segunda-feira, 15 de junho de 2009

Expectativa






A expectativa indevida é mãe de muitas frustrações. Há expectativas devidas, quando se confia em alguém é justo se esperar lealdade. Mas a maioria das expectativas é indevida. Espera-se que o filho siga uma profissão, que seja desta ou daquela maneira, ou que nunca seja de alguma forma; espera-se disponibilidade, espera-se confiança, espera-se paciência, espera-se conivência, apoio, carinho, espera-se gratidão.
Expectativa gera frustração, que gera sofrimento, que gera mais sofrimento. Se não esperamos, não sofremos tanto. Por que, então, esperamos quando é indevido? Porque somos presos à visão estreita da nossa própria pequeneza. Quando fazemos algo por alguém, por exemplo, o objetivo não precisa ser a gratidão da pessoa, ou mesmo que ela aproveite bem o que fizemos. Se tivermos como objetivo apenas fazer o que nos for possível fazer, estaremos satisfeitos ao fazê-lo, independentemente do proveito ou do reconhecimento. Veremos ali uma pessoa grata ou ingrata, capaz ou incapaz de aproveitar as oportunidades, demonstrando o que é, sem que isso nos fira. Apenas uma lástima.
Além do mais, agir da melhor forma possível sem esperar nenhuma espécie de retorno nos permite não desistir de seguir fazendo, tentando, oferecendo, o que é uma alegria poder fazer, faz até bem à saúde. Decepções acabam nos amargurando, estragando a vida, é preciso evitá-las ou, se não for possível, superá-las. Algumas das melhores pessoas que conheci, recebi em casa como hóspedes, mal as conhecendo. Resolvi não permitir que um ou outro traiçoeiro me fizesse fechar as portas e parar de receber. Estudando bem cada caso de engano, fui aprendendo a distingüir os sinais de caráter, antes de depositar confiança.
Uma vez, quando andava a esmo pelo mundo, fui recebido por uma senhora viúva que morava com filhos, noras, genros e netos, tudo no mesmo terreno, várias casinhas e composições familiares, a maior era a da mãe, que a dividia com dois filhos ainda não casados - haviam sido 18, oito não "vingaram", morreram pequenos, dois morreram grandes. Um morava numa cidade vizinha. Cheguei no pricípio da noite, pedindo pouso na varanda, a velha estava na janela, candeeiro aceso num prego, no alto, expliquei que viajava e só queria dormir pra seguir no dia seguinte, ela mandou entrar, chamou os filhos, perguntou se eu já tinha jantado. Mandou a filha fazer um prato de comida. Fui levado pra dentro, jantei o que havia nas panelas, sobrado do jantar deles. Aos poucos foram chegando os familiares das outras casas e, em pouco tempo,me enchiam de perguntas e respondiam as que eu conseguia fazer. Soube que a mãe ficava na janela todo dia, esperando o filho que "sumiu no mundo", atrás "sabe lá Deus o de que esse menino foi atrás". Todos achavam uma perda de tempo, tentavam convencê-la a abandonar o hábito, achavam que ela ficava sofrendo à toa, mas ela se limitava a responder "ele vai voltar, que eu sei", baixo, olhar no escuro da noite. Quando tinham saído quase todos e a viúva estava tirando o lampião, eu me arrisquei a perguntar - "o que a senhora fica fazendo?" "Rezando, meu fio, pra que ele seje recebido bem, como eu lhe recebo". "E a senhora acha que ele vai voltar nessa hora que a senhora fica na janela?" Ela me olhou condescendente, sorriu. "Essa é a hora que eu dei pra ele, de todo meu dia. Deus é que sabe se ele volta, mas eu tenho que esperar aqui, todo dia". E acrescentou, quase como para si mesma, "é o jeito d'eu tá com ele, senão morria de sofrer". Aí eu entendi, senti a grandeza daquela espera, mística, interna, pacificadora. Essa mãe coloquei no alto do desenho.

22 comentários:

  1. Expectativa indevida, frustração provável.

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  2. Cara, achei muito legal essa história ! Me tocou mesmo !

    Achei muito apropriada colocá-la junto com essa visão crítica que tu apresentas da expectativa.

    E a tua frase sobre "agir da melhor forma possível sem esperar nenhuma espécie de retorno" é muito profunda. Inclusive isto é um ensinamento que está num livro bem antigo, chamado Bhagavad Giita (no mínimo você já deve ter ouvido falar, se é que já não leu).

    Quando comecei a ler teu texto, fiquei pensando que as expectativas devidas também são problemáticas. Porque, se a pessoa fica esperando certos resultados a partir do que faz, e consegue esses resultados, há uma tendência a ela apegar-se a esses resultados. É uma forma sutil de aprisionamento.

    Coisa muito diferente é planejar um ação racionalmente: avaliar a situação, ver as possibilidades de ação, as consequências que se pode esperar de cada ação, e escolher visando o bem comum.

    Enfim, a história que tu escolheste compartilhar conosco nesse contexto é muito especial. Mostra a senhora agindo de forma muito racional em uma questão emocional muito delicada para ela, e com a sabedoria de que os resultados cabem a Deus. O funcionamento do universo é tão complexo e sutil, que escapa facilmente à nossas pequenas mentes, com nossa pequena inteligência.

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  3. Exemplo de expectativa devida:
    - ao confiar num amigo, é justo esperar sua lealdade.
    (no caso de traição, não fomos capazes de perceber o real caráter do "amigo". Cabe apurar a sensibilidade, buscar na memória a(s) oportunidade(s) perdidas de percebê-lo e considerá-lo não um traidor, mas um professor - não nos cabe impor-lhe conseqüências, suas colheitas estão no seu caminho, como as nossas estão no nosso)

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  4. Em lugar da "expectativa devida" ainda prefiro a profundidade filosófica da outra idéia: "agir da melhor forma possível sem esperar nenhuma espécie de retorno".

    Esperar lealdade ainda é esperar alguma espécie de retorno.

    A profundidade filosófica a que me refiro vem do seguinte:
    Nada neste mundo de seres finitos e temporários é duradouro.

    É claro que há pessoas que qualificamos como leais, e outras como traiçoeiras. Sem dúvida.

    Mas se uma dia marcarmos um compromisso de vida e morte com uma pessoa da qual esperamos lealdade, e se ela tiver algum impedimento que a impeça de cumprir o compromisso ? Ela pode até mesmo ter morrido...

    Qualidades como lealdade, confiança e outras são propriamente adquiridas com a prática, não com discursos e intenções.

    Penso que uma pessoa correta vai admitir que não pôde corresponder à lealdade que se esperava dela nessa situação.

    Por isso é que disse a senhora da história, na sua sabedoria: "Deus é que sabe..."

    Algumas expectativas podem parecer que têm melhor fundamento do que outros, podemos classificá-las em "devidas" e "indevidas" de acordo com isso, mas no fundo, no fundo, o terreno é incerto.

    Por isso, filosoficamente e também praticamente, toda e qualquer expectativa, no fundo, no fundo, é indevida.

    Mahesh

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  5. Não posso concordar com isso. Evito as palavras tudo, sempre, nunca, todo, porque não acredito que o alcance humano seja pleno. Não alcançamos esses conceitos. Perfeição, eternidade, liberdade, felicidade, etc, não temos alcance pra alcançar. Pretender isso é o que a palavra já diz: pretensão. É não reconhecer nossa própria incapacidade. Estamos em processo.

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  6. Exatamente o que eu penso. Parabéns ! Excelente !

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Muito bom...
    ...quanto custa o trabalho?
    Pode enviar por correio?

    um grande abraço

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  9. Tocante, tudo. Mas, o mais tocante para mim: "Resolvi não permitir que um ou outro traiçoeiro me fizesse fechar as portas e parar de receber. Estudando bem cada caso de engano, fui aprendendo a distingüir os sinais de caráter, antes de depositar confiança". Nada esperar do outro não significa perder a esperança da troca. E as mazelas provocadas por 1000 mau-caracteres jamais poderão apagar os efeitos de um só homem de bem. Sem expectativas, mas sempre com esperança. (DeboraH)

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  10. Muito bacana o ensinamento dessa senhora. O que você fala sobre a expectativa, Eduardo, a meu ver procede e muito. Tem um provérbio árabe que diz que "a ignorância é vizinha da maldade", eu acho que podemos dizer sem pestanejar qu a expectativa é vizinha da frustração.

    Infelizmente vivemos num mundo de resultados, de frigir dos ovos, de lucro de todas as ordens...Tá todo mundo sempre de olho "lá na frente", e quando é assim, podes crer que geralmente é um olho na coisa desejada e outro no próprio umbigo..

    Na base do "uma coisa puxa a outra", lembrei de um conto que muitos devem conhecer: A história de uma cidade pequena onde vivia um homem que todos os dias ía pra uma praça pública convidar as pessoas a refletirem afim de melhorar as suas vidas...Há anos ele fazia isso...Certa vez um viajante que passava por ali, tomou coragem e foi lá perguntar pra ele, na lata: "Há anos eu passo por aqui e vejo vc tentando modificar as pessoas e ninguém da bola nada muda nessa cidade, porque vc continua? E o velho responde na mesma lata: " Se eu desistir, elas é que terão conseguido me modificar" .

    abraços

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    1. "A vida é isso que passa, enquanto fazemos planos pro futuro". John Lennon

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  11. Muito bom, quando crescer quero ser igual a você, rsrs. O que você tem a dizer sobre "autoexpectativas", aquelas expectativas que temos em torno de nossas próprias atitudes e hábitos, e que muitas vezes acabamos ficando frustrados por não conseguir agir da forma que esperamos. Fã do seu trabalho, PARABENS!! Abraço

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    1. A "forma que esperamos", freqüentemente, é a forma que fomos condicionados a esperar. Induzidos à falsa visão de que a vida é um campo de batalha, reduzimos nossas expectativas a vitória ou derrota, sucesso ou fracasso. Isso é produção de angústia. Tudo é sucesso, desde que suceda, no sentido de acontecer. O que se chama de fracasso ou derrota, também é sucesso, um acontecimento que traz ensinamentos, se houver receptividade, humildade, sinceridade e profundidade de análise, sem euforias ou depressões inúteis. Grande parte dos nossos valores, visões de mundo, comportamentos e objetivos são induzidos a partir do inconsciente. Questionando nossos valores, com isenção, podemos eliminar um monte, por não fazerem sentido além das convenções, e abrir espaço pra criar valores próprio, nossos de verdade.

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    2. Bom acho que entendi.. O ponto chave é Questionar nossos valores, o por que penso dessa forma, porque tenho esse habito e porque faço isso ou aquilo, assim deixaremos de exigir de nos mesmos "virtudes" que talvez não sejam as ideais e mais importantes. Muito bom.. Muito obrigado pela resposta!! TEM PAGINA NO FACE? Por que não migra para o facebook também, tem muita gente que gosta de conteúdo igual o que você faz, tenho certeza que iria despertar uma reflexão em um numero muito maior de pessoas com muito mais interação.. Fica dica VLW!!!

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  12. Conheci hoje seu blog, estou achando muito interessante seu texto, me fez refletir bastante... Dentro da gente existem tantas expectativas, realmente é angustiante.

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  13. Vontade de dar um abraço nessa mãe... você fez isso?

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  14. Gostei muito. O texto fala por si. No final, a tocante história da senhora que arranjou um jeito de lidar com sua tristeza. Um belo final.

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