Entrevista feita por Eduardo Viana, Rafael Martins e Victor Belart. Faz parte de um documentário, em fase final de gestação, chamado "Escafandristas - cifrões, padrões e exceções". Apresenta as visões de artistas independentes, de vários ramos de atuação nas artes, sobre a sociedade e seus padrões impostos. Deve nascer até o final de abril. Se não sair até o final de maio, a gente faz uma cesariana neles. Eles apareceram lá em Santa, esperaram eu terminar de pôr os desenhos e me entrevistaram mais composto, de camisa. Foram quarenta minutos de idéia, de onde eles extraíram esse suco aí. Tô esperando pra ver o filme.
OBSERVAR E ABSORVER - observareabsorver.em@gmail.com - Pra ver o trabalho, com dimensões e preços, clique no link abaixo de "Ver o trampo".
sábado, 26 de março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
Quando o silêncio é necessário
Há coisas que devemos guardar só pra nós mesmos. Por muitos e variados motivos. É preciso ter muito critério. Aí existe uma encruzilhada, há dois troncos básicos, além de eu vislumbrar um terceiro – não posso dizer quantos há, só quantos percebo -, de menor importância nesta análise, digno de outra análise. As duas principais vertentes de motivos, pela gravidade das suas conseqüências, é como uma balança onde se pesam benefícios e malefícios. Há coisas que não se revelam porque poderiam causar perdas e danos, que trariam tudo de ruim e nada de bom – apenas a satisfação do orgulho com a humilhação de outros, ou interesses menores. Essas são claramente nocivas e evitáveis com o simples silêncio, e é necessário que assim o seja, pela harmonia. Há outras coisas que não se revelam porque poderiam acarretar prejuízos individuais ou a pequenos grupos, embora pudessem beneficiar a coletividade como um todo, ou ao menos estancar alguma sangria desatada na estrutura pública. Essas escondem o que causa sofrimento e injustiça e são um lastimável prejuízo interno, subjetivo, da alma dos beneficiários, dos mentores e dos executores. E uma demonstração de que a sociedade, como um todo, precisa despertar pra cuidar, não só do que é seu, mas do que é dos seus, das gerações passadas e, principalmente, das futuras, que ainda não tiveram a chance de participar do processo e vão receber as conseqüências da nossa inconseqüência social.
O terceiro tronco seria o “neutro”, entre aspas porque se trata da média, nesse tronco de motivos para segredo. Aí há dos motivos egoístas aos generosos. Uma complexidade enorme, de onde eu tô vendo agora, que fica pra outro escrito. Preciso terminar um quadro.
O terceiro tronco seria o “neutro”, entre aspas porque se trata da média, nesse tronco de motivos para segredo. Aí há dos motivos egoístas aos generosos. Uma complexidade enorme, de onde eu tô vendo agora, que fica pra outro escrito. Preciso terminar um quadro.
Sociedade Humana
Agora afirmam que a humanidade está destruindo o planeta. Socializam a responsabilidade. A natureza está sendo destruída, é verdade. Mas uns poucos destroem muito mais que a maioria. São os que estão por trás de grandes bancos, mineradoras gigantes e mega-poluentes, monstros da construção, barragens e transposições desastrosas ao meio ambiente e às populações locais, indústrias produtoras de descartáveis, que se tornam lixo tóxico de longa duração, indústrias químicas, as mais diversas, com resíduos contaminantes, sem falar nas assustadoras usinas nucleares, cujo lixo radioativo nós ainda não temos como tratar. E vêm dizer que quem está destruindo o planeta é o “ser humano”.
São esses poucos quem decide essa realidade, escondidos atrás e acima do poder aparente, o político. Investem nas campanhas eleitorais e têm os políticos como seus representantes no Estado; cooptam carreiras jurídicas, impõem seus protegidos aos cargos-chave da nação. Controlam as instituições públicas e, por extensão, os investimentos públicos. Educação, saúde, transportes, moradia, segurança, saneamento, cultura, informação, tudo é decidido de acordo com os interesses daqueles dominantes, menos de 0,5% da população. Daí a falta de decência dos serviços públicos, a aparente “incompetência” dos governantes e políticos em geral. Na verdade, estes são muito competentes, para o que foram realmente eleitos – e é claro que não o foram pra cumprir suas promessas de campanha.
Por isso o povo precisa estar alienado no processo, precisa acreditar que o poder político é o verdadeiro e não perceber porquê minorias desfrutam privilégios, ostentações e desperdícios, enquanto seus direitos, garantidos na própria Constituição do Estado, são negados pelo próprio Estado, sempre em benefício de empresas, enriquecendo mais os empresários que o controlam. É a contenção do “custo social”. Tudo em benefício das empresas, tanto maiores benefícios quanto maiores forem as empresas – para a população, as despesas cenográficas, os restos e os custos. E aos que não se contentam, a segurança pública. Todas as forças de segurança, militares ou não, em última análise, servem aos interesses empresariais e à contenção dos pobres. E a mídia privada ataca, em histeria raivosa, todo movimento popular que denuncie, reivindique ou conscientize.
Aliás, a mídia é o selo de ouro do esquema de controle social, a garantia de uma população infantilizada, superficializada, desinformada, conduzida a um modo de vida massacrante, frustrante, desumano. Com a destruição do ensino público, sem instrução, a maioria se deixa levar, desarmada de qualquer senso crítico, sem perceber que sua miséria, seu sofrimento, sua angústia, são o que sustenta esse sistema criminoso, essa brutal diferença entre os mais pobres e os mais ricos. As classes médias sofrem o assédio da publicidade frenética, direta e indireta, gerando valores sociais, desejos de consumo, objetivos de vida, tudo planejado e imposto de todas as maneiras por interesses de domínio, lucro e poder. Valores mesquinhos, consumos e entretenimentos narcotizantes e uma vida vazia de sentido.
Em suas ilhas e bolhas de luxo, excessos e ostentações, poucas pessoas escolhem a barbárie social e a impõem aos governos e aos povos, com suas corporações financeiras e transnacionais gigantescas, empresas “esmagadoras” que extraem o sangue e deixam só o bagaço. Isso lhes garante mais ganhos, mais poder, mais riquezas, enquanto a maioria é roubada em seus direitos e levada a uma existência sem dignidade, sem instrução, sem informação, sem acesso ao pleno desenvolvimento das suas potencialidades. Ao contrário, é levada a sustentar essa estrutura com os comportamentos, valores, desejos e objetivos impostos pela parafernália midiática.
Somos forçados a participar e contribuir com essa estrutura e mesmo sustentá-la. Pela indução, aproveitando a falta de instrução, de formação e de informação, pela imposição de valores sociais e pessoais, a partir mídia corporativa e pela pressão, psicológica ou física – quando as forças de segurança dão a última “palavra”.
Não posso respeitar uma sociedade estruturada dessa forma. Preciso questionar cada valor social e meu próprio, preciso duvidar de cada informação trazida por essa mídia privada/safada. E quanto mais ela se dedica a um assunto, mais desconfio dos interesses ocultos dos poderosos da sociedade.
A escravidão predominante de hoje é feita com correntes preparadas com mentiras, e nós as fazemos fortes acreditando nelas. Moldamos os valores, os comportamentos, os desejos, os objetivos de vida, nos baseando em mentiras – daí tanta angústia, tanta frustração e tanto desequilíbrio. Quando formos percebendo isso, vamos desacreditar e as correntes serão rompidas. Seu descrédito é a ferrugem que a corrói. O processo está em curso, mais e mais pessoas, a cada dia, se dão conta de que estão sendo enganadas. Que ninguém se iluda, é um processo longo e lento, embora incontrolável – mesmo com todo o aparato de controle. Participar dele é dar sentido à vida, na direção de uma vida menos insatisfeita e uma sociedade que, afinal, possa merecer com justiça o título de humana.
terça-feira, 22 de março de 2011
Paz em casa e pensamentos
Louça suja. De novo, a pia lotada. Antigamente isso não acontecia. Mas eles eram pequenos. Eu mandava, eles faziam. Depois, durante a adolescência, eu já tinha que pressionar, e quem fazia ficava de cara feia. Com o tempo, veio a resistência, deixa lá que depois a gente lava, e era um depois que nunca chegava. O estado natural da pia da cozinha, na maior parte do tempo, era entulhada. A não ser depois de discussões, de palavras ásperas, de acusações e cobranças, gritos e brigas. E não era só a louça, era a limpeza da casa, a balbúrdia dos quartos, eu tentava arrumar o meu e brigava pra que todos se esforçassem pra isso. Eu brigava com eles, eles brigavam entre si, e a casa, às vezes, era uma orquestra de gritos, bater de portas, barulhos de coisas caindo ou até batendo nas paredes. Pelo que percebi, quando eu não estava aconteciam brigas homéricas, há marcas pela casa toda. Bem, ninguém rolava pelo chão, se engalfinhando, não havia troca de sopapos, pelo menos isso. Ou isso era o que eu pensava. Mas era um inferno de discussões, ressentimentos, e foi assim, até que eles saíram, foram cuidar da vida e o clima aqui tava impossível. Dois anos passaram, e dois estão aqui (a do meio mora no império, aparece menos de uma vez por ano, o “racha” aconteceu depois que ela foi), de novo, agora um pouco mais amadurecidos, a casa tem ficado outra, e em paz, sem gritos ou insultos. O convívio está muito melhor. No início, estava impecável. Agora, já se bagunça um pouco, são roupas esquecidas na sala, brinquedos que não se recolhem (ah, não tinha contado com a neta), aparelhos ligados em vão, luzes acesas. E louça suja na pia da cozinha. Preciso fazer um chá de alho. Eu podia reclamar, mas só ia arrumar mal estar. O que eu quero? A pia da cozinha limpa e arrumada, o fogão limpo e a comida na geladeira. O que eu não quero? Raiva, grosserias e mal estar. Quando cheguei na cozinha, o Ravi tava perto e eu disse, pô não sei que dificuldade tem em lavar a louça. Deixa aí, depois eu lavo, ele diz, em voz baixa e casual, como se nunca tivesse falado isso, e sai, tranqüilo, na direção da sala. Eu dou uma risadinha mais interna que externa e chego na pia. Afasto as coisas, pego a tábua, escolho uns dentes de alho roxo pra amassar. Ponho água numa panela, depois de abrir espaço entre a louça, acendo o fogo pra ferver a água. Descasco o alho e faço virar quase uma pasta, na tábua. E vou pensando, como eles estão melhores agora, embora ainda relaxados demais, ela muito menos, mas ser mãe amadurece mais, e ainda não foi o suficiente. Mas isso se pode dizer que é uma necessidade de todo mundo. Não tô a fim de culpar ninguém. Se quero limpo, eu lavo. Não é tanta coisa assim. Antigamente era muito pior, cobria até a torneira, se esbarrasse caía coisa, essa de hoje, rapidinho, enquanto preparo o chá, fica tudo limpo. A água ferve, eu abaixo o fogo e levo a tábua até a panela, empurrando o alho com a colher. Percebo que se tivesse virado a tábua, o alho ficaria a três centímetros da beirada e seria muito mais fácil jogar na panela. Mas havia um desenho com duas retas levando, como um corredor, pra beira oposta ao cabo, e eu conduzi o alho por ali. Lembrei de como a gente se deixa conduzir pelo lado mais difícil, apenas por encontrar induções, criadas nessa intenção, mesmo. É só olhar em volta e perceber a infinidade de induções plantadas em nosso caminho e em todos os lugares e que, se analisarmos direitinho, nos trazem, e à sociedade, um monte de problemas. É muito bom percebermos essas induções e como tantas já não nos levam, quantos valores induzidos já não nos fazem o menor sentido. E descobrir a profundidade desses condicionamentos, como podem ser sutis a ponto de não percebermos o quanto há deles em nós, nas opiniões e visão de mundo que formamos. É preciso questionar nossas próprias idéias. Eu me deixei conduzir por dois traços feitos em cima da tábua, indicando a “saída”, e fiz o caminho mais difícil. Apago o fogo, cubro a panela com um pano dobrado e coloco a tampa por cima. O calor vai extrair do alho o que eu preciso. Enquanto isso, lavo a louça. Não é melhor que passar raiva? O ruim é que toda hora se deixa coisa suja. Mas é melhor lavar ou bater boca? Lavo, tranqüilo, enquanto o alho curte na água quente. Se eu insistisse em pressionar pra eles arrumarem as coisas, estaria incorrendo num velho erro. Eles têm senso de justiça latente. Acho que é só questão de tempo. Têm solidariedade, também. Às vezes tardia, mas têm – e quem não erra? Lavando, não estou só fazendo ficar limpo, como também mantendo o clima bom. Eles estão fazendo mais que antes, bem mais. Não podem é ser pressionados, nisso parecem comigo. Pressão, só de circunstâncias, não de circunstantes. A força das coisas, dos acontecimentos, não de pessoas. Exemplos, não palavras. As coisas vão ficar limpas. E o clima, tranqüilo. A vida ensina suavemente, quando a gente se dispõe a aprender. Ou asperamente, quando a gente não se dispõe.
domingo, 20 de março de 2011
O espetáculo da subalternidade
Toda a preparação oficial e a euforia dos meios de comunicação dominantes em nossa sociedade, diante da visita do “mandatário” imperial (que não manda nada), nos oferece um panorama constrangedor. Políticos historicamente alinhados aos interesses econômicos estadunidenses e outros nem tanto, prestam vassalagem ao poder das empresas multinacionais, simbolizados na figura da marionete e sua família, que fazem, simbolicamente, uma visita “familiar” à casa dos “amigos”. Posso ver, no escuro atrás e acima dessas figuras cênicas, as garras dos seus manipuladores, a partir das mega-petroleiras e de outras indústrias, como a de armamentos, a farmacêutica, a de alimentos transgênicos (leia-se “monopólios de sementes e alimentos”), etc.
Somos obrigados a assistir um show de idolatria planejada, de sujeição moral e ideológica à tirania mundial das grande empresas mundiais, poluidoras constantes e violadoras dos direitos humanos e de soberanias em países no mundo inteiro, através da bajulação do seu preposto e família.
Seria cômico, se não fosse trágico (devido à desinstrução e desinformação planejadas), ver esses jornalistas corruptos abanando os rabinhos, histéricos como cães à chegada do seu dono, fazendo-nos ouvir disparates como “neste dia tão especial dessa visita” e a referência ao motivo principal como “o lado empresarial da visita”, divulgando o cardápio do almoço com a presidente (eu escreveria “presidenta” se o masculino fosse “presidento”), comentando os vestidos e salamaleques rocambolescos nos palácios, longe do “fedor” do povo, nas cortes de ostentação e desperdício, de sujeição cultural e econômica.
É óbvio que o motivo principal e mal disfarçado dessa incursão “diplomática” é o mesmo que levou o império a invadir ilegalmente o Iraque e armar um furdunço do Oriente Médio. Petróleo. As jazidas do pré-sal, ainda não inteiramente divulgadas, apontam pra uma quantidade de óleo três vezes maior que todas as reservas brasileiras e de melhor qualidade. Um amigo petroleiro, que trabalha numa plataforma em alto mar, próximo ao litoral de Santos, há dois anos, contou ver a passagem diária de navios da 4ª Frota dos USA, desde que se descobriu o pré-sal e se reativou essa frota. A onda que invadiu a baía de Guanabara e danificou um catamarã, segundo consta, foi fruto de uma explosão de teste, feita no fundo do mar a partir de um porta-aviões estadunidense.
Os pretextos da “visita diplomática” e sua encenação midiática são uma afronta aos que pensam por si, nessa coletividade narcotizada por obra e graça da mídia, que conta com a política da deseducação para encontrar um povo desarmado de senso crítico. O Estado brasileiro é como um criminoso que mantém seu povo refém da ignorância e entregue aos manipuladores da opinião pública, altamente capacitados e remunerados. Ricos de grana, pobres de espírito. Onde está a dignidade de quem bajula os opressores de seu próprio povo?
O estupro da Cinelândia pôde ser evitado, não pelo discernimento das autoridades locais, eufóricas com a oportunidade de paparicar o "imperador", mas pela própria segurança estrangeira que, diante das reações nas ruas, percebeu que isso ia dar merda e que eles se arriscariam a matar alguns brasileiros, o que, no momento, não seria aconselhável, pois desmascararia a própria “visita diplomática para o estreitamento dos laços entre os dois países (Brasil e USA)”. Na verdade, os laços que eles pretendem apertar estão nos nossos pescoços brasileiros e, por extensão, latinoamericanos. E eles preferem matar no atacado, com alta tecnologia, do que no varejo, em denunciador conflito de rua num país dito "amigo". Os assassinatos de varejo seletivo são trabalho para a CIA, como fizeram com os cientistas nucleares iranianos, pela sucursal da CIA, o MOSSAD israelense.
Diante desse quadro, ainda temos a lastimar que os “nossos” revolucionários também são estrangeiristas que pretendem aplicar, aqui, modelos estrangeiros de revolução. Leninistas, trotskistas, stalinistas e demais marxistas têm, pelo brasileiro comum, o mesmo desprezo dos imperialistas. Caem na vala comum de responsabilizar as vítimas pela ignorância e desinteresse, pretendem “conduzir as massas”, como quem entrega pizzas, e não fazem nenhum movimento de real conscientização do povo. Têm medo de entrar nas áreas de exclusão, a não ser através de lideranças cooptadas por suas siglas e, absurdo dos absurdos, usam roupas, tênis e bolsas de marca. Que tipo de “revolucionário” é esse? Respondo: é do tipo vazio de substância e cheio de vaidades – almeja apenas a glória entre seus pares, que nem falar a linguagem da população sabem. Esses caras mais assustam do que cativam a população. E acabam, em seus arroubos agressivos, justificando o desenvolvimento e o recrudescimento dos aparelhos de segurança do Estado contra o povo, principalmente os pobres. Facilitam o trabalho da mídia em criminalizar os movimentos de contestação, reivindicação, denúncia ou defesa da maioria. O sistema adora esses "revolucionários" que, além de justificar medidas de contenção, ajudam a montar um cenário "democrático". Em Cuba eles não teriam essa liberdade, dizem os pilantras, os elitistas e os ingênuos que se informam pela mídia. Se não fosse uma auto-denúncia, agradeceriam a esse bando de otários, digo, a esses "revolucionários".
O lamentável espetáculo da subalternidade dos “dirigentes” e “comunicadores” da nossa sociedade me faz agradecer à pereba na perna e à encomenda de uma pintura (num momento em que estou em dificuldades) que, juntos, me fizeram desisitir de ir lá na Cinelância, assistir aos acontecimentos ofensivos à dignidade do meu país. Faltasse um dos dois e eu teria ido. Claro que eu teria me divertido, encontraria conhecidos velhos de guerra e distribuiria cartazes manifestando repúdio, tanto à visita da marionete quanto à posição colonizada dos pretensos representantes da sociedade. Mas, com certeza, na reflexão forçada pela travessia das barcas, choraria de tristeza.
Somos obrigados a assistir um show de idolatria planejada, de sujeição moral e ideológica à tirania mundial das grande empresas mundiais, poluidoras constantes e violadoras dos direitos humanos e de soberanias em países no mundo inteiro, através da bajulação do seu preposto e família.
Seria cômico, se não fosse trágico (devido à desinstrução e desinformação planejadas), ver esses jornalistas corruptos abanando os rabinhos, histéricos como cães à chegada do seu dono, fazendo-nos ouvir disparates como “neste dia tão especial dessa visita” e a referência ao motivo principal como “o lado empresarial da visita”, divulgando o cardápio do almoço com a presidente (eu escreveria “presidenta” se o masculino fosse “presidento”), comentando os vestidos e salamaleques rocambolescos nos palácios, longe do “fedor” do povo, nas cortes de ostentação e desperdício, de sujeição cultural e econômica.
É óbvio que o motivo principal e mal disfarçado dessa incursão “diplomática” é o mesmo que levou o império a invadir ilegalmente o Iraque e armar um furdunço do Oriente Médio. Petróleo. As jazidas do pré-sal, ainda não inteiramente divulgadas, apontam pra uma quantidade de óleo três vezes maior que todas as reservas brasileiras e de melhor qualidade. Um amigo petroleiro, que trabalha numa plataforma em alto mar, próximo ao litoral de Santos, há dois anos, contou ver a passagem diária de navios da 4ª Frota dos USA, desde que se descobriu o pré-sal e se reativou essa frota. A onda que invadiu a baía de Guanabara e danificou um catamarã, segundo consta, foi fruto de uma explosão de teste, feita no fundo do mar a partir de um porta-aviões estadunidense.
Os pretextos da “visita diplomática” e sua encenação midiática são uma afronta aos que pensam por si, nessa coletividade narcotizada por obra e graça da mídia, que conta com a política da deseducação para encontrar um povo desarmado de senso crítico. O Estado brasileiro é como um criminoso que mantém seu povo refém da ignorância e entregue aos manipuladores da opinião pública, altamente capacitados e remunerados. Ricos de grana, pobres de espírito. Onde está a dignidade de quem bajula os opressores de seu próprio povo?
O estupro da Cinelândia pôde ser evitado, não pelo discernimento das autoridades locais, eufóricas com a oportunidade de paparicar o "imperador", mas pela própria segurança estrangeira que, diante das reações nas ruas, percebeu que isso ia dar merda e que eles se arriscariam a matar alguns brasileiros, o que, no momento, não seria aconselhável, pois desmascararia a própria “visita diplomática para o estreitamento dos laços entre os dois países (Brasil e USA)”. Na verdade, os laços que eles pretendem apertar estão nos nossos pescoços brasileiros e, por extensão, latinoamericanos. E eles preferem matar no atacado, com alta tecnologia, do que no varejo, em denunciador conflito de rua num país dito "amigo". Os assassinatos de varejo seletivo são trabalho para a CIA, como fizeram com os cientistas nucleares iranianos, pela sucursal da CIA, o MOSSAD israelense.
Diante desse quadro, ainda temos a lastimar que os “nossos” revolucionários também são estrangeiristas que pretendem aplicar, aqui, modelos estrangeiros de revolução. Leninistas, trotskistas, stalinistas e demais marxistas têm, pelo brasileiro comum, o mesmo desprezo dos imperialistas. Caem na vala comum de responsabilizar as vítimas pela ignorância e desinteresse, pretendem “conduzir as massas”, como quem entrega pizzas, e não fazem nenhum movimento de real conscientização do povo. Têm medo de entrar nas áreas de exclusão, a não ser através de lideranças cooptadas por suas siglas e, absurdo dos absurdos, usam roupas, tênis e bolsas de marca. Que tipo de “revolucionário” é esse? Respondo: é do tipo vazio de substância e cheio de vaidades – almeja apenas a glória entre seus pares, que nem falar a linguagem da população sabem. Esses caras mais assustam do que cativam a população. E acabam, em seus arroubos agressivos, justificando o desenvolvimento e o recrudescimento dos aparelhos de segurança do Estado contra o povo, principalmente os pobres. Facilitam o trabalho da mídia em criminalizar os movimentos de contestação, reivindicação, denúncia ou defesa da maioria. O sistema adora esses "revolucionários" que, além de justificar medidas de contenção, ajudam a montar um cenário "democrático". Em Cuba eles não teriam essa liberdade, dizem os pilantras, os elitistas e os ingênuos que se informam pela mídia. Se não fosse uma auto-denúncia, agradeceriam a esse bando de otários, digo, a esses "revolucionários".
O lamentável espetáculo da subalternidade dos “dirigentes” e “comunicadores” da nossa sociedade me faz agradecer à pereba na perna e à encomenda de uma pintura (num momento em que estou em dificuldades) que, juntos, me fizeram desisitir de ir lá na Cinelância, assistir aos acontecimentos ofensivos à dignidade do meu país. Faltasse um dos dois e eu teria ido. Claro que eu teria me divertido, encontraria conhecidos velhos de guerra e distribuiria cartazes manifestando repúdio, tanto à visita da marionete quanto à posição colonizada dos pretensos representantes da sociedade. Mas, com certeza, na reflexão forçada pela travessia das barcas, choraria de tristeza.
quinta-feira, 10 de março de 2011
O garimpo humano
Temos do “demoníaco” ao “divino”, entre nós. E dentro de nós. Conheço trevosos e iluminados, anjos e demônios. Vi anjos virarem demônios e vice versa, conforme as circunstâncias. Todas a falhas que vemos pelo mundo estão dentro de nós, em maior ou menor grau, como árvore frondosa ou apenas semente, esperando a ocasião. As proporções variam do imperceptível ao impressionante, em incontáveis degraus.
A humanidade é um grande garimpo. O que aparece é lama, cascalho e pedra sem valor. No meio, de raro em raro, há pedras preciosas e pepitas, misturadas com tudo. Há quem desista, “ora aí só tem barro, que sujeirada”, logo de saída, ou depois de uma busca frustrante. Mas há quem se aplique, quem procure e encontre. É preciso educar os olhos, apurar os sentidos, pra perceber uma pedra de valor, uma pepita, envolvida na lama, no cascalho humano. Não é difícil, eu as tenho encontrado, sempre, em todos os meios e coletividades.
Claro que não são a regra geral. A sociedade será outra quando forem, pelo menos, minoria. São exceções à regra. Muitas se dedicam a trabalhos de conscientização, de ensino, de amparo, de apoio, de luta por melhorias de verdade, no ser humano e na sociedade. Outras não se dedicam diretamente, estão em toda parte, espalhadas, formando a sociedade como pessoas comuns, em todas as profissões. Essas iluminam aonde estão, questionando, propondo, exemplificando, sendo diferentes do "normal". A diferença está no olhar, na compreensão das coisas, da forma de reagir, de sentir, de atuar. Há quem esteja buscando, quem não se conforme, quem sofra com a discriminação inevitável numa sociedade onde a mediocridade, a mesquinharia, a conformação, a padronização ainda são as regras vigentes. Os contatos que valem a pena, da humanidade, são as exceções. Em geral, são pessoas que, quando andam com a corrente, se angustiam, sofrem. Pessoas para quem se conformar e reprimir as necessidades internas é adoecer a vida, é se tornar amargo, depressivo, mal-humorado, descrente de tudo.
Somos mesmo complexos e variados. Mas somos, também, ignorantes de nós mesmos. Cegos de consciência, tateamos no escuro, aprendendo com a dor, colhendo frutos que plantamos sem nem perceber. Aprender, essa é a tarefa. Pra isso existimos e é o que levamos da vida. Alguns sabem disso, outros sentem. Poucos, é claro. A maioria anda por aí, superficializada, induzida ao desinteresse, à inércia, ao seguir as ondas, sem perceber a fonte dos seus próprios valores, sem perceber os próprios condicionamentos, muitas vezes no cárcere da indiferença, do egocentrismo, do apequenamento do mundo. Essa maioria não pode entender a angústia, o vazio que assalta implacável, a cada silêncio, a cada encontrar consigo mesmo.
A preciosidade humana tem uma característica própria, única, e é o que me faz acreditar na diversidade infinita desse trabalho de lapidação. Diferente da preciosidade mineral, exclusiva, a preciosidade humana contagia. Uma luz pode acender várias, e essas passam a acender outras. A diferença entre uma pessoa iluminada e outra ignorante não é tão abissal quanto nos parece. Em essência, são a mesma coisa - às vezes, um leve toque produz o brilho. Taí o trampo, esse é o trabalho. Pra mim, é isso o que faz a vida valer a pena. Aprender e passar, deixar os toques pra que alguém os aproveite em seu trabalho/caminho. Não espero ver tudo pronto, do jeito que sonho. Mas preciso andar neste sentido. Não tenho a ingenuidade de plantar pra mim, planto pra dar valor à minha vida.
Nada é estático, tudo muda. Não há milênios pra trás? Também os há pra frente. As previsões apocalípticas visam desestimular qualquer movimento de mudança mais incisivo. Não há extermínio. Pode haver hecatombes, sim, mas não o extermínio. E se houvesse essa possibilidade, isso seria mais um motivo pra lutar. Sentar e se acomodar como os usufruintes alienados, não quero condenar ninguém, mas eu teria vergonha. De mim mesmo.
Prefiro tratar com pessoas que possuem algum terreno fértil em suas consciências, com essas dá pra trabalhar. E ajuda a fertilizar e desenvolver a minha própria, que é o que eu mais preciso. As mudanças, as revoluções, se fazem no dia a dia, internamente, sem detrimento das lutas externas, de grupo, dos posicionamentos, das manifestações e apoios solidários, das reivindicações justas, do esclarecimento cotidiano.
Nem todos estão acomodados. Nem todos almejam o desfrute e o prazer materiais como finalidade de vida. Nem todos se deixam condicionar por uma mídia tão poderosa que forma valores, costumes, opiniões, sempre em benefício de empresas e em detrimento do desenvolvimento real do ser humano e da sociedade. São poucos, ainda, é verdade. É um garimpo. Mas eu percebo a formação de muitos veios, espalhados por aí.
Um veio (vêio), no garimpo de minerais, é onde se encontram grande quantidades de pedras, ou ouro, num lugar só, a sorte grande do garimpeiro. No meio humano, já vi muitos veios preciosos, funcionando dentro da coletividade, de todos os tipos, formas e qualidades. Com o tempo, fui percebendo o fenômeno da evolução espalhada e, aparentemente, desconectada. O trabalho está sendo feito. Sem anúncio, sem alarde, em toda parte, em todos os níveis. Sem que se perceba e é bom que assim seja. A estrutura dominante está pronta pra esmagar qualquer ameaça de mudança, venha das ruas, dos grupos, dos gritos, através do terrorismo, do combate direto ou indireto, explosivos ou informações. Esse grande esquema só não está preparado pra consciência. Por isso tanto investimento em entretenimento, em condução da opinião pública, em idiotização, em infantilização pela mídia da mentalidade geral. Assim, roubam os direitos fundamentais da maioria e atiram grande parcela da população na ignorância, na pobreza e na miséria. O mandamento moral, agora, é conscientizai-vos uns aos outros. Esse é o trabalho que está sendo feito. Sem controle aparente, aparentemente espontâneo.
Participar desse trabalho é necessário a muitos dos que não se contentam com o que a sociedade apresenta como ideal de vida. Pros que não se deixam enganar e se sentem parte dessa coletividade narcotizada. Pros que não se identificam, nem se conformam com essa estrutura social injusta, mediocrizante, manipuladora, mentirosa e criadora de problemas pra esmagadora maioria. E o trabalho começa dentro. Os que se limitam a lutar por mudanças na sociedade, a partir do externo, não desenvolvem em si a força da mudança. Desistem ou se acomodam com a forma sem conteúdo da revolução sem raízes, com verdades impostas e subalternidade cultural.
As verdadeiras exceções estão aí, é um imenso prazer e um incentivo reconhecê-las, vez por outra.
A humanidade é um grande garimpo. O que aparece é lama, cascalho e pedra sem valor. No meio, de raro em raro, há pedras preciosas e pepitas, misturadas com tudo. Há quem desista, “ora aí só tem barro, que sujeirada”, logo de saída, ou depois de uma busca frustrante. Mas há quem se aplique, quem procure e encontre. É preciso educar os olhos, apurar os sentidos, pra perceber uma pedra de valor, uma pepita, envolvida na lama, no cascalho humano. Não é difícil, eu as tenho encontrado, sempre, em todos os meios e coletividades.
Claro que não são a regra geral. A sociedade será outra quando forem, pelo menos, minoria. São exceções à regra. Muitas se dedicam a trabalhos de conscientização, de ensino, de amparo, de apoio, de luta por melhorias de verdade, no ser humano e na sociedade. Outras não se dedicam diretamente, estão em toda parte, espalhadas, formando a sociedade como pessoas comuns, em todas as profissões. Essas iluminam aonde estão, questionando, propondo, exemplificando, sendo diferentes do "normal". A diferença está no olhar, na compreensão das coisas, da forma de reagir, de sentir, de atuar. Há quem esteja buscando, quem não se conforme, quem sofra com a discriminação inevitável numa sociedade onde a mediocridade, a mesquinharia, a conformação, a padronização ainda são as regras vigentes. Os contatos que valem a pena, da humanidade, são as exceções. Em geral, são pessoas que, quando andam com a corrente, se angustiam, sofrem. Pessoas para quem se conformar e reprimir as necessidades internas é adoecer a vida, é se tornar amargo, depressivo, mal-humorado, descrente de tudo.
Somos mesmo complexos e variados. Mas somos, também, ignorantes de nós mesmos. Cegos de consciência, tateamos no escuro, aprendendo com a dor, colhendo frutos que plantamos sem nem perceber. Aprender, essa é a tarefa. Pra isso existimos e é o que levamos da vida. Alguns sabem disso, outros sentem. Poucos, é claro. A maioria anda por aí, superficializada, induzida ao desinteresse, à inércia, ao seguir as ondas, sem perceber a fonte dos seus próprios valores, sem perceber os próprios condicionamentos, muitas vezes no cárcere da indiferença, do egocentrismo, do apequenamento do mundo. Essa maioria não pode entender a angústia, o vazio que assalta implacável, a cada silêncio, a cada encontrar consigo mesmo.
A preciosidade humana tem uma característica própria, única, e é o que me faz acreditar na diversidade infinita desse trabalho de lapidação. Diferente da preciosidade mineral, exclusiva, a preciosidade humana contagia. Uma luz pode acender várias, e essas passam a acender outras. A diferença entre uma pessoa iluminada e outra ignorante não é tão abissal quanto nos parece. Em essência, são a mesma coisa - às vezes, um leve toque produz o brilho. Taí o trampo, esse é o trabalho. Pra mim, é isso o que faz a vida valer a pena. Aprender e passar, deixar os toques pra que alguém os aproveite em seu trabalho/caminho. Não espero ver tudo pronto, do jeito que sonho. Mas preciso andar neste sentido. Não tenho a ingenuidade de plantar pra mim, planto pra dar valor à minha vida.
Nada é estático, tudo muda. Não há milênios pra trás? Também os há pra frente. As previsões apocalípticas visam desestimular qualquer movimento de mudança mais incisivo. Não há extermínio. Pode haver hecatombes, sim, mas não o extermínio. E se houvesse essa possibilidade, isso seria mais um motivo pra lutar. Sentar e se acomodar como os usufruintes alienados, não quero condenar ninguém, mas eu teria vergonha. De mim mesmo.
Prefiro tratar com pessoas que possuem algum terreno fértil em suas consciências, com essas dá pra trabalhar. E ajuda a fertilizar e desenvolver a minha própria, que é o que eu mais preciso. As mudanças, as revoluções, se fazem no dia a dia, internamente, sem detrimento das lutas externas, de grupo, dos posicionamentos, das manifestações e apoios solidários, das reivindicações justas, do esclarecimento cotidiano.
Nem todos estão acomodados. Nem todos almejam o desfrute e o prazer materiais como finalidade de vida. Nem todos se deixam condicionar por uma mídia tão poderosa que forma valores, costumes, opiniões, sempre em benefício de empresas e em detrimento do desenvolvimento real do ser humano e da sociedade. São poucos, ainda, é verdade. É um garimpo. Mas eu percebo a formação de muitos veios, espalhados por aí.
Um veio (vêio), no garimpo de minerais, é onde se encontram grande quantidades de pedras, ou ouro, num lugar só, a sorte grande do garimpeiro. No meio humano, já vi muitos veios preciosos, funcionando dentro da coletividade, de todos os tipos, formas e qualidades. Com o tempo, fui percebendo o fenômeno da evolução espalhada e, aparentemente, desconectada. O trabalho está sendo feito. Sem anúncio, sem alarde, em toda parte, em todos os níveis. Sem que se perceba e é bom que assim seja. A estrutura dominante está pronta pra esmagar qualquer ameaça de mudança, venha das ruas, dos grupos, dos gritos, através do terrorismo, do combate direto ou indireto, explosivos ou informações. Esse grande esquema só não está preparado pra consciência. Por isso tanto investimento em entretenimento, em condução da opinião pública, em idiotização, em infantilização pela mídia da mentalidade geral. Assim, roubam os direitos fundamentais da maioria e atiram grande parcela da população na ignorância, na pobreza e na miséria. O mandamento moral, agora, é conscientizai-vos uns aos outros. Esse é o trabalho que está sendo feito. Sem controle aparente, aparentemente espontâneo.
Participar desse trabalho é necessário a muitos dos que não se contentam com o que a sociedade apresenta como ideal de vida. Pros que não se deixam enganar e se sentem parte dessa coletividade narcotizada. Pros que não se identificam, nem se conformam com essa estrutura social injusta, mediocrizante, manipuladora, mentirosa e criadora de problemas pra esmagadora maioria. E o trabalho começa dentro. Os que se limitam a lutar por mudanças na sociedade, a partir do externo, não desenvolvem em si a força da mudança. Desistem ou se acomodam com a forma sem conteúdo da revolução sem raízes, com verdades impostas e subalternidade cultural.
As verdadeiras exceções estão aí, é um imenso prazer e um incentivo reconhecê-las, vez por outra.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
É mesmo óbvio? Ou estou sendo pretensioso?
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| Capa do nº1 do fanzine, que é dobrada ao meio. |
Mas olho para a estrutura da sociedade e me parece muito simples. A ignorância, a miséria, fruto de uma desigualdade brutal; um povo aparvalhado, infantilizado, entre a ausência de ensino e a “formação” de opinião pela mídia privada; a violência de um Estado que não garante as condições mínimas definidas pela sua própria constituição – básicas para extinguir esses males – e que se transforma na violência social, no crime, na truculência da polícia contra as comunidades pobres. Nos crimes das grandes empresas contra as populações que se encontrem em seu caminho insano, em direção ao lucro. Contra o meio ambiente, contra a soberania nacional, contra os povos nativos e locais, contra a qualidade de vida que apregoam como razão da sua existência - numa hipocrisia mal mascarada pela publicidade inteligente, insidiosa, que pega pelo inconsciente, o subliminar. Tudo isso e muito mais me dizem claro que a sociedade humana está dominada e controlada por empresas, quer dizer, os donos das maiores empresas controlam, interferem, influenciam, pressionam, concentram poderes o mais que podem sobre os Estados nacionais, compondo com as empresas de cada lugar, com os poucos das elites locais. Aí está a razão dessa estrutura cruel de sociedade. Será que é muita pretensão minha? Que eu tô delirando, vendo coisas? Parece tão óbvio...
A estrutura social (imposta pelos poderes reais, os econômicos, ou das pessoas que se escondem atrás de suas grandes empresas), enquanto massacra a maior parte, submete enorme parcela da população, as classes intermediárias, a uma existência sem outro sentido que “subir na vida”, de forma a sustentar essa estrutura, com nossos desejos, nossos objetivos de vida, nosso egocentrismo induzido e estimulado. O massacre publicitário é o tempo todo. Forma nossas opiniões, desejos e valores desde a infância. A agressividade é estimulada, a competitividade é imposta. Os postos de comando são mais bem remunerados, imprescindíveis que são no controle da maioria, na administração da ordem vigente. A grade curricular das escolas é direcionada ao “mercado”, não mais à sociedade. O ensino público, fundamental e médio, é deteriorado, destruído, conservando as formas pra sair na foto. Tudo interessa às empresas, até mesmo a miséria – a melhor garantia de manutenção dos salários baixos. É preciso explorar ao máximo. Não é à toa que o Repórter Brasil denuncia trabalho escravo, todos os dias. A estrutura favorece.
E nós favorecemos a estrutura, desejando o que nos mandam, nos submetendo a trabalhos de que não gostamos, priorizando o ter, o possuir, o desfrutar, em detrimento de ser, de estar, de se relacionar com o mundo e consigo mesmo, abrindo mão de nos realizar como seres humanos. A sociedade “como um todo” nos cobra essa desumanização. Enxergamos a miséria e a ignorância como inevitáveis. Vivemos um presente frustrante, na expectativa de “benefícios” futuros, que não compensam o alto preço que custam em qualidade de vida ao longo do tempo. Permitimos que nos formem os valores, através de mecanismos do inconsciente, conhecidos pelos marqueteiros, publicitários e “formadores de opinião” da mídia. Sem perceber, não vemos alternativas diante das pressões na direção da normalidade, muitas vezes cobrando de outros as mesmas posturas. Cheguei a trilhar esse caminho, mas a angústia e a falta de sentido eram tão intensas que resolvi mudar o rumo, apesar das ameaças. Mesmo sem saber a direção a seguir. E as ameaças de discriminação, de repulsa social, de perseguição se concretizaram. Não foi trágico, apenas sintomático. Eu procurava caminhos que não me eram apresentados. Não podia esperar compreensão, muito menos apoio. E não houve nem respeito. Com o tempo, percebi que o único respeito imprescindível é o próprio. E que, em alguns casos, o desrespeito é como um elogio.
É a nossa permissão que faz a sociedade ser o que é. Nossa acomodação, nosso medo, nossa indiferença, nossos objetivos de vida, tudo plantado, tudo planejado. Acolhemos valores desumanos e vivemos desgraçadamente em torno deles, sofrendo-lhes as conseqüências e sem saber a quê atribuir a nossa angústia.
Simples assim. As empresas dominam os Estados. A coisa pública está imersa na privada. O inimigo se instala, sorridente, nas salas das casas, com declarações de afeto e juras de amor, “entretendo” com novelas e programas (por onde escorrem as invasões subliminares, a formação de valores falsos, os condicionamentos). E ataca os que o denunciam, com seus jornais e revistas, rádios e televisões, criminalizando, distorcendo e omitindo informações, incitando as forças de segurança e a população em geral contra os que ousam resistir – e a população, em tais condições, não percebe os crimes dos quais é vítima.
Buscar a realização pessoal humana é um ato revolucionário. Construir seus próprios valores, independente dos induzidos, é uma obrigação de quem o percebe. Renegar as marcas, consumir apenas o necessário, exterminar a cultura do consumo, desenvolver o gosto pela contemplação, a movimentação gratuita, a diversão sem custo monetário, a alimentação e a medicina mais próximas à natureza e ao bem estar interno. Dedicar mais atenção aos sentimentos, desenvolver a tolerância, a reflexão, a solidariedade, a consciência. E aplicar nas relações com os indivíduos e a coletividade. A mudança precisa de base interna, pra ter força. As mudanças externas são uma extensão, uma conseqüência que, sem as raízes internas – profundas e sinceras -, logo secam e morrem, ou se demonstram ervas venenosas. Como disse Gandhi, é preciso fazer em si as mudanças que se deseja no mundo.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Frases
“Antigamente era mais difícil se informar e tomar consciência. Hoje, com as novas tecnologias, com a informática, qualquer pessoa com uma curiosidade mais aguçada pode perceber o mundo como ele é.”
Milton Santos - geógrafo baiano documentariado por Sílvio Tendler, em "Encontro com Milton Santos - o mundo globalizado visto do lado de cá" (vale assistir). 1926 - 2001
“Quem não quer pensar, é um fanático; quem não pode pensar, é um idiota; quem não ousa pensar, é um covarde”.
Horace Walpole - romancista inglês aristocrata, foi "Conde de Oxford". 1717 - 1797
"A massa sustenta a marca; a marca sustenta a mídia; e a mídia controla a massa."
George Orwell (Eric Arthur Blair) - Escritor e jornalista inglês. 1903 - 1950
"Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano e eu o declaro meu inimigo."
Pierre-Joseph Proudhon - filósofo político e econômico francês. 1809 - 1865
Eduardo Marinho - 1960 e, ainda, vivo.
Milton Santos - geógrafo baiano documentariado por Sílvio Tendler, em "Encontro com Milton Santos - o mundo globalizado visto do lado de cá" (vale assistir). 1926 - 2001
“Quem não quer pensar, é um fanático; quem não pode pensar, é um idiota; quem não ousa pensar, é um covarde”.
Horace Walpole - romancista inglês aristocrata, foi "Conde de Oxford". 1717 - 1797
"A massa sustenta a marca; a marca sustenta a mídia; e a mídia controla a massa."
George Orwell (Eric Arthur Blair) - Escritor e jornalista inglês. 1903 - 1950
"Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim para me governar é um usurpador, um tirano e eu o declaro meu inimigo."
Pierre-Joseph Proudhon - filósofo político e econômico francês. 1809 - 1865
A sabotagem do ensino, a desinformação, a narcotização pelas mídias e a violência contra os pobres de grana são planejadas, comandadas, executadas e consentidas pelos pobres de espírito.
Eduardo Marinho - 1960 e, ainda, vivo.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Satisfação aos “seguidores”
| A banca vermelha é de minerais para colecionadores e amantes das pedras. O cara se chama Miguel, o acupunturista. O que ele está "apertando" é tabaco, não se iludam. |
Neste último terço de janeiro, este blogue ficou meio abandonado. Como alguns amigos ficam admiradíssimos quando digo o número de seguidores (detesto esse nome), comecei a sentir uma certa responsabilidade, uma dívida de consideração com essas pessoas, a maioria que nem conheço, mas que, claramente, acompanha estas coisas óbvias que eu posto aqui. Por isso acho que devo uma satisfação a essa rapaziada, pra que saibam o que acontece e porque.
Eu não tinha noção da importância desse número, mas lembrei de Diamantina, quando um garimpeiro que se tornou meu amigo me mostrou uma pedra. Estávamos num bar, à noite, e comentávamos as dificuldades de sobrevivência da maioria, quando ele me falou da sorte que tivera, na semana. Olhou pros lados, disse que ia reformar a casa da mãe e a dele, e ainda trocaria de moto. Com um sorriso triunfante, tirou do bolso do casaco uma pedra e pôs na minha mão, sempre dando umas olhadas em volta. Peguei o diamante bruto, rolei na mão, olhando, procurando alguma coisa que o diferenciasse das outras pedras de cristal que via pelo chão das ruas e das estradas. Eu passaria por aquela pedra sem nem perceber, eu a chutaria como brincadeira, tentando acertar alguma coisa mais na frente, só por “desfastio”, como dizia minha avó. Fiz a ligação com a vida e percebi quantas vezes se tem nas mãos algo valioso e não se percebe. Talvez exatamente por estar na mão. Desdenhamos nossas preciosidades, até que elas se vão. Aí percebemos, já tarde demais.
Bem, voltando ao assunto, no sábado, 22 de janeiro, eu expus em Santa Teresa, até umas nove da noite, pois estou chegando mais tarde devido ao calor do sol no lugar em que exponho. Ravi, meu filho, estava na área, vendendo seu artesanato nos bares e muvucas que se formam no bairro. Conversando com Jean, o rasta que faz e vende instrumentos de percussão, ali no Guimarães mesmo, Ravi manifestou o desejo de aprender a fazer instrumentos – assim, um desejo casual, sem nenhum compromisso com o tornar realidade essa vontade. Mas o Jean, prestativo, nos chamou à sua casa, ali perto, pra ele ver como é que é. Depois de encerrarmos o “expediente”, fomos caminhando até lá, Jean e sua mina, Ravi e eu.
Era uma rua que ligava a descida pra Glória ao largo do Curvelo, de pouca circulação. Neste percurso, surgiram mais na frente um cara e dois cachorros, um grande e outro pequeno. O grande estava preso numa guia e na mão do cara. O pequeno, solto, nos viu e veio na nossa direção. Não dei muita atenção, é normal o cachorro vir dar sua cheirada de reconhecimento a cada novidade que aparece na sua frente. Mais interessante era a arquitetura de uma casa pela qual passávamos, no alto de uma escadaria ao lado da rua, com a alvenaria toda trabalhada em detalhes. Nisto, ouvi um pequeno rosnado e senti a bocada rápida, atrás da perna direita.
Surpreso, comentei, “fidaputa, me mordeu, esse vira-lata!” Levantei a calça, olhei, embaixo da batata, acima do tornozelo, um arranhão e um ponto. Tive vontade de lhe dar uma bicuda, mas ele já estava a uma distância segura, na calçada do outro lado da rua. Olhei pro cara, que foi logo dizendo que não tinha nada a ver com aquele cachorro. “Cachorrinho safado, eu não tava nem olhando pra ele. O dono deve ser um pilantra” e o cara riu, sem graça. “Cê conhece o dono?” “Conheço”. “Sabe se é vacinado?” “É, sim.” Pela expressão dele, achei que ele tava mentindo, que o cachorro era dele. “O cachorro pega o caráter do dono”, arrematei. Não valia a pena confrontar o cara, já estava mordido, mesmo, nada ia mudar isso.
Chegando à casa do Jean, perguntei se tinha água oxigenada. Não tinha. Fui ao banheiro, lavei com sabão o arranhado, esfreguei bem. Depois, ficamos um tempo papeando, ele mostrava a Ravi seu material de trabalho, explicava como fazia e tal. Quando saímos, Ravi foi vender nos bares e eu fui pra casa. Como era tarde, tive que sair de Santa a pé e atravessei todo o centro do Rio, até chegar na praça XV, onde tem transporte pra Niterói, a noite toda. Levei mais umas duas hora pra chegar em casa.
Aí, fui tratar da ferida. A perna havia inchado, o arranhão estava preto e fundo, a inchação dava a ele o aspecto de uma boca sem dentes, meio sorrindo. Tomei um susto quando vi, “caraca”, e preparei uns emplastros de alho socado. Esquentei no vapor e pus em cima, três vezes. O preto foi saindo, a cada emplastro. Quando apareceu a cor da carne, passei uns óleos essenciais (lavanda, tea tree), fiz um curativo e fui dormir. Mas o tempo de demora tinha infiltrado mais fundo a infectação e eu tive muito trabalho com aquilo, a perna inchada, a ferida crescendo, enquanto superficializava e eu colocava emplastros de alho e folhas de saião, tomava extrato de própolis e mastigava uns dentes de alho, pra reforçar o sangue. O aspecto ficou assustador, mas eu já conhecia esse processo. Pra resumir, duas semanas mancando com dor, até reverter. Encarei como um expurgo, o momento na minha vida era agudo, emocional e afetivamente, e aquilo me pareceu parte do processo. Algo estava sendo posto pra fora, através daquela ferida.
A necessidade de produzir os desenhos, de aquarelar, pra expor e arrumar o sustento, tomava toda minha energia. Fiquei sem inspiração pra escrever. Trabalhava com a perna esticada num banco, pra doer menos, e só fazia o essencial. Era, mesmo, um momento especial, de reflexão na vida. Finalmente a ferida se superficializou de todo, agora já está na casca, embora ainda precise de cuidados, mas no caminho da solução. Já não dói tanto, só arde um pouco, quando faço mais esforço. Mas a perna desinchada mostra o final do processo. Olhei o blogue e me senti em falta. Por isso, inaugurei a seção “crônicas de estrada”, postando o “encontro com Adauto”, já escrito há algum tempo, na esperança de, um dia, editar um livro com essas histórias. Valeu a idéia, de vez em quando publicarei uma crônica dessas – tenho várias espalhadas em muitos cadernos, perdidos no meio das minhas bagunças ou sumidos pra sempre.
Aos que acompanham a evolução deste blogue, peço um pouco de paciência, pois ele não paga minhas contas e eu preciso me dedicar ao que me traz a merreca que eu ganho, ou seja, os desenhos, os “livrins” e outros babilaques. A web já me toma mais tempo do que eu posso, são vinte ou trinta imeios por dia e não gosto de deixar ninguém sem resposta.
Outro dia me perguntaram se eu tinha algum sonho pessoal, em termos materiais. Pensei um pouco e descobri qual é esse sonho: nunca mais me preocupar com as contas e poder fazer meu trabalho totalmente dedicado a ele. Diante da sociedade que me cerca, sinto uma enorme necessidade de trabalhar no que transformei em meu lema. Sensibilizar, esclarecer, conscientizar. Começando por mim mesmo e minhas grandes falhas internas. Assim, minha vida tem sentido.
Abraços a todos.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Crônica de estrada
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| Eduardo Marinho em uniforme de gala 1977 - Campinas, SP |
Chovia muito. Quase não dava pra ver o outro lado da rua. Entrei encharcado na rodoviária de Barra Mansa, calças arregaçadas, descalço, sandálias havaianas presas na cintura, pela corda que servia de cinto e prendia, do outro lado, um rolo de fio de “alpaca” – arame cor de prata, que eu usava pra escrever nomes em forma de broches. Bolsa de sisal atravessada do ombro, mochila média às costas, cabelos longos e barba rala, tudo pingando muito,subi as escadas que levavam ao patamar das bilheterias e parei ao reconhecer, de longe, entre as duas figuras destacadas de verde, um conhecido da escola militar. Paletó verde-oliva, botões dourados, camisa e gravata bege, duas estrelas em cada ombro. Um eu não conhecia, o outro fora meu colega de sala de aula e de setor na segunda companhia. Adauto. Encostei numa pilastra ao lado do fim da escada, sorrindo. Eu sabia que ele seguiria carreira. Imaginava toda a linha dos acontecimentos da vida dele. Terminara a escola que fazíamos, ingressara automaticamente na academia. Foi novamente bicho, calouro e veterano. Recebeu o espadim em solenidade e tornou-se aspirante a oficial, por seis meses, eu acho. Daí a segundo tenente, por alguns anos e, automaticamente, “promoção” a primeiro tenente. Aí, mais anos passariam até chegar a capitão. Depois disso, o critério das promoções deixa de ser automático, passa a ser “merecimento”, ou seja, relacionamentos, influências, “peixadas”.
Adauto ainda não me vira. Estava de lado, esperava o outro comprar as passagens no guichê. Eu, parado junto à escadaria que acabara de subir. De repente ele olhou direto pra mim- sem me reconhecer - mas, como estávamos distantes uns trinta metros, relanceou o olhar pro outro lado, em busca de algo perto dele que eu pudesse estar olhando. Não encontrando, olhou pra mim de novo, já começando a achar estranho. Ele tinha a mesma cara, acrescentando um bigodinho fino sobre o lábio; eu estava irreconhecível para ele. Minha vida, meus valores, minha visão de mundo, minhas buscas, ele não fazia a menor idéia de nada. Minha imagem, pra ele, eu sabia estranhíssima, descalço, cabeludo, pingando e encarando. Na terceira olhada ele já tinha franzido as sobrancelhas, quando chegou o outro tenente. Adauto falou algo perto do seu ouvido e os dois me olharam. Falaram entre si, pegaram suas bagagens e vieram na direção da escada, agora os dois me encarando. A tendência era a agressividade, mas o meu meio sorriso os desarmava. Quando passavam a dois metros de mim, soltei baixo e melódico “Adauto”... Ele deve ter tomado um choque, porque, com um pulo, agarrou meu braço, gritando “quem é você? QUEM É VOCÊ?” – “calma, Adauto”- “de onde você me conhece?”- “larga meu braço, Adauto” – “DE ONDE VOCÊ ME CONHECE?”- “vai me agredir, Adauto? Vai me prender?” Ele se recompôs, constrangido, largou meu braço “não, tudo bem, mas fala quem você é”. O outro tenente se colocara em posição de cortar uma rota de fuga, preferi não ver. “Sou o Marinho, da preparatória, lembra não?” Ele buscou nos arquivos mentais, ficou meio aturdido ao lembrar –“Marinho?”- mudou o tom pra estarrecido – “Marinho?!”- e, ao me olhar de cima a baixo, foi ficando penalizado –“Marinho!”. Sua expressão era a da mais profunda desolação – “meu Deus! O que aconteceu com você? Como é que você caiu nessa?”- eu continuava sorrindo, tranqüilo, ele demonstrava confusão –“morreu alguém da sua família?”- eu ria, abertamente, “não, não”- “foi mulher?”- gargalhei -“quê isso, cara, eu tô bem, tô legal!”- “ah, não tá, não. O que aconteceu com você? Como é que cê caiu nessa?”- “paga uma cerveja e eu te conto”- “eu pago, cê tem que me contar que que aconteceu.”
Fomos a um boteco em frente à rodoviária, Adauto e eu, o outro ficou. Sentados, com uma cerveja no meio, discorri para ele sobre minha trajetória até perceber que não me enquadraria de maneira formal na estrutura social. “Por que não seguiu carreira? Hoje seria um oficial do exército”, era sua questão. Eu lhe disse como encarava o papel dos militares na sociedade. Lembrei de como apontamos fuzis para uma multidão desarmada. Falei que os militares, com essa de não questionar ordens, não defendiam a população. Que as Forças Armadas eram usadas pra manter privilégios da minoria rica e reprimir qualquer revolta ou manifestação dos sabotados, da maioria. Ele não estava preparado. Não conseguia me encarar. Eu observava seus olhos inquietos procurando os debaixos das mesas, as laterais do boteco, enquanto eu falava no uso dos militares para servir aos interesses da minoria dominante. De como, em última análise, éramos jogados contra a população, espoliada das condições básicas de existência, a favor de uma concentração absurda das riquezas do país, gerando miséria, ignorância, sofrimentos sem conta para a maior parte. Adauto não chegou à metade do primeiro copo. Alegou estar em cima da hora, de repente, apertou rapidamente a minha mão e saiu sem pagar a cerveja. Eu fiquei olhando aquele jovem oficial, túnica verde-oliva, botões dourados, quepe na cabeça, atravessando a rua debaixo de chuva, em fuga.
Terminei a cerveja, paguei, fui ao andar de cima da rodoviária, comprei a passagem pro Rio e desci à plataforma do ônibus. Para minha surpresa, Adauto e seu colega estavam na fila do mesmo ônibus. Quando olhei uma segunda vez, Adauto havia sumido. Entrei na fila, no ônibus, sentei na poltrona. Quando o motor foi ligado para a partida, entrou o Adauto, passou por mim com um aceno e um sorriso amarelo e foi pro fundo do veículo.
Eu não havia dormido à noite, apaguei antes de chegar à estrada; quando acordei, na rodoviária do Rio, era o motorista que me sacudia –“chegou, chegou, rodoviária!”. Não havia mais ninguém no ônibus. Adauto tinha ido embora, com seu colega e sua confusão.
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| Eduardo e Brisa do Outono, com 6 meses. 1982 |
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A condução do querer
Até que ponto nossos valores e desejos são realmente nossos? Até que ponto é nossa própria consciência e sensibilidade que criam nossos planos e desejos, valores e razões para a existência? Somos bombardeados com valores impostos, pelo consciente, pelo inconsciente, pelo emocional, pelo ego, pelo sexo, pela vaidade, pelo instinto de disputa (resquício do animalismo ancestral) ou pela insegurança social (planejada e implantada na sociedade pelo controle do Estado e, sobretudo, através da publicidade e da mídia, que formam, enganam e narcotizam a opinião pública para dar à barbárie um aspecto de inevitável).
Foram desenvolvidas formas de criação, controle e condução do comportamento, da opinião e dos valores. Por acaso somos imunes ao assédio de televisão, rádio, out-doors, folhetos, jornais, revistas, veículos e todos os lugares e meios usados para criar desejos e influenciar o comportamento e a mentalidade humana?
Que cada um analise seus próprios valores, objetivos e opiniões sobre a realidade, procurando os fundamentos, as fontes, as razões e as motivações dos próprios desejos e encontrará aí induções e influências, evidentes ou sutis.
A sociedade é conseqüência do que somos, individualmente, dando forma ao coletivo. Não é possível se orgulhar de uma sociedade que ostenta tanta barbárie, miséria e ignorância; ilhas de fartura e ostentação, privilégios e desperdícios para poucos, em meio a um mar de pobreza, de lutas insanas e vidas difíceis. Uma grosseria, uma vergonha, uma insensibilidade, uma desumanidade. A maioria vive entre a ansiedade, a angústia e a miséria; entre a hipnose, a ignorância e as violências cotidianas.
É preciso questionar a sociedade, sua estrutura injusta, covarde, hipócrita e suicida, mas a partir de cada um de nós, dos nossos próprios condicionamentos. É preciso se questionar a si mesmo, para perceber como reproduzimos os comportamentos sociais induzidos, individualmente, nas nossas relações pessoais, em nossos valores, desejos e objetivos de vida. E o quanto perdemos com isso, no turbilhão de sentimentos em conflito, na adaptação da consciência, na qualidade da existência e nas relações com o mundo.
Eduardo Marinho
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Mensagem reescrita
Recebi uma mensagem com a comparação entre religião e espiritualidade. O remetente alegava desconhecer a autoria. Li todo o texto, aproveitei sua essência e o reescrevi, todo. A não ser pela frase "a religião é para os que dormem", todo o texto foi modificado e incluí uma introdução.
Tomei essa liberdade por minha conta, mesmo, por achar algumas colocações incompletas, outras precárias, outras equivocadas, algumas mal colocadas, enfim, procurei lapidar a mensagem, sem querer tirar onda de superioridade - pensando na recepção, na absorção e na compreensão.
Abraços a todos,
Eduardo.
Há centenas de religiões, cada uma se proclamando portadora da verdade e desqualificando as outras.
A espiritualidade é apenas uma, em exercício permanente e sem forma única.
A religião possui templos para louvores e adorações.
O templo da espiritualidade é o ser, o mundo, o universo.
A religião é para os que dormem.
A espiritualidade é para os que despertam.
A religião é para aqueles que necessitam de um código externo e precisam ser guiados.
A espiritualidade é para os que ouvem e praticam o embrião da consciência, a voz interior.
A religião é um conjunto de regras e dogmas, não admite questionamentos.
A espiritualidade te leva à reflexão, a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.
A religião ameaça, amedronta, impõe e cobra.
A espiritualidade procura, desenvolve, liga causas e conseqüência, serenamente.
A religião aponta pecados e declara culpas.
A espiritualidade aponta a ignorância e toma o sofrimento como ensinamento.
A religião reprime, condena e acusa.
A espiritualidade transcende, compreende e esclarece.
A religião inventa.
A espiritualidade descobre.
A religião determina formas.
A espiritualidade desenvolve conteúdos.
A religião não indaga, nem questiona.
A espiritualidade duvida, experimenta, observa e procura absorver..
A religião é crença.
A espiritualidade é busca.
A religião é humana, é uma organização com regras.
A espiritualidade é ligação e não tem regras.
A religião divide, secciona e discrimina.
A espiritualidade une, respeita e abraça.
A religião lhe busca para que acredite.
A espiritualidade, você precisa buscá-la.
A religião necessita do (e determina o que é) sagrado.
A espiritualidade busca o sagrado, em tudo.
A religião se alimenta do medo e da ignorância.
A espiritualidade se alimenta na busca e no desenvolvimento da consciência.
A religião se ocupa com fazer.
A espiritualidade se ocupa com ser.
A religião ensina a evitar o mal por medo do castigo e fazer o bem por interesse na recompensa.
A espiritualidade ensina que o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória.
A religião é adoração e temor.
A espiritualidade é reflexão e amor.
A religião tortura o presente com os valores do passado, ameaçando com castigos no futuro.
A espiritualidade vive o presente, levando em conta as lições do passado, fazendo o plantio do futuro.
A religião condena e encarcera a natureza.
A espiritualidade desenvolve a consciência para tratar com a natureza.
A religião manda crer na vida eterna.
A espiritualidade nos permite viver a eternidade da vida.
A religião promete o encontro com Deus depois da morte.
A espiritualidade busca o encontro com Deus dentro de nós mesmos, a cada momento.
A religião determina e inquieta.
A espiritualidade desabrocha e aquieta.
Religião é tirania espiritual.
Espiritualidade é consciência existencial.
Tomei essa liberdade por minha conta, mesmo, por achar algumas colocações incompletas, outras precárias, outras equivocadas, algumas mal colocadas, enfim, procurei lapidar a mensagem, sem querer tirar onda de superioridade - pensando na recepção, na absorção e na compreensão.
Abraços a todos,
Eduardo.
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| "Nascer" - óleo sobre tela, 53x68cm - Rio, maio/junho de 2000 |
Religião ou Espiritualidade
Há centenas de religiões, cada uma se proclamando portadora da verdade e desqualificando as outras.
A espiritualidade é apenas uma, em exercício permanente e sem forma única.
A religião possui templos para louvores e adorações.
O templo da espiritualidade é o ser, o mundo, o universo.
A religião é para os que dormem.
A espiritualidade é para os que despertam.
A religião é para aqueles que necessitam de um código externo e precisam ser guiados.
A espiritualidade é para os que ouvem e praticam o embrião da consciência, a voz interior.
A religião é um conjunto de regras e dogmas, não admite questionamentos.
A espiritualidade te leva à reflexão, a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.
A religião ameaça, amedronta, impõe e cobra.
A espiritualidade procura, desenvolve, liga causas e conseqüência, serenamente.
A religião aponta pecados e declara culpas.
A espiritualidade aponta a ignorância e toma o sofrimento como ensinamento.
A religião reprime, condena e acusa.
A espiritualidade transcende, compreende e esclarece.
A religião inventa.
A espiritualidade descobre.
A religião determina formas.
A espiritualidade desenvolve conteúdos.
A religião não indaga, nem questiona.
A espiritualidade duvida, experimenta, observa e procura absorver..
A religião é crença.
A espiritualidade é busca.
A religião é humana, é uma organização com regras.
A espiritualidade é ligação e não tem regras.
A religião divide, secciona e discrimina.
A espiritualidade une, respeita e abraça.
A religião lhe busca para que acredite.
A espiritualidade, você precisa buscá-la.
A religião necessita do (e determina o que é) sagrado.
A espiritualidade busca o sagrado, em tudo.
A religião se alimenta do medo e da ignorância.
A espiritualidade se alimenta na busca e no desenvolvimento da consciência.
A religião se ocupa com fazer.
A espiritualidade se ocupa com ser.
A religião ensina a evitar o mal por medo do castigo e fazer o bem por interesse na recompensa.
A espiritualidade ensina que o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória.
A religião é adoração e temor.
A espiritualidade é reflexão e amor.
A religião tortura o presente com os valores do passado, ameaçando com castigos no futuro.
A espiritualidade vive o presente, levando em conta as lições do passado, fazendo o plantio do futuro.
A religião condena e encarcera a natureza.
A espiritualidade desenvolve a consciência para tratar com a natureza.
A religião manda crer na vida eterna.
A espiritualidade nos permite viver a eternidade da vida.
A religião promete o encontro com Deus depois da morte.
A espiritualidade busca o encontro com Deus dentro de nós mesmos, a cada momento.
A religião determina e inquieta.
A espiritualidade desabrocha e aquieta.
Religião é tirania espiritual.
Espiritualidade é consciência existencial.
Correspondência com o primo.
Enviei o texto "Feliz Ano Novo..." ao primo Bosco. Ele vive em Mato Grosso e respondeu com uma pergunta. Respondi e depois, lendo o escrito, achei que devia postar aqui. Vejamos se vale.
ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº
ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº
Vou digitar uma frase desgastada pelo tempo: “CONCORDO COM VOCÊ EM GÊNERO, NÚMERO E GRAU". Agora pergunto: Tens alguma idéia para virar o sistema?
Um abraço, primão.
ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº
Olha, compade meu primo,
já me dá um trabalho danado retirar o sistema de dentro de mim mesmo. Por mais que eu viva diferente do padrão, procurando enxergar e não me deixar levar pelas sutilezas insinuantes dos falsos valores, falsas buscas e objetivos, encontro ecos no inconsciente que, às vezes, se manifestam. O trabalho de condicionamento, de esvaziamento da vida vem de longa data e tem raízes profundas em nosso inconsciente. A mídia não brinca em serviço e ataca desde a menor infância.
Não tenho a pretensão (ou ingenuidade) de "virar o sistema". Mas isso não me faz conformar com ele, muito menos aderir aos seus falsos valores, ou aceitar o que é apresentado como realidade. Isso seria, pra mim, a morte em vida. O processo é universal, tudo em constante mutação, nada estático, nem no micro, nem no macro. Faço questão de escolher como participar disso tudo, sem me deixar levar (ao menos, tão facilmente, sem reação). Daí essa minha necessidade de trabalhar nesse sentido, questionando, denunciando, propondo, pesquisando, divulgando. O sistema se sustenta porque nós todos consentimos. Eu, de minha parte, procuro retirar o meu consentimento. A partir daí, encontrei pessoas trabalhando neste mesmo sentido, de várias maneiras. É um grupo crescente de pessoas, sempre e ainda exceções à regra geral, que tem um outro brilho nos olhos, uma vibração pessoal diferente, uma abertura na mentalidade que as diferencia da maioria - que é tratada como gado humano, pela mídia e pelo Estado, conduzida em seus valores, objetivos, desejos e padrões de comportamento. Da mesma forma que levou tempo pra se formar essa estrutura social, leva tempo pra reformar, muitas gerações de instrução, de informação, de conscientização. Quem pretendeu mudar o mundo em uma vida, ou desistiu ou morreu cedo. Bem, acho que são duas formas de morrer.
Eu mesmo achei que não chegava aos trinta. Depois, com o tempo, percebi a toada e a parte que me cabe, o acorde momentâneo que é a minha vida. E coloquei meu trabalho a serviço dessa parte. Assim, a vida tomou cores e sabores que não existiam antes, quando a vida era sem gosto.
Abraço,
Eduardo.
ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº
ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº
Vou digitar uma frase desgastada pelo tempo: “CONCORDO COM VOCÊ EM GÊNERO, NÚMERO E GRAU". Agora pergunto: Tens alguma idéia para virar o sistema?
Um abraço, primão.
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Olha, compade meu primo,
já me dá um trabalho danado retirar o sistema de dentro de mim mesmo. Por mais que eu viva diferente do padrão, procurando enxergar e não me deixar levar pelas sutilezas insinuantes dos falsos valores, falsas buscas e objetivos, encontro ecos no inconsciente que, às vezes, se manifestam. O trabalho de condicionamento, de esvaziamento da vida vem de longa data e tem raízes profundas em nosso inconsciente. A mídia não brinca em serviço e ataca desde a menor infância.
Não tenho a pretensão (ou ingenuidade) de "virar o sistema". Mas isso não me faz conformar com ele, muito menos aderir aos seus falsos valores, ou aceitar o que é apresentado como realidade. Isso seria, pra mim, a morte em vida. O processo é universal, tudo em constante mutação, nada estático, nem no micro, nem no macro. Faço questão de escolher como participar disso tudo, sem me deixar levar (ao menos, tão facilmente, sem reação). Daí essa minha necessidade de trabalhar nesse sentido, questionando, denunciando, propondo, pesquisando, divulgando. O sistema se sustenta porque nós todos consentimos. Eu, de minha parte, procuro retirar o meu consentimento. A partir daí, encontrei pessoas trabalhando neste mesmo sentido, de várias maneiras. É um grupo crescente de pessoas, sempre e ainda exceções à regra geral, que tem um outro brilho nos olhos, uma vibração pessoal diferente, uma abertura na mentalidade que as diferencia da maioria - que é tratada como gado humano, pela mídia e pelo Estado, conduzida em seus valores, objetivos, desejos e padrões de comportamento. Da mesma forma que levou tempo pra se formar essa estrutura social, leva tempo pra reformar, muitas gerações de instrução, de informação, de conscientização. Quem pretendeu mudar o mundo em uma vida, ou desistiu ou morreu cedo. Bem, acho que são duas formas de morrer.
Eu mesmo achei que não chegava aos trinta. Depois, com o tempo, percebi a toada e a parte que me cabe, o acorde momentâneo que é a minha vida. E coloquei meu trabalho a serviço dessa parte. Assim, a vida tomou cores e sabores que não existiam antes, quando a vida era sem gosto.
Abraço,
Eduardo.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Feliz Ano Novo...
As pessoas sorriem, se congratulam, se despedem – "se eu não te encontrar até o ano que vem..." – como se estivesse, mesmo, acabando um “ano”, uma realidade, e começando outro “ano”, outra realidade. Uma fronteira, invisível, universal e falsa. O sentimento de que de agora em diante tudo vai melhorar é estimulado, impelido, aumentado. Esqueça o passado, olhe o futuro, tudo vai melhorar. Narcose coletiva. A mídia anuncia, festeja, faz retrospectivas, os jornalistas sorriem, os comentaristas, os especialistas – tudo vai mudar. Confraternize, comemore, veja o compacto do ano todo. O primeiro desabamento foi em Angra, 50 casas foram soterradas. Sobre a mansão que despencou da área de risco, sobre as 50 casas, não se fala. A secretaria local de meio ambiente havia vetado a construção, mas o governador mandou liberar – afinal, os donos eram um casal “global”, pra quem não vale a lei dos mortais comuns. Ouça esse mesmo governador atribuir às centenas de mortos e aos milhares de desabrigados a responsabilidade pela tragédia de abril no Rio de Janeiro. Nos morros onde um certo prefeito, odiado pela mídia e pela cúpula social, fez as obras de contenção, cumprindo a obrigação do poder público, não houve nada, não desceu nem um degrau de escada. Vai no Fogueteiro pra ver. São uns criminosos, esses governantes. E se não forem, a mídia ataca.
Quem manda, continua mandando; quem finge que manda, continua fingindo. O inimigo entra na sala e diz que te ama, que faz tudo pela tua felicidade. Atrai o teu marido. Afaga tua mulher. Faz bilu-bilu no bebê. Diverte as crianças. Distrai todo mundo e ocupa o maior espaço na casa, o mais visível. E te rouba o passado, o presente e o futuro, destrói a escola dos teus filhos, joga todo mundo contra todo mundo, droga e convence geral dos maiores absurdos. Mente e distorce a realidade e ai de quem não acredita. O próprio meio social se encarrega de discriminar e desqualificar os que não aceitam ser tratados como idiotas – ou gado humano. Narcose coletiva.
A polícia vai continuar violentando os pobres, os oficiais vão continuar maltratando os soldados. O transporte continuará consumindo um tempo enorme na vida das pessoas. Os professores, que deviam ser uma classe muito querida e próxima da população que lhes entrega os filhos ao preparo pra vida, seguirão sacrificados, com problemas nervosos, salários ridículos, estruturas precárias, verbas reduzidas. Não interessa o ensino público - se o povo percebe o que acontece, é revolução na certa. A mídia vai caprichar, cada vez mais, nas mentiras, nas implantações no inconsciente, na distorção. As empresas vão continuar poluindo, matando índios e pobres, corrompendo as administrações públicas em sociedade com a mídia, expulsando comunidades e camponeses.
Mas é ano novo, tudo vai mudar. Exerça, nessa época do ano, os sentimentos humanos, a solidariedade, a afabilidade, mas cuidado – são práticas muito perigosas. Assim que passar o período das festas, tranque de novo seus sentimentos pra só usar com a família e os conhecidos, e olhe lá. Sua raça, a humana, não merece confiança.
Depois que passarem as festas, volte pra sua gaiola construída com mentiras. Guarde os sentimentos no armário da angústia, eles são uma fantasia de uso rápido, de ocasião. Vista a angústia e, pra relaxar, consuma. Não confie em desconhecidos, dispute todas as migalhas, seu valor é seu preço – ou seu patrimônio. Acredite, mesmo, que tudo vai melhorar, por si só, sem precisar fazer nada. Que vai aparecer um herói e resolver toda a parada. Ignore essa gente na calçada, o mar de barracos na baixada, os meninos do tráfico, do vale tudo ou nada.
É criada uma sensação fortíssima de mudança, para que se mantenha tudo como está. Narcose coletiva.
Feliz ano novo. Sorria.
Quem manda, continua mandando; quem finge que manda, continua fingindo. O inimigo entra na sala e diz que te ama, que faz tudo pela tua felicidade. Atrai o teu marido. Afaga tua mulher. Faz bilu-bilu no bebê. Diverte as crianças. Distrai todo mundo e ocupa o maior espaço na casa, o mais visível. E te rouba o passado, o presente e o futuro, destrói a escola dos teus filhos, joga todo mundo contra todo mundo, droga e convence geral dos maiores absurdos. Mente e distorce a realidade e ai de quem não acredita. O próprio meio social se encarrega de discriminar e desqualificar os que não aceitam ser tratados como idiotas – ou gado humano. Narcose coletiva.
A polícia vai continuar violentando os pobres, os oficiais vão continuar maltratando os soldados. O transporte continuará consumindo um tempo enorme na vida das pessoas. Os professores, que deviam ser uma classe muito querida e próxima da população que lhes entrega os filhos ao preparo pra vida, seguirão sacrificados, com problemas nervosos, salários ridículos, estruturas precárias, verbas reduzidas. Não interessa o ensino público - se o povo percebe o que acontece, é revolução na certa. A mídia vai caprichar, cada vez mais, nas mentiras, nas implantações no inconsciente, na distorção. As empresas vão continuar poluindo, matando índios e pobres, corrompendo as administrações públicas em sociedade com a mídia, expulsando comunidades e camponeses.
Mas é ano novo, tudo vai mudar. Exerça, nessa época do ano, os sentimentos humanos, a solidariedade, a afabilidade, mas cuidado – são práticas muito perigosas. Assim que passar o período das festas, tranque de novo seus sentimentos pra só usar com a família e os conhecidos, e olhe lá. Sua raça, a humana, não merece confiança.
Depois que passarem as festas, volte pra sua gaiola construída com mentiras. Guarde os sentimentos no armário da angústia, eles são uma fantasia de uso rápido, de ocasião. Vista a angústia e, pra relaxar, consuma. Não confie em desconhecidos, dispute todas as migalhas, seu valor é seu preço – ou seu patrimônio. Acredite, mesmo, que tudo vai melhorar, por si só, sem precisar fazer nada. Que vai aparecer um herói e resolver toda a parada. Ignore essa gente na calçada, o mar de barracos na baixada, os meninos do tráfico, do vale tudo ou nada.
É criada uma sensação fortíssima de mudança, para que se mantenha tudo como está. Narcose coletiva.
Feliz ano novo. Sorria.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
domingo, 26 de dezembro de 2010
Entendendo a “estranheza”
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| É preciso que as pessoas educadas vivam junto aos mais pobres, é preciso ensinar aos oprimidos a não colaborarem com os opressores - Mohandas Gandhi |
Vi serem divididas comigo, quando andei no nível da mendicância, refeições paupérrimas. Fui abrigado no cantinho do casebre, dormi em capim fresco improvisado, sobre o chão batido. Ou pendurado nos caibros, em redes. Sob o teto precário de ruínas, casas abandonadas, construções, compartilhei comidas preparadas em latas quadradas de óleo, em fogueiras improvisadas. Em cidades, nos acostamentos e postos nas estradas. Fui hospedado em palafitas onde se ouve o barulho da merda batendo na água, quando se usa a “casinha”. Vi a parte abandonada dessa nossa humanidade, a parte enxotada dos benefícios da sociedade, escorraçada, roubada e ainda perseguida. E vi brotar na lama fétida, sobre a qual se construiu a estrutura social, o lírio lindo e perfumado da solidariedade, da generosidade, do altruísmo inacreditável que as dores implacáveis despertam. Eu não estava ali sofrendo por mim. Por mim, eu estava aprendendo avidamente, observando as vivências, ainda sem entender, mas sentindo, profundamente, o que nunca havia sentido. Sentindo o sentimento das pessoas, o sentimento dos lugares, o sentimento do mundo e da humanidade à qual pertenço. Absorvia os códigos, os valores, as fragilidades, os saberes e as sabedorias. Aprendi a admirar o heroísmo dos desprezados, aprendi a distingüir seu caráter, a individualizá-los. Reconheci enormes riquezas sob a capa da miséria. Sofri com as injustiças que nem os próprios miseráveis percebiam, embora as sofressem – e aprendi que era melhor esconder meu sofrimento. Os irmãos sacaneados são acusados por sua própria desgraça. As causas se esfumaçam no ar, com o controle do ensino e das comunicações, com o trabalho competente de publicitários, artistas, jornalistas, entre tantas profissões utilizadas contra a maioria, os povos, em favor de poucos.
Deve ser por isso que me causa tanto desconforto o uso, a presença, a proximidade ou a simples visão do luxo, da ostentação, de privilégios. Áreas privadas, seguranças, nobrezas, refinamentos, sofisticações, tudo passou a me parecer uma pantomima ridícula, primitiva, disfarces esfarrapados da nossa desumanidade, da indiferença que somos capazes, em nossa sede de privilégios e superioridades que denunciam a real inferioridade de espírito. Eu disse que me causa incômodo, não raiva. Meus sentimentos têm origem nas situações, não nas pessoas. Essas me causam uma certa tristeza, por inconscientes, por infantis, por superficiais, por iludidas.
Meu desconforto é moral, humano, pela ligação do luxo à miséria, pela inevitável relação do privilégio com a carência. Um sentimento que não se transfere às pessoas, mas às mentalidades, que não procura culpa, mas responsabilidades, nesta sociedade de miséria material e moral. Não é à toa a falta de sentido na vida da esmagadora maioria. Só os mais grosseiros podem se satisfazer com a abastança, com o usufruto, com o consumo. A insatisfação é clara.
Não espero encontrar meus sentimentos, pensamentos e opiniões em outras pessoas – embora, de raro em raro, aconteça. Se me desse ao trabalho e à arrogância de condenar valores e comportamentos dos quais discordo, viveria em conflitos pessoais, alimentaria sentimentos nocivos e desagradáveis e não teria tempo, nem espírito, para fazer os trabalhos que gosto e dão sentido à minha vida.
Não posso recomendar, nem pretendo voltar às situações de miséria material – onde, na verdade, nunca me senti, apesar dos anos e anos nestas situações. Mas não consigo ver valor no luxo, no excesso material, na ostentação e no desperdício. A ligação do valor material ao valor pessoal é de um primitivismo constrangedor. Expressões de insensibilidade, de sub-humanidade.
Fui considerado um cara estranho, incômodo ou simplesmente um chato, principalmente dos 15 aos 19 anos, no meio social de classe média-alta, onde nasci e vivi. Muitas vezes pensei que eu deveria ter alguma coisa errada, por ter vergonha do que os demais ostentavam com orgulho. Por questionar sentimentos de superioridade e tratamentos grosseiros contra serviçais e pobres em geral. Eu causava estranheza e me sentia estranho. Hoje, posso entender tranqüilamente e me dar razão, na minha pouca idade, com a vivência que hoje completa o 50º ano desse curso de vida. Entendo e me congratulo comigo mesmo quando, aos 19, depois de ter sido militar, bancário, estudante, mergulhador, vendedor, entre outras coisas, decidi “dedicar minha vida a refletir e causar reflexão, questionar valores vigentes e desenvolver meus próprios valores”, numa sociedade em que se fabricam, se impõem e se repetem pensamentos de laboratórios, para que ela seja como é. E saí pelo mundo, para experimentar o que era não ter nada e procurar o sentido de uma vida que, até então, não me parecia ter nenhum sentido. Mochila murcha nas costas, sem dinheiro nem paradeiro, sem parentes além da humanidade inteira.
Niterói, 26 de dezembro de 2010 Eduardo Marinho
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Carta a Santa Claus
Por Luis Sepúlveda
Estimado Santa Claus, Papai Noel, Bom Velhinho,
ou como queira chamar-se ou ser chamado.
Confesso que sempre lhe tive simpatia porque, em geral, me agrada a Escandinávia, sua roupa vermelha me dá um sentimento premonitório e porque, por trás dessas barbas sempre acreditei reconhecer um filósofo alemão que, a cada dia, tem mais razão no que afirmou, em vários livros muito citados, mas pouco lidos.
Não tema pelo teor desta carta, não sou o menino chileno que, há muitos anos lhe escreveu: “Velho safado, no ano passado te escrevi contando que, apesar de ir descalço e em jejum à escola, consegui tirar as melhores notas e que o único presente querido era uma bicicleta, sem querer que seja nova. Não teria que ser uma mountain bike, nem para correr o Tour de France. Queria uma bicicleta simples, sem marchas, para ajudar minha mãe a levar as roupas que ela busca, lava, passa e entrega. Isso era tudo, uma humilde bicicleta. Mas chegou o natal e eu ganhei uma estúpida corneta de plástico, brinquedo que guardei e te envio com esta carta, para que enfies no cu. Desejo que pegues AIDS, velho filho da puta”.
Foram seus elfos, os responsáveis por tão monstruoso desrespeito?
Pois bem, estimado Santa Claus, seguramente este ano receberá muitos pedidos de bicicletas, pois o único porvir que espera os meninos do mundo é como entregadores, mensageiros e trabalhos sem contrato de trabalho, condenados a distribuir pacotes e quinquilharias até os 67 anos de idade. No entanto, não lhe peço uma bicicleta. Peço, em troca, um esforço pedagógico, que ponha seus elfos, anões, duendes e renas para escrever milhões de cartas explicando o que são e onde estão os mercados.
Como você bem sabe, eles nos têm fodido a vida, rebaixado os salários, arrasado as pensões, retirado benefícios das aposentadorias e condenado as pessoas a trabalhar permanentemente, para tranqüilizar os mercados.
Os mercados têm nomes e rostos de pessoas. São um grupo integrado por menos de um por cento da humanidade, donos de 99% das riquezas. Os mercados são os integrantes dos conselhos de acionistas, como são acionistas, por exemplo, de um laboratório que se nega a renunciar aos royalties de uma série de medicamentos que, se fossem genéricos, salvariam milhões de vidas. Não o fazem porque essas vidas não são rentáveis. Mas a morte sim, é, e muito.
Os mercados são os acionistas das indústrias que engarrafam suco de laranja e que esperaram até que a União Européia anunciasse leis restritivas para os trabalhadores não comunitários, que serão obrigados a trabalhar na Espanha ou outro país da U.E., sob as regras de trabalho e condições salariais de seus países de origem. Logo que isto aconteceu, nas bolsas européias dispararam os preços da próxima colheita de laranja. Para os mercados, para todos e cada um destes acionistas, a justiça social não é rentável, mas a escravidão sim, e muito.
Os mercados são os acionistas de um banco que suspende o salário mínimo de uma mulher que tem o filho inválido. Para todos e cada um dos acionistas, gerentes e diretores dos departamentos, as razões humanitárias não são rentáveis. Mas os despojos, as expulsões da pobreza para a miséria sim, é. E muito. E para os ladrões de esperança, sejam de direita ou de direita – pois não há outra opção para os defensores do sistema responsável pela crise causada pelos mesmos mercados –, despojar da sua casa aquela senhora idosa foi um sinal para tranqüilizar os mercados.
Na Inglaterra, a alta criminosa das tarifas universitárias se fez para tranqüilizar os mercados. O descontentamento social levará a ações inevitáveis pela sobrevivência e os mercados pedirão sangue, mortes, para tranqüilizar seu apetite insaciável.
Que seus duendes e elfos expliquem, detalhadamente, que no meio desta crise econômica gerada pela voracidade especulativa dos mercados – e pela renúncia do Estado a controlar os vai-véns financeiros –, nenhum banco deixou de ganhar, nenhuma sociedade multinacional deixou de lucrar e até os economistas mais ortodoxos das teorias de mercado concordam em que o principal sintoma da crise é que os bancos e as empresas multinacionais lucram menos mas, em nenhum caso deixam de lucrar. Que os elfos e duendes expliquem até ficar claro que foi o mercado quem se opôs a (e conseguiu eliminar, financiando campanhas de legisladores a seu serviço - n do T) qualquer controle estatal às especulações, mas agora impõem que o Estado castigue os cidadãos com a diminuição dos seus rendimentos.
E, por último, permita-me pedir-lhe algo mais: milhares, milhões de bandeiras de combate, barricadas fortes, paralelepípedos maciços, máscaras anti-gases, e que a estrela de Belém se transforme numa série de cometas incandescentes com alvos fixos: as Bolsas, que queimem até os alicerces, pois as chamas dos formosos incêndios nos dariam, ainda que temporariamente, uma inesquecível Noite de Paz.
Muito fraternalmente
Fuente: Le Monde Diplomatique Tradução - Eduardo Marinho
Estimado Santa Claus, Papai Noel, Bom Velhinho,
ou como queira chamar-se ou ser chamado.
Confesso que sempre lhe tive simpatia porque, em geral, me agrada a Escandinávia, sua roupa vermelha me dá um sentimento premonitório e porque, por trás dessas barbas sempre acreditei reconhecer um filósofo alemão que, a cada dia, tem mais razão no que afirmou, em vários livros muito citados, mas pouco lidos.
Não tema pelo teor desta carta, não sou o menino chileno que, há muitos anos lhe escreveu: “Velho safado, no ano passado te escrevi contando que, apesar de ir descalço e em jejum à escola, consegui tirar as melhores notas e que o único presente querido era uma bicicleta, sem querer que seja nova. Não teria que ser uma mountain bike, nem para correr o Tour de France. Queria uma bicicleta simples, sem marchas, para ajudar minha mãe a levar as roupas que ela busca, lava, passa e entrega. Isso era tudo, uma humilde bicicleta. Mas chegou o natal e eu ganhei uma estúpida corneta de plástico, brinquedo que guardei e te envio com esta carta, para que enfies no cu. Desejo que pegues AIDS, velho filho da puta”.
Foram seus elfos, os responsáveis por tão monstruoso desrespeito?
Pois bem, estimado Santa Claus, seguramente este ano receberá muitos pedidos de bicicletas, pois o único porvir que espera os meninos do mundo é como entregadores, mensageiros e trabalhos sem contrato de trabalho, condenados a distribuir pacotes e quinquilharias até os 67 anos de idade. No entanto, não lhe peço uma bicicleta. Peço, em troca, um esforço pedagógico, que ponha seus elfos, anões, duendes e renas para escrever milhões de cartas explicando o que são e onde estão os mercados.
Como você bem sabe, eles nos têm fodido a vida, rebaixado os salários, arrasado as pensões, retirado benefícios das aposentadorias e condenado as pessoas a trabalhar permanentemente, para tranqüilizar os mercados.
Os mercados têm nomes e rostos de pessoas. São um grupo integrado por menos de um por cento da humanidade, donos de 99% das riquezas. Os mercados são os integrantes dos conselhos de acionistas, como são acionistas, por exemplo, de um laboratório que se nega a renunciar aos royalties de uma série de medicamentos que, se fossem genéricos, salvariam milhões de vidas. Não o fazem porque essas vidas não são rentáveis. Mas a morte sim, é, e muito.
Os mercados são os acionistas das indústrias que engarrafam suco de laranja e que esperaram até que a União Européia anunciasse leis restritivas para os trabalhadores não comunitários, que serão obrigados a trabalhar na Espanha ou outro país da U.E., sob as regras de trabalho e condições salariais de seus países de origem. Logo que isto aconteceu, nas bolsas européias dispararam os preços da próxima colheita de laranja. Para os mercados, para todos e cada um destes acionistas, a justiça social não é rentável, mas a escravidão sim, e muito.
Os mercados são os acionistas de um banco que suspende o salário mínimo de uma mulher que tem o filho inválido. Para todos e cada um dos acionistas, gerentes e diretores dos departamentos, as razões humanitárias não são rentáveis. Mas os despojos, as expulsões da pobreza para a miséria sim, é. E muito. E para os ladrões de esperança, sejam de direita ou de direita – pois não há outra opção para os defensores do sistema responsável pela crise causada pelos mesmos mercados –, despojar da sua casa aquela senhora idosa foi um sinal para tranqüilizar os mercados.
Na Inglaterra, a alta criminosa das tarifas universitárias se fez para tranqüilizar os mercados. O descontentamento social levará a ações inevitáveis pela sobrevivência e os mercados pedirão sangue, mortes, para tranqüilizar seu apetite insaciável.
Que seus duendes e elfos expliquem, detalhadamente, que no meio desta crise econômica gerada pela voracidade especulativa dos mercados – e pela renúncia do Estado a controlar os vai-véns financeiros –, nenhum banco deixou de ganhar, nenhuma sociedade multinacional deixou de lucrar e até os economistas mais ortodoxos das teorias de mercado concordam em que o principal sintoma da crise é que os bancos e as empresas multinacionais lucram menos mas, em nenhum caso deixam de lucrar. Que os elfos e duendes expliquem até ficar claro que foi o mercado quem se opôs a (e conseguiu eliminar, financiando campanhas de legisladores a seu serviço - n do T) qualquer controle estatal às especulações, mas agora impõem que o Estado castigue os cidadãos com a diminuição dos seus rendimentos.
E, por último, permita-me pedir-lhe algo mais: milhares, milhões de bandeiras de combate, barricadas fortes, paralelepípedos maciços, máscaras anti-gases, e que a estrela de Belém se transforme numa série de cometas incandescentes com alvos fixos: as Bolsas, que queimem até os alicerces, pois as chamas dos formosos incêndios nos dariam, ainda que temporariamente, uma inesquecível Noite de Paz.
Muito fraternalmente
Fuente: Le Monde Diplomatique Tradução - Eduardo Marinho
domingo, 19 de dezembro de 2010
A guerra das empresas contra os povos tem o Estado como exército e a mídia como porta-voz e formadora de opinião
A preocupação do poder visível (as marionetes políticas) é com as classes intermediárias, os que têm condições de ler jornal ou revistas, os que influenciam a opinião dos funcionários subalternos, imensa maioria sub-escolarizada e com poucas condições de se informar. Não uso o termo classe média porque me parece um bloco homogêneo que não corresponde à realidade. As classes intermediárias vão do gerente de loja ao diretor geral, passando por médicos, engenheiros, advogados, micros, pequenos e médios empresários e por aí vai. Esses recebem as informações pasteurizadas da grande mídia dominante, a privada.
O cenário preparado com a queima de carros, ações de barbárie devidamente registradas pela mídia, e exibidas à exaustão nos noticiários e boletins de emergência, em tons catastróficos, faz a ação de guerra tomar aspecto de necessidade urgente e esconde os interesses vários, por trás. A opinião pública é levada a acreditar que são legítimas as ações - criminosas em inúmeros sentidos - contra as populações excluídas dos benefícios da sociedade, das condições mínimas de existência digna, os mais pobres. Não duvido que a queima cinematográfica de carros e ônibus tenha sido decidida em salas luxuosas, com serviçais e ar condicionado, em áreas “nobres” e daí para os gabinetes políticos e para as gerências do tráfico, inclusive as celas dos presídios de segurança máxima, onde alguns fazem o papel de máximos do tráfico, no lugar dos seus patrões. Os soldados cumprem as ordens, sem perceber que selam seu próprio destino, ao chamar para si as forças da repressão, treinadas, preparadas e bem armadas. Não duvido da participação do comando da mídia, em todo o processo de planejamento, decisão e imposição ao poder marionete que, às vezes, negocia influências nas ações em benefício do seu próprio sistema de manutenção no poder, da estratégia de preparação do “clima” à execução das operações “salvadoras”, iniciando o processo.
Assisti, entre a dor e a revolta, a entrada violenta das forças armadas do Estado no Complexo do Alemão, a partir da vila Cruzeiro. Qualquer formação militar mínima deixa claras as falhas calculadas, a rota de fuga deixada aos soldados do tráfico justificando a invasão do miolo do Complexo, contando com a debandada pelos dutos de escorrimento da comunidade, pois prender tantos não era o objetivo das operações. No comando real, muito acima dos generais, prefeitos, governadores e secretários de segurança, sabe-se muito bem quantos são, como trabalham e que tipo de armamentos dispõem os funcionários de baixo escalão do tráfico, pois dali se comanda, além de instâncias do Estado, o chamado “crime organizado”- e também se influencia a mídia privada, claro, velha aliada dos vampiros e dos urubus da sociedade.
Não vou nem falar na vindoura milícia – e da facção aliada, o TCP, mais tarde –, já anunciada aos moto-taxistas e vanzeiros – que terão de pagar taxas para circular na área. O texto ficaria longo demais, não tenho dados objetivos. É só uma obviedade diante desse “mais do mesmo” e do que aconteceu em Parada de Lucas e Vigário Geral (ler o texto "A Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime", http://www.somostodospalestinos.blogspot.com/) Gostaria de estar enganado.
Território ocupado, situação “acalmada”, surgem as denúncias de crimes praticados pelas forças armadas, a “segurança pública”. Execuções sumárias, assassinatos a sangue frio, torturas, invasões de domicílio a granel, roubos, abusos sem conta. Para a população mais pobre, o Estado não finge. Mostra sua cara hedionda, com cifrões nos olhos injetados de sangue e dentes de vampiro. Alguns detalhes podem ser vistos na edição 404 do jornal Brasil de Fato (www.brasildefato.com.br), nas páginas 4 e 5. Nem se fosse o jornal inteiro caberiam todos os crimes e violações praticados por “nossas” forças de segurança contra as pessoas das comunidades. Nessas duas páginas, há um pequeno “souvenir”. Se para algumas pessoas das classes intermediárias isso parece exagero ou mentira, nas comunidades pobres ninguém estranha, todo mundo sabe, o desprezo e a agressividade do Estado são cotidianos, em todos os setores, educação, saúde, transporte, etc, não só o da segurança. Se alguém quiser informações reais a respeito, esqueça a mídia privada, os jornalões e as revistrolhas. Eles são funcionários de luxo dos reais donos do poder. As empresas contra o povo, que fica em situação análoga à barbárie (não tem situação análoga à escravidão?).
Depois da tempestade, começam os movimentos. As pessoas se procuram, se encontram, se abraçam, choram, riem. Contam os mortos, os feridos, os prejuízos, respiram fundo. Muitos se preparam pra um novo recomeço, a gente é calejada de tanto recomeço nessa vida. Adubar o chão de novo e recomeçar o plantio. E não há melhor adubo que a cultura, as cores e os sons, o diálogo da arte com a alma, uma arte dedicada a esse diálogo, com os sentimentos e os pensamentos, os valores e os desejos, com o ressurgimento da vida, da adaptação às novas condições, a cura das feridas da alma, mudando a forma e desenvolvendo o conteúdo. O 7º Circulando acontece nessa circunstância, o plantio em terra fértil, o estímulo à vida interna, à capacidade de resistência e superação. O grupo local, Raízes em Movimento , estava nas cabeças do evento (http://www.raizesemmovimento.blogspot.com/). Um evento desse é um renascer de vida impressionante, um sentimento de solidariedade no ar, um trocar de energias quase palpável. Há muito tempo, depois de uma noite de chuva no sertão, coisa rara, acordei para um dia lavado, um cheiro forte de terra, olhei a planície e me encantei. Uma porção de focos verdes salpicados, alguns pontos amarelos, outros vermelhos. Em uma noite de chuva a vida contida na falta de condições próprias explode com força. Cometi o erro de não ir. O convite chegou em cima, eu tinha outro compromisso. Só depois eu percebi que podia ter dispensado o compromisso, mas era tarde. Expus no 6º Circulando e foi ótimo, acho que o 7º foi de arrepiar, com a força da consternação e da afirmação de que a vida segue e nós vamos à frente pela transformação.
Dando ainda esse suspiro de alívio, fico sabendo da Vila Harmonia e Vila Recreio, despejadas ontem, brutalmente, pelas forças do Estado, tratores, casas derrubadas, violências, truculências... Meu Deus do céu! O estado mostra sua cara cachorra, feroz na defesa dos interesses dos seus poucos patrões, mesmo ao custo da desumanidade cometidas contra as coletividades mais fragilizadas da nossa sociedade. Uma vergonha pra todos nós, não vejo nenhuma exceção. Não falo em culpa, mas em responsabilidade. Mesmo que só possa assumir a minha, diante da minha coletividade e da minha consciência.
Já na quinta o Centro de Mídia Independente pedia o apoio às comunidades, denunciando os crimes da prefeitura (http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2010/12/482545.shtml). Na busca por registrar nas delegacias os crimes praticados, a recusa dos funcionários em fazer o registro, sintoma de operação orquestrada, sinal de interesses econômicos por trás. Diz a Mídia Independente:
“Ao se encaminharem para a 42ª DP, os moradores tiveram negado seu pedido de registro de ocorrência por parte dos inspetores de plantão. Alegaram eles que a Prefeitura deveria ter lá suas razões e seus direitos para proceder desta forma. Ainda nessa semana, um outro pedido de registro de ocorrência contra uma agressão direta do meliante Alex contra um morador da Vila Harmonia também foi negada pela equipe da 42ª DP.”
“Monstruosidade sem limites da Prefeitura do Rio: atacam à noite e passam a máquina com mobília e gente dentro e começam as ameaças de morte.”
“A Vila Recreio II, na Avenida das Américas, foi atacada mais uma vez na noite desta quarta-feira, 15/12/2010. Às 19h20 de hoje, o casebre do Sr. Luiz foi completamente destruído por uma retro-escavadeira com grande parte de sua mobília ainda lá dentro.”
“Cerca de quarenta homens da Guarda Municipal escoltaram um grupo de peões para fazer a derrubada da casa às margens da Avenida das Américas.”
“O clima é de tensão absoluta e já há moradores afirmando-se dispostos a morrer por causa de tanta injustiça e tão hedionda postura de agentes supostamente públicos.”
“Eis a lamentável resposta que tivemos ao encaminhar as denúncias para o "Fale Conosco", da Presidência da República:
‘Prezado Senhor
Em resposta a sua mensagem enviada ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, esclarecemos que o assunto apresentado é de competência da prefeitura municipal do Rio de Janeiro. Conforme determina nossa Constituição, o chefe do executivo federal não pode intervir nas questões administrativas dos municípios. Contamos com sua compreensão.
Cordialmente,
Claudio Soares Rocha
Diretoria de Documentação Histórica
Gabinete Pessoal do Presidente da República’”
Realmente, é de lamentar. Mais uma confirmação do seqüestro do aparelho estatal e público pelo poder econômico privado de algumas poucas famílias, estendidas pela elite e pela classe mais alta das grandes empresas, da mídia e da política, sacrificando a população em seu benefício. Então o Estado não pode se manifestar diante de violações flagrantes à sua constituição, por parte de poderes locais ou de qualquer outra maneira? Ora, essa é função constitucional do Estado.
E me vejo repetindo, mais uma vez...
Por isso, a educação pública não pode ensinar de verdade. Não é “descaso” ou “incompetência” dos políticos. É uma estratégia planejada de sabotagem do ensino. A ignorância é necessária à sustentação da estrutura estatal-privada. A mídia encontra as pessoas desarmadas de instrução, informação e senso crítico, impõe valores sociais e pessoais; cria sonhos e objetivos de vida ilusórios; distorce a realidade para que não se perceba as causas e os modos do que acontece; e estabelece sentimentos inconscientes de superioridade e inferioridade de acordo com os níveis de consumo, de propriedade, de riqueza e ostentação. A idéia de diversão foi vinculada ao consumo. Valor social foi vinculado ao consumo. Valor pessoal, valor afetivo, tudo vinculado a valor monetário, ao consumo, direta ou indiretamente.
Por isso não há interesse em acabar com a miséria. Ela serve pra manter os salários baixos, as pessoas se submetem a condições cada vez piores, pressionadas pela miséria ou pelo medo. O programa bolsa-esmola tem uma utilidade. Vai possibilitar a essas pessoas comerem mais próximo das suas necessidades fundamentais, adquirindo mais capacidades mentais e tendo a possibilidade de criar senso crítico, entender mais as coisas. Por isso é tão criticado na mídia. São milhões, muitos terão oportunidades antes impossíveis. O resto é tempo, trampo e multiplicação. A mídia, que deve dividir o seu reinado por milhões (os reais donos do espaço das comunicações, por direito), faz e fará de tudo para evitar e manter-se no controle.
Por isso os currículos escolares são tão interferidos, direcionados não à formação de seres humanos, cidadãos, membros de uma coletividade e frutos de um sistema natural vivo, mas à qualificação para competir no “mercado de trabalho”. Desumaniza-se. E as conseqüências se fazem sentir em todos os patamares da estrutura social. Quando não é a barbárie, é a pressão entre o consumo, o trabalho e as contas, a ameaça de desemprego ou de queda na renda, a vida angustiada, sem propósito, sem sentido, a carência afetiva, emocional, a falta de sentimento de integração, a ameaça permanente de violências de todo o tipo, da miséria, passando pela criminalidade, ao Estado e às grandes empresas. Tudo é “mercado” e o “mercado” tudo justifica.
Essa conotação da palavra "mercado" cria uma capa de invisibilidade para esconder a pequena minoria por trás de todos os poderes, pessoas com capacidade de interferência e pressão quase ilimitada, ligados a poderes externos, com enorme união de classe, que obtêm gigantescos lucros com a situação de barbárie progressiva em que a sociedade humana se encontra. Não conseguem, no entanto, total controle. Há sempre vazamentos, diferenças de comportamento, contestações, descontroles. Construímos estruturas internas e podemos interferir nas externas. É preciso humanizar a vida. Pra isso, a estrutura social deve mudar, a partir da multiplicidade de mudanças pulverizadas por toda a sociedade e já imunes a destruições planejadas.
Tomando consciência, enxergando além do que nos é mostrado, buscando as informações nos meios alternativos, descondicionando nossos comportamentos, nossos valores e objetivos de vida, corroemos o sistema. Criando solidariedade, desenvolvendo a sensibilidade, fazemos parte da construção descontrolada, do processo de iluminação e elevação do espírito humano e da sociedade, para construir uma estrutura justa e equilibrada, sem privilégios, ostentações, miséria e ignorância. Porque uma sociedade com miséria material, de um lado, denuncia a própria miséria moral, de outro. Nesse caso, a forma denuncia o conteúdo.
O cenário preparado com a queima de carros, ações de barbárie devidamente registradas pela mídia, e exibidas à exaustão nos noticiários e boletins de emergência, em tons catastróficos, faz a ação de guerra tomar aspecto de necessidade urgente e esconde os interesses vários, por trás. A opinião pública é levada a acreditar que são legítimas as ações - criminosas em inúmeros sentidos - contra as populações excluídas dos benefícios da sociedade, das condições mínimas de existência digna, os mais pobres. Não duvido que a queima cinematográfica de carros e ônibus tenha sido decidida em salas luxuosas, com serviçais e ar condicionado, em áreas “nobres” e daí para os gabinetes políticos e para as gerências do tráfico, inclusive as celas dos presídios de segurança máxima, onde alguns fazem o papel de máximos do tráfico, no lugar dos seus patrões. Os soldados cumprem as ordens, sem perceber que selam seu próprio destino, ao chamar para si as forças da repressão, treinadas, preparadas e bem armadas. Não duvido da participação do comando da mídia, em todo o processo de planejamento, decisão e imposição ao poder marionete que, às vezes, negocia influências nas ações em benefício do seu próprio sistema de manutenção no poder, da estratégia de preparação do “clima” à execução das operações “salvadoras”, iniciando o processo.
Assisti, entre a dor e a revolta, a entrada violenta das forças armadas do Estado no Complexo do Alemão, a partir da vila Cruzeiro. Qualquer formação militar mínima deixa claras as falhas calculadas, a rota de fuga deixada aos soldados do tráfico justificando a invasão do miolo do Complexo, contando com a debandada pelos dutos de escorrimento da comunidade, pois prender tantos não era o objetivo das operações. No comando real, muito acima dos generais, prefeitos, governadores e secretários de segurança, sabe-se muito bem quantos são, como trabalham e que tipo de armamentos dispõem os funcionários de baixo escalão do tráfico, pois dali se comanda, além de instâncias do Estado, o chamado “crime organizado”- e também se influencia a mídia privada, claro, velha aliada dos vampiros e dos urubus da sociedade.
Não vou nem falar na vindoura milícia – e da facção aliada, o TCP, mais tarde –, já anunciada aos moto-taxistas e vanzeiros – que terão de pagar taxas para circular na área. O texto ficaria longo demais, não tenho dados objetivos. É só uma obviedade diante desse “mais do mesmo” e do que aconteceu em Parada de Lucas e Vigário Geral (ler o texto "A Guerra do Rio – A farsa e a geopolítica do crime", http://www.somostodospalestinos.blogspot.com/) Gostaria de estar enganado.
Território ocupado, situação “acalmada”, surgem as denúncias de crimes praticados pelas forças armadas, a “segurança pública”. Execuções sumárias, assassinatos a sangue frio, torturas, invasões de domicílio a granel, roubos, abusos sem conta. Para a população mais pobre, o Estado não finge. Mostra sua cara hedionda, com cifrões nos olhos injetados de sangue e dentes de vampiro. Alguns detalhes podem ser vistos na edição 404 do jornal Brasil de Fato (www.brasildefato.com.br), nas páginas 4 e 5. Nem se fosse o jornal inteiro caberiam todos os crimes e violações praticados por “nossas” forças de segurança contra as pessoas das comunidades. Nessas duas páginas, há um pequeno “souvenir”. Se para algumas pessoas das classes intermediárias isso parece exagero ou mentira, nas comunidades pobres ninguém estranha, todo mundo sabe, o desprezo e a agressividade do Estado são cotidianos, em todos os setores, educação, saúde, transporte, etc, não só o da segurança. Se alguém quiser informações reais a respeito, esqueça a mídia privada, os jornalões e as revistrolhas. Eles são funcionários de luxo dos reais donos do poder. As empresas contra o povo, que fica em situação análoga à barbárie (não tem situação análoga à escravidão?).
Depois da tempestade, começam os movimentos. As pessoas se procuram, se encontram, se abraçam, choram, riem. Contam os mortos, os feridos, os prejuízos, respiram fundo. Muitos se preparam pra um novo recomeço, a gente é calejada de tanto recomeço nessa vida. Adubar o chão de novo e recomeçar o plantio. E não há melhor adubo que a cultura, as cores e os sons, o diálogo da arte com a alma, uma arte dedicada a esse diálogo, com os sentimentos e os pensamentos, os valores e os desejos, com o ressurgimento da vida, da adaptação às novas condições, a cura das feridas da alma, mudando a forma e desenvolvendo o conteúdo. O 7º Circulando acontece nessa circunstância, o plantio em terra fértil, o estímulo à vida interna, à capacidade de resistência e superação. O grupo local, Raízes em Movimento , estava nas cabeças do evento (http://www.raizesemmovimento.blogspot.com/). Um evento desse é um renascer de vida impressionante, um sentimento de solidariedade no ar, um trocar de energias quase palpável. Há muito tempo, depois de uma noite de chuva no sertão, coisa rara, acordei para um dia lavado, um cheiro forte de terra, olhei a planície e me encantei. Uma porção de focos verdes salpicados, alguns pontos amarelos, outros vermelhos. Em uma noite de chuva a vida contida na falta de condições próprias explode com força. Cometi o erro de não ir. O convite chegou em cima, eu tinha outro compromisso. Só depois eu percebi que podia ter dispensado o compromisso, mas era tarde. Expus no 6º Circulando e foi ótimo, acho que o 7º foi de arrepiar, com a força da consternação e da afirmação de que a vida segue e nós vamos à frente pela transformação.
Dando ainda esse suspiro de alívio, fico sabendo da Vila Harmonia e Vila Recreio, despejadas ontem, brutalmente, pelas forças do Estado, tratores, casas derrubadas, violências, truculências... Meu Deus do céu! O estado mostra sua cara cachorra, feroz na defesa dos interesses dos seus poucos patrões, mesmo ao custo da desumanidade cometidas contra as coletividades mais fragilizadas da nossa sociedade. Uma vergonha pra todos nós, não vejo nenhuma exceção. Não falo em culpa, mas em responsabilidade. Mesmo que só possa assumir a minha, diante da minha coletividade e da minha consciência.
Já na quinta o Centro de Mídia Independente pedia o apoio às comunidades, denunciando os crimes da prefeitura (http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2010/12/482545.shtml). Na busca por registrar nas delegacias os crimes praticados, a recusa dos funcionários em fazer o registro, sintoma de operação orquestrada, sinal de interesses econômicos por trás. Diz a Mídia Independente:
“Ao se encaminharem para a 42ª DP, os moradores tiveram negado seu pedido de registro de ocorrência por parte dos inspetores de plantão. Alegaram eles que a Prefeitura deveria ter lá suas razões e seus direitos para proceder desta forma. Ainda nessa semana, um outro pedido de registro de ocorrência contra uma agressão direta do meliante Alex contra um morador da Vila Harmonia também foi negada pela equipe da 42ª DP.”
“Monstruosidade sem limites da Prefeitura do Rio: atacam à noite e passam a máquina com mobília e gente dentro e começam as ameaças de morte.”
“A Vila Recreio II, na Avenida das Américas, foi atacada mais uma vez na noite desta quarta-feira, 15/12/2010. Às 19h20 de hoje, o casebre do Sr. Luiz foi completamente destruído por uma retro-escavadeira com grande parte de sua mobília ainda lá dentro.”
“Cerca de quarenta homens da Guarda Municipal escoltaram um grupo de peões para fazer a derrubada da casa às margens da Avenida das Américas.”
“O clima é de tensão absoluta e já há moradores afirmando-se dispostos a morrer por causa de tanta injustiça e tão hedionda postura de agentes supostamente públicos.”
“Eis a lamentável resposta que tivemos ao encaminhar as denúncias para o "Fale Conosco", da Presidência da República:
‘Prezado Senhor
Em resposta a sua mensagem enviada ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, esclarecemos que o assunto apresentado é de competência da prefeitura municipal do Rio de Janeiro. Conforme determina nossa Constituição, o chefe do executivo federal não pode intervir nas questões administrativas dos municípios. Contamos com sua compreensão.
Cordialmente,
Claudio Soares Rocha
Diretoria de Documentação Histórica
Gabinete Pessoal do Presidente da República’”
Realmente, é de lamentar. Mais uma confirmação do seqüestro do aparelho estatal e público pelo poder econômico privado de algumas poucas famílias, estendidas pela elite e pela classe mais alta das grandes empresas, da mídia e da política, sacrificando a população em seu benefício. Então o Estado não pode se manifestar diante de violações flagrantes à sua constituição, por parte de poderes locais ou de qualquer outra maneira? Ora, essa é função constitucional do Estado.
E me vejo repetindo, mais uma vez...
Por isso, a educação pública não pode ensinar de verdade. Não é “descaso” ou “incompetência” dos políticos. É uma estratégia planejada de sabotagem do ensino. A ignorância é necessária à sustentação da estrutura estatal-privada. A mídia encontra as pessoas desarmadas de instrução, informação e senso crítico, impõe valores sociais e pessoais; cria sonhos e objetivos de vida ilusórios; distorce a realidade para que não se perceba as causas e os modos do que acontece; e estabelece sentimentos inconscientes de superioridade e inferioridade de acordo com os níveis de consumo, de propriedade, de riqueza e ostentação. A idéia de diversão foi vinculada ao consumo. Valor social foi vinculado ao consumo. Valor pessoal, valor afetivo, tudo vinculado a valor monetário, ao consumo, direta ou indiretamente.
Por isso não há interesse em acabar com a miséria. Ela serve pra manter os salários baixos, as pessoas se submetem a condições cada vez piores, pressionadas pela miséria ou pelo medo. O programa bolsa-esmola tem uma utilidade. Vai possibilitar a essas pessoas comerem mais próximo das suas necessidades fundamentais, adquirindo mais capacidades mentais e tendo a possibilidade de criar senso crítico, entender mais as coisas. Por isso é tão criticado na mídia. São milhões, muitos terão oportunidades antes impossíveis. O resto é tempo, trampo e multiplicação. A mídia, que deve dividir o seu reinado por milhões (os reais donos do espaço das comunicações, por direito), faz e fará de tudo para evitar e manter-se no controle.
Por isso os currículos escolares são tão interferidos, direcionados não à formação de seres humanos, cidadãos, membros de uma coletividade e frutos de um sistema natural vivo, mas à qualificação para competir no “mercado de trabalho”. Desumaniza-se. E as conseqüências se fazem sentir em todos os patamares da estrutura social. Quando não é a barbárie, é a pressão entre o consumo, o trabalho e as contas, a ameaça de desemprego ou de queda na renda, a vida angustiada, sem propósito, sem sentido, a carência afetiva, emocional, a falta de sentimento de integração, a ameaça permanente de violências de todo o tipo, da miséria, passando pela criminalidade, ao Estado e às grandes empresas. Tudo é “mercado” e o “mercado” tudo justifica.
Essa conotação da palavra "mercado" cria uma capa de invisibilidade para esconder a pequena minoria por trás de todos os poderes, pessoas com capacidade de interferência e pressão quase ilimitada, ligados a poderes externos, com enorme união de classe, que obtêm gigantescos lucros com a situação de barbárie progressiva em que a sociedade humana se encontra. Não conseguem, no entanto, total controle. Há sempre vazamentos, diferenças de comportamento, contestações, descontroles. Construímos estruturas internas e podemos interferir nas externas. É preciso humanizar a vida. Pra isso, a estrutura social deve mudar, a partir da multiplicidade de mudanças pulverizadas por toda a sociedade e já imunes a destruições planejadas.
Tomando consciência, enxergando além do que nos é mostrado, buscando as informações nos meios alternativos, descondicionando nossos comportamentos, nossos valores e objetivos de vida, corroemos o sistema. Criando solidariedade, desenvolvendo a sensibilidade, fazemos parte da construção descontrolada, do processo de iluminação e elevação do espírito humano e da sociedade, para construir uma estrutura justa e equilibrada, sem privilégios, ostentações, miséria e ignorância. Porque uma sociedade com miséria material, de um lado, denuncia a própria miséria moral, de outro. Nesse caso, a forma denuncia o conteúdo.
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