terça-feira, 28 de agosto de 2018

Trator de Palmeiras agride Celestina, a kombi.

Ele veio de ré, direto, sem olhar pra trás.
Estrada Palmeiras-Vale do Capão, o trator operava espalhando pó de pedra - não sei por que cargas dágua usam isso, levanta uma poeira densa e fina no ar. Paramos à distância, coisa de 50 metros. Ele atravessava, buscava carga na pá, jogava no chão e espalhava de ré, com a própria pá. Não havia nenhum outro funcionário, nada de cones, balizas, nenhuma sinalização, ninguém pra orientar os carros ou o tratorista. Ele pegou mais uma carga do pó, jogou e veio vindo de costas, alisando o chão. Eu vi que vinha na nossa direção, mas a cabine era de vidro e eu imaginei que ele estava olhando pra onde ia. Só que ele não estava, quando vi a pá da traseira chegando perto demais, olhei pelo retrovisor e tinha um carro parado bem atrás. Não deu mais tempo de nada, a pá traseira quebrou o parabrisa e empurrou a kombi pra trás meio metro. Com o barulho e os gritos, o trator parou. Fui ao tratorista, na cabine, um menino de pouco mais de vinte anos, assustado e com medo de perder o emprego. Quis dizer que "cês também enfia o carro debaixo da máquina", esboçando uma agressividade defensiva, mas não pode explicar o movimento sem olhar pra onde estava indo. Pedi pra ele chamar a chefia, um responsável, ele ligou pelo celular. Aí começou a comédia.

Chegou uma moça, num carrão, dizendo ser secretária do vice-prefeito. Vendo as coisas, ouvindo as explicações, ligou pra mais alguém vir. Minha impressão é que disseram pra ela "vai lá ver o que tá acontecendo" depois da ligação do garoto. Em pouco tempo, chegou o secretário de infra-estrutura da prefeitura. Quis saber se a kombi tava com os documentos em dia pra registrar a ocorrência. Claro, kombi velha, qualquer falha aí e poderia esquecer o assunto ali mesmo - e com ameaças. Mas tá tudo certim com os doc da velha senhora, até a vistoria do gás tá em dia, coisa que nem mesmo os guardas rodoviários lembram de pedir. Concordamos em registrar a ocorrência, até pra ir a Seabra fazer o conserto - tem um posto de polícia rodoviária na chegada que pode nos parar pelo vidro quebrado. João Batista, esse é o nome do secretário, discordou quando falei que seria preciso ter mais funcionários e sinalização, "aqui não precisa disso não". Clarinha perguntou se as leis de trânsito no país não valiam por aqui e ele ainda insistiu, "aqui nunca teve isso não". A reação dela fez o secretário parar de falar, se afastar e prestar atenção no celular. Pra chamar a polícia civil, segundo ele, e fazer a ocorrência. Em seguida, disse pra irmos nós mesmos na delegacia, que tinha falado com o responsável - imaginei que era o delegado, mas soube que não fica delegado aqui, talvez escrivão ou agente. Tiramos várias fotos, registrei os números do trator e fomos. Duzentos metros depois um carro em direção contrária sinaliza pra nós. Paramos, era o delegado - ou, sei lá, o responsável pela delegacia -, estava indo ao fórum, em Iraquara, disse que vinha ver o acidente e que dissera ao João Batista que estava de saída da delegacia pro forum. A delegacia estava fechada, não havia ninguém pra registrar a ocorrência. O secretário não tinha como não saber disso, quando nos mandou lá. Decidimos ir à prefeitura pra falar com ele. Chegando lá, Clara entrou e foi informada por uma funcionária que a secretaria da infra-estrutura era noutro lugar e o secretário devia estar lá. Estávamos dando a volta na praça quando João Batista desponta vindo à prefeitura. Fiz sinal e ele parou. Recomendou de novo o BO, afirmou estar em contato - ele tinha passado o uatizape dele pra Clarinha - e que "tudo se resolveria". Sei. Em seguida João encostou o carro na porta da prefeitura, abriu a porta da frente e quem entrou? A funcionária. Ela estava esperando o secretário, que a levou pra almoçar, mas disse que ele devia estar na secretaria, longe dali. Eles almoçaram, inclusive, na mesma "comida caseira" onde nós comemos. Boa comida e preço baixo. Fomos depois até a delegacia, que estava realmente trancada - parece que as "falas públicas" se desacreditam por si, é preciso conferir.

Durante os acontecimentos, ficamos sabendo que o trator não é da prefeitura, mas do vice-prefeito. Está "emprestada" à prefeitura porque a máquina do município está quebrada. Que em Palmeiras não vigoram as leis sobre obras em rodovias - um tratorista sozinho operando numa estrada aberta, sem sinalização, sem funcionários, nada pra orientar os motoristas e os movimentos.

Com tudo o que penso dos poderes chamados "públicos", não espero muito. Na verdade, não espero nada além de engabelação, promessas mentirosas, adiamentos e omissão. Gostaria de estar errado, mas seria preciso pessoas de bom caráter, senso de justiça, que assumissem a responsabilidade pelos erros cometidos que me deram um prejuízo grande, pro meu padrão econômico. E isso, na máquina do Estado, é coisa rara. Sobretudo nos postos de mando. Como não sou ninguém importante (leia-se influente ou cheio da grana), sei bem o trato que me espera. Mais uma vez, espero estar errado. Se estiver e me pagarem o prejuízo, volto aqui pra contar.

Amanhã vamos a Seabra - depois de registrar a ocorrência pela manhã, conforme nos disse o policial. Vamos gastar o que não podemos no conserto, lanternagem e parabrisa. Na volta, procuramos o secretário da infra-estrutura de Palmeiras, João Batista, pra ver o que acontece. Aguardemos.

O agressor e a agredida.
Foi uma cena e tanto ver a escavadeira rompendo o vidro e quase entrando.
A ressaca da porrada é sempre triste. Mas considerar que ninguém se machucou, além da kombi, já alivia. Celestina resiste.


Uma grande covardia...


Meio metro de arrasto, com o pé no freio pra não atingir o de trás. Não atingiu.
A publicidade do poder "público" e um efeito da sua ação. Tá certo que um é estadual, outro é municipal, mas no fim é tudo a mesma coisa, posam de públicos mas defendem interesses privados como prioridade. É o modelo da nossa sociedade.

12 comentários:

  1. Surreal! Menos mal que ninguém se feriu, ao menos fisicamente, né? Porque dói na alma ler esse relato de descaso e abandono em que esse Brasilzão continua. Muita paz, força e luz a vocês!

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  2. Eduardo, como podemos ajudar? Fazer pressão, falar com alguém, sei lá eu... Me fala! Instagram @valana__ Estou sem paciência com esses desacertos das pessoas e das instituições

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    1. Tem influência com o Wilson, vice-prefeito de Palmeiras e dono do trator? Grana ele tem, muita, uma kombi nova seria uma mixaria pra ele, quanto mais fazer um conserto desse. Mas quanto mais se tem, mais apego também se cria. Ainda mais quando se está em cargos de poder "público", aí é que a muquiranice é irresistível. Grana só sai dali por interesse. E eu não tenho nada que interesse a esses caras.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Pegaram a Celestina, inofensiva!! 😕😕

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  4. vc pode correr, mas nao pode se esconder... o sistema falando!salve celestina veia de guerra, fera ferida.

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  5. Infelizmente é assim que funciona o poder público. Espero que consiga recuperar o prejuízo logo. Pobre Celestina velha de guerra, ferida mas ainda na luta. A Jornada continua...

    (Tem alguma previsão para o laçamento do documentário?)

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  6. Quanta conversa e dificuldade para dizer erramos vamos consertar e pagar....puts que merdas de incompetentes

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  7. Com a coluna empenada não dá pra colocar parabrisa e seguir viagem. Tem de ver o chassi se não empenou ou as bandejas das rodas, a roda traseira parece mal pela foto. Se tiver grana pode pagar o conserto e juntar a nota fiscal com o boletim de ocorrência e entregar na mão de um advogado e seguir viagem. Tem de ver se vale a pena consertar. Se vc conseguir um laudo do mecânico dizendo que foi perda total você pode tentar conseguir indenização. Ela já deu muito do que tinha para dar, a Celestina, sua Kombi. Mas vai que ela é generosa.

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  8. Triste, Celestina... Celestina é forte, guerreira. Mais uma porrada da vida.

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