quarta-feira, 7 de março de 2018

Promiscuidade entre mineração e poderes "públicos"

A mineração é uma atividade pouco abordada pela imprensa - sobretudo a comercial. O poder econômico esmagador das multinacionais desse ramo, no entanto, pode ser percebido nas cidades "ocupadas" por essas mega-empresas, em suas estratégias de convivência, tanto com o poder público quanto com a população das cidades. Seus resíduos são os mais venenosos de toda a indústria, seu potencial de contaminação é elevadíssimo e fácil de perceber, quando a gente não se deixa levar pelas estratégias de márquetim dessas empresas que, se infiltrando no poder público e na vida das comunidades - e se aproveitando da ignorância e da desinformação implantadas pelo estado e pela mídia comercial - e criando mentalidades favoráveis à sua existência com base em distorções, mentiras e omissões.

A mina junto à cidade de Paracatu.

Em Paracatu, noroeste de Minas Gerais, onde o índice de câncer e doenças degenerativas está entre os maiores do mundo, a mina de ouro foi denunciada pelo médico Sérgio Ulhoa Dani no plenário do CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutrição), na Alemanha, num conjunto de notícias estarrecedor pra quem acredita num Estado legítimo em que as relações empresariais se submetem - inteiramente - às leis. Nada vale mais do que o lucro, para o poder econômico, nem mesmo a vida, seja humana ou do meio ambiente. Não é à toa que esse médico foi morar na Suíça. Os capangas das mineradores - empresas de segurança privada - não brincam em serviço e denunciar com repercussões é risco de vida (http://alertaparacatu.blogspot.com.br/2010/12/fala-do-dr-sergio-u-dani-no-plenario-do.html). A mina lá é a céu aberto, a sotavento da cidade, e lança arsênico no ar e  na água em grande escala (cada quilo de ouro extraído significa o descarte de 2.500 quilos de arsênico). Duas universidades, UFMG e a Universidade Técnica de Freiberg, na Alemanha, fizeram coleta de poeira em vinte pontos diferentes da cidade e a proporção de arsênio encontrada levou os pesquisadores a falar em genocídio. Há um documentário francês a respeito desse genocídio: http://paracatu.net/view/7355-documentario-europeu-questiona-acao-da-mineradora-kinross-em-paracatu. Este fala por si. "Ouro é para um punhado de ricos, o que a maioria das pessoas não é. Os pobres devemos nos contentar com o veneno que nos empobrece cada vez mais até matar-nos. Até quando vão abusar da nossa paciência?" Sérgio Ulhoa Dani
Em Jacobina, norte da Bahia, a produção de ouro bruto chegou a 2 milhões de toneladas, o que, limpos, geraram mais de 160 milhões de reais. Em 2008 a empresa anunciou o mais que triplicamento da sua produção. No entanto a população, como sempre, não se beneficiou com isso. "As condições de saneamento em toda a região da Serra de Jacobina se apresentam bastante precárias, com baixos índices de abastecimento domiciliar de água potável e a quase total ausência de sistema de esgotamento sanitário, especialmente em zonas rurais (VALE, 2005)."

http://amazonia.inesc.org.br/artigos-inesc/amazonia-paraiso-extrativista-e-tributario-das-transnacionais-da-mineracao/

Na Amazônia, a coisa é sinistra. Um estudo sobre a tributação mostra o poder e a promiscuidade da mineração com as "autoridades constituídas". http://amazonia.inesc.org.br/artigos-inesc/amazonia-paraiso-extrativista-e-tributario-das-transnacionais-da-mineracao/
Em Mariana - e nos municípios do vale do falecido rio Doce - o procedimento foi o mesmo. Promiscuidade com os poderes públicos, financiamento de campanhas eleitorais que impuseram a redução de investimento em produções locais, tornando os municípios dependentes das mineradoras. Em conjunto com o márquetim e a publicidade mentirosos, formam-se as condições para que, diante da descoberta das falcatruas e prejuízos ambientais e em vidas, a própria população caia na defesa das empresas, em nome dos empregos e dos impostos que "sustentam" os municípios e são parte indispensável da arrecadação estadual - com as relações espúrias com os poderes públicos. Sendo, como são, as maiores poluidoras do planeta, esse é o procedimento comum. Daí ser comum encontrar, em Mariana, grande parte da população "contra" os desabrigados e a favor da empresa - intervenções "benéficas" são propagandeadas na formação da imagem "benfeitora" da Samarco - testa de ferro da Vale estrangeira.
Seria de espantar o silêncio marianense a respeito da destruição causada por essa empresa criminosa - há mais de dez anos eu já ouvia a denúncia sobre a iminência do desabamento da barragem de Fundão -, se não se levasse em conta o conjunto de fatores que favorece este silêncio e a ignorância a respeito do assunto. A sabotagem e o controle do ensino escolar, de modelo empresarista - que tem nos interesses empresariais importância maior que a da vida - formando mentalidades convenientes, e o controle das informações através da mídia empresarial. Além da repressão e difamação de toda denúncia fundada.
No fim das contas, mais importante que a "punição" da empresa - freqüentemente multas alardeadas pela mídia que, ao final, jamais são pagas -, é preciso perceber nosso modelo de sociedade dominada por poderes econômicos, que cria as condições pra que essas coisas aconteçam. Estamos sob poder banqueiro-mega-empresarial com uma fachada democrática falsa, apenas cenários que são comandados dos bastidores, sem que a população se dê conta, levada a crer que está num sistema democrático, que os poderes públicos são realmente públicos e que as leis são feitas pra serem cumpridas por todos. A necessidade de investimento em formação popular, com ensino de qualidade e de modelo humanista, não empresarista - para a constituição de um povo capaz de entender o que acontece e decidir coletivamente - é exatamente o terror desses dominantes, que pressionam permanentemente pelos cortes nos "custos sociais", expressão estratégica que deforma o que seria "investimento" na formação de um povo intruído, informado, capaz de ver a realidade com olhos próprios. 
Estamos numa sociedade que tem no patrimônio um valor maior do que a vida. Isso vai se descarar à medida em que formos descendo o rio morto, antigo rio Doce, o Watu dos Krenak.

Mais uma demonstração de como as empresas adquirem poder sobre os eleitos. Há muitas, o financiamento direto de campanhas eleitorais são tão importantes quanto as campanhas publicitárias e de márquetim. As primeiras, pra fazer do poder público serviçal dos seus interesses; as segundas pra formar a mentalidade geral da população, no controle mental exercido pelo massacre midiático-publicitário. No Espírito Santo como em qualquer parte onde exista interesses e "autoridades":
http://seculodiario.com.br/19686/10/empresas-de-mineracao-dominam-doacoes-a-eleitos-da-bancada-capixaba-no-congresso-1

Em dezembro de 2015, chegando em Bento Rodrigues. Ou no que foi o Bento.

Entrada da fazenda "Cachoeira", em Camargos, o terceiro povoado atingido.

Entre Bento e Paracatu de Baixo, o apocalipse da lama tóxica fez a paisagem.

Em Bento Rodrigues, a imagem simboliza o acontecido.

O tal carro, tão filmado pelos drones da mídia privada.

Entre Linhares e Colatina, o rio morto mata tudo.

Animais perdidos com a destruição, à mercê dela, esmagadora maioria condenada à morte. Os que ficaram vivos.




4 comentários:

  1. Aqui no RS acontece o mesmo NESTE INSTANTE.
    https://www.sul21.com.br/areazero/2018/02/projetos-de-mineracao-provocarao-colapso-social-e-ambiental-na-metade-sul-do-rs/

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  2. Triste isto tudo...a ganância mata!

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  3. Excelente informacao!!!! Obrigada!!! Abre um perfil no instagram.

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    1. Tambem nao sabia de nada disso. Grata pelas informacoes! Ia comprar um brinquinho de ouro pra minha filhinha, nem vou mais.... como sao sedutoras as propagandas... credo... é preciso estar atenta, sempre.

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