segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Os desabrigados e os “revolucionários”


Era uma favela cênica, de bambu e papelão, a ser construída durante a madrugada na praia de Icaraí   (clique para ver mais)



Pouco tempo atrás, fui chamado para uma manifestação dos desabrigados das chuvas de abril, em Niterói – por ausência de ações preventivas - e reparatórias - do poder público, que não cumpre as leis e nem o papel coletivo para o qual foi “eleito”. Era uma favela cênica, de bambu e papelão, a ser construída durante a madrugada na praia de Icaraí, para expor a situação dessa parcela da população, tradicionalmente desprezada pela sociedade, que depende dela para os serviços básicos, para o trabalho mais duro, mais indispensável e mais mal remunerado.

Cheguei pouco depois da meia noite, havia cerca de dez pessoas já iniciando a montagem, com bambu e papelão. Minha contribuição foi pintar umas portas e janelas, terminamos com o dia claro. A cidade acordava e a favelinha, com sua vala negra, lixos espalhados, ratos e aranhas de borracha, varais de roupas e fios “elétricos” foi notícia até fora do Brasil.

Depois me convidaram para uma reunião, no DCE da UFF. Achei estranho. Área acadêmica não combina com movimento popular. A língua é outra, a vida é outra. Os acadêmicos têm um claro sentimento de superioridade. Uns arrogantes, outros gentis, mas sempre superiores à maioria sabotada em educação. A universidade não assume obrigação moral com quem a sustenta. O curso “superior” não ensina humildade. E não deu outra.

Acadêmicos – não desabrigados - falavam e tomavam notas, conduzindo a reunião. Natal das crianças pobres, ônibus contratados e Museu da República. Por um instante me pareceu estar no lugar errado. Nada contra, acho ótimo um Natal decente pra essas crianças que não têm. Mas ali, no comitê dos desabrigados? Por que não vão procurar diretamente as comunidades? Há muito mais crianças por lá. Além do mais, prioridade de desabrigado é abrigo, não festa. Em seguida, um outro tomou a palavra e cobrou engajamento do grupo. Que falta de respeito. Pobres acadêmicos. Em sua cegueira orgulhosa, pensam que falta de estudo é falta de personalidade. Não percebem que as dificuldades materiais produzem uma garra que esses doutores não podem imaginar. Tivessem humildade e se surpreenderiam com a sabedoria, a resistência dessas pessoas aos golpes mais duros da vida. E perceberiam o quanto têm a aprender.

Alguém falou em curso de formação política. Outro levantou o braço e mandou um “questão de ordem!” Eu levantei e saí da sala. Lá fora, tentei organizar os pensamentos. Alguma coisa estava errada. Em nenhum momento aquelas pessoas falaram de casas. Claro, não eram desabrigados. Claro, suas prioridades eram outras. Quais? Não sei, mas não eram casas. Parece que estão querendo controlar o comitê. Gostaria de estar enganado, mas se não estiver, a última coisa que interessa a esses acadêmicos é que se obtenham casas para os desabrigados. Quanto mais durar o grupo, melhor pras suas entidades e agremiações.

Se o grupo aceitar essa interferência, está perdido. Não tenho mais vontade de ir às reuniões, apenas às ações. Aliás, não havia nenhum desses acadêmicos de partidos e siglas na madrugada, em Icaraí. E foi tudo direto, fácil, em harmonia. Sem ninguém mandando. Quer dizer, “organizando”. Deus me livre dessas “organizações” e da sensação de alguma coisa por trás. Inclusive conseguir entrada nas diversas comunidades representadas pelos desabrigados do comitê.

Não quero aqui ofender ninguém, não estou acusando má-fé, até pelo benefício da dúvida. Mas não faz sentido falar de qualquer assunto, em reunião de desabrigados, que não seja a obtenção de casas para os milhares que as perderam. O resto é perda de tempo, energia e oportunidades. Pelo menos para os que estão sem casa.

Quem quiser conduzir as massas, que vá entregar pizzas.

10 comentários:

  1. Eduardo, concordo contigo, totalmente, em relação ao abismo existente entre a realidade e a Academia.

    Como dizem, eles vivem nessa "torre de marfim", debatendo sobre as coisas mais complexas, mas estão pouco se fudendo pro mendigo que se encontra pedindo um prato de comia, na esquina da faculdade. Ou se atrevem a dissertar livros e livros sobre favela, sem nunca terem, ants, subido em uma (apenas fazem isso quando realizam pesquisas).

    Eu, como aluno de direito de uma faculdade pública, entrei numa que teria material intelectual e humano ("Aluno de Direito é aquele que gosta de História e Geografia,e enxerga as sacanagens já realizadas contra a maioria, que, politicamente, é "minoria""...) para mudar o mundo. Doce ilusão...

    No entanto, hoje em dia, não se consegue realizar uma política, a título nacional,e até mundial, de habitação, sem uma análise do contexto sócio-econômico e político, para uma tomada de ação o mais otimizada possível, com maior número de casas construídas e ocupadas por quem realmente merece.

    Claro, que em "pequenas" proporções, a ação direta é muito mais eficiente, sem burocracia, com quem realmente se envolve realizando tudo. Por isso que gosto dos anarquistas...

    Porém, em grandes proporções, o estudo da economia, sociedade e política se fazem mais do que necessários... o problema, é que muitos acadêmicos se perdem nessa punheta mental de pensamentos abstratos e complexos, se achando os verdadeiros gênios, se esquecendo que, enquanto ele fum maconha e tenta comer a "hippizinha" da turma, tem gente tomando tiro de fuzil e revirando lixo para comer.

    Me desculpe os palavrões, ams acho que foi a forma mais espontânea de me expressar.

    Abraços.

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  2. Niterói eh uma vergonha... todas essas familias desabrigadas, o governo ate hoje não deu nenhuma ajuda, e bilhoes de reais irão ser gastos para construir uma porcaria de um mirante.
    Vai ter uma passeata na rua pelos desabrigados agora em novembro... vou checar o dia e escrevo aqui, é ação direta espero que vc vá e divulgue no seu blog.
    Eles precisam muito de apoio... pois na nossa cidade o prefeito só quer saber de maquia-la pra vender apartamento!!

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  3. Eita... é uma pena, mesmo!
    Mas, nos conte mais dessa manifestação!!
    Deu algum resultado?

    Adorei a idéia das casinhas de papelão!

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  4. Os acadêmicos "revolucionários" armaram o esquema e o movimento, que era espontâneo e auto-gerido, foi detonado por sua interferência. Na soberba natural dessas figuras, eles sabem o "caminho", o povo é só um coitado ignorante que deve ser conduzido, adestrado, cooptado, em seus ancestrais joguinhos de baixa política. O orgulho cega e bloqueia a inteligência. Com tanta informação e prática do pensamento, como podem não perceber sua própria falta de alcance e capacidade para falar à população? Tomaram a entidade "Comitê dos Desabrigados de Niterói", cooptando seu presidente, sem dar a mínima para o fato de que dispersaram a maioria dos outros participantes, desfizeram a força inicial, na certa contando com os recursos de suas entidades para reerguer a entidade, que perdeu a função original para integrar o coletivo de suas siglas, deixando o desabrigo em segundo plano, para servir apenas de pretexto para manifestações cuja finalidade real é promover as agremiações envolvidas. Fico enjoado só de falar nisso.

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  5. Gostei do texto e por isso tomei a liberdade de incluí-lo no meu blog Expressão Liberta (dando os devidos créditos, claro).

    www.expressaoliberta.blogspot.com

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  6. Acho q o governo ñ tem nada a ver com aonde as pessoas ''constroem'' suas casas.afinal são essas pessoas q ñ estudam,q ficam sem ter onde morrar,e vão para qualquer lugar, por mais q seja perigoso, e depois ficam culpando o governo por ñ fazer nada contra o q acontece.E além disso,ñ se pode dizer q é pobre pq ñ teve oportunidades,pq eu conheço várias pessoas q ñ tiveram opoturnidades, mas q hj vivem bem.Essa história de q é pobre e o governo TEM q ajudar ñ deveria existir!Claro, q para aquelas q já tem mais idade, ou algo assim ainda receba ajuda, mas os saudáveis, q ñ querem nda com a vida ficam recebendo ajuda do governo, e continuam sem mover uma palha para mudar de vida!...

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  7. Cê tá acreditando na mídia. Assim, a realidade é uma ficção conveniente e não se pensa mais nisso, vai-se consumir e desfrutar a vida, entre os privilégios que custaram os direitos da maioria. Culpar as vítimas das injustiças sociais é um procedimento antigo, e serve pra justificar a exploração desmedida e o massacre covarde dos mais fragilizados. Se há exceções, elas não modificam as regras, muitas vezes, ao contrário, a confirmam. Já ouviu falar em concentração de riquezas? Do êxodo rural provocado pelos concentradores de terras, que foi o maior fator de formação da miséria urbana?

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  8. Claro que o governo tem tudo a ver com onde as pessoas moram, o que elas comem, etc. Esse é o princípio básico do Estado do bem-estar social, fornecer educação, saúde, moradia e alimentação dentro de um padrão mínimo a qualquer cidadão, independente de sua raça, crença ou instrução educacional. Além do mais, é para isso que deveria se justificar a alta carga tributária, não ? Não estou falando de Populismo nem do bolsa-miséria, comum no atual governo, usado como artifício apenas para políticos se manterem no poder enganando os mais pobres. Estou falando do modelo inglês, francês e alemão.

    Estudando um pouco a colonização brasileira e ensaios sobre esta, ficamos chocados quando constatamos que a nossa cultura, assim como a dos espanhóis e portugueses, carecem de solidariedade e união, delegando o sucesso pessoal como fator único e exclusivo de si próprios. Infelizmente, posso constatar o tempo todo, em qualquer pedaço de fragmento de texto, que o brasileiro ainda alimenta o egocentrismo acerca de suas conquistas, desde os nossos ancestrais, para com aqueles que pouco tem. Isto tem raízes histórias, é constatável. O que a mídia fez foi se apoderar do que já existia, das maiores mentiras do século, contatas desde antigamente, por latifundiários, escravistas e burocratas, que dominaram e continuam dominando o cenário político econômico do Brasil, para massacrar o povo.

    Mas o mais irônico de tudo isso, é que os imperadores luso-brasileiros, quando passaram o Brasil de colônia a império, mesmo dissolvendo o congresso, fechando as assembléias, instauranto o poder moderador, eles se preocuparam com a educação, cultura, ciência e tecnologia, ainda que fosse inalcançável à população mais abastarda. Basta ver a biblioteca nacional, as primeiras faculdades, o Colégio Dom Pedro II, o Teatro Municipal, a estética arquiteônica dos edifícios do Centro do Rio de Janeiro, além de outras reformas que eles tentaram fazer. Depois veio a República Velha, se falarmos sobre esta, é melhor pegar o saco de vômico, caso venha a ter uma indigestão. Fomos prejudicados não só por essa elite de hoje, mas por aqueles que já exportavam o açúcar, o café e a borracha.

    Por isso eu fico extremamente chateado quando alguém se auto-enaltece, como se suas realizações pessoais só dependessem delas mesmas. E fico puto pra caral** quando alguém ainda diz que o Estado não tem certas responsabilidade para com o povo, quando estas responsabilidades natas são as únicas que ainda me fazem crer da utilidade da existência do estado e das instituições públicas.

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  9. Perfeito Eduardo, estudo direito aqui na PUC-CAMPINAS, o centro academico daqui está repleto de pessoas que querem poder, revolucionar, enfim aparecer com discursos bonitos mas distantes da realidade, enquanto isso, as mentes brilhantes e eficazes de nosso curso são aquelas pessoas discretas, que passam despercebidas, são estas que sabem o que realmente a sociedade precisa para mudar. Para as pessoas que pocuram a fama eu não dou a mínima.

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