sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Turbulência emocional

Peça em cerâmica de um artista de Cuzco
- foto de Julio Jaen, o Pepe.



Há pessoas que sofrem de modo ostensivo, em revolta ou desespero, espalham e expõem seu sofrimento. Algumas vezes descarregam os sentimentos, em desequilíbrio, outras buscam dividir sua dor, como se alimentando da solidariedade ou da compaixão que podem despertar. Não podem perceber as causas dentro de si, atribuem-nas a qualquer pretexto ou à maldade do destino, sofrem os efeitos, sem atinar com as causas. Têm muita dificuldade em se trabalhar internamente, por recusar responsabilidades próprias no que lhes acontece. Tomam-se a si mesmas por padrão e não acreditam haver sentimentos por trás de reações diferentes da sua. Tornam-se incapazes de avaliar os sentimentos das outras pessoas - a não ser que se exponham da forma esperada - e supõem o que lhes proteja o desequilíbrio - insensibilidade, indiferença, sarcasmo, deboche, qualquer coisa que desqualifique a calma e a serenidade, frente às dores.

No estado de desequilíbrio, na revolta, na depressão, a visão deturpa o que vê. Surgem as acusações. “Se você não reage como eu reajo, então você não sente o que eu sinto e é indiferente ao meu sofrimento”, é o que parece ser dito. Em parte, é verdade. Não se reage do mesmo jeito, não se sente da mesma forma. O que não quer dizer que não exista reação, ou que não haja sofrimento.

Para essas pessoas, que atiram seus sentimentos para fora, espalhando ao seu redor, é inconcebível a serenidade, o sentimento profundo e silencioso de quem busca o entendimento, de quem guarda e digere a dor, pesando causas e conseqüências, no desenvolvimento da consciência. Reconhecer como calma e equilíbrio seria revelar o próprio desequilíbrio orgulhoso e egoísta. E uma das maiores dificuldades dessas pessoas é assumir suas próprias responsabilidades. Estão sempre acusando as responsabilidades fora de si mesmas e, assim, não podem perceber que assumi-las não é uma opção, mas uma necessidade interna de cada um. E que, se não acontece, o desequilíbrio se reflete e se repete e recrudesce nos acontecimentos da vida, nas relações pessoais, na vida afetiva, na saúde a médio e longo prazo.

O sofrimento, às vezes, é fonte de ensinamento. Mas só com humildade, com serenidade, com a busca profunda e sincera, dentro de si mesmo, de causas e efeitos, de falhas e omissões, de valores e de comportamentos, se torna possível enxergar os ensinamentos das crises, os sinais ignorados, os avisos descartados, as conseqüências dos nossos atos. As reações intempestivas, explanadas, entre a agressividade e a depressão, caracterizam pessoas fugitivas de si mesmas. Estas se condenam uma cegueira penosa, debatendo-se na inconsciência, plantando espinhos e, ao esbarrar neles, acusando a vida, o destino e os outros pelos males que criam. Não percebem a freqüência da sua própria vibração contaminando todo o ambiente, atingindo as pessoas e sintonizando freqüências afins. E a vida se torna uma estrada escura e lamacenta, cheia de obstáculos, ameaças e inimigos. Ou de ilusões vazias, se alternando com turbulências e depressões periódicas.

Eduardo Marinho

9 comentários:

  1. Todos querem estradas para fora de si mesmos,e se reunem em torno do que há de mais instável.Infelizmente.
    bjo

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  2. Eu infelizmente so fui me tocar, na vida mesmo, em muitas ocasioes depois de mais velho hoje com 19 anos, sou um cara revoltado com a sociedade e julgo mesmo muitas atitudes seja de quem for e quando for, sou chato e rigoroso com muitas coisas, fico chateado varias vezes por eu ser assim, nao entender o mundo, o sistema, ter odio da hipocrisia ASSUMIDA, pqp e foda, ja deixei uns comentarios com isso escrito, e deixo novamente, ainda conheço voce cara "Dudu", quero trocar ideias, e esclarecer certas paradas, duvidas...

    Abraços !

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  3. Muito bom o texto. Eu tento não contaminar ninguem com os meus sentimentos inferiores. Ultimamente tenho me tratado para não espalhar mais nada ruim pelo mundo afora. O esclarecimento é o único remédio e, para isso, é preciso humildade para se auto conhecer e saber suprimir o ego na busca do que é o certo, o amor e deus e a felicidade.

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  4. Olhar para dentro de si muitas vezes é algo muito doloroso, reconhecer que não existe perfeição e que ninguém é "100% bom" realmente machuca. No entanto é necessário, por ser o ponto de partida na busca de uma transformação ou melhor renovação na maneira de pensar e consequentemente de agir...

    "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vo através da renovação de sua mente" (RM 12:2)

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  5. Muito interessante este ponto de vista, também concordo, mas tento levar por um lado mais "light". Como assim Diogo? Realmente, existem pessoas que se comportam desta forma, mas todos temos a nossa fase ruim, cabe aceitá-las também...talvez na busca por este equilíbrio a gente piore as coisas, o melhor é aceitar e não se culpar por estar negativo num dia, numa semana, ou num mês, aos poucos a negativiade vai ruindo e vamos enxergando a luz por trás dela...eu o "cara tranquilo", passei um mês puto digamos assim, mas já estou tranquilo de novo, muitas vezes as fases negativas são seguidas por uma expansão de consciência, e acredito que este seja um mecanismo da vida para nunca nos acomodarmos...o ruim e o bom são partes nossas, a turbulência sobrevem e antecede a calma, então a gente não precisa ser tão crítico com o desequilíbrio, é só uma fase. Abração!

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  6. Tudo bem, Diogo. Mesmo assim é preciso não confundir o bom com o agradável e o ruim com o desagradável, confusão, aliás, muito comum.

    Grande agraço.

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  7. Realmente as pessoas muitas vezes entregam seus pontos mais frágeis, e dessa forma se volatizam diante os demais que a cerca e por isso ficam a mercê do inesperado que possa atingi-la na mesma frequencia desagradável.

    Um grande abraço, adoro seu blog.

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  8. "o que está dentro, está fora" . Poucas afirmações tem tanto valor. Nada fora pode ser belo e harmônico, se o que vem dentro segue caótico. Mas mergulhar dentro do poço escuro de si mesmo, com o propósito de conhece-ló, tomar posse efetiva dele e mostrar seu brilho para o mundo é, de todas as tarefas, a mais árdua. Há os que demoram muito para fazê-lo; há os que preferem adoecer da pior das doenças, a vitimez crônica; e há os raros, que aceitam, desde cedo, que este é o único caminho. Justamente estes últimos devem desenvolver a tolerância para com o processo dos demais. Ser tolerante, no entanto, não significa ter de dividir os momentos, o teto ou a vida com quem vive no caos. Significa apenas, a meu ver, aceitar o ritmo do processo alheio; ser capaz de se compadecer, sem, no entanto, sofrer por isso. E ser capaz, sobretudo, de recusar o papel de alvo dentro da encenação dos histéricos. Pessoalmente, estou out. rs

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  9. Quando se perde o equilíbrio é preciso encontrar o ponto equidistante, o meio-termo, a medida do raio do diâmetro. E para isso é preciso usar a razão.

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observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.