quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Jacobina, Bahia, norte da Chapada Diamantina

Verificação e ajustes, de acordo com o comportamento do motor.
A estrada do Capão tem 20 km de terra, buracos e poeira, antes de chegar a Palmeiras. A verificação da foto foi feita nos Campos, entre o Capão e Palmeira. Coisa de ajuste na cebolinha, que mede a pressão do óleo. Na madrugada, perdemos a entrada pra Cafarnaum e aumentamos a viagem nuns 70 km, por Irecê. Pelo menos as estradas eram boas, ao contrário da volta. Era sexta de noite.

A viagem a Jacobina foi iniciativa de Gaby Barbosa, exceção infiltrada na área jurídica, esse emaranhado intricado pros mortais comuns, historicamente montado pra servir aos poucos e conter os muitos. Chegamos de manhã, no sábado, à tarde fomos até a mineração de ouro que domina o lugar, como a Vale domina o Rio Doce e com a Samarco domina vários municípios no alto do vale. Lembrei da devastação planetária que vi por lá, com total conivência de prefeituras, câmaras legislativas e governos, tanto estadual quanto federal. Ditadura mega-empresarial, liderada por banqueiros. Sinistro de dar calafrios.

Mentiras - o objetivo, a qualquer custo, são os altos lucros.
As histórias que ouvi são muitas. Duas vezes por mês sai um avião carregado de ouro. A cidade sofre uma operação gigante, todo o percurso do ouro é vedado à população. Os empregados da mineradora ficam trancados num galpão pra não verem nada, enquanto o ouro é retirado. Uma vez, carregado demais, o avião caiu e em instantes a área estava isolada pela segurança armada com um círculo de segurança feito pela polícia local - que tampouco teve acesso às proximidades. A sujeição do "poder público" é óbvia ao poder econômico privado, as mega-empresas têm prefeitos, legisladores, governadores em seu bolso. A hipocrisia prevalece em todas as comunicações, tanto da empresa quanto das "autoridades", quando se dirigem à população. Os subterrâneos são podres. Há notícias de cemitérios clandestinos, com corpos de funcionários mortos por doenças pulmonares, como salitrose - ou coisa parecida, areia que endurece o pulmão e impede a respiração. Ao se sentirem ameaçadas em seus poderes ou ganhos, as mineradoras se tornam monstruosas, a população local que o diga. Ainda na instalação da empresa, foram expulsos todos os moradores do vale seguinte à exploração do ouro. Depois, com a organização pra se defenderem,            
As marcas das expulsões permanecem na frente da represa de rejeitos.
começou o terrorismo institucional e empresarial contra os moradores que resistiam. Uma velha e conhecida história de crimes contra a humanidade cometidos por essas mega-empresas, com a conivência e a cumplicidade dos poderes falsamente públicos. O cenário lembra a promessa de devastação que começou em Mariana e atingiu todo o vale, até o mar em Regência, onde continua a empestear há mais de ano.

O aspecto sinistro emana nocividade.
Andamos por ali sentindo a freqüência no ar, peso de crime organizado de alta máfia, senhores de vidas e patrimônios, sorridentes bandidos que espalham migalhas angariando a simpatia dos ignorantes. Procedimentos padrão, há séculos, que estão sendo denunciados cada vez mais, na busca de esclarecimentos sobre os bastidores sociais e empresariais mancomunados contra os povos. O padrão é mundial, como o domínio sobre os Estados.

A informação, a instrução, a consciência das pessoas é o terror desses criminosos que têm as leis nas mãos pra barbarizarem como querem, em busca das riquezas que serviriam de sobra pra acabar com a miséria, a ignorância, o abandono, o sofrimento pela omissão do Estado no cumprimento da sua constituição. Todos os movimentos coletivos que se põem a esclarecer a população, conscientizando da destruição dos mananciais e da natureza já tão sacrificada, são alvo de discriminação, difamação e perseguição.

Ainda no sábado, fomos a um evento onde conhecemos o trabalho de Joan Sodré, um Raul Seixas jacobinense, com presença de palco, ótimo som, cantou músicas do próprio Raul e também dele mesmo. E, devo dizer, com a mesma qualidade do Raulzito em suas letras e músicas.

Levando os painéis de exposição
A exposição foi domingo, na praça do CEU, com exibição do documentário Observar e Absorver e palestra. Creio ter tido bastante proveito. E as vendas compensaram bem o deslocamento. Bons plantios em terra fértil.

Chegando...


Levando mais painéis.

No final do encontro, a foto da saída. Atrás, Celestina espera já carregada, pronta pra partir.

Claratendimento direto.

Mostrando e explicando o trabalho.
 O filme rolou dentro do auditório, a exposição e as falas foram fora. Falei e respondi perguntas até acabar o tempo e mandarem parar.
Levi na fita.


Teve gente de esquerda e de direita, anarquistas e não alinhados em nenhuma ideologia definida. Todos de boa vontade, pelo menos naquele momento, os olhos eram bons e emanavam bons sentimentos. O entendimento rola melhor quando é assim.
Com Gilson Pereira, dom Quixote da moralidade em Jacobina
 Saímos na segunda à tarde da casa de Beto e Gaby, depois de várias boas conversas e com o som de Joan Sodré no violão, ali na cozinha, tomando café com a gente. Gilson também apareceu por lá, na sua hora de almoço que foi esticada ao máximo. Estavam Levi e Bianca - várias fotos são deles. A despedida foi entre corações. Gente que tem como objetivo a harmonia e não a vitória, a solidariedade e não a competição. Exceções ás regras sociais da mediocridade, do egoísmo e da vaidade. Todos parecem saber que vencer na vida é, na verdade, perder a vida com superficialidades, com formas sem conteúdo, com angústias e frustrações.

Levi, Cândida, Bianca, Eduardo, Clara, Gaby e Beto, na despedida de Jacobina.

15 comentários:

  1. Desejo que a clareza do seu mental continue a vibrar sempre. Que bom tê-lo neste tempo e nesta hora!! Beijobeijo

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  2. Maravilhoso astral e lindas pessoas! Eduardo, "de direita"? Não consigo imaginar gente de direita admirando teu trabalho, mas... se tu diz eu acredito, rs!

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    1. Uma senhora muito simpática me comprou três desenhos. Até conversamos um pouco. Depois me disseram que ela é do DEM, espantados por ela gostar do trabalho.

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  3. Respeito o estilo de vida, mas há um certo excesso na "realidade" observada; espero que leve positividade na absorvida.
    Desenhar a cidade dessa forma, é um surrealismo.
    Não existe sentença. nem a verdade e visão do mundo, pertence a um só homem. Ainda mais em tempos líquidos.
    Estar antenado numa determinada forma de ver, pensar, e refletir; não exclui Nietzche, Santos Dumont, Dulce, Nelson Rodrigues , ou mais um dos bilhões de homens da terra.
    O mundo é plural.
    Toda visão é parte a partir de parte.
    O mundo é imenso, mutante e inacabado.
    A narrativa da cidade tem caricaturas e traduções próprias. Deuses e demônios são sombras do próprio homem.
    Ainda é tempo.
    Tempo pro silêncio e pra entender o todo.
    Enfim, na Praça passam os transeuntes. Pastores, ciganos, hippies, poetas, políticos, crianças, drogados, sóbrios, todos demasiado humanos.
    Cada um com seu mundo.
    Sendo apenas um ser no mundo atual.
    Sorte e abraço.

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  5. Muito bom. Belo exemplo de vida. Eu estava no evento, inclusive no show de Sodré. Lamentavel ver o povo ser retirado de suas casas, ver a Barragem da Canavieira ter se tornado uma barragem de rejeitos e o meio ambientecda regiao ser devastado em nome do capitalismo. Pior é saber que todo ouro é levado embora, assim como aconteceu no periodo colonial, para depois essas naçoes enriquecidas com nossa riqueza se gabarem por serem abastadas. Em fim, parabens pra Eduardo Marinho e que siga firme em sua missao nobre...

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  6. Venha ao Ceará mostrar seu trabalho e seu exemplo. Tabuleiro do Norte.

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  7. Te admiro e tenho um enorme respeito por você, eu vejo sinceridade em seu olhar e em suas palavras, queria um dia poder ouvir de perto seus ensinamentos e visões.

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  8. Pessoa impar ao qual tenho uma grande admiração, obrigado por nos proporcionar um Domingo de excelência com suas boas palavras, tenho certeza que todos sairam de lá muito felizes da discussão que foi feita!!!
    Obrigado!!!

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  9. Muito feliz por ter conhecido pessoalmente. Experiência única.

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  11. Que seu trabalho embasado na emoção e sinceridade de sentimentos, sejam cada vez mais conhecidos e apreciados em especial,por aqueles que ainda nem se quer despertaram para as verdades da vida! Parabéns pelo merecido sucesso!! Quando for ao RJ (se não estiver no Rio, me diga), terei a honra de conhecer suas obras pessoalmente. Grande abraço cheio de boas energias!!

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observar e absorver

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