo comprou o espetáculo e dominou a área.

À medida que eu falava as coisas que ele sabia, mas não havia conectado, fui vendo a compreensão surgindo a respeito das comunicações criminosas que vigoram nesta sociedade dominada e aí foi só pegar a onda. "Pois é, a globo apresenta esse juiz como a salvação da pátria, como herói... por quê que tu acha que eles elogiam tanto o cara?" A resposta veio rápida, "porque ele fecha com esses furingo". Eu sorri e me despedi, "vou nessa parceiro". "Porra, eu sabia que tinha que falar contigo", ele disse. Eu me senti altamente elogiado. Aí ele me complicou, "então qual é a solução?" Mas eu me vali da intuição que é farta nas periferias e respondi "não tem solução, parceiro, tem caminho, tem serviço, tem a vida pra viver e a gente precisa aprender a ver a realidade sem se deixar levar pela televisão". Ele abriu um enorme sorriso cheio de dentes brancos, "aí tá certo".

Fui embora, ouvindo ainda ele falando com outro, "já viu esse cara falando na internet?"

segunda-feira, 13 de março de 2017

Chuva na noite em Itabuna

Uma vez, em Itabuna, eu viajava sozinho e tinha entrado na cidade pra arrumar um qualquer e seguir viagem, fui dormir na madrugada depois do mangueio nos bares e  nos puteiros da noite. Já tinha arrumado a mixaria pra pegar a estrada, mas resolvi aproveitar o restinho da noite pra dormir um pouco, ainda mais que as nuvens pesadas no céu anunciavam uma daquelas chuvas grossas. Era uma marquise com o degrau da loja largo, onde estendi o papelão e me estendi em cima, cabeça na mochila. Era próximo ao movimento da noite, que varava até dia alto, a presença de gente tornava a dormida mais segura. Ainda esperava o apagar do sono quando começou a chover, primeiro gotas esparsas, então o ritmo aumentava até o toró despencar. Olhei a rua, através do cinza da cortina de água que caía vi tudo vazio, algumas mesas e cadeiras na chuva, em alguns toldos pessoas se encolhiam dos respingos, a maioria havia entrado nas casas e bares. Eu estava abrigado pela marquise, mas a violência da água no chão salpicava gotas sujas, pensei "preciso dormir antes de ficar molhado, depois é mais difícil." Foi quando passou um grupo correndo, alguns protegiam a cabeça, com bolsas e pedaços de papelão, praguejando contra a chuva. Passou como um relâmpago na minha cabeça a necessidade de chuva naquela região, atentei no egoísmo inconsciente e falei comigo mesmo, "os caras tão indo pra casa, onde tem toalha, banho quente e roupa seca... não têm do que reclamar e estão reclamando." Me ajeitei melhor, de costas pros respingos, fechando os olhos e tentando dormir. E sonhei saudade. Não de algum lugar, de alguém ou de alguma situação específica, mas de ter uma casa, qualquer que fosse, mas que tivesse dentro panos secos, um fogão, um banheiro. Uma saudade boa, tranqüila, um sono que me descansou mais do que eu esperava e me pôs em ótimas condições de humor pra pegar a estrada e tratar com as caronas da vida. O molhado da roupa até refrescava no sol que esquentava desde o amanhecer. O céu estava limpo de nuvens. E secou os panos antes da primeira carona, no rumo norte que eu estava.

(Isso foi no início da década de 80)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Feira, estradas e Caetité

Seguindo a estadia no Capão, seguiram os acontecimentos. Estou com seis encomendas embaladas e prontas pro envio, até hoje sem postar. Um dia fomos a Palmeiras resolver umas coisas, levei os tubos com desenhos pra remeter. Paramos pra comer na chegada, estacionando ouvi o barulho da tampa de trás da kombi, estranha sensação - a de que poderia ter caído coisa do bagageiro na turbulenta estrada de terra, cheia de subidas, descidas e sacodes gerais. Fui conferir, estava mesmo aberta, já olhei esperando ver o tamanho do prejuízo. Dei falta de três das encomendas e, incrivelmente, mais nada. Caixas, estepe, bolsas, ferramentas, cajón, tava tudo ali. Lamentei pelas encomendas, com alívio porque podia ter sido bem pior. Mas perdi o ímpeto de ir ao correio e decidi refazer as remessas em casa. Na volta ao Capão, fui avisado de que pessoas andando pras trilhas haviam encontrado uns tubos que pareciam encomendas na estrada, um deles atropelado, mas dois outros intactos. Afinal, voltaram à noite pras minhas mãos, através de amigos que conheciam as pessoas que acharam. Alívio, congratulações, retribuições foram feitas, as encomendas recuperadas. Os desenhos atropelados foram substituídos, de amassados que estavam. Na verdade gosto desses amassados, marcas são cicatrizes de vivências. Separo pra interferir depois, com tintas ou não, e dificilmente ponho à venda. Cicatrizes são marcas de histórias. Ganharam personalidade própria, ficam guardados pra ocasiões especiais em que são presenteados. Mas a partir daí a viagem ganhou um ritmo que não permitiu a remessa dos seis, novamente juntos, até hoje que estou em Beagá, em pleno carnaval.

Fomos a Feira de Santana, convite na UEFS. No caminho, a gruta sacralizada que já tinha me chamado a atenção em outras passagens foi fotografada. Na paisagem impressionante da chapada, a religiosidade sertaneja mostra suas peculiaridades. Não parei nem pesquisei essa gruta, há um pequeno restaurante caseiro na estrada - estava fechado - e marcas de peregrinação no caminho até a pedra, onde há uma cruz branca na entrada da caverna.

São trezentos e cinquenta quilômetros até Feira. Chegamos no fim da tarde, quase na hora da palestra, fomos ao local e rolava um papo com desabrigados - os chamados "moradores de rua". Assisti um pouco, mas o cachorro se ouriçou com as palmas e roubou a cena, me obrigando a sair com ele do auditório. Fomos à casa dos nossos anfitriões, Vinícius, Ingredy e Iggor, aí banho, janta e toca de volta pro auditório. Expusemos também, claro, dormimos e retornamos ao Capão no dia seguinte, já na preparação pra descida de volta. A palestra estava cheia de gente e interesse, o sentimento de proveito justifica todo o esforço.

Auditório do módulo 2, na Universidade Estadual de Feira de Santana.
De Feira voltamos ao Capão, já no preparo pra começar a viagem rumo sul, com a primeira parada em Caetité. Saímos pela estrada de Seabra, onde Celestina exigiu um pneu novo. Eu não havia entendido um caroço surgido na sola, que acabou consumindo a borracha até aparecer a lona. Mas o borracheiro esclareceu tudo, alguma pancada forte arrebentou os arames internos e aí a pressão do ar estufou a área, desgastando o pneu. Com a quantidade de estradas de terra por onde temos passado, não é de se estranhar, algumas em estado tão precário, com tantas pedras, que a velocidade precisa ser a de caminhada a pé. Às vezes dá pra pegar uma velocidadezinha maior, sempre com o risco de empedrar depois de uma curva ou uma lombada - e é aí que tá o perigo, de repente encrespa em pedras ou buracos e fica difícil evitar algumas pancadas.

Seguimos de Seabra em sentido leste, até Lagoa de Dionísio, onde viramos pro sul, estrada ao longo da chapada no lado oposto a Lençóis, oeste da região. Eu tinha visto o mapa no gúgol e era o menor caminho. O que esse gúgol traíra não avisou era que as estradas por ali estavam em péssimas condições, desde sempre. Fomos em asfalto até a primeira cidade, Ibitiara, ali paramos pra comer e pedir informações. A expressão no rosto das pessoas era inequívoca, a estrada era terrível. Mas já estávamos ali e seguimos adiante. Houve até quem duvidasse da Celestina, "com aquela kombi ali? Cês não chegam lá não". Ora, minha senhora, não tem arrego, vamos em frente. Dali a Novo Horizonte o caminho foi duro, a estrada era muito ruim. Realmente mais perto, mas a buraqueira obrigava à lentidão. Foram mais de quatro horas pra percorrer os oitenta quilômetros.        
       
O sol acabara de se pôr quando, numa das encruzilhadas, encontramos uma placa indicativa improvisada, a primeira legível. O caminho passava por Novo Horizonte e seguia pra Ibiajara. Anoiteceu e a estrada, toda esburacada e cheia de pedras, não permitia desenvolver velocidade acima da caminhada. A impressão era de que não tinha fim, ao longe não víamos nada, nenhuma luz. Uma hora pedi a Clara pra fotografar a estrada pelo parabrisa, em movimento mesmo. Ficou uma imagem meio surreal, mas eu gostei.
A máquina tava com flash, não houve jeito de tirar.
                                                                                 Havia bifurcações, entradas, e eu no instinto, escolhendo, raras placas indicativas, algumas ilegíveis. Chegamos em Novo Horizonte, passamos, continuava estrada de terra, pior, mais esburacada e empoeirada. Mais bifurcações e entradas. Depois de muito tempo sem encontrar nada, cruzamos um cara de moto, fiz sinal e ele parou. Perguntei se era a estrada certa, ele coçou a cabeça e, enquanto confirmava com um aceno, disse "mas tem uma serrinha terrível de passar aí, a estrada vai piorar muito". Nós nos olhamos sem dizer nada, nem precisava - voltar nem pensar -, vamos em frente. A gente já tinha uma dica, dada em Novo Horizonte, "quando encontrar uma ladeirona braba, repare uma saída antes, de pedra, meio escondida no mato, passe por ali que contorna o morro e sai do outro lado". Tão escondida no mato que passamos direto, subindo uma "parede" de pó e buracos até ficar impossível. Aí percebemos que era a "ladeirona braba", descemos de costas, de um lado o barranco, do outro um abismo escuro. Pisca-alerta ligado, por via das dúvidas, bem devagar, mas como não passava nada, não houve problemas. Passamos pela estradinha de pedras, também inclinada ao extremo mas, com a aderência melhor, passamos.
                                                                              
Estávamos na BA 152 e, até chegar a um asfalto, muito precário ainda, passamos por Ibiajara e Tanque Novo. Aí começou um asfalto tão esburacado que me fez ter saudade da terra. Era a BA 156, nos levou à BR 430, aí, sim, uma estrada transitável. Chegamos a Caetité no início da madrugada. Thulio e Ailton nos esperavam na entrada da cidade. A pousada MCM, de Márcio e Ione, que nos acolheram, ficava ao lado, diante de uma praça, ao lado de um quartel.

A exposição foi no dia seguinte, na praça da árvore. Pra minha surpresa dois policiais armados levaram o som e instalaram. Eram amigos dos que me convidaram, músicos ambos. A exposição começou bem antes da palestra, coisa rara, ficamos por ali papeando, trocando idéias, enquanto chegava mais gente. A data não favorecia, véspera de carnaval, mas veio gente suficiente pra fechar o círculo da arena no meio da praça. Roquenrou, o cão, andou livre na área até a hora de começar o papo, aí se recolheu - ou foi recolhido - à Celestina, ali bem próxima.

Chegamos cedo, armamos a exposição e esperamos o povo chegar. Celestina ficou perto.
À noite, palestra - de camisa vermelha, falo (com microfone) ao fundo. Clara e Tito na exposição.
O dia seguinte, sábado "de carnaval", tomamos o rumo de Montes Claros, a caminho de Belo Horizonte. Paramos pra dormir a 50 km de Sete Lagoas, às quatro da manhã. Asfalto bom é outra coisa.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O sistema tem suas raízes em cada um de nós


Uma sociedade verdadeiramente humana será uma sociedade onde não haverá miséria, ignorância e abandono - uma vergonha do passado, então inconcebível. Qualquer um que apresente qualquer argumento explicando a inviabilidade de uma sociedade assim, apenas me provoca um riso amargo. Não há produção suficiente de alimentos? Não existem conhecimentos, logística, condições de eliminar estas excrescências da face da terra? Ora, é claro que existem.
O que acontece é que a acumulação, a concentração de riquezas, propriedades e privilégios precisa roubar direitos, mantendo populações em condições de barbárie, precisa de ignorância, desinformação, miséria e abandono pra seguir explorando populações e saqueando riquezas, moendo gente, destruindo potenciais e vidas, sujando e envenenando, tanto o planeta quanto as almas, as mentalidades, os comportamentos. Devemos a isso o estado de degradação social em que vivemos.
Querer vencer na vida é sustentar isso. Competir é manter o modo de relacionamento social. Acreditar nas informações e "opiniões" dos veículos de comunicação é envenenar a mente e receber uma visão de mundo completamente distorcida. Querer o que é induzido pelo massacre publicitário em suas sutilezas sedutoras é o alimento do sistema social. Não ligar a violência e a criminalidade ao desequilíbrio social absurdo, à miséria, à pobreza e aos valores distorcidos pela publicidade e pela propaganda ideológica subliminar da mídia, acreditando que repressão e encarceramento são algum tipo de solução - ou mesmo contenção - pra situação de terror cotidiano, pros níveis de criminalidade, é ter a mente lavada, enxaguada, teleguiada, entorpecida e estupidificada. 
Pretender mudar um sistema que estimula a competição, o confronto e a disputa, confrontando, disputando e competindo - ainda mais dentro das instituições, infiltradas e dominadas pelos poderes econômicos - é de uma ingenuidade mais que inútil e incapaz. Acaba sendo a "prova" apontada pelos defensores deste sistema social criminoso de que a farsa política é realmente uma "democracia", alegando que não se poderia falar assim se não fosse uma democracia. Alegação mentirosa, obviamente. Pode-se falar como esses pretensos revolucionários falam porque eles não tem nenhum poder de mobilização popular, em seus condicionamentos de superioridade social, em seu doutrinarismo estéril, em sua arrogância e pretensão de liderar, organizar e conduzir as massas. Pensam que estão lutando por uma sociedade igualitária, mas estão é colaborando com essa estrutura desumana, ajudando a construir o cenário do teatro macabro. Se alcançassem humildade, perceberiam. Eu percebo que há muitos se tocando. O processo tem seu ritmo.
Em cada um de nós há raízes dos condicionamentos sociais produzidos em laboratórios de pensamento bem pagos, contratados por um punhado de parasitas sociais podres de ricos - que não participam do caos que provocam, cercados em suas fortalezas com muros eletrificados e exércitos bem armados de seguranças privadas. Estamos expostos a isso desde o útero materno e ingenuidade é pensar que nossa vontade é toda nossa, como nossa visão de mundo, opiniões, sentimentos, desejos,... esta percepção, a meu ver, é a primeira de todas. E o trabalho interno, o mais importante. A coletividade é formada por todos e cada um. Trabalhando em si mesmo, o trabalho se estende automaticamente ao coletivo, sem pretensões de ensinar, liderar ou conduzir. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Jacobina, Bahia, norte da Chapada Diamantina

Verificação e ajustes, de acordo com o comportamento do motor.
A estrada do Capão tem 20 km de terra, buracos e poeira, antes de chegar a Palmeiras. A verificação da foto foi feita nos Campos, entre o Capão e Palmeira. Coisa de ajuste na cebolinha, que mede a pressão do óleo. Na madrugada, perdemos a entrada pra Cafarnaum e aumentamos a viagem nuns 70 km, por Irecê. Pelo menos as estradas eram boas, ao contrário da volta. Era sexta de noite.

A viagem a Jacobina foi iniciativa de Gaby Barbosa, exceção infiltrada na área jurídica, esse emaranhado intricado pros mortais comuns, historicamente montado pra servir aos poucos e conter os muitos. Chegamos de manhã, no sábado, à tarde fomos até a mineração de ouro que domina o lugar, como a Vale domina o Rio Doce e com a Samarco domina vários municípios no alto do vale. Lembrei da devastação planetária que vi por lá, com total conivência de prefeituras, câmaras legislativas e governos, tanto estadual quanto federal. Ditadura mega-empresarial, liderada por banqueiros. Sinistro de dar calafrios.

Mentiras - o objetivo, a qualquer custo, são os altos lucros.
As histórias que ouvi são muitas. Duas vezes por mês sai um avião carregado de ouro. A cidade sofre uma operação gigante, todo o percurso do ouro é vedado à população. Os empregados da mineradora ficam trancados num galpão pra não verem nada, enquanto o ouro é retirado. Uma vez, carregado demais, o avião caiu e em instantes a área estava isolada pela segurança armada com um círculo de segurança feito pela polícia local - que tampouco teve acesso às proximidades. A sujeição do "poder público" é óbvia ao poder econômico privado, as mega-empresas têm prefeitos, legisladores, governadores em seu bolso. A hipocrisia prevalece em todas as comunicações, tanto da empresa quanto das "autoridades", quando se dirigem à população. Os subterrâneos são podres. Há notícias de cemitérios clandestinos, com corpos de funcionários mortos por doenças pulmonares, como salitrose - ou coisa parecida, areia que endurece o pulmão e impede a respiração. Ao se sentirem ameaçadas em seus poderes ou ganhos, as mineradoras se tornam monstruosas, a população local que o diga. Ainda na instalação da empresa, foram expulsos todos os moradores do vale seguinte à exploração do ouro. Depois, com a organização pra se defenderem,            
As marcas das expulsões permanecem na frente da represa de rejeitos.
começou o terrorismo institucional e empresarial contra os moradores que resistiam. Uma velha e conhecida história de crimes contra a humanidade cometidos por essas mega-empresas, com a conivência e a cumplicidade dos poderes falsamente públicos. O cenário lembra a promessa de devastação que começou em Mariana e atingiu todo o vale, até o mar em Regência, onde continua a empestear há mais de ano.

O aspecto sinistro emana nocividade.
Andamos por ali sentindo a freqüência no ar, peso de crime organizado de alta máfia, senhores de vidas e patrimônios, sorridentes bandidos que espalham migalhas angariando a simpatia dos ignorantes. Procedimentos padrão, há séculos, que estão sendo denunciados cada vez mais, na busca de esclarecimentos sobre os bastidores sociais e empresariais mancomunados contra os povos. O padrão é mundial, como o domínio sobre os Estados.

A informação, a instrução, a consciência das pessoas é o terror desses criminosos que têm as leis nas mãos pra barbarizarem como querem, em busca das riquezas que serviriam de sobra pra acabar com a miséria, a ignorância, o abandono, o sofrimento pela omissão do Estado no cumprimento da sua constituição. Todos os movimentos coletivos que se põem a esclarecer a população, conscientizando da destruição dos mananciais e da natureza já tão sacrificada, são alvo de discriminação, difamação e perseguição.

Ainda no sábado, fomos a um evento onde conhecemos o trabalho de Joan Sodré, um Raul Seixas jacobinense, com presença de palco, ótimo som, cantou músicas do próprio Raul e também dele mesmo. E, devo dizer, com a mesma qualidade do Raulzito em suas letras e músicas.

Levando os painéis de exposição
A exposição foi domingo, na praça do CEU, com exibição do documentário Observar e Absorver e palestra. Creio ter tido bastante proveito. E as vendas compensaram bem o deslocamento. Bons plantios em terra fértil.

Chegando...


Levando mais painéis.

No final do encontro, a foto da saída. Atrás, Celestina espera já carregada, pronta pra partir.

Claratendimento direto.

Mostrando e explicando o trabalho.
 O filme rolou dentro do auditório, a exposição e as falas foram fora. Falei e respondi perguntas até acabar o tempo e mandarem parar.
Levi na fita.


Teve gente de esquerda e de direita, anarquistas e não alinhados em nenhuma ideologia definida. Todos de boa vontade, pelo menos naquele momento, os olhos eram bons e emanavam bons sentimentos. O entendimento rola melhor quando é assim.
Com Gilson Pereira, dom Quixote da moralidade em Jacobina
 Saímos na segunda à tarde da casa de Beto e Gaby, depois de várias boas conversas e com o som de Joan Sodré no violão, ali na cozinha, tomando café com a gente. Gilson também apareceu por lá, na sua hora de almoço que foi esticada ao máximo. Estavam Levi e Bianca - várias fotos são deles. A despedida foi entre corações. Gente que tem como objetivo a harmonia e não a vitória, a solidariedade e não a competição. Exceções ás regras sociais da mediocridade, do egoísmo e da vaidade. Todos parecem saber que vencer na vida é, na verdade, perder a vida com superficialidades, com formas sem conteúdo, com angústias e frustrações.

Levi, Cândida, Bianca, Eduardo, Clara, Gaby e Beto, na despedida de Jacobina.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Mídia e Estado canalhas

Há quem se espante com a canalhice da mídia. Mas ela foi criada canalha, com a expansão de um jornalzinho na forma de rede nacional de televisão, com centenas de repetidoras pelo país, de tv e rádio, sem falar nas publicações escritas. Foi desenvolvida ilegalmente com a tecnologia e a grana da Time-Life estadunidense, a partir do golpe de 1964, pra servir aos interesses das corporações estadunidenses, subalternizando a mentalidade da população aos valores estadunidenses, levando à idolatria do império das corporações que nos assola desde a segunda guerra, onde foi subalternizado o exército brasileiro ao estadunidense, com a deformação ideológica da oficialidade na Escola das Américas, no Panamá mas estadunidense, incutida de um anti-comunismo obsessivo e ignorante - o pânico e o ódio dos exploradores de pessoas e recursos na construção de riquezas privadas.
Não são casos episódicos, é a natureza da mídia, desde sua criação. O controle das comunicações é estratégico na dominação do país, no saque permanente com a cumplicidade das elites locais, sempre traidoras do seu próprio povo e nação, que desprezam, enquanto bajulam e admiram os saqueadores, exploradores e opressores estrangeiros, punhado de parasitas sociais que infernizam o mundo com seus mega-poderes.
"O comunismo vai acabar com o mundo!", gritam os que estão acabando com o mundo. Hoje, "comunista" é o insulto contra qualquer um que tenha preocupações humanitárias, que deseje menos injustiça social, que se preocupe com a população sabotada em seus direitos humanos, básicos, fundamentais e CONSTITUCIONAIS.
Um Estado seqüestrado pelo poder econômico de um punhado de podres de ricos, que não cumpre sua própria constituição, é uma organização criminosa simulando poder público, encenando uma farsa chamada de "democracia", mas que não passa de uma ditadura banqueiro-empresarial da qual a mídia é porta-voz e encarniçada defensora. Não é à toa a destruição do ensino público, a sabotagem da educação. É o impedimento da instrução, da formação de senso crítico e de consciência.
Perceber a mídia como ela é - e sempre foi - é um passo fundamental pra se começar a ver a realidade como ela é, ao contrário do que a mídia mostra. Isso aqui tá muito longe de ser uma democracia. Instituições ditas "democráticas" estão tomadas, infiltradas, dominadas pelos interesses parasitas mundiais, através e com a cumplicidade comprada das elites locais - e governantes, legisladores e juristas patrocinados.
Em vez de se lamentar, se revoltar, se decepcionar, desistir, se deprimir, é preciso se ligar, mudar de atitude, de desejos, de objetivos, de visão de mundo, de comportamento. Então, mudam as formas de relacionamento, mudam os sentimentos em viver, muda o mundo, no seu ritmo. E se ganha sentido.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Na cara de todo mundo...

Tô vendo o nível do descaramento, esperando a "inteligentzia" brasileira se ligar no que acontece e sair da superfície. As instituições não funcionam pelo povo, mas contra ele. Os governantes seguem as ordens dos mega interesses estrangeiros e desmantelam a sociedade, ponto a ponto, amarrando e amordaçando a população nas instituições falsamente "democráticas". O país está claramente em caos, o setor público sendo saqueado, direitos parcos e conseguidos com muito sacrifício de muitíssima gente sendo destruídos no focinho de todo mundo. Tô esperando os instruídos, os investidos em cargos, os honestos, bem intencionados que têm legitimado as "instituições democráticas" tentando inutilmente mudar suas atuações anti-democráticas, se manifestarem publicamente e fecharem com os trabalhadores da base, os periféricos, os informais, os encanadores, faxineiros, ajudantes de pedreiro, diaristas, gente que convive e supera cotidianamente dificuldades e obstáculos, desprezo e exploração. Aí começa um movimento avassalador, invertendo a vassalagem, a submissão e a opressão pra liberdade.
Quanto mais será preciso pros bem intencionados dons quixotes da institucionalidade - uns poucos entre pulhas - assumirem a realidade? Os mais fortes são mantidos na ignorância e na desinformação, no controle mental e no policial. Pessoas em condições degradantes, sem direitos humanos - e constitucionais - respeitados, com todo potencial a ser desenvolvido na formação de uma sociedade menos injusta e desarmônica. Populações inconscientes da sua própria força e capacidade de superação.
Multidões convencidas de uma inferioridade e uma impotência falsas, impedidas no desenvolvimento humano integral que lhes é de direito, na formação criminosa das legiões mais indispensáveis ao funcionamento de toda a sociedade - os trabalhadores braçais, a chamada "mão de obra de baixa qualificação".
Informar e instruir os que tiveram esses direitos negados é uma obrigação social, não caridade ou ajuda. É interesse de todos os que desejam uma sociedade menos injusta, sem miséria, ignorância e abandono - por conseqüência, com baixíssimos índice de violência e criminalidade. Investir em repressão e encarceramento seria uma estupidez, se o objetivo fosse a harmonia social. Seria necessário investir na população, além de acabar com o controle das comunicações por empresários e torná-las de fato públicas. Servir de instrução não enquadradora e de informações verdadeiras a todos é uma necessidade social pra harmonizar as relações sociais. Em verdade teria que ser um programa de Estado, no resgate das vítimas de crimes sociais, roubados por gerações em seus direitos humanos.
Mas a harmonia social está longe de ser o interesse de quem controla a sociedade, dos seus bastidores, escondidos dos holofotes da mídia. Ao contrário, a instrução, a informação, a união, a solidariedade e a consciência da grande maioria é seu terror. Eles cairiam sozinhos das costas dos povos, sem precisar ninguém derrubar, porque são fracos e dependem dos mais pobres todo o tempo, pra tudo. Fácil entender os porquês das estratégias desumanas, do controle midiático, da destruição da educação, da criminalização e perseguição da resistência, do controle da farsa política.
Autonomia é o desenvolvimento a se levar adiante. A pulverização impossibilita a concentração e o controle. Autonomia mental, pra começo de serviço, já é o alicerce necessário. A limpeza nos próprios condicionamentos, valores, visões de mundo, desejos, objetivos de vida, comportamentos e formas de relacionamento com as pessoas, com o mundo e com os acontecimentos. Aí está a chave de ignição da tomada de controle sobre a própria vida. Dentro de si em primeiro lugar, no coletivo por conseqüência.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Vale do Capão


No Capão eu tô produzindo originais, nada acabado ainda. Se não sair com tudo pronto, termino depois, porque várias coisas estarão começadas - um livrinho da editora Faisamão, "Reflexões", e um desenho a nankim da imagem que só fiz em pinturas, um "cabeça de fósforo".
Eu me deleito com a imagem no retrovisor.

A viagem não teve sobressaltos, a não ser no pedaço de terra, sem sobre mas com muitos saltos, buraqueira incontornável. A poeira, finíssima em alguns pontos, levanta como fumaça densa, mesmo na mais baixa velocidade. Parece talco cor de terra.

Roquenrou se comporta melhor na kombi que fora dela, quando revela sua criancice aos pulos, de orelhas em pé pra qualquer coisa que se mova - assusta pelo tamanho e pela cara de lobo, apesar de ser inofensivo. Qualquer cachorra velha mau humorada bora ele pra correr. Mas quando ela desiste diante da velocidade dele, ele faz a volta e vem provocar de novo. Ela ataca outra vez e ele foge e volta. Até que eu o faço respeitar os mais velhos, chamando pra perto de mim. Ele não insiste. No bar do Capão ele foi imprudente e uma dessas tascou-lhe um arranhão que só foi superficial porque ele se deu conta a tempo. Dessa vez, não precisei chamar, ele veio e ficou sentadinho perto, olhando pro grupo de cães comandado pela matriarca idosa.

Saindo pra passear o Roque - ele precisa - vimos o por do sol demorar no Morro Branco, marca registrada do Capão. No caminho, a pixação surpreendeu, com o anagrama do observar e absorver num muro, bem diferente do original. A essência deve ter sido entendida, mas a forma não tava bem assimilada. Embaixo, a explicação da viagem: bateu.
O por do sol demora no Morro Branco.
A reprodução do anagrama tá diferente, mas a explicação tá embaixo. Erva de qualidade.

Na praça da vila, nuvens coloridas na despedida do dia.

Isso que parece uma estrada é o leito seco do principal rio do Vale do Capão, o rio Preto baiano. Água tá escassa e chuvas são esperadas com expectativas, pelos moradores e visitantes. Basta uma chuvada pra lavar a poeira e acentuar os verdes. Mas não é suficiente pra encher os rios, represas e cachoeiras.
Roquenrou não se esconde pra se aliviar.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Rio Doce precisa de quelação urgente - ou Atenção Rio Doce: COENTRO!!

Eu não conhecia quelação, não sabia que existia, não lembro de já ter ouvido essa palavra. O mais perto que já ouvi foi quelóide, essas cicatrizes inchadas que se vê por aí. Hoje me caiu essa palavra e junto com ela a importância. Quelação é a ação de elementos quelantes que retiram metais pesados do corpo humano.

A região inteira do rio Doce, os mais de oitocentos quilômetros do maior vale do sudeste, foi transformada no maior depósito de metais pesados a céu aberto do mundo, emanando metais pra todo lado. O mar do Espírito Santo, da Bahia, do Rio de Janeiro, pouco a pouco mas sem parar, recebe pela foz do rio toneladas de resíduos da mineração, permanentemente, a cada segundo, desde novembro de 2015. O oceano está contaminado em vastas áreas e lentamente o fundo vai sendo recoberto com essa lama tóxica, que afunda a uma certa distância e segue cobrindo algas, pedras e areia. Os peixes se contaminam e são pescados - a indústria da pesca não pode parar - vão pras mesas e são comidos. Não é minha intenção apavorar ninguém com este cenário apocalíptico, mas é o que eu tô vendo. Do outro lado do mundo, Fukushima despeja radioatividade no oceano Pacífico há anos. Bom, mas isso nem vem ao caso agora.

Todo mundo que mora na região do rio Doce, e subindo pelo rio do Carmo e Gualaxo do Norte, está contaminado de metais pesados. Não tem escapatória, uns mais, outros menos, mas todos, gente, bicho, planta. Em Barra Longa, já na época do desastre, vimos a poeira subir por toda cidade, depois de cair vazando dos caminhões que a retiravam das tuas e praças à beira rio e passavam pelo centro e secar ao sol. Os mais pobres ribeirinhos não tem outro recurso que usar a água dos poços, pra não morrer seco - estes não contam com o Estado nem com ninguém, apesar dos esforços pontuais. Pesquise-se sobre as doenças que surgiram, que aumentaram, que estão lotando os precários postos de saúde pública, e se constatará a situação alarmante de que não se fala na mídia, no Estado, no mercado financeiro-mega-empresarial. Sem falar no êxodo em curso, quem pode está deixando a região, mudando pra outras plagas menos infestadas.

No quadro catastrófico, a quelação surge como uma necessidade. É preciso estabelecer formas de retirada de metais pesados dos corpos. E um vegetal cheio de elementos quelantes é o - pasmei quando li - coentro. O vale do rio Doce precisa se tornar uma gigantesca plantação de coentro, é preciso enfiar coentro goela abaixo até dos cachorros. A tragédia do rio Doce está no percurso, as conseqüências estouram em todo lado, a todo momento, o tempo todo, desde o estouro da barragem dos venenos mortais. A realidade em toda região se tornou tenebrosa. E as pessoas continuam vivendo, sem entender bem o que acontece, consciências entorpecidas ou maltratadas demais.

Peguei informações num saite cheio de publicidade, daí copiei e colei as receitas, creio que dá pra inventar mais um monte. Evito publicidade sempre que posso. E peguei de outros também, com informações a respeito do assunto. Simples e direto.

Esse informa sobre o que é quelação - http://zenholistico.blogspot.com.br/2012/05/desintoxicacao-e-quelacao.html

Instruções


  1. 1
    Consuma 1/4 de xícara de folhas e caules de coentro fresco picados diariamente por três semanas. Se consumir mais, isso não fará mal. Mastigue o coentro picado puro ou misture-o a sopas e saladas.
  2. 2
    Faça o molho pesto. Misture um dente de alho médio, meia xícara de qualquer castanha, 3/4 de xícara de coentro fresco, uma colher de sopa de suco de limão e cinco colheres de sopa de azeite de oliva. Tempere com sal marinho a gosto e sirva com seu prato de massa preferido.
  3. 3
    Tome algumas gotas de coentro para a quelação oral. A erva também está disponível na forma de extrato. Siga as instruções de seu médico ou da embalagem do produto.
  4. 4
    Realize a quelação intravenosa se quiser que um profissional oriente o processo. A quelação intravenosa de coentro envolve administrar uma mistura de ervas, incluindo o coentro como ingrediente principal, em sua corrente sanguínea.
Esse vídeo fala sobre as contaminações rotineira da vida por metais pesados, em pastas de dentes, placas de alumínio, tintas, vernizes e inúmeras outras formas de contaminação que não se percebe, no cotidiano. Aí se vê que todo mundo precisa, embora no rio Doce não há comparação, é nível de explodir os medidores, está acima da imaginação. https://www.youtube.com/watch?v=SeCtFzmuLXQ

O que é preciso é um prato de coentro de manhã, outro no almoço e outro no jantar. Terapia de massa pro vale do rio Doce e pro litoral da Bahia, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Por enquanto. Não é nem pra melhorar a qualidade de vida, é mais pra diminuir a deterioração, o sofrimento, manter as capacidades de ação.

Outros alimentos que também retiram metais pesados do corpo são a castanha do pará, a couve, alho, cebola, couve-flor, alga clhorella. (http://espacodosol.com/blog/?p=6843)


sábado, 28 de janeiro de 2017

Primeiros passos... chegando na Bahia.

Essa entrevista improvisada - a da postagem anterior - marcou a saída dessa tão cavada viagem que, da partida em diante foi só melhorando, sempre muito aos poucos e na tensão de experiências anteriores em anteriores viagens. Celestina, a kombi, estava pronta pra partir. Ouvido atento aos ruídos do motor, passamos na casa do Cláudio pra pegar os painéis de exposição e saímos do Rio dez e meia da noite. Contava com o frio na serra pra subida em marcha lenta e altas rotações, como refrescante pro motor. Com um terço da carga plena, já era um peso pro motor amaciando. Mas foi tranquilo, esquentou um pouco, paramos no alto da serra, olhei, tava quente mas tudo certo, pequeno vazamento de óleo, coisa da cebolinha velha, que tá ligada na pressão do óleo.
Parada pra dormir, em Minas ainda. Amanhece o dia.

Seguimos pelos vales e montanhas a noite toda, às oito e meia demos uma parada, dormi duas horas e seguimos. Era a região do vale do Rio Doce, Valadares e região em volta. Febre amarela é assunto, tá todo mundo vacinado aqui, diz o frentista do posto. Em outro posto, os caras se orgulham da água, essa é de nascente própria, água limpa, pura, aqui no posto mesmo. A televisão fala do surto localizando o centro em Teófilo Otoni. Mentira, dispersão, deslocam o centro pra fora do vale, ao norte do verdadeiro foco. No rio Doce, morreram todos os sapos e peixes, os predadores dos mosquitos, que comem suas larvas e mosquitos vivos aos milhares. Não se ouve mais nenhum sapo, mas sim as nuvens de mosquitos. As autoridades fingem que não acontece nada de grave, as conseqüências mais visíveis são tratadas sem se mencionar as causas, como um favor do Estado. As conseqüências menos visíveis as sofrem os invisíveis sociais. Se a gente quer saber alguma coisa, tem que saber perguntar - tá todo mundo sem foco, mas quando se fala nos metais pesados que mataram o vale, todos concordam. E se muda de assunto. A televisão não fala disso, não deve ser assim tão importante. Não se sabe o que são crimes sociais cometidos por um Estado corrompido pelo poder econômico, não se sabe o que a televisão não diz. Entre os maiores crimes sofridos pela sociedade está o controle das comunicações e as mentiras compulsivas, repetidas, distorcendo, ocultando, difamando, apresentando falsidades científicas.

Entramos na Bahia, a paisagem vinha se modificando pouco a pouco, agora era a beleza grandiosa do sertão nordestino se apresentando aos poucos. Passamos Jequié, entramos na direção de Santo Antônio de Jesus, cruzamos uns quilômetros da rodovia litorânea, fomos pra ilha de Itaparica e chegamos em Salvador de barco. Eu tava sem máquina, mas o Adro registrou um momento dessa travessia que queimou todo mundo de sol.
Na embarcação, todos no convés, até o Roquenrou, que não aparece na foto.


No dia seguinte, fomos atrás da tal cebolinha, em São Cristóvão, bairro periférico entre Itapuã e o aeroporto, cheio de lojas de produtos automotivos, mecânicas e atividades ligadas - coincidência, no Rio também São Cristóvão tem uma área grande na mesma linha. Aliás, né São Cristóvão o padroeiro dos motoristas? Chegamos lá no momento exato em que um grupo de pessoas periféricas bloqueava uma das pistas, com madeiras, pneus e fogo. Parei a kombi do lado, atravessei a rua, achei a peça em duas lojas, comprei a mais barata e fui à manifestação. Um adolescente havia sido morto numa operação policial, estudante, trabalhador. Lágrimas, sofrimento, menino bom, amoroso, apegado à família. A mãe não chorava. Em seus olhos havia ódio. Outra menina gritava que o irmão foi preso baleado e não se dava notícia dele, essa chorava entre os gritos. O Estado contra o povo, as instituições desumanizadas, é a mesma coisa em toda parte. As periferias fornecem mão de obra e recebem exploração, sabotagem, violência e morte.

Primeiro uma pista, depois as duas foram ocupadas.


A ira justa, sociedade criminosa.










Partimos pra Feira de Santana, dois dias depois de chegar em Salvador - não fomos nem à praia. Num centro cultural, Pé de Alegria, Aline Cerqueira armou um encontro, um papo, uma exposição pras coisas que faço, e lá fomos nós. Chegamos cedo, arrumamos desenhos, livrinhos, fanzines, quadrinhos, depois vi Clara abrindo camisas - vieram poucas, nem lembrei delas. A conversa rolou solta, mais de duas horas, e as participações no final coroaram o encontro, até que deu o tempo e tivemos que parar, estava ficando tarde e os ônibus iriam acabar. Dali fomos pra Feira Seis (VI), bairro universitário perto da UEFS, onde fiz uma palestra no ano passado. E fomos os últimos a sair do boteco. Vinícius nos convidou pra dormir na casa de Igor - pode parecer estranho, mas foi isso mesmo - e saímos de lá no dia seguinte, pelo final da manhã. 
Entrevista antes...

...palestra depois, no Pé de Alegria.

Pegamos a estrada do feijão, vimos o sol se por antes de chegar na estrada de terra que leva ao Capão, a partir de Palmeiras. 
Roquenrou olha o fim de tarde se aproximando.
 Seguimos viagem, chegamos à noite no Vale. Fim de semana em exposição, vamos a Lençóis pra isso. E lá arrumamos a base pra começar os trabalhos novos que esperam pra serem feitos.
Parada na estrada do feijão, durante o por do sol.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.