terça-feira, 1 de outubro de 2013

Papo com Ricardo

Esse papo rolou em 2011, de lá pra cá o Ricardo teve um casal de filhos, Fernando e Eduarda. Sempre pensei em publicar nossas conversas, mas a intenção era colocar no papel, fazer livrinhos manuais, por serem curtos, pequenos e fáceis de vender. Além de serem bons de ler, na minha opinião, claro. 

Ricardo é meu amigo há anos, dessas amizades raras que duram a vida inteira. É como se a gente fosse formando uma família com base na afinidade, não na consangüinidade. Se a reação for boa, publico outros.

Sei que o blogue tá meio abandonado de novo, por isso vim dar uma capinada no mato. Logo devo recomeçar as publicações. Espero. A vida não anda fácil, não, e o que me banca é o trampo de rua, os desenhos, as pinturas. Daí a ausência. Abraços a todos e bom proveito.

Eduardo. 

A Lua de mel e o pastor de Jesus

- Falaí, Edu... já voltou ou não?
- Tô em casa.
- Quando chegou?
- Quinta-feira antes do carnaval.
- Ah, tem tempo, então. Fez alguma coisa no carnaval? Viajou?
- Passei o último fim de semana num sítio em Parati.
- Que beleza, hein, foi acompanhado?
- Fui. Com aquela dona que te falei, tava em banho maria.
- Que dona é essa... a cantora?
- É.
- Ah, tá. E foi legal, lá? Levou os trampos?
- Demais, o sítio é lindo, cheio de cachoeiras, longe pra raio, isoladão. Não tinha porque levar trampo. Mas ela me pagou pra ir. Motorista. A motorista dela, amigona – a mina é motorista de ônibus, cara –, faz um bico dirigindo pra ela, que precisa ter carro, mas não dirige. Ofereceu o que pagaria a ela, pra ir no sítio. Até porque, quando me chamou, eu disse que não iria a lugar nenhum, sem trabalhar.
- rsrsrs... gigolô!!!!
- Tu não podia deixar passar essa, né?
- kkkkkkkk... Não podia mesmo. Aqui... tá sabendo a novidade? Tô casando em outubro... eu acho. Rsrs
- Eu acho? Que é, pressão?
- rsrs Não... é que eu não sei se vou conseguir arrumar tudo, até lá. Vamos fazer uma coisa simples, pra poucos convidados.
- Arrumar o quê?
- É muito detalhe. Cartório... local da festa... casa... mobília... lua de mel... etc, etc, etc...
- Bobagens... Lua de mel?
- Lua de mel, sim. Bobagens que custam dinheiro, tempo... e disponibilidade, claro.
- Seria melhor ‘festival inicial de sexo”.
- huahuahuahuahuahuau... tem que ter um lugar legal pra esse festival.
- Lua de mel é xaropada. Careta.
- Tudo bem, concordo com a expressão “festival continual de muito sexo”. Continual porque não vou iniciar nada, né?
- Não. Mas serão dias dedicados, principalmente, ao sexo comemorativo da união estabelecida.
- Ah, entendi.
Estamos escolhendo entre o Morro de São Paulo, na Bahia – minha irmã foi pra lá no carnaval, disse que é uma coisa maravilhosa – ou então um desses navios de cruzeiro.
- Morro de São Paulo é Argentina...
- Que Argentina o quê, ô maconha, é na Bahia. Pelo menos esse que eu tô falando.
- É na Bahia, mas é Argentina.
- Ah, entendi.
- Cê falou em cruzeiro?
- Falei. A Faby quer ir nessa merda de qualquer jeito.
- Navio de cruzeiro?!
- É, transatlântico. Desses que passam por Fernando de Noronha.
- Tem vergonha na cara, não, ô pequeno burguês?
- kkkkkkkkkkk... é a vontade dela.
- Putz, que deprimente... quer ir pra ilha da fantasia...
- Eu vou fazer o quê? Prefiro essa parada na Bahia, mas se ela bater o pé, eu vou.
- Que triste.
- Obrigado. Também estou muito feliz.
- Lamento sua sorte, companheiro. Em pouco tempo, vai ter uma barriga nesse teu corpo magro.
- Dispenso seus lamentos e lamúrias. E eu já estou com barriga. Ela vai muito bem, obrigado.
- Daqui a pouco cê vai estar contando como foi feliz a sua juventude.
- Ah, que bom que você acha isso. Realmente é tudo o que espero, que suas palavras se transformem na mais pura realidade.
- Alienado, flácido, acomodado e “feliz”. Cada um com sua sina...
- De pau ereto, fazendo muito sexo e aproveitando a vida. Muito “feliz”. Eu adoro a minha sina. Kkkkkk
- Questão de tempo. Com 35 vai estar mais velho que eu.
- Questão de tempo, eu vou dizer como você está errado.
- Ah, eu já vou ter morrido.
- Mas discutir com você é impossível. Então vou deixar que o tempo revele quais são realmente meus planos.
- Seus planos são bem planos, mesmo, hein?
- É, cara, meus planos são muito maiores do que um simples julgamento de como será a minha vida, baseado numa lua de mel... que nem decidi ainda pra onde vai ser.
- Há sinais, vê quem é capaz.
- E você é o capaz na história, né?
- Questão de prática, bundão. Reconhecimento, precisa não. Crédito, precisa não. Vai aí, boi. Passarinho de gaiola.
- Você não sabe de nada, seu babaca. Agora eu sou um novo homem. Parei de fumar maconha e de beber. Entrei pra Igreja Internacional.
- Tu gosta mesmo é de alpiste.
- E o pastor me disse que eu vou me dar muito bem na vida, terei todo o dinheiro que eu quiser e o mais importante...
- Cê vai é dar muito na vida.
- ... se eu der um pouco pra ele... não vou para o inferno.
- Tá vendo aí?
- Ou seja, estou no caminho certo.
- São os parâmetros de felicidade. Vai aí, boi. Ou vaca.
- Eu vou passar aí, Edu. Vou levar umas revistas que o pastor me deu. É muito importante que você leia e aceite Jesus.
- É bom, acabou o papel higiênico aqui em casa.
- Não queira conhecer o inferno... se você pedir perdão pelos seus pecados eu vou lhe conceder a luz divina.
- Sua luz divina você pode enfiar no olho cego.
- Oh!!!!!!! Não quero mais ouvir essas blasfêmias... que Ele te perdoe. Você não sabe o que diz... acho que está possuído. Tô ligando pro pastor e dando seu endereço... ele vai passar aí pra tirar o capeta do seu corpo... calma, amigo, eu vou te salvar.
- Vem, viado, que eu vou te mostrar o tamanho do que tu vai salvar.
- huahuauhuahuauhuahuauhauah Deixa eu trabalhar, cara. Tô rindo aqui, sozinho, e neguinho já tá me olhando estranho. Kkkkkkkkkkkk
- Eu também tenho mais o que fazer. Aparece depois.
- O recado tá dado. Vou casar. E mesmo você estando possuído, está convidado. Será um prazer contar com a sua presença na comemoração. Vou dar uma passada aí essa semana.
- Me lembra quando chegar mais perto. Daqui pra lá, eu esqueço.
- Beleza.
- Abraço, compade.
- A gente ainda se fala, antes. Abração.

- Inté.

16 comentários:

  1. Já tava tudo indo mal, com o "responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão" dizendo que tava fazendo planos (mas quem faz planos quando a esposa é que manda e decide até onde vai ser a lua de mel na marra?) e piorou com a revelação final da conversão.
    Pessoas assim são tristes e covardes, e com vergonha de serem tristes e covardes sozinhas, querem nos levar para a sua tristeza e covardia também.
    Tô fora.

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    1. O que mais me surpreendeu foi ele não ter entendido a brincadeira. Mas eu, particulamente, gostei, ainda mais porque comigo e meus amigos mais chegados (estes que estão aí há mais de dez anos e contando) é exatamente do mesmo jeito. Hehehehehe! Continua com as histórias, Eduardo! o/

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  2. ficou bom, me deu uma ideia pro meu blog tbm.

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  3. massa... a maiêutica da amizade !!!

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  4. Caro Eduardo, sei que você nutre certa aversão por termos acadêmicos ou menos populares, entretando, como você se expressou por meio de diálogos achei que cabia uma provocação, contudo não uma provocação vazia ou mesquinha, mas algo que nos inquieta e, ainda que o mundo e as relações por si só jah sejam muito inquietantes e provocadoras, penso que ao nível do pensar é sempre um pouco ou bem mais cômodo se aquietar. Maiêtica é o método socrático que leva da dúvida até a concepção de uma nova idéia por meio do diálogo. http://pt.wikipedia.org/wiki/Mai%C3%AAutica
    abraço e vida longa brother

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  5. Abraço, parceiro. Vida longa eu já não sei, não. rs

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    1. Se aquietar, embora o nome, nunca vi ser cômodo. Questão de tempo...

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Adoro sua forma sutil e delicada no prosear kkkk Adorei mano véio...

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