domingo, 26 de dezembro de 2010

Entendendo a “estranheza”

É preciso que as pessoas educadas
vivam junto aos mais pobres, é
preciso ensinar aos oprimidos
a não colaborarem com os
opressores - Mohandas Gandhi



Vi serem divididas comigo, quando andei no nível da mendicância, refeições paupérrimas. Fui abrigado no cantinho do casebre, dormi em capim fresco improvisado, sobre o chão batido. Ou pendurado nos caibros, em redes. Sob o teto precário de ruínas, casas abandonadas, construções, compartilhei comidas preparadas em latas quadradas de óleo, em fogueiras improvisadas. Em cidades, nos acostamentos e postos nas estradas. Fui hospedado em palafitas onde se ouve o barulho da merda batendo na água, quando se usa a “casinha”. Vi a parte abandonada dessa nossa humanidade, a parte enxotada dos benefícios da sociedade, escorraçada, roubada e ainda perseguida. E vi brotar na lama fétida, sobre a qual se construiu a estrutura social, o lírio lindo e perfumado da solidariedade, da generosidade, do altruísmo inacreditável que as dores implacáveis despertam. Eu não estava ali sofrendo por mim. Por mim, eu estava aprendendo avidamente, observando as vivências, ainda sem entender, mas sentindo, profundamente, o que nunca havia sentido. Sentindo o sentimento das pessoas, o sentimento dos lugares, o sentimento do mundo e da humanidade à qual pertenço. Absorvia os códigos, os valores, as fragilidades, os saberes e as sabedorias. Aprendi a admirar o heroísmo dos desprezados, aprendi a distingüir seu caráter, a individualizá-los. Reconheci enormes riquezas sob a capa da miséria. Sofri com as injustiças que nem os próprios miseráveis percebiam, embora as sofressem – e aprendi que era melhor esconder meu sofrimento. Os irmãos sacaneados são acusados por sua própria desgraça. As causas se esfumaçam no ar, com o controle do ensino e das comunicações, com o trabalho competente de publicitários, artistas, jornalistas, entre tantas profissões utilizadas contra a maioria, os povos, em favor de poucos.

Deve ser por isso que me causa tanto desconforto o uso, a presença, a proximidade ou a simples visão do luxo, da ostentação, de privilégios. Áreas privadas, seguranças, nobrezas, refinamentos, sofisticações, tudo passou a me parecer uma pantomima ridícula, primitiva, disfarces esfarrapados da nossa desumanidade, da indiferença que somos capazes, em nossa sede de privilégios e superioridades que denunciam a real inferioridade de espírito. Eu disse que me causa incômodo, não raiva. Meus sentimentos têm origem nas situações, não nas pessoas. Essas me causam uma certa tristeza, por inconscientes, por infantis, por superficiais, por iludidas.

Meu desconforto é moral, humano, pela ligação do luxo à miséria, pela inevitável relação do privilégio com a carência. Um sentimento que não se transfere às pessoas, mas às mentalidades, que não procura culpa, mas responsabilidades, nesta sociedade de miséria material e moral. Não é à toa a falta de sentido na vida da esmagadora maioria. Só os mais grosseiros podem se satisfazer com a abastança, com o usufruto, com o consumo. A insatisfação é clara.

Não espero encontrar meus sentimentos, pensamentos e opiniões em outras pessoas – embora, de raro em raro, aconteça. Se me desse ao trabalho e à arrogância de condenar valores e comportamentos dos quais discordo, viveria em conflitos pessoais, alimentaria sentimentos nocivos e desagradáveis e não teria tempo, nem espírito, para fazer os trabalhos que gosto e dão sentido à minha vida.

Não posso recomendar, nem pretendo voltar às situações de miséria material – onde, na verdade, nunca me senti, apesar dos anos e anos nestas situações. Mas não consigo ver valor no luxo, no excesso material, na ostentação e no desperdício. A ligação do valor material ao valor pessoal é de um primitivismo constrangedor. Expressões de insensibilidade, de sub-humanidade.

Fui considerado um cara estranho, incômodo ou simplesmente um chato, principalmente dos 15 aos 19 anos, no meio social de classe média-alta, onde nasci e vivi. Muitas vezes pensei que eu deveria ter alguma coisa errada, por ter vergonha do que os demais ostentavam com orgulho. Por questionar sentimentos de superioridade e tratamentos grosseiros contra serviçais e pobres em geral. Eu causava estranheza e me sentia estranho. Hoje, posso entender tranqüilamente e me dar razão, na minha pouca idade, com a vivência que hoje completa o 50º ano desse curso de vida. Entendo e me congratulo comigo mesmo quando, aos 19, depois de ter sido militar, bancário, estudante, mergulhador, vendedor, entre outras coisas, decidi “dedicar minha vida a refletir e causar reflexão, questionar valores vigentes e desenvolver meus próprios valores”, numa sociedade em que se fabricam, se impõem e se repetem pensamentos de laboratórios, para que ela seja como é. E saí pelo mundo, para experimentar o que era não ter nada e procurar o sentido de uma vida que, até então, não me parecia ter nenhum sentido. Mochila murcha nas costas, sem dinheiro nem paradeiro, sem parentes além da humanidade inteira.



Niterói, 26 de dezembro de 2010                                                                                   Eduardo Marinho

26 comentários:

  1. Eduardo Hj é seu aniversário!! Parabéns!!!
    Muitas felicidades eu espero que todos nós encontremos um sentido para as nossas vidas através da valorização das questões espirituais.
    Mais uma coisa : Tenho sorte de ser sua parente..rsss

    Bjsss

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  2. Isso devia ser um imeio. Nem parece comentário ao texto. rsrs
    O endereço tá no cabeçário do blogue, parente.

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  3. É seu aniversário? Parabens !
    E agradecida pelo que voce traz à reflexão.
    Interessante, conheço quatro nascidos neste dia tão absolutamente diferentes...

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  4. Obrigada querido.
    Muito obrigada.
    Se é aniversário mesmo,desejo muitas coisas boas.

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  5. Seu aniversário hoje? Que legal! Parabééns!!!!! Sei que você (assim como eu) não prega ao luxo.. mas ve se come um pedaço de bolo bem gostoso hoje viu? Você merece, pode acreditar! hehe.. adoro teus textos pq me tras paz em ver que não sou a única pessoa que se sente MAL.. em ter TANTA coisa boa.. comparada aos mts por ai a fora.. q lutam dia a dia pra conseguir as vzes só um pãozinho pra comer...
    eu agradeço todos os dias por tudo que tenho, posso dizer que tenho tudo pra ser feliz, mas me peguei na depressão.. pelo mundo que está.. ou seja.. bens materiais não dizem mta coisa.. oq vale.. e o grau de humildade, paz interior.. e espiritualidade de cada um.. isso que vale!!!

    Continue com esse trabalho lindo, beijos, andressa ;)

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  6. Simplismente fantástico, uma sensibilidade muito difícil de ser criada em uma pessoa que vem de uma família Burguesa. Parabéns.

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  7. Muito obrigado Eduardo!!
    Parabens pelo seu aniversario. Eu sei o quanto é bom ter essa visão que nós um pouco mais esclarecidos temos. Sei tambem o quanto é desconfortante, as vezes, ter que lidar com o ego das pessoas, sabendo que elas são assim pq valorizam ilusões.

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  8. Parabens!!e obrigado pela difusão de palavras e sentimentos,compartilhado aos alunos da vida!!

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  9. E vejo flores em você!

    Sabe Eduardo, infelizmente a humanidade ainda não tem maturidade para reconhecer nestas palavras o verdadeiro sentido de evolução!
    Infelizmente ainda vestem o capuz da vaidade e do egoísmo!

    Nem suas palavras devem ser repetidas como eco;pois cada um encontrará o caminho de sua evolução...assim como você o fez!

    Dos que bebem desta fonte inesgotável de compreensão e humnidade meus parabéns!

    E parabéns á você pelo 50º ano!

    Felicidades.
    Ser estranho ser!

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  10. Parabéns...
    http://eproibidodinheiro.blogspot.com/

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  11. Não sei se me traz orgulho ou conforto, encontrar gente que pensa assim em meio a tanta loucura...força na caminhada!

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  12. tuas palavras fazem muito sentido pra mim . obrigado!

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  13. firmeza irmao!

    seus textos sao otimos e dao sentido a varios anseios meus, que como jovem, nao quero que a vida simplesmente passe, quero Viver.

    parabens pelos 50,mta saude, e tamo junto!

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  14. "Áreas privadas, seguranças, nobrezas, refinamentos, sofisticações, tudo passou a me parecer uma pantomima ridícula, primitiva, disfarces esfarrapados da nossa desumanidade, da indiferença que somos capazes, em nossa sede de privilégios e superioridades que denunciam a real inferioridade de espírito."

    Verdade, viu?!
    Quanto mais vc busca satisfação material, mais vazio de espírito vc é.
    Que bom que vc não é um deles.

    Parabéns atrasado!
    Deus te abençoe!
    Muita sabedoria, amor, saúde e paz na sua caminhada!

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  15. Se dedicar a conhecimento de sí requer uma alta dose de coragem!

    Espero que possamos encontrar a humanidade em nós e sermos mais humildes... no sentido origianl, simples, sem submissão, reconhecendo seu próprio valor.

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  16. Palavras que são tesouros inestimáveis, renovam a alma da gente.
    Obrigada, Eduardo.

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  17. Contradição
    Sou grande fã, estou sempre lendo seu blog e concordo com tudo que diz, mas sempre me pego pensando em futilidades e desejando coisas que nem preciso, talvez por mera ostentação...
    Apenas um desabafo

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  18. É quase unânimes as pessoas que vistam ao blog deixarem comentários do tipo: "penso como tu"; "que bom não ser @ únic@"; "tu, assim como eu", ... No entanto, a maioria de nós não abre mão de quase nada do que o Eduardo costuma chamar de privilégios, tampouco deixamos nossos empregos de caráter total e inteiramente inútil e irracional. Minha mãe costumava me dizer quando eu era criança e respondia aos conselhos dela dizendo:"eu sei", que eu podia saber, mas não tinha consciência.

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  19. Eduardo, que prazer imenso ter te conhecido, só temos a agradecer sua vinda aqui na Unesc - Criciuma SC. espero que pra você tambem tenha sido importante, estamos extasiados com o seu jeito de ser e de viver, só que dificil pra nós reles mortais compreender a profundidade de tudo isso. então só nos resta observar e absorver. um grande abraço do José e ení os pais do lucas.

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  20. Edu... Li um comentário lá no início assim:"Eu vejo flores em vc".
    Eu vou mais além... pq chego a sentir o perfume delas em vc.
    Bjo GRANDE

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  21. Certa vez escutei a frase: " A mais alta sabedoria DESSE mundo é loucura aos olhos de Deus"...

    Pois é meu irmão, acho que te entendo pra "catete", Glória e Largo do machado..rs..Os valores desse mundo, as coisas, situações e ídolos que as pessoas, de uma maneira geral se apegam tb sempre me causaram espanto. Compartilho com vc, sei lá em que nível, esse sentimento que tu relata, pois desde moleque, apesar de integrado, me sentia inadequado em quase tudo que pra neguinho era supernatural..Natal, ano novo, aniversário, carro bacana, TV do ano, filhos na escola, férias lá fora, roupa certa, prestígio, vitória, aceitação, olhar do vizinho, ideologia midiática, pódio de chegada, birra com o estranho, riso de escárnio e toma-lhe etcétera...

    Hoje em dia eu dou risada disso tudo, do ponto a que chegou nossa sociedade; sem sacanagem, nas ruas, no trabalho, onde seja como são ridículas certas situações, a cópia esdrúxula do "que vem de fora", num país calorento como o nosso, as amarraçoes de costumes que a sociedade se colocou, a cartilha que neguinho segue sem nem saber o porquê...ao mesmo tempo que as vezes chega a ser cômico me dá um sentimento de pena, as vezes sem brincadeira..o que não é nem legal, mas é sincero, fazer o quê?!

    Ser Dr. Paxeco, o herói dos dias úteis (grande Raul) não é pra qualquer um não, malandro..Deve darvé uma canseira dos diabos isso. E pode observar, nego tá duro, travado, dá pra sentir o "peso" que a pessoa tá carregando, as vezes. Sei lá, acho que é nítido pra quem puder enxergar que tem neguinho a pampa sofrendo, cortando um dobrado pra defender uma imagem a todo tempo e custo, segurando uma estrutura que quem disse que nasceu pra suportar??? Pô isso pesa, a energia que se desprende pra isso te ancora aqui nessa baixa vibração...Um calor desgraçado, mas pateca não pode cair, o perfume é doce demais, não importa, tem que dar todo mundo no carro pra chegar cedo na festinha da princesa que será apresentada a sociedade.Vamos se entupir de salgadinho, quem fuma vai lá pra fora, reclamar do trabalho e da "patroa", quem ficou segura o filhote pra não fazer ninguém passar vergonha, aproveita bastante o domingo que a segunda bate na porta, e o último a sair deixa a luz acesa porque o salão já tá alugado pra próxima leva das 17 hs..

    e vamos que vamos!

    abraços










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  22. Parabéns pelo texto, Parabéns pelo seu dia!!!!

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  23. Maravilhosa reflexão! Obrigado por compartilhar sua experiencia! Força, esperança e fé! Abrafl

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  24. Maravilhosa reflexão! Obrigado por compartilhar sua experiencia! Força, esperança e fé! Abrafl

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observar e absorver

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