sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Fuga da Escravidão




Amazônia, rodovia Belém-Brasília, 1980. Noite. Debaixo do telhado aberto em frente à borracharia fechada, uma lata quadrada sobre o fogo cozinha a mandioca, a água borbulhando frenética. Sentado numa tábua, olho o fogo e escuto o silvo dos pingos das grandes bolhas que estouram caindo sobre as brasas, encostado na única parede do telhado quadrado, a porta da frente da borracharia. À esquerda era a estrada, na frente o posto de abastecimento mal iluminado a uns cem metros, à direita a floresta, com árvores enormes fazendo a silhueta da escuridão.

Distraído olhando o fogo, tomei um susto quando o vulto surgiu, justo do escuro, amenizando a surpresa com voz humilde, “louvado seja nossinhô jesus cristo, co’a sua licença”. “Se achegue moço”, tratei de responder na lei da hospitalidade, “se é de paz, seja bem-vindo. Tô cozinhando uma macaxeira no sal, tem bastante, se quiser.” Eu tinha posto a mandioca toda pra cozinhar, era um pé que tava maduro, na beira da estrada, uns quilômetros atrás. Pensava em levar pra comer também no dia seguinte, mas dividia de bom grado com um passante que parecia mesmo estar com fome, tanto que respondeu na hora, “vou aceitar sim, desde ontem que não como”.

O sujeito era pequeno e magro, mas parecia ágil e rígido, dava pra ver a musculatura fina e resistente aí nos seus trinta anos. Tava sujo, roupas rasgadas, as marcas de andar pela floresta, pelo jeito ele se escondia de alguma coisa. Era melhor não fazer assunto disso.

- continua -


No princípio arredio às duas perguntas mais comuns nesses encontros – de onde se vem e pra onde se vai – ele relaxou depois que viu o painel de brincos, pulseiras e colares, “ah, tu é ripe”. E contou ser do sertão de Pernambuco, um povoado perto da fronteira com o Ceará, “esquecido pelos governo”. Apareceu um “gato” procurando trabalhador pra colheita numa fazenda no Pará, os dias estavam ruins, seca braba, a roça não dava nada, a criação pra morrer de sede. O acerto parecia bom, em três meses voltaria pra família com um dinheirinho, era mulher e dois filhos que ficavam. Embarcou no caminhão do "gato" e levou uma semana pra chegar na tal fazenda, foi enchendo com mais contratados pelos caminhos, chegou lotado.

Só que ele já chegou devendo, passagem, hotel, refeições, “até as ferramenta de trabalho eles cobravam, moço, tá certo isso?” Tinha guarda armado, “a gente era tratado como preso, não tinha banheiro, a água de beber era a mesma dos animais, tinha que pegar no cocho”. O salário do primeiro mês não pagou as dívidas. E não dava pra largar o serviço, eles falavam que tinha que pagar tudo antes de pensar em ir embora. Passou a comer dia sim, dia não, pra economizar. O corpo pesava, começaram a dizer que ele era preguiçoso, um dia desmaiou no meio da tarde e teve o dia descontado. Era de lascar.

Pra encurtar a história, já ia pra oito meses e ele devendo. A saudade remoia por dentro, a mulher (como estaria se virando?), “os filhinho crescendo longe da gente...” e enxugou as lágrimas com os pulsos, como se não pudesse tocar as lágrimas do sentimento mais puro com aquelas mãos deformadas de tão grossas. Pensou em fugir, mas temia ser pego. Vários fugiram enquanto ele esteve lá. “Mas os cabra ia atrás e quando pegava era uma judiaria, pra dar o exemplo, pra dar medo de fugir, estropiava o sujeito.” Com o tempo foi dando um desespero maior que o medo e ele se atirou na mata numa noite, decidido a fugir ou morrer, o resolvido era não ser pego vivo. Encarou dias e noites na mata, comendo frutas e folhas, uma que outra tanajura viva, já ia cinco dias sem comer um cozido. 

Ele comia com gosto a mandioca sobre uma tábua improvisada e perguntou pra que lado era o Cariri, quando os faróis de um jipe viraram da estrada em direção à borracharia, iluminando o telhado e indo na direção do posto pra parar de lado, junto a nós. Dois na frente e um atrás. O motorista pergunta “cadê o borracheiro?”, eu respondo “foi embora faz tempo”. “Essa porra não é vintequatro horas?” Só então percebo escrito na parede, 24 H. Dou uma risada, “é, tá escrito aí”. Ele quer saber se eu sei onde mora o cara, eu explico ser viajante, "tô só me abrigando à noite, sigo viagem de manhã, do borracheiro só sei que me deu licença pra dormir aqui e cozinhar essa mandioca, tá servido?” Ele virou pro cara de trás, “e agora?” “Toca pro posto”, disse o outro. E saíram levantando poeira.

Olhei pro lado, o cara tinha sumido, junto com a tábua cheia da macaxeira cozida. Não demorei pra entender. Fiquei olhando o jipe, lá no posto. Os três estavam no balcão do bar, conversando com o que me pareceu ser o dono. Beberam alguma coisa, pagaram e foram embora. Terminei de comer, levantei e fui até o lado da floresta. Olhei a escuridão cheia de sons, grilos, rãs, sapos, corujas e outras aves noturnas, às vezes um guincho de caça na hora da morte,  ou um canto distante, respondido por outro canto mais distante ainda. Gritei “eles já foram embora!” e nenhuma resposta. Mais alto um pouco, “eles já foram, pode voltar, parceiro!” e nada.

Fui até a mochila, peguei a escova de dentes, toda descabelada – "tem que trocar essa merda" – e me aproximei da banheira que servia pra meter a câmera de ar e achar o furo pelas bolhas. Olhei a água na luz precária do posto à distância, “nem tá tão turva assim”, com a concha da mão pus duas mãozadas na boca, pra bochechar. Enfiei a escova na banheira e limpei os dentes, fazendo uma careta depois de cuspir a última água – “borracha pura!”.

O cara não voltou. Enquanto arrumava a mochila como travesseiro e me ajeitava de lado na tábua, pensei “será que ele tá correndo até agora?” Cansado e sem fome, dormi logo, um sono sem sonhos, desses de apagar.

Acordei começava a clarear. O ex-escravo tava dormindo em cima de uns pneus, todo torto, as pernas sujas de lama pelas calças acima, passando dos joelhos. Descalço ele já estava ontem. Mexi nas cinzas debaixo da lata, vi brasa, juntei uns gravetos que tavam do lado, acendi o fogo pra esquentar o resto da mandioca. O pernambucano acordou com o movimento e sentou rápido, a cara amarrotada de sono lhe dava um ar zangado. “Tu podia ter voltado, rapaz, os caras foram embora logo, acho que era só um pneu furado, mesmo.” Ele sacudiu a cabeça, sem encarar, “nunca se sabe”.

Quando ferveu a água eu perguntei, “cadê aquela tábua que tu usou ontem?” Ele foi até uns vinte metros na direção da mata e pegou no chão. Estranhei, “ué, como é que isso foi parar aí?” Ele quase riu, “foi o tempo de meter a macaxeira todinha na boca e largar a tauba.” Eu ri alto, ele justificou, tava com fome, dois dias que não comia.

Acabamos de comer na chegada do borracheiro, já dia claro, perto do sol nascer. Ele trazia café e ofereceu com um sorriso branco de fazer contraste com a pele preta, seu Nicanor era de um tamanhão que dava medo, mas com uma expressão de bondade calma e sábia. O pernambucano, entretanto, murchou na sua chegada e ficou mudo, olhos baixos. Aceitou o café com um “deus lhe pague” e mais não falou. Nem precisou, eu conversei com o negão todo o tempo, área de garimpo é área de muitas histórias, de muita vivência, muito risco e muita sabedoria.

Agradeci por nós dois e, por um instante, pensei que o sertanejo ia comigo, pois saiu junto e foi andando ao meu lado, na direção da estrada. Mas ele parou de repente na beira do acostamento e perguntou, “sabe pra que lado é o Cariri?”

Eu pensei um pouco e disse “acho que tu vai ter que ir pra Imperatriz ou pra Açailândia, de lá deve ter estrada que vá praquelas bandas". Ele me olhou como se eu não estivesse entendendo e tentou de novo, “sabe apontar com a mão pra que lado é?” Olhei um pouco pra ele, o sol começava a despontar, do outro lado da pista. Estendi o braço, “tá vendo onde o sol tá nascendo? Põe três dedos do lado dele, fecha um olho pra marcar o ponto, tá vendo?” Ele esticou o braço, pôs os três dedos, marcou o ponto no horizonte, “o Cariri é pra lá”, eu concluí. Ele baixou o braço e continuou olhando na direção. Quase pra si mesmo, perguntou “o Cariri é pra lá, mesmo?” Eu disse “é, mas o Cariri é grande”. Ele tinha um sentimento forte quando falou “chegando lá eu me acho, fácil”. E me olhou com felicidade nos olhos, “do outro lado do Cariri tá minha família”, e sorriu um sorriso rápido, antes de perder o olhar de novo naquela imensidão.

Eu carregava mochila, cobertor – que me servia de colchão, naquele clima quente – e violão. Ele só tinha a roupa do corpo, meio em frangalhos. Desejei boa sorte e comecei a caminhar pelo acostamento. Ele chamou, “ô ripe!” Eu parei e virei, ele vinha na minha direção, as mãos estendidas seguraram a minha, “agradeço a Deus ter lhe encontrado”, olhando profundamente nos meus olhos. Sorri, sem saber o que dizer, retomei a caminhada, lembrando quantos desamparados no mundo, quanta sujeira e injustiça dos poderosos, um nó na garganta, uma raiva surda misturada com uma tristeza imensa.

Olhei uma vez pra trás e ele estava lá, em pé junto do acostamento, olhando na direção do Cariri, no horizonte do outro lado da “rodage”*. Bem mais na frente, já a uns quinhentos metros, virei pra olhar de novo, ele não estava mais.

Rodage – estrada de asfalto.

20 comentários:

  1. E o que incomoda mesmo, é que esse tipo de história não surpreende.

    Cara, tá muito bem escrito! Fiquei com vontade de ler mais histórias de suas andanças! Parabéns!

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  2. Visualizei a história, me senti lá. Suas crônicas são muito boas. Criar imagens é a marca do poeta, num é? Li seu livro "Crônicas e Pontos de Vista". Tinha muito mais pontos de vista (eram muito bons, mas repetitivos ao longo do livro) do que crônicas. Existe intenção de fazer um somente de crônicas?

    Abração,
    Gabriel Guerreiro

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    1. A idéia é essa, contar as histórias que ouvi e que vivi. Muita coisa, mais do que posso lembrar.

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  3. Olá Eduardo tudo bem?

    Vi um vídeo seu no Tedxcanoas e fique bem curisoso na parte que você fala sobre um reencontro com um antigo amigo da faculdade em um bar e ele te pergunta "E aí, achou o sentido pra vida?", e você disse que mesmo sem ter pensando muito no assunto respodeu "Achei, o sentido da vida é aprender". Gostaria de te perguntar novamente a mesma pergunta, por favor tome o tempo que achar necessário para responder.

    Atenciosamente,
    Marcelo.

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  4. Me emocionei com a história D:
    Sempre tento mostrar para meus amigos seus vídeos e documentário que posta na página. To para mostrar seus vídeos para meu professor de Sociologia faz tempo.

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  5. Caro, Eduardo Marinho.
    Você tem me tocado desde que vi um vídeo seu pela primeira vez (cerca de 3 semanas atrás).
    Eu gostaria de saber como eu posso ajudar a melhorar esse mundo, quero fazer minha parte, sabe?
    Um pouco já tenho feito divulgando seu blog e seus vídeos pelo facebook.

    Queria fazer mais! Ainda não tenho condições de fazer grandes feitos porque não tenho tanta condição.

    Naquele vídeo que você postou "Domínio Público" que pede doação, estou estudando doar 500 reais, só vou terminar de organizar meus orçamentos pra ver se essa quantia toda será possível.

    Tenho pensado em organizar um ida a hospitais públicos pelo menos uma vez por semana pra levar café, leite e chocolate quente (e talvez pão).

    O que mais posso fazer de minha parte pra contribuir com a luta dos sofridos???

    Sou seu fã!

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  6. Estava me preparando para estudar violão quando descobri seu blog e comecei a ler algumas coisas.
    Só sou obrigado a te agradecer, pois não me sinto nem um pouco sentido por agir procrastinavelmente nessa noite.
    Muito bacana!

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  7. Essas crônicas são mesmo algo de bonitas, tocantes, universais...... force a memória pra lembrar essas histórias todas e compartilhe com a gente!

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    1. Todas não dá, moça. Mas de vez em quando vem uma história que passou, quando dá eu escrevo. Vou juntar pra um próximo livro, devo acumular umas cinqüenta. Vou postar algumas aqui, com certeza.

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    2. "Próximo livro" epa qual o nome dos anteriores? *__*

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    3. Crônicas e Pontos de Vista, editora Navilouca, e os que fiz, de 16 páginas, Palavra & Imagem - em função, Contra Corrente - palavras metidas a poesia e Forma e Conteúdo, da editora faisamão.

      Desculpe a demora em responder.

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  8. a mudança vem de dentro para fora! parabéns pelo trabalho meu nobre! provavelmente conhece krishnamurti né?

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    1. "Não é sinal de saúde ser bem ajustado a uma sociedade tão profundamente doente." Krishnamurti

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  9. Acabei de ver um vídeo teu no Facebook, que me trouxe pra cá, então li esse artigo, me fez pensar numa coisa que percebi. Ví a Vida se manifestar sem falar seu nome, vi profundamente, isso é lindo! :)

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  10. e bonito ver que teremos, graças a apostolos modernos feito você (e acredite, não tem nada de religioso no que digo apesar da palavra) em muito breve, num esforço exponencial, um mundo muito melhor... e dificil enxergar... mas toda vez que duvido me deparo com alguma surpresa muito boa. A dessa noite foi da sua vivencia extremamente intensa, inteligencia acida, e acuidade muito avançada pra alguem desse mundo. Meus parabens e muito obrigado!

    E depois disso, parabens, sua narrativa e muito boa também! Pra vc ver que está certo mesmo, tudo que se faz com sinceridade é válido e recompensado...

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  11. a cada historia, a cada exemplo, vc esta me ajudando a desenvolver melhor meus receptores para esse mundo... sou grato!

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. assim que puder irei a Santa Tereza/RJ lhe conhecer, apertar sua mão. Dizer pessoalmente ao menos o quão valorosos são suas ideias para a sociedade atual. Originadas a partir da própria vivência.

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  14. Tá de parabéns Eduardo. Dificilmente se encontra alguém que consegue passar com tantos detalhes e profundidade a vivência que tem servido de exemplos por aqui. Didáticos eu diria. Tenho recomendado teus textos e vídeos sempre, e o papo de trazer tua palestra tá mais vivo que nunca. Repito, parabéns.

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