quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Os perigos “revolucionários”



Assisti, consternado, ao filme A História Soviética, claramente posicionado contra o regime que vigorou sobre muitos países do leste europeu e da Ásia. As experiências sociais, retaliações a qualquer tipo de resistência, a transferência e extermínio de populações inteiras (em nome de um absurdo bem-estar dos povos centrais da União Soviética), como a morte de 7 milhões de pessoas na Ucrânia, no espaço de um ano (!), após o confisco minucioso de todo bem comestível – exportado para apoiar o esforço de guerra nazista na Alemanha, aliada até o início da 2ª grande guerra -, provocando deliberadamente a grande fome de 1932/33 e cercando o país para impedir a fuga da população, num processo genocida de extermínio. Abaixo, o link do filme – publicado, neste caso, com o acréscimo da palavra nazista. Quem fez o filme, claramente odeia o sistema soviético e carrega nos tons sinistros. Mas as imagens e histórias são contundentes demais para serem ignoradas ou amenizadas pela posição clara do filme. Os números são chocantes demais.

Além dos ucranianos, muitos outros povos periféricos à Rússia e abrangidos pela União das Repúblicas Socialista Soviéticas. No filme, há menção a doze países que tiveram suas populações simplesmente transferidas, por inteiro, para outras áreas, em decisões de “engenharia social”. A desumanidade não ficou devendo a nenhum explorador capitalista do trabalho humano, da miséria e do desespero. Ao contrário, suplantou-a em frieza e arrogância. A fonte é a mesma, a sensação de superioridade de uns sobre os demais, neste formato, com base na superioridade de informações, de conhecimentos e de controle do aparelho estatal. Uma pretensa superioridade humana, que no sistema empresarista se baseia nas posses, na riqueza e no controle dos políticos, o que resvala no controle estatal com uma fachada de democracia falsa, baseada na ignorância que o sistema impõe, com todas as coações e sabotagens sociais que disso decorrem. O preconceito social e o preconceito intelectual dão o mesmo e nefasto resultado, os crimes contra as populações.

O sistema vigente não tem defesa. É desumano, injusto e cruel. Nenhuma sociedade que permita a existência da miséria e da ignorância pode ser considerada ideal. Estamos no caminho evolutivo e não há retorno, a não ser aparente, em alguns casos. Não pretendo com a exibição desse filme apoiar a forma de sociedade que ainda chamam de capitalista. Minha intenção é demonstrar que nenhum sistema baseado em superioridades e inferioridades funciona a contento, servindo com igualdade de direitos, oportunidades, condições e obrigações a toda a gente.

É preciso que os que sabem mais sirvam com o seu saber e não se coloquem como “guias” do povo. As pessoas não precisam de lideranças, precisam de consciência, conhecimento, informações verdadeiras (até hoje, todos os sistemas manipularam informações). A cabeça do sistema precisa estar no chão da sociedade, espalhada entre a maior parte da população. É preciso acabar com a ilusão de que se pode pensar pela maioria, a concentração de poderes não pode ficar à mercê de algumas poucas cabeças pensantes. O condicionamento geral de que maior saber significa superioridade pessoal me parece ridícula, de uma pequeneza moral primitiva. Mais conhecimentos significa maior responsabilidade social, os intelectuais teriam que descer do seu pedestal acadêmico e se por a serviço de uma nova sociedade, esclarecendo, ensinando, levando o conhecimento adquirido em instituições fechadas à maioria, por um sistema social elitista e concentrador, a essa maioria que, no final das contas, é quem constrói, mantém e sustenta toda a estrutura social. Questão de dívida moral, humana, social, há milênios.

As atuais “cabeças pensantes” que se pretendem revolucionárias precisam perceber a inutilidade (e mais, o perigo) da concentração de poderes, da centralização. Desarmar a “superioridade” que a academia injeta no inconsciente e desenvolver a humildade necessária ao bom serviço de conscientização, esclarecendo e não doutrinando, oferecendo e não cobrando, estimulando e não conduzindo. O “descondicionamento” deve partir do reconhecimento dos próprios condicionamentos (de que ninguém está livre) que ditam nossos valores e comportamentos a nível individual, pra que se possa ter maior efeito na coletividade – é muito mais fácil a assimilação com uma apresentação respeitosa e humilde, sem superioridade arrogante, ainda que disfarçada com bons modos. O sentimento emana de qualquer um e a maioria, sabotada em seu desenvolvimento racional (pela ausência de um ensino público real), desenvolve essa área pouco conhecida e até negada na área acadêmica, a intuição, o sentimento do sentimento alheio. Se engana quem confunde falta de saber com falta de sabedoria, falta de conhecimento com falta de personalidade. Esses não conseguem se comunicar com a maioria, até por não saber falar sua língua, resultado dos condicionamentos acadêmicos de superioridade e da distância estratégica em que a academia foi situada na sociedade.

Descer do pedestal é fundamental pra quem se dispõe a trabalhar por mudanças verdadeiras, por uma sociedade igualitária, sem miséria, ignorância e abandono, em nenhum dos seus setores. Sem tirania de uns sobre outros, de qualquer espécie.

É mais que hora de estabelecermos um novo “mandamento”, talvez divino, mas sobretudo humano, solidário e realmente interessado no fim de tanto sofrimento de tanta gente: sensibilizai-vos, esclarecei-vos, conscientizai-vos uns aos outros, com calma, com respeito, com sinceridade, com amor. Como disse Che Guevara, na época ainda da luta armada por mudanças, a qualidade que melhor caracteriza o verdadeiro revolucionário é o amor. Irrestrito, por toda a humanidade, o que garante a não aceitação de nenhum tipo de sociedade em que exista alguma situação de injustiça, de miséria, de abandono. A solidariedade plena é o resultado desse sentimento e o trabalho de acender luzes é parte do processo de conscientização, que me parece o único lastro confiável pro funcionamento das coletividades, junto com o desenvolvimento de sentimentos sociais mais humanos, de condições humanas de mudanças sociais.

O preconceito social e o intelectual são duas vertentes de um mesmo sentimento grosseiro e primário – o de superioridade humana, um com base nas posses, outro nos conhecimentos. O que resulta no predomínio de uns poucos sobre todos os demais e nas perseguições aos que não aceitam essa imposição.


O artigo seguinte expõe a bifurcação nascida no movimento hippie, na contestação política do final dos anos 60 (que se prolongou pela década de 70 resvalando em parte dos 80 e dando filhotes até hoje, embora esparsos), quando se questionou toda a estrutura vigente, apontando o caminho de destruição em que seguia a humanidade, dirigida pelo modo ocidental de sociedade, consumista, concentrador, desintegrador e envenenado pela ambição desmedida, o estímulo irresistível ao egoísmo e à naturalização da miséria e ignorância como inevitáveis. Apontaram-se os malefícios da alimentação industrial, na tirânica imposição da dualidade produção e consumo como centro da vida, da transformação da vida em um inferno de competição e ostentação de riquezas como valor social, o consumo como objetivo da vida, os sentimentos, a justiça, os valores humanos esquecidos ou secundarizados, envolvidos no papel colorido da superficialidade para evitar o aprofundamento na análise de tal estrutura social.

Propôs-se a mudança da sociedade da forma mais profunda possível, através da mudança completa dos valores e do comportamento. Por isso foram mobilizados todos os poderes possíveis, desde a segurança pública, as influências religiosas, as instituições e a mídia, em peso, contra aquela ameaça à “estrutura social”, aos “bons costumes” e à família tradicional. Construiu-se um preconceito monumental e todos os pretextos foram utilizados contra a “subversão dos valores da sociedade”, à semelhança do que fez o império romano com os primeiros cristão que propunham as mesmas coisas – fraternidade universal, igualdade plena e destruição das estruturas sociais baseadas na exploração da maioria por grupos minoritários de poder. Naquele caso, a perseguição parou com a institucionalização da igreja, na esterilização das propostas cristãs e na cooptação da instituição cristã para a manutenção da sociedade, sacralizando os abismos das diferenças sociais, como determinação divina.

O trabalho real de revolucionar o sistema social humano deve necessariamente se basear numa população instruída e informada. É imprescindível o trabalho de sensibilizar, esclarecer e conscientizar a maioria, com o pressuposto básico da humildade, da disposição de aprender e do espírito de serviço, em vez da perigosa pretensão de lideranças, condutores e dirigentes.

O artigo:

14 comentários:

  1. Boa tarde, Eduardo.

    Como você disse, o trabalho de sensibilizar e conscientizar a maioria é imprescindível. Na minha humilde opinião e baseado na pouquíssima experiência que tenho nesse trabalho, ele me parece tão imprescindível quanto difícil. E grandioso. Minha fraqueza é às vezes sentir a falta de pessoas com quem compartilhá-lo. Não é fácil. Tão belo quanto difícil. Cada vez mais me parece que esse sim é o trabalho de uma vida.

    Um abraço e obrigado por compartilhar teus pensamentos. São de uma grande ajuda.

    Paulo.

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  2. Grande Eduardo, gostaria da sua permissão para divulgar seu blog através da camiseta que utilizarei amanhã no movimento "acampa sampa" que basicamente se propoe a protestar contra a falsa democracia e a sociedade extremamente desigual e sem qualquer resquício da verdadeira justiça que a constituiçao nos deveria garantir.
    Aqui estao as fotos dos materiais que irei utilizar:
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    Um abraço

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  3. desculpa Eduardo, mas eu me recusei a ver o documentário, não pelo fato ter me familiarizado bastante com o socialismo, mas quanto a idoneidade de quem fez o filme, a igreja não é muito conhecida por suas "verdades" absolutas, quanto a contundência do documentário ela me foi dito por um amigo que tem na verdade a mesma opinião que você, mas na união soviética o espirito revolucionário foi morto pela burocracia pós revolução, enquanto o povo não educado aceitava as mazelas impostas pelo novo regime...
    mesmo porque o documentário foi produzido por pessoas ligadas a igreja católica...

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  4. E daí que é de gente ligada à igreja? É um documentário e apresenta documentos, em imagens e escritos, em gravações inquestionáveis. Qualquer ucraniano é testemunha, a grande fome é história e demonstra o que a centralização do poder dito "público" pode acarretar. É preciso espalhar saberes e conhecimentos, é preciso assumir a educação como prioridade absoluta, colocar a conscientização, a sensibilização, a formação humana, solidária, igualitária e socializadora em primeiro plano na sociedade. Isso é coisa que o lucro não permite e seus beneficiários fazem tudo pra impedir e nós colaboramos assumindo os valores desumanos que são plantados no inconsciente coletivo pela mídia. Mesmo os que se consideram revolucionários que, por isso mesmo, servem ao sistema participando do cenário desta falsa democracia, legitimando a farsa e assumindo seus mecanismos como se não estivessem todos viciados. Acabam atuando em benefício próprio, na maioria. Os poucos bons amargam tremendas angústias ou se entregam aos anestésicos de consciência, impotentes.

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  5. certo, com toda certeza stalin era um déspota, mas com toda certeza a igreja não deixa de ter sua tendenciosidade em matéria de informação, e as atrocidade cometidas por um homem não deveria ser a imagem que as pessoas tem hoje de socialismo...
    e mesmo porque se hitler fosse realmente amigo de stalin, o resultado da guerra seria completamente diferente, fica parecendo no documentário que ambos eram a mesma pessoa, stalin matou trotstky, não me admira que tivesse matado tantos ucranianos, e além do mais se houvesse aliança entre Alemanha e Russia nem com todas as bombas atômicas os estados unidos da America, que não ganharam a guerra, não teriam ganho mesmo, os aliados teriam sido barrados em todas as tentativas do dia d...

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  6. e tem mais, você não acha que durante a guerra fria, os EUA teria se beneficiado e muito com as informações deste documentário, será que os EUA não sabiam disso? que Hitler era amiguinho de Stálin, e só agora depois de todos estes anos os padres aparecem com estas informações, a mim parece no mínimo tendencioso...

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  7. não seria plausível afirmar também que bancos americanos detinham parte da economia alemã e em muito ajudaram no financiamento da campanha armamentista de Hitler? então por debaixo dos panos os EUA também eram amiguinhos da ascendente Alemanha? os padres não falaram sobre isso?

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  8. é! em questão de déspotas, Hitler, Stálin, Roosevelt, Churchil, Getúlio enfim...

    todos estes imbecis assim como hoje um bando de mafiosos safados que inventaram e inventam ainda seus joguinhos de guerra e poder, onde só quem se ferra é sempre a população inocente sempre foi assim e sempre será, os donos do poder que se beneficiam dos menos favorecidos para se perpetuar no poder corrompido, eram assim nesta época, é assim hoje e dificilmente será diferente no futuro, sei que muitos tem esperanças no futuro mas eu o vejo negro e bem pior que hoje sempre haverá lados tendenciosos que vão querer colocar versões da história, assim como os déspotas políticos que sempre corromperam e assassinaram inocentes a igreja (e suas inquisições)e outras religiões são um excelente instrumento de manipulação em benefício da riqueza de poucos.....

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  9. Não assisti o filme, mas acho você um exemplo de ser humano coerente,e acho que é obrigação dos mais esclarecidos divulgar informações e lutar por uma nova sociedade, fazer as pessoas pensarem sobre a condição em que vivem, e refletirem em como seria uma sociedade cooperativa, onde cada um trabalhasse em benefício do todo, onde a produção fosse planejada para gerar somente o necessário, sem criar lixo, onde cada um valesse pelo que é, não pelo que tem ou sabe, onde o valor principal fosse o respeito por tudo o que a natureza colocou neste planeta, onde não exista o dinheiro como valor de troca, nem a propriedade privada, onde nenhum animal humano precise pagar para viver no planeta onde nasceu, como acontece com os demais animais, onde o fato de ser "racional" não signifique superioridade em relação ao que demais existe, onde os homens sejam seres integrados à natureza, e não se sintam seus donos, mas simplesmente parte dela.
    Aprendamos com os índios de povos mansos.
    Que a nossa inteligência sirva para criar tecnologia limpa, que nos ajude a viver melhor, mas de forma compartilhada, sem excessos, e que as coisas criadas sejam usadas até o final de sua vida útil, e não substituídas logo enseguida por outra coisa mais nova. Chega de modismos, é hora de boicotar o sistema, boicotar os Bancos, boicotar o alimento industrializado(que é onde eles aplicam o dinheiro dos contribuintes, retornando com alimento de baixo poder nutricional e transgênicos), boicotando a mídia e tudo que querem nos empurrar como modismo, ensinando nossos filhos e netos que o valor de cada um está no ser, não no ter. Vamos boicotar a ostentação de riqueza externa, tratando por igual a todos, fazendo-nos respeitar. Se cada um de nós conseguir espalhar sementes boas, certamente elas vingarão. Já há no mundo muita gente pensando e lutando por uma sociedade melhor, "democracia" e "socialismo", na verdade não funcionam se estiverem atreladas ao poder do dinheiro, qualquer sociedade cuja economia estiver presa ao capital, será manipulada pelos grandes Bancos internacionais, que há muito são os que mandam e desmandam, o alvo agora é desmantelá-los.
    Abraços
    Alida

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  10. Ontem, vi um pronunciameto, na TV Senado, do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Político é aquela coisa: pdoe falar bonito, mas nos basiores, nunca se sabe, né?

    Enfim, ele falou algo óbvio, mas que muita gente ainda ignora: ditadura é ditadura, não importa se é de esquerd, direita ou totalitária de centro. Pode ser de qualquer natureza, é sempre uma aberração! Idem às revoluções! Elas podem ser revide de barbáries sofridas, mas as mesmas só revelam um lado igualmente bárbaro sufocado por outra força que lhe supera em ferocidade. No fundo, todos continuamos umas "bestas".

    Não há qualquer glamour verdadeiro em ser do contra, em ser oposição. Oposição, às vezes, somos apenas pra sobreviver. Mas a divisão da socidedade nunca significou um bem verdadeiro. O homem só pdoerá se salvar se acostumar-se a somar, a colaborar, a entrar em consenso com outros.

    Imaginem se um cataclisma mundoal se abata sobre o planeta agora! Como sobreviveríamos se ainda nem praticamos o colaborativismo?

    Sem pensar em religiões, em fetiches bizarros ou opções quaisquer: precisamos colaborar uns com os outros!

    Abço!

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  11. Fala ái Pessoal !!

    Boa discução e reflecção sobre o assunto !

    aí vai o link para quem quizer baixar o filme, Valeu ?

    Abs.

    Vanes.


    http://www.endireitar.org/site/artigos/the-soviet-story/252-the-soviet-story-a-historia-sovietica-pt-br

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  12. Desconcentrar o poder para concentrar o conhecimento para o Povo !!

    Todo Poder ao Povo !!

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  13. Não se aplica criticar sistemas, Estados, Religiões, não existe consciência coletiva, existe consciência individual que age a favor ou contra outras pessoas chegando a sociedade como um todo.

    Devemos estudar, procurar saber sobre a história de quem acreditamos estar certos e errados, pessoas que com poder nas mãos influenciam empresas, políticos, mídia, exércitos, etc.

    Confrontar informações, assim saberemos como o ser humano se comporta ao longo dos séculos.

    O equivalente moral da verdade — no plano de sua vida temporal, biográfica — é a
    sinceridade, é a minha confissão perante mim mesmo e perante Deus do que eu sou, do que
    quero, do que penso. E eu não posso ser sincero se imito a linguagem da mentira, que é
    sempre baseada no que os outros vão pensar. Esse desejo de mostrar bom mocismo estraga e
    corrompe pessoas até o fundo da alma.
    Olavo de Carvalho

    Se todos os cristãos seguissem realmente os ensinamentos de Cristo, nossa sociedade não teria perdido os limites...Pois o pior não é a maldade dos maus e sim a omissão dos bons. Bons no sentido apenas para diferenciar, pois como Cristo mesmo disse, bom só é Deus!

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  14. Aí é a sua opinão ! Mas uma verdade !?

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observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.