segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sentimentos Falsos - texto do fanzine Pençá, nº 5

Favela Santa Marta, Rio de Janeiro.
Casa por cima de casa, becos, escadas, passagens pra todo lado. Nas partes mais inclinadas, uma floresta de vigas de concreto lembra árvores, com a folhagem de tijolos. Lages, casas, puxadinhos, quartos, degraus irregulares entre calçadas e valas. Aqui nunca veio um engenheiro, foi tudo feito e construído por operários, peões, gente pobre de todos os tipos que constrói por conta própria. O peão não depende do engenheiro pra fazer sua casa. Já o engenheiro não constrói sem o peão, sem o operário. Depende dos "menos qualificados". Mas ele se sente superior, enquanto o peão se sente inferior. Sentimentos fabricados, artificiais, sem razão real de ser. ("Não há saber mais ou saber menos; há saberes diferentes" - Paulo Freire)

Tudo o que se come é plantado e cuidado por mãos pobres. Colhem, trazem, preparam. Mãos pobres costuram tudo o que se veste, fazem os sapatos, as calçadas, põem o asfalto nas ruas, constróem tudo o que se vê, casas, hospitais, escolas, clubes, mansões, parques, praças, barracos,... Mãos pobres põem a sociedade pra funcionar, ligam as máquinas, limpam, preparam, carregam. São mãos pobres que buscam doentes e feridos pra serem atendidos e cuidados em primeiro lugar por mãos pobres. Elas enterram os mortos. Os pobres são a base de toda a sociedade. Sem eles, nada funciona.

Apesar disso, o mais pobre é levado a se sentir inferior. E o rico, que depende de pobre pra tudo, se sente superior. Sentimentos falsos, implantados pela mídia, pela cultura do consumo, pra que a gente se submeta conformada a uma vida massacrante, à exploração, sem perceber sua importância na estrutura social, acreditando valer pouco ou nada. Impotência planejada.

O medo dos poucos "de cima" é os muitos "de baixo" começarem a pensar por conta própria e verem, com olhos próprios, a realidade além do que é mostrado. A estrutura social, pra se manter como está, precisa de ignorância e desinformação, de miséria e abandono - pra que se aceite, por medo, a exploração e a vida sem sentido, ou com o sentido vazio do consumo. Precisa do medo que paralisa, dos entretenimentos que ocupam o tempo e o pensamento e dos desejos de consumo que desviam a atenção.

A união, a cooperação e a consciência das populações é o pesadelo das elites e a libertação dos povos.

9 comentários:

  1. Meu nome é Lucas, tenho 19 anos e talvez me encontro na mesma situação que vc passou quando tinha a minha idade. Recentemente, fui aprovado no concurso da Caixa Econômica, fiz a prova por pressão do meu pai, que é funcionário público, e não me vejo trabalhando em banco. Não quero ter que vender produtos inúteis, não quero ter que enganar as pessoas apenas para enriquecer ainda mais o banco, é injusto. Meu maior medo é viver infelicidade. Bens materias não valem porra nenhuma mesmo. Grande Abraço.

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    1. Aos 19, a bem da verdade, eu já tinha sido bancário (BB), militar (EsPCEx), mergulhador, vendedor, caroneiro, estudante universitário. E aí mudei de vida.

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    2. Mesmo aqui, meus pais me pressionando para ser algo que não quero. É foda, você não sabe o que fazer. Se tenta agrada-los ou se tenta agradar a si mesmo, e assim deixa-los decepcionados.
      Eu gosto muito da minha família e não sei se conseguiria deixa-los, mas se ficar e não obedece-los vai ser um conflito, uma incomodação constante.

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    4. Não tem como a gente fugir da própria natureza. Se a sua natureza for de ser andarilho, que você seja isso. Mas também pode ser que não seja isso. Porque você não aproveita as férias pra tentar algo diferente? Na direção do que você quer? Nem que seja pra dar uma de maluco por aí e ver se não é isso o que você precisa?

      Ouvi dizer que, aos 40, essa incomodação constante se torna uma ENORME frustração na vida, uma verdadeira depressão, por não ter feito o que você realmente queria fazer com as oportunidades que teve (no caso, o tempo, a juventude). E eu já conheci gente aos 50 dizendo que se sente arrependido por ter vivido pra provar algo pros outros. Ele toma antidepressivo. Não fiquei surpresa, pois vinha observando o comportamento dele.

      Tem um filme chamado "As Horas" que retrata algumas pessoas que se sentiam muito incomodadas com o andar da vida por não fazer o que realmente queriam. O filme é baseado em um livro inspirado em outro livro chamado "Mrs Dalloway", da Virgina Woolf.

      Vi essa postagem no facebook que me fez pensar muito. É uma interpretação da lenda grega do minotauro. Dá uma lida sobre a história do minotauro depois, acho interessante.

      'Nos labirintos do livre arbítrio

      Labirinto é uma palavra que vem do grego: "labis", que significa um machado de dois gumes.

      Daí se deduz que, num labirinto, é necessário escolher uma entre duas opções, custe o que custar.

      Porque o herói Teseu teve sucesso ao escolher entrar, matar o Minotauro e sair vivo do labirinto?

      Parece que o fio Ariadne seria a resposta. Mas Teseu ainda não sabia que esta opção era viável quando escolheu enfrentar aquele desafio.

      Diferente dos outros jovens de Atenas que, sem ter uma escolha, eram sorteados e entregues anualmente a Creta para servir de alimento ao Minotauro, Teseu tinha um propósito. Ele pediu ao seu pai, o rei de Atenas, para ser entregue a Creta - junto com outros jovens sorteados - no cumprimento de uma missão de sua própria escolha e risco. Ele assumiu a responsabilidade pelos problemas de seu povo, ainda antes de se tornar rei.

      O fio da meada começa nesta escolha responsável e o seu desenrolar só ficará claro rebobinando do fim para o começo.

      É o propósito que norteia as escolhas, sendo um fio de Ariadne desde o início e no tempo presente do desenrolar da aventura do herói do labirinto. Já o medo evita os propósitos temendo seus inevitáveis riscos e é isso que faz um jovem ficar marcando passo nos seus conflitos de culpa e medo, evitando os riscos contidos nas escolhas.O jovem, assim entregue a própria sorte, fica paralisado em algum beco do seu labirinto à espera do Minotauro.

      O Minotauro é o tempo passado, com seu apelo regressivo, o comedor dos potenciais contidos no agora, ou seja, dos dons e talentos que, por não serem apoiados por um propósito que os desenvolva no tempo presentificado, são devorados antes que sejam atualizados e realizados.

      Sergio Condé."

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  2. Satisfação enorme de ver que vc leu meu post. Sabe me dizer se o seu livro ainda está a venda nas lojas?

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    1. Não sei, parceiro, se tiver é rescaldo. A editora fechou, devo procurar uma gráfica no ano que vem pra reeditar, diretamente, sem a intermediação editorial. Soube de pessoas que encontraram, na Saraiva, na Singular, numa livraria de Curitiba, mas não sei se há mais ou ainda. Na minha mão sobraram oito, que estou guardando até definir gráfica e impressão.

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  3. Boas...Eduardo:

    "No Brasil estão as sementes da Nova Terra"

    Beijo na alma bróder.

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