sexta-feira, 29 de maio de 2020

Artigo interessante sobre a geopolítica mundial da atualidade


As novas equações no sistema de poder mundial

Por: Nicola Hadwa y Silvia Domenech
Publicado 25 maio 2020



Na atualidade, a política externa norteamericana já não tem um epicentro. Os focos vitais para os Estados Unidos estão no mundo inteiro. E cada vez são mais perigosos para todos.
Há algumas décadas, as potências ocidentais criaram um sistema de poder que, praticamente, as converteu em juízes permanentes de um mundo dominado pelo imperialismo, a cujos ditames os países deviam se submeter sob pena, caso não o fizessem, de se verem invadidos, sob diferentes pretextos, ou ser alvo de golpes de estado ou, simplesmente, enfrentar sua destruição econômica e política.
O desenrolar dos acontecimentos, a arrogância do poder unipolar norteamericano e a necessidade de sobrevivência interna do capitalismo e das estruturas econômicas internacionais feitas à sua maneira, leva, no entanto, este sistema de poder a tentar submeter outras economias, como a chinesa e a russa, e colocá-las sob sua esfera de controle direto. Lancemos uma rápida vista aos últimos acontecimentos.
Comecemos pela tentativa de derrubar o governo sírio e tirar a Rússia do mar Mediterrâneo, privando-a do único porto russo no Mediterrâneo, Tartús, onde chegam os navios da Criméia, no mar Negro. O iminente fracasso desta ação leva o império a derrubar o governo ucraniano para colocar um fantoche e depois privar a Rússia do porto de Sebastopol, na Criméia. O resultado desta manobra significou a separação de algumas províncias do Donbass e um referendo onde a população da Criméia votou de forma esmagadora em pertencer à Rússia, e não à Ucrânia, intensificando as pretensões norteamericanas de isolar a Rússia.
Logicamente, soaram os alarmes e se preparam condições para derrotar novas conspirações anti-russas.
A administração dos Estados Unidos se volta para a China, pretendendo atrasar e diretamente minimizar o desenvolvimento econômico desse país, para dominar sua economia e favorecer as transnacionais norteamericanas, cujos interesses estão entrelaçados com os das européias, a fim de que estas mantenham a hegemonia comercial e estabeleçam o controle sobre o comércio chinês. Isto leva o império a tentar cortar e anular todos os projetos de desenvolvimentos comerciais da China, principalmente os relacionados com a nova rota da seda e, em particular, com a Organização de Cooperação de Shangai que inclui ainda, entre outros, a Rússia, e à qual se integram países como Irã, que é um aliado estratégico desta última.
China, então, amplia e adapta o porto de Chabahar, no sudeste do Irã, na fronteira entre o oceano Índico e o mar de Omã, o que lhe permite conectar-se com o Golfo Pérsico para que funcione como centro de distribuição para todo o mundo, principalmente Europa, do novo comércio pela rota da seda, que necessariamente integra a países como Paquistão, Irã e Rússia, entre outros, a qual aglutinaria 65% do comércio mundial e concentraria países que possuem ao redor de 70% dos recursos do mundo. No centro deste comércio estarão Rússia e China e, de forma crescente, o Irã.
O império, em sua tentativa de isolar a Rússia, junta a intenção de bloquear a China. O que, evidentemente, levou ambos países a estreitar suas alianças político-comerciais e atuar em conjunto, já não somente na Ásia, mas em todo o mundo, e a se protegerem e colaborar com seus aliados.
Os Estados Unidos se dá agora a tarefa, em conjunto com seus obedientes e submissos colaboradores Arábia Saudita e outros como Qatar e os Emirados Árabes, de bloquear tanto a Rússia quanto a China, de forma conjunta.
Desta perspectiva, criam um movimento terrorista de envergadura, o Daesh (ISIS) ou Estado Islâmico, organização ultra-terrorista e selvagem. Seu objetivo central seria derrubar o governo sírio e depois o iraquiano, para fechar a passagem da China pela nova rota da seda e, fechando o porto de Tartús à Rússia, transportar o petróleo saudita e dos Emirados – por um oleoduto que desembocaria em Haifa – para a Europa. Seu preço quase monopolizado permitiria anular o comércio do petróleo e gás da Rússia com a Europa e, dado que a fonte do abastecimento seriam as monarquias feudais, a quem não importa desperdiçar os recursos do país, este sempre teria um preço preferencial, o que daria ampla margem à possibilidade de debilitar profundamente a economia russa e ao país. Os riscos para a Europa de uma campanha anti-russa, de forma direta e decidida, no entanto, eram muitos, já que qualquer contradição entre as empresas européias e norteamericanas e a falta de alternativas de abastecimento poderia significar um preço monopolizado e/ou a perda de liberdade comercial.
Por outro lado, seguindo esses desígnios ianques, a monarquia feudal Saudita inicia uma guerra insensata contra o Yemen, com o objetivo de satisfazer o desejo norteamericano-israelense de controlar o estreito de Bab El Mandeb*, gargalo que dá acesso ao Mar Vermelho desde o oceano Índico, pelo golfo de Adén, o que o faz passagem obrigatória até o canal de Suez e o Mediterrâneo, tendo portanto uma imensa importância para o comércio e a segurança internacionais ao ser o que liga os portos europeus com a Ásia e com o Golfo Pérsico, passando por em torno de 10% do petróleo mundial transportado por mar.
Foi a aliança da Rússia com o Irã e com as forças anti-imperialistas e anti-sionistas do Oriente Médio – a Frente da Resistência formado pelo Movimento Libanês Hezbollah, o governo da Síria, o Movimento Yemeni Ansarolá e outros grupos aliados, como Hezbollah Al Nuyaba, do Iraque, Hashad Al Shaabi, Ansar Allah, Hamas, Jihad Islâmica Palestina e a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) – o que permitiu mudar o rumo da guerra contra o terrorismo na Síria e deter a desintegração desse país. E fazer, em geral, que todos estes projetos de domínio imperial do Oriente Médio estejam sendo derrotados.
Arábia Saudita e seus aliados, no entanto, têm demonstrado ser os traidores não só dos seus povos, mas do mundo árabe e islâmico, num trabalho absolutamente contrário a estes, colocando seus recursos à disposição do regime sionista e dos Estados Unidos, para promover o domínio destes sobre os pontos estratégicos do Oriente Médio e, ao mesmo tempo e de forma ativa, a normalização dos laços com aqueles que os exploram e, em especial, com esta entidade anti-árabe e anti-islâmica que é a entidade sionista. Mas há mais ainda. Traíram também o povo palestino e sua luta contra a ocupação sionista.
Mas a guerra contra a China não pode parar. É a guerra do petróleo. E aí está a entidade sionista, que segue fiel ao seu rol de gendarme do imperialismo, apesar da estratégia de usá-la como meio para agredir e derrotar os países da Frente da Resistência e obrigá-los a se submeterem aos Estados Unidos ter falhado. Não importa, os estadunidenses sempre os apoiaram. Os sionistas coordenam as atividades contra os povos do Oriente Médio e em outros continentes, cooperando ativamente nos complôs contra Venezuela, Cuba, Nicarágua e Bolívia, tratando de deter o inexorável despertar independente e libertário destes países, os quais também desafiaram o controle imperial. Países que este controle tenta sufocar, por meio de bloqueios ilegais, ilegítimos, que Rússia, China e Irã têm contribuído para resistir, transferindo suas ações de confrontação com o domínio norteamericano para a América Latina.
O interessante é que, se como base territorial do sionismo, sua entidade (Israel), em quilômetros quadrados, não é muito grande, ela representa o capital financeiro mundial e seu poder é imenso, pelo que seu lobby controla a política externa (e o congresso - n do T) dos Estados Unidos. O governo norteamericano, então, pressionado pela entidade sionista que controla sua política externa para os países árabes e tira vantagens aceleradamente da presença no poder de uma administração pró-sionista arrogante e soberba – que simplesmente há demonstrado não ter nada de estadista, apenas ser inábil em política, acostumada à busca de fortuna e sem conhecimentos –, inicia gestões para reforçar Israel. E agora doa terras e cidades, que não lhe pertencem, ao colonialismo sionista, aprofundando ainda mais seu conflito com o povo palestino, que resiste à ocupação e ao roubo do seu país.
Em meio a todo este panorama e afundado na crise gerada pela pandemia do COVID-19, Estados Unidos anuncia o deslocamento de uma “estranha” operação militar antidroga, ao que segue um frustrado atentado de incursão marítima na Venezuela. A realidade é que os Estados Unidos quer lançar mão do poder na Venezuela para controlar o mercado de petróleo e gás no mundo e, assim, poder novamente estabelecer um preço que, enquanto dana a economia russa, não lhe gera perdas – pois o prejuízo deverá ser absorvido pelo povo venezuelano – e não afeta as reservas ianques. E com o terrorismo e suas próprias bases militares no Oriente Médio, poderia manter a guerra terrorista contra a Síria e o Iraque, desta vez com o apoio da Turquia, e prolongar pela maior quantidade de anos possíveis, tentando assim paralisar e bloquear o projeto chinês da nova rota da seda, ao qual se incorporaram e trabalham ativamente a Rússia, o Irã e o Iraque.
Tudo isso quer dizer que o governo da Venezuela não só constitui um incômodo exemplo para a América Latina. Se transformou no ponto chave para fazer fracassar os planos globais do império, dirigidos a dominar o mundo com o enfraquecimento de Rússia e China. Países estes que, junto ao Irã, sustentam e apóiam a Venezuela e a queda do governo venezuelano nas mãos de um fantoche dos Estados Unidos como o auto-proclamado presidente Juan Guaidó constituiria para eles uma derrota estratégica.
Não é por acaso, então, que estes países estejam ajudando a ressurgir adequadamente a produção petroleira venezuelana. Assim, Rússia e China aportam capital, instrução militar e armas para que tenha capacidade de resistir ao embate criminoso do império contra o povo da Venezuela. Império que espera um levante popular cada dia mais distante. Com ajuda russa se reativou um complexo de refinarias com capacidade para 140.000 barris e agora, com a ajuda do Irã, pretende-se recuperar toda a capacidade de produção de combustíveis refinados. O Irã está enviando neste momento ajuda de emergência à Venezuela. Ajuda que os Estados Unidos ameaça deter, cinco superpetroleiros, além do pessoal que está no país trabalhando para reativar a dita capacidade de produção, que se quer levar novamente a cerca de 1.000.000 de barris de petróleo por dia e convertê-los em 66.000.000 de litros de gasolina, lubrificantes e outros derivados. O que romperia o bloqueio ianque sobre este país latinoamericano e terminaria por fazer fracassar o plano israeli-estadunidense contra a Venezuela, que pretendem substituir o governo por um à maneira dos planos imperiais.
Na Venezuela se joga, como na Síria, portanto, o destino dos planos norteamericanos. Em ambos, as desesperadas manobras imperialistas de desestabilização estão fracassando. O Estado sionista, que depende do músculo norteamericano, vai cavando sua própria sepultura, junto ao império. A nova equação já não tem só o Oriente Médio como centro de gravidade. Este é a América Latina, a Europa e o mundo inteiro, posto que o império se move sobre areias movediças. Mais por seu desespero em deter o rompimento do bloqueio à Venezuela, está colocando o mundo em uma perigosa rota de colisão.


*Nos últimos anos, este estreito tem passado por vários conflitos e se converteu em cenário da rivalidade entre potências regionais e mundiais, que pretendem se assegurar do seu controle. Ali se concentram aspectos de grande importância na atualidade do Oriente Médio e África Oriental: a guerra no Yemen, as constantes disputas e enfrentamentos no Sudão e na Somália, o confronto entre Irã e Arábia Saudita e é passagem obrigatória do petróleo e gás procedentes do Golfo Pérsico, pelo que constitui um ponto estratégico que atrai a presença e a influência de diversos países.

Nicola Hadwa – Analista internacional chileno-palestino. Ex-treinador da Seleção Palestina de Futebol. Diretor da Liga Latinoamericana pelo Direito ao Retorno e coordenador do Comitê de Solidariedade com o Povo Palestino do Chila. Especialista em temas principalmente do Oriente Médio. É colaborador de varias redes de notícias internacionais.
Silvia Domenech – Pesquisadora cubana com vários livros publicados. Doutora em Ciências Econômicas e Professora Titular da Universidade de La Habana e da Escola Superior do PCC.
Tradução – Eduardo Marinho.

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