sexta-feira, 16 de setembro de 2011

QUEM CORROMPE? : TRABALHADOR CORROMPE? PROFESSOR CORROMPE?


Ao leitor


Esse artigo do Laerte diz o que venho repetindo à exaustão, nas calçadas, praças, bares, conversas por aí. Vivemos num regime empresarial travestido de democracia. E fomos levados a acreditar em mentiras e a ver o mundo de maneira totalmente distorcida. Os que se angustiam se vêem num labirinto sem saídas, os que se revoltam encontram as dispersões calculadas para os revoltados, um mercado de revoltados, com produtos e comportamentos que expressem sua inconformação sem ameaçar o sistema, ao contrário, colaborando com ele, como consumidor e como colaborador na montagem do cenário de democracia, que precisa ser constantemente retocado, modificado, reestruturado, para permanecer como ilusão e conter explosões. Qualquer descontrole nessa área, as forças de segurança já estão treinadas e preparadas para a contenção. Desapartadas do sentimento de sociedade, de pertencimento à coletividade, essas pessoas não se constrangem em atacar, agredir homens, mulheres, velhos, crianças, sem perceberem o lado humano vergonhoso de tal atitude que, se os que cometem vissem, em situação de calma, ficariam no mínimo constrangidos, envergonhados pela evidente covardia. Uma força armada, treinada pra luta, pro massacre, atacando populações que não reagem e nem teriam condições de reagir à altura. E nos poucos casos de reação popular, como os recentes, no Juramento, na Mangueira,... dão as sérias conseqüências, revanche com gases, crianças, velhos, crianças passam mal, mulheres grávidas, feridos, presos. Nenhum bandido, além de alguns policiais que se aproveitam da farda e da ideologia do seu treinamento pra extravasar desvios pessoais - sem perigo de sofrer conseqüências, quando contra negros e pobres.


Penso que ver o mundo como ele é, ou procurar fazer isso, é o primeiro passo no processo de mudança consciente da realidade que nos cerca, da sociedade em que vivemos, esquecidos da coletividade que somos e de nosso compromisso, intrínseco à vida, em solidariedade e sentimento, uns com os outros e todos com o equilíbrio e a harmonia entre todos. Sem nenhuma exceção, esse é o nosso compromisso, consciente ou não. E nesse caminho avançamos, como o tempo, como a evolução de todas as coisas que conhecemos e, imagino, de pelo menos muitas das que não conhecemos. 


O domínio e a pesada influência das grandes empresas nas decisões e mais, na existência dos poderes públicos, com o apoio decisivo da mídia privada dominante, já se mostra a muitos olhos. Ainda poucos dentro do todo, mas isso se propaga como fogo. Resta escapar dos extintores do sistema, até que o incêndio seja tamanho que não se possa mais controlar, pois incendiará os próprios extintores.


Cabe perceber, porém, que a maior parte da força opressora, controladora e repressora reside em nosso consentimento coletivo, assimilando valores e comportamentos impostos, induzidos, criados e implantados pela mídia, pela publicidade e com a distorção das informações pelo jornalismo das grandes empresas. Vemos o mundo como uma arena, cheia de inimigos a vencer, obstáculos a superar, um "inferno" no caminho de um "paraíso" reservado a poucos. Todos adversários de todos, riqueza como objetivo de vida, posses como certificado de valor pessoal, conhecimento como fator de superioridade, e não de responsabilidade. O egoísmo foi entronizado e nós aderimos, mais ou menos escancaradamente. Assim sustentamos o sistema.


"A massa sustenta a marca; a marca sustenta a mídia; e a mídia controla a massa."
 George Orwell


Abraços a todos,
Eduardo.




Quem corrompe? Trabalhador corrompe? Professor corrompe?


Por : Laerte Braga

Há dias o País tem assistido a um esforço desesperado de velhos golpistas (torturadores, estupradores, assassinos de 1964), aliados a grandes empresários, banqueiros e latifundiários, para mobilizar os brasileiros contra a corrupção.

Tentam convocar uma nova marcha da família com Deus pela liberdade arvorados em uma condição de salvadores da pátria, do mesmo jeito que fizeram em 1964 sob o comando do embaixador Lincoln Gordon dos EUA e do general Vernon Walthers, ex-diretor da CIA (o governo dos EUA, em 1964 designou um comandante militar para as forças golpistas que entre outras coisas era amigo pessoal de Castelo Branco e falava português).

Apoiados pela grande mídia, a mídia privada, GLOBO à frente, tecem as mentiras de sempre, criam as ilusões que sempre criaram e tentam reduzir a corrupção a deputados, governadores, senadores, prefeitos, até presidente da República.

Dilma repete o malabarismo de Lula, uma no cravo outra na ferradura. O diapasão desse concerto petista é a bolsa família e 45% das receitas orçamentárias para pagar juros da dívida junto a bancos privados.

A diferença entre Dilma e Lula é que a presidente não consegue se equilibrar sobre o fio tênue do “capitalismo a brasileira” que o ex-presidente inventou. É menor que o cargo e ainda carrega consigo alma de tecnocrata. Ou seja, o que vale são os números não o ser humano. Na cabeça dessa gente numa tragédia, digamos assim, se a primeira impressão é que morreram dez quando poderiam ter morrido vinte, houve lucro, deixaram de morrer outros dez. Enxergam o mundo desse jeito.

No sete de setembro a GLOBO editou as matérias sobre o Grito dos Excluídos e a marcha das elites paulistas que tentam espalhar pelo Brasil, jogando tudo no ar como se fosse protesto contra a corrupção. Canalhice bem ao estilo da rede.

Nasceu com a ditadura, apoiou a ditadura e é instrumento de interesses estrangeiros, de banqueiros, grandes empresários e latifundiários.

Trabalhador e professor, por exemplo, não corrompem ninguém. São ludibriados por políticos corrompidos por banqueiros, grandes empresários e latifundiários. Veja o caso de Minas. Quando governador do estado o ex-presidente Itamar Franco anulou um acordo feito pelo seu antecessor, Eduardo Azeredo – corrupto de carteirinha – que entregava a CEMIG a grupos estrangeiros. Aécio, agora, no final de seu governo refez o acordo e entregou a CEMIG.

A mídia disse alguma coisa? Nada. Está no bolso. É venal. E o povo, o trabalhador, os professores mineiros nas mãos de uma aberração política o tal Antônio Anastasia, valet de chambre de toda essa gente, está como? Mas Aécio comprou um apartamento de um milhão de reais no Rio de Janeiro.
Segundo outra aberração, Cid Gomes, “professor tem que dar aula por amor, se acha o salários baixo que procure outra profissão”. Sogra não. O dito leva para Paris em vôo pago pelos cofres públicos.

O esquema de financiamento de campanhas políticas no Brasil permite que empresas, bancos e latifundiários comprem lotes de candidatos em todos os partidos com representação na Câmara ou no Senado através de doações. Tornam-se proprietários lato senso desses deputados, senadores, de governadores, prefeitos, vereadores, atingem o Judiciário e permeiam o Executivo.

Mas e daí?

O xis da questão não está em reformas políticas ou outras, na tentativa de construir painéis coloridos de ilusão e manter uma realidade podre como querem os que se voltam apenas contra os políticos no caso da corrupção.

E quem corrompe? Para que exista um corrupto é necessário que exista um corruptor.
A corrupção está intrinsecamente ligada ao modelo político e econômico vigente. A reforma política tira José Sarney de cena e coloca na cadeia? Não. Sarney serviu a ditadura militar com subserviência e de quatro durante todo o período do regime, da mesma forma que descaradamente emergiu – com a morte de Tancredo – como guia e condutor do processo de reconstrução democrática.

E o povo? A participação popular? Não tivemos uma assembléia nacional constituinte, mas um congresso constituinte e tutelado pelos militares que, entre outras coisas, não permitiram, como tem criado toda a sorte de obstáculos para que sejam revelados os documentos que mostrem a covardia diária dos golpistas/torturadores enquanto durou o regime.

Na passeata contra a corrupção em São Paulo estava um desses generais, eram visíveis bandeiras dos Estados Unidos.

Não foi por outra razão que o pensador e parlamentar inglês Samuel Johnson afirmou que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

O que querem? Mudar os políticos? É só olhar os antigos colaboradores do regime militar, vivos e fortes aí, exercendo mandatos e se afirmando democratas.

O que essa gente pretende é simples. Antônio Ermírio de Moraes compra dez tênis adidas a vista produzidos com trabalho escravo em países asiáticos, inclusive a China e o trabalhador compra um pagando em dez prestações para se sentir num dado momento como Ermírio de Moraes, na ilusão que vivemos numa democracia. O espetáculo, a “sociedade do espetáculo”.

Ermírio de Moraes está destruindo o Espírito Santo – o meio ambiente – com suas empresas, o tal progresso, adoecendo um povo, com aplausos de um ex-governador corrupto e assassino, Paulo Hartung, que de fato continua no covil do governo (chamam de palácio), onde um contínuo chamado Renato Casagrande faz de conta que governa.

Por trás da tal campanha existe a sórdida mentira capitalista, pela simples razão que os corruptos são corrompidos por eles. Não querem pagar impostos, não querem conquistas e direitos dos trabalhadores, não querem que o progresso seja algo comum a todos e sim privilégio deles. Querem professor dando aula por amor.

Quando se concede benefícios fiscais e tributários a uma grande empresa o custo dessa concessão é pago pelos trabalhadores, pelos pequenos empresários, pelo dinheiro que falta na saúde, na educação. É o caso da COCA COLA que financia parte dessa campanha. Ocupa terras públicas, através de uma empresa chamada CUTRALE, vende a idéia de progresso, geração de empregos, compra deputados, senadores, juízes, etc para manter as terras que repito são públicas e imputa-se a culpa aos trabalhadores rurais sem terra, aos pequenos produtores rurais.

E infestam a mesa do brasileiro de veneno como mostra um excelente documentário do notável Sílvio Tendler sobre agrotóxicos e coisas que tais. O veneno que comemos todos os dias produzido pelos compradores de deputados, senadores. juízes e que agora protestam contra a corrupção, biombo para disfarçar seus verdadeiros interesses.

Se fosse para valer não haveria um banqueiro solto. Estariam todos presos. Nem um grande empresário, ou latifundiário que até hoje se vale de trabalho escravo.
Por mais irônico que possa parecer, ou trágico, os que protestam contra a corrupção e tentam transformar a corrupção em único mal do Brasil são os que corrompem.  E a meia dúzia de inocentes a acreditar nesse tipo de marginal.

O institucional está falido. O modelo está corrompido por essa gente. O palco da luta é outro, é dos trabalhadores e é nas ruas contra a farsa de campanhas como essa.
São velhos gatunos tentando fazer ressurgir o golpismo que é parte da genética desse tipo de gente.
Deputados, senadores e juízes corruptos, governadores, são apenas figuras execráveis e compradas que carregam em seus balaios.

Trabalhador não corrompe ninguém. Professor, que é trabalhador, não corrompe ninguém.
Quem corrompe são banqueiros, grandes empresários e latifundiários.
É simples entender isso. A corrupção é parte inseparável do modelo político e econômico que temos.
Jogar por terra toda essa estrutura podre e construir um Brasil livre e soberano, sem essa gente, aí sim, essa é a luta real dos brasileiros.
Não há corrupto sem corruptor.

E por longo que fique, uma breve e real historinha. Nos idos de 2002 a GLOBO estava enfrentando sérias dificuldades de caixa. A GLOBOPAR estava levando o dinheiro da empresa. Tentaram 250 milhões de dólares junto a FHC e como o ex-presidente estivesse demorando muito a liberar o dinheiro, lançaram, inventaram, a candidatura Roseana Sarney à presidência. Chamaram o IBOPE e suas pesquisas prontas para atender o interesse do cliente, levaram Roseana às alturas e aí FHC chamou a turma na conversa.

O capital da GLOBOPAR era o seguinte – 90% da GLOBO, 5% do BNDES e 5% da MICROSOFT.

Convocaram uma assembléia geral para aumento de capital de um jeito que esse aumento implicasse nos 250 milhões de dólares e aprovação da emenda constitucional que passava a permitir a presença de capital estrangeiro no setor de telecomunicações. A GLOBO não entrou com sua parte, lógico, estava inclusive ameaçada de falência, havia credores externos apertando os Marinhos, a MICROSOFT que já sabia da mutreta correu fora e o BNDES entrou com a sua parte, dinheiro dos brasileiros. O Congresso aprovou a emenda, o grupo MURDOCH comprou parte da GLOBOPAR. Na semana seguinte a Polícia Federal de FHC estourou o escritório do marido de Roseana achando um milhão de reais ilegais doados para a campanha. Tudo pronto, ficou acertado o apoio da rede a candidatura de Serra. O furo foi exclusivo da GLOBO.

E a GLOBO está na campanha contra a corrupção. Dá para entender os verdadeiros motivos desses bandidos?

A luta é outra. É contra bandidos compradores e comprados. Se bobear essa gente revoga a Lei Áurea e amplia os limites da escravidão contra todos os trabalhadores. Na prática, vão fazendo isso nessa mistura de populismo com capitalismo e campanhas imorais e amorais como essa. Jogo de cena de bandidos para vender imagem de santos.

laertehfbraga@gmail.com

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Resposta ao preconceito contra o "brasileiro"

Não aceito bem a desvalorização do brasileiro como um todo. Pra começar, o povo brasileiro é recém nascido e ainda não se conformou nem mais ou menos. Estamos em pleno processo.
Dizer que é indolente, acomodado, desqualificá-lo diante do europeu e do anglo-saxônico, sobretudo, é comparar o incomparável. Papo de quem vive fora da realidade, não tem noção do que é a coletividade brasileira, em franca formação, aglutinando elementos de todo o planeta, de todos os povos, sem conflitos em sua maioria, recebendo e abraçando a mistura - exceção feita a alguns focos, insignificantes diante da totalidade.
Quem anda pelo chão da sociedade conhece o espírito solidário, criativo e resistente das coletividades brasileiras, juntando os elementos mais diferentes de modo harmônico, integrando, diluindo as etnias em permanentes misturas, num processo de integração dos diversos povos do mundo.
Ignorância, preconceito, ingenuidade, fraqueza mental, primitivismo espiritual, não sei quantas possibilidades posso imaginar pra esse tipo de conceito. Ou preconceito.
A concentração histórica de terras, riquezas, rendas, tecnologias e poderes nas mãos de elitezinhas insignificantes, desde que chegaram os invasores europeus até hoje, sonega direitos da maioria e cria uma situação de domínio e exploração com o apoio total das instituições do Estado, atirando milhões à pobreza, à miséria e à ignorância, negando-lhes os direito básicos, hoje determinados na Constituição do Estado. 
Ponham-se os filhos da elite nas escolas públicas que formam a massa da população, com os mesmos recursos de que dispõe a maioria, e vai se ver o que causa essa aparente "inferioridade" do povo brasileiro.
A mensagem ainda usa o jargão "cada povo tem o governo que merece", na velhíssima prática de culpar as vítimas, e fala sobre os corruptos. Como sempre, da parte mais fraca da corrupção, jamais tocando no corruptor - nos donos das imensas empresas que promovem a corrupção através de mandatos sucessivos, em todo governo, em toda a legislatura -, sem considerar que as instituições estão infiltradas desde as estruturas - por essas mesmas elites e seus elegantíssimos apaniguados - e que a origem primeira da corrupção é o interesse empresarial  nas riquezas públicas e seu controle sobre o Estado e seus flutuantes políticos, governantes, legisladores, mesmo juízes dos altos escalões.

Eis a resposta. Aproveito pra recomendar os links.


Isso foi hoje. Até agora, ninguém me respondeu. 










Aí, rapaziada.

Ilusão esse negócio de que brasileiro não luta. Aliás, ilusão planejada, montada em laboratórios de mídia, a serviço da elite dominante pra dentro e dominada de fora, pra moldar a mentalidade da população. Quem não luta ou se faz de palhaço são pessoas das classes médias (das altas às baixas), emburrecidas e superficializadas ao extremo - e a parcela subalternizada da massa pobre, que é levada a ver o consumo como ideal de vida, a esquecer os seus direitos fundamentais roubados e viver cheia de sonhos de consumos impossíveis, assimilando a sabotagem institucional como incapacidade ou inferioridade pessoal. Essa maioria esmagadora muitas vezes põe sua mentalidade a reboque das classes médias (supõe-se que por ter mais acesso ao consumo, "sabem das coisas") que, perdidas entre o trabalho, o consumo e as contas, formam sua visão de mundo a partir da mídia comercial e dos isolamentos em que procuram se manter.

Mas há movimento, sim, e muita luta. Essa imagem do brasileiro pacato e omisso é criada, estimulada e divulgada pela mídia, num processo de acomodação e desinformação geral. Correspondências como essa apenas colaboram com essa visão. Pegue a história do Brasil, vista por historiadores honestos e não cooptados pelos agentes controladores dos bastidores sociais (Mario Schmidt, por exemplo, Moniz Bandeira e tantos outros, cujos livros são boicotados nas escolas). Inúmeras revoltas, rebeliões e levantes são apagados da história ou citados como folclóricos, movimentos desligados do contexto histórico das lutas populares de resistência.

Só como sugestão, sugiro um filme que vi ontem, Atrás da Porta, de Vladimir Seixas, feito em duas ocupações no centro do Rio, de prédios abandonados por pessoas sem casa, moradores de rua. (www.atrasdaporta.blogspot.com, pra adquirir o dvd, mas tá no youtube, em 7 partes, que foi como assisti - se eu pudesse, compraria o dvd pra ajudar na luta do cara que, fazendo o que faz, não tem nenhum apoio financeiro). Como não estou podendo no momento e o filme tá disponível no youtube, tô articulando baixar e colocar em um filme inteiro, pra exibição e distribuição - pois são informações boicotadas que precisam vir a público, até pra desfazer essa idéia depreciativa sobre o povo brasileiro, que é de luta, sim, além de extremamente solidário, guerreiro, disposto e criativo. Essas informações eu não busquei na mídia, não, convivo nas periferias há pelo menos trinta anos, desde a mais despossuída condição, onde até o que comer e onde dormir me era dado ou improvisado, até pagar meu aluguel e manter um cotidiano proletário de artista de rua, enquanto meus filhos cresciam.


Aí estão a 1ª e a 2ª partes, se quiserem é só seguir adiante.

Entrem no saite do MST, se já não estiverem contaminados pelo preconceito raivoso plantado pela mídia. Os elitianos (e os elitistas,  seus seguidores) se enchem de ódio contra aqueles que foram estereotipados como seres humanos inferiores, quando eles têm o atrevimento de tomar atitudes de resistência e defesa contra o massacre social e ideológico cotidiano em cima dos mais pobres.
A América Latina está em movimento, a sociedade brasileira está em movimento. Não esperem tomar conhecimento sem correr atrás, os meios de comunicação estão aí pra distorcer, ocultar, omitir e atacar qualquer movimento que não atenda a linha conservadora de manutenção da ignorância e da inação.

Na minha opinião (e eu posso estar errado, é claro - além de não querer ofender ninguém), a posição exibida neste seu comunicado é do interesse das grandes empresas que dominam os Estados e suas instituições, inocula ainda mais o desvalor criado para manter a maioria cabisbaixa, desacreditada em si mesma, na estratégia cruel de manutenção dessa sociedade desigual, perversa, desumana, criadora de misérias para a maioria e opulência para poucos. Repitam com a mídia: "o povo brasileiro é inferior, incapaz, desinteressado, preguiçosos e merece estar nessa miséria estatisticamente predominante. Europeu e estadunidense (brancos, lindos e inteligentes) é que sabe das coisas, eles é que são o modelo de ser humano evoluído. Nosso povo é todo constituído de gentinha mestiça, pobre, suja e burra, exceção feira aos mais enriquecidos e embranquecidos, infelizmente em minoria insignificante socialmente, embora dominando riquezas e poderes."

Gostaria de não ter ferido susceptibilidades de ninguém. Não carrego verdades, apenas opiniões, não desejo insultar ou ofender ninguém, tenha a mentalidade que tiver, respeito até o que considero absurdo, no campo do pensamento. Reparem, porém, que os conservadores, os elitistas, os ideólogos da alienação e do consumo reagem com ódio, por não terem argumentos sustentáveis pra defender essa estrutura social ridícula e vergonhosa, e partem pro insulto pessoal, a agressividade, a desqualificação preconceituosa. As falácias são evidentes e não resistem a delicados golpes de informação real e consciência sobre o que acontece, por trás das distorções midiáticas. Os que não desejam mexer a bunda pra mudar a sociedade e preferem usufruir seus privilégios egoístas, resultado do roubo dos direitos da maioria, através do controle do Estado pelas empresas, estão sempre prontos a atacar qualquer ameaça à sua acomodação, com os pretextos e as opiniões mais absurdas, odiosas e odiantes, além de desumanas.

Quem quer se informar de verdade, encontra o que precisa aqui na net, mesmo. Mas os que não querem saber, para continuar na sua comodidade injusta e mentirosa, não têm jeito, não. Rejeitam tudo o que se aproxima da realidade que os denuncia em sua arrogância, seu egoísmo, sua grosseria, enfim, sua desumanidade e sua inferioridade espiritual.

Vai desculpano carqué coisa aí.
Abraços a todos,
                         Eduardo Marinho. 

Outro documentário que assistimos no vídeo-garagem da última quinta, Sagrada Terra Especulada, mostra bem a hipocrisia dos governantes e seus executivos no poder político, a serviço das empresas, com desprezo pelos que eles dizem servir, os indígenas em histórica situação de genocídio - físico, moral e cultural. Taí o link, dá pra assistir inteiro: http://www.vimeo.com/28597529"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Teoria na prática ganha vida




O aprendizado só se completa vivenciando. A vida é o nosso campo de prova. De estudos, também, mas aí qualquer situação é, depende mais da disposição e do interesse em aprender. As provas e as conseqüências dos nossos atos, desejos, sonhos e objetivos de vida, isso não é opcional, é imposição da vida, do destino ou como quer que se chame. “O plantio é livre, mas a colheita é obrigatória.”

 De pensadores o mundo tá cheio. Esses, se não vivenciam suas teorias, carregam dentro de si distância da realidade, mentiras convenientes e a angústia da incoerência, da falta da vivência que se manifesta de muitas formas diferentes. Percebe-se no olhar, no comportamento, nas opiniões, na freqüência pessoal - a capacidade de percepção se desenvolve com a prática. Sem isto, somos cabeças rolantes, sem corpo, coração ou intestinos, egos exaltados em simulações revolucionárias sem conseqüências além de desacreditar a idéia de revolução diante da população feita rebanho.

Saber e não fazer ainda não é saber.
Mahatma Gandhi
A reflexão é fundamental, mas sozinha é frágil e inútil. Percepções pedem decisões e mudanças na realidade. É o tripé evolutivo – refletir, decidir e praticar. Essa é a base. Fora disso, somos apenas teóricos, alheios, indiferentes, medrosos e vaidosos, levantando hipóteses, sem comprová-las além da teoria, sem experimentar para perceber e corrigir falhas, construindo valores sociais - e pessoais - ilusórios e egocêntricos, sem a menor condição - nem intenção - de mudar o comportamento e a mentalidade. Forma sem conteúdo.

É preciso correr os riscos. É preciso errar para acertar. Não se pode pretender a perfeição, mas é fundamental se aperfeiçoar, sempre. Às vezes, é a escuridão que nos faz perceber e dar valor à luz.  

Educação e Sociedade




         O “empresarismo” é a ideologia dominante, embora se declare, em sua hipocrisia costumeira, sem ideologia.
         O programa “universidade para todos”(PROUNI), falácia descarada, paga bolsas de estudos para alunos pobres cursarem faculdades particulares. Mina de ouro para os empresários do ensino, resolvendo o problema da inadimplência e eliminando impostos.
         Há mais de 14 milhões de analfabetos integrais no país, 9,7% da população a partir de 15 anos. Vergonha que aumenta muito com a inclusão do número de analfabetos funcionais, aqueles que assinam o nome e, com dificuldade, lêem e escrevem bilhetes e pequenas frases, sem condições de compreender ou escrever um texto, uma notícia, muito menos um livro. Aí o número pula pra em torno de 70%. Setenta por cento da população brasileira! Sete, a cada dez pessoas, são sabotadas em instrução - a Constituição, em tese, obriga o Estado a garantir educação de qualidade. E a elite torna o Estado criminoso, em benefício e garantia dos seus privilégios e excessos cuja origem perversa está na eliminação de direitos da maioria.
         Por que o problema não é resolvido? Falta de verba, de competência ou atenção é conversa pra boi dormir, só a ignorância e/ou o massacre da mídia, entre a desinformação e a publicidade, – ou a má fé – podem conceber tais absurdos. A narcose midiática encurrala grande parte da população entre os desejos de consumo e as relações com o sistema financeiro que domina o Estado, diminuindo ou eliminando a capacidade de reflexão independente, o desenvolvimento de uma visão de mundo mais próxima da realidade. Na verdade, é preciso conservar o povo ignorante e desinformado, para manter um sistema social tão desumano, desonesto, injusto, perverso e suicida. É esse o sistema que favorece a elite dominante, a concentração de poder e riquezas nas mãos de poucos, em prejuízo da maioria. A situação de destruição do ensino é intencional, deliberada, estratégica.
         A constituição de 88 estabeleceu a obrigação de repassar verbas para a educação, a partir da arrecadação de impostos. Federais, 18%, estaduais, 25%, municipais, 25%. Em 94, aprovou-se a lei que permite o desvio dessas verbas para fins não declarados, com o nome-fantasia de fundo social de emergência, depois fundo de estabilização fiscal e, por último, desvinculação dos recursos da união, sempre a mesma coisa, subtração de verbas para as áreas sociais da educação, da saúde e da previdência. A prioridade é manter a ignorância, criando uma fachada de esforço cenográfico para “melhorar” a educação. Não se pode melhorar uma coisa que não existe - socialmente falando. Uma população instruída não permitiria tamanhos descalabros na administração dita “pública”, tamanha exploração do trabalho, tanto abuso, muito menos a destruição das leis trabalhistas, com o título hipócrita de “flexibilização”, e o predomínio das empresas na sociedade estaria em risco.
         No período de 2000 a 2007, foram destinados à educação pública R$ 149 bilhões, enquanto no mesmo tempo os bancos credores da dívida pública receberam 1 trilhão e 267 bilhões de reais, só de juros, sem que a tal dívida diminuísse em nada. As prioridades estão claras. Os interesses predominantes estão claros.
         A ideologia imposta à sociedade – e à educação, como estratégia – se baseia no predomínio das leis de mercado, derrubando custos e priorizando lucros. A qualidade do ensino é proporcional ao preço. Qualidade, no caso, não significa preparação do ser humano para se integrar à coletividade humana, de forma harmônica, afetiva e útil à sociedade. Ao contrário, desenvolve-se a eficiência para competir com os semelhantes, a vida tornada uma arena sem limites nem trégua, no mundo reduzido aos mercados de trabalho e de consumo que excluem a grande maioria da população. O modelo de educação mais valorizado, atualmente, é o desumanizante, desintegrador, anti-social. O jovem não deve desenvolver sua capacidade de pensar, sentir, criar, se relacionar com o mundo, solidária e generosamente, em evolução física, mental e espiritual.  Deve desenvolver, sim, a capacidade de produção e consumo, de acordo com o “seu lugar” na sociedade e os interesses empresariais, sua competitividade, sua frieza, seu oportunismo. Sem questionar as causas de tanto sofrimento e tragédia, ignorância e miséria – resíduo e combustível da nossa sociedade - exalta-se o egoísmo, o apego aos bens materiais, a busca de superioridade sobre os demais, como valor social.
         As políticas governamentais de adaptação das atividades do ensino às necessidades privadas demonstram o controle do Estado e das instituições públicas pelas grandes empresas. Em todos os setores, sobretudo os estratégicos – comunicações, energia, educação, alimentação, saúde,... – o privado se impôs ao público, por dentro das instituições mais “respeitáveis”. Creio que a ênfase na sabotagem da educação pública e o controle da educação particular se deve à importância da ignorância e da desinformação, de um lado, e da oferta de profissionais ao “mercado”, de outro, para a manutenção da estrutura social como ela é, altamente injusta, pela sujeição ao poder econômico dos mais ricos entre os ricos. A rede pública é reduzida à miséria, num simulacro abjeto de ensino mentiroso, em detrimento de professores e estudantes, cujas relações foram deterioradas ao longo do tempo, impedindo a integração família/escola, que traria à tona os podres do sistema e apoiaria os professores na sua luta por condições dignas, por estar claro que o interesse nessa luta é de todos. A rede particular é impregnada com a ideologia empresarial no processo de enraizamento dessa estrutura, que já vem de décadas ou séculos. Preparam-se competidores para o mercado de trabalho, competindo pelo mercado de consumo, e não pessoas para viverem em sociedade. Estimula-se o egoísmo extremo, o preconceito social, econômico e instrucional, a ânsia de consumo, a preparação para o conflito entre irmãos, ao mesmo tempo em que se inibe a capacidade de questionar, de pensar com independência. Discrimina-se e se marginaliza os que não se deixam levar ao rebanho de escravos mentais. E são exatamente esses que brilham com suas luzes em meio à escuridão da consciência coletiva, da vida sem sentido, medíocre e vazia, enquanto os donos do mundo se esforçam, com seus inúmeros recursos, para apagar todas as luzes que não os sirvam.
         Não posso apresentar soluções. O que pretendo é mostrar aqui a profundidade em que essa ideologia se entranhou, durante todo o desenvolvimento da mídia – e desde muito antes –, em todos nós. É preciso enxergar o esquema a partir das suas causas e o trabalho aparece em todos os setores da sociedade. Os valores dessa ideologia, que chamei de “empresarismo”, impregna as relações da sociedade e a divide. É preciso percebê-los dentro de nós mesmos, em nossos próprios condicionamentos. A partir daí, podemos nos posicionar diante das imposições enfiadas até no inconsciente - pra isso a academia centrou o estudo da psicologia em mente e comportamento, abandonando filosofia, sociologia, antropologia, enfim, as matérias que humanizam, para se concentrar no controle - pensamentos, valores e comportamentos de massa. É preciso trabalhar, vivenciar e exercer o que desejamos do mundo. Assim podemos trabalhar dentro da coletividade. Modelando nossos valores, modelamos o mundo.

Eduardo Marinho                                                                                      

sábado, 20 de agosto de 2011

O luxo como “pequeneza”



            A situação de pobreza sempre me intrigou, a miséria me chocava e eu não entendia. Sentia um certo constrangimento inexplicável do meu “falar correto”, das minhas roupas de marca, às vezes do meu tamanho, dos meus dentes impecavelmente tratados. Não que desejasse abrir mão da minha situação. Mas por quê a maioria das pessoas não tinha? Era uma sutil sensação de injustiça sem me sentir claramente culpado, apenas constrangido com o que pareciam privilégios nesses momentos, mas que tinham se incorporado em mim como o mínimo necessário.
            Não podia achar aquilo natural e inevitável, como me diziam e se acreditava à minha volta. Na verdade, fugia-se do assunto. Eu fui muitas vezes considerado um chato, fui evitado por vários grupos na adolescência, às vezes francamente hostilizado – não gostavam de mim. Tinha minhas boas relações, mas eram poucas e quase todas... como direi... bilaterais. Não fazia parte de grupos. Fora os esportes coletivos, claro. Aprendi aos poucos a ficar mais calado e prestar mais atenção – virtude que perdi de vista ao entrar na universidade e até hoje, vez por outra e apesar da vivência, me faz falta. Algumas vezes, consigo me controlar, mas nem sempre.
            Quando andei no nível da mendicância e vivi do que me era dado, encontrei gente boa e ruim em todas as classes, indiferentes e curiosos de todos os tipos. Mas era nítida a diferença de acolhimento entre os mais pobres dos pobres. Ali se dividem migalhas, com uma generosidade ímpar, quando se divide. A generosidade dos ricos, no mais das vezes, é à distância. Partilhei refeições feitas em latas de óleo sobre fogueiras, dormi sobre capim improvisado no cantinho da tapera, pendurado em rede, em caibros ou árvores, fui hospedado em palafitas sobre mangues, onde o banheiro é servido de um buraco no chão, pedaços de jornal enfiados num prego na parede de tábua e a gente escuta o barulho da merda caindo na água, lá embaixo.
            Boa recepção por parte dos que dispunham de sobras me deixavam reconhecido, agradecido, mas a recepção dos mais pobres me comovia. Tão pouco tinham, tão fácil dividiam... O dia seguinte pertencia a Deus e a luta era todo dia, sem feriado. Também senti a fome, vivi sem abrigo, como um aluno, atento, aprendendo, pesquisando à minha maneira, ouvindo as histórias, falando meu pensamento, reparando nas reações, na linguagem, absorvendo os códigos, percebendo os conhecimentos, as intuições e relações. Criei um grande carinho pelos sabotados, pelas pessoas em situação de fragilidade, uma ligação talvez moral, certamente afetiva, junto com a sensação de injustiça permanente, pedindo trabalho de reparação na estrutura social – a partir das raízes individuais internas para as externas, coletivas. Nasceu uma grande admiração pela resistência ao sofrimento, pela luta de sobrevivência, pelos saberes e sabedorias desenvolvidos quase por conta própria. Eu os sinto parte de mim, do meu grupo, merecedores de mais cuidados, pelos maltratos cotidianos impostos por essa estrutura social perversa.
            Certamente é por isso que me causa certo desconforto a presença, a proximidade ou a simples visão de luxo e ostentação. Uma espécie de constrangimento. Traz à lembrança a situação injusta, precária e abandonada em que vivem tantas pessoas, por um Estado que foi infiltrado, dominado por grandes empresas - as poucas pessoas mais ricas - e impedido de cumprir as leis mais básicas da sua própria constituição, na garantia de condições mínimas de vida com dignidade para sua população. O domínio das elites tornou o Estado criminoso, nos seus três pretensos poderes, e o colocou a seu serviço, eliminando direitos e roubando patrimônios públicos – o que é público é tratado como privado. Tenho verdadeira repulsa por privilégios, luxos e ostentações, embora não transfira essa repulsa às pessoas, apenas aos seus comportamentos e à sua indiferença. Meu desconforto é moral, causado pela situação, pela ligação direta da riqueza, da ostentação e do luxo com a criação da miséria absoluta, da sabotagem na educação, na informação, nos serviços públicos, com a falta de sentido na vida das pessoas – da miséria à pobreza e às classes intermediárias.
            Estes são meus sentimentos, meus pensamentos e minha visão de mundo. Não pretendo declarar verdades, nem tenho a expectativa de encontrá-los em outras pessoas. Se me desse ao trabalho e à arrogância de condenar comportamentos e valores dos quais discordo, viveria em conflitos pessoais inúteis, alimentaria sentimentos desagradáveis e nocivos – e não teria tempo nem espírito pra fazer os trabalhos que gosto e dão sentido à minha vida.
            Não recomendo nem pretendo voltar à situação de miséria onde, na verdade, nunca me senti. Eu pesquisava, aprendia, observava e absorvia o máximo possível. Desenvolvi afeto e solidariedade com aquelas pessoas em situação injusta. Não posso gostar ou desejar luxos, excessos, ostentações e desperdícios. Na minha visão, são expressões de grosseria moral e espiritual, de insensibilidade, de egoísmo, indiferença, enfim, de desumanidade, disfarçada com requintes de sofisticação. Para olhos mais solidários, de quem se sente parte do grande grupo humano ou além, da coletividade planetária, tais finuras e sofisticações são apenas uma capa frágil da sua real situação moral, de um ridículo inevitável e notória nocividade para a sociedade como um todo. Não se trata de condenar ninguém, mas de perceber com olhos próprios e refletir sobre o que se vê. E como e em nome de quê se vive.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Quem são os piratas da Somália?

A realidade da Somália expõe a nu e cruelmente a predominância do poder empresarial sobre o mundo, os Estados e as pessoas. A mídia quando fala "piratas somalis", esconde de forma suja a covardia que se faz com aquele povo africano.
Abraços a todos,
                           Eduardo.

Clique onde está escrito You Tube, e o vídeo aparecerá legendado em português.



¡Piratas! - 7 Translation(s) | dotSUB

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Luxo, fome e fúria












 Por:   David Brooks / La Jornada

A demanda de artigos de luxo, desde sapatos de 800 dólares e cosméticos de 1.300, até Mercedes Benz, de 200.000 dólares, está em alta, enquanto quase 46 milhões de estadunidenses dependem, mais que nunca, da assistência federal para comprar alimentos básicos e evitar a fome. Esta é a atual situação dos Estados Unidos.
O mercado de luxos registrou 10 meses seguidos de aumento de vendas, afirmou o New York Times. As vendas da joalheria Tiffany’s, Givenchy, Louis Vuitton, Gucci, BMW, Porshe e Mercedes Benz, entre outros, registraram fortes crescimentos.
Por outro lado, o governo federal informa que quase 15% da população depende de assistência alimentar, ou seja, 45,8 milhões de pessoas, o nível mais alto já visto, 12% mais que há um ano e 34% acima de há dois anos atrás. Para obter assistência alimentar federal (food stamps), os ganhos de uma pessoa devem ser inferiores a 1.174 dólares por mês (mais ou menos o preço de um par de sapatos Louis Vuitton).
A desigualdade econômica está clara. O economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel, diz que, só nos últimos 10 anos, os ganhos do 1% mais rico aumentou 18%, enquanto os dos trabalhadores caiu 12%. De acordo com análise do Instituto de Política Econômica (EPI), a riqueza está ainda mais concentrada no setor mais rico – mais de um terço da riqueza nacional está concentrado nas mãos desse 1%. Cerca de 20% dos lares, na escala econômica, contavam com apenas 4% da riqueza do país em 2007 e perderam parte disso na última recessão. De fato, em 2009, o 1% das habitações mais ricas tinha um valor líquido 225 maior que o da habitação típica. Uma desigualdade nunca vista.
Enquanto isso, os ricos pagam menos impostos que em qualquer período dos últimos 50 anos, reconheceu o próprio Barack Obama. Um novo informe do Centro para o Progresso Americano (CAP) descobriu que os milionários pagam 25% menos impostos hoje que em meados dos anos 90, e 1.400 milionários não pagaram nem um centavo de impostos, em 2009. Em grande parte devido às reduções fiscais feitas pelo governo de George W. Bush e prolongadas pelo de Barack Obama.
A ira popular contra os “representantes do povo” em Washington segue ardendo, segundo as pesquisas, exatamente porque lhes é atribuída a culpa por aplicar políticas que beneficiam uns poucos às custas de quase todos os demais. Cerca de 82% dos estadunidenses desaprova o desempenho do Congresso: o nível mais alto registrado pela pesquisa da CBS News/New York Times. Outra, da CNN, descobriu quase a mesma coisa. Mais de 4, em cada 5 pessoas, opinaram que o debate sobre a dívida tinha mais a ver com manobras políticas que com a busca do melhor para o país.
As pesquisas também demonstram que Washington faz exatamente o contrário do que deseja o povo. Por mais de dois contra um, os estadunidenses afirmam que a geração de empregos deveria ser uma prioridade maior que a redução dos gastos federais. 63% são favoráveis ao aumento de impostos dos ricos.
Mas, além de reprovar seus líderes, haverá conseqüências políticas? Alguns dizem que todos os eleitos sofrerão a ira popular, em 2012. Outros acreditam que Obama, apesar de ter gerado enorme decepção nas suas bases, não terá problemas graves, por um simples e cínico raciocínio. Como disse um estrategista democrata ao Washingtom Post, “o fato é que os liberais e progressistas não têm para onde ir”, além de votar em Obama e seu partido. Da mesma forma, um pesquisador democrata comentou, no New York Times, que, no caso de Obama, apesar das críticas das suas bases liberais a uma ou outra das suas iniciativas, no terreno eleitoral, “no final das contas estão seguros de uma coisa: vão odiar os candidatos republicanos. Então, sinceramente, não me preocupa muito uma base sólida ou estusiasmada”. Ou seja, o pensamento é que, para as bases progressistas, não há alternativas eleitorais.
“Precisamos de uma Praça Tahir não violenta”, diz o ex-vice-presidente, Al Gore. Diante do acordo para cortar bilhões em gastos, proposta dos republicanos, e das necessidades sociais, é necessária uma primavera estadunidensa (referência à primavera árabe) para resgatar o país aos direitistas, disse no seu canal de televisão, Current TV. Mas, para isso, disse o entrevistador, primeiro é preciso haver fúria.
“Eu acredito que o público está furioso, sim, mas também deprimido pela falta de lideranças e a ausência do sentimento de que é possível ganhar a luta. Os chamados populares a que Wall Street presta contas não levaram a nada, enquanto o dinheiro de Wall Street mantém sob controle os políticos e os ativistas se twiteiam entre si até à dispersão. Os ativistas condenam on line o presidente, mas fazem pouco para enfrentá-lo e exigir outro tipo de ação”, afirmou o jornalista veterano Danny Schechter, em sua coluna no Reader Supported News.
A imagem da classe política nas mãos dos mais ricos é documentada por todas as partes, com doadores milionários que financiam candidatos dos dois partidos. De fato, um novo informe do Center of Responsive Politics demonstra que Obama recebe ainda mais de Wall Street para sua reeleição, do que obteve em 2008.
Para alguns, as políticas econômicas de Obama, até o momento, não são diferentes das do seu antecessor, como a continuação das guerras e a omissão em pedir contas aos financistas e empresários, responsáveis por esta crise.
Talvez por isso não surpreenda tanto que Barack Obama dance confome a música de Bush, literalmente. Mark Knoller, da CBS, reportou que a campanha eleitoral do presidente está usando a canção “Só na América”, de Brooks e Dunn, nos seus comícios. George W. Bush a usou em sua campanha à reeleição, em 2004.

Tradução – Eduardo Marinho                                                             Boletim Telesur de 11 de agosto de 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Dia do trabalhador ou do trabalho?

            Pode parecer estranho publicar um texto sobre o 1º de maio em agosto. Mas é uma redação feita para o Núcleo Piratininga de Comunicação (http://www.piratininga.org.br/), em curso de comunicação popular. Claudia Sampaio e Vito Giannotti são os organizadores. E mestres de vida.
            A luta dos explorados é todo dia. Dos espoliados, dos mal servidos, dos sabotados, dos excluídos. Uma luta não só deles, e sim de todos que se pretendem participantes da coletividade humana. Mas precisa começar dentro de si mesmo, em cada um, e daí para a coletividade. Não de fora pra dentro, nem de cima pra baixo. De dentro para fora o trabalho ganha força, raiz, nutrição e substância.





No princípio era o caos. As fábricas eram escuras, úmidas, fechadas, barulhentas, cheias de fumaças, poeiras e resíduos venenosos. As engrenagens eram toscas, enormes, perigosas, qualquer descuido e moíam dedos, mãos, pés, braços, às vezes corpos inteiros eram esmagados entre rodas dentadas, correias de transmissão, rolos compressores. Era o princípio da chamada revolução industrial.

Os operários eram camponeses ou descendentes de camponeses expulsos dos campos pelas milícias da época, a serviço dos poderosos que tomavam terras para a criação de ovelhas e as plantações de algodão. A nascente indústria de tecidos na Inglaterra precisava de matéria prima para suas máquinas. Sem opção, a população expulsa e sobrevivente dos massacres sofridos pelos que resistiam, formava legiões de sem nada. Eles caminhavam sem rumo até as periferias dos centros urbanos, se aglomerando em situação de miséria e desespero, prontos a aceitar o trabalho insano nas condições terríveis das indústrias, sem nenhum direito.

Diante das multidões em desespero, mão de obra farta, os patrões não se importavam com as condições infernais de trabalho nas suas fábricas. Os mortos eram imediatamente substituídos, da mesma forma que os mutilados - estes eram, simplesmente, atirados à própria sorte, ao amparo dos próximos ou à mendicância.

Com o tempo – e com a força que a resistência ao sofrimento impõe – começaram a surgir organizações entre os trabalhadores. Crianças, velhos, homens e mulheres eram massacrados pelas condições de vida e de trabalho e os patrões, atentos, proibiam qualquer tipo de organização. Sabiam que seriam obstáculos à sua exploração desenfreada. Escolhiam os mais fortes e de pior caráter, para controlar os demais em troca de migalhas um pouco maiores. Capatazes, feitores, chefes, gerentes, cagoetes eram os olhos e ouvidos do patrão, armas e ferramentas de desunião e controle.

As primeiras organizações muitas vezes tinham que ser às escondidas, entre conversas rápidas, sussurros e combinações sob o olhar atento do patrão e seus xisnoves*, em reuniões noturnas e encontros em segredo. A luta foi árdua desde o início, o ódio, a covardia e a perversidade dos privilegiados não teve limites, muitos foram e são os mortos, os banidos, os perseguidos e penalizados por lutarem pelos direitos básicos, para não morrerem de fome, de cansaço, de acidente ou de abandono. São "baderneiros", dizem os patrões.

Num primeiro de maio, na Inglaterra de 1848, entra em vigor a primeira lei limitando o trabalho a dez horas por dia. As manifestações eram reprimidas com fúria pelas forças de segurança, muitas vezes terminando em massacres sangrentos. As bandeiras operárias eram tão freqüentemente banhadas em sangue e, depois, erguidas novamente, que a cor vermelha foi escolhida para simbolizar as lutas por direitos básicos, até hoje não atendidos pela sociedade, pelo Estado, em violação flagrante da sua própria constituição e demonstração clara do predomínio dos interesses empresariais, sobre os direitos da população como um todo.

Num primeiro de maio foi iniciada a greve geral nos Estados Unidos que resultou no massacre de Chicago, com dezenas de mortos, centenas de feridos, em 1886.

Quatro anos depois operários estavam organizados entre países, na Europa, nos Estados Unidos, na África e na América Latina houve manifestações, greves, barricadas, confrontos com a polícia. 1890. Em 91, o 2º Congresso da organização operária já conhecida como Internacional Socialista decreta o dia 1º de maio o Dia Internacional dos Trabalhadores.

Impotentes para evitar, os patrões se esforçam, todo ano, para transformar a data em comemoração festiva, de celebrações, espetáculos, sorteios e premiações, na clara intenção de distorcer o significado deste dia de luta dos explorados por condições dignas de vida e trabalho. Dia do trabalho é todo dia. O primeiro de maio é o dia dos trabalhadores.

                                                                                                                                 Eduardo Marinho

* xisnove – ou X-9, informante da polícia.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

É melhor em paz



         Quando alguém declara não acreditar em alguma história que conto, em vez de ofendido eu me sinto elogiado. Houve quem não acreditasse que eu fazia os brochinhos, em relevo no metal, com fechos em arame trabalhado com alicate e soldados com maçarico. Um camarada chegou a dizer que sabia onde eu comprava, em São Paulo. Eu explicava pra algumas pessoas do mesmo grupo como eu fazia a corrosão, a solda, e tal. O cara ainda disse que havia estado lá no dia anterior. Mentindo descaradamente, convicto de que era impossível eu ter feito os broches. Eu ri, a explicação terminara.“Vou tomar como um elogio” eu disse a ele, “cê tá achando meu trabalho tão bom que não é possível eu fazer à mão, tem que ter sido feito pela indústria, né não?” No silêncio que se fez, segui o caminho. O descrédito, quando não é uma provocação pura e simples, no fundo, é um elogio. Tão incrível que não pode ser verdade. Por quê se aborrecer?
         É direito de cada um acreditar ou duvidar do que quer que seja. Em caso de dúvida pode ficar como mentira, não é agradável, mas possível e respeitável, não tem problema. Arte é mentira, olhando pelo lado da criação se vê um conto, uma ficção. E gracias.
         Sinto uma grande gratidão pela vida, pelas possibilidades de ter vivido tantas histórias, tantas situações tão diferentes, tendo a pouca ou a falta de grana como o único ponto comum. Sei muito bem o que vivi e, se hoje tenho histórias pra contar, ser considerado mentiroso ou ficcionista por alguns não tem muita importância. Nestas histórias, há qualquer coisa de serviço. Vivências trazem ensinamentos, informações, advertências, orientações; o proveito depende de cada um, de fatores externos e internos. As histórias caminham pelo mundo procurando os que precisam dela ou que podem lhe dar proveito. Vi muitas vidas à minha volta, milhares de histórias de todos os tipos. A diferença é que tive o privilégio de estudar em boas escolas. Aprendi a me expressar, tive acesso à instrução como deveria ser para todos. Posso escrever o que vi e vivi. No meu pensar, qualquer privilégio gera uma obrigação moral com a população sabotada, roubada em seus direitos básicos – necessários a uma vida justa. Privilégios são vistos como superioridade social pela maioria, mas são, pra mim, dívidas morais com a coletividade. Não cobro de ninguém além de mim mesmo, não nasci pra cobrador. Cada um sabe de si e carrega sua própria consciência, sua própria história, seus plantios e suas colheitas. Não trato das escolhas feitas, mas das escolhas possíveis. E das impossíveis.
         Trabalhar com idéias, com reflexões e questionamentos é como semear a terra. Gosto de trabalhar com terras férteis, onde as sementes brotam. Cada semente tem suas circunstâncias ideais, suas indicações e contra-indicações, seus momentos e condições para crescer e frutificar. Cada terra tem suas características, seus momentos, na hora de plantar é preciso escolher a semente propícia às condições, para brotar, crescer e dar frutos. Não gosto de perder tempo e energia com terras áridas, onde se encontra mais conflitos, aborrecimentos e desgastes sem nenhum proveito, com freqüentes e evidentes prejuízos. Não se plantam sementes nas pedras ou na aridez.
         O trabalho de esclarecimento, conscientização e, sobretudo, sensibilização acontece melhor com calma, harmonia e concordância de propósitos. E a vida flui melhor, mais em paz. Discordâncias não precisam se tornar discórdias.   

A guerra mundial das empresas contra os povos

As classes médias são transformadas em zumbis do consumo
      A derrubada das torres gêmeas foi o incêndio do Reichtag estadunidense. Da mesma forma que Hittler usou os escombros do congresso alemão para concentrar poderes e começar a segunda guerra mundial, o império atual utilizou o “ataque” como pretexto pra iniciar a invasão do Iraque e a “guerra total ao terrorismo”, significando o terrorismo dos outros, pois não é outra coisa o que as forças ocidentais fazem no mundo árabe. Aliás, no mundo inteiro, nos cinco continentes, a cobiça e a desumanidade dos interesses das grandes empresas têm causado morte e sofrimento, destruição e tragédia.
         Essa explosão de guerras no oriente médio é apenas a parte mais visível, uma batalha na grande guerra mundial em que está envolvida a humanidade, em inconsciência quase plena. A pior guerra, com os piores inimigos, que se fazem de amigos, entram em nossa casa e em nossos pensamentos e nos fazem colaborar com eles pra nossa própria derrota. É a guerra das grandes empresas contra os povos.
         Infiltraram-se nos Estados, nas instituições, bancam campanhas eleitorais para ter seus próprios políticos, determinam leis e concessões, manobram a destruição do ensino público e sua constante sabotagem, controlaram a educação privada e a superior, impondo regras aos currículos para que se moldem aos seus interesses e aos orçamentos para privilegiarem interesses de poucos em prejuízo de muitos. Barbarizaram a saúde pública e privatizaram a maior parte dos serviços, a comando de laboratórios farmacêuticos, planos de saúde e indústria de equipamentos médicos. Controlam as comunicações com a mídia gorda, comercial, privada. Com sua publicidade massiva, suas novelas e programas, moldam comportamentos, formam valores, objetivos de vida, distorcem a realidade, sempre contra o povo e a favor dos poucos “poderosos”, das empresas, manobrando a coletividade para se deixar explorar e acreditar que o mundo é assim mesmo.
         Os sinais estão por todo lado. Na diferença entre uma delegacia de homicídios, precária, e uma de crimes contra o patrimônio, estruturada; entre o prédio de ciências sociais em qualquer escola universitária e o prédio de engenharia ou ciências tecnológicas de interesse empresarial. Na diferença de tratamento dado pelo poder público aos interesses empresariais e aos interesses da maioria da população; entre a consideração com os mais ricos e o desprezo pelos mais pobres. No descumprimento das leis principais da constituição do país, a garantia dos direitos básicos para uma vida decente, pelo próprio Estado. Inúmeros sinais em nosso cotidiano, naturalizado pelas distorções das informações e pela prática cotidiana que, progressivamente, foi se instalando na vida das coletividades, induzidas por uma mídia mentirosa, profundamente aplicada em controlar a mente e o comportamento da população. Superficializando a mentalidade, criando a necessidade do consumo como valor social, dividindo com a ideologia da competição desenfreada, produzindo uma vida angustiante em comportamento de manada, sem um sentido real e profundo, impondo o ter no lugar do ser.
         O inimigo ataca em toda parte, sempre sorrindo dentes brancos, olhos sedutores com juras de amor incondicional, tudo pela sua felicidade, enquanto rouba seus direitos, sua educação, sua consciência, sua vida, os patrimônios e riquezas da sociedade e as possibilidades de melhorar a situação de todos. O pior inimigo, que nos faz colaborar, mais que isso, sustentar esse sistema absurdo, desumano, com nossos comportamentos, nossos pensamentos, nossos desejos, nossas opiniões. Estimula-se o egoísmo, o vencer a qualquer custo, promete-se o paraíso aos vitoriosos e acena-se a todos com essa possibilidade impossível. As correntes da escravidão que nos aprisiona, hoje, são construídas com mentiras altamente planejadas por cérebros lapidados nas academias e implantadas no inconsciente das pessoas desarmadas de senso crítico pela falta de uma educação humanizadora e de informações verdadeiras. Não se recomenda lutar por direitos, mas sim por privilégios – isso é que dá lucro.
         Somos nós, como coletividade, que sustentamos o sistema. Induzidos, programados, desinformados, superficializados, cheios de preconceitos, ameaçados, iludidos ou acovardados, consentimos que o mundo seja assim, que a sociedade seja estruturada desta maneira. A solidariedade irrestrita é francamente indesejável aos que se sentem donos do mundo. Quando nos dermos conta e começarmos a pensar com independência, buscar informações nos meios alternativos, tomar posse dos valores pessoais, o sistema desmorona. Não há defesa mais poderosa que a consciência.
                                                                                                                  Eduardo Marinho, 8.8.11

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Qualidade de sentimentos, qualidade de vida, qualidade social





         Estou aprendendo a observar a qualidade dos sentimentos. Percebo cada vez mais a importância deles em nosso pensamento, na qualidade geral da vida e na maneira de sermos e de nos relacionarmos.
         Existem todos os sentimentos, mesmo os mais bárbaros, na maioria dos seres humanos, ainda que na forma de semente. Consigo imaginar situações em que me tornaria – eu, que sou tranqüilo – um monstro sanguinário, em circunstâncias específicas que prefiro não relatar, por hediondas que são. Sinto a necessidade de trabalho neste sentido, de observar, aprender, questionar e influenciar os sentimentos tanto em mim mesmo quanto os que produzo na coletividade, nos outros, dentro das minhas possibilidades, claro. Venho me empenhando neste aprendizado.
         Neste caminho há uma clareza crescente de percepções novas, o desenvolvimento da capacidade de sentir, de perceber os sentimentos que se produzem, antes que se manifestem, e interferir neles quando é possível. Um trabalho muito ligado à área da intuição. O saber acadêmico, racionalista, muitas vezes nega ou despreza essa área, empobrecendo em muito os potenciais da razão e do desenvolvimento realmente humano – o desenvolvimento que vejo, a mim parece mais desumano, egoísta, exclusivista, excluidor e explorador da maioria. A tendência racionalista das academias cria um sentimento de superioridade (abrindo distância das maiorias, consideradas inferiores) que se manifesta em desprezo e agressividade ou em benevolência e compaixão, de acordo com o caráter, da índole pessoal. Confunde-se falta de conhecimentos com falta de personalidade, falta de saber com falta de sabedoria. 
         Essa tendência alimenta sentimentos desequilibrados de arrogância e vaidade, de superioridade em lugar de responsabilidade, de direito a privilégios em vez de obrigações morais, que por sua vez alimentam a tendência racionalista do pensar acadêmico, em justificativa da própria existência como elite intelectual. Mas a forma como a academia é utilizada (sempre em benefícios das empresas, das elites e das suas minorias de sustentação, as classes médias altas) me dá a sensação de planejamento, de estratégia intencional.
         Bom, voltando ao assunto, observando a influência dos sentimentos no comportamento, nas ações e reações e nos pensamentos, tenho encontrado maneiras de, por exemplo, desarmar pessoas que se colocam em rota de colisão, partindo do momento em que se manifesta o sentimento que tende ao conflito – na fisionomia, na postura corporal, no tom de voz – e antes que ele se manifeste em atitudes, em palavras ou atos. Na maioria das vezes, bastam palavras de respeito às diferenças de opiniões e visões de mundo. Idéias pacificadoras simples e agradáveis à maioria. Diante de um eventual insulto, já não existe sentimento de ofensa - que é justamente o objetivo do insulto, no caminho do conflito primário. É fácil não se deixar levar, quando se consegue observar, com alguma isenção, os sentimentos envolvidos. O insulto tende a morrer na boca do agressor, se não encontra o retorno esperado. O aprendizado é proporcional à tolerância, ao interesse e ao respeito pelo outro – mesmo que o outro não saiba respeitar –, que criam a capacidade de absorver as lições que sempre se apresentam.
         Se no âmbito pessoal podemos perceber a total influência dos sentimentos na qualidade de vida e nas relações com pessoas, situações, acontecimentos e contrariedades, estendendo os olhos sobre a coletividade, vemos quanto desequilíbrio é produzido pela falta de atenção, de estudo e trabalho nesta área. Ao contrário, são estimulados os piores sentimentos, como egoísmo, vaidade, preconceitos, discriminações, por uma publicidade irresponsável cujo único objetivo é induzir ao consumo compulsivo, obrigatório para alcançar algum valor social. No interesse das empresas. O ensino público foi destruído e o privado foi direcionado aos interesses empresariais. Os bancos e as empresas viraram o centro do mundo, da vida, do universo. O mundo é apresentado como um imenso mercado invisível abrangendo todas as áreas das sociedades, a partir de dois troncos principais, o mercado de trabalho e o mercado de consumo, que devem ser disputados em competição permanente e sem tréguas por todos, em benefício de minorias numericamente insignificantes, mas que concentraram, ao longo dos séculos e por dinastias, os poderes que se impõem sobre os Estados, suas instituições e seus povos. Por isso os serviços públicos são tão precários e áreas estratégicas, como saúde, educação e segurança se encontram em estado de barbárie. Não é por incompetência, é intencional, é competência com os objetivos da concentração, que passa pela desinstrução e pela desinformação da maioria, pelo extermínio dos “excessos” e pela contenção dos inconformados.
         É preciso desenvolver a observação e a influência sobre os sentimentos, inclusive para perceber a quantidade de sentimentos induzidos pelas mídias, pelo ensino deturpado, pela publicidade massiva e pela propaganda ideológica alienante, que distorcem a realidade e escondem as causas de tanto sofrimento, tanta sabotagem, tanta covardia, tanto abandono. Fomos influenciados desde o inconsciente (e desde a infância) por técnicas de formação de opinião, de desejos, de valores, por manipulação midiática, por condicionamento cultural.
         Quando encaramos o irmão que discorda ou que apenas caminha ao nosso lado como adversário, sustentamos o sistema; quando desejamos ser melhores que os outros, ao contrário de sermos apenas o nosso melhor possível, na disposição de aprender mais e sempre, sustentamos o sistema; quando usamos marcas “de qualidade”, ignorando o trabalho escravo e a exploração extrema, a destruição da natureza e de coletividades em áreas de interesse econômico, o desrespeito e as violações constantes que essas empresas impõem aos povos de  todo o mundo, sustentamos o sistema; quando desejamos situações de riqueza, sem considerar que privilégios para poucos há muito tempo custam os direitos básicos das maiorias, sustentamos o sistema.
         Somos levados a colaborar com esse sistema de exploração desmedida do trabalho, de concentração de riqueza e poder nas mãos de minorias cada vez menores que não se sustentariam, se não fôssemos levados a colaborar, a consentir e a manter, massa de manobra modelada pela interferência da ideologia empresarial no ensino e entorpecida por uma mídia privada dominante e essencialmente empresarial.
         Adotamos valores planejados e implantados mesmo no inconsciente, com os conhecimentos da psicologia avançada dos estudos acadêmicos que são usados em publicidade, propaganda e márquetim.
         Somos convencidos de que a vida é uma competição e todos são adversários; que felicidade é consumir, desfrutar de excessos, patrimônios, facilidades, confortos e garantias; que o mundo é isso mesmo e não tem jeito, não se pode fazer nada a não ser entrar na corrente e disputar o seu espaço, lutar por si mesmo, nunca pela coletividade. Somos levados a não ver a miséria produzida por essa estrutura social desumana e concentradora, ou a vê-la como inevitável, certamente desagradável e injusta, mas inevitável realidade que não encontra explicação, a não ser atirando a responsabilidade sobre as próprias vítimas para justificar seu abandono à própria sorte – e não se pensa mais nisso.
         Prestando atenção aos próprios sentimentos e aos que nos rodeiam, percebemos aos poucos suas origens, seu nascedouro, suas motivações externas e inconscientes tornadas, aos poucos, conscientes. Ganhamos poder de influência sobre nossos valores, desejos e objetivos de vida, gradualmente os limpando dos condicionamentos mediocrizantes a que ninguém escapa e que nos causam uma vida de angústias permanentes e frustrações constantes, nos círculos viciosos entre o consumo e o trabalho, incluindo no consumo desde o básico para a sobrevivência – como a água – até as necessidades do espírito humano – cultura, integração, afetos, sentimentos,... –, tudo reduzido à qualidade de mercadoria.
         Quando desenvolvermos o sentimento de solidariedade irrestrita, quando desejarmos do mundo apenas o necessário para viver com dignidade e em harmonia com o coletivo, quando sentirmos todas as crianças como filhos comuns e os velhos como pais e avós de todos, quando a prioridade forem as situações de fragilidade, quando desenvolvermos os próprios valores, desejos e objetivos de vida relacionados com a harmonia social e a igualdade de oportunidades para todos, sem exceções, o sistema desmorona sem ruído, de inanição. Pois somos nós todos que o sustentamos, conduzidos como o burro puxa a carroça atrás das cenouras penduradas numa vara, sem alcançar.
         Sensibilizar, esclarecer, conscientizar, são tarefas que ganham em força e alcance quando partem de um trabalho interno, profundo e sincero, disposto a reconhecer erros e corrigir rotas, a qualquer momento.

Eduardo Marinho. 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

AVISO

Esse texto abaixo, que acabei de postar ("filtrado em mim, direcionado ao mundo"), foi escrito sob o impacto da perda de todos os contatos internéticos, pelo correio e pelo blogue. Eu considerava a possibilidade de perder tudo e já estava prestando atenção no que precisava fazer, ou seja, trabalhar no meu material de trabalho, que o bicho tá pegando do outro lado.

Como se pode ver, retomei o acesso, depois de quase duas semanas.

Abraços a todos,
                           Eduardo.

Filtrado em mim, direcionado ao mundo






      Gostaria de poder avisar a todos. Talvez não seja possível. Desde ontem, 8 de julho de 2011, meu acesso à minha parte da net tá vedado. Endereço, blogues, iutube, orcute e o escambau, a senha é recusada e nada resolve. Já tentei várias formas, apesar de semi-analfa internético, alguns amigos tentaram ajudar, sem arrumar nada. Ainda vêm outros, mais feras na coisa, mas já tô contando com o pior – e se estiver errado, melhor. Milhares de comunicações, perto de mil endereços, boletins de notícias, informações, idéias, arquivos preciosos, tudo sem acesso. Eu tava recebendo coisa de 50 imeios por dia, e o endereço continua no cabeçário do blogue, que tá pelos 1900 verificadores (melhor que “seguidores”), como falar com todos, sem acesso ao blogue? Na minha precária relação com essas tecnologias, me conformo com minha sorte e espero o acaso, pois tenho muito mais o que fazer. Fiz o que pude e abri a situação aos ventos. Os que se propuseram a ajudar virão conforme suas condições permitam, pois será um favor, já que não posso pagar.
      Posso tomar como um sinal, do destino, da vida, sei lá, um sinal. Faz tempo que sinto necessidade de me dedicar ao trabalho imediato, os desenhos, as frases, os textos, enfim, os papéis que ponho a circular pelo mundo que me cerca, me toca, material e espiritual. Afinal, é o que me põe em contato direto com minha matéria-prima e o destino do meu trabalho, as relações com pessoas, acontecimentos, pensamentos, comportamentos, com o mundo, em uma troca impossível pela internet, pois tocar corpo e alma juntos só é possível no contato direto. A net já deu embalo suficiente.
      A primeira entrevista, em novembro de 2009, fez aparecer o blogue e deu muito o que fazer, lançou minhas palavras no ar, causando reflexões, questionamentos, reações, da mesma forma que faço no cotidiano, há tantos anos, observando a sociedade e as suas relações, refletindo e colocando no meu trabalho. Calçadas, praças, eventos, feiras, assembléias sindicais, movimentos de contestação social, em todo lugar onde se concentrem pessoas de índole reflexiva, na luta por melhoras na vida em sociedade.
      Meu pensamento foi projetado longe, brotaram contatos, muitos, até ao exagero. Contatos mais distantes geraram chamados a palestras, a ser ouvido por coletividades reunidas, experiência nova e bastante interessante. Tenho a impressão de encontrar um número muito maior de exceções do que antigamente, as exceções eram raríssimas na multidão e chamavam muito mais a atenção. Sentados num auditório, não se distingue tão facilmente os que pensam por si e os que repetem os pensamentos planejados e impostos pelas empresas de comunicação. É o que me parece, uma estratégia de infiltração imperceptível, as exceções são quem tem condição pra mudar a estrutura da sociedade, tornando-a mais humana e não permitindo situações de miséria e ignorância. Mas voltando ao assunto, o outro lado desse alcance inesperado é o tratamento de superioridade que recebo em algumas circunstâncias. Muito difícil a resistência a olhares que atribuem um patamar superior ao pensar, à visão de mundo, confundindo a vivência com o ser.
      Se as experiências privilegiadas que pude viver deram base a formação da minha visão de mundo, através de muita observação, reflexão e vivência – para enxergar o que hoje acho óbvio –, o resultado é maior responsabilidade diante do grupo, do coletivo, da humanidade, e não ilusões de superioridades e sabedorias, em vaidade primária, um primitivismo de consciência, um obstáculo à evolução. Mas é preciso estar atento, o sentimento de superioridade é insinuante, adaptável, facilmente “justificável”, além de extremamente estimulado em nossa sociedade de consumo e competição, com infinitas variações, do grotesco ao quase imperceptível, da arrogância grosseira à benevolência atenciosa.
      Com a restrição da net, por “casualidade”, volto a me concentrar no trabalho material, a produção de desenhos, frases e textos. Nesse processo, devo circular mais pelo mundo e viver mais a realidade cotidiana da convivência urbana, no bairro, na metrópole, na região, no país. Saio da net pra cair no mundo, conforme as oportunidades forem se apresentando, os trabalhos que eu for fazendo. Perdoem os que ficarem sem resposta. O Claudemir Firmino, que pagou antes de mandar seu endereço, apesar de eu insistir pra ele fazer o contrário, na certa vai pensar que foi lesado. Na última comunicação, eu disse a ele, “não adianta nada pagar, se você não mandar o endereço”. Depois disso, não tive mais acesso. O gemeio entranhou a senha e me limou. O endereço tá lá, com certeza. A camisa vai estar pronta, Claudemir, agora é esperar a hora. Nem dá pra devolver a grana. Inda bem que não é muita.
      A vida deu muita volta nesse pouco tempo de internet. Inevitável reconhecer, no aumento de visibilidade, um crescimento no respeito e na consideração por parte de pessoas de tendência reflexiva, um elemento novo com quem já estava habituado ao desrespeito cotidiano do preconceito e do aparato de segurança, por extensão de todo o serviço público. Uma demonstração de reconhecimento ao esforço de enxergar razões de ser, na vida, mais plenas que as que são oferecidas – patrimônios, privilégios, posições sociais, consumos, confortos –, formação que não chega ao fim, que permanece em mutação constante. Somos o mesmo grupo, uma humanidade, dentro de um universo mal conhecido, em constante evolução, e essa idéia começa a sair do campo da abstração e vindo à realidade. Cada vez mais pessoas percebem o todo ao qual pertencem e começam a questionar seus valores implantados. Pouco a pouco, os comportamentos vão mudando, nenhum processo dá pulo, a não ser em hecatombes naturais.
      O que faço em pinturas, desenhos, frases, textos ou qualquer outra coisa reflete apenas minha vivência e visão de mundo, minha posição diante da sociedade que me cerca, por todos os lados. Não há mérito, há função, sem o que minha vida perderia o sentido – a minha, bem entendido, sem cobranças a outros. Preciso da satisfação interna em cumprir, mal e mal, o que considero minha obrigação dentro da coletividade, no todo planetário. Microscópico, insignificante, mas a minha parte do processo.
      Parece que devo mudar a direção do foco. Certamente formarei outra bagagem, uma nova vivência. Que será filtrada em mim e direcionada ao mundo. Como tenho feito, há muitos anos.

Eduardo Marinho                                                            11 de julho de 2011 – data da finalização do texto

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Dívida Pública

Todo ano, o orçamento brasileiro leva uma mordida que come metade do seu montante, para pagamento a bancos internacionais dos juros de uma dívida que não diminui, que foi constituída de forma obscura, que muda de nome para se atualizar e que foi investigada por uma CPI, evidentemente sem divulgação por parte da auto denominada "imprensa livre". Livre pra mentir, enganar e distorcer a realidade em favor dos mais poderosos e ricos e em prejuízo do povos, cada vez mais espremidos para enriquecer mais e mais os grandes bancos e empresas internacionais e seus cúmplices nacionais, concentrando mais e mais poder e aumentando mais e mais o controle privado sobre os Estados. No link abaixo, algumas investigações feitas pela CPI da Dívida Pública, na Câmara dos Deputados. Que transcorreu e acabou sob o silêncio da mídia.

http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/blog/2011/06/21/inflacao-divida-publica-2/

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.