domingo, 3 de setembro de 2017

Via Celestina - documentário

O Hare me pediu pra publicar o vídeo que fizemos na função de arrumar uma grana pra comprar parte do material de trabalho que vai bancar a viagem e o filme. Não entendo a diferença, pois já tinha publicado o link da página dele, mas tá bueno, vamo lá. Aproveito pra explicar umas coisinhas.
Essa grana, cinco paus, vai servir pra comprar um microfone de por na roupa, por exemplo, o que já leva boa parte. Camisetas que vão ser impressas com os meus desenhos e vendidas nas exposições por Camila e Hare, pra render e pagar despesas de viagem. Ou seja, vai ser investida em dois trabalhos, no mínimo: as camisetas, que vão servir por aí, algumas provocando reflexões, pensamentos, sentimentos, estimulando contatos que se tornam relações construtivas, às vezes, pelo que já vi acontecer; e os vídeos, que vão compor o documentário e levarão o mesmo conteúdo de outra forma, áudio-visual como são os tempos de agora, com possibilidade de muito maior alcance. Os acontecimentos de viagem, muitas vezes, trazem oportunidades de reflexão e percepção, quando se tem olhos de ver, disposição interna. As lições estão em todo lado, cabe a cada um perceber as suas.
Durante mais de trinta anos eu fiz artesanato pra sobreviver. Logo que pude passei a colocar pensamentos, minha maneira de ver e pensar o mundo no meu trabalho. Vivendo das ruas, em exposição ou no mangueio* - a maior parte do tempo -, sob descrédito geral, o crédito era exceção. Desconfiança, preconceito, provocações, agressões gratuitas, abordagens policiais, assédio das guardas municipais se tornaram parte do cotidiano. Não me importava mais que o incômodo direto, o desvio do caminho ou pior, a perda dos trabalhos pra apreensão. Não era caso de revolta, eu via como da natureza social aquela perda. Não me enquadrava nas categorias que mereciam respeito, não entregara minha vida à mediocridade "normal" e imposta, era natural que a sociedade me atacasse. Eu tinha é que tomar mais cuidado, me antecipar às apreensões, arrumar rotas de fuga, ficar esperto. Em trinta anos, dá pra contar nos dedos as apreensões. É sempre uma sensação estranha, a da injustiça, mas era como a confirmação das minhas escolhas, de que estava no caminho certo pra mim. É uma sociedade mesmo injusta.
O descrédito e a desconfiança, rotineiros também, não me diziam nada. Eram mentalidades convencionais exercendo seus condicionamentos, visões superficiais e induzidas, em constrangedoras demonstrações das mentalidades enquadradas pelo sistema social alienante e condicionador, que induz à intolerância, ao preconceito, à discriminação de tudo que não se enquadra na "normalidade" imposta como padrão. Não é à toa que as coisas são como são e que se aceita miséria, ignorância e abandono como inevitáveis. Também é da natureza social pensamentos que me suponham as piores coisas.
Aprendi que o respeito alheio é muito bom, mas não pode ser necessário. O único respeito que não posso abrir mão é o meu próprio. Com isso, procuro ser inofendível. Qualquer opinião a meu respeito é direito de quem a tem, aliás direito e responsabilidade. Eu não gosto de formar opinião errada, por isso demoro a tirar alguma conclusão. Mas há quem tenha o vício de julgar e condenar, de supor intenções ocultas, geralmente no sentido interesseiro, mau caráter, apegado aos valores vigentes, grana, ganhar sempre, mesmo com traições, mentiras e enganos. Gente que age como determina a ideologia dominante, incapaz de discernir a sinceridade da falsidade. A arrogância de julgar anula o discernimento. Em alguns casos, muitos, as pessoas julgam por si mesmas, por seu próprio caráter, com base nos próprios valores e comportamentos. Aí o insulto diz muito mais do insultador do que do insultado. E o insultado não precisa se ofender, nem se alterar. A cabeça e o coração dão uma ginga e o insulto cai no vazio.
Uma vez eu estava expondo em Santa Teresa, parou um sujeito bem vestido, olhando atentamente os desenhos. Não interferi, fiquei quieto até que ele me olhou, apontando, e perguntou, "serigrafias?" Confirmei e ele, "quem faz os desenhos?" "Sou eu" e ele pareceu surpreso, mas se aproximou, "você numera no verso?" Ele entendia do assunto e ficou confuso quando respondi simplesmente "não". "Como assim?" Olhei pra ele e a expressão deixara por um instante de parecer arrogante e mostrava dúvida. Então respondi sorrindo, "eu não numero". De dúvida passou um instante de espanto, "não numera?" e daí pra indignação quando confirmei, "não". "Então 'isso' não tem nenhum valor no mercado de arte!" Sorri de novo, "é verdade, não tem nenhum valor no mercado de arte", olhando tranqüilamente nos olhos dele. Novamente ele expôs um instante de dúvida na fisionomia, talvez sentindo que havia alguma coisa que ele não estava percebendo. Aí eu expliquei, "eu faço arte é pra qualquer um, não pro mercado de arte. Não me interessam as qualificações do mercado e é natural que ele me desconsidere. Não me importo com isso. Não dou valor ao mercado de arte porque arte pra mim não é mercadoria, mas um meio de comunicação." A expressão facial foi passando da incredulidade pra revolta e daí pro absoluto desprezo. Virou, sem dizer nada além de um som interno, "hm", e foi embora com ostensivo nojo. Olhei ele virando a esquina do cinema, falando com todo o movimento corporal, e achei graça. Depois fiquei pensando que arte pra mim é mercadoria sim, pois é o que eu vendo pra viver. E é também meu veículo de comunicação pra falar com o mundo o que me engasga se eu não falar. Não tenho o foco na arte pela arte, meu foco é dizer o que vejo, penso e sinto. Minhas artes são mais reflexões que artes, mas isso já é outro papo.
Voltando ao assunto, venho de uma caminhada longa, acostumado com as piores opiniões a meu respeito - de quem não me conhece. Acostumado e imune. Um dia começaram a chegar câmeras e filmar eu falando. Não tinha idéia do que aconteceria, nunca pensei em visibilidade nem tive fama como objetivo. Já estava satisfeito fazendo meu trabalho e vendo que pessoas davam proveito, refletiam, questionavam, assimilavam o que eu tava dizendo. Isso já bastava, era o sentido que eu procurava na vida, apesar das escassezes materiais que de vez em quando aconteciam. E que nem pesavam tanto assim. Mas aí comecei a ter a cara conhecida além do que imaginava, a ser chamado pra falar nas mais diversas coletividades, mais ou menos a mesma coisa que falo cotidianamente, no meu trabalho e em toda parte onde andei e ando, onde expus e exponho, sem pretensões além de ter satisfação de verdade na vida - já que o que se apresenta pela sociedade como satisfações não me satisfaz nem de longe, ao contrário, mais fácil me constranger. Não que me dê o direito de julgar quem pensa, vê e quer diferente de mim, cada um com suas escolhas e suas conseqüências. "O plantio é livre, mas a colheita é obrigatória". Colho o que planto, então procuro cuidar do que estou plantando com minhas atitudes e escolhas. Não posso me incomodar com opiniões que me criminalizam, desqualificam ou desacreditam.
Eu me preocupo com o que sou tendo como referência minha própria consciência, ainda que a saiba precária e em desenvolvimento. É aprender com os próprios erros e, se possivel, com os erros alheios também - sem direito a interferências indevidas. E vamos adiante. O que se pensa e diz a nosso respeito não nos transforma nem no que se pensa, nem no que se diz. Não posso levar em conta, a não ser pra determinar de quem me aproximar e de quem me afastar, não muito mais que isso.

* Mangueio era o contato direto, a abordagem às pessoas pra arrancar o sustento. Por exemplo, ir de mesa em mesa, bar em bar, restaurantes, em praias, praças e ruas, em qualquer lugar, oferecendo o artesanato, com licença, boa noite, oi, tudo bem, quer dar uma olhadinha, quer ver um artesanato reflexivo, dá uma olhada, interrompendo conversas ou silêncios, encontrando todo tipo de reação, cotidianamente. Até a adolescência dos meus filhos, o mangueio foi a base da sobrevivência. E quantas vivências...


21 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. OLA ADOREI O TRABALHO DE VCS E ACHEI MUITO MASSA AS PALESTRAS DO EDUARDO.
    QUERIA ESTUDAR A PASSIBILIDADE DE TRAZER O EDUARDO AKI NA MINHA CIDADE ATRAVÉS DE UM PROJETO SOCIAL.
    SE POSSÍVEL PODERIAM ME MANDAR O CONTATO DE VCS NÃO ACHEI NO BLOG, DEIXO AKI MEU EMIL E TELEFONE

    RonneEduardo@hotmail.com
    tel (32)999860471

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    1. Há um endereço pra contato no cabeçário do blogue.

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  3. Esse documentário vai sair pelo youtube?

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  4. vai edu espalaha a reflexao ai quem sabe nao entra na educacao national um dia
    beijos boa viagem
    bons ventos
    se quizer vir
    mi casa tu casa

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  5. Colabora com a vaquinha com um porem...

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Tem dois dia que descobri o Eduardo Marinho, e desde então fui invadida por uma onda dr reflexão. Como alguns rapazes dizem no documentário, você consegue descrever com simplicidade e clareza tudo que venho sentido. Adorei muito, lhe desejo muito luz. Adoraria receber mais concelhos.

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  8. Já fiz minha contribuição. Boa viagem pessoal!

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  9. Olá, fiz uma contribuição, ontem e ontem mesmo me ligaram da agência dizendo que não estavam conseguindo processar o depósito pois a conta em questão já tinha atingido a movimentação máxima mensal de 3000 reais, já atingiram o valor que precisavam?

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  10. Muito obrigada por compartilhar sua análise da realidade.

    É apurada, resultado de um trabalho frequente de observar e absorver - você realmente pratica.

    Eu tenho feito algumas mudanças imporantes na minha vida, após entrar em contato com sua mensagem também.

    Estou adotando novas práticas. Experimentando, libertando-se da norma.


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  11. Oi Eduardo, tudo bem? Meu nome é Giovanna e moro em Diadema, São Paulo. Preciso que vc peça ao Hare Brasil para me mandar o tipo, modelo e todas as especificações do microfone que será utilizado no documentário, que eu comprarei essa semana. Na semana que vem vou entregar pessoalmente pra vc e pro Hare aí no RJ. Se vocês aceitarem, é claro. Aguardo seu retorno. Abraços, Giovanna Clara.

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  12. Para envio das informações meu e-mail é: gcftamani@gmail.com.

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  13. Ola Eduardo ! Vcs ja tem as cidades que vão passar pelo Rio Grande do Sul ? Abraço

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  14. Fala Edu! Show de bola! Vou apoiar o projeto!
    Publica esse videozinho no youtube também e compartilha na sua timeline. Você compatilhou o link para o brógui mas se aparecer o video direto alcança mais pessoas, eu acho. Grande abraço. Gustavo

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  15. Fala Edu! Show de bola! Vou apoiar o projeto!
    Publica esse videozinho no youtube também e compartilha na sua timeline. Você compatilhou o link para o brógui mas se aparecer o video direto alcança mais pessoas, eu acho. Grande abraço. Gustavo

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  16. Boa tarde, Eduardo. Eu venho acompanhando seu trabalho e mostro ele a todas as pessoas que tem esse olhar.
    Além do deposito em conta, vc poderia vender as camisetas para as pessoas da internet que gostam do projeto, assim o vinculo seria maior. Tenho muita vontade de te conhecer e pedir um abraço a você. Obrigado Edmir Marinho.

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  17. Olá Eduardo, admiro muito teu trampo e gostaria muito de contribuir... queria saber se qualquer valor é bem vindo ou tem uma taxa mínima? Aguardo resposta pra saber mais ou menos com quanto eu poderia colaborar, abraços valeu!

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  18. Salve Eduardo ! Sobre o documentário , quando e onde você passará por São Paulo ?? Abraço !!

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  19. Caro Eduardo. Tenho seguido com muita atenção e muito gosto os teus testemunhos e inclusivamente assisti a documentários sugeridos por ti como o 'century of the self'. Queria também dizer-te que tenho visto muita gente a partilhar os teus videos em Portugal. Gostaria de dar uma pequena contribuição mas iria perguntar se é possível publicarem aqui o IBAN, o código da conta para transações internacionais. Um abraço e bom trabalho. Pedro Machado

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