terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sociedade, fogo e mídia


Foto: Luiz Armando Vaz / Agencia RBS


Então a mídia tá explorando o sofrimento? Transformando dor em espetáculo? Discute-se a maneira de apresentar os fatos. Respeito pelas famílias, pela dor de parentes e amigos. Fala-se em sensacionalismo, insensibilidade, desumanidade. O incêndio da boate dos universitários, uma grande tragédia coletiva, ocupa enorme espaço nos noticiários, explorando as emoções com perguntas e closes em sofrimento explícito. Questiona-se a ética dos meios de comunicação. Procuro olhar além da questão ética.

Quase ao mesmo tempo desse incêndio, pouco depois, eu creio, mais uma comunidade pobre em área valorizada pegou fogo. Dessa vez em Porto Alegre – São Paulo teve uma epidemia, recentemente, que não acabou * –, queimou a Vila Liberdade, próximo ao novo estádio de futebol que foi preparado pra copa do mundo. O destaque da mídia no incêndio que matou centenas de universitários foi o biombo perfeito, o procedimento rotineiro dos meios de comunicação privados. Interessa ao lucro, às empresas, a minimização de mais essa “cauterização” social, sempre no trabalho de expulsar pobres das áreas ricas ou em vias de valorização. Nada de surpreender. O fogo tem sido utilizado como uma das formas de expulsão, controle, diminuição, avanço do interesse no lucro por cima das comunidades pobres, culturalmente desprezadas e criminalizadas pelos meios de comunicação. Se fossem contar a quantidade de mortos nesses incêndios que ocorrem em todo lado, criminosamente, seriam milhares e milhares. O número de famílias expulsas, que tem seus poucos e essenciais pertences queimados, que tomam destino ignorado, não tem conta. Há séculos essa é uma característica da nossa sociedade. Tiros, sabotagens, terrorismo, mandatos judiciais, polícias ou jagunços, enchentes, desabamentos ou fogo, qualquer recurso pode ser útil a esse procedimento desumano tão comum, tão corriqueiro nessa estrutura torta, que impõe uma aceitação quase automática pela coletividade, como fatalidade, falta de sorte ou qualquer coisa, a mídia é criativa, quando precisa. 

O incêndio da Vila Liberdade não é apenas um incêndio. É um procedimento social, uma ferramenta, um recurso usual de empresários sem caráter nem humanidade, em conluio com as mídias e usando políticos comprados nas campanhas eleitorais.

A discussão ética me parece dispersão. É sabido e conhecido o desprezo do interesse pela ética. Esse é o comportamento padrão desses meios descontrolados, tão influentes nos parlamentos, nos governos e nos tribunais. Como vou discutir a ética da mídia se não vejo nenhuma ética na mídia?

Dias atrás, numa rádio de notícias, os jornalistas falavam de uma manifestação periférica. Moradores de um bairro pobre interromperam uma importante avenida, queimando pneus e encarando a polícia local, causando enorme congestionamento. Esse era o foco da reportagem, os transtornos nas vias em plena hora de trânsito brabo, seis horas da tarde. Era preciso chamar o bope, trazer os helicópteros pra acabar com aquilo. O problema era falta d’água, que fossem reclamar na prefeitura, não tinham o direito de atrapalhar o movimento de uma via central, interrompendo o fluxo já por si tão denso nesse horário, literalmente parando vários eixos de circulação em vários municípios da grande metrópole. Os motoristas estavam nervosos, irritados.

Logo em seguida, os repórteres denunciaram o absurdo do aeroporto Santos Dumont estar sem água desde a manhã desse dia. Os passageiros eram obrigados a comprar água fora do aeroporto. Questionavam a administração, cobravam pela água, o desrespeito com os passageiros. Ainda por cima com defeito no sistema de ar condicionado, era uma situação inaceitável. Caso pra investigação e determinação de responsabilidades. A reportagem descrevia cenas de passageiros sentados, se abanando entre garrafinhas de água, entrevistava pessoas revoltadas, denunciava o absurdo. Quase dez minutos de falatório, com direito a comentários dos "especialistas".

Na periferia, aquela coletividade de milhares de famílias, com idosos e crianças (nunca é demais lembrar), estava sem água em suas casas havia mais de uma semana. É possível viver sem água? A desassistência pelo poder público chega a esses extremos. Mas na ideologia da mídia, esses são probleminhas inevitáveis de qualquer sociedade, o que não pode é interromper o fluxo das coisas. Nem desassistir as áreas onde transitam as pessoas visíveis, classes minoritárias que tem desde seus direitos garantidos até privilégios ostensivos (e ofensivos). Se os moradores do bairro pobre fossem se manifestar em frente à prefeitura periférica, longe dos holofotes da mídia, seriam expulsos dali a tiros de borracha e gás lacrimogênio. Como acabaram sendo, na via pública importante. Só que ganharam visibilidade e no dia seguinte a água chegou em suas casas, pelo temor de novos problemas que afetassem os municípios vizinhos maiores. Racionada, mas chegou. Com pouco a população se vira. E dá-lhe migalhas. Investigar as razões e as responsabilidades pela falta de água, por uma semana, numa comunidade com milhares de famílias não passou pela cabeça dos repórteres. É uma obrigação do poder público e a necessidade mais fundamental que existe. Mas para a mídia, só se fosse em outros bairros, com outra gente. Menos pobre, claro. Essa maioria não cabe nas telas de tv, nem nas ondas de rádio.

Não há que contestar a mídia, nem apontar algumas de suas falhas. Toda ela, a mídia comercial, é falha, a partir de sua origem obscura e suas relações mais obscuras ainda. A alma da mídia privada cheira a esgoto. A estrutura das comunicações do país está dominada, apesar das lutas para liberar essa área estratégica da sociedade. E joga contra o povo todas suas forças, no sentido de concentrar poderes e riquezas, de explorar a população e o patrimônio público, de impor ao Estado o roubo dos direitos da maioria e na criação de privilégios para a minoria dominante e seus servidores de luxo. Os privilégios são formados com o roubo dos direitos.

Mas essa estrutura de controle das comunicações (e social) está com furos. Cada vez mais, a mídia se desmascara, se entrega. Os vazamentos se fazem, a internet mostra o outro lado, as informações por trás das informações. Quem tem foco, quem busca saber as verdades, sem buscar as verdades convenientes, tem acesso aos fatos reais, ou mais próximo da realidade que a mídia prima por esconder ou distorcer. A maioria ainda tem a cegueira dos viciados, entorpecida pela própria mídia. Mas quem acorda chama outros. Esse é o processo. Sem esperar resultados prontos, apenas participando da caminhada. E isso dá sentido, motivação e satisfação à vida.

* http://observareabsorver.blogspot.com.br/2012/09/fogo-nas-favelas-de-sao-paulo.html





19 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. A maioria ainda tem a cegueira dos viciados: Sim.

    Mas quem acorda chama outros: Acordei depois de ler este Blog. É muito satisfatório chamar os outros!

    Parabéns.

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  3. Cara, o comentário do André Sabino, é perfeito! É preciso continuar a luta, pois aos poucos vamos acordando, nós e os demais.
    Excelente artigo!
    Maria do Rocio/Curitiba-Pr.

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    1. Meu legal ver o pessoal acordando!

      Pena que no facebook a galera so compartilha o circo, mas com uma joinha e um compartilhamento ja fiquei feliz... entendo quando ele diz "apenas participanto da caminhada"... tudo a seu tempo...

      Saudações

      André Felipe Sabino

      Zona Norte /São Paulo - SP.

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  4. http://utopiasedentaria.tumblr.com/
    para todos que enxergam a sociedade da mesma maneira que eu

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  5. Despertar, compreender, observar e absorver... Teu blogue oferece uma bela contribuição ao processo, que não é linear e nem tem rumo certo... justamente por ser incerto, é importante continuar. Nao esperar ver a mudança, mas sempre ter esperança que ela um dia venha, de várias e múltiplas formas.

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    1. Mais que esperança, é um sentir. Uma certeza do coração.

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    2. Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque esta escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o.

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    3. Não sou chegado a verbos no imperativo. Nem afirmativo, nem negativo. Como ouvi de uma senhora nordestina analfabeta e sábia, conselho e água só se dá a quem pede, pra não ter risco de desperdício.

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  6. O vídeo diz muito... https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=SyL4iVQbJdA

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  7. É triste, mas já dizia Eduardo do Facção Central: VIOLÊNCIA vende mais que AMOR.
    A mídia se aproveita disso e deixa a notícia fritar pelo máximo de tempo possível.

    Parabéns pelo blog, é bom ver mentes iluminadas no meio de muitas alienadas.
    Abraço

    http://fooaam.blogspot.com.br/2013/01/tragedia.html

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  8. Eduardo,
    vim em nome dos editores da Rebosteio agradecer imensamente a entrevista que nos deu.
    A edição de Cultura de Rua/Cultura Marginal já está no ar pra ler online, neste link:
    http://issuu.com/rebosteiodigital/docs/rebosteio_5_-_web
    Esperamos que goste!
    Abração,
    Mercedes.

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  9. Eduardo, você melhora o que há para se dizer de "humano". Acompanho o blog desde então, peguei o link na Rebosteio. Resido em Goiânia. Sem mais. Rodrigo Freire.

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  10. Eduardo, um amigo no Facebook ouviu de moradores que a tal causadora do incêndio, uma consumidora de crack em péssimas condições de vida e saúde, recebeu 400 reais pelo "serviço". Claro que não dá pra ter certeza, nessas horas se diz muita coisa. Mas que eu não duvido que seja verdade, não duvido....

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    1. Eu soube e é bem provável. Ela tá morando numa comunidade próxima, seria bom encontrá-la. Ela está em risco, se for verdade, de queima de arquivo. Seus corruptores podem tranquilamente se transformar em seus assassinos. Tomara que não, mas seria bom prevenir. A aproximação dela, com solidariedade e compreensão, ao invés de acusações, pode despertar sua consciência adormecida e fazê-la relatar o que passou, inclusive revelando quem pagou pelo incêndio, informação altamente importante.

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  11. Eduardo, você já conhece esse trabalho do Eduardo do Facção Central? Caso não, dá uma sacada nesse vídeo. É bem interessante. Uma bela obra pra engrossar o caldo desse despertar que está ecoando cada vez mais pelas ruas.
    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=H7kK4ORmMe0

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  12. Esse modo de comunicar a vida, que as empresa fazem, está ficando cada vez mais falho, ainda bem. Percebe-se, cada vez mais, os valores falsos da televisão. Eles não mostram o que acontece, eles mostram o que eles querem que aconteça ou que tenha acontecido. É diferente...

    Um exemplo é a lei seca, que aplacou o seu sucesso com a criação de multas e de uma indústria fortíssima que vê a morte como lucro. O problema não é dirigir bêbado correndo o risco de matar alguém, o problema é dirigir e ser multado. Dizem que a lei é um sucesso... é assustador.

    Mais importante do que perceber as falhas, é mostrarmos esses erros às pessoas que ainda não perceberam.

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  13. Recomendo que veja um pequeno documentario sobre especulaçao imobiliaria no RJ: http://vimeo.com/49419197

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    1. Esse documentário tá publicado aqui neste blogue.

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