terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Livro "Crônicas e Pontos de Vista"

Durante a composição do livro, Rodrigo Rosa, o editor, me pediu pra fazer um texto homenageando alguém que eu admirasse, dedicando o livro. Eu disse que não queria fazer isso, não via porque dedicar o livro a ninguém além das pessoas que o lessem. Ele insistiu, disse que não precisava ser ninguém vivo e aí eu lembrei do meu pai, da nossa história inacabada, interrompida por sua morte inesperada. Então fiz o texto, que foi colocado na abertura do livro. 

A meu pai

Senti a dor que lhe impus. Lamentei cada fração dessa dor. Ninguém acreditou. Eu me tornei o agressor, o ingrato, aquele que desprezou todos os esforços feitos em meu próprio benefício. Um traidor da família.

Lamentei cada grão da dor que minhas atitudes provocaram. Ninguém viu, ninguém sabe, ninguém acredita. Durante muito tempo, minha família de origem deixou de existir em minha vida, eu deixei de existir na vida dela. Creio que em meu pai a dor foi mais profunda, pelas projeções a meu respeito que ele viu desmoronar.

Ah, meu pai! Esperei, na certeza de um dia você entender que foi minha busca por justiça, minha inconformação com a situação absurda da nossa sociedade, o que moveu minhas atitudes, depois de várias tentativas de me enquadrar em alguma posição convencional – apenas para não ferir, pois tais conquistas já não me empolgavam, ao contrário, me pareciam uma espécie de rendição, de conformação, de injustiça.

Quando soube da sua morte, tive o sentimento de que o nosso abraço tinha sido adiado, "agora só quando eu chegar do outro lado, também”. Lá deve ser mais fácil compreender os valores que me guiaram, pois aqui os valores sem sentido são impostos e têm base na forma, no aspecto, no externo. Nosso entendimento talvez já se esboçasse, nos últimos tempos, mas não seria nesse plano. A casa onde moro foi comprada por ele, em decisão própria e para minha surpresa, três meses antes da sua partida. Agradeci pela casa e lhe desejei boa viagem e boa chegada. No vazio que senti naquele dia, diante da ausência, da carência, do amor distante e pleno, escrevi na última página de um caderno, sem pensar, apenas sentindo, muito, esse pequeno texto de despedida e esperança que exponho mais abaixo.

É preciso explicar que, quando nasci, meus pais tinham, ambos, 39 anos. Nos meus 19, quando me expus ao sol do mundo, estavam nos 59 anos. Quando tornei a encontrá-los, os sinais do tempo eram bem marcantes, quinze anos haviam se passado. Eu lhes ficara tão estranho que a distância permaneceu grande – agora menos física, mais sensorial, ideológica, vibracional. A visão de mundo desenvolvida na vivência em pleno chão da sociedade é francamente rejeitada, hostilizada, negada raivosamente não só por eles, mas por toda aquela classe, à qual eu já não pertencia.

“Tivemos tão pouco tempo...
acabei nascendo tarde
e pensando diferente.
Tivemos tão pouco tempo...
e o pouco tempo que tivemos
foi sem muita intimidade.
Cresci tão distante,
fiquei tão estranho,
estivemos tão longe
tanto tempo...
O pouco que tivemos
jamais intimidade
e, no entanto,
eu o amo, tanto, tanto...”

Amor incondicional. Lamento sua visão da minha pessoa e dos meus valores, mas respeito inteiramente, mesmo discordando. Não tenho verdades, mas impressões, opiniões, intuições. O tempo se encarrega das mudanças que não pudemos realizar e que são inevitáveis. Formar a própria visão de mundo e as opiniões é direito e responsabilidade de cada um.

Grande amor, grande respeito e vontade de encontrá-lo, quando chegar o momento.


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Noutra ocasião, Rodrigo comentou a necessidade de fazer correções, ortográficas, gramaticais, de concordância. Eu disse a ele que não devia corrigir nada, tudo estava escrito como eu queria. Ele argumentou, muita coisa estava fora das regras e eu expliquei porquê não queria correções. Compreendendo minhas razões ele pediu pra escrever o que tinha acabado de falar. Foi o segundo texto do livro, pra já prevenir os leitores do que vinha pela frente...


Tomando as rédeas das regras 
- ou Declaração -

   

No princípio era o verbo, disseram. Não acredito. No princípio, nem havia ser humano. Se é que houve algum princípio, assim como a gente entende. Eles dizem um monte de coisas, mentiras a rodo, e nós vamos acreditando na vida de gado. Ê boiada, luta, luta e não arruma nada. A língua escrita quer ditar as normas pra língua falada.

A língua que manda é a falada. A escrita veio depois e anda atrás, toda metida, dando as ordens que a gente não cumpre. A fala vai na frente, mutante, dançante, flutuante, os novos chegando e formando suas mudanças, sem levar regras em conta. A escrita vem atrás, negando, apontando erros que com o tempo vai engolir, impotente diante da força do uso, no dia a dia. O dicionário está cheio de palavras que foram desprezadas como ignorância. A prática se impõe à teoria.

Recentemente, intelectuais de vários países lusófonos se reuniram para definir regras gerais e “unificar” a língua portuguesa no mundo. Aqui da minha ignorância, eu acho um disparate essa iniciativa. Passei os olhos nas tais regras e meu coração repeliu grande parte delas. Esses caras, parece que não conhecem a realidade, não perdem a mania de querer impor de cima pra baixo o que só nasce de baixo pra cima. Deve ser a cegueira da arrogância, não sei.

Não escrevo para receber louvores acadêmicos ou qualificações literárias. Escrevo na forma comum de entendimento da maioria dos que podem entender o que lêem (o que já é minoria, embora numerosa). Pra entrar nos corações e mentes e mexer com alguma coisa lá dentro. Pra causar questionamentos e reflexões sobre a sociedade e a vida. 

Enquanto as elites intelectuais arrotam regras, em sua costumeira soberba e idiotia, nós vamos falando por aí, construindo a língua com o falar, inventando palavras e significados, sons e expressões, com os pés na realidade, não nos pedestais.

Declaro meu descompromisso com as regras gramaticais. Uso a escrita como achar melhor, meu foco é o receptor e a recepção é a parte mais importante da comunicação. Não há controle sobre a fala. Os meus escritos tentam falar na linguagem comum, usada e entendida por qualquer um. Lido em voz alta, quero soar como a fala e seu cantar.




Desenho original para a capa do Crônicas e Pontos de Vista
No alto à esquerda, a imagem do sertão, presente nos meus primeiros anos de estrada, sem casa nem paradeiro. Uma realidade forte, difícil, grandiosa, um povo resistente e solidário, duro e carinhoso ao mesmo tempo. Acima, ao centro, simbolizo as praias onde morei e vivi, a maior parte do nordeste. À direita, a cidade, a floresta e a montanha, onde vivi depois, já com filhos. No meio, à esquerda, uma feira de artesanato vista de trás das bancas, as mochilas e bolsas no chão, as pessoas olhando as bancas, a parte de trás dos painéis, imagem que vivenciei por tantos anos. A estrada infinita simboliza não só a vida, mas a própria infinidade. As palafitas são uma imagem que registrei com força no recôncavo baiano, em Maragogipe, onde fui recebido e hospedado por pouco tempo, mas que deixou marcada na memória a vida precária dessa gente sofrida e abandonada à própria sorte. Embaixo, o menino jogando bola com a arma na mão, uma reprodução livre de uma situação acontecida no Rio de Janeiro, embora eu não tenha sido fiel ao cenário. Fiz um desenho mais elaborado desta situação, "Ninguém nasce bandido", que tá no blog com a explicação da história, lá no comecinho, é uma das primeiras postagens. Situado no Rio, com o Corcovado e o Cristo ao fundo, alusão à área de Santa Teresa, onde vi a cena.


É possível adquirir o livro pelo meu endereço - arteutil.em@gmail.com - no sistema depósito bancário e entrega pelo correio. Fica em 25 paus, 20 do livro e 5 do correio. A cada vinte livros, posso pegar cinqüenta com o Rodrigo, da Navilouca, e vender na mão, direto ao leitor, que é a melhor maneira, olho no olho. Se não é possível, vai pelo correio, mas pelo menos rola umas palavras, nem que seja pela internet, entre o autor e o leitor, sendo por imeio (e-mail).

29 comentários:

  1. É incrível como as histórias de vida se encontram, ou desencontram, no caso da diferença ideológica que existe no espaço de uma geração para a consecultiva.
    Compartilho de sentimentos parecidos na relação com meu pai, que graças a Deus está vivo, porém quase inacessível a novos pontos de vistas, ou padrões que fogem de uma realidade vivida há algumas décadas atrás, tornando impossível uma relação mais próxima, com maiores demonstrações de afetividade...
    Quanto as regras literárias, acompanho seus textos há algum tempo e nunca tive problemas com pensamentos mal formulados, erros ortográficos, muito pelo contrário, são textos sempre muito coerentes, com uma linha de raciocínio clara e limpa. Quem se prende a esse tipo de detalhe perde tempo caçando erros ao invés de absorver o sentimento ali depositado.
    Parabéns pelo livro. Máximo respeito! Erik Martins.

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  2. Fala eduardo. Leitura, nao indispensável, mas que nos torna mais pensantes. Ja li e emprestei... Recomendo.

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    1. Fala, Jonatan. A explicação da capa não tá no livro.

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    2. e ai eduardo beleza eu sou o jamanta aqui de sao paulo vc ainda esta em santa tereza ....quero ir pro rio e claro ter a oportunidade de conversar com vc ...penso igual a vc e sou um cara que penso muito diferente das pessoas acho que podemos trocar altos papos ....estou no aguardo de seua respota

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    3. Amigo, vc ainda tem o livro?.. eu compro

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  3. Eduardo,
    Estou no meio do livro, mas como te disse por email vou devagarinho, fazendo algumas anotações, comentários ao lado do texto... Gostei da explicação da capa, havia imaginado algo parecido, mas você explicando ficou melhor. Já espalhei a primeira remessa, depois encomendo mais para espalhar novamente para mais longe.
    abraços,

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  4. Olá Eduardo, tudo bem?
    Há pouco, tive a belíssima e importantíssima oportunidade de conhecer seu trabalho de esclarecimento social. Pouco antes minha intuição começou a falar mais alto, e foi só resolver abrir os olhos para ver o quão grande é o movimento já existente em todo o mundo de "Anti-Alienação"!
    Foi abrindo os olhos que seu trabalho me foi apresentado.
    Adquiri 3 cópias de seu livro e estou ansioso para elas chegarem. Obviamente uma será minha, e as outras duas serão usadas como um presente de valor inestimável!

    Parabéns pelo que você é!
    Abraços,

    Arthur Rezende

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  5. Valeu, Arthur. Da próxima vez, ou se você souber de alguém que se disponha a adquirir o livro, pode pedir pelo endereço eletrônico, arteutil.em@gmail.com, que aí eu ganho um pouco mais e a cada vinte livros eu pago cinqüenta pra editora e posso vender na mão, que é a melhor maneira, contato direto, olho no olho, do autor ao leitor.

    Não é mérito fazer o que se precisa pra dar sentido à vida. É uma questão de necessidade interna.

    Valeu, irmão, um abraço,
    Eduardo.

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  6. Oi Eduardo, tudo bem?

    Assim que soube que o seu livro chegara a algumas livrarias tratei de encomendá-lo! O leio com muita dedicação e faço questão de ler crônica a crônica, respeitando um determinado tempo para que eu assimile da melhor maneira possível todas as lições que a leitura pode proporcionar. Sei que muita coisa passa batido, principalmente quando há demasiada enfatização sobre a nua e crua realidade da sociedade em que hoje vivemos. A caminhada até chegar em seu livro foi longa, difícil, dolorosa...começando nas primeiras questões filosóficas que atormentavam a mente naquela fase próxima aos 21 anos de idade, com O Mundo de Sofia, aprofundando a busca por respostas em livros como os do Orwell e Thoureau e passando pelos efeitos da verdadeira "pílula da verdade de Matrix" que são as revelações apresentadas nos diversos documentários disponíveis na blogosfera (home, ouro azul, yes men, o veneno está na mesa, zeitgeist, the corporation, o segredo das 7 irmãs, dentre muitos outros), até chegar na assimilação com os fatos cotidianos, que estão mais próximos de nós do que realmente imaginamos.

    Foi difícil, ainda mais em minha profissão, Gestor Ambiental, de me estabelecer de uma maneira que me encontre em paz comigo mesmo, de maneira qe conforte e enobreça a alma. Passava por frequentes crises em função dessa luta diária travada comigo mesmo. As vezes achava que sofria de "mimfobia", tinha medo de mim mesmo, mas me enfrentava todos os dias. Millor Fernandes já dizia, "coragem é isso aí, bicho!"

    De repente o futuro se tornou um labirinto e eu já não sabia mais que caminho tomar. Hoje estou prestes a tomar uma decisão que provavelmente desapontará muitas pessoas que me consideram e me amam, mas que sinto ser o meu caminho, da busca pela minha felicidade - e de repente a de mais alguém, por que não? rsrs... Sair do sistema não é nada fácil. Mas aos poucos aprendo a utilizá-lo contra ele mesmo. Entendi a tal revolução, o tal trabalho interno. Entendi a função existir. E me sinto bem. Estamos a caminho de uma evolução fantástica, e se a sabedoria e consciência foram nos dada, acredito que não seja por acaso.

    Gostaria de lhe agradecer, pois ver os seus vídeos, ler suas crônicas e entender um pouco sobre sua vida me trouxe muito esclarecimento. Me devolveu uma energia que eu havia perdido, me ascendeu. Acredito que tem feito um ótimo trabalho. Inspirador! E eu o agradeço imensamente por isso.

    As últimas páginas do livro estão chegando e sinto que após passá-las não mais me preoculparei com qualquer habismo em que possa me deparar. Criei minhas asas.

    Obrigado,

    Daniel Leite.

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    1. Oi, Daniel.

      O endereço eletrônico tá no cabeçário do blogue. Isso que cê mandou é uma correspondência, não um comentário. rs
      Não é possível "sair" do sistema. Podemos é tomar de volta a capacidade de criar nossos próprios valores, questionando os ridículos que nos impõem e que não fazem sentido, se analisarmos bem causas e conseqüências. Podemos fazer difícil o trabalho de condicionamento permanente e mentiroso a que é submetida toda a população. Assim, podemos esclarecer uns e outros, com discernimento pra distingüir as mentes férteis das áridas, onde não há condições de plantar a semente da independência mental. Cada um tem seu tempo e suas capacidades.
      Quem faz o que necessita fazer, por necessidades internas, apenas ganha sentido na vida e esse é o prêmio. Não há mérito, pois de outra forma seria a morte da alma em vida, a sensação de viver em vão, de vazio existencial. "Viver como se nunca fosse morrer e morrer como se não tivesse vivido", como disse um dalai lama desses por aí.
      Da próxima vez que quiser um livro, ou se souber de alguém que vá adquirir, use meu endereço pra pedir, que valem livros na minha mão pra eu mesmo vender. Sai a R$ 25, incluindo correio.
      Grande abraço.

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  7. rsrs...a intenção era escrever apenas um comentário mesmo, mas aí a coisa foi desenrolando, as emoções foram aflorando e quando dei por mim já se configurava o desabafo! Mas podexa, na próxima utilizo o endereço do email que se encontra no cabeçalho do blog, rs, as vezes falo demais! Engraçado como a gente guarda esses assuntos para nós mesmos e quando deparamos com alguém que "fala a mesma língua" dá vontade de falar pelos cotovelos, de desabafar. Dá a sensação de que não tô ficando louco sozinho! rsrs ou não tô ficando lúcido sozinho?! Ainda não descobri...rs.

    Abração!

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  8. Cara, assisti sua apresentação do TEDxDaLuz. Fiquei bobo de ver alguem com um pensamento tão parecido como o meu mas de alguma forma, mais bem amadurecido. Assim como li há algumas linhas acima, Parabéns pelo que você é !!!

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  9. Eduardo, onde eu encontro seu livro? Dei uma vasculhada na net e nao achei!!

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    1. Manda um e-mail pra mim, no endereço do cabeçário. Por ali a gente conversa.

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  10. Olá Eduardo, lhe enviei um email para adquirir o livro, não sei de onde mas sinto uma necessidade imensa em ler seu livro, você tem uma coragem que falta em mim, há alguns anos larguei tudo fui para o mundo questionar, mas a falta de coragem de sempre continuar com esse sonho me faz voltar... vivo assim indo, questionando e vindo....

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Eduardo, como consigo um livro seu? Buscando significados encontrei um vídeo seu a 3 anos no youtube, acasos do destino. Tento me desligar do sistema mais confesso que é difícil, também não sou compreendido.

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  13. E completando, sou de São Paulo, tem alguma idéia de quando passará por aqui novamente? Gostaria muito de trocar idéias...

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  14. Olá Eduardo, onde consigo comprar o seu livro?

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  15. ola eduardo eu irei para o rio e quero muito falar com vc ...vc esta em santa tereza ...espero seu retorno seleto amigo.

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  16. Ola eduardo meu nome é thiago , suas reflexões são iguais as que tenho desde mais novo , gostaria de saber onde consigo comprar seu livro.

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  17. Ola eduardo meu nome é thiago , suas reflexões são iguais as que tenho desde mais novo , gostaria de saber onde consigo comprar seu livro.

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  19. tenho interesse em adquirir o livro

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  20. Boa tarde tudo bom as vezes me sentia super angustiado tentando me enquadrar neste sistema .achei ate que estava ficando doido pois nada me preenchia mais depois que conheci seu trabalho senti um alivio muito grande .... existe pessoas com o mesmo pensamento e nois valeu li seu livro muito bom 👏👊

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observar e absorver

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