terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

De Carapebus a Regência

















No terraço da casa de Patrícia e Adilson, se vê o mar e a nuance.


As praias cheias, ainda que a cor da água lembre a lama diluída


















Era o final da manhã quando começamos a subir o litoral norte do Espírito Santo. Há trinta anos atrás eu andei por estas praias, época de angústias e dúvidas, de opções e decisões definitivas a respeito da vida e dos seus caminhos. Se reclamava do minério do porto de Tubarão, no ar e na água do mar. No rumo norte, eram longe os povoados, muito mato e espaço até Barra do Riacho. O minério continua no ar, a fuligem preta toma Carapebus. Do terraço da casa que nos abrigou, ao norte da siderúrgica de Tubarão e de Vitória, vimos o mar com leve nuance barrenta, com uma faixa mais densa lá no fundo, a alguns quilômetros da praia. Será a lama da Samarco, imagino, pelas notícias já chega na praia da Costa, em Vila Velha, início do litoral sul. Agora, além do eterno minério, há os resíduos da extração deste minério, metais pesados, cancerígenos, diluídos na água em quantidades impensáveis, desde mil quilômetros, do alto das Minas Gerais e sendo vomitado pela boca do rio Doce, direto no mar antes claro.


Um vago aviso, ignorado pela maioria.


Saímos de Carapebus, pegamos a via litorânea. Não havia mais espaço aberto, tudo construído, o trânsito congestionado. As praias se seguiram, dia de sol quente, cheias de gente, uma atrás da outra, Manguinhos, Jacaraípe, Nova Almeida, ninguém parece dar importância à lama da mineração, ao colapso do rio Doce e seus resíduos sendo despejado no mar, às toneladas, infestando norte e sul da foz, abrindo um leque avermelhado oceano adentro e ao longo dos litorais. Numa sociedade humana que merecesse este nome, o poder público estaria esclarecendo sobre os perigos mortais do contato com esses resíduos, indicando nas praias a contaminação gravíssima, contaminação que leva a gravíssimos problemas de saúde, desde doenças neurológicas até variados cânceres. Mas o poder empresarial fala mais alto que a consciência das chamadas autoridades e dos funcionários qualificados pra mentir sobre a realidade.


Nova Almeida, cada vez mais ao norte, a mesma indiferença.


Perto de Barra do Riacho, em território guarani, encontramos umas barracas com artesanatos indígenas de vários tipos, paramos pra assuntar. Das duas uma: ou aquelas pessoas temem responder perguntas ou não sabiam de nada, nem sobre o bloqueio de ferrovia e rodovias – “aquilo foram os tupiniquins, não nós” -, nem sobre a lama tóxica, nem sobre os motivos que levaram os tupiniquins àquela atitude. Os tupiniquins estavam em Comboios, em sua terra, distante ainda. Seguimos.

Vários congestionamentos pelo caminho, tudo parecia estar normal em seu movimento de verão. Não pude evitar um sentimento de nojo pelas administrações públicas em suas sucessivas omissões – em sua cumplicidade irrestrita com o poder econômico e em prejuízo permanente da população. Ali estavam milhares e milhares de pessoas sem a menor noção do perigo. Um vendedor de picolé me esclareceu que a lama estava passando a 25 quilômetros mar adentro, tinha passado longe dali e chegado em Vitória e na Praia da Costa, em Vila Velha. Ele viu na televisão, não tinha perigo...
Entramos no território tupiniquim de Comboios, já vínhamos em estradas de terra desde Vila do Riacho, deixamos o caminho pra Regência ao passar no marco da terra indígena. Estrada precária, cheia de costelas, íamos devagar quando fomos ultrapassados por um carro pequeno, com cinco jovens indígenas dentro. Buzinaram em saudação, respondi da mesma forma e eles seguiram na frente até sumir de vista. Poucos quilômetros depois, chegamos ao fim da linha. Era um grupo de casas na beira de um rio, todas fechadas, ninguém à vista, e a estrada fazia a volta. Paramos pra pensar e o carro deles apareceu atrás de nós. Estiveram nos observando. Fizemos a volta e paramos do lado deles, pra conversar. Expressão desconfiada, disseram que o cacique tinha viajado e só voltava quarta-feira. Perguntei se era o cacique que tinha virado pastor evangélico, eles falaram entre si e responderam que aquilo fora no ano passado e que o pastor não era mais cacique, tinha outro no lugar. Senti a resistência cultural, cacique convertido, cacique destituído. O campo pra conversa era bem pequeno, a desconfiança vibrava no ar. Imaginei o estrago que aquela conversão fez na comunidade, o cacique pastor deve ter arrebanhado muitas ovelhas antes de ser substituído. Agradeci e fomos embora, destino Regência, só estrada de terra.


Foz do rio Piraqueaçu, que passa nas terras indígenas.


A uns dez quilômetros de Regência eu vi, à esquerda da estrada, um agrupamento de casas e várias bandeiras vermelhas do MST. Olhei melhor e vi as lonas pretas – um acampamento. Paramos. Entramos em contato com os primeiros moradores, próximos ao portão. Expliquei nossa viagem e propósito, eles ofereceram café. Na conversa soubemos do canal aberto pra levar água do rio Doce pra uso industrial da Aracruz Celulose, através da Fíbria, que prepara celulose pra Aracruz, desfaz o eucalipto em massa. Nós havíamos passado em frente, uma indústria grande, imponente, soltando fumaça pelas chaminés modernosas. Nos campos em frente, do outro lado da estrada, o cheiro é forte e dá mal estar, dor de cabeça, trava na garganta. Vimos espaços como grandes pastos, mas cobertos de um material entre branco e cinza, onde o vento levanta uma espuma incompreensível, pois parece areia suja, sólida. Agora os caras nos mostravam o canal, a um quilômetro do acampamento. Construído pela Aracruz pra levar água do rio Doce até a indústria da celulose, azarou a pesca no baixo rio Doce até a foz e produziu peixe farto. Isso trouxe um monte de famílias pobres de pescadores pra viver junto ao canal, ganhando a vida. E assim viviam, apesar das águas já contaminadas mas não mortais ainda e cheias de peixes. Até chegarem os rejeitos da mineração, a lama vermelha da Samarco. Não havia uma barreira na entrada, o rio Doce escorria pra dentro sem obstáculo. O canal é uma linha reta até onde se pode ver, de uns quinze metros de largura por um e meio de profundidade, água translúcida que deixava aparecer marcas avermelhadas na cor da lama. Nos dias em que os rejeitos da mineração chegaram, com seu aspecto grosso e avermelhado, os peixes passavam desesperados, fugindo, entrando pelos pequenos canaletes e afluentes do canal, aos enxames, “dava pra pegar com a mão, aos punhados”, como disseram os moradores do acampamento. E morreram todos os peixes, pois todos os afluentes foram penetrados pela morte da mineração. Durou pouco a vermelhidão do canal, as máquinas da indústria seriam danificadas com os detritos metálicos, em pouco tempo a água clareou, ainda que deixando sua impregnação vermelha de resíduos sólidos no fundo, nas folhas, nos troncos submersos. Então é possível filtrar de algum modo os rejeitos da mineração, desde que haja interesse empresarial, no caso, da Aracruz em manter suas máquinas. Por que não usam o mesmo sistema no rio Doce, ainda que adaptado pro volume muito maior? Certamente pelos custos da operação. Existe como, mas não há interesse e não se divulga. A água ali, embora turva, está translúcida, num enorme contraste com a do rio Doce, que nem água parece. Bueno, não é.


A ponte sobre o canal e a turma do acampamento.
A folha boiava, verde por cima, lama tóxica por baixo.



Uma draga limpa constantemente o canal.

O tronco submerso em água transparente mantém o vermelho.


Entre os moradores, se apresentou um casal, ele claramente indígena, ela branca, de cabelo comprido, sem brincos, no estilo evangélico. Era primo do cacique destituído, aparentemente convertido também. Disse que o cacique estava na região, perguntei se era o pastor e ele disse que sim. Concordou com relutância sobre a substituição do primo e, perguntado, afirmou ter se “esquecido” o nome do novo cacique. Falsidade no ar, fomos embora.
O dia já se despedia quando nos aproximávamos de Regência. Passamos pela base de operações da Tamar, seguimos adiante, paramos ao por do sol. Faltavam poucos quilômetros pro povoado, estacionamos solitários ao lado da estrada e caminhamos meio quilômetro pra chegar no mar. Olhei as marcas da maré cheia, revi as cores que vi em Mariana, em Bento Rodrigues, Camargos, Paracatu de baixo. Estavam ali, em cima da areia da praia. O mar, avermelhado, mas diluído perto da densidade do rio Doce. Claro, estavam misturados rio e mar. Não havia ninguém, a praia vazia, alguns aglomerados de madeiras atirados pelas ondas na areia, talvez também vindas, talvez, lá do alto da serra, de Mariana. O mar cheio de ondas, espalhando aquela espuma com tonalidades do tóxico letal, deu uma sensação de fim de mundo próximo... de um mundo, pro nascimento de outro.


Em Regência, todo mundo investiu no verão, como sempre, temporada de salvação das dívidas, de acumulação pro ano inteiro. Ninguém contava com a morte que viria pelas águas do rio Doce.


A lama veio e foi limpa. Interesses empresariais. Ou limpa a água ou páram as máquinas. "Milagrosamente", as águas foram limpas. Mas não as do rio Doce.

9 comentários:

  1. É Apocalíptico a escassez de conscientização superando a escassez da qualidade da natureza que nos cerca...

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  2. A massa segue um rumo como gado de corte, é fato. Parece clichê, mas não. Por vezes, o óbvio aparentemente é obscurecido pela vontade de não enxergar. A massa é educada para assim agir. O texto retrata boa parte do que essa massificação da capacidade de não enxergar as coisas como de fato são é capaz. Admirável sua abordagem! Abraços.
    PS: Regência... Reger... Quem nos rege? Somos regidos por quais interesses? Tantos... Tantos... Obrigado pela reflexão.

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  3. Assim continua,a natureza toda sendo destruída,sem pensar a sociedade vai destruindo tudo,rios poluídos ,o lucro esta na frente,pior o povo que não enxerga pela falta de informação que não chega pela mídia,que transmite apenas o que interessa,me da nojo ver esses empresários e o governo tão quieto por estar nas mãos deles.

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  4. Eduardo - obrigada pelo trabalho ...o que vocês têm feito desvela o lado "oculto", o que a mídia oficial teima em esconder...seu relato faz emergir o que precisa ser visto, sentido, escutado... a história quando é desconhecida tende a ser repetida...Obrigada viu? Muita luz, paz e proteção para vocês!

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  5. Eduardo - obrigada pelo trabalho ...o que vocês têm feito desvela o lado "oculto", o que a mídia oficial teima em esconder...seu relato faz emergir o que precisa ser visto, sentido, escutado... a história quando é desconhecida tende a ser repetida...Obrigada viu? Muita luz, paz e proteção para vocês!

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  6. Eduardo - obrigada pelo trabalho ...o que vocês têm feito desvela o lado "oculto", o que a mídia oficial teima em esconder...seu relato faz emergir o que precisa ser visto, sentido, escutado... a história quando é desconhecida tende a ser repetida...Obrigada viu? Muita luz, paz e proteção para vocês!

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