O atual governador (devo dizer gerente) está empenhado em atender a demanda dos seus financiadores de campanha - tranformar esse reduto cultural, a primeira casa dedicada à cultura indígena na América Latina, num estacionamento para o chópim-center que será construído no Estádio Mário Filho, o Maracanã. O cúmulo da insensibilidade, do descaramento, da falta de respeito e da hipocrisia.
Falam em desenvolvimento... que porra de desenvolvimento é esse que só existe na matéria? Não se desenvolve a alma, não? Não dá vergonha a continuação do massacre secular, sempre por interesses materiais, nisso que chamam de riquezas, mas que empobrece escandalosamente o espírito? Somos uma civilização muito sem-vergonha, mesmo.
Falam em atraso dos índios... no entanto nas sociedade indígenas não há abandonados, não há privilegiados e sacrificados, a miséria e o excesso são desconhecidos e indesejados, por desnecessário. Exatamente a busca do excesso está na raiz das crueldades sem conta que se praticam todo dia, em toda parte. A ânsia por muito mais do que se precisa é causa primária da estrutura social em que estamos, onde a vida é uma arena onde todos são adversários, não existe solidariedade e tudo se resume no mercado de consumo e no mercado de trabalho - com o martelar de entretenimentos vazios pelo meio, pra servir de válvula de escape e ajudar a alienar o pensamento, a confundir a realidade. Não há moral pra falar da sociedade indígena, em uma sociedade tão injusta, perversa, covarde, genocida, ecocida e suicida.
A liminar que impedia a remoção dos índígenas de várias etnias da Aldeia Maracanã - e a demolição da casa - foi derrubada ontem e o governador tratou de reafirmar a intenção de retirar as pessoas que resistem lá, há anos - a ataques, ameaças, incêndios criminosos, bombas atiradas de madrugada, sabotagens e terrorismo cotidianos. Uma covardia descarada, mas é preciso acalmar os empresários que sofrem por ainda não terem construído o tal estacionamento. Afinal, eles investiram muita grana nas eleições, agora querem a contrapartida. A lei - ora a lei -, a única lei que esses caras reconhecem é a lei do mercado. E usam o jurídico pra dar um aspecto legal aos seus crimes morais. Contratam advogados que são verdadeiros malabaristas de leis. O que não é difícil, pois no direito romano que estrutura a legislação brasileira, patrício se dá bem e plebeu se fode.
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Ontem, segunda-feira, dia 13 de Novembro, foi cassada a liminar que impedia a demolição do antigo Museu do Índio e protegia os índios da Aldeia Maracanã que lá residem. A Aldeia Maracanã é uma comunidade indígena multiétnica que já há 6 anos ocupa aquele espaço, abandonado pelo poder público, de forma construtiva, promovendo eventos culturais, preservando e tornando acessível a cultura indígena. Funciona como centro de referência para os inúmeros índios que chegam ao Rio de Janeiro, do Brasil inteiro, em busca de estudo e emprego. A queda da liminar representa uma ameaça da iminente retirada dos índios que lá moram. E, consequentemente, uma ameaça às suas vidas, uma vez que eles já se estabilizaram no local e não tem para onde ir. O próprio prédio -centenário - tem valor histórico e cultural inestimável, tendo funcionado como o Museu do Índio, fundado por Darcy Ribeiro e em operação até a década de 70 (hoje se encontra em Botafogo), e marcando os passos do Marechal Rondon.
Vale ressaltar, apesar da falta de verba para reforma, que o prédio está, na medida do possível, conservado e bem utilizado. Segundo o defensor público André Ordacgy, existe um laudo do IPHAN a favor da preservação do prédio, assim como um laudo do CREA afirmando que a reforma é possível.
Afonso Apurinã: 8362-1472
José Guajajara: 9504-7517
(Breno)
No vídeo abaixo, depois de apresentar a casa, termina apresentando um texto em que aparece a empresa interessada na demolição, IMX. Sabe-se que terminam em X as siglas das empresas do podre de rico Eike Batista, o mesmo que está financiando Unidades de Polícia Pacificadora em locais estratégicos. Com que interesses, não é difícil imaginar. Mas é um notório financiador de campanhas, o "investimento" mais seguro que existe e de maior retorno imediato em obras superfaturadas, em utilização das forças de segurança pública para a "limpeza" dos locais onde haja interesses empresariais (leia-se a remoção dos pobres, com direito a gases tóxicos, pancadas a rodo, tiros de borracha e o cacete. Diálogo gravado pela polícia federal revelou o conselho de um rico empresário a outro - "investe 30 milhões em campanhas e você tem 300 milhões em obras públicas pro ano todo". Esta é a sociedade em que vivemos. Vergonha de participar disso, não posso ser "normal" nessa merda social. Essa civilização é a própria barbárie. Com altas e baixas tecnologias, a alma é esquecida.
Com a exigência legal de audiência pública a respeito da privatização do Maracanã, o governo monta uma farsa e tenta ignorar a sólida oposição moral à entrega de mais esse patrimônio público à avidez empresarial por lucros a qualquer custo. Não só a Aldeia Maracanã, com a Casa do Índio, mas uma escola pública também está destinada, por esse governo-gerência, à demolição, para abrir espaço aos lucros tão ambicionados pelos financiadores de campanhas eleitorais, donos de políticos, sejam legisladores ou governantes.
Isso não é o Brasil, nem representa mais que a parte menor e mais doente da sociedade. Os governantes, os "representantes" do povo, são comprados nos balcões eleitorais. Não é de se estranhar que as ditas "políticas públicas" sejam decididas por empresários, nos bastidores das campanhas e no ar condicionado dos gabinetes. E há idiotas que responsabilizam a própria população, deliberadamente sabotada em instrução, em informação, altamente narcotizada pela mídia e pelo massacre publicitário, conduzida como gado aos infernos das suas vidas. Uma demonstração de cegueira e impiedade. As estratégias de controle, condução e repressão estão aí, no cotidiano, no dia a dia, em toda parte, explícito ou subliminar, declaradamente ou pelo inconsciente.
