sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano Novo...

As pessoas sorriem, se congratulam, se despedem – "se eu não te encontrar até o ano que vem..." – como se estivesse, mesmo, acabando um “ano”, uma realidade, e começando outro “ano”, outra realidade. Uma fronteira, invisível, universal e falsa. O sentimento de que de agora em diante tudo vai melhorar é estimulado, impelido, aumentado. Esqueça o passado, olhe o futuro, tudo vai melhorar. Narcose coletiva. A mídia anuncia, festeja, faz retrospectivas, os jornalistas sorriem, os comentaristas, os especialistas – tudo vai mudar. Confraternize, comemore, veja o compacto do ano todo. O primeiro desabamento foi em Angra, 50 casas foram soterradas. Sobre a mansão que despencou da área de risco, sobre as 50 casas, não se fala. A secretaria local de meio ambiente havia vetado a construção, mas o governador mandou liberar – afinal, os donos eram um casal “global”, pra quem não vale a lei dos mortais comuns. Ouça esse mesmo governador atribuir às centenas de mortos e aos milhares de desabrigados a responsabilidade pela tragédia de abril no Rio de Janeiro. Nos morros onde um certo prefeito, odiado pela mídia e pela cúpula social, fez as obras de contenção, cumprindo a obrigação do poder público, não houve nada, não desceu nem um degrau de escada. Vai no Fogueteiro pra ver. São uns criminosos, esses governantes. E se não forem, a mídia ataca.

Quem manda, continua mandando; quem finge que manda, continua fingindo. O inimigo entra na sala e diz que te ama, que faz tudo pela tua felicidade. Atrai o teu marido. Afaga tua mulher. Faz bilu-bilu no bebê. Diverte as crianças. Distrai todo mundo e ocupa o maior espaço na casa, o mais visível. E te rouba o passado, o presente e o futuro, destrói a escola dos teus filhos, joga todo mundo contra todo mundo, droga e convence geral dos maiores absurdos. Mente e distorce a realidade e ai de quem não acredita. O próprio meio social se encarrega de discriminar e desqualificar os que não aceitam ser tratados como idiotas – ou gado humano. Narcose coletiva.

A polícia vai continuar violentando os pobres, os oficiais vão continuar maltratando os soldados. O transporte continuará consumindo um tempo enorme na vida das pessoas. Os professores, que deviam ser uma classe muito querida e próxima da população que lhes entrega os filhos ao preparo pra vida, seguirão sacrificados, com problemas nervosos, salários ridículos, estruturas precárias, verbas reduzidas. Não interessa o ensino público - se o povo percebe o que acontece, é revolução na certa. A mídia vai caprichar, cada vez mais, nas mentiras, nas implantações no inconsciente, na distorção. As empresas vão continuar poluindo, matando índios e pobres, corrompendo as administrações públicas em sociedade com a mídia, expulsando comunidades e camponeses.

Mas é ano novo, tudo vai mudar. Exerça, nessa época do ano, os sentimentos humanos, a solidariedade, a afabilidade, mas cuidado – são práticas muito perigosas. Assim que passar o período das festas, tranque de novo seus sentimentos pra só usar com a família e os conhecidos, e olhe lá. Sua raça, a humana, não merece.

Depois que passarem as festas, volte pra sua gaiola construída com mentiras. Guarde os sentimentos humanos no armário da angústia, eles são uma fantasia de uso rápido, de ocasião. Vista a angústia e, pra relaxar, consuma. Não confie em desconhecidos, dispute todas as migalhas, seu valor é seu preço – ou seu patrimônio. Acredite, mesmo, que tudo vai melhorar, por si só, sem precisar fazer nada. Ignore essa gente na calçada, o mar de barracos na baixada, os meninos do tráfico, do vale tudo ou nada.

É criada uma sensação fortíssima de mudança, para que se mantenha tudo como está. Narcose coletiva.

Feliz ano novo. Sorria.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Entendendo a “estranheza”

É preciso que as pessoas educadas
vivam junto aos mais pobres, é
preciso ensinar aos oprimidos
a não colaborarem com os
opressores - Mohandas Gandhi



Vi serem divididas comigo, quando andei no nível da mendicância, refeições paupérrimas. Fui abrigado no cantinho do casebre, dormi em capim fresco improvisado, sobre o chão batido. Ou pendurado nos caibros, em redes. Sob o teto precário de ruínas, casas abandonadas, construções, compartilhei comidas preparadas em latas quadradas de óleo, em fogueiras improvisadas. Em cidades, nos acostamentos e postos nas estradas. Fui hospedado em palafitas onde se ouve o barulho da merda batendo na água, quando se usa a “casinha”. Vi a parte abandonada dessa nossa humanidade, a parte enxotada dos benefícios da sociedade, escorraçada, roubada e ainda perseguida. E vi brotar na lama fétida, sobre a qual se construiu a estrutura social, o lírio lindo e perfumado da solidariedade, da generosidade, do altruísmo inacreditável que as dores implacáveis despertam. Eu não estava ali sofrendo por mim. Por mim, eu estava aprendendo avidamente, observando as vivências, ainda sem entender, mas sentindo, profundamente, o que nunca havia sentido. Sentindo o sentimento das pessoas, o sentimento dos lugares, o sentimento do mundo e da humanidade à qual pertenço. Absorvia os códigos, os valores, as fragilidades, os saberes e as sabedorias. Aprendi a admirar o heroísmo dos desprezados, aprendi a distingüir seu caráter, a individualizá-los. Reconheci enormes riquezas sob a capa da miséria. Sofri com as injustiças que nem os próprios miseráveis percebiam, embora as sofressem – e aprendi que era melhor esconder meu sofrimento. Os irmãos sacaneados são acusados por sua própria desgraça. As causas se esfumaçam no ar, com o controle do ensino e das comunicações, com o trabalho competente de publicitários, artistas, jornalistas, entre tantas profissões utilizadas contra a maioria, os povos, em favor de poucos.

Deve ser por isso que me causa tanto desconforto o uso, a presença, a proximidade ou a simples visão do luxo, da ostentação, de privilégios. Áreas privadas, seguranças, nobrezas, refinamentos, sofisticações, tudo passou a me parecer uma pantomima ridícula, primitiva, disfarces esfarrapados da nossa desumanidade, da indiferença que somos capazes, em nossa sede de privilégios e superioridades que denunciam a real inferioridade de espírito. Eu disse que me causa incômodo, não raiva. Meus sentimentos têm origem nas situações, não nas pessoas. Essas me causam uma certa tristeza, por inconscientes, por infantis, por superficiais, por iludidas.

Meu desconforto é moral, humano, pela ligação do luxo à miséria, pela inevitável relação do privilégio com a carência. Um sentimento que não se transfere às pessoas, mas às mentalidades, que não procura culpa, mas responsabilidades, nesta sociedade de miséria material e moral. Não é à toa a falta de sentido na vida da esmagadora maioria. Só os mais grosseiros podem se satisfazer com a abastança, com o usufruto, com o consumo. A insatisfação é clara.

Não espero encontrar meus sentimentos, pensamentos e opiniões em outras pessoas – embora, de raro em raro, aconteça. Se me desse ao trabalho e à arrogância de condenar valores e comportamentos dos quais discordo, viveria em conflitos pessoais, alimentaria sentimentos nocivos e desagradáveis e não teria tempo, nem espírito, para fazer os trabalhos que gosto e dão sentido à minha vida.

Não posso recomendar, nem pretendo voltar às situações de miséria material – onde, na verdade, nunca me senti, apesar dos anos e anos nestas situações. Mas não consigo ver valor no luxo, no excesso material, na ostentação e no desperdício. A ligação do valor material ao valor pessoal é de um primitivismo constrangedor. Expressões de insensibilidade, de sub-humanidade.

Fui considerado um cara estranho, incômodo ou simplesmente um chato, principalmente dos 15 aos 19 anos, no meio social de classe média-alta, onde nasci e vivi. Muitas vezes pensei que eu deveria ter alguma coisa errada, por ter vergonha do que os demais ostentavam com orgulho. Por questionar sentimentos de superioridade e tratamentos grosseiros contra serviçais e pobres em geral. Eu causava estranheza e me sentia estranho. Hoje, posso entender tranqüilamente e me dar razão, na minha pouca idade, com a vivência que hoje completa o 50º ano desse curso de vida. Entendo e me congratulo comigo mesmo quando, aos 19, depois de ter sido militar, bancário, estudante, mergulhador, vendedor, entre outras coisas, decidi “dedicar minha vida a refletir e causar reflexão, questionar valores vigentes e desenvolver meus próprios valores”, numa sociedade em que se fabricam, se impõem e se repetem pensamentos de laboratórios, para que ela seja como é. E saí pelo mundo, para experimentar o que era não ter nada e procurar o sentido de uma vida que, até então, não me parecia ter nenhum sentido. Mochila murcha nas costas, sem dinheiro nem paradeiro, sem parentes além da humanidade inteira.



Niterói, 26 de dezembro de 2010                                                                                   Eduardo Marinho

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Carta a Santa Claus

Por Luis Sepúlveda


Estimado Santa Claus, Papai Noel, Bom Velhinho,
ou como queira chamar-se ou ser chamado.

Confesso que sempre lhe tive simpatia porque, em geral, me agrada a Escandinávia, sua roupa vermelha me dá um sentimento premonitório e porque, por trás dessas barbas sempre acreditei reconhecer um filósofo alemão que, a cada dia, tem mais razão no que afirmou, em vários livros muito citados, mas pouco lidos.

Não tema pelo teor desta carta, não sou o menino chileno que, há muitos anos lhe escreveu: “Velho safado, no ano passado te escrevi contando que, apesar de ir descalço e em jejum à escola, consegui tirar as melhores notas e que o único presente querido era uma bicicleta, sem querer que seja nova. Não teria que ser uma mountain bike, nem para correr o Tour de France. Queria uma bicicleta simples, sem marchas, para ajudar minha mãe a levar as roupas que ela busca, lava, passa e entrega. Isso era tudo, uma humilde bicicleta. Mas chegou o natal e eu ganhei uma estúpida corneta de plástico, brinquedo que guardei e te envio com esta carta, para que enfies no cu. Desejo que pegues AIDS, velho filho da puta”.

Foram seus elfos, os responsáveis por tão monstruoso desrespeito?

Pois bem, estimado Santa Claus, seguramente este ano receberá muitos pedidos de bicicletas, pois o único porvir que espera os meninos do mundo é como entregadores, mensageiros e trabalhos sem contrato de trabalho, condenados a distribuir pacotes e quinquilharias até os 67 anos de idade. No entanto, não lhe peço uma bicicleta. Peço, em troca, um esforço pedagógico, que ponha seus elfos, anões, duendes e renas para escrever milhões de cartas explicando o que são e onde estão os mercados.

Como você bem sabe, eles nos têm fodido a vida, rebaixado os salários, arrasado as pensões, retirado benefícios das aposentadorias e condenado as pessoas a trabalhar permanentemente, para tranqüilizar os mercados.

Os mercados têm nomes e rostos de pessoas. São um grupo integrado por menos de um por cento da humanidade, donos de 99% das riquezas. Os mercados são os integrantes dos conselhos de acionistas, como são acionistas, por exemplo, de um laboratório que se nega a renunciar aos royalties de uma série de medicamentos que, se fossem genéricos, salvariam milhões de vidas. Não o fazem porque essas vidas não são rentáveis. Mas a morte sim, é, e muito.

Os mercados são os acionistas das indústrias que engarrafam suco de laranja e que esperaram até que a União Européia anunciasse leis restritivas para os trabalhadores não comunitários, que serão obrigados a trabalhar na Espanha ou outro país da U.E., sob as regras de trabalho e condições salariais de seus países de origem. Logo que isto aconteceu, nas bolsas européias dispararam os preços da próxima colheita de laranja. Para os mercados, para todos e cada um destes acionistas, a justiça social não é rentável, mas a escravidão sim, e muito.

Os mercados são os acionistas de um banco que suspende o salário mínimo de uma mulher que tem o filho inválido. Para todos e cada um dos acionistas, gerentes e diretores dos departamentos, as razões humanitárias não são rentáveis. Mas os despojos, as expulsões da pobreza para a miséria sim, é. E muito. E para os ladrões de esperança, sejam de direita ou de direita – pois não há outra opção para os defensores do sistema responsável pela crise causada pelos mesmos mercados –, despojar da sua casa aquela senhora idosa foi um sinal para tranqüilizar os mercados.

Na Inglaterra, a alta criminosa das tarifas universitárias se fez para tranqüilizar os mercados. O descontentamento social levará a ações inevitáveis pela sobrevivência e os mercados pedirão sangue, mortes, para tranqüilizar seu apetite insaciável.

Que seus duendes e elfos expliquem, detalhadamente, que no meio desta crise econômica gerada pela voracidade especulativa dos mercados – e pela renúncia do Estado a controlar os vai-véns financeiros –, nenhum banco deixou de ganhar, nenhuma sociedade multinacional deixou de lucrar e até os economistas mais ortodoxos das teorias de mercado concordam em que o principal sintoma da crise é que os bancos e as empresas multinacionais lucram menos mas, em nenhum caso deixam de lucrar. Que os elfos e duendes expliquem até ficar claro que foi o mercado quem se opôs a (e conseguiu eliminar, financiando campanhas de legisladores a seu serviço - n do T) qualquer controle estatal às especulações, mas agora impõem que o Estado castigue os cidadãos com a diminuição dos seus rendimentos.

E, por último, permita-me pedir-lhe algo mais: milhares, milhões de bandeiras de combate, barricadas fortes, paralelepípedos maciços, máscaras anti-gases, e que a estrela de Belém se transforme numa série de cometas incandescentes com alvos fixos: as Bolsas, que queimem até os alicerces, pois as chamas dos formosos incêndios nos dariam, ainda que temporariamente, uma inesquecível Noite de Paz.

Muito fraternalmente


Fuente: Le Monde Diplomatique                                                                     Tradução - Eduardo Marinho

domingo, 19 de dezembro de 2010

A guerra das empresas contra os povos tem o Estado como exército e a mídia como porta-voz e formadora de opinião

A preocupação do poder visível (as marionetes políticas) é com as classes intermediárias, os que têm condições de ler jornal ou revistas, os que influenciam a opinião dos funcionários subalternos, imensa maioria sub-escolarizada e com poucas condições de se informar. Não uso o termo classe média porque me parece um bloco homogêneo que não corresponde à realidade. As classes intermediárias vão do gerente de loja ao diretor geral, passando por médicos, engenheiros, advogados, micros, pequenos e médios empresários e por aí vai. Esses recebem as informações pasteurizadas da grande mídia dominante, a privada.

O cenário preparado com a queima de carros, ações de barbárie devidamente registradas pela mídia, e exibidas à exaustão nos noticiários e boletins de emergência, em tons catastróficos, faz a ação de guerra tomar aspecto de necessidade urgente e esconde os interesses vários, por trás. A opinião pública é levada a acreditar que são legítimas as ações - criminosas em inúmeros sentidos - contra as populações excluídas dos benefícios da sociedade, das condições mínimas de existência digna, os mais pobres. Não duvido que a queima cinematográfica de carros e ônibus tenha sido decidida em salas luxuosas, com serviçais e ar condicionado, em áreas “nobres” e daí para os gabinetes políticos e para as gerências do tráfico, inclusive as celas dos presídios de segurança máxima, onde alguns fazem o papel de máximos do tráfico, no lugar dos seus patrões. Os soldados cumprem as ordens, sem perceber que selam seu próprio destino, ao chamar para si as forças da repressão, treinadas, preparadas e bem armadas. Não duvido da participação do comando da mídia, em todo o processo de planejamento, decisão e imposição ao poder marionete que, às vezes, negocia influências nas ações em benefício do seu próprio sistema de manutenção no poder, da estratégia de preparação do “clima” à execução das operações “salvadoras”, iniciando o processo.


Assisti, entre a dor e a revolta, a entrada violenta das forças armadas do Estado no Complexo do Alemão, a partir da vila Cruzeiro. Qualquer formação militar mínima deixa claras as falhas calculadas, a rota de fuga deixada aos soldados do tráfico justificando a invasão do miolo do Complexo, contando com a debandada pelos dutos de escorrimento da comunidade, pois prender tantos não era o objetivo das operações. No comando real, muito acima dos generais, prefeitos, governadores e secretários de segurança, sabe-se muito bem quantos são, como trabalham e que tipo de armamentos dispõem os funcionários de baixo escalão do tráfico, pois dali se comanda, além de instâncias do Estado, o chamado “crime organizado”- e também se influencia a mídia privada, claro, velha aliada dos vampiros e dos urubus da sociedade.

Não vou nem falar na vindoura milícia – e da facção aliada, o TCP, mais tarde –, já anunciada aos moto-taxistas e vanzeiros – que terão de pagar taxas para circular na área. O texto ficaria longo demais, não tenho dados objetivos. É só uma obviedade diante desse “mais do mesmo” e do que aconteceu em Parada de Lucas e Vigário Geral (ler o texto "A Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime", http://www.somostodospalestinos.blogspot.com/) Gostaria de estar enganado.

Território ocupado, situação “acalmada”, surgem as denúncias de crimes praticados pelas forças armadas, a “segurança pública”. Execuções sumárias, assassinatos a sangue frio, torturas, invasões de domicílio a granel, roubos, abusos sem conta. Para a população mais pobre, o Estado não finge. Mostra sua cara hedionda, com cifrões nos olhos injetados de sangue e dentes de vampiro. Alguns detalhes podem ser vistos na edição 404 do jornal Brasil de Fato (www.brasildefato.com.br), nas páginas 4 e 5. Nem se fosse o jornal inteiro caberiam todos os crimes e violações praticados por “nossas” forças de segurança contra as pessoas das comunidades. Nessas duas páginas, há um pequeno “souvenir”. Se para algumas pessoas das classes intermediárias isso parece exagero ou mentira, nas comunidades pobres ninguém estranha, todo mundo sabe, o desprezo e a agressividade do Estado são cotidianos, em todos os setores, educação, saúde, transporte, etc, não só o da segurança. Se alguém quiser informações reais a respeito, esqueça a mídia privada, os jornalões e as revistrolhas. Eles são funcionários de luxo dos reais donos do poder. As empresas contra o povo, que fica em situação análoga à barbárie (não tem situação análoga à escravidão?).

Depois da tempestade, começam os movimentos. As pessoas se procuram, se encontram, se abraçam, choram, riem. Contam os mortos, os feridos, os prejuízos, respiram fundo. Muitos se preparam pra um novo recomeço, a gente é calejada de tanto recomeço nessa vida. Adubar o chão de novo e recomeçar o plantio. E não há melhor adubo que a cultura, as cores e os sons, o diálogo da arte com a alma, uma arte dedicada a esse diálogo, com os sentimentos e os pensamentos, os valores e os desejos, com o ressurgimento da vida, da adaptação às novas condições, a cura das feridas da alma, mudando a forma e desenvolvendo o conteúdo. O 7º Circulando acontece nessa circunstância, o plantio em terra fértil, o estímulo à vida interna, à capacidade de resistência e superação. O grupo local, Raízes em Movimento , estava nas cabeças do evento (http://www.raizesemmovimento.blogspot.com/). Um evento desse é um renascer de vida impressionante, um sentimento de solidariedade no ar, um trocar de energias quase palpável. Há muito tempo, depois de uma noite de chuva no sertão, coisa rara, acordei para um dia lavado, um cheiro forte de terra, olhei a planície e me encantei. Uma porção de focos verdes salpicados, alguns pontos amarelos, outros vermelhos. Em uma noite de chuva a vida contida na falta de condições próprias explode com força. Cometi o erro de não ir. O convite chegou em cima, eu tinha outro compromisso. Só depois eu percebi que podia ter dispensado o compromisso, mas era tarde. Expus no 6º Circulando e foi ótimo, acho que o 7º foi de arrepiar, com a força da consternação e da afirmação de que a vida segue e nós vamos à frente pela transformação.
Dando ainda esse suspiro de alívio, fico sabendo da Vila Harmonia e Vila Recreio, despejadas ontem, brutalmente, pelas forças do Estado, tratores, casas derrubadas, violências, truculências... Meu Deus do céu! O estado mostra sua cara cachorra, feroz na defesa dos interesses dos seus poucos patrões, mesmo ao custo da desumanidade cometidas contra as coletividades mais fragilizadas da nossa sociedade. Uma vergonha pra todos nós, não vejo nenhuma exceção. Não falo em culpa, mas em responsabilidade. Mesmo que só possa assumir a minha, diante da minha coletividade e da minha consciência.
Já na quinta o Centro de Mídia Independente pedia o apoio às comunidades, denunciando os crimes da prefeitura (http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2010/12/482545.shtml). Na busca por registrar nas delegacias os crimes praticados, a recusa dos funcionários em fazer o registro, sintoma de operação orquestrada, sinal de interesses econômicos por trás. Diz a Mídia Independente:

“Ao se encaminharem para a 42ª DP, os moradores tiveram negado seu pedido de registro de ocorrência por parte dos inspetores de plantão. Alegaram eles que a Prefeitura deveria ter lá suas razões e seus direitos para proceder desta forma. Ainda nessa semana, um outro pedido de registro de ocorrência contra uma agressão direta do meliante Alex contra um morador da Vila Harmonia também foi negada pela equipe da 42ª DP.”

“Monstruosidade sem limites da Prefeitura do Rio: atacam à noite e passam a máquina com mobília e gente dentro e começam as ameaças de morte.”

“A Vila Recreio II, na Avenida das Américas, foi atacada mais uma vez na noite desta quarta-feira, 15/12/2010. Às 19h20 de hoje, o casebre do Sr. Luiz foi completamente destruído por uma retro-escavadeira com grande parte de sua mobília ainda lá dentro.”

“Cerca de quarenta homens da Guarda Municipal escoltaram um grupo de peões para fazer a derrubada da casa às margens da Avenida das Américas.”

“O clima é de tensão absoluta e já há moradores afirmando-se dispostos a morrer por causa de tanta injustiça e tão hedionda postura de agentes supostamente públicos.”

“Eis a lamentável resposta que tivemos ao encaminhar as denúncias para o "Fale Conosco", da Presidência da República:

‘Prezado Senhor

Em resposta a sua mensagem enviada ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, esclarecemos que o assunto apresentado é de competência da prefeitura municipal do Rio de Janeiro. Conforme determina nossa Constituição, o chefe do executivo federal não pode intervir nas questões administrativas dos municípios. Contamos com sua compreensão.

Cordialmente,

Claudio Soares Rocha
Diretoria de Documentação Histórica
Gabinete Pessoal do Presidente da República’”



Realmente, é de lamentar. Mais uma confirmação do seqüestro do aparelho estatal e público pelo poder econômico privado de algumas poucas famílias, estendidas pela elite e pela classe mais alta das grandes empresas, da mídia e da política, sacrificando a população em seu benefício. Então o Estado não pode se manifestar diante de violações flagrantes à sua constituição, por parte de poderes locais ou de qualquer outra maneira? Ora, essa é função constitucional do Estado.

E me vejo repetindo, mais uma vez...

Por isso, a educação pública não pode ensinar de verdade. Não é “descaso” ou “incompetência” dos políticos. É uma estratégia planejada de sabotagem do ensino. A ignorância é necessária à sustentação da estrutura estatal-privada. A mídia encontra as pessoas desarmadas de instrução, informação e senso crítico, impõe valores sociais e pessoais; cria sonhos e objetivos de vida ilusórios; distorce a realidade para que não se perceba as causas e os modos do que acontece; e estabelece sentimentos inconscientes de superioridade e inferioridade de acordo com os níveis de consumo, de propriedade, de riqueza e ostentação. A idéia de diversão foi vinculada ao consumo. Valor social foi vinculado ao consumo. Valor pessoal, valor afetivo, tudo vinculado a valor monetário, ao consumo, direta ou indiretamente.

Por isso não há interesse em acabar com a miséria. Ela serve pra manter os salários baixos, as pessoas se submetem a condições cada vez piores, pressionadas pela miséria ou pelo medo. O programa bolsa-esmola tem uma utilidade. Vai possibilitar a essas pessoas comerem mais próximo das suas necessidades fundamentais, adquirindo mais capacidades mentais e tendo a possibilidade de criar senso crítico, entender mais as coisas. Por isso é tão criticado na mídia. São milhões, muitos terão oportunidades antes impossíveis. O resto é tempo, trampo e multiplicação. A mídia, que deve dividir o seu reinado por milhões (os reais donos do espaço das comunicações, por direito),  faz e fará de tudo para evitar e manter-se no controle.

Por isso os currículos escolares são tão interferidos, direcionados não à formação de seres humanos, cidadãos, membros de uma coletividade e frutos de um sistema natural vivo, mas à qualificação para competir no “mercado de trabalho”. Desumaniza-se. E as conseqüências se fazem sentir em todos os patamares da estrutura social. Quando não é a barbárie, é a pressão entre o consumo, o trabalho e as contas, a ameaça de desemprego ou de queda na renda, a vida angustiada, sem propósito, sem sentido, a carência afetiva, emocional, a falta de sentimento de integração, a ameaça permanente de violências de todo o tipo, da miséria, passando pela criminalidade, ao Estado e às grandes empresas. Tudo é “mercado” e o “mercado” tudo justifica.

Essa conotação da palavra "mercado" cria uma capa de invisibilidade para esconder a pequena minoria por trás de todos os poderes, pessoas com capacidade de interferência e pressão quase ilimitada, ligados a poderes externos, com enorme união de classe, que obtêm gigantescos lucros com a situação de barbárie progressiva em que a sociedade humana se encontra. Não conseguem, no entanto, total controle. Há sempre vazamentos, diferenças de comportamento, contestações, descontroles. Construímos estruturas internas e podemos interferir nas externas. É preciso humanizar a vida. Pra isso, a estrutura social deve mudar, a partir da multiplicidade de mudanças pulverizadas por toda a sociedade e já imunes a destruições planejadas.

Tomando consciência, enxergando além do que nos é mostrado, buscando as informações nos meios alternativos, descondicionando nossos comportamentos, nossos valores e objetivos de vida, corroemos o sistema. Criando solidariedade, desenvolvendo a sensibilidade, fazemos parte da construção descontrolada,  do processo de iluminação e elevação do espírito humano e da sociedade, para construir uma estrutura justa e equilibrada, sem privilégios, ostentações, miséria e ignorância. Porque uma sociedade com miséria material, de um lado, denuncia a própria miséria moral, de outro. Nesse caso, a forma denuncia o conteúdo.
Estas são a segunda e a penúltima páginas do nº 3 do fanzine Pençá.
Achei que compunha uma boa imagem pra postar aqui.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ninguém nasce bandido





Tempos atrás, para chegar em casa, eu passava pelo meio do "movimento", no morro do Fogueteiro, subindo da rua Itapiru em direção a Santa Teresa. Todos me conheciam, morei por ali um ano. Uma vez, eu vinha subindo devagar, de noite, carregado de compras, mais o material de trabalho, quando de um beco sai um moleque pequeno e escuro, com uma bolsa atravessada e uma pistola cromada na mão. No escuro, o cromado aumentava o tamanho da arma e a desproporção com o garoto. Não o conheci e, por instinto, atentei em seus movimentos. Ele caminhou com desenvoltura em direção à turma do "plantão", falou com uns caras da boca, entregou ou pegou alguma coisa que tirou ou colocou na bolsa - não reparei - e saiu andando na direção de uma escada. Dois garotos pequenos jogavam bola perto de um poste mais acima e, nesse momento, deixaram a bola escapar pro lado de cá. Junto com a bola veio o grito - "pega aê!" A bola rolava na direção do menino com a arma e ele virou, levantou a bola com habilidade, matou no peito, fez uma embaixada com os dois joelhos, com os dois pés e devolveu pros meninos no exato local onde eles estavam.


Foi durante esse ato que percebi, meio espantado, ser um menino da idade do meu filho, talvez um pouco mais ou menos. E aí eu pude me dar conta da humanidade dele e da situação em que se encontrava. Tanto que morreu algum tempo depois, como outros que conheci, em tantos lugares.

No desenho eu pretendi inverter o processo de percepção, e escondi a pistola sobre um fundo escuro de uma cerca, para mostrar primeiro a humanidade do menino. Depois, o risco e as opções que lhe são postas, na vida, além de abstrações inatingíveis para a esmagadora maioria, roubada no ensino, na cidadania, na dignidade, nas oportunidades de desenvolvimento real, nos serviços "públicos" e em consciência.

Um outro menino, que chega da escola, de mochila, carregando compras com a mãe, que vem logo atrás, passa tranqüilo pelo fuzil encostado na mesa de sinuca, enquanto os caras do movimento se arrumam com suas mercadorias, funcionários do tráfico nas posições mais expostas e arriscadas, sujeitos a extermínios constantes, mas facilmente substituíveis em meio à miséria circundante. Nesses locais de exclusão, o Estado só se apresenta com a polícia e é quando o terror se implanta na forma mais aguda, pondo em risco a vida de todos na área, matando com triste freqüência envolvidos ou não com o tráfico.

Na birosca rola uma cerveja, uma cana, uma idéia, enquanto as mulheres penduram as roupas lavadas nos varais. Há algo de antigo na favela, de quando as casas ainda tinham quintais e espaço.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.