segunda-feira, 11 de julho de 2016

Arte e pensamento em movimento - ou "bora pra estrada"

Hora de dar um tempo. Exponho em Santa Teresa desde o século passado, morei um ano no bairro e pulei pra outra santa, em Niterói, Santa Rosa, pra morar. Mas continuei expondo no Largo do Guimarães, primeiro no armazém fechado, nas três portas frontais. Depois, quando ali abriu um bar, passei pra parede do cinema. Mas venho sentindo vontade de mudança, um clima foi se instalando aos poucos, derrubando a sintonia com o lugar. Depois do desastre do bonde, onde morreram sete pessoas e dezenas se feriram, o bairro pareceu entrar em dormência. As falcatruas por trás das ações do estado e de empresas interessadas podem ser sentidas no ar, nos procedimentos, uma sociedade cujos poderes públicos são na prática privatizados e a hipocrisia é o lugar comum no trato com a população. Alguns anos sem bonde, agora um bonde esquisito, modernoso, descaracterizado como o patrimônio histórico que era, circula em silêncio pelos trilhos, até o Guimarães. Antes era do bairro todo, agora é só pra turistas. Eram duas linhas, agora é meia.
Encaramos a quebradeira no bairro todo, pra instalação dos novos e falsos bondes.

Durante as obras, Santa Teresa sofria na alma, os interesses de poucos emanava no ar.
Depois da “restauração” que tornou possível a circulação das pessoas, não era mais a mesma coisa, a forma tinha suplantado o conteúdo e os acontecimentos sinalizavam essa queda no astral do lugar. Começaram a aparecer figuras de outras vibrações pra expor, fisionomias agressivas ou hipócritas, sorrisos falsos ou alusões ameaçadoras, o climinha convencional da cultura social vigente, de competição e confronto, de interesses materiais e hipocrisias. Tempo de trocar o lugar, sem mágoas nem rancores, apenas sinais. Não me arrogo a posição do julgamento, da condenação, cada um carrega seu clima e suas conseqüências. A mim cabe escolher minhas atitudes e a mudança é uma necessidade permanente. No caso, mudança de lugar. Nada definitivo, mas o impulso deve dar a direção a seguir, na seqüência.
Em Rio Casca, dormindo em posto de caminhoneiros.
Surge, então, a oportunidade de realizar a idéia que vem madurando com o tempo e com a entrada de Celestina, a Kombi, na história. Há um ano e meio, ela vem sendo preparada pra ser engolidora de estradas. Desde então, quarenta mil quilômetros foram rodados, em viagens longas ao sul e ao norte, percorrendo o vale do rio Doce pra recolher informações e histórias desta hecatombe planetária que, todo o tempo, foi minimizada pelas empresas, pelo poder “público” e pela mídia dominante.
Chegando em Regência, a ver a bagaceira mineradora que matou o rio Doce desembocando no mar.
No parque estadual do rio Doce, a morte passa lentamente.
Saindo de Ouro Preto.
Sarandi, em Porto Alegre.
Pelas montanhas de Minas, rumo à Liberdade.
Exposição em Vitória, na Gruta da Onça.
Exposição na avenida Paulista.
Em Ouro Preto.
Maringá Rio, em Visconde de Mauá.
Cachoeira de São Félix, na Bahia. Homocinética quebrada.
Expondo na Bahia.
De novo na Paulista, encontros.
Na praça Roosevelt, a convite do Slam Resistência.
Em Santiago, no oeste gaúcho.

A idéia agora é sair pra expor nas cidades próximas, num raio inicial de duzentos quilômetros. E, pelo jeito, vamos em comboio, várias pessoas expondo suas artes. Se for o caso, proseando em público – ou palestrando, como dizem –, aproveitando a exposição e se rolar receptividade pra isso. Em qualquer lugar nesse raio onde se manifestar interesse e houver possibilidade de vendas pra bancar as atividades, é possível se fazer. Esperamos convites, pra chegar bem chegado e não ter problemas com os poderes municipais – como todo poder dito “público”, ávidos por “autorizações” e taxas, no vício de arrancar dinheiro da gente, sem contrapartida com o cumprimento nem da própria constituição. Um poder público que não merece nem o próprio nome, sempre aplicado ao atendimento dos interesses de poucos, os financiadores de campanhas eleitorais, e em enganar a população. Não pagaremos pra expor, nem ganhamos o suficiente pra isso, pois nos aplicamos em pagar as próprias contas, com dificuldade mas com persistência pra não se render aos valores e comportamentos vigorantes nesta sociedade criminosa, que abandona e sabota grande parte das pessoas – a miséria, a exploração, a ignorância, a desinformação são crimes sociais tão cotidianos que estão absurdamente naturalizados, quando ninguém devia se conformar com isso. Assim como ninguém deveria se conformar com uma vida sem sentido que gira em torno do consumo e da posse material, valorizando o desenvolvimento tecnológico, mas não o desenvolvimento moral pra tratar com ele, o que dá origem à escandalosa concentração de renda e propriedade e à conseqüente carência, criminalidade e violência. A violência do Estado é a mãe de todas as violências. E a vida imposta é a origem maior das frustrações existenciais. Essa é a base do meu trabalho. Escrito, desenhado e falado.

Esperamos contatos pra nos apresentar, levando em conta a necessidade de vender nossas artes pra seguir adiante – entre nós, ninguém tem outra fonte de renda senão a rua com as exposições.

No próximo fim de semana estarei na Bahia, palestra em Feira de Santana. Na volta, devo escolher um lugar pra expor, por perto do Rio, em conjunto com os amigos que vão também. Se houver interesse em alguma cidade dentro desse raio, espero a manifestação pra trocar idéias a respeito e, se possível, comparecer. Além de idéias, temos artes.

38 comentários:

  1. Eduardo,um dia que passar por Curitiba certamente irei ver a exposição..espero que alguém daqui se interesse em trazer suas exposições e ideias para o pessoal

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    1. Passei por Curitiba recente, falei no Ocupa Minc, na casa da Ocitocina e em outro coletivo por aí.



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  2. Sou um grande fã de suas idéias, gostaria muito de conhecer seus trabalhos. Quem sabe quando você vir a Barreiras, Bahia! Grande abraço e boa viagem

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    1. Barreiras não sei, mas estive no Vale do Capão, em Lençóis e Cachoeira, em outubro do ano passado. Talvez vá em outubro ou novembro deste ano, de novo, não sei ainda a que lugares, fora o Capão.

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  3. Eduardo, boa noite!, após a Bahia você irá continuar pelo NE?, tens ideias de passar por PE novamente?

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    1. Vou e volto da Bahia. Não tem extensão.

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    2. Penso que poderíamos tentar articular uma vinda sua, pra realizar algumas palestras ou debates junto a comunidades e promover ideias e orientações para grupos e pessoas que ainda não tiveram oportunidades de escutar sobre experiências como as que você teve e ainda tem. Você poderia informar se isso seria possível e como geralmente ocorrem em outros lugares para tentarmos ver se temos condições de fazer aqui também?

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    3. Articular como? É uma viagem longa e custosa, de kombi. E preciso de muito material pra levar. A idéia é boa, se trata de comunidades.

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    4. Eduardo, falo de articulação no sentido de planejamento, por exemplo agenda, uma vez combinando sua vinda, em qual prazo de tempo você conseguiria chegar em Recife?, isso é importante para tentarmos fazer uma divulgação sobre sua vinda em comunidades, grupos sociais que tem interesse em te escutar, arrumar o(s) lugar(es) onde seriam os encontros, que estrutura poderíamos tentar montar do tipo, ao ar livre com algum material de som, para te escutar melhor, ou um lugar fechado, direcionado para um menor número de pessoas. A articulação que menciono está relacionada a esses tipos de coisas.

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    5. Outra preocupação nossa, logicamente também é com as despesas de sua viagem e até sua estadia em nossa cidade, por isso eu te pergunto, de que forma isso se resolveu quando você se dirigiu para outros lugares?

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    6. Eduardo, caso prefira, podemos nos comunicar via e-mail, você inclusive já me enviou alguns, a minha conta é itacolomy@fivesolutions.com.br, também tenho outra itacolomy@hotmail.com(porém essa uso pouquíssimo para ler e-mails) pode me chamar de Ita.

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  4. Salve, Eduardo.
    Sempre preciso e claro nas ideias e palavras, demais! Te considero muito pelo que conheço.
    Vou acompanhando por aqui para, quando trazer teu 'clima' aqui pro Sul novamente, não perder a oportunidade de uma valiosa troca de ideia com a galera por aqui. Tua arte será muito bem recebida por aqui, não seria diferente.
    Abraço, irmão. Suerte.

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  5. "A violência do Estado é a mãe de todas as violências." Gostei muito dessa frase, dessa reflexâo! Acompanhava no Facebook, agora irei acompanhar aqui também. Parabéns pelo trabalho! Atualmente estou em Sp, irei ficar atento quando você estiver aqui por perto, para ir em uma exposição sua. Abraços!

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  6. Salve Eduardo! Estou sempre em Sta Teresa, e por duas vezes parei para aprender um pouquinho com você. É como um combustível de ideologia do "óbvio" e que por vezes não enxergamos em função da contaminação do dia dia, sociedade, mídia etc. Estava pretendendo parar um dia, pra sentar no meio fio e ter a oportunidade de trocar uma dúzia de ideias com você. Hoje entrei aqui para saber se estaria por la ou se estaria em alguma palestra e me deparo com sua nova fase itinerante! Fico triste por ter perdido essa oportunidade, mas feliz pela sua decisão de propagar sua arte em outros cantos! Espero ter a oportunidade de trocar mais com você e de levar sua arte pra minha casa! Conto com isso! Grande boa sorte! Se cuida cara.

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    1. Ainda exponho no próximo fim de semana lá. Há algumas coisas pra acertar.

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    2. Ainda esta em Sta Teresa nesse fds? 30 e 31 de julho?????? Quero levar algumas artes suas!

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  7. Olá, Eduardo. Você se expõe em Niterói? Me diga onde se acha você. Abs.

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    1. Em Niterói eu moro, no final da Mário Viana, próximo ao Viradouro. Não tenho o costume de expor em Niterói, expus dois anos no Campo de São Bento, mas não dava pra viver.

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  8. Fala Eduardo, para em Macaé na volta, fica na minha casa você e os amigos do comboio. Aqui mostro vocês opções de lugares para expor e vocês decidem o melhor.

    o único pequeno "porém" é que no próximo sábado dia 23 vou viajar e ficar 1 mês fora. Mas se vocês quiserem estender a estadia, é só deixar a chave na vizinha quando saírem.

    entra em contato se animar. vitocms@hotmail.com

    valeu

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  9. Eduardo , quando você aparece em São Luis do Maranhão para expor também e conhecer a ilha?

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    1. Eita que é viagem longa... precisa de muita preparação. Não tá ainda na rota celestínica.

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  10. Eduardo, no começo de sua trajetória você fazia muitos broches com mensagens, como eles eram feitos fiquei curioso

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  11. Se um dia passar por Itanhaém SP venha conhecer minhas artes será muito bem recebido por aqui! Forte abraço! Boa viagem!

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  12. Boa tarde, Eduardo! Quando vem para o Sul de Minas?

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  13. Cara, nem acredito que não te "conheci" antes, você tava pertinho, em Feira. Que pena! Assim que voltar na Bahia, dá uma alô por favor: alexandremirandaf@hotmail.com

    Grato, desde já.

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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  15. Faz uma agenda para sabermos aonde vc vai expor. Vi seus videos e gostei da tua fala, trabalho, etc.

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  16. Eduardo venha pro sul, Blumenau. Seria um prazer enorme poder te ouvir e trocar algumas idéias pessoalmente. Grande abraço!

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  17. Gostaria muito que viesse expor aqui na região dos lagos Araruama ou Cabo Frio (próximas ao RJ rsrs) que tal?
    Acho infinitamente melhor ver e falar de perto, espero que coloquem essa rota na sua próxima viagem, até lá.

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  18. A idéia da agenda pra saber onde estará também achei muito boa.

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  19. Através do youtube, conheci a sua luta e fiquei chocado com tanta verdade oculta que você expôs. Não paro de ver suas palestras. E sempre, baseado o que você diz estou observando e absorvendo, mas sempre que posso repasso suas descobertas, assim pondo em prática ..

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  20. Através do youtube, conheci a sua luta e fiquei chocado com tanta verdade oculta que você expôs. Não paro de ver suas palestras. E sempre, baseado o que você diz estou observando e absorvendo, mas sempre que posso repasso suas descobertas, assim pondo em prática ..

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  21. Conheci seu trampo recentemente e fiquei encantado cara, suas ideias são incríveis e merecem muito e muito mais reconhecimento,um abraço e muita luz!

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observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.