quarta-feira, 21 de novembro de 2018

É preciso enxergar antes de solucionar


Falando diretamente e sem curvas, a sociedade ainda não é humana, é empresarial. Tudo gira em torno de interesses e poderes econômico-financeiros, mega-empresariais, vale mais o patrimônio que a própria vida. Da gente, dos bichos, das plantas, das águas, da terra, do ar. Quando a sociedade alcançar finalmente o patamar de humana, com o custo que se fizer necessário pra isso, a vida e a integração com a natureza que a gera estarão no centro de importância, a solidariedade será não uma virtude, mas uma ferramenta de trabalho, de existência, tão natural quanto comer ou sorrir. E não se verá gente como lixo, jogada em qualquer canto sujo.
A partir daí, vou vendo o quanto de miséria cerca todas as cidades, às vezes entranhadas também em seus vales e morros, vou percebendo o quanto essa legião excluída dos benefícios sociais, roubada em seus direitos básicos de existência, é necessária na manutenção da estrutura social. A multidão se aperta nos transportes pra fazer funcionar, debaixo de exploração intensa, a sociedade que a oprime. Milhões que são o alicerce, a base de funcionamento de tudo o que existe, literalmente tudo, pois em tudo são os que estão na base. Desde a extração das matérias primas, sua transformação, até a entrega dos produtos e dos serviços. Do começo ao fim. E são também que recolhe e limpa o descarte.
A maioria é o alicerce social, inclusive financiando o Estado através dos impostos embutidos nos produtos básicos pra sobrevivência, de uso geral, formando a massa tributária, que é a grana que o Estado arrecada pra pagar suas mega-despesas. Mais da metade de tudo o que o Estado arrecada, mais da metade da arrecadação dos impostos, da massa tributária, é paga pelos mais pobres. São eles quem financia a sociedade como um todo, somos todos nós. Pergunta - o que faz as pessoas aceitarem se apinhar em transportes coletivos que tomam horas incontáveis de suas vidas, apenas pra levar e trazer de trabalhos explorados, mal remunerados, em situações de pressão e humilhação, com pouco tempo pra viver? O que produz a aceitação de uma vida vazia de sentido, o tempo passando, da juventude à maturidade e à velhice, com a morte como ponto final, muitas vezes com a clara sensação de ter vivido em vão? 
"De que valeu a minha vida?" Imaginei esta pergunta aos meus dezenove anos sendo feita a mim mesmo, lá no final, na velhice, nos momentos da partida inevitável. Observava os mais velhos, ouvia o que diziam sobre a própria vida e as impressões que tinham. Às vezes eu mesmo perguntava, provocava, pra ouvir. Sobretudo um ficou marcado na memória, talvez porque ocorreu em um momento chave da minha vida e teve influência direta nas minhas atitudes na época. "Eu fiz tudo o que me disseram pra fazer, me formei, montei minha empresa, me dediquei a ela...", seus olhos miravam o passado, enquanto ele contava parte da sua história, em pedaços distantes no tempo. "A sensação que eu tenho é que mentiram pra mim, lá no começo da minha vida, e eu passei a vida inteira correndo atrás dessas mentiras". As pausas pra ele eram lembranças do passado que passavam na sua frente. Pra mim eram revelações da minha intuição, chocantes pelo inesperado, eu estava literalmente em choque. "Eu sou visto como um empresário de sucesso, um vitorioso... e aqui dentro eu me sinto um fracassado, um derrotado".   
Isso não vai acontecer comigo, eu me dizia repetidas vezes. Eu morro antes, mas não chego na idade desse cara desse jeito. Com esse vazio, com essa sensação. Tem que haver algum sentido em algum lugar. E eu vou buscar. Ou vou encontrar, ou vou morrer procurando. Fui direto na secretaria da universidade e me desliguei dela, peguei meus documentos escolares e levei pra entregar a meus pais. Era o pagamento da minha "dívida".
Desligamento total, da escola, da família, dos amigos, da classe social. O banimento foi completo, a realidade mudou, os lugares e relações sociais mudaram e já não havia mais pontos de encontro. E eu pude ver a cara do Estado onde ele não usa máscaras. Ali onde o serviço público forte é a polícia, que já chega com ódio nos olhos, pronta a agredir, humilhar e matar, cérebros lavados de humanidade, embebidos em medo e ódio contra os "territórios perigosos", as periferias e favelas onde vivem os milhões de vítimas de crimes sociais, em situação de estímulo ao crime, de desesperança e abandono, roubados em seus direitos constitucionais. 
Um Estado que não cumpre sua própria constituição, sobretudo nos direitos humanos, básicos, da maior parte da população, pode ser visto como uma organização criminosa, armada contra o próprio povo pela cúpula da elite alinhada com os interesses de elites mundiais, banqueiros e mega-empresários de alto calibre. O Estado não esconde a cara nos postos de saúde, nos hospitais, nos recursos aplicados na saúde pública. Falta tudo, de médicos a esparadrapo, de remédios a ambulâncias, de aparelhos a macas e lençóis. Em qualquer departamento público de atendimento aos mais pobres o desprezo, os maus tratos, a má-vontade é palpável (cabe aqui o contraponto dos profissionais bem intencionados, humanos, que se dedicam, vocacionados no serviço público, que encontram todos os entraves pra exercer suas funções, desde a falta de recursos até a discriminação, a ironia, o deboche, a perseguição pelos maus funcionários, muito bem adaptados a uma estrutura espúria que premia a perversidade, a ambição, o egoísmo com cargos de poder e controle - uma estrutura mau caráter que privilegia o mau caráter e persegue os bons). 
Seja na área que for, jurídica, administrativa, de transportes, trabalhista, qualquer uma. Interesses empresariais de porte grande têm prioridade e rapidez. Ao povo, desimportância, roubo, mentiras, desgaste, exploração, repressão e desdém. É estratégica a formação psicológica e ideológica profunda, na ignorância, na desinformação, no sentimento de inferioridade, de impotência, na aceitação da "realidade" como ela é, implantando conformação, no modelo de educação empresarial, anti-social, e no massacre midiático-publicitário-ideológico. As exceções são méritos pessoais  e de grupos em ações pontuais, isoladas e devidamente ignoradas pelos meios de comunicação, pra não dar "mau exemplo" pra esmagadora maioria, mediocrizada e dominável. 
Não tenho a pretensão de apresentar soluções, nem mesmo caminhos. Trato apenas de rasgar o véu que cobre a realidade. Nenhuma instituição funciona com sinceridade, no objetivo de atender à maioria da população, nem mesmo em seus direitos humanos, básicos, fundamentais e constitucionais. É preciso enxergar o Estado como uma farsa, pelo simples motivo de que o povo está mentalmente entorpecido, ignorantizado, superficializado, desinformado - ou deformado em sua visão de mundo -, incutido de valores programados, induzidos ao consumo, a valores e comportamentos condicionados, conseqüência de um trabalho profundo de penetração na sociedade dessa deformação informacional que são os meios de comunicação privados e os criminosos das redes sociais, a começar pelos seus donos. É uma atividade criminosa de deformação da realidade, de controle social descarado, formando opiniões, criando "inimigos públicos" que são, em geral, justamente os que propõem uma sociedade menos injusta, que denunciam os crimes cometidos contra a população, o meio ambiente e a vida. A mídia é a voz dos parasitas sociais que dominam de alto a baixo a estrutura social. Voz que sobretudo fala ao inconsciente coletivo, usando conhecimentos profundos da mente humana.
Há muitos que já enxergam e não se deixam levar. E mais e mais vão surgindo, exceções às regras da manada. Estes vão criando formas de viver à sua maneira, escolhendo por si e não pelas programações sociais, alcançando um bem estar proibido no esquema social. Nesse caminho, soluções vão surgindo nos seus locais, pra resolver os seus problemas. Quanto mais gente for vendo que não se pode contar com o Estado e suas instituições, pelo menos enquanto dominadas por quem são, mais soluções de autonomia irão surgindo. É um trabalho inter-geracional. Que já vem de onde nem se vê mais e vai pra onde ainda não se vê. Não vejo soluções nem saídas, vejo caminhos formando um caminho coletivo. Caminhamos há milhares de milênios, cada vida é um passo nesta caminhada que não vemos nem começo nem fim e na qual somos apenas um passo. Que seja um passo firme e útil, que eu possa ter a satisfação de ter vivido uma boa vida, pra mim e pro mundo.

21 comentários:

  1. Sua existencia, afirmada assim como é, ja é de gramde utilidade para muitos. Nunca ouvi fala tao lúcida.

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  2. É angustiante viver em meio a sociedade que vivência uma espécie de teatro.Alguns fecham os olhos para poderem fazer parte do jogo, outros por ignorância mesmo. A mensagem que pode salvar uma vida é trocada por uma espécie de " mais valia existencial". O futuro é angustiante.

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  3. Brasil e seus Brasis, não visto, não enxergado, invísivel pelos políticos que pensam para e somente aos seus benefícios próprios, me emocionei ao ler ao relato de experiência tão humana de um profissional da saúde humana, quantos muitos dos que juram em salvar vidas, também estão no rol dos benficios para os lucros. A ESPERANÇA TEM QUE SE MANTER VIVA, MESMO EM TEMPOS TENEBROSOS.

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  4. Eduardo ! obrigado,seu conhecimento esta sendo compartilhado !

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  5. Segundo Thomas Hobbes, depois revisado por Freud, Homo homini lupus....Sem a negação parcial dessa natureza é impossível haver civilização, mas a questão é: até que ponto podemos negar a natureza humana...

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  6. Vivemos em tempos difíceis.
    Vivemos presos a um Sistema,
    Em que quanto menos pensarmos, Em que quanto menos soubermos,
    Em que quanto menos formos reconhecidos por nossos méritos, e recompensados por nossos esforços, melhor.
    Nos tornamos robotizados, programados, alienados, limitados.
    Quando muito, um grande e monstruoso depósito de informações... ... ...
    Nos tornando cada vez mais escravos,
    Nunca tão desesperados e confusos.
    E somos a massa
    E massa Trabalha.
    Mal sabe a Massa, da Evolução necessária para haver #Independência.
    Mas me esqueci, massa não foi feita para pensar... e também não poderia se dar a esse luxo.
    Pois a Massa precisa sobreviver, nessa 'selva de humanos'.
    Mal sabe ela da Força que tem.
    Bom será conseguir sentir alguma esperança.
    Bem será dela, "Ó Pátria Amada...", se perceber isso a tempo. ... ... Tempo este que conta como um dragão feroz, devor@ndo cada milésimo de segundo que se vai. 07/09/2017.

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    1. Escrevi antes de ver um de seus vídeos... Então quando vi, logo no primeiro, no ano passado, " Minha alma sorriu", @EduardoMarinho .

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    2. Obrigado!Seu texto é um ensinamento que é de grande valia para a vida.

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  7. Eduardo é o cara.... Muito esclarecedor. Congratulations!!!!!

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  8. Você diz o que se vê, mas não se fala. O que se sente, mas não se fala. O que nos toca, mas não se pode falar. O que queima nossa pele, mas não se pode falar.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Obrigado Eduardo! Gratidão por sua existência e por ter essa visão tão clara e tão lúcida nesses tempos difíceis.

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  11. Gratidão irmão. Tenho uma ótima ideia que telvez poderia ajudar à todos nós na área da saúde. E gostaria de olhar nos olhos e explica-la para saber o que vc acha. Não apenas por "apoiar ou gostar das suas idéias" mas sim por que acho q eu expondo meu lado e explicando o que pretendo vc me dê opinião e um abraço fraterno com as palavras. O que acho q não tem nem com a familia, mas não o julgo poois nem eu tô conseguindo mais fazer isso direito. rs. Abraço irmão. Muito obrigado por tanta informação, todas elas mesmo, até os lugares q vc visita, adoro ver e sempre vejo. Se cuida na caminhada. Moro aqui em sp. Quando tiver por aqui, avise-me por favor sz

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  12. É muito difícil romper essa barreira da vida clichê voltada para o consumo, principalmente quando temos filhos. Me sinto uma hipócrita por ter estudado em escola particular a vida toda enquanto minha mãe sempre foi professora de escola pública. Hoje repito o mesmo erro com meu filho, pois meu marido tb é professor do ensino público. Essas e outras hipocrisias me incomodam demais, assim como o consumo em excesso. Há 12 anos atrás me vi em uma situação de ruptura, mudei de país. Exerci o desapego material e hoje tento me policiar, mas acabo me vendo assolada pelas mazelas do excesso e da total incapacidade de me dissociar do modelo padrão de existência. Tenho projetos para mudança total de estilo de vida, mas não vejo nenhuma perspectiva de implementá-los de forma não egoísta em relação a meu filho e marido. A impressão é que mesmo abandonando a rat race ela nunca nos abandona.

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    1. Compartilho totalmente seu sentimento de hipocrisia, sou policial civil e vejo de perto como o estado trata as pessoas pobres, no entanto eu também preciso sobreviver...venho de
      de uma família paupérrima do interior do Espírito Santo que
      veio para o RJ a maioria analfabetos condenados a trabalhar em subempregos exatamente o mesmo perfil dos presos que lotam os presídios...

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  13. Meu respeito e admiração, fique sempre bem

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  14. Eduardo marinho por favor nos explique sobre a filosofia de vida hippie e ser e anarquista

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