quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Resposta ao preconceito contra o "brasileiro"

Não aceito bem a desvalorização do brasileiro como um todo. Pra começar, o povo brasileiro é recém nascido e ainda não se conformou nem mais ou menos. Estamos em pleno processo.
Dizer que é indolente, acomodado, desqualificá-lo diante do europeu e do anglo-saxônico, sobretudo, é comparar o incomparável. Papo de quem vive fora da realidade, não tem noção do que é a coletividade brasileira, em franca formação, aglutinando elementos de todo o planeta, de todos os povos, sem conflitos em sua maioria, recebendo e abraçando a mistura - exceção feita a alguns focos, insignificantes diante da totalidade.
Quem anda pelo chão da sociedade conhece o espírito solidário, criativo e resistente das coletividades brasileiras, juntando os elementos mais diferentes de modo harmônico, integrando, diluindo as etnias em permanentes misturas, num processo de integração dos diversos povos do mundo.
Ignorância, preconceito, ingenuidade, fraqueza mental, primitivismo espiritual, não sei quantas possibilidades posso imaginar pra esse tipo de conceito. Ou preconceito.
A concentração histórica de terras, riquezas, rendas, tecnologias e poderes nas mãos de elitezinhas insignificantes, desde que chegaram os invasores europeus até hoje, sonega direitos da maioria e cria uma situação de domínio e exploração com o apoio total das instituições do Estado, atirando milhões à pobreza, à miséria e à ignorância, negando-lhes os direito básicos, hoje determinados na Constituição do Estado. 
Ponham-se os filhos da elite nas escolas públicas que formam a massa da população, com os mesmos recursos de que dispõe a maioria, e vai se ver o que causa essa aparente "inferioridade" do povo brasileiro.
A mensagem ainda usa o jargão "cada povo tem o governo que merece", na velhíssima prática de culpar as vítimas, e fala sobre os corruptos. Como sempre, da parte mais fraca da corrupção, jamais tocando no corruptor - nos donos das imensas empresas que promovem a corrupção através de mandatos sucessivos, em todo governo, em toda a legislatura -, sem considerar que as instituições estão infiltradas desde as estruturas - por essas mesmas elites e seus elegantíssimos apaniguados - e que a origem primeira da corrupção é o interesse empresarial  nas riquezas públicas e seu controle sobre o Estado e seus flutuantes políticos, governantes, legisladores, mesmo juízes dos altos escalões.

Eis a resposta. Aproveito pra recomendar os links.


Isso foi hoje. Até agora, ninguém me respondeu. 










Aí, rapaziada.

Ilusão esse negócio de que brasileiro não luta. Aliás, ilusão planejada, montada em laboratórios de mídia, a serviço da elite dominante pra dentro e dominada de fora, pra moldar a mentalidade da população. Quem não luta ou se faz de palhaço são pessoas das classes médias (das altas às baixas), emburrecidas e superficializadas ao extremo - e a parcela subalternizada da massa pobre, que é levada a ver o consumo como ideal de vida, a esquecer os seus direitos fundamentais roubados e viver cheia de sonhos de consumos impossíveis, assimilando a sabotagem institucional como incapacidade ou inferioridade pessoal. Essa maioria esmagadora muitas vezes põe sua mentalidade a reboque das classes médias (supõe-se que por ter mais acesso ao consumo, "sabem das coisas") que, perdidas entre o trabalho, o consumo e as contas, formam sua visão de mundo a partir da mídia comercial e dos isolamentos em que procuram se manter.

Mas há movimento, sim, e muita luta. Essa imagem do brasileiro pacato e omisso é criada, estimulada e divulgada pela mídia, num processo de acomodação e desinformação geral. Correspondências como essa apenas colaboram com essa visão. Pegue a história do Brasil, vista por historiadores honestos e não cooptados pelos agentes controladores dos bastidores sociais (Mario Schmidt, por exemplo, Moniz Bandeira e tantos outros, cujos livros são boicotados nas escolas). Inúmeras revoltas, rebeliões e levantes são apagados da história ou citados como folclóricos, movimentos desligados do contexto histórico das lutas populares de resistência.

Só como sugestão, sugiro um filme que vi ontem, Atrás da Porta, de Vladimir Seixas, feito em duas ocupações no centro do Rio, de prédios abandonados por pessoas sem casa, moradores de rua. (www.atrasdaporta.blogspot.com, pra adquirir o dvd, mas tá no youtube, em 7 partes, que foi como assisti - se eu pudesse, compraria o dvd pra ajudar na luta do cara que, fazendo o que faz, não tem nenhum apoio financeiro). Como não estou podendo no momento e o filme tá disponível no youtube, tô articulando baixar e colocar em um filme inteiro, pra exibição e distribuição - pois são informações boicotadas que precisam vir a público, até pra desfazer essa idéia depreciativa sobre o povo brasileiro, que é de luta, sim, além de extremamente solidário, guerreiro, disposto e criativo. Essas informações eu não busquei na mídia, não, convivo nas periferias há pelo menos trinta anos, desde a mais despossuída condição, onde até o que comer e onde dormir me era dado ou improvisado, até pagar meu aluguel e manter um cotidiano proletário de artista de rua, enquanto meus filhos cresciam.


Aí estão a 1ª e a 2ª partes, se quiserem é só seguir adiante.

Entrem no saite do MST, se já não estiverem contaminados pelo preconceito raivoso plantado pela mídia. Os elitianos (e os elitistas,  seus seguidores) se enchem de ódio contra aqueles que foram estereotipados como seres humanos inferiores, quando eles têm o atrevimento de tomar atitudes de resistência e defesa contra o massacre social e ideológico cotidiano em cima dos mais pobres.
A América Latina está em movimento, a sociedade brasileira está em movimento. Não esperem tomar conhecimento sem correr atrás, os meios de comunicação estão aí pra distorcer, ocultar, omitir e atacar qualquer movimento que não atenda a linha conservadora de manutenção da ignorância e da inação.

Na minha opinião (e eu posso estar errado, é claro - além de não querer ofender ninguém), a posição exibida neste seu comunicado é do interesse das grandes empresas que dominam os Estados e suas instituições, inocula ainda mais o desvalor criado para manter a maioria cabisbaixa, desacreditada em si mesma, na estratégia cruel de manutenção dessa sociedade desigual, perversa, desumana, criadora de misérias para a maioria e opulência para poucos. Repitam com a mídia: "o povo brasileiro é inferior, incapaz, desinteressado, preguiçosos e merece estar nessa miséria estatisticamente predominante. Europeu e estadunidense (brancos, lindos e inteligentes) é que sabe das coisas, eles é que são o modelo de ser humano evoluído. Nosso povo é todo constituído de gentinha mestiça, pobre, suja e burra, exceção feira aos mais enriquecidos e embranquecidos, infelizmente em minoria insignificante socialmente, embora dominando riquezas e poderes."

Gostaria de não ter ferido susceptibilidades de ninguém. Não carrego verdades, apenas opiniões, não desejo insultar ou ofender ninguém, tenha a mentalidade que tiver, respeito até o que considero absurdo, no campo do pensamento. Reparem, porém, que os conservadores, os elitistas, os ideólogos da alienação e do consumo reagem com ódio, por não terem argumentos sustentáveis pra defender essa estrutura social ridícula e vergonhosa, e partem pro insulto pessoal, a agressividade, a desqualificação preconceituosa. As falácias são evidentes e não resistem a delicados golpes de informação real e consciência sobre o que acontece, por trás das distorções midiáticas. Os que não desejam mexer a bunda pra mudar a sociedade e preferem usufruir seus privilégios egoístas, resultado do roubo dos direitos da maioria, através do controle do Estado pelas empresas, estão sempre prontos a atacar qualquer ameaça à sua acomodação, com os pretextos e as opiniões mais absurdas, odiosas e odiantes, além de desumanas.

Quem quer se informar de verdade, encontra o que precisa aqui na net, mesmo. Mas os que não querem saber, para continuar na sua comodidade injusta e mentirosa, não têm jeito, não. Rejeitam tudo o que se aproxima da realidade que os denuncia em sua arrogância, seu egoísmo, sua grosseria, enfim, sua desumanidade e sua inferioridade espiritual.

Vai desculpano carqué coisa aí.
Abraços a todos,
                         Eduardo Marinho. 

Outro documentário que assistimos no vídeo-garagem da última quinta, Sagrada Terra Especulada, mostra bem a hipocrisia dos governantes e seus executivos no poder político, a serviço das empresas, com desprezo pelos que eles dizem servir, os indígenas em histórica situação de genocídio - físico, moral e cultural. Taí o link, dá pra assistir inteiro: http://www.vimeo.com/28597529"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Teoria na prática ganha vida




O aprendizado só se completa vivenciando. A vida é o nosso campo de prova. De estudos, também, mas aí qualquer situação é, depende mais da disposição e do interesse em aprender. As provas e as conseqüências dos nossos atos, desejos, sonhos e objetivos de vida, isso não é opcional, é imposição da vida, do destino ou como quer que se chame. “O plantio é livre, mas a colheita é obrigatória.”

 De pensadores o mundo tá cheio. Esses, se não vivenciam suas teorias, carregam dentro de si distância da realidade, mentiras convenientes e a angústia da incoerência, da falta da vivência que se manifesta de muitas formas diferentes. Percebe-se no olhar, no comportamento, nas opiniões, na freqüência pessoal - a capacidade de percepção se desenvolve com a prática. Sem isto, somos cabeças rolantes, sem corpo, coração ou intestinos, egos exaltados em simulações revolucionárias sem conseqüências além de desacreditar a idéia de revolução diante da população feita rebanho.

Saber e não fazer ainda não é saber.
Mahatma Gandhi
A reflexão é fundamental, mas sozinha é frágil e inútil. Percepções pedem decisões e mudanças na realidade. É o tripé evolutivo – refletir, decidir e praticar. Essa é a base. Fora disso, somos apenas teóricos, alheios, indiferentes, medrosos e vaidosos, levantando hipóteses, sem comprová-las além da teoria, sem experimentar para perceber e corrigir falhas, construindo valores sociais - e pessoais - ilusórios e egocêntricos, sem a menor condição - nem intenção - de mudar o comportamento e a mentalidade. Forma sem conteúdo.

É preciso correr os riscos. É preciso errar para acertar. Não se pode pretender a perfeição, mas é fundamental se aperfeiçoar, sempre. Às vezes, é a escuridão que nos faz perceber e dar valor à luz.  

Educação e Sociedade




         O “empresarismo” é a ideologia dominante, embora se declare, em sua hipocrisia costumeira, sem ideologia.
         O programa “universidade para todos”(PROUNI), falácia descarada, paga bolsas de estudos para alunos pobres cursarem faculdades particulares. Mina de ouro para os empresários do ensino, resolvendo o problema da inadimplência e eliminando impostos.
         Há mais de 14 milhões de analfabetos integrais no país, 9,7% da população a partir de 15 anos. Vergonha que aumenta muito com a inclusão do número de analfabetos funcionais, aqueles que assinam o nome e, com dificuldade, lêem e escrevem bilhetes e pequenas frases, sem condições de compreender ou escrever um texto, uma notícia, muito menos um livro. Aí o número pula pra em torno de 70%. Setenta por cento da população brasileira! Sete, a cada dez pessoas, são sabotadas em instrução - a Constituição, em tese, obriga o Estado a garantir educação de qualidade. E a elite torna o Estado criminoso, em benefício e garantia dos seus privilégios e excessos cuja origem perversa está na eliminação de direitos da maioria.
         Por que o problema não é resolvido? Falta de verba, de competência ou atenção é conversa pra boi dormir, só a ignorância e/ou o massacre da mídia, entre a desinformação e a publicidade, – ou a má fé – podem conceber tais absurdos. A narcose midiática encurrala grande parte da população entre os desejos de consumo e as relações com o sistema financeiro que domina o Estado, diminuindo ou eliminando a capacidade de reflexão independente, o desenvolvimento de uma visão de mundo mais próxima da realidade. Na verdade, é preciso conservar o povo ignorante e desinformado, para manter um sistema social tão desumano, desonesto, injusto, perverso e suicida. É esse o sistema que favorece a elite dominante, a concentração de poder e riquezas nas mãos de poucos, em prejuízo da maioria. A situação de destruição do ensino é intencional, deliberada, estratégica.
         A constituição de 88 estabeleceu a obrigação de repassar verbas para a educação, a partir da arrecadação de impostos. Federais, 18%, estaduais, 25%, municipais, 25%. Em 94, aprovou-se a lei que permite o desvio dessas verbas para fins não declarados, com o nome-fantasia de fundo social de emergência, depois fundo de estabilização fiscal e, por último, desvinculação dos recursos da união, sempre a mesma coisa, subtração de verbas para as áreas sociais da educação, da saúde e da previdência. A prioridade é manter a ignorância, criando uma fachada de esforço cenográfico para “melhorar” a educação. Não se pode melhorar uma coisa que não existe - socialmente falando. Uma população instruída não permitiria tamanhos descalabros na administração dita “pública”, tamanha exploração do trabalho, tanto abuso, muito menos a destruição das leis trabalhistas, com o título hipócrita de “flexibilização”, e o predomínio das empresas na sociedade estaria em risco.
         No período de 2000 a 2007, foram destinados à educação pública R$ 149 bilhões, enquanto no mesmo tempo os bancos credores da dívida pública receberam 1 trilhão e 267 bilhões de reais, só de juros, sem que a tal dívida diminuísse em nada. As prioridades estão claras. Os interesses predominantes estão claros.
         A ideologia imposta à sociedade – e à educação, como estratégia – se baseia no predomínio das leis de mercado, derrubando custos e priorizando lucros. A qualidade do ensino é proporcional ao preço. Qualidade, no caso, não significa preparação do ser humano para se integrar à coletividade humana, de forma harmônica, afetiva e útil à sociedade. Ao contrário, desenvolve-se a eficiência para competir com os semelhantes, a vida tornada uma arena sem limites nem trégua, no mundo reduzido aos mercados de trabalho e de consumo que excluem a grande maioria da população. O modelo de educação mais valorizado, atualmente, é o desumanizante, desintegrador, anti-social. O jovem não deve desenvolver sua capacidade de pensar, sentir, criar, se relacionar com o mundo, solidária e generosamente, em evolução física, mental e espiritual.  Deve desenvolver, sim, a capacidade de produção e consumo, de acordo com o “seu lugar” na sociedade e os interesses empresariais, sua competitividade, sua frieza, seu oportunismo. Sem questionar as causas de tanto sofrimento e tragédia, ignorância e miséria – resíduo e combustível da nossa sociedade - exalta-se o egoísmo, o apego aos bens materiais, a busca de superioridade sobre os demais, como valor social.
         As políticas governamentais de adaptação das atividades do ensino às necessidades privadas demonstram o controle do Estado e das instituições públicas pelas grandes empresas. Em todos os setores, sobretudo os estratégicos – comunicações, energia, educação, alimentação, saúde,... – o privado se impôs ao público, por dentro das instituições mais “respeitáveis”. Creio que a ênfase na sabotagem da educação pública e o controle da educação particular se deve à importância da ignorância e da desinformação, de um lado, e da oferta de profissionais ao “mercado”, de outro, para a manutenção da estrutura social como ela é, altamente injusta, pela sujeição ao poder econômico dos mais ricos entre os ricos. A rede pública é reduzida à miséria, num simulacro abjeto de ensino mentiroso, em detrimento de professores e estudantes, cujas relações foram deterioradas ao longo do tempo, impedindo a integração família/escola, que traria à tona os podres do sistema e apoiaria os professores na sua luta por condições dignas, por estar claro que o interesse nessa luta é de todos. A rede particular é impregnada com a ideologia empresarial no processo de enraizamento dessa estrutura, que já vem de décadas ou séculos. Preparam-se competidores para o mercado de trabalho, competindo pelo mercado de consumo, e não pessoas para viverem em sociedade. Estimula-se o egoísmo extremo, o preconceito social, econômico e instrucional, a ânsia de consumo, a preparação para o conflito entre irmãos, ao mesmo tempo em que se inibe a capacidade de questionar, de pensar com independência. Discrimina-se e se marginaliza os que não se deixam levar ao rebanho de escravos mentais. E são exatamente esses que brilham com suas luzes em meio à escuridão da consciência coletiva, da vida sem sentido, medíocre e vazia, enquanto os donos do mundo se esforçam, com seus inúmeros recursos, para apagar todas as luzes que não os sirvam.
         Não posso apresentar soluções. O que pretendo é mostrar aqui a profundidade em que essa ideologia se entranhou, durante todo o desenvolvimento da mídia – e desde muito antes –, em todos nós. É preciso enxergar o esquema a partir das suas causas e o trabalho aparece em todos os setores da sociedade. Os valores dessa ideologia, que chamei de “empresarismo”, impregna as relações da sociedade e a divide. É preciso percebê-los dentro de nós mesmos, em nossos próprios condicionamentos. A partir daí, podemos nos posicionar diante das imposições enfiadas até no inconsciente - pra isso a academia centrou o estudo da psicologia em mente e comportamento, abandonando filosofia, sociologia, antropologia, enfim, as matérias que humanizam, para se concentrar no controle - pensamentos, valores e comportamentos de massa. É preciso trabalhar, vivenciar e exercer o que desejamos do mundo. Assim podemos trabalhar dentro da coletividade. Modelando nossos valores, modelamos o mundo.

Eduardo Marinho                                                                                      

sábado, 20 de agosto de 2011

O luxo como “pequeneza”



            A situação de pobreza sempre me intrigou, a miséria me chocava e eu não entendia. Sentia um certo constrangimento inexplicável do meu “falar correto”, das minhas roupas de marca, às vezes do meu tamanho, dos meus dentes impecavelmente tratados. Não que desejasse abrir mão da minha situação. Mas por quê a maioria das pessoas não tinha? Era uma sutil sensação de injustiça sem me sentir claramente culpado, apenas constrangido com o que pareciam privilégios nesses momentos, mas que tinham se incorporado em mim como o mínimo necessário.
            Não podia achar aquilo natural e inevitável, como me diziam e se acreditava à minha volta. Na verdade, fugia-se do assunto. Eu fui muitas vezes considerado um chato, fui evitado por vários grupos na adolescência, às vezes francamente hostilizado – não gostavam de mim. Tinha minhas boas relações, mas eram poucas e quase todas... como direi... bilaterais. Não fazia parte de grupos. Fora os esportes coletivos, claro. Aprendi aos poucos a ficar mais calado e prestar mais atenção – virtude que perdi de vista ao entrar na universidade e até hoje, vez por outra e apesar da vivência, me faz falta. Algumas vezes, consigo me controlar, mas nem sempre.
            Quando andei no nível da mendicância e vivi do que me era dado, encontrei gente boa e ruim em todas as classes, indiferentes e curiosos de todos os tipos. Mas era nítida a diferença de acolhimento entre os mais pobres dos pobres. Ali se dividem migalhas, com uma generosidade ímpar, quando se divide. A generosidade dos ricos, no mais das vezes, é à distância. Partilhei refeições feitas em latas de óleo sobre fogueiras, dormi sobre capim improvisado no cantinho da tapera, pendurado em rede, em caibros ou árvores, fui hospedado em palafitas sobre mangues, onde o banheiro é servido de um buraco no chão, pedaços de jornal enfiados num prego na parede de tábua e a gente escuta o barulho da merda caindo na água, lá embaixo.
            Boa recepção por parte dos que dispunham de sobras me deixavam reconhecido, agradecido, mas a recepção dos mais pobres me comovia. Tão pouco tinham, tão fácil dividiam... O dia seguinte pertencia a Deus e a luta era todo dia, sem feriado. Também senti a fome, vivi sem abrigo, como um aluno, atento, aprendendo, pesquisando à minha maneira, ouvindo as histórias, falando meu pensamento, reparando nas reações, na linguagem, absorvendo os códigos, percebendo os conhecimentos, as intuições e relações. Criei um grande carinho pelos sabotados, pelas pessoas em situação de fragilidade, uma ligação talvez moral, certamente afetiva, junto com a sensação de injustiça permanente, pedindo trabalho de reparação na estrutura social – a partir das raízes individuais internas para as externas, coletivas. Nasceu uma grande admiração pela resistência ao sofrimento, pela luta de sobrevivência, pelos saberes e sabedorias desenvolvidos quase por conta própria. Eu os sinto parte de mim, do meu grupo, merecedores de mais cuidados, pelos maltratos cotidianos impostos por essa estrutura social perversa.
            Certamente é por isso que me causa certo desconforto a presença, a proximidade ou a simples visão de luxo e ostentação. Uma espécie de constrangimento. Traz à lembrança a situação injusta, precária e abandonada em que vivem tantas pessoas, por um Estado que foi infiltrado, dominado por grandes empresas - as poucas pessoas mais ricas - e impedido de cumprir as leis mais básicas da sua própria constituição, na garantia de condições mínimas de vida com dignidade para sua população. O domínio das elites tornou o Estado criminoso, nos seus três pretensos poderes, e o colocou a seu serviço, eliminando direitos e roubando patrimônios públicos – o que é público é tratado como privado. Tenho verdadeira repulsa por privilégios, luxos e ostentações, embora não transfira essa repulsa às pessoas, apenas aos seus comportamentos e à sua indiferença. Meu desconforto é moral, causado pela situação, pela ligação direta da riqueza, da ostentação e do luxo com a criação da miséria absoluta, da sabotagem na educação, na informação, nos serviços públicos, com a falta de sentido na vida das pessoas – da miséria à pobreza e às classes intermediárias.
            Estes são meus sentimentos, meus pensamentos e minha visão de mundo. Não pretendo declarar verdades, nem tenho a expectativa de encontrá-los em outras pessoas. Se me desse ao trabalho e à arrogância de condenar comportamentos e valores dos quais discordo, viveria em conflitos pessoais inúteis, alimentaria sentimentos desagradáveis e nocivos – e não teria tempo nem espírito pra fazer os trabalhos que gosto e dão sentido à minha vida.
            Não recomendo nem pretendo voltar à situação de miséria onde, na verdade, nunca me senti. Eu pesquisava, aprendia, observava e absorvia o máximo possível. Desenvolvi afeto e solidariedade com aquelas pessoas em situação injusta. Não posso gostar ou desejar luxos, excessos, ostentações e desperdícios. Na minha visão, são expressões de grosseria moral e espiritual, de insensibilidade, de egoísmo, indiferença, enfim, de desumanidade, disfarçada com requintes de sofisticação. Para olhos mais solidários, de quem se sente parte do grande grupo humano ou além, da coletividade planetária, tais finuras e sofisticações são apenas uma capa frágil da sua real situação moral, de um ridículo inevitável e notória nocividade para a sociedade como um todo. Não se trata de condenar ninguém, mas de perceber com olhos próprios e refletir sobre o que se vê. E como e em nome de quê se vive.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Quem são os piratas da Somália?

A realidade da Somália expõe a nu e cruelmente a predominância do poder empresarial sobre o mundo, os Estados e as pessoas. A mídia quando fala "piratas somalis", esconde de forma suja a covardia que se faz com aquele povo africano.
Abraços a todos,
                           Eduardo.

Clique onde está escrito You Tube, e o vídeo aparecerá legendado em português.



¡Piratas! - 7 Translation(s) | dotSUB

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Luxo, fome e fúria












 Por:   David Brooks / La Jornada

A demanda de artigos de luxo, desde sapatos de 800 dólares e cosméticos de 1.300, até Mercedes Benz, de 200.000 dólares, está em alta, enquanto quase 46 milhões de estadunidenses dependem, mais que nunca, da assistência federal para comprar alimentos básicos e evitar a fome. Esta é a atual situação dos Estados Unidos.
O mercado de luxos registrou 10 meses seguidos de aumento de vendas, afirmou o New York Times. As vendas da joalheria Tiffany’s, Givenchy, Louis Vuitton, Gucci, BMW, Porshe e Mercedes Benz, entre outros, registraram fortes crescimentos.
Por outro lado, o governo federal informa que quase 15% da população depende de assistência alimentar, ou seja, 45,8 milhões de pessoas, o nível mais alto já visto, 12% mais que há um ano e 34% acima de há dois anos atrás. Para obter assistência alimentar federal (food stamps), os ganhos de uma pessoa devem ser inferiores a 1.174 dólares por mês (mais ou menos o preço de um par de sapatos Louis Vuitton).
A desigualdade econômica está clara. O economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel, diz que, só nos últimos 10 anos, os ganhos do 1% mais rico aumentou 18%, enquanto os dos trabalhadores caiu 12%. De acordo com análise do Instituto de Política Econômica (EPI), a riqueza está ainda mais concentrada no setor mais rico – mais de um terço da riqueza nacional está concentrado nas mãos desse 1%. Cerca de 20% dos lares, na escala econômica, contavam com apenas 4% da riqueza do país em 2007 e perderam parte disso na última recessão. De fato, em 2009, o 1% das habitações mais ricas tinha um valor líquido 225 maior que o da habitação típica. Uma desigualdade nunca vista.
Enquanto isso, os ricos pagam menos impostos que em qualquer período dos últimos 50 anos, reconheceu o próprio Barack Obama. Um novo informe do Centro para o Progresso Americano (CAP) descobriu que os milionários pagam 25% menos impostos hoje que em meados dos anos 90, e 1.400 milionários não pagaram nem um centavo de impostos, em 2009. Em grande parte devido às reduções fiscais feitas pelo governo de George W. Bush e prolongadas pelo de Barack Obama.
A ira popular contra os “representantes do povo” em Washington segue ardendo, segundo as pesquisas, exatamente porque lhes é atribuída a culpa por aplicar políticas que beneficiam uns poucos às custas de quase todos os demais. Cerca de 82% dos estadunidenses desaprova o desempenho do Congresso: o nível mais alto registrado pela pesquisa da CBS News/New York Times. Outra, da CNN, descobriu quase a mesma coisa. Mais de 4, em cada 5 pessoas, opinaram que o debate sobre a dívida tinha mais a ver com manobras políticas que com a busca do melhor para o país.
As pesquisas também demonstram que Washington faz exatamente o contrário do que deseja o povo. Por mais de dois contra um, os estadunidenses afirmam que a geração de empregos deveria ser uma prioridade maior que a redução dos gastos federais. 63% são favoráveis ao aumento de impostos dos ricos.
Mas, além de reprovar seus líderes, haverá conseqüências políticas? Alguns dizem que todos os eleitos sofrerão a ira popular, em 2012. Outros acreditam que Obama, apesar de ter gerado enorme decepção nas suas bases, não terá problemas graves, por um simples e cínico raciocínio. Como disse um estrategista democrata ao Washingtom Post, “o fato é que os liberais e progressistas não têm para onde ir”, além de votar em Obama e seu partido. Da mesma forma, um pesquisador democrata comentou, no New York Times, que, no caso de Obama, apesar das críticas das suas bases liberais a uma ou outra das suas iniciativas, no terreno eleitoral, “no final das contas estão seguros de uma coisa: vão odiar os candidatos republicanos. Então, sinceramente, não me preocupa muito uma base sólida ou estusiasmada”. Ou seja, o pensamento é que, para as bases progressistas, não há alternativas eleitorais.
“Precisamos de uma Praça Tahir não violenta”, diz o ex-vice-presidente, Al Gore. Diante do acordo para cortar bilhões em gastos, proposta dos republicanos, e das necessidades sociais, é necessária uma primavera estadunidensa (referência à primavera árabe) para resgatar o país aos direitistas, disse no seu canal de televisão, Current TV. Mas, para isso, disse o entrevistador, primeiro é preciso haver fúria.
“Eu acredito que o público está furioso, sim, mas também deprimido pela falta de lideranças e a ausência do sentimento de que é possível ganhar a luta. Os chamados populares a que Wall Street presta contas não levaram a nada, enquanto o dinheiro de Wall Street mantém sob controle os políticos e os ativistas se twiteiam entre si até à dispersão. Os ativistas condenam on line o presidente, mas fazem pouco para enfrentá-lo e exigir outro tipo de ação”, afirmou o jornalista veterano Danny Schechter, em sua coluna no Reader Supported News.
A imagem da classe política nas mãos dos mais ricos é documentada por todas as partes, com doadores milionários que financiam candidatos dos dois partidos. De fato, um novo informe do Center of Responsive Politics demonstra que Obama recebe ainda mais de Wall Street para sua reeleição, do que obteve em 2008.
Para alguns, as políticas econômicas de Obama, até o momento, não são diferentes das do seu antecessor, como a continuação das guerras e a omissão em pedir contas aos financistas e empresários, responsáveis por esta crise.
Talvez por isso não surpreenda tanto que Barack Obama dance confome a música de Bush, literalmente. Mark Knoller, da CBS, reportou que a campanha eleitoral do presidente está usando a canção “Só na América”, de Brooks e Dunn, nos seus comícios. George W. Bush a usou em sua campanha à reeleição, em 2004.

Tradução – Eduardo Marinho                                                             Boletim Telesur de 11 de agosto de 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Dia do trabalhador ou do trabalho?

            Pode parecer estranho publicar um texto sobre o 1º de maio em agosto. Mas é uma redação feita para o Núcleo Piratininga de Comunicação (http://www.piratininga.org.br/), em curso de comunicação popular. Claudia Sampaio e Vito Giannotti são os organizadores. E mestres de vida.
            A luta dos explorados é todo dia. Dos espoliados, dos mal servidos, dos sabotados, dos excluídos. Uma luta não só deles, e sim de todos que se pretendem participantes da coletividade humana. Mas precisa começar dentro de si mesmo, em cada um, e daí para a coletividade. Não de fora pra dentro, nem de cima pra baixo. De dentro para fora o trabalho ganha força, raiz, nutrição e substância.





No princípio era o caos. As fábricas eram escuras, úmidas, fechadas, barulhentas, cheias de fumaças, poeiras e resíduos venenosos. As engrenagens eram toscas, enormes, perigosas, qualquer descuido e moíam dedos, mãos, pés, braços, às vezes corpos inteiros eram esmagados entre rodas dentadas, correias de transmissão, rolos compressores. Era o princípio da chamada revolução industrial.

Os operários eram camponeses ou descendentes de camponeses expulsos dos campos pelas milícias da época, a serviço dos poderosos que tomavam terras para a criação de ovelhas e as plantações de algodão. A nascente indústria de tecidos na Inglaterra precisava de matéria prima para suas máquinas. Sem opção, a população expulsa e sobrevivente dos massacres sofridos pelos que resistiam, formava legiões de sem nada. Eles caminhavam sem rumo até as periferias dos centros urbanos, se aglomerando em situação de miséria e desespero, prontos a aceitar o trabalho insano nas condições terríveis das indústrias, sem nenhum direito.

Diante das multidões em desespero, mão de obra farta, os patrões não se importavam com as condições infernais de trabalho nas suas fábricas. Os mortos eram imediatamente substituídos, da mesma forma que os mutilados - estes eram, simplesmente, atirados à própria sorte, ao amparo dos próximos ou à mendicância.

Com o tempo – e com a força que a resistência ao sofrimento impõe – começaram a surgir organizações entre os trabalhadores. Crianças, velhos, homens e mulheres eram massacrados pelas condições de vida e de trabalho e os patrões, atentos, proibiam qualquer tipo de organização. Sabiam que seriam obstáculos à sua exploração desenfreada. Escolhiam os mais fortes e de pior caráter, para controlar os demais em troca de migalhas um pouco maiores. Capatazes, feitores, chefes, gerentes, cagoetes eram os olhos e ouvidos do patrão, armas e ferramentas de desunião e controle.

As primeiras organizações muitas vezes tinham que ser às escondidas, entre conversas rápidas, sussurros e combinações sob o olhar atento do patrão e seus xisnoves*, em reuniões noturnas e encontros em segredo. A luta foi árdua desde o início, o ódio, a covardia e a perversidade dos privilegiados não teve limites, muitos foram e são os mortos, os banidos, os perseguidos e penalizados por lutarem pelos direitos básicos, para não morrerem de fome, de cansaço, de acidente ou de abandono. São "baderneiros", dizem os patrões.

Num primeiro de maio, na Inglaterra de 1848, entra em vigor a primeira lei limitando o trabalho a dez horas por dia. As manifestações eram reprimidas com fúria pelas forças de segurança, muitas vezes terminando em massacres sangrentos. As bandeiras operárias eram tão freqüentemente banhadas em sangue e, depois, erguidas novamente, que a cor vermelha foi escolhida para simbolizar as lutas por direitos básicos, até hoje não atendidos pela sociedade, pelo Estado, em violação flagrante da sua própria constituição e demonstração clara do predomínio dos interesses empresariais, sobre os direitos da população como um todo.

Num primeiro de maio foi iniciada a greve geral nos Estados Unidos que resultou no massacre de Chicago, com dezenas de mortos, centenas de feridos, em 1886.

Quatro anos depois operários estavam organizados entre países, na Europa, nos Estados Unidos, na África e na América Latina houve manifestações, greves, barricadas, confrontos com a polícia. 1890. Em 91, o 2º Congresso da organização operária já conhecida como Internacional Socialista decreta o dia 1º de maio o Dia Internacional dos Trabalhadores.

Impotentes para evitar, os patrões se esforçam, todo ano, para transformar a data em comemoração festiva, de celebrações, espetáculos, sorteios e premiações, na clara intenção de distorcer o significado deste dia de luta dos explorados por condições dignas de vida e trabalho. Dia do trabalho é todo dia. O primeiro de maio é o dia dos trabalhadores.

                                                                                                                                 Eduardo Marinho

* xisnove – ou X-9, informante da polícia.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

É melhor em paz



         Quando alguém declara não acreditar em alguma história que conto, em vez de ofendido eu me sinto elogiado. Houve quem não acreditasse que eu fazia os brochinhos, em relevo no metal, com fechos em arame trabalhado com alicate e soldados com maçarico. Um camarada chegou a dizer que sabia onde eu comprava, em São Paulo. Eu explicava pra algumas pessoas do mesmo grupo como eu fazia a corrosão, a solda, e tal. O cara ainda disse que havia estado lá no dia anterior. Mentindo descaradamente, convicto de que era impossível eu ter feito os broches. Eu ri, a explicação terminara.“Vou tomar como um elogio” eu disse a ele, “cê tá achando meu trabalho tão bom que não é possível eu fazer à mão, tem que ter sido feito pela indústria, né não?” No silêncio que se fez, segui o caminho. O descrédito, quando não é uma provocação pura e simples, no fundo, é um elogio. Tão incrível que não pode ser verdade. Por quê se aborrecer?
         É direito de cada um acreditar ou duvidar do que quer que seja. Em caso de dúvida pode ficar como mentira, não é agradável, mas possível e respeitável, não tem problema. Arte é mentira, olhando pelo lado da criação se vê um conto, uma ficção. E gracias.
         Sinto uma grande gratidão pela vida, pelas possibilidades de ter vivido tantas histórias, tantas situações tão diferentes, tendo a pouca ou a falta de grana como o único ponto comum. Sei muito bem o que vivi e, se hoje tenho histórias pra contar, ser considerado mentiroso ou ficcionista por alguns não tem muita importância. Nestas histórias, há qualquer coisa de serviço. Vivências trazem ensinamentos, informações, advertências, orientações; o proveito depende de cada um, de fatores externos e internos. As histórias caminham pelo mundo procurando os que precisam dela ou que podem lhe dar proveito. Vi muitas vidas à minha volta, milhares de histórias de todos os tipos. A diferença é que tive o privilégio de estudar em boas escolas. Aprendi a me expressar, tive acesso à instrução como deveria ser para todos. Posso escrever o que vi e vivi. No meu pensar, qualquer privilégio gera uma obrigação moral com a população sabotada, roubada em seus direitos básicos – necessários a uma vida justa. Privilégios são vistos como superioridade social pela maioria, mas são, pra mim, dívidas morais com a coletividade. Não cobro de ninguém além de mim mesmo, não nasci pra cobrador. Cada um sabe de si e carrega sua própria consciência, sua própria história, seus plantios e suas colheitas. Não trato das escolhas feitas, mas das escolhas possíveis. E das impossíveis.
         Trabalhar com idéias, com reflexões e questionamentos é como semear a terra. Gosto de trabalhar com terras férteis, onde as sementes brotam. Cada semente tem suas circunstâncias ideais, suas indicações e contra-indicações, seus momentos e condições para crescer e frutificar. Cada terra tem suas características, seus momentos, na hora de plantar é preciso escolher a semente propícia às condições, para brotar, crescer e dar frutos. Não gosto de perder tempo e energia com terras áridas, onde se encontra mais conflitos, aborrecimentos e desgastes sem nenhum proveito, com freqüentes e evidentes prejuízos. Não se plantam sementes nas pedras ou na aridez.
         O trabalho de esclarecimento, conscientização e, sobretudo, sensibilização acontece melhor com calma, harmonia e concordância de propósitos. E a vida flui melhor, mais em paz. Discordâncias não precisam se tornar discórdias.   

A guerra mundial das empresas contra os povos

As classes médias são transformadas em zumbis do consumo
      A derrubada das torres gêmeas foi o incêndio do Reichtag estadunidense. Da mesma forma que Hittler usou os escombros do congresso alemão para concentrar poderes e começar a segunda guerra mundial, o império atual utilizou o “ataque” como pretexto pra iniciar a invasão do Iraque e a “guerra total ao terrorismo”, significando o terrorismo dos outros, pois não é outra coisa o que as forças ocidentais fazem no mundo árabe. Aliás, no mundo inteiro, nos cinco continentes, a cobiça e a desumanidade dos interesses das grandes empresas têm causado morte e sofrimento, destruição e tragédia.
         Essa explosão de guerras no oriente médio é apenas a parte mais visível, uma batalha na grande guerra mundial em que está envolvida a humanidade, em inconsciência quase plena. A pior guerra, com os piores inimigos, que se fazem de amigos, entram em nossa casa e em nossos pensamentos e nos fazem colaborar com eles pra nossa própria derrota. É a guerra das grandes empresas contra os povos.
         Infiltraram-se nos Estados, nas instituições, bancam campanhas eleitorais para ter seus próprios políticos, determinam leis e concessões, manobram a destruição do ensino público e sua constante sabotagem, controlaram a educação privada e a superior, impondo regras aos currículos para que se moldem aos seus interesses e aos orçamentos para privilegiarem interesses de poucos em prejuízo de muitos. Barbarizaram a saúde pública e privatizaram a maior parte dos serviços, a comando de laboratórios farmacêuticos, planos de saúde e indústria de equipamentos médicos. Controlam as comunicações com a mídia gorda, comercial, privada. Com sua publicidade massiva, suas novelas e programas, moldam comportamentos, formam valores, objetivos de vida, distorcem a realidade, sempre contra o povo e a favor dos poucos “poderosos”, das empresas, manobrando a coletividade para se deixar explorar e acreditar que o mundo é assim mesmo.
         Os sinais estão por todo lado. Na diferença entre uma delegacia de homicídios, precária, e uma de crimes contra o patrimônio, estruturada; entre o prédio de ciências sociais em qualquer escola universitária e o prédio de engenharia ou ciências tecnológicas de interesse empresarial. Na diferença de tratamento dado pelo poder público aos interesses empresariais e aos interesses da maioria da população; entre a consideração com os mais ricos e o desprezo pelos mais pobres. No descumprimento das leis principais da constituição do país, a garantia dos direitos básicos para uma vida decente, pelo próprio Estado. Inúmeros sinais em nosso cotidiano, naturalizado pelas distorções das informações e pela prática cotidiana que, progressivamente, foi se instalando na vida das coletividades, induzidas por uma mídia mentirosa, profundamente aplicada em controlar a mente e o comportamento da população. Superficializando a mentalidade, criando a necessidade do consumo como valor social, dividindo com a ideologia da competição desenfreada, produzindo uma vida angustiante em comportamento de manada, sem um sentido real e profundo, impondo o ter no lugar do ser.
         O inimigo ataca em toda parte, sempre sorrindo dentes brancos, olhos sedutores com juras de amor incondicional, tudo pela sua felicidade, enquanto rouba seus direitos, sua educação, sua consciência, sua vida, os patrimônios e riquezas da sociedade e as possibilidades de melhorar a situação de todos. O pior inimigo, que nos faz colaborar, mais que isso, sustentar esse sistema absurdo, desumano, com nossos comportamentos, nossos pensamentos, nossos desejos, nossas opiniões. Estimula-se o egoísmo, o vencer a qualquer custo, promete-se o paraíso aos vitoriosos e acena-se a todos com essa possibilidade impossível. As correntes da escravidão que nos aprisiona, hoje, são construídas com mentiras altamente planejadas por cérebros lapidados nas academias e implantadas no inconsciente das pessoas desarmadas de senso crítico pela falta de uma educação humanizadora e de informações verdadeiras. Não se recomenda lutar por direitos, mas sim por privilégios – isso é que dá lucro.
         Somos nós, como coletividade, que sustentamos o sistema. Induzidos, programados, desinformados, superficializados, cheios de preconceitos, ameaçados, iludidos ou acovardados, consentimos que o mundo seja assim, que a sociedade seja estruturada desta maneira. A solidariedade irrestrita é francamente indesejável aos que se sentem donos do mundo. Quando nos dermos conta e começarmos a pensar com independência, buscar informações nos meios alternativos, tomar posse dos valores pessoais, o sistema desmorona. Não há defesa mais poderosa que a consciência.
                                                                                                                  Eduardo Marinho, 8.8.11

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Qualidade de sentimentos, qualidade de vida, qualidade social





         Estou aprendendo a observar a qualidade dos sentimentos. Percebo cada vez mais a importância deles em nosso pensamento, na qualidade geral da vida e na maneira de sermos e de nos relacionarmos.
         Existem todos os sentimentos, mesmo os mais bárbaros, na maioria dos seres humanos, ainda que na forma de semente. Consigo imaginar situações em que me tornaria – eu, que sou tranqüilo – um monstro sanguinário, em circunstâncias específicas que prefiro não relatar, por hediondas que são. Sinto a necessidade de trabalho neste sentido, de observar, aprender, questionar e influenciar os sentimentos tanto em mim mesmo quanto os que produzo na coletividade, nos outros, dentro das minhas possibilidades, claro. Venho me empenhando neste aprendizado.
         Neste caminho há uma clareza crescente de percepções novas, o desenvolvimento da capacidade de sentir, de perceber os sentimentos que se produzem, antes que se manifestem, e interferir neles quando é possível. Um trabalho muito ligado à área da intuição. O saber acadêmico, racionalista, muitas vezes nega ou despreza essa área, empobrecendo em muito os potenciais da razão e do desenvolvimento realmente humano – o desenvolvimento que vejo, a mim parece mais desumano, egoísta, exclusivista, excluidor e explorador da maioria. A tendência racionalista das academias cria um sentimento de superioridade (abrindo distância das maiorias, consideradas inferiores) que se manifesta em desprezo e agressividade ou em benevolência e compaixão, de acordo com o caráter, da índole pessoal. Confunde-se falta de conhecimentos com falta de personalidade, falta de saber com falta de sabedoria. 
         Essa tendência alimenta sentimentos desequilibrados de arrogância e vaidade, de superioridade em lugar de responsabilidade, de direito a privilégios em vez de obrigações morais, que por sua vez alimentam a tendência racionalista do pensar acadêmico, em justificativa da própria existência como elite intelectual. Mas a forma como a academia é utilizada (sempre em benefícios das empresas, das elites e das suas minorias de sustentação, as classes médias altas) me dá a sensação de planejamento, de estratégia intencional.
         Bom, voltando ao assunto, observando a influência dos sentimentos no comportamento, nas ações e reações e nos pensamentos, tenho encontrado maneiras de, por exemplo, desarmar pessoas que se colocam em rota de colisão, partindo do momento em que se manifesta o sentimento que tende ao conflito – na fisionomia, na postura corporal, no tom de voz – e antes que ele se manifeste em atitudes, em palavras ou atos. Na maioria das vezes, bastam palavras de respeito às diferenças de opiniões e visões de mundo. Idéias pacificadoras simples e agradáveis à maioria. Diante de um eventual insulto, já não existe sentimento de ofensa - que é justamente o objetivo do insulto, no caminho do conflito primário. É fácil não se deixar levar, quando se consegue observar, com alguma isenção, os sentimentos envolvidos. O insulto tende a morrer na boca do agressor, se não encontra o retorno esperado. O aprendizado é proporcional à tolerância, ao interesse e ao respeito pelo outro – mesmo que o outro não saiba respeitar –, que criam a capacidade de absorver as lições que sempre se apresentam.
         Se no âmbito pessoal podemos perceber a total influência dos sentimentos na qualidade de vida e nas relações com pessoas, situações, acontecimentos e contrariedades, estendendo os olhos sobre a coletividade, vemos quanto desequilíbrio é produzido pela falta de atenção, de estudo e trabalho nesta área. Ao contrário, são estimulados os piores sentimentos, como egoísmo, vaidade, preconceitos, discriminações, por uma publicidade irresponsável cujo único objetivo é induzir ao consumo compulsivo, obrigatório para alcançar algum valor social. No interesse das empresas. O ensino público foi destruído e o privado foi direcionado aos interesses empresariais. Os bancos e as empresas viraram o centro do mundo, da vida, do universo. O mundo é apresentado como um imenso mercado invisível abrangendo todas as áreas das sociedades, a partir de dois troncos principais, o mercado de trabalho e o mercado de consumo, que devem ser disputados em competição permanente e sem tréguas por todos, em benefício de minorias numericamente insignificantes, mas que concentraram, ao longo dos séculos e por dinastias, os poderes que se impõem sobre os Estados, suas instituições e seus povos. Por isso os serviços públicos são tão precários e áreas estratégicas, como saúde, educação e segurança se encontram em estado de barbárie. Não é por incompetência, é intencional, é competência com os objetivos da concentração, que passa pela desinstrução e pela desinformação da maioria, pelo extermínio dos “excessos” e pela contenção dos inconformados.
         É preciso desenvolver a observação e a influência sobre os sentimentos, inclusive para perceber a quantidade de sentimentos induzidos pelas mídias, pelo ensino deturpado, pela publicidade massiva e pela propaganda ideológica alienante, que distorcem a realidade e escondem as causas de tanto sofrimento, tanta sabotagem, tanta covardia, tanto abandono. Fomos influenciados desde o inconsciente (e desde a infância) por técnicas de formação de opinião, de desejos, de valores, por manipulação midiática, por condicionamento cultural.
         Quando encaramos o irmão que discorda ou que apenas caminha ao nosso lado como adversário, sustentamos o sistema; quando desejamos ser melhores que os outros, ao contrário de sermos apenas o nosso melhor possível, na disposição de aprender mais e sempre, sustentamos o sistema; quando usamos marcas “de qualidade”, ignorando o trabalho escravo e a exploração extrema, a destruição da natureza e de coletividades em áreas de interesse econômico, o desrespeito e as violações constantes que essas empresas impõem aos povos de  todo o mundo, sustentamos o sistema; quando desejamos situações de riqueza, sem considerar que privilégios para poucos há muito tempo custam os direitos básicos das maiorias, sustentamos o sistema.
         Somos levados a colaborar com esse sistema de exploração desmedida do trabalho, de concentração de riqueza e poder nas mãos de minorias cada vez menores que não se sustentariam, se não fôssemos levados a colaborar, a consentir e a manter, massa de manobra modelada pela interferência da ideologia empresarial no ensino e entorpecida por uma mídia privada dominante e essencialmente empresarial.
         Adotamos valores planejados e implantados mesmo no inconsciente, com os conhecimentos da psicologia avançada dos estudos acadêmicos que são usados em publicidade, propaganda e márquetim.
         Somos convencidos de que a vida é uma competição e todos são adversários; que felicidade é consumir, desfrutar de excessos, patrimônios, facilidades, confortos e garantias; que o mundo é isso mesmo e não tem jeito, não se pode fazer nada a não ser entrar na corrente e disputar o seu espaço, lutar por si mesmo, nunca pela coletividade. Somos levados a não ver a miséria produzida por essa estrutura social desumana e concentradora, ou a vê-la como inevitável, certamente desagradável e injusta, mas inevitável realidade que não encontra explicação, a não ser atirando a responsabilidade sobre as próprias vítimas para justificar seu abandono à própria sorte – e não se pensa mais nisso.
         Prestando atenção aos próprios sentimentos e aos que nos rodeiam, percebemos aos poucos suas origens, seu nascedouro, suas motivações externas e inconscientes tornadas, aos poucos, conscientes. Ganhamos poder de influência sobre nossos valores, desejos e objetivos de vida, gradualmente os limpando dos condicionamentos mediocrizantes a que ninguém escapa e que nos causam uma vida de angústias permanentes e frustrações constantes, nos círculos viciosos entre o consumo e o trabalho, incluindo no consumo desde o básico para a sobrevivência – como a água – até as necessidades do espírito humano – cultura, integração, afetos, sentimentos,... –, tudo reduzido à qualidade de mercadoria.
         Quando desenvolvermos o sentimento de solidariedade irrestrita, quando desejarmos do mundo apenas o necessário para viver com dignidade e em harmonia com o coletivo, quando sentirmos todas as crianças como filhos comuns e os velhos como pais e avós de todos, quando a prioridade forem as situações de fragilidade, quando desenvolvermos os próprios valores, desejos e objetivos de vida relacionados com a harmonia social e a igualdade de oportunidades para todos, sem exceções, o sistema desmorona sem ruído, de inanição. Pois somos nós todos que o sustentamos, conduzidos como o burro puxa a carroça atrás das cenouras penduradas numa vara, sem alcançar.
         Sensibilizar, esclarecer, conscientizar, são tarefas que ganham em força e alcance quando partem de um trabalho interno, profundo e sincero, disposto a reconhecer erros e corrigir rotas, a qualquer momento.

Eduardo Marinho. 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

AVISO

Esse texto abaixo, que acabei de postar ("filtrado em mim, direcionado ao mundo"), foi escrito sob o impacto da perda de todos os contatos internéticos, pelo correio e pelo blogue. Eu considerava a possibilidade de perder tudo e já estava prestando atenção no que precisava fazer, ou seja, trabalhar no meu material de trabalho, que o bicho tá pegando do outro lado.

Como se pode ver, retomei o acesso, depois de quase duas semanas.

Abraços a todos,
                           Eduardo.

Filtrado em mim, direcionado ao mundo






      Gostaria de poder avisar a todos. Talvez não seja possível. Desde ontem, 8 de julho de 2011, meu acesso à minha parte da net tá vedado. Endereço, blogues, iutube, orcute e o escambau, a senha é recusada e nada resolve. Já tentei várias formas, apesar de semi-analfa internético, alguns amigos tentaram ajudar, sem arrumar nada. Ainda vêm outros, mais feras na coisa, mas já tô contando com o pior – e se estiver errado, melhor. Milhares de comunicações, perto de mil endereços, boletins de notícias, informações, idéias, arquivos preciosos, tudo sem acesso. Eu tava recebendo coisa de 50 imeios por dia, e o endereço continua no cabeçário do blogue, que tá pelos 1900 verificadores (melhor que “seguidores”), como falar com todos, sem acesso ao blogue? Na minha precária relação com essas tecnologias, me conformo com minha sorte e espero o acaso, pois tenho muito mais o que fazer. Fiz o que pude e abri a situação aos ventos. Os que se propuseram a ajudar virão conforme suas condições permitam, pois será um favor, já que não posso pagar.
      Posso tomar como um sinal, do destino, da vida, sei lá, um sinal. Faz tempo que sinto necessidade de me dedicar ao trabalho imediato, os desenhos, as frases, os textos, enfim, os papéis que ponho a circular pelo mundo que me cerca, me toca, material e espiritual. Afinal, é o que me põe em contato direto com minha matéria-prima e o destino do meu trabalho, as relações com pessoas, acontecimentos, pensamentos, comportamentos, com o mundo, em uma troca impossível pela internet, pois tocar corpo e alma juntos só é possível no contato direto. A net já deu embalo suficiente.
      A primeira entrevista, em novembro de 2009, fez aparecer o blogue e deu muito o que fazer, lançou minhas palavras no ar, causando reflexões, questionamentos, reações, da mesma forma que faço no cotidiano, há tantos anos, observando a sociedade e as suas relações, refletindo e colocando no meu trabalho. Calçadas, praças, eventos, feiras, assembléias sindicais, movimentos de contestação social, em todo lugar onde se concentrem pessoas de índole reflexiva, na luta por melhoras na vida em sociedade.
      Meu pensamento foi projetado longe, brotaram contatos, muitos, até ao exagero. Contatos mais distantes geraram chamados a palestras, a ser ouvido por coletividades reunidas, experiência nova e bastante interessante. Tenho a impressão de encontrar um número muito maior de exceções do que antigamente, as exceções eram raríssimas na multidão e chamavam muito mais a atenção. Sentados num auditório, não se distingue tão facilmente os que pensam por si e os que repetem os pensamentos planejados e impostos pelas empresas de comunicação. É o que me parece, uma estratégia de infiltração imperceptível, as exceções são quem tem condição pra mudar a estrutura da sociedade, tornando-a mais humana e não permitindo situações de miséria e ignorância. Mas voltando ao assunto, o outro lado desse alcance inesperado é o tratamento de superioridade que recebo em algumas circunstâncias. Muito difícil a resistência a olhares que atribuem um patamar superior ao pensar, à visão de mundo, confundindo a vivência com o ser.
      Se as experiências privilegiadas que pude viver deram base a formação da minha visão de mundo, através de muita observação, reflexão e vivência – para enxergar o que hoje acho óbvio –, o resultado é maior responsabilidade diante do grupo, do coletivo, da humanidade, e não ilusões de superioridades e sabedorias, em vaidade primária, um primitivismo de consciência, um obstáculo à evolução. Mas é preciso estar atento, o sentimento de superioridade é insinuante, adaptável, facilmente “justificável”, além de extremamente estimulado em nossa sociedade de consumo e competição, com infinitas variações, do grotesco ao quase imperceptível, da arrogância grosseira à benevolência atenciosa.
      Com a restrição da net, por “casualidade”, volto a me concentrar no trabalho material, a produção de desenhos, frases e textos. Nesse processo, devo circular mais pelo mundo e viver mais a realidade cotidiana da convivência urbana, no bairro, na metrópole, na região, no país. Saio da net pra cair no mundo, conforme as oportunidades forem se apresentando, os trabalhos que eu for fazendo. Perdoem os que ficarem sem resposta. O Claudemir Firmino, que pagou antes de mandar seu endereço, apesar de eu insistir pra ele fazer o contrário, na certa vai pensar que foi lesado. Na última comunicação, eu disse a ele, “não adianta nada pagar, se você não mandar o endereço”. Depois disso, não tive mais acesso. O gemeio entranhou a senha e me limou. O endereço tá lá, com certeza. A camisa vai estar pronta, Claudemir, agora é esperar a hora. Nem dá pra devolver a grana. Inda bem que não é muita.
      A vida deu muita volta nesse pouco tempo de internet. Inevitável reconhecer, no aumento de visibilidade, um crescimento no respeito e na consideração por parte de pessoas de tendência reflexiva, um elemento novo com quem já estava habituado ao desrespeito cotidiano do preconceito e do aparato de segurança, por extensão de todo o serviço público. Uma demonstração de reconhecimento ao esforço de enxergar razões de ser, na vida, mais plenas que as que são oferecidas – patrimônios, privilégios, posições sociais, consumos, confortos –, formação que não chega ao fim, que permanece em mutação constante. Somos o mesmo grupo, uma humanidade, dentro de um universo mal conhecido, em constante evolução, e essa idéia começa a sair do campo da abstração e vindo à realidade. Cada vez mais pessoas percebem o todo ao qual pertencem e começam a questionar seus valores implantados. Pouco a pouco, os comportamentos vão mudando, nenhum processo dá pulo, a não ser em hecatombes naturais.
      O que faço em pinturas, desenhos, frases, textos ou qualquer outra coisa reflete apenas minha vivência e visão de mundo, minha posição diante da sociedade que me cerca, por todos os lados. Não há mérito, há função, sem o que minha vida perderia o sentido – a minha, bem entendido, sem cobranças a outros. Preciso da satisfação interna em cumprir, mal e mal, o que considero minha obrigação dentro da coletividade, no todo planetário. Microscópico, insignificante, mas a minha parte do processo.
      Parece que devo mudar a direção do foco. Certamente formarei outra bagagem, uma nova vivência. Que será filtrada em mim e direcionada ao mundo. Como tenho feito, há muitos anos.

Eduardo Marinho                                                            11 de julho de 2011 – data da finalização do texto

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Dívida Pública

Todo ano, o orçamento brasileiro leva uma mordida que come metade do seu montante, para pagamento a bancos internacionais dos juros de uma dívida que não diminui, que foi constituída de forma obscura, que muda de nome para se atualizar e que foi investigada por uma CPI, evidentemente sem divulgação por parte da auto denominada "imprensa livre". Livre pra mentir, enganar e distorcer a realidade em favor dos mais poderosos e ricos e em prejuízo do povos, cada vez mais espremidos para enriquecer mais e mais os grandes bancos e empresas internacionais e seus cúmplices nacionais, concentrando mais e mais poder e aumentando mais e mais o controle privado sobre os Estados. No link abaixo, algumas investigações feitas pela CPI da Dívida Pública, na Câmara dos Deputados. Que transcorreu e acabou sob o silêncio da mídia.

http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/blog/2011/06/21/inflacao-divida-publica-2/

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O “Paraguai” africano



O Paraguai africano ou

Líbia – uma guerra trágica com pretextos patéticos


O que os países que representam o império da atualidade, econômico-financeiro, estão fazendo à Líbia é o mesmo que foi feito no Paraguai, em circunstâncias e condições de outra época, mas essencialmente a mesma coisa.

O índice de pobreza é baixíssimo, o serviço público e gratuito é de qualidade. Não há revolta popular, na Líbia. O que há é o investimento numa oposição fraca e desorganizada, com treinamento, armas, instruções, contratação de homens, um trabalho de serviços secretos, fomentando a derrubada do regime líbio pra mudar sua posição política na direção de favorecer as grandes empresas do império, que já negociam por lá, mas sem as facilidades que gostariam e às quais estão mais que acostumadas, com os limites impostos pela política de Kaddafi. Ele sempre foi uma pedra no sapato dessas mega-empresas, antes atreladas aos Estados mais ricos, agora no comando. Só afrouxou um pouco quando viu o que os Estados Unidos fizeram com o Iraque. Até então, nem negociava com as petroleiras ocidentais, a não ser através da sua estatal. Aí permitiu a entrada delas em operação no território líbio, mas impondo regras e limites. Há pouco tempo, apresentou a proposta de criação de uma moeda única africana, desligada do dólar, na ONU. Alguns países africanos demonstraram interesse e quase aconteceu, teve que rolar movimentação rápida dos poderosos e suas formas de pressionar os Estados via econômica, política ou militar. Os banqueiros internacionais ficaram furiosos e resolveram derrubar Kaddafi, de qualquer maneira. Afinal, são eles quem financia o controle das maiores máquinas de guerra do planeta, sustentando governos em todas as suas instâncias e ditando as políticas dos Estados. A Líbia já era um péssimo exemplo, há muito tempo, e essa foi a gota d’água. As revoltas no mundo árabe, justamente devido à implantação da políticas de geração de lucro e miséria para empresas e povos, respectivamente, levantou a poeira e favoreceu o início do movimento armado, devidamente distorcido pelas mídias. A campanha dos "grandes meios de comunicação" prepara a opinião pública, com pretextos patéticos para uma “guerra humanitária” (absurda contradição, um paradoxo em si), os ataques aéreos, a destruição da infra-estrutura do país e o suporte aos "opositores", ignorando-se as cifras de mortes entre a população civil. Guerra humanitária! Hipocrisia sem limite, isso sim.

O Paraguai era o país mais independente da América Latina. Recusava os empréstimos oferecidos pelos banqueiros ingleses, apesar da insistência destes em “investimentos em infra-estrutura” que, na verdade, amarrariam o país em dívidas, como estavam amarrados todos os países constituídos na América Latina, menos o Paraguai. Este desenvolvia suas tecnologias dando bolsas de estudos a estudantes paraguaios para que fossem aprender as tecnologias européias em Londres, Paris, onde estivessem. Com isso formou seu parque industrial, garantiu independência econômica e evitou a intromissão nos assuntos do país. Por isso se juntaram Brasil, Uruguai e Argentina para destruir o Paraguai, orquestrados pela Inglaterra. Suas fábricas foram destruídas, os destroços atirados nos rios, 40% da população foi morta, mais de 90% dos homens, as mulheres foram estupradas, muitas raptadas pelos homens dos exércitos e trazidas na viagem de volta, como diversão. Os puteiros das cidades se encheram de paraguaias. O arquivo nacional paraguaio foi roubado e está até hoje no Brasil, sem prazo pra devolução – imagino o que não deve haver ali em revelações escandalosas sobre a própria guerra, suas motivações e conseqüências.

Bem, há diferenças brutais, é claro, a Líbia é um país do petróleo, o mundo é muito outro, mas há sempre a semelhança da necessidade de destruir o que não se submete, de apresentar massacres e destruições como necessidades, de conduzir a opinião pública, de alegar pretextos mentirosos para atingir objetivos escondidos. Duas nações pequenas e valentes, que não se curvaram às potências do momento e se tornam vítimas da ambição genocida dos poderosos do mundo.

Abaixo, trechos de um artigo que recebi ontem, só pra ilustrar.

“ONU Constatou em 2007, sob o governo de Kadafi:


1 - Maior Indice de Desenvolvimento Humano (IDH) da África (até hoje é maior que o do Brasil);
2 - Ensino gratuito até a Universidade;
3 - 10% dos alunos universitários estudam na Europa, EUA, tudo pago;
4 - Ao casar, o casal recebe até U$$50.000 para adquirir seus bens;
5 - Sistema médico gratuito, rivalizando com os europeus. Equipamentos de última geração, etc...;
6 - Empréstimos pelo banco estatal sem juros;
7 - Inaugurado em 2007, maior sistema de irrigação do mundo, vem tornando o deserto (95% da Líbia), em fazendas produtoras de alimentos.;


Porque detonar a Líbia então?


1 -Tomar seu petróleo de boa qualidade e com volume superior a 45 bilhões de barris em reservas;
2 - Fazer com que todo mar Mediterrâneo fique sob controle da OTAN. Só falta agora a Síria;
3 - O Banco Central Líbio não é atrelado ao sistema mundial Financeiro. Atrelá-lo. Suas reservas são toneladas de ouro, dando respaldo ao valor da moeda, o dinar, e desatrelando das flutuações do dólar.


O sistema financeiro internacional ficou possesso com Kaddafi, após ele propor, e quase conseguir, que os países africanos formassem uma moeda única, sem atrelamento ao dólar.
A OTAN comandada pelos EUA, já bombardearam as principais cidades Líbias com milhares de bombas e mísseis que são capazes de destruir um quarteirão inteiro. Os prédios e infra estrutura de água, esgoto, gás e luz estão sèriamente danificados;
As bombas usadas contem DU (Uranio depletado) tempo de vida 3 bilhões de anos (causa câncer e deformações genéticas);
Metade das crianças líbias está traumatizada psicológicamente por causa das explosões que parecem um terremoto e racham as casas;
Com o bloqueio marítimo e aéreo da OTAN, principalmente as crianças sofrem com a falta de remédios e alimentos;
A água já não mais é potável em boa parte do país. De novo as crianças são as mais atingidas;
Cerca de 150.000 pessoas por dia, estão deixando o país através das fronteiras com a Tunísia e o Egito. Vão para o deserto ao relento, sem água nem comida...
Se o bombardeio terminasse hoje, cerca de 4 milhões de pessoas estariam precisando de ajuda humanitária para sobreviver: Água e comida.
De uma população de 6,5 milhões de pessoas.”

Os dados acima foram retirados de www.globalresearch.ca
Em http://titaferreira.multiply.com/market/item/1978/1978

"A libia dispõe de uma Holding de investimentos com valores superiores a 65 bilhões de dólares e estes investimentos estão diversificados em várias partes do mundo. Inclusive no Brasil, na obra de Jirau.
Nome da Holding: Libya Arab Africa Investiment Company (LAAICO)"

www.paklibya.com.pk/


Diversas Fontes:
http://rio-negocios.com/do-financial-times-ao-juventus/
http://www.araboo.com/dir/libya-holding-companies
http://www.africa21digital.com/noticia.kmf?cod=10168647&indice=760&canal=402

                                                                                                               Helio Pereira


A Grécia, o mundo e nós com isso



 
Temos à nossa frente um painel demonstrativo. A estrutura “social” está exposta. Um parlamento cercado pela população em fúria, contida pela polícia, pancadaria, gás lacrimogênio e bala de borracha. Enquanto o sistema de segurança é lançado sobre os cidadãos em geral pacatos, os que se dizem seus “representantes” votam um pacote de medidas legislativas retirando direitos e benefícios sociais, reduções em salários e aposentadorias, por imposição de entidades financeiras mundiais, em nome dos seu lucros. A subjugação de países pelo poder privado está entrando na Europa pela Grécia, o irmão pobre da família européia. Já se estende a outros. Portugal e Espanha estão na linha. Os direitos sociais conquistados pelos povos europeus são retirados com a chegada do neoliberalismo, o controle das empresas sobre os Estados. A população protesta, contida pelas forças de segurança, cada vez mais especializadas na contenção de massas.



“Stathis Kouvelakis, professor de economia política em Londres, sublinha o simbolismo das imagens de manifestações em frente ao parlamento que têm corrido o mundo. "É o sistema político contra o povo. Existe uma ruptura de legitimidade profunda", declarou o investigador ao diário francês Le Monde.” *

Os sinais estão aí. Compare-se uma delegacia de crimes contra o patrimônio com uma de homicídios. Em qualquer universidade, a área social é relegada a segundo plano, em beneficio das áreas tecnológicas, ligadas aos interesses empresariais. Os bairros ricos são atendidos, as comunidades pobres são esquecidas, a não ser aquelas exceções escolhidas para servirem como provas do esforço feito para solucionar os problemas, vitrine eleitoral e hipocrisia social. O ensino público é sabotado em todos os sentidos, a saúde pública é caos e barbárie, enquanto não faltam financiamentos para grandes empresas e dinheiro no tal “superávit primário”, na verdade dinheiro pra bancos internacionais, metade do orçamento da união, a pagar os juros de uma dívida que não acaba e carrega o nome de “dívida pública”, apesar do público não entender bem como, quando e onde se fez essa dívida toda, nem o que foi feito com o dinheiro. O patrimônio público, propositalmente mal administrado pra gerar pretexto, foi entregue a grandes empresas, cujo único objetivo é o lucro, apesar das juras publicitárias de amor e boa vontade. O patrimônio e o lucro valem mais do que a vida, estabeleceu-se uma hierarquia onde o valor da vida está atrelado ao valor das coisas, a vida da maioria das pessoas vale muito pouco ou nada, sempre dependendo das posses. Desumanizou-se a sociedade, a vida, os desejos, as visões de mundo. O medo é semeado às mãos cheias, as pessoas atiradas umas contra as outras, em competição permanente e infernal. Não há democracia além da fachada. A sociedade é controlada do escuro, dos bastidores, onde a mídia não vai, pois pertence aos próprios controladores. Os falsos jornalistas mentem, omitem, enganam, distorcem, fabricam uma realidade falsa e incompreensível, atirando culpa às vítimas e enaltecendo vampiros da sociedade e seus funcionários midiáticos, as “celebridades”. O diploma não faz o jornalista de verdade. E a mídia privada, gigante e dominante, emprega os jornalistas da mentira e do entretenimento narcótico, superficializante. Com raríssimas exceções.

Entorpecidos pelos narcóticos midiáticos, sustentamos o sistema que nos destrói a alma, desinstruídos, desinformados, acreditando em mentiras, enganados sem defesa. Construímos, mantemos e sustentamos as grandes empresas, que controlam o Estado e as políticas públicas em prejuízo da população, enquanto a mídia nos convence de que é isso mesmo, tudo muito natural, político não presta – embora não deixe de existir e atuar na administração da sociedade –, a vida é uma competição desenfreada, qualquer um pode ser um vencedor, com esforço, progresso precisa de destruição, felicidade é consumir, possuir e desfrutar, tudo em excesso, enriquecer é o objetivo da vida, a medida de valor é a riqueza, a ostentação, a arrogância. Sentimentos e emoções são monitorados pela tela, com quadros melodramáticos, novelas, programas de futricas e outras baixarias.

Quando deixarmos de acreditar nessas mentiras e em muitas outras, os elos das correntes que nos escravizam, que nos prendem a uma vida sem sentido, angustiante e frustrante, irão se rompendo, até que desapareçam. E nada, nenhum organismo de repressão ou controle, vai poder impedir o processo. Está em curso. Começa dentro, na alma de cada um, e vai transformando as visões, os comportamentos, os valores, os desejos, os objetivos de vida, as formas de relacionamento e posicionamento, de participação nas coletividades. Transformando os sentimentos, as ações e as reações. Um processo de contágio vibracional se propaga, se multiplica, ainda pouco a pouco, mas em ritmo crescente. Muitos trabalham neste sentido, denunciando pacificamente as mentiras, instruindo, conscientizando, pois somos nós quem constrói, quem mantém, quem sustenta todo esse sistema, alienados, induzidos, enganados, como o burro puxa a carroça tentando alcançar as cenouras na vara, que não alcançará até levar sua carga ao destino morro acima e, às vezes, nem assim.

Quando retirarmos nosso consentimento, deixarmos de perseguir as cenouras, nos recusarmos a competir e formos solidários, a estrutura desmorona.

                                                                                                                                   Eduardo Marinho

* Boletim Carta Maior, 30 de junho de 2011 http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17994&boletim_id=950&componente_id=15358)

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Estado não pode lavar as mãos diante de mortes anunciadas (mas lava, na cara de pau)

Publicado em 30.05.2011 - por CPT

A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) reputa como muito estranhas as afirmativas de representantes da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Pará, do Ibama e do Incra que disseram no dia 25 de maio desconhecer as ameaças de morte sofridas pelos trabalhadores José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, assassinados a mando de madeireiros no dia 24, em Nova Ipixuna (PA). O ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho, chegou a afirmar que o casal não constava de nenhuma relação de ameaçados em conflitos agrários, elaborada pela Ouvidoria ou pela Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo.

A CPT, que desde 1985 presta um serviço à sociedade brasileira registrando e divulgando um relatório anual dos conflitos no campo e das violências sofridas pelos trabalhadores e trabalhadoras, com destaque para os assassinatos e ameaças de morte, desde 2001 registrou entre os ameaçados de morte o nome de José Claudio. Seu nome aparece nos relatórios de 2001, 2002 e 2009. E nos relatórios de 2004, 2005 e 2010 constam o nome dele e de sua esposa, Maria do Espírito Santo. Pela sua metodologia, a CPT registra a cada ano só as ocorrências de novas ameaças.

Também o nome de Adelino Ramos, assassinado no dia 27 de maio, em Vista Alegre do Abunã, Rondônia, constou da lista de ameaçados de 2008. Em 22 de julho de 2010, o senhor Adelino participou de audiência, em Manaus, com o Ouvidor Agrário Nacional, Dr. Gercino Filho, e a Comissão de Combate à Violência e Conflitos no Campo e denunciou as ameaças que vinha sofrendo constantemente, inclusive citando nomes dos responsáveis pelas ameaças.

No dia 29 de abril de 2010, a CPT entregou ao ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, os dados dos Conflitos e da Violência no Campo, compilados nos relatórios anuais divulgados pela pastoral desde 1985. Um dos documentos entregue foi a relação de Assassinatos e Julgamentos de 1985 a 2009. Até 2010, foram assassinadas 1580 pessoas, em 1186 ocorrências. Destas somente 91 foram a julgamento com a condenação de apenas 21 mandantes e 73 executores. Dos mandantes condenados somente Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de ser um dos mandantes do assassinato de Irmã Dorothy Stang, continua preso.

As mortes no campo podem se intitular de Crônicas de mortes anunciadas. De 2000 a 2011, a CPT tem registrado em seu banco de dados ameaças de morte no campo, contra 1.855 pessoas. De 207 pessoas há o registro de terem sofrido mais de uma ameaça. E destas, 42 foram assassinadas e outras 30 sofreram tentativas de assassinato. 102 pessoas, das 207, foram ou são lideranças e 27 religiosos ou agentes de pastoral.

O que se assiste em nosso país é uma contra-reforma agrária e é uma falácia o tal desmatamento zero. O poder do latifúndio, travestido hoje de agronegócio, impõe suas regras afrontando o direito dos posseiros, pequenos agricultores, comunidades quilombolas e indígenas e outras categorias camponesas. Também avança sobre reservas ambientais e reservas extrativistas. O apoio, incentivo e financiamento do Estado ao agronegócio, o fortalece para seguir adiante, acobertado pelo discurso do desenvolvimento econômico que nada mais é do que a negação dos direitos fundamentais da pessoa, do meio ambiente e da natureza. Isso ficou explícito durante a votação do novo Código Florestal que melhor poderia se denominar de Código do Desmatamento. Além de flexibilizar as leis, a repugnante atitude dos deputados ruralistas, que vaiaram o anúncio da morte do casal, vem reafirmar que o interesse do grupo está em garantir o avanço do capital sobre as florestas, pouco se importando com as diferentes formas de vida que elas sustentam e muito menos com a vida de quem as defende. A violência no campo é alimentada, sobretudo, pela impunidade, como se pode concluir dos números dos assassinatos e julgamentos. O poder judiciário, sempre ágil para atender os reclamos do agronegócio, mostra-se pouco ou nada interessado quando as vítimas são os trabalhadores e trabalhadoras do campo.

A morte é uma decorrência do modelo de exploração econômica que se implanta a ferro e fogo. Os que tentam se opor a este modelo devem ser cooptados por migalhas ou promessas, como ocorre em Belo Monte, silenciados ou eliminados.

A Coordenação Nacional da CPT vê que na Amazônia matar e desmatar andam juntos. Por isso exige uma ação forte e eficaz do governo, reconhecendo e titulando os territórios das populações e comunidades amazônidas, estabelecendo limites à ação das madeireiras e empresas do agronegócio em sua voracidade sobre os bens da natureza. Também exige do judiciário medidas concretas que ponham um fim à impunidade no campo.

Goiânia, 30 de maio de 2011.
A Coordenação Nacional da CPT

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.