terça-feira, 17 de junho de 2014

Reação a uma dispensada

Esse texto foi escrito há um tempo, não é a situação em que me encontro agora. Ninguém precisa se solidarizar com meu "sofrimento", porque ele já foi digerido. Publico porque achei que, diante das reações raivosas, magoadas, acusadoras e cobrativas, comuns nos momentos de separação, seria uma fonte de reflexão pra muita gente. A inconformação com a realidade estende e aumenta o sofrimento, em vez de superar - que é o mais necessário nesses momentos. Bons sentimentos permitem enxergar melhor a realidade e as possibilidades que o tempo e a vida apresentam. Maus sentimentos fazem o contrário. Se não for possível ter bons sentimentos nessa hora, pelo menos é preferível a tristeza natural, a dor de uma ferida recém aberta, que a destrutividade. Feridas recentes sabemos que doem por um tempo, mas passam. Serenidade na tristeza é sinal de maturidade espiritual. O tempo é o melhor cicatrizante, a não ser que o rancor, a inconformação, a raiva mantenham a ferida sempre aberta, impedindo a cicatrização. 

Se vemos a vida como uma caminhada, é como se a gente desse uma canelada dessas fortes, que fazem a gente dar uma parada, esfregando o lugar da pancada, e logo andar de novo, pela necessidade do viver, mancando no princípio, enquanto a dor vai passando. Mais na frente, dor passada, estaremos mais atentos, mais sensíveis, mais perceptivos aos sinais que a vida nos dá. Há sinais, vê quem é capaz - e temos muitas capacidades a serem desenvolvidas, se favorecemos os sentimentos. A raiva, a mágoa, o rancor nos cegam a visão sobre a vida e nos prendem a atitudes destrutivas. Seguindo adiante e aceitando os acontecimentos, os fatos, superamos com proveito as situações, nos melhorando por dentro e nos preparando melhor pras coisas que a vida apresenta todo o tempo. 

É preciso tomar a vida com suas alegrias e dores, tirar dela o melhor proveito na construção interna, serenando o espírito pra ter clareza de visão. A revolta e a depressão turvam a visão e impedem as percepções necessárias ao crescimento inevitável - quem se recusa, é empurrado com a dor que se impõe, soberana e implacável, muitas vezes na forma de "inexplicáveis" angústias, outras vezes em atitudes pequenas de forra, tentativas inúteis e nocivas de "devolver" o sofrimento. Primário.

Com calma se pode ter melhor proveito dos percalços no caminho.

Prelúdio de um pé na bunda

Acho que já falamos, né...
Tô me desenrolando de você. Tá difícil, doído, mas se sobrevive, eu acho.
O cara se apavorou quando te viu comigo, ele te conhece, sabe como te tocar, viu que cê tava arrumando um lance sério. Imagino que tenha tocado seus pontos sensíveis, te mexeu, tu tem uma filha com ele, uma ligação forte. "Fiquei mexida", você disse. Sobrei nessa.
Fico pensando se não vai ser tarde quando você perceber que ele é a mesma pessoa que te fez desistir da relação.
Foi muito bom ficar contigo, imaginei que era pro resto da vida. Mas não foi, não era. Dói, pessoa, eu tenho amor por você, queria você comigo e era questão de tempo pra gente colar.
Mas não posso insistir, não posso interferir nessa história que não é minha.
Preciso seguir adiante, não posso ficar me lamentando.
Carrego uma dor comigo e não te responsabilizo por isso.
Vai em frente, linda.
Espero que você se realize.
Que faça tua vida ter sentido.
Admiro você, por sua disposição. Cê é uma guerreira.
Boa sorte, irmãzinha.

Não se preocupe comigo.

Toda dor passa. Tudo passa.

Depois disso, houve ainda uma continuação, à distância, até o primeiro encontro. E aí a relação gorou, por outros motivos. Fora de controle. Coisa da vida, sem ranço nem mágoa.

Continuo lhe desejando o bem, como de resto a todo mundo.


12 comentários:

  1. Olha só que treco doido: logo na primeira frase tu fala que isso aconteceu já há algum tempo e que teu sofrimento já foi digerido e tal. Eu li essa frase, não ignorei, e não é que me pego lendo o texto com o coração apertado? Aí fiquei me perguntando o porquê, e acho que é porque me lembrei de algumas feridas. A dor, a raiva, o rancor são inevitáveis. Ninguém sofre sorrindo (ninguém que eu conheça, pelo menos!). Mas é sábia essa tua atitude de superar essa fase, tomar fôlego e ir adiante. Concordo plenamente contigo quando tu diz que "A raiva, a mágoa, o rancor nos cegam a visão sobre a vida e nos prendem a atitudes destrutivas." Bóra fluir, que água estagnada apodrece!

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    1. Entre sofrer sorrindo e se debater destrutivamente vai uma distância grande. A dor é inevitável, mas a reação a ela depende da mentalidade, da disposição, da vontade, da visão das coisas. Raiva e rancor não são inevitáveis, são sinais da necessidade de clareamento pessoal.

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  2. Ótimo texto, assim como todos os outros, mais uma vez Parabéns Eduardo e continue com seu excelente trabalho.

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  3. Olá Eduardo, belo texto como sempre...
    vi um vídeo que você estava expondo em um muro os seus trampos, se ainda expõem no local, poderia me passar o endereço? gostaria muito de prestigiar seus trabalhos pessoalmente.
    abraços!

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    1. Se a sociedade e a natureza são por demais selvagens para o homem,me pergunto:Aonde podemos viver,afinal?

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    2. Oi, Lucas. Exponho em Santa Teresa, centro do Rio, no Largo do Guimarães, sábados e domingos em que estou no Rio e não chove, fácil de encontrar das três às oito da noite, pouco mais.

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  4. Como alguém dispensa o Eduardo Marinho? (só pra descontrair, mas é verdade)

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    1. O convívio nem sempre sintoniza, irmãzinha...

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    2. Oi Eduardo! Entendo e também já senti na pele a essência do que seu texto diz. Nem esperava que respondesse porque foi só uma brincadeira mesmo, uma forma descontraída de demonstrar minha admiração por você. E fiquei contente com a resposta.

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  5. Beleza Eduardo?

    Estou pesquisando sobre Comunidades alternativas, na verdade estou pensando em morar numa... Então, queria saber se vc tem algum material pra me recomendar ou se já teve alguma experiência com essas comunidades.

    Abraço

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  6. Como já dizia o sábio escritor Carlos Drummond de Andrade "a dor é inevitável, o sofrimento é opcional"
    ...o importante é que sempre fica algum aprendizado, basta saber olhar..

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  7. Tem uma música que diz que "todo mundo é parecido quando sente dor...", deve ser mesmo porque antes de terminar de ler a gente começa a se perguntar "como não fui eu quem fiz" (como diria outra música)...é por aí :)

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