quarta-feira, 28 de março de 2018

Viagem ao vale do rio morto, ex-Doce - o saldo

Em território Krenak, encontramos com o cacique Leonir. Mais de uma hora de conversa.
Pescadores em atividade, ao longo de todo o rio dos rejeitos da mineração, antigo rio Doce.

Atoleiro a caminho de Regência.
Saindo de Regência, o sentimento de final de rota se misturava com o peso da conformação. Desde Mariana se passava a expectativa de que tudo está voltando ao seu normal, o assunto metais pesados tá ficando pra trás. Os moradores dos povoados destruídos já se tornam um estorvo, responsabilizados pela paralisação dos escritórios, das atividades burocráticas, pela queda no comércio da cidade, do movimento dos funcionários das mineradoras, que na verdade não pararam com a extração - porque o minério continuou descendo o vale nos trens, até os portos de exportação, todo o tempo. Até as crianças desabrigadas eram discriminadas nas escolas de Mariana como "pés de lama".

Houve algumas interrupções momentâneas, como quando os Krenak bloquearam os trilhos com troncos, logo no início, e conseguiram algumas necessidades vitais de sobrevivência. Mas depois, quando as pessoas de Pedra Corrida quiseram pressionar pra conversar com algum representante, alguma autoridade, na tentativa de conseguir ao menos a água de beber, foram corridos sob ameaça de ataque da polícia, com balas de borracha em cima de crianças, mulheres, velhos e homens da povoação. Sem conversa, sem argumento, sem nenhum representante de empresa ou governo presente. Pedra Corrida cozinha e toma banho com água de poços artesianos. Um escritório da Renova, armação da Samarco, foi aberto no povoado. Segundo os moradores, pra nada, ali não se resolve nada, se anota qualquer coisa e se promete "algum encaminhamento" e uma resposta que nunca vem. Dá em nada.

O márquetim da empresa cria novidades na condução do pensamento e do sentimento das populações envolvidas. Manobra rivalidades, cria outras tantas, constrói cenários, usa a publicidade na mídia, distorce a realidade. E começa a trabalhar o sentimento de que tudo está se resolvendo, tudo vai voltar à normalidade, já tem peixes no rio, as coisas voltam, pouco a pouco, a ser como eram antes. Crime total contra a informação, os problemas ainda estão começando e prometem continuidade a longo prazo.

Há dois anos a vida acabou no rio Doce. Há dois anos a vida mudou em toda região. Há dois anos o povo, sem saber o que fazer, espera os acontecimentos. A vontade é muito grande, todos querem a "volta do rio" que não volta. Pescadores circulam em suas canoas, lançam suas redes, colhem seus peixes. O rio Doce tem muitos e grandes afluentes, que despejam suas águas cheias de peixes no veneno da mineração. No princípio, os peixes simplesmente morriam ou voltavam rio acima, ficando numa área menos densa, mas já em contato com os metais pesados. Nas procriações, com o tempo e as mutações genéticas, adaptações naturais ao ambiente e novas gerações já conseguem sobreviver, pelo menos algum tempo, nos rejeitos da mineração. Estes peixes estão sendo pescados, exibidos com orgulho - "os peixes voltaram" - e comidos com prazer, sem nenhum tipo de análise da carne. É fácil perceber a vontade enorme que as pessoas têm de retomar seus costumes ribeirinhos, a pesca, o nado, os encontros familiares, o lazer na beira, nas praias, nas ilhas. A depressão tomou conta, várias pessoas morreram de tristeza, a mãe do cacique Rondon foi uma delas, dois ex-moradores de Bento Rodrigues, que foram enterrados no cemitério de lá, mesmo sem povoado. Nos mais de 800 quilômetros, muitos dramas, muitas tragédias com a morte do rio. "Não é tão grave quanto estão dizendo" foi uma frase que ouvi várias vezes no percurso. Mas a índia krenak que se recusou a deixar o costume de se banhar no rio está doente, muito doente, nos contou o cacique Leonir. Nos postos de saúde, muitas doenças que não haviam antes, agora são numerosas. São mais de duzentos municípios, todos em silêncio com relação aos perigos do contato com esse veneno metálico. A promiscuidade público-privada é uma cumplicidade criminosa contra a população. O clima é de superação da catástrofe, uma grande mentira. A catástrofe ainda está em seu início, doenças provocadas pelos metais pesados podem levar oito, dez, doze, quinze anos pra se manifestar, depois do acúmulo no organismo, de forma avassaladora.

Em Regência, o clima ficou mais pesado. A comunidade vivia em torno da foz do rio Doce, seu encontro com o mar, da pesca, do surf, do turismo. Agora está como em suspensão, todos esperando a "normalização", com tanta vontade que se convencem da irrealidade. Regência é um povoado deprimido, com características de bloqueio mental pra realidade. À medida em que se trabalha o sentimento de superação, a empresa vai suspendendo suas ações compensatórias, deixando a população entregue à própria sorte, aos poços contaminados, à exposição aos rejeitos debaixo de mentiras repetidas até o convencimento conveniente. No litoral, várias comunidades de pescadores estão proibidas de pescar. Mas pescam. Sem saber fazer outra coisa, os pescadores vão longe atrás de peixe, voltam na madrugada e já encontram caminhonetes com gelo pra transportar os pescados pro interior, onde são vendidos.

O governo mineiro autorizou a pesca profissional e artesanal no rio envenenado. Tudo parte do cenário construído e falso de superação do desastre, sem nenhuma responsabilidade social, nenhuma responsabilidade moral com a população, sempre traída pelos poderes constituídos sob o domínio econômico-financeiro que desumaniza a sociedade. Os surfistas do rio Doce pegam ondas nas corredeiras, em Valadares. Os surfistas da boca do rio entram no mar todos os dias, desde a primeira semana da lama, hoje mais numerosos. Essa rapaziada deveria estar fazendo exames pra detectar metais pesados no sangue. Mas eles não querem saber, preferem acreditar que "não é tão grave assim", que "está passando" a situação, que "tudo está voltando ao normal". O espectro da tragédia paira no silêncio.

"O rio Doce sempre foi assim, eu tenho 68 anos e sempre pesquei aqui, agora os peixes voltaram, não é tão grave quanto estão falando, tudo está voltando ao normal. O rio sempre teve essa cor, sempre foi barrento." - acampado a vinte quilômetros da foz, na beira do rio, pra três dias pescando de caniço.
"Eu vou viver até os cinqüenta anos. Tô com quarenta agora, né, e comendo esse peixe não vou durar muito..." - pescador em Governador Valadares.
"A gente tá com a Samarco. Ela me dá noventa reais por mes e água mineral pra beber. Tem muita gente que não recebe, eu não posso reclamar" - pescadora sem ter o que fazer, em Naque, MG.
"Muita gente que precisa não tá recebendo nada. E tem gente que não precisa e tá recebendo. Água, ajuda, cartão... gente que nem mora aqui na beira do rio... e tá recebendo"- duas senhoras numa rua de Periquito, a outra completou, "recebe quem tem proteção, quem tem indicação".
"Eu nunca mais vou ver o rio, meu filho. Tô com 84 anos, talvez meus netos ainda vejam esse rio de novo, mas eu... nunca mais", em Rio Doce, a cidade, dezembro de 2015. Há os que morrem vivos, na apatia, no sem vontade de viver, na espera de que tudo acabe de uma vez.

As vítimas são chamadas de "impactados", os que conseguem alguma indenização são os "beneficiários". O departamento de máquetim da mineradora capricha nos deboches. E estimula a criminalização das vítimas, um procedimento milenar nesta sociedade ainda desumana, por lapidar e construir uma convivência social harmônica. A mentalidade empresarista impõe todos os obstáculos possíveis neste caminho. Com a criação de uma falsa "volta à normalidade" as mineradoras vão se livrando das indenizações e da responsabilidade sobre tanta destruição.

Mais uma vez sinto a composição entre empresas e poderes "públicos" como uma cumplicidade criminosa contra a população, mentem mineradoras e Estado, como cotidiano das comunicações com o povo. Mentem, roubam, ameaçam, atacam as contestações, criminalizam vítimas, o rol de crimes cometidos cotidianamente, rotineiramente, pela própria natureza de uma sociedade empresarista, onde o patrimônio, o lucro, os interesses de um punhado são mais importantes do que a vida, os direitos, a saúde da população. Empresarismo é o contrário de humanismo. Enquanto o ser humano não for o centro de importância da sociedade pretensamente humana, a barbárie empresarial vai destruir, condenar, perseguir suas próprias vítimas. A vida vale menos que o lucro, estamos em tempo de percepção dos enganos impostos por este modelo de sociedade. Caminhamos ao longo dos milênios, em processo de mutação permanente. As próximas gerações colherão os frutos plantados por tanto tempo, frutos da destruição, do empesteamento, da impregnação de elementos tóxicos, mortais. Os frutos apocalípticos da irresponsabilidade de tão poucos serão colhidos por todos.

E sem essa de "o ser humano está destruindo o planeta". Os que concentram poderes, riquezas e privilégios materiais se esforçam por socializar as responsabilidades pelas suas ações. Novamente, é tempo de percepção, de acendimento de luzes. Com isso, surgirão as soluções, novos valores e comportamentos serão raízes de novas formas de relações sociais. O tempo não dá pulos. O caminho é permanente, como são permanentes as mutações individuais e coletivas.

Os afluentes trazem suas águas limpas, com peixes, pra desaguar na lama tóxica. Aí ainda é o Gualaxo.
Pequena usina hidroelétrica destruída, próxima a Camargos.
Exposição em Ouro Preto
Exposição em Mariana
Exposição em Penedo
Exposição na casa Bananal, Juiz de Fora












Exposição em Gov. Valadares



3 comentários:

  1. Triste saber que muitos se aproveitam da inocência das pessoas para se emponderarem de interesses próprios, usam seus discursos para se livrarem de suas reais culpas.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Boa noite Eduardo, saudações, como faço para conseguir seu livro? Preciso urgentemente te ler. Desde já agradeço.

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