sábado, 21 de janeiro de 2012

explicação a uma consulta





Cabeça de Fósforo - óleo sobre tela, 55x46cm, 1999

Foi dada uma pequena garibada no texto original.


Olha só.

Aquela pintura foi feita e vendida em 2001, num boteco na frente da minha casa, pra um camarada que bebia comigo, ex-preso político e exilado, que se encantou com a proposta do quadro. Eu falei com ele que cruzara um "gravata", na Rio Branco (centro superlotado do Rio, cheio de "gravatas" e "taileurs"), que saía de um prédio pra calçada lotada onde eu caminhava e se jogou pra cima de mim, confiando que eu sairia da frente, por um sentimento de superioridade dele, imagino, dentro do seu paletó caro, enquanto eu vinha de cabelo comprido, roupa "largada" e mochila nas costas. Eu vi que ele havia me visto de dentro do prédio ainda, em rota de colisão, e não desviou. Eu desviaria dele, mas a mochila estava com uns 40 quilos, pesada demais pra desviar rápido, não dava, eu apenas travei os músculos e esperei a porrada. O cara foi ao chão e se levantou revoltado. Insultou minha ancestralidade, meu aspecto, minha falta de senso em passar na frente dele ("...fica no meio do caminho!!"), até minha higiene pessoal o cara desqualificou, enquanto eu apenas o olhava - imaginando seus batimentos cardíacos, a angústia da sua vida estampada no descontrole, no estado de nervos. Sem responder, apenas atento à possibilidade de agressão física, que não aconteceu. Ele cansou de berrar sem ter retorno e tomou destino; eu fiquei olhando ele ir embora, quando meu olhar cruzou com o do jornaleiro da banca ao lado, que tinha vindo de dentro pra ver o que acontecia e estava com um meio sorriso - talvez pela minha reação tranqüila, enquanto ele esperava um tumulto. No encontro dos olhares, ele sorriu e comentou, "cabeça quente, hein?" Eu respondi "uma hora dessa tem um AVC, fica todo torto e vai ter o resto da vida pra ficar pensando que era melhor não ser tão nervosinho. Cabeça de fósforo!" Ele deu uma gargalhada e voltou pra dentro da banca, falando sozinho, "cabeça de fósforo". Eu saí dali pensando na imagem de um cara de paletó e gravata com cabeça de fósforo. De noite, no bar, comentei com o camarada o acontecido e completei, "tô pensando em fazer um quadro assim..." e expliquei a idéia da pintura. Ele, na hora, bateu com a mão no balcão e disse "um quadro desse eu compro". "Compra porra nenhuma, papo de boteco, tu tá é bêbado" e ele garantiu que não, que compraria mesmo. “Tô bêbado mas sei o que tô falando, caralho”, se ofendendo por eu não acreditar. No dia seguinte, tela esboçada em carvão, levei ao bar pro cara ver. Ele quis já comprar em preto e branco, no esboço mesmo, mas eu não deixei, pintei o quadro em uns dois ou três dias e ele comprou mesmo. Em duas vezes, e pagou a conta do dia e a do dia da entrega, também. Amarradão.

Quem quiser um cabeça de fósforo vai ter que encomendar e nunca vai sair um igual ao outro. E olha que não gosto de usar essa palavra, "nunca". Mas não sai, nesse caso se aplica, a não ser que se recorra a uma copiadora. As cópias serão iguais entre si, embora não sejam como o original. E os originais são o que o nome diz, mesmo - originais. Na imagem que acompanha este texto, por exemplo, o primeiro dos "cabeças", sinto falta de mais gente na rua. E de um estilo mais impressionista, mais tinta e menos exatidão. Veremos como sai o próximo, já encomendado. Quando terminar, ponho aqui, como acréscimo à postagem. A não ser que a Flávia peça pra não colocar.

6 comentários:

  1. Extremamente tenso.. Depois de ler, me deu uma puta vontade de ouvir Pink Floyd..

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  2. Eduardo,
    Nunca fui preso político, muito menos exilado. Detesto 'gravata', mas não tenho nada contra quem a usa, desde que não queira que eu também a use e desde que não fique 'nervosinho' como esse mala que esbarrou em você (mesmo a gente sabendo que quem usa peletó num clima como o nosso pode até se acostumar pelo ofício, mas bem no íntimo deve ficar puto e não tem como não ficar 'nervosinho', afinal ainda não inventaram ar-condicionado para o mundo !).
    Mas lendo essa sua história e vendo esse quadro tenho que entrar na fila das encomendas. Vou fazer isso assim que puder, e via e-mail que é a forma que mais gosto.
    Forte abraço e parabéns por mais este seu trabalho,
    José Rosa.

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  3. Gostei do quadro! Mais ainda por ser original, semelhante a muitos mas diferente de todos! De preferência (e se possível) com vários "gravatas" andando apressados pela muitos nem notando o que aconteceu e uns poucos, mais próximos, espantados/assustados/curiosos...

    Explicito a curiosidade de meu amigo José Rosa perguntando: quanto custaria?

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  4. Tinta a óleo sobre tela, R$ 450. Acrílica, R$ 380. Nanquim sobre papel, R$ 180. Nanquim aquarelado, R$ 250. Grafite sobre papel, R$ 120. Carvão s/papel, R$ 80.

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    Respostas
    1. Gostaria muito de um grafite sobre o papel! Como faço Eduardo!?

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    2. Encomendas no endereço que tá no cabeçário do blogue.

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