terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Chegando à Serra da Moeda

      (No livro, o título desse capítulo é Do Alto da Serra.)


      Do alto da serra, eu contemplava a paisagem, recortada entre tonalidades de verde e salpicada de casinhas solitárias ou em pequenos grupos. Descansava da subida pela estradinha sinuosa numa grande pedra, dois carros haviam passado sem me dar a carona que eu pedia, foram coisa de três horas de caminhada, até o topo. Antes de começar a descer, resolvi parar. Subi por umas pedras ao lado da estrada e alcancei a plataforma, de frente pro outro lado da serra, onde eu desceria. Sabia que elas estavam por ali. Afinal, depois de dois meses de procura e quatro de ausência, estava perto de encontrar. A fazenda Mãe D’água era uma daquelas, lá embaixo. Sentei na pedra, olhar solene sobre a paisagem até o horizonte montanhoso, o silêncio continha o murmúrio do vento frio. A expectativa do encontro me dava estranhas sensações, misturadas com as memórias da viagem. Quatro meses, Brisa devia ter crescido bastante, eu quase morria de saudades, meus olhos enchiam de lágrimas ao lembrar da falta que eu sentia, atordoante, em alguns momentos. Agora as lágrimas continham alegria. Eu estava chegando. Não conhecia o lugar, nunca andara por ali, estava chegando por indicações. E se não as encontrasse? E se as informações estivessem erradas ou elas já tivessem ido embora, como em Vitória?
      Não fosse o marroquino e talvez eu as tivesse encontrado em Salvador ainda, onde eu as tinha deixado, quando saí pra estrada, fugindo das brigas que se agravavam a cada dia. Saí no rumo norte, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa. A ferida no pé me obrigou a parar na Paraíba. Mergulhei o pé no mar, dei um tempo pra amolecer, depois esfreguei com força, pra tirar os tecidos mortos, reavivando a ferida, mas retirando o que já estava podre. Depois, deitei na varanda de uma casa aparentemente abandonada, vidros quebrados, folhas secas cobrindo o chão, muita poeira, pus o pé sobre a mochila pra esperar a dor passar. Aí o “acaso” me enviou Marisa, médica que, sem saber porquê, me vira ali, de longe, e resolvera me abordar e perguntar qual era o problema. Demorei a responder, achando que ela viera me mandar sair da casa. Ela entrara no terreno, eu fingi que dormia, “psiu!” e eu de olhos fechados, pensando pronto, já vieram reclamar da minha presença, esperei que fosse embora, mas ela insistia, “ei, moço, dá licença?” Não deu certo. Levantei a mão, a palma virada pra ela, “já vou sair, só entrei pra descansar um pouco”, “não, eu não vim pedir pra sair, não tenho nada a ver com essa casa”. Ela queria saber do meu pé. Conversamos, eu não queria ir pra hospital nenhum, ela insistia. “Eles não respeitam gente como eu”, “não, eu conheço todo mundo lá, é um hospital universitário, garanto que vão te tratar com respeito”.
      Eu demorei a acreditar, mas a situação me obrigava a ir, a ferida já tinha mais de um mês, piorava nos períodos de estrada, quando chegava ao litoral metia o pé na água salgada, e limpava a inflamação, abrindo mais o buraco no dedão. Depois, ia pra estrada, e aí piorava de novo. Inchava a perna, ficava difícil caminhar e eu mancava. No hospital, falaram em amputar e eu ameacei os quatro acadêmicos de morte. Se cortassem meu corpo, seria melhor cortar o pescoço, porque se eu ficasse vivo iria buscar um por um, “no inferno”, se precisasse. Marisa interferia pra evitar o conflito, pedia por mim aos acadêmicos, eles confabularam e resolveram fazer uma cauterização. O cheiro de carne queimada tomou o ambiente, a dor era enorme, a anestesia não pegava, por mais que eles aplicassem. Suportei pensando que era pra não perder o dedo ou o pé. Quinze dias depois eu estava em Canoa Quebrada, a quase mil quilômetros dali, com o pé pronto pra outra.
      Ali conheci o marroquino, que falava espanhol com sotaque francês e isso dificultava sua comunicação, era difícil entender o que ele falava. Mas pra mim, parecia fácil, eu entendia tudo e conversava com ele sempre, tocávamos violão juntos, improvisando com bastante harmonia. Ele pretendia chegar ao Uruguai. Vinha de Guadalupe, onde morou por um tempo. Conhecera uma uruguaia em férias, tiveram um romance e marcaram de se encontrar no Uruguai. Ela fora de avião; ele tomara um barco até Belém e seguia de carona, aos poucos. Soube que eu iria pra Salvador, a saudade estava se tornando insuportável, queria ver minha filha. Pediu pra viajar comigo, alegando dificuldade em se comunicar. Eu sabia que dois na estrada seria muito mais difícil conseguir carona, mas topei ir com ele. Pra que...
      Foi quase um mês de viagem, de Canoa a Salvador, dormindo nos acostamentos, nos postos, abrigados em celeiros, em garagens, pendurados em árvores, nas nossas redes. Acomodado na sua dificuldade de comunicação, ele deixava todos os problemas serem resolvidos por mim. Chegando em Salvador, fomos direto a Mar Grande, na ilha, onde deixara Brisa e a mãe na casa em que morávamos. A casa havia se tornado alojamento da Sucam, o funcionário não sabia nada sobre as duas. Procurei pela vizinhança, soube que haviam viajado duas semanas antes. Pra onde, ninguém sabia. Voltamos a Salvador, para procurar outros amigos, em busca de alguma informação que indicasse o paradeiro. Ali, de repente, Freddy – era o nome do marroquino – me pergunta “sabe onde podemos trocar uns dólares?” Olhei pra ele, estarrecido. “Dólar? Você tem dólar? Esse tempo todo perdido na estrada, eu tendo que arranjar o que comer, onde dormir, carona, tudo, e você tem dólar!?” Ele ficou sem jeito, “são poucos, tenho que guardar pra chegar no Uruguai...” Filho da puta, ele sabia de tudo, eu chorava de saudades, contava pra ele, falava da minha filha. “Cara, viajar contigo me atrasou, esse tempo todo na estrada, perdi minha família de vista muito por sua causa e agora cê vem me dizer que tem dólar?” Eu estava furioso.Ele recebeu minha fúria, sem responder, o olhar envergonhado.“Sei onde trocar, sim”, eu disse, finalmente. Fomos a uma funerária, na praça da Sé, onde um gordo trocava dólares pelo preço do dia no jornal. Trocamos 50 dólares, dei as notas a ele, contei o dinheiro de volta, na frente do marroquino, duas vezes. Na segunda, mostrei a ele que estava pegando a metade. Ele esboçou reação, mas fui bem decidido, tava no meu direito, fora guia, tradutor e responsável por ele. Em troca, cheguei tarde demais. Se não estivesse satisfeito, que fosse embora, aquele dinheiro era meu e ponto final. Com ele eu poderia me dedicar a procurar minha filha sem perder tempo com as coisas da sobrevivência. Ele acabou concordando e continuamos parceiros.
      A notícia mais plausível era a de que as duas tinham viajado para o Espírito Santo. Tudo na base do “eu acho”, “me parece”, “tenho a impressão”. Mas fazia sentido, a família de origem da mãe era de lá, ela dependia do meu trabalho e não soube se virar pra sobreviver em Salvador. Fora tentar uma carona de avião, era a última notícia, depois elas não foram mais vistas. “Devem ter conseguido”, imaginei. Alguém mencionou, “eu acho que ela tava grávida”, mas eu rechacei de imediato. A velha tendência em ver a realidade da forma que desejamos que ela seja. Simplesmente apaguei a informação da minha mente. E fui pra estrada, na direção de Vitória. Freddy resolveu ficar em Salvador – e se não resolvesse eu o teria dispensado, pra viajar sozinho. Aquela dos dólares tinha sido demais. E eu não queria mais encosto, viajar só era mais rápido.
      No Espírito Santo, consegui mais notícias. Elas haviam estado por ali, mas a mãe se desentendera com o pai dela e com as irmãs e fora embora. Alguns dias depois, enviara pra irmã mais velha um número de caixa postal em Belo Horizonte, dizendo que estava numa fazenda tipo comunidade, no interior de Minas Gerais. Não disse onde – e Minas tem mais de seiscentas cidades. Escrevi para a caixa postal, esperei quinze dias e nada. O que sabia era que a fazenda, “Mãe D’água”, vendia produtos em lojas naturais da capital, mel, pão integral, essas coisas. Fui pra lá.
      Fiz uma romaria pelos naturais de BH, até encontrar indicações de onde era a tal comunidade. Vagas indicações, com muitos erros, como pude constatar na procura. Saí da cidade na madrugada, clareando o dia consegui uma carona num carro com dois casais jovens como eu. Contei minha história pra eles, ia completar dois meses procurando minha família, depois de outros dois viajando a esmo, pelo nordeste. Eles se encantaram com a história e assumiram a procura. A informação era de que a saída pra fazenda era antes do trevo de Ouro Preto, pela BR-040, à esquerda, atrás de uma churrascaria. E que havia uma grande placa indicativa. Entramos em todos os postos à esquerda da estrada, até chegar o trevo, e nada. Chegávamos ao trevo e me perguntaram, “e agora?” “Agora, cês me deixam aí no trevo e seguem viagem, que eu me viro”. “Ah, não, nós queremos saber o fim da história”, a resposta foi unânime. Pra eles, parecia que o fim da história era descobrir onde era a tal fazenda. “Então pára perto desse capiau aí”, o cara caminhava pelo acostamento, enxada no ombro, uma grande sacola de pano pendurada do outro lado. O carro parou ao lado dele, “ei, amigo, sabe onde é a fazenda Mãe D’água?”, o lavrador só balançou a cabeça, negativamente. Interferi, “compade, é uma gente colorida, de cabelo comprido, cria abelha, faz pão, várias pessoas morando juntas...” Os olhos dele foram se iluminando, ele disse “ah, é a fazenda dos hippies”, e todos riram, “fica mais pra frente meia légua, tem uma praquinha redonda ansim, do lado de uma abertura na cerca, é só seguir a estradinha morro acima”. A entrada era três quilômetros depois, à direita, pequenininha, longe de qualquer churrascaria ou mesmo construção. Não tinha nada além de uma plaquinha redonda, com uma flor de lótus no meio e escrito "Comunidade dos Sarvas - Fazenda Mãe d'Água". E a estradinha que sumia na direção da serra da Moeda. Ali nos despedimos, pra eles era o fim da história.
      Agora eu olhava a paisagem, imaginava em qual grupo de casas elas estariam. Olhava até o horizonte e revivia toda a procura, estava chegando, iria ver minha filhinha, que saudade. Havia rechaçado a suspeita de gravidez com violência, “tá maluco, rapaz, a gente nem trepava mais!” Era verdade. Aliás, meia verdade. Eu lembrava de uma noite... Não, não era possível. Era, mas eu não queria que fosse. Será? A gravidez de Adhara já ia pelo quinto mês. E eu não sabia.
      O suor havia secado, vesti a camisa, levantei. Coloquei a mochila, peguei a rede enrolada, o violão, pendurei tudo nos ombros. Dei uma última olhada naquela beleza toda, voltei pra estrada e comecei a descer a serra.
      
(Pra adquirir o livro, pedir pelo arteutil.em@gmail.com, direto comigo - ou pelas virtuais livrarias já listadas pelo Rodrigo, o editor na Navilouca - só uma editora com esse nome, mesmo, pra publicar meus escritos)

9 comentários:

  1. Maravilhoso, os dois capítulos, de uma clareza e simplicidade fora do comum, simplicidade essa atingida por pouquíssimos narradores... Talvez essa sua forma simples de escrever seja reflexo de todos esses contratempos narrados acima, reflexo de alguém que largou tudo para saber o que era não ter nada, alguém que se absteve dos excessos para poder reconhecer o essencial, que andou no caminho da simplicidade por escolha própria.
    Não to querendo 'endeusar' ninguém, mas humildemente, eu sou seu fã. Fã da sua simplicidade, da sua linha de raciocínio que transcende o egoísmo humano. Parabéns pelo ser humano que você é. HUMANO, acima de tudo.
    Peço sua autorização para postar esses dois capítulos na sua fan page no facebeck. Máximo respeito, Erik matins.

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  2. Eduardo,

    Terminei o seu livro. Muito bacana, parabéns ! Vá pensando em outro. E dessa vez eu vou para o lançamento, seja lá onde for, seja lá quando for !
    O primeiro comentário acima resume bem o que eu também sinto.
    Aquela crônica sobre o Dia do Trabalhador (pág 89), vou colocar no meu blog dia 01 de maio, citando a fonte, é claro.
    forte abraço, e agradeço mais uma vez por você compartilhar conosco seus caminhos nessa vida. Seu livro mexeu muito com a minha cabeça e não consigo ficar parado sem discutir muito do que você ali colocou com as pessoas com quem convivo...


    José Rosa.

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  3. Eai como vai?

    Muito bom mesmo o blog hein, irei aproveitar muito tempo aqui!! Dos poucos que li gostei muito da publicação ''A meu pai'', estou começando a ler ainda, mas já tive boa impressão. Nos ''conhecemos'' na rua de Maringá, levamos o cartaz do Gandhi se lembra?

    Boa sorte por aí, mais pra frente vou pedir um livro seu. Se quiser visitar o blog aqui vai: pontossdevista.blogspot.com

    Fica na paz.

    Abraço,

    Guilherme

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  4. Olá Mahatma Eduardo que tanto me inspira.
    Nunca mais postei mas não por isso deixei de acompanhar. Todavia, em se tratando dos últimos dias nem mesmo acompanhei por força dos estudos, o que acompanhar aqui também não deixa de ser um estudo. Bom, mas tenho a dizer que continue assim, use mais os meios como vídeos, para espalhar todo o seu ânimo que é o mesmo do de muitos que estão por aí surgindo.

    Bom, mas não vim aqui só pra isso. Estou lendo um livro da faculdade que imediatamente me fez lembrar de você e de suas ideias. Não sei se conhece mais você tem que lêr cara, chama-se "O que é uma Constituição" de Ferdinand Lassale, é um clássico jurídico sem rebuscamentos linguísticos, que vai direto ao ponto e que alerta para os "fatores reais do poder". Bom, isso é o alardear do Direito Alternativo, do Neoconstitucionalismo que se espalha em mim e você.

    Veja se baixa esse livro, e aproveita logo antes que a investida contra a internet venha a derrubar os sites que disponibilizam a possibilidade de se ter chances a melhorar as percepções.

    Um grande abraço. Continuo vivo, só não postei mais. rsrs
    Se cuida grande homem, estou sempre a te acompanhar.

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    1. Mahatma de cu é rola, rapá. Sou baixaria demais pra tamanho conceito. Pára com isso.
      O tal do Lassale deve ser um respiro num curso de direito, não? O nome é que não recomenda. Mas isso é só preconceito meu.
      Boa idéia essa de baixar o livro. Vou conversar com o Rodrigo, editor.
      Grande abraço,
      Eduardo.

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    2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Ta bom louco. rsrs
      Que nada, o curso de direito é cheio de brechas cara. E de angústias tbm. Ainda bem que tem gnt boa pra tentar melhorar a situação, imagina se o Poder fosse só coisa ruim? A estrutura ruiria pq as pessoas questionariam mais e mais. Ainda bem que tem gnt mudando, se esforçando, dentro de burocracia, pra mudar ele. Recomendo a você que veja a força que tem o Direito Alternativo, sobretudo o trabalho dos sulistas: estadodedireito.com.br, é um jornal com apoio da ONU inclusive.

      Todos temos preconceitos, somos humanos. Uns mais outros menos. Besteira. Mas o conteúdo.
      Felicidades aí, continue ai com força. E grave vídeos, CONTAGIO HUMANO.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. caracas estou muito afim de ler este livro seu .. já muito tempo venho acompanhando
    este seu ''trabalho''tevo ter uns 3 ou 4 anos.. gosto muito da suas ideias cara ! Gostaria de te trombar.. mais daqui de sampa osso .. hehe . Enfim qual é o custo do livro ?

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