sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Fim de semana comum. A banca vermelha expõe minerais para colecionadores. Não é minha e não está mais na área.

Arte de "portas abertas", em Santa Teresa


Era sábado, saí de casa pelas dez e meia, onze horas, como de costume, pra expor meus desenhos. Fui de ônibus - às vezes vou de bicicleta, mais rápido e mais barato, só exige mais esforço. Mas eu sabia do evento, o bairro estaria diferente, provavelmente proibido aos que expõem nas calçadas e paredes, cheio de guardas municipais pra impedir os expositores de rua, como acontece todas as vezes. Os comerciantes e os artistas mais abastados promovem o evento e dão um jeito de proibir a exposição na rua, pelo menos no circuito mais freqüentado, nos eixos principais do bairro. Quando o micro começou a subir a Almirante Alexandrino, espinha dorsal do bairro, que começa quase nos Arcos da Lapa e vai até quase o Corcovado, fui olhando as arrumações.

Cartazes, estandartes coloridos, Santa Teresa parecia uma festa, com faixas, cores, desenhos, em cada loja ou ateliê, nos restaurantes. Por baixo da aparência, eu percebia a ausência dos expositores de rua. Havia uma tirania por trás da simpatia ostentada nos banners, cartazes, faixas e outros visuais. Um apelo hipócrita apresentando o bairro como o supra sumo dos artistas do Rio de Janeiro. Havia turistas e visitantes aos montes, carrões, pessoas com roupas caras, visivelmente as classes mais ricas da sociedade. Fui chegando ao Largo do Guimarães, desci do ônibus, olhei a calçada, ninguém expondo. O largo estava cheio de guardas municipais, há um escritório deles ali. A parede onde exponho, vazia, eu poderia ir direto nela, já tirando os desenhos da pasta e colocando rápido. Até eles se darem conta e chegarem junto eu teria já uns seis a dez desenhos colados e o impasse estaria criado. Mas, eu pensava, seria entrar num clima tenso, desagradável, estar pronto pra qualquer conseqüência, ou seja, uma apreensão ou coisa pior. Além do mais, pensava na rapaziada excluída que deveria estar, como sempre, escondida no alto da Felício dos Santos, uma rua secundária onde passa muito pouca gente e que a organização do evento “libera” pros expositores usuais das ruas de Santa Teresa e os que vêm pro evento. Resolvi abordar os dois guardas do lado da banca de jornais.

Na base do “com licença, boa tarde”, perguntei se eles tinham instrução de não permitir a exposição por ali e eles, reconhecidos pela consideração, explicaram que não podiam permitir a colocação de nenhuma mercadoria nas calçadas. Eu expliquei que expunha desenhos ali naquela parede – e mostrei a parede -, todo final de semana, mas sem nada na calçada. Eles ficaram meio confusos, “nosso trabalho é garantir a passagem nas calçadas”, e recomendaram falar com “aquele pessoal de jaqueta escura, escrito ‘Chave Mestra’, da organização do evento”. Eu já os tinha visto, representavam a empresa contratada para a realização. Não me agradou a idéia de falar com eles, conhecedor da ideologia e dos mecanismos dessas empresas, sempre em função do lucro, da consideração por quem tem mais grana, num desprezo franco e profundo pelos não privilegiados, os lutadores mais pobres. Mas fui. Havia um grupo deles no ponto de bonde, do outro lado da rua. Pela disposição, postura corporal e expressões, dava pra ver a hierarquia entre eles.

Fui na direção de uma mulher de uns trinta e cinco anos, intermediária entre o grupo e o chefe, ela imediatamente me indicou uma moça mais nova, claramente subalterna. Logo na primeira frase – eu exponho naquela parede ali todo sábado e domingo – ela demonstrou ignorância e chamou o chefe. Eu já o tinha visto antes, morador do bairro, era um chefete de grupelho, nada importante na empresa, apenas uma cooptação pra liderança de grupo. Ele interrompeu minha fala, dizendo que não poderia expor ali, porque ia juntar gente e poderia causar algum acidente com os carros. Era um menosprezo pela minha inteligência, ou ele era burro, mesmo. Respondi “ah, sim, grupos como aquele ali em frente ao bar do Mineiro” e apontei o monte de gente bebendo e conversando na rua, em frente ao bar lotado, “ou aquele outro’, apontei pro lado oposto, em plena Almirante Alexandrino,”esperando pra comer no Sobrenatural, né? Tá na cara que o motivo não é esse, né, meu irmão?”

Ele hesitou diante do óbvio, mas argumentou que no largo era diferente, mais perigoso, num ridículo absurdo que confirmava minha hipótese sobre sua inteligência. A rua estava toda lotada, de pedestres e carros, o que ele dizia não fazia o menor sentido. Parei de falar e olhei bem pra ele, enquanto ele falava. Só o confronto, mesmo. Mas lembrei da rapaziada que devia estar na Felício, os excluídos, e me deu vontade de estar entre eles. Interrompi o cara, já impaciente, “onde é que tá a feira alternativa, é na Felício, mesmo?”. Ele mostrou alívio, “tá lá em cima”, e juntou os dedos da mão, “tá bombando”, numa mentira tão descarada que parei de olhar pra ele e fui logo, pra não responder.

A rapaziada estava tão escondida que não dava nem pra ver, da Pascoal Carlos Magno, um dos eixos do bairro, onde passa o grosso dos visitantes. No ano anterior, pelo menos dava pra ver, aí algumas pessoas mais curiosas vinham ver e atraíam as outras, virava uma feira, mesmo, com gente fazendo som, dançando, mercadorias bonitas, criativas, bancas de bom gosto, pinga, música. Por isso eles resolveram proibir o maior pedaço da Felício, pra que a feira não ficasse visível. É a mentalidade mesquinha da ânsia de lucro, excluindo sempre os mais pobres, com pretextos pra esconder sua própria desumanidade. Engraçado é que quem determina é a empresa, mas quem faz cumprir é o poder público. É de dar nojo, mesmo.

Tive que expor num muro desigual, mais difícil, nem tinha espaço pra expor tudo. Mas o clima estava bom, encontrei conhecidos que só expunham no “portas abertas”, gente de outras cidades e outros bairros, além de vários expositores de sempre. Foi agradável, divertido, mas as vendas foram poucas. Ficamos até escurecer. Fui pra casa aborrecido com a injustiça, todos deveriam ter respeitado o direito de expor decentemente.

No dia seguinte, domingo, já desci do ônibus direto pra parede, no largo do Guimarães. Abri a pasta, fui tirando os desenhos que já estavam com a fita crepe, pra por nas partes de cimento – há as portas de metal, também, mas aí tem que cortar a fita adesiva, primeiro, demora mais e eu precisava de rapidez. No sexto desenho já tinha um guarda me abordando, daquela maneira sempre “criativa”, “boa tarde, o senhor tem autorização para expor essa mercadoria?” Era o guarda com quem eu havia falado no dia anterior, eu estava disposto a um confronto “gandhiano” com as instituições privada e pública. Expliquei que expunha naquela parede sempre, que não ocuparia a calçada, mas exporia. Disse também que não queria faltar com o respeito, nem seria agressivo com a guarda, sabia que eles cumpriam ordens, entendia perfeitamente que eles não tinham responsabilidade sobre elas e que seriam punidos se não as cumprissem. Mas que eu me sentia no direito de expor ali, que uma empresa não tinha o direito de me impedir e que, se houvesse a ordem de apreender os desenhos, eu não reagiria contra eles, nem os insultaria. Que cumprissem com sua consciência, pois eu cumpriria o que me dizia a minha.

Ele ficou sem saber o que dizer ou fazer, pediu pra esperar enquanto ele consultava a chefia. Eu esperei ele se afastar e continuei pondo os desenhos. O pessoal da “chave mestra” já estava se movimentando. Uma menina paulista, com o jaleco da empresa, chegou pra falar, ouviu meus argumentos, sorriu compreensiva e, depois de olhar em torno e não ver ninguém da empresa perto, disse “cê tá certo” e foi pro outro lado da rua, no ponto de bonde. Vieram outros com o tal jaleco, tentando me demover, ameaçando a apreensão. Quando ouviam que poderiam apreender, se quisessem, “vai ser interessante apreender desenhos a nanquim, num evento que se entitula ‘arte de portas abertas’”, ficavam furiosos e iam buscar novas instruções. Os guardas se postaram ao lado e eu falava calmamente com eles, enquanto ia colocando mais desenhos, com o cuidado de não expor os aquarelados, que dão muito mais trabalho. A apreensão era uma possibilidade real, eu preservava os coloridos, arriscando só os em preto e branco.

Os guardas haviam sido trazido de áreas distantes – meu medo era que fossem os do centro da cidade, acostumados às operações violentas de apreensão em grande escala, em conflitos ferozes com os camelôs, com gases, pancadaria, não raro tiros e pedradas. Mas eram de Guaratiba, do Recreio e outras áreas de balneários, onde o serviço era mais pacífico e de acordo com as funções reais da Guarda Municipal, de proteção ao patrimônio público – e não de caça aos ambulantes. Com minha ação pacífica eles simpatizaram comigo, acostumados a insultos e desconsiderações, e me deram toda razão. O pessoal da “chave mestra”, sobretudo os graduados, me olhava feio. O mesmo cara mentiroso do dia anterior veio me cobrar, “mas ontem você foi pra lá”, e eu, “mas não vendi, e eu não posso ficar sem vender. Não tenho, como você, um salário pra cair na minha conta uma vez por mês”. Ele insistiu, “uma vez por ano, o que custa não expor aqui?” Eu ri, “pra mim, custa não vender. E o que custa eu expor aqui, pra sua empresa?” Ele saiu inconformado, avisando que iriam apreender. Eu disse que preferia estar do meu lado e perder os desenhos, que estar do lado da empresa e fazer o papel de repressão sobre quem luta com dificuldades. Mas ninguém veio apreender. Em duas horas, senti segurança e expus os aquarelados. Vendi mais que o normal.

No fim de semana seguinte (o evento era em dois finais de semana), eu esperava alguma ação no sentido de impedir minha exposição. Desci um ponto antes, vim andando no meio das pessoas, o bairro novamente lotado. Achava que estariam à espreita pra me abordar antes de colocar o primeiro desenho. De longe, observei o largo. Não parecia haver nenhum esquema pra minha chegada, ninguém junto à parede, quantidade normal de uniformizados. Ao me aproximar, vi que havia uma faixa larga, esticada no exato lugar onde eu exponho. Era uma faixa informativa, com informações sobre o evento, com tamanho suficiente para ocupar todo o espaço. “Covardes”, pensei.


No chão, água, mochila e a pasta de desenhos. Se a intenção fosse informar, a altura da faixa seria bem maior.

Parei na frente da faixa. Olhei em volta. Do outro lado do largo, um uniformizado da “chave mestra” me olhava, de braços cruzados. Era o que tinha ficado mais furioso comigo, no domingo anterior. Algo se movia em meu estômago. O Largo do Guimarães estava cheio de gente. Levantei a voz e o braço, “senhores!”, várias pessoas me olharam. “Quero denunciar aqui a hipocrisia de um evento que se chama arte de portas abertas, que na verdade fecha as portas pros artistas que expõem nas ruas do bairro, todo final de semana!” O cara descruzou os braços, atônito. Ficou meio desnorteado, eu continuei. “Eu exponho há mais de dez anos em Santa Teresa, pelo menos há seis nessa parede aqui” e batia a mão sobre a faixa, “e hoje estou impedido de expor porque não faço parte dessa CURRIOLA que mancomuna a empresa responsável pelo evento com a guarda municipal, que devia servir ao município, e não aos interesses mesquinhos dos que impedem trabalhadores da arte de expor o seu trabalho!” O cara, depois da palavra curriola, gritada em sua direção, entrou pela porta da administração do bairro, a sub-prefeitura, onde devia estar sediado o comando da “chave mestra”. Em seguida, surgiu na porta com mais três pessoas, duas de uniforme e uma loura baixinha e gordinha que parecia a chefe geral.

Eu levantava a pasta com os desenhos, “dentro desta pasta tem meus desenhos, feitos a nanquim e aquarela, arte pura, e estou impedido de expor pelo conluio dessa chave mestra com a prefeitura, impondo regras ridículas, injustas, que só servem aos seus interesses ignorantes e desumanos, só visam o seu lucro e o dos abonados do bairro!” A loura começou a falar no celular, ostensivamente, achei que pra me intimidar. “Ela não me conhece”, eu pensei, rindo por dentro da minha indignação, “agora eu tô incomodando”. Passou o Jean, com seus tambores, me cumprimentou, eu me dirigi ao monte de pessoas que estava no largo “esse aí é o Jean, que expõe aqui no largo e hoje está impedido de expor também! Várias pessoas que expõem aqui estão impedidas porque são pessoas sem disponibilidade de grana, não fazem parte do grupinho dos privilegiados e são desprezados pelo poder econômico que está promovendo esse evento hipócrita! São artistas de alta qualidade, que têm beleza e sensibilidade pra oferecer e estão excluídos do evento por serem artistas de rua!” Jean, parou, colocou os tambores no chão, em solidariedade. Várias pessoas paravam pra ouvir, muitos apoiavam, ouvi comentários sobre o absurdo, “portas abertas pra quem?”, eu berrava. “Portas abertas pra quem vem gastar dinheiro, mas fechada pros artistas tradicionais no bairro!”

A loura entrava no escritório, pra aparecer logo depois de novo, olhando pra mim e falando no celular. Gesticulava, eu não sabia se era teatro pra me intimidar ou se ela estava armando alguma. Mas não estava nem aí. “Vou ficar aqui denunciando a falcatrua de um evento que se diz de portas abertas, numa afronta à inteligência, e proíbe a exposição dos mais pobres!” Várias pessoas paravam, ouvindo, e me apoiavam. Algumas foram pedir explicações no escritório, eu via a loura nervosa, falando e gesticulando com as pessoas que, visivelmente, estavam achando um absurdo aquilo. Funcionários entravam e saíam do escritório, celulares nas orelhas, me olhavam com ódio impotente. Um deles me fez um sinal ameaçador, mas eu já estava tomado pelo espírito guerreiro, “tô no meu direito de falar, rapaz, o que foi? Vai mandar me prender? Eu teria vergonha de estar no seu lugar, de perseguir trabalhador a serviço de um patrão safado e desumano! Tem algum ser humano aí?”, eu provocava, lá do outro lado da rua e do ponto. “Se tiver tem que estar morto de vergonha! Mas é esperar muito, o normal é cada um se importar consigo e os outros que se fodam! Ainda mais se os outros são pobres! Cadê a humanidade de vocês, deixaram em casa pra fazer esse papel ridículo?” E continuava, falando aos passantes, “estou denunciando aqui a hipocrisia...” O Jean já tinha ido pro lugar que ele arrumou pra expor, pagando 100 reais. Mal conseguiu dinheiro pra pagar, foi ruim pra ele.

Outros da rapaziada, ao passar, me viam ali, discursando, paravam, surpresos. Via seus olhos brilharem, “é isso aí, Edu, resistência!” E se deliciavam quando eu apontava o escritório da “chave mestra”, na administração da prefeitura, “a base desse evento mentiroso, repressor, fazendo cara de bonzinho, como a mídia, enquanto exerce seu vampirismo escondido”. Já haviam se passado umas duas horas, eu parava por uns minutos, conversando com algumas pessoas, depois voltava à carga. Alguém me deu um pedaço de gengibre, acho que Rogério, o poeta, “é bom pra garganta”, ele disse.

Iberê me convidou pra expor no muro ao lado da casa dele, a uns trezentos metros de distância dali, na Almirante Alexandrino. Ele estava expondo em seu carro, habitualmente parado em frente ao prédio onde mora, seus mapas estrelares, fases lunares e outras mercadorias. Iberê é um cara “espacial”. Os guardas foram pra cima dele, também, mas ele persistiu e ficou, com argumentos fortes. Morava ali, o carro ficava estacionado junto à calçada, ele se recusou a tirar e ninguém pôde fazer nada. Eu lembrei que precisava expor. Ali estava bom, mas eu não estava vendendo. A proibição de expor era em toda a rua, mas quando fui pra lá, ninguém me impediu. Achei que eles estavam dando graças por eu ter saído do largo do Guimarães e preferiram não me perturbar mais. Expus sábado e domingo e vendi muito bem.

Na semana seguinte, viajei ao Paraná, a convite do centro acadêmico de geografia, para o evento “A geografia dos excluídos e os excluídos da geografia”. O assunto era “cultura e arte subversivas” e eu era um dos palestrantes. Passei a semana toda e não expus em Santa. Quando cheguei, soube que no meu lugar haviam posto banheiros químicos, numa clara retaliação. Achei uma graça amarga. Então os serviçais do sistema estavam me retaliando, usando os recursos hipócritas do aparato público. "Covardes", eu ri.

Não precisei me mover. Durante o fim de semana que não fui, os próprios moradores trataram de reclamar da estupidez de colocar os banheiros na calçada, obrigando os pedestres a passar pela rua. Então não havia um lugar discreto, onde colocavam banheiros químicos nos eventos do largo? Por que colocaram no meio do caminho, se o lugar usado normalmente era muito mais indicado? Foram tantas as reclamações que não puderam repetir a dose. Quando cheguei, na outra semana, não havia banheiros. Expus sem problemas. E ironizei, “não pude dar a eles esse gostinho, estava viajando”.

                                                                                                                                    Eduardo Marinho



terça-feira, 19 de outubro de 2010

A estupidez do orgulho



Há quem baseie um sentimento de superioridade na sua posição social, no seu degrau acadêmico ou nas riquezas de que dispõe. Ingenuidade ou ignorância, em humanidade. Essas pessoas, diante de qualquer falha própria que se revele, ficam constrangidas, envergonhadas, sentem humilhação. É a fragilidade que o orgulho causa. Posso sentir superioridade em quem tem mais luz, maior compreensão ou melhores sentimentos que eu, mas nunca por aspectos externos. E não é uma superioridade arrogante, ao contrário.

Reconhecer erros é um privilégio que nos permite trabalhar nas correções, nas superações. Aos orgulhosos só é possível reconhecer erros nos outros. Os próprios, escondem, negam, e isso os faz seguir cometendo os mesmos erros. Enquanto o orgulho amesquinha o espírito, a humildade a engrandece; o orgulho é estúpido, a humildade é perspicaz; o orgulho se ofende, a humildade aprende; o orgulho acusa, a humildade compreende.

Apontar uma falha minha não me espanta, não me ofende, não me revolta. Sei ter um montão delas e procuro corrigir as que posso, as que sou capaz e as que vou me capacitando aos poucos. Mas não se espere que eu me sinta humilhado por errar. Haverá alguém que não erra? Trabalhar os próprios erros nos capacita pra trabalhar na coletividade. Aliás, acho que o trabalho interno é um pré-requisito pra um trabalho externo eficiente, que renda frutos.

Mas um papel feio é o de apontar falhas alheias, com sentimentos destrutivos, raiva, desprezo, como quem tem o direito de punir, buscando ferir, humilhar, diminuir o outro. É o papel da ignorância, de quem não reconhece sua própria humanidade e se comporta como se não tivesse suas tendências pra cuidar, seus próprios erros a corrigir. Um comportamento comum, o dos acusadores.

"Nascer" - óleo sobre tela, 68x78cm - 2001
O porquê de virmos ao mundo parece uma evidência - aprender. 
Uma pessoa assim comete vários equívocos e leva a pior. Não consegue enxergar o que precisa pra se melhorar, não pode trabalhar nas próprias falhas e segue tropeçando nas mesmas pedras, sofrendo conseqüências sem perceber sua responsabilidade, atribuindo a “culpa” a qualquer um ou qualquer coisa. Acaba enxergando a realidade como lhe convém (e não como ela é) e sofre constantes decepções. Sem entender nada e, freqüentemente, tumultuando tudo à sua volta.



EduardoMarinho                                                                                                           19/10/10

segunda-feira, 18 de outubro de 2010


Adhara aos nove anos, numa viagem a Visconde de Mauá,
com Victor Mendez, el peruano - óleo sobre tela.


Indecisão – ir ou não ir

                                                                                                                                          Eduardo Marinho
Tenho uma filha que mora nos Estados Unidos. Isso mesmo, no império. Pouco tenho a ver com isso, jamais poderia ter-lhe pago tal viagem, quase todas as que fizemos foi de carona, dormindo em postos ou em caminhões, raramente em algum hotelzinho fuleiro, de beira de estrada. Ela foi quem ralou pra conseguir pagar. E ainda assim, precisou de grana emprestada de amigos, que pagou de lá, depois. Foi através de um programa, tudo legalzinho. Era pra voltar em dois ou três anos, ou de lá ir pra Europa ver o que rola. Mas foi ficando, arrumou namorado, mudou de trabalho, veio ao Brasil em visita, mas não viu condições de viver por aqui (em um nível decente de vida), voltou pra lá e ficou. Há algum tempo casou. Não gostava da cidade em que vivia, toda a comida artificial, pessoas sem interesse, enfim, detestava o lugar. Mas aqui a situação seria pior, não tinha muita opção. Há pouco tempo, mudou pro Colorado, um lugar lindo, de montanha, as pessoas são diferentes, há produtos naturais, até artesanato se vê em algumas ruas e praças. Parece outro país. Como aqui no Brasil, mesmo, as variações de lá são incríveis.
Ela tem insistido comigo pra ir visitá-la, e eu sempre refugando. Desde alguns anos. Tenho muito o que fazer aqui, não me interessa uma viagem de “férias”, não tô a fim de ficar à toa ou passeando, muito menos na aba de filho (claro, ela se propôs a pagar tudo). Uma cidade satélite de Washington, onde tudo se faz de carro, se come o que ela me descreveu várias vezes, com uma gente como a que me descrevia, o que eu ia fazer ali, meu Deus? “Visitar sua filha”, ela me respondia, e eu, “mais fácil cê vir aqui, assim vê todo mundo”. Mas ela não desiste.

Agora mudou pro Colorado. Montanha. Outro clima. Outra gente. Fiquei pensando... o iptu tá atrasado, a grana é sempre pouca, se desse pra trazer uma grana de lá, podia resolver o problema da casa e, quem sabe, até comprar um fusca pra transportar os trabalhos. Se tem gente vendendo artesanato, pode dar certo. Preparo umas pinturas, sei lá, umas naturezas mortas a óleo, umas viagens em acrílica, de repente posso voltar com grana pra desafogar a vida.

Não disse nada a minha filha, não quero criar expectativas só porque abri a possibilidade. Além do mais, tem várias pendências.

O título de eleitor tá atrasadão, acho que nem existe mais. A quitação com o serviço militar, também, só me apresentei como reservista no segundo ano, tem que ir lá, regularizar. Parece que depois dos 46 anos não tem mais vínculo, eles fazem uma carteira de “desobrigado”. Gostei do nome. Depois de ficar regular, tem que ver se no consulado deles, que parece tão exigente, vão me liberar um visto de entrada. Vejamos, não tenho emprego fixo, não vou levar dinheiro (bom, isso ela pode me mandar de alguma forma, pra eu mostrar no consulado ou no aeroporto, sei lá), não falo inglês, minha renda é ridícula pra eles, não tenho formação universitária, sou um artista de rua. Será que vão acreditar que não desejo de forma alguma permanecer por lá? Do jeito que são assediados por imigrantes ilegais? Acho que não me liberam. Ela acha que sim. Ou diz que acha, pra me levar a tentar, talvez.

Não sei se vou, mas tenho que começar a pintar pra ir juntando. No caso de não ir, é sempre bom ter pronta uma quantidade de pinturas. Uma exposição e é uma salvada na situação. Caso vá pro Colorado, penso que a salvada pode ser bem maior. Um mês, no más, deve ser o suficiente. Mais que isso sei que vai me dar uma agonia danada pra voltar. Mas não sei se vou. De repente, posso mandar as pinturas pra ela ver se vende. E ela me manda a grana, tira uma comissãozinha e pronto. Ela não vai gostar da idéia, eu acho. Mas até juntar umas pinturas, lá se vão alguns meses. O dia a dia leva tempo. Pra quê decidir agora? Deixa o destino se apresentar. Se houvesse um ímpeto, uma vontade muito grande, é que eu precisaria ir, mesmo. Mas não há isso. É, mais, uma possibilidade de tirar o pé da lama.

sábado, 16 de outubro de 2010

Ver como é, não como nos dizem

É preciso dar o nome devido às coisas. A forma de falar acaba criando condições mentais propícias a análises tendenciosas. Erramos o caminho do pensamento e ficamos a dar voltas, sem achar a saída.

Quando olhamos o panorama da sociedade, vemos que a “elite dirigente” formal, apresentada como o “poder”, não é o que parece ser. Observando seu comportamento, sem nos deixar enganar pela mídia, percebemos que o poder real, atual e atuante, está bem acima dessa elite, no escuro das empresas de comunicações e do aparelho do Estado. A verdadeira elite dirigente não é eleita pelo voto, ao contrário, elege seus subordinados e, através deles, indica outros subordinados para os cargos chave, dentro da administração estatal. Considera seu o que é de todos, monopoliza a atenção e os privilégios que o Estado pode lhes oferecer. Dispõem das verbas públicas com a naturalidade de quem usa o que é seu, por direito de nascimento ou conquista financeira.

A chamada “elite dirigente” não passa, na verdade, de uma elite de gerentes. Vê-los abanando o rabinho para mega-empresários e representantes de gigantes transnacionais é uma bofetada na cara do cidadão.

Andamos pelas ruas recebendo multidões de recados, explícitos e subliminares, dizendo que nos amam, fazem tudo pelo nosso bem estar, que essa é a maior razão de sua existência, tudo "especialmente para você", com sorrisos, gestos, cores, imagens e sons sedutores, acenando com possibilidades de destaque e consideração social, prêmios por se deixar convencer e desejar o que oferecem. Tudo com o único objetivo de nos fazer consumir o que não precisamos. Para vincular a felicidade ao consumo.

Se entramos num "chópim" a coisa se torna ridícula, absurda, caricata, uma ofensa à inteligência. Mas de tal maneira bem elaborada, de tal amplitude e profundidade é o trabalho de condicionamento cotidiano neste sentido, que se pode ver nos olhos das pessoas o brilho da avidez, da necessidade de comprar, de ter, de consumir. Tornam-se fanáticas pelo consumo. Produzem angústias profundas, amargam tristes frustrações, obtêm efêmeras alegrias, superficiais demais para sanar a insatisfação do espírito humano.

“A massa sustenta a marca. A marca sustenta a mídia. E a mídia controla a massa.”
                                                                                                                                                                      George Orwell

A marca controla o Estado, eu poderia dizer. Mas fica despersonalizado. Os donos das mega-empresas, os grupos de empresários mais ricos, donos de terras, de indústrias, são esses os que mandam, controlam, criam valores, distorcem a realidade, interferem no ensino, nas decisões do Estado em qualquer das suas instâncias. Atacam populações, comunidades, etnias, tudo o que esteja no caminho dos lucros absurdos a que se acostumaram.

Se a minha visão é simplista, é porque a realidade é simples assim. Claro que virão acadêmicos laureados, especialistas, analistas, com uma linguagem rebuscada, provando que a coisa é muito mais complexa, não é bem assim, e mais isso e aquilo. Mas eles não me enganam. A sociedade é essa barbárie, na vida da maioria (alguns privilegiados nem acreditam nisso), por uma questão de egoísmo, orgulho, soberba de uma minoria que não alcançou, ainda, o patamar humano. E também por um minucioso trabalho de ignorantização, nas escolas, e de idiotização, pela mídia, que é acolhido, assimilado e exercido pela grande maioria, que inclui os mais sacaneados da coletividade desarmada de instrução, informação e senso crítico, desarmada de cidadania.

Todos temos nossas responsabilidades, ninguém está isento. Mesmo os mais engajados, os mais ferrenhos lutadores por mudanças reais na estrutura social. A diferença destes é que exercem sua responsabilidade humana, cada um à sua maneira, como o professor que dá tudo de si no ensino e na formação de seus alunos, mesmo sabendo que a estrutura de ensino não permite um grau aceitável de assimilação. Como o médico que atende com amor, mesmo em condições de trabalho horríveis.

Eu, de minha parte, ponho tudo o que posso no meu trabalho. Consumo só o que me é realmente necessário. Nem entro em chópincenter, que aquilo é um insulto à minha humanidade. E duvido de tudo que a mídia diz – falou mal, deve ser bom, falou bem, deve ser mau.

http://antizero.rg3.net/
Eduardo Marinho, 16/10/10                                                                                         

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Transporte Público

O motorista, nervoso, pega minhas moedas, dá uma olhada e joga na caixinha. Aperta o botão e eu passo na roleta. Ele tá acumulando passageiros sem troco. Resmunga contra a falta de troco. Entra mais um com uma nota de 20 e ele reclama, “não tem menor aí, não?” Não tinha. Mais um passageiro sem troco, ele resolve parar na esquina, desce com uma nota de 50 e outra de 20, entra numa padaria. “Vambora, tô atrasado!” grita alguém no fundo. O motorista, um negro de belos traços e corpo grande, saiu da padaria na direção da banca de jornais. Mais passageiros inquietos, reclamando.

Penso na falta do cobrador. Esse cara tá dirigindo um ônibus, um coletivo de vidas, não podia estar preocupado com o troco. Tinha que estar calminho, no lugar dele, prestando atenção no trânsito e na entrada e saída de passageiros, mais nada. A empresa economiza um posto de trabalho, sobrecarrega o motorista e põe um trabalhador na rua. E ainda piora a qualidade do serviço, demora mais, às vezes o cara fica parado um tempão no ponto, enquanto a fila se forma na calçada e ele vai cobrando.

Lá vem o cara, correndo. Entra, escuta os resmungos. “Brincadeira, hein, motorista!” “Tô com pressa, porra!” O motorista fecha a cara, “cês reclama é de tudo! Se não tem troco, reclama, vou trocar, reclama...” “Tu tem é que trocar antes de começar a viagem”, retruca um. “Não adianta!”, se exalta o piloto, “eu troco e só entra passageiro com dinheiro inteiro, aí não dá!” “Que nada, tu não tá é trabalhando direito!” “Senta aqui pra tu ver como é que é, rapá!” Resolvo intervir.

“Ô piloto, me diz uma coisa.” O silêncio foi instantâneo. “Há quanto tempo tu tá sentado nessa cadeira aí, fora as paradas?” “Tô desde as seis da manhã, não saí nem pra almoçar”- era mais de uma hora da tarde. "Ainda vou ter que dobrar, o outro motorista não veio, deram um gancho nele, não avisaram o despachante e eu não vou poder sair". "É mesmo? Vai ter que ficar até que horas?" "Até as nove, só na linha, depois tem que ir na garagem." Por dez segundos, o silêncio me pareceu cheio de reflexões, observei as fisionomias à minha volta, discretamente. Depois, investi de novo.“Tu não tem saudade de um cobrador, não?” O cara riu, balançou a mão pra cima, “porra...” Eu continuei,“sabia que tem um manicômio, na baixada, só de motoristas de ônibus?” Eu havia lido um artigo a respeito, tempos atrás, e fiquei muito impressionado com aquilo, passando a prestar atenção nos sinais que os motoristas apresentam no cotidiano do trânsito. Ele baixou a voz, “já ouvi falar, mas é verdade mesmo?” Senti que havia uma atenção forte no ambiente, ao menos vários estavam ouvindo, interessados.“É, rapaz, a onda da nervosia vem pra cima, né não? Todo dia. Se o cara se deixa levar, acaba adoecendo.” Ele não respondeu. Olhei pro último cara que tinha falado, a agressividade havia sumido da sua expressão. Em volta dele, vários me olhavam. “Devia ser proibido o motorista cobrar passagem. O cara tá dirigindo um ônibus, a vida da gente na mão dele, tinha que estar prestando atenção só no trânsito, tinha que ter um cobrador aqui, olha o estado que o cara fica, já não basta o nervosismo desse trânsito doido... Ele tinha que estar tranqüilo, pra segurança de todo mundo aqui dentro” Alguém completou, "e lá de fora também!" Risadas. Virei pro piloto, de novo, “a empresa põe algum troco, ao menos pra começar o dia?” Ele riu, “nada, tenho que ficar correndo de um lado pra outro, no (ponto) final, às vezes não dá tempo nem de ir no banheiro”. “Sacanagem, contigo e com os passageiros”, concluo," por causa de decisões de pessoas que nem põem o pé num ônibus, só tão querendo economizar grana pra ganhar mais dinheiro".

Já apareciam expressões de “é isso mesmo”. "Os caras que decidem essas barbaridades não andam de ônibus. Decidem e nem botam a cara aqui, a gente fica se estranhando, se aborrecendo por causa da ganância desses empresários, enquanto nem eles nem a família deles passa pelo que eles fazem a gente passar, tão por aí, andando de carro blindado, de carrão, quando não é de helicóptero. Eles não vivem esse mundo nosso, não, eles vivem outro mundo. Só que pra bancar esse mundo ricão eles vêm aqui, explorar a gente, no nosso mundo. Donos de empresas de ônibus deviam ser obrigados por lei a só andar de ônibus, pra saber como é, isso tinha que ser lei. Aí eu queria ver se ia ser essa merda”. Sorrisos de concordância, o motorista lançou um olhar pelo retrovisor, cheio de simpatia. Alguém ainda acrescentou "aí eles iam fazer uns ônibus só pra eles", mais risadas, o ambiente descontraiu e dispersou em várias conversas pelo carro.

Quando desci do ônibus, no centro, me despedi, “valeu, piloto”, e ele, “falou, irmão, vai com Deus”. Saí com a sensação de bom contato. Nesse caso, a paz foi feita quando se trouxe as razões da discórdia, resolvidas em escritórios com ar condicionado, longe da realidade das ruas e da maioria que sofre as conseqüências, com a intenção primordial do lucro. E como é destrutiva essa intenção, aos corpos e às almas. Ao concreto e ao abstrato. Ao astral e ao sentimento.

Nota - Gancho é a suspensão do motorista por um ou mais dias de trabalho. Uma forma de opressão, de ameaça, de coação. Mas apresentada como uma forma de controle do comportamento, da imagem da empresa, de otimização do serviço. Não se leva em conta a natureza humana com relação ao abuso de poder, a necessidade de afirmação comum, ao uso indevido e injusto de poderes (supervisões e gerências), porque, no caso da empresa, isso contém reivindicações e serve ao lucro.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.