terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Feira, estradas e Caetité

Seguindo a estadia no Capão, seguiram os acontecimentos. Estou com seis encomendas embaladas e prontas pro envio, até hoje sem postar. Um dia fomos a Palmeiras resolver umas coisas, levei os tubos com desenhos pra remeter. Paramos pra comer na chegada, estacionando ouvi o barulho da tampa de trás da kombi, estranha sensação - a de que poderia ter caído coisa do bagageiro na turbulenta estrada de terra, cheia de subidas, descidas e sacodes gerais. Fui conferir, estava mesmo aberta, já olhei esperando ver o tamanho do prejuízo. Dei falta de três das encomendas e, incrivelmente, mais nada. Caixas, estepe, bolsas, ferramentas, cajón, tava tudo ali. Lamentei pelas encomendas, com alívio porque podia ter sido bem pior. Mas perdi o ímpeto de ir ao correio e decidi refazer as remessas em casa. Na volta ao Capão, fui avisado de que pessoas andando pras trilhas haviam encontrado uns tubos que pareciam encomendas na estrada, um deles atropelado, mas dois outros intactos. Afinal, voltaram à noite pras minhas mãos, através de amigos que conheciam as pessoas que acharam. Alívio, congratulações, retribuições foram feitas, as encomendas recuperadas. Os desenhos atropelados foram substituídos, de amassados que estavam. Na verdade gosto desses amassados, marcas são cicatrizes de vivências. Separo pra interferir depois, com tintas ou não, e dificilmente ponho à venda. Cicatrizes são marcas de histórias. Ganharam personalidade própria, ficam guardados pra ocasiões especiais em que são presenteados. Mas a partir daí a viagem ganhou um ritmo que não permitiu a remessa dos seis, novamente juntos, até hoje que estou em Beagá, em pleno carnaval.

Fomos a Feira de Santana, convite na UEFS. No caminho, a gruta sacralizada que já tinha me chamado a atenção em outras passagens foi fotografada. Na paisagem impressionante da chapada, a religiosidade sertaneja mostra suas peculiaridades. Não parei nem pesquisei essa gruta, há um pequeno restaurante caseiro na estrada - estava fechado - e marcas de peregrinação no caminho até a pedra, onde há uma cruz branca na entrada da caverna.

São trezentos e cinquenta quilômetros até Feira. Chegamos no fim da tarde, quase na hora da palestra, fomos ao local e rolava um papo com desabrigados - os chamados "moradores de rua". Assisti um pouco, mas o cachorro se ouriçou com as palmas e roubou a cena, me obrigando a sair com ele do auditório. Fomos à casa dos nossos anfitriões, Vinícius, Ingredy e Iggor, aí banho, janta e toca de volta pro auditório. Expusemos também, claro, dormimos e retornamos ao Capão no dia seguinte, já na preparação pra descida de volta. A palestra estava cheia de gente e interesse, o sentimento de proveito justifica todo o esforço.

Auditório do módulo 2, na Universidade Estadual de Feira de Santana.
De Feira voltamos ao Capão, já no preparo pra começar a viagem rumo sul, com a primeira parada em Caetité. Saímos pela estrada de Seabra, onde Celestina exigiu um pneu novo. Eu não havia entendido um caroço surgido na sola, que acabou consumindo a borracha até aparecer a lona. Mas o borracheiro esclareceu tudo, alguma pancada forte arrebentou os arames internos e aí a pressão do ar estufou a área, desgastando o pneu. Com a quantidade de estradas de terra por onde temos passado, não é de se estranhar, algumas em estado tão precário, com tantas pedras, que a velocidade precisa ser a de caminhada a pé. Às vezes dá pra pegar uma velocidadezinha maior, sempre com o risco de empedrar depois de uma curva ou uma lombada - e é aí que tá o perigo, de repente encrespa em pedras ou buracos e fica difícil evitar algumas pancadas.

Seguimos de Seabra em sentido leste, até Lagoa de Dionísio, onde viramos pro sul, estrada ao longo da chapada no lado oposto a Lençóis, oeste da região. Eu tinha visto o mapa no gúgol e era o menor caminho. O que esse gúgol traíra não avisou era que as estradas por ali estavam em péssimas condições, desde sempre. Fomos em asfalto até a primeira cidade, Ibitiara, ali paramos pra comer e pedir informações. A expressão no rosto das pessoas era inequívoca, a estrada era terrível. Mas já estávamos ali e seguimos adiante. Houve até quem duvidasse da Celestina, "com aquela kombi ali? Cês não chegam lá não". Ora, minha senhora, não tem arrego, vamos em frente. Dali a Novo Horizonte o caminho foi duro, a estrada era muito ruim. Realmente mais perto, mas a buraqueira obrigava à lentidão. Foram mais de quatro horas pra percorrer os oitenta quilômetros.        
       
O sol acabara de se pôr quando, numa das encruzilhadas, encontramos uma placa indicativa improvisada, a primeira legível. O caminho passava por Novo Horizonte e seguia pra Ibiajara. Anoiteceu e a estrada, toda esburacada e cheia de pedras, não permitia desenvolver velocidade acima da caminhada. A impressão era de que não tinha fim, ao longe não víamos nada, nenhuma luz. Uma hora pedi a Clara pra fotografar a estrada pelo parabrisa, em movimento mesmo. Ficou uma imagem meio surreal, mas eu gostei.
A máquina tava com flash, não houve jeito de tirar.
                                                                                 Havia bifurcações, entradas, e eu no instinto, escolhendo, raras placas indicativas, algumas ilegíveis. Chegamos em Novo Horizonte, passamos, continuava estrada de terra, pior, mais esburacada e empoeirada. Mais bifurcações e entradas. Depois de muito tempo sem encontrar nada, cruzamos um cara de moto, fiz sinal e ele parou. Perguntei se era a estrada certa, ele coçou a cabeça e, enquanto confirmava com um aceno, disse "mas tem uma serrinha terrível de passar aí, a estrada vai piorar muito". Nós nos olhamos sem dizer nada, nem precisava - voltar nem pensar -, vamos em frente. A gente já tinha uma dica, dada em Novo Horizonte, "quando encontrar uma ladeirona braba, repare uma saída antes, de pedra, meio escondida no mato, passe por ali que contorna o morro e sai do outro lado". Tão escondida no mato que passamos direto, subindo uma "parede" de pó e buracos até ficar impossível. Aí percebemos que era a "ladeirona braba", descemos de costas, de um lado o barranco, do outro um abismo escuro. Pisca-alerta ligado, por via das dúvidas, bem devagar, mas como não passava nada, não houve problemas. Passamos pela estradinha de pedras, também inclinada ao extremo mas, com a aderência melhor, passamos.
                                                                              
Estávamos na BA 152 e, até chegar a um asfalto, muito precário ainda, passamos por Ibiajara e Tanque Novo. Aí começou um asfalto tão esburacado que me fez ter saudade da terra. Era a BA 156, nos levou à BR 430, aí, sim, uma estrada transitável. Chegamos a Caetité no início da madrugada. Thulio e Ailton nos esperavam na entrada da cidade. A pousada MCM, de Márcio e Ione, que nos acolheram, ficava ao lado, diante de uma praça, ao lado de um quartel.

A exposição foi no dia seguinte, na praça da árvore. Pra minha surpresa dois policiais armados levaram o som e instalaram. Eram amigos dos que me convidaram, músicos ambos. A exposição começou bem antes da palestra, coisa rara, ficamos por ali papeando, trocando idéias, enquanto chegava mais gente. A data não favorecia, véspera de carnaval, mas veio gente suficiente pra fechar o círculo da arena no meio da praça. Roquenrou, o cão, andou livre na área até a hora de começar o papo, aí se recolheu - ou foi recolhido - à Celestina, ali bem próxima.

Chegamos cedo, armamos a exposição e esperamos o povo chegar. Celestina ficou perto.
À noite, palestra - de camisa vermelha, falo (com microfone) ao fundo. Clara e Tito na exposição.
O dia seguinte, sábado "de carnaval", tomamos o rumo de Montes Claros, a caminho de Belo Horizonte. Paramos pra dormir a 50 km de Sete Lagoas, às quatro da manhã. Asfalto bom é outra coisa.

32 comentários:

  1. meu chapa,tu vai para aqui em Bh em qual lugar ?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tô parado aqui em Beagá, tratando dos dentes até amanhã, quarta de cinzas. E hospedado na casa do dentista. Não vai dar pra expor. Quinta vou expor em Sete Lagoas, com palestra. De lá desço pro Rio.

      Excluir
    2. Já saiu de Bh? Venha para ficar mais e expor, tem muita gente querendo conhecer seus trabalhos por aqui...

      Excluir
    3. Não saí, vou amanhã. Hoje vou no bar Sheik, perto de onde estou hospedado, na rua Francisco Deslandes, até depois das dez horas, talvez onze. Há crianças no grupo, por isso não posso determinar. Elas são prioridade.

      Excluir
    4. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
    5. Poxa, tava sem internet esses dias e só agora vi que cê tava em Beagá, Eduardo. Queria conhecer tu, seus trampos, dar um alô pra Celestina... (rs) Mas tudo bem, haverão outras oportunidades. Quem sabe num rolê no RJ...

      Abraços!

      Excluir
    6. Vibe máxima irmão. Não vejo a hora de pegar o mundão. To partindo em busca da felicidade, diminuir minhas dores e aumentar minhas alegrias, saudade faz parte sei que vou sentir, não vou fujir, vou seguir, buscar evoluir algo aqui dentro de mim. Tem muito amor por ai. Ame o próximo e o amor se aproxima se esquivando das tribulações do dia dia... Preto Poeta.

      Excluir
    7. Eduardo que dia vc vem em Brasilia? Quero muito vê uma exposiçao sua troca uma idéia....

      Excluir
  2. EDUARDO...... Vc fala por mim...... Eu to nessa estrada, despertando em mim a consciência e responsabilidade que nós temos uns com os outros e mantendo o sentimento de afetividade diante dessa torre de babel. Infelizmente moro fora do Brasil, mas a minha totalidade sempre voltada pra essas preocupações e questões sociais que arruinam o nosso Brasil, mas não é só ai que tudo acontece só que aqui é de uma forma diferente. Não existe pobreza onde moro mas uma competitividade muito grande uns com os outros e um tratamento de inferioridade e superioridade muito grande. Poxa, é demais ouvir tuas palavras, sempre me achei diferente de tudo e sou chamada de maluca e uma sonhadora na língua de John Lenon.... Seria muito bacana trocar ideias com vcs.....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo com vc! Fora do Brasil a competitividade é terrível! Sinto falta dos malucos brasileiros! Nós somos um povo mais amoroso. Somos mais Unidos! Grande abraço!

      Excluir
  3. Eduardo meu querido venha pra Petrolina. Admiro muito seu trabalho, quero ter a oportunidade de lhe conhecer e apresentar nossa Petrolina(PE) e Juazeiro(BA) que são vizinhas. Venha nos agraciar com suas paletras e artes. Um abraço.

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. Eduardo venha visitar CABO FRIO-RJ. Vc já esteve aqui ? É interior do Rio, Região dos Lagos. Abraços amigo!

    ResponderExcluir
  6. Cê costuma expor em Niterói mesmo ou só em Santa Tereza quando tá pelo Rio? Adoraria para pra bater um papo contigo qualquer hora!

    ResponderExcluir
  7. Poxa, perdi sua palestra e exposição de seus quadros em Caetité! Eu moro ao lado da cidade, teve pouca divulgação, acabei não ficando sabendo..

    ResponderExcluir
  8. Eduardo, chega no rio para expor que dia? Quero muito conhece-lo! Beijos!

    ResponderExcluir
  9. Eduardo, chega no rio para expor que dia? Quero muito conhece-lo! Beijos!

    ResponderExcluir
  10. Eduardo, se eu soubesse que você estava no Capão, com certeza iria te conhecer.

    ResponderExcluir
  11. Sou um jovem de 20 anos e sou teu fã desdos 18! Aprendi MT com você, hoje me sinto uma pessoa melhor !!!
    Aparece em Recife PE !!!! Iria adorar te conhecer !!! Novamente sou teu fã!!

    ResponderExcluir
  12. Venha para Porto Alegre. Tem lugar para ficar.

    ResponderExcluir
  13. Eduardo, venha á Porto Alegre, Por favor!! Muita gente precisa das tuas palavras, quem sabe assim o povo muda o foco, do fútil para o útil. Obrigada irmão, fique em paz!!

    ResponderExcluir
  14. Tenho 31 anos e saí da "bolha" aos 15. Minha vida foi batizada na estrada naquele momento. Eu sabia que a partir dali, meu mundo iria mudar e meu primeiro destino foi pra São Thomé das Letras. Me chamaram de bicho-grilo, hippie , maluca de br e o escanbal mas foi ali que comecei meus artrsanatos pra me alimentar. Aprendi a "manguear".Nesta cidade, da rua fui pro palco e isso é engraçado porque só ajudava uma banda de rock local a subir com instrumentos a este palco (Palco no qual eu dormia escondido). Passei tanto tempo a ouvir suas músicas que aprendi todas e inclusive descobri que sabia tocar meia lua, eles gostaram e a partir dali, nasceu uma nova integrante no grupo e fizemos muitos shows juntos que cheguei a gravar o primeiro cd com eles. A minha humildade foi estimulada, meus conceitos caíram mas por outros motivos eu peguei Estrada de novo e arrumei um trampo em um evento de terror itinerário. Com este, viajei os quatro cantos do Brasil por 6 anos, ficando no máximo 45 dias em casa cidade. Hoje estou na Europa, pq tenho sede de mundos. Sou empregada doméstica aqui. É a primeira vez que sinto o controle por completo do sistema por ser imigrante, sacrifício que passo para a liberdade, pq não acaba aqui e nem agora, infelizmente só preciso de um papel dizendo que posso viver legalmente aqui( Viver legalmente é viver sem controlarem sua mente, mas pra eles isso significa que preciso que me deem permissão de viver em um espaço que consideram "deles")
    Enfim; a gaiola está aqui, mas qdo eu pegar essa chave pra abrir, vou voar esse mundo todo e dizer pra esse mundo todo que podemos viver fora da bolha e não morrer dentro dela!
    Obrigado por existir, Eduardo! Me sinto mais forte quando ouço vc!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo...... Moro na Noruega, e aqui acreditem, eu tomei conhecimento de um preconceito que no Brasil, só o definimos em pôr apelidos, dependendo de que parte do mundo vc vem como russo, alemão, japa. Portanto o preconceito por ser estrangeiro, além de todos os tradicionais preconceitos existentes. É tudo um absurdo, nunca cheguei tão perto do lixo que fede da humanidade..... Nós não somos donos de nada, mas a ganância pelo poder, riqueza e o ego nos tiraram a capacidade de sentirmos e olharmos para todas as direções que não seja para dentro de nós mesmos...... Pobre humanidade , vitima da sua própria ignorância.....

      Excluir
  15. Oi Eduardo! Vc tem "agenda"?rsrsrs Onde vc divulga as datas das suas palestras? Perguntou porque já perdi algumas bem perto de onde eu estava. Acredito que muitos que o admiram, como eu, ficariam felizes com essa comunicação. Abraço!

    ResponderExcluir
  16. Boa noite, Eduardo. Cara, preciso de um contato seu. Um e-mail, um número ou qualquer outra forma. Acredito que há oportunidade muito bacana pra você vir fazer alguma palestra aqui na minha cidade. Eu e alguns amigos gostamos muito do seu trabalho e acreditamos que você traria boas palavras para as pessoas daqui. Se puder me mandar algum contato particular por e-mail, o meu é jeanbarusso@hotmail.com. Muito obrigado pela atenção! Vamos em frente, seja lá pra onde isso for.

    ResponderExcluir
  17. vc ainda está em BH? queria uns trampos

    ResponderExcluir
  18. Blz Eduardo ? O pessoal de Sorocaba curti mto o seu trabalho, esperamos ver essa Kombi passar por aqui hem hehe , flw grande abraço.

    ResponderExcluir
  19. Blz Eduardo ? O pessoal de Sorocaba curti mto o seu trabalho, esperamos ver essa Kombi passar por aqui hem hehe , flw grande abraço.

    ResponderExcluir
  20. Esse mês vc passa em São Paulo?

    ResponderExcluir
  21. Olá, amei suas telas e seu trabalho!!! e confesso que nunca vi coragem igual sua e determinação para buscar o sentido para sua vida!
    te sigo agora pelo seu blog. Tenho muita vontade de te conhecer pessoalmente, quando vieres ao Estado do Pará vai ser muito bom!!!

    ResponderExcluir

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.