Eu precisava enfrentar era o mundo, sem privilégios além dos que eu já carregava na minha formação, pra vivenciar o que vivenciei e fazer hoje o que faço. Não me vejo como exemplo pra ninguém, ao contrário, mas exerço minha visão de mundo no meu trabalho, desde décadas atrás, como consequência das minhas vivências. Perdi todas as garantias e considerações sociais e segui no risco, como todo mundo à minha volta, no abandono social - e sem reclamar, amarradão, atento às lições preciosas que a vida me apresentava. Enfrentar os meus pais foi um momento curto, lá no comecinho, como a chave pra abrir essa nova existência, tão cheia de aprendizados, que jamais seria assimilada por eles. E que não seria possível vivenciar, em vários momentos críticos, se houvesse alguma proximidade com eles. Eu estava só diante do aparato público, sem intermediários, sem proteção, no nível mais baixo da sociedade. Tinha que tratar com isso e desenrolar com as pessoas do aparato, quando necessário, tratar com o descaso, com a indiferença, com a falta de recursos e a má vontade institucional com a imensa legião de pobres que a sociedade necessita produzir, pra manter minorias em privilégios. Os meus privilégios sociais, escolas particulares "de qualidade", cursos, boa alimentação, esportes e movimentações que me deram resistência e saúde, os hábitos de buscar e analisar informações em jornais e informativos, ainda que empresariais, tudo isso então foi comigo buscar as vivências que os privilegiados não têm. Não têm e morrem de medo de ter, se sentiriam humilhados, frágeis. Vivências que exigem resistência e criatividade, que desenvolvem a capacidade de superação, a solidariedade, a disposição de encarar os riscos de viver sem proteção.
Ali que eu percebi que os privilégios fragilizam, que os fortes estavam ali, encarando todas as durezas com naturalidade, disposição, alegria, união solidária diante das dificuldades. Ali eu percebi a riqueza da pobreza, a humanidade mais desenvolvida - não por alguma superioridade espíritual, mas por necessidade de sobrevivência, de superação das dificuldades que esta estrutura criminosa de sociedade cria. Os fortes não sabem que são fortes sociais, se sentem fortes apenas nos seus afazeres, socialmente se sentem pequenos, frágeis, insignificantes, incapazes, como a própria ideologia social os faz crer, com todas as artimanhas de convencimento e sabotagem, de exclusão e acorrentamento a valores falsos e planejados pra evitar que se tome consciência da própria importância na sociedade, da própria força e capacidade. Não se trata de levantar disputas e apontar saídas, trata-se apenas de ver a realidade como ela é, não como nos é mostrada, tomar consciência dela progressivamente e construir suas próprias soluções e caminhos. Eu construí, na minha vida, no meu mundo, já que não podia fazer isso com o mundo. E foi essa atitude, esses caminhos e essas práticas que se tornaram útieis ao mundo.
Só pra concluir, o enfrentamento com meus pais durou coisa de dois meses. Com a estrutura social já lá se vão quarenta anos.
OBSERVAR E ABSORVER - observareabsorver.em@gmail.com - Pra ver o trabalho, com dimensões e preços, clique no link abaixo de "Ver o trampo".
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
Produzindo pra viagem e pensando no mundo, na vida, na humanidade.
Sexta-feira passada, na oficina. Gravação por Amanda Mara.
domingo, 16 de fevereiro de 2020
Eduardo Marinho - Nem esquerda, nem direita, a força tá na periferia.
A dita "esquerda" pode ter uma proposta menos injusta, mais igualitária, menos perversa e mais solidária, mas não tem a condição prática pra fazer isso. Programada pelas induções sociais, se arroga a capacidade de determinar como transformar a sociedade, sem se perceber condicionada e muito menos fazer a necessária revolução interna que lhe daria humildade e esta lhe permitiria perceber que os mais capazes de construir uma sociedade nova são exatamente os que constróem a sociedade todos os dias. Mesmo que tenham sido induzidos a sentir inferioridade, incapacidade e desvalor, da mesma forma que os que tiveram acesso são induzidos a sentir superioridade, sem reconhecer a dependência completa do trabalho braçal, em todos os espaços da sua vida. Os mais fortes não são os apontados pela sociedade ainda desumana, esta é apenas mais uma mentira social. Os mais fortes são os que se sentem mais fracos, são os que superam dificuldades enormes na sua rotina de vida, que convivem com todas as sabotagens - na educação, na saúde, no transporte, no trabalho...- e encaram os piores trabalhos, os mais duros e mal remunerados. É uma questão de tomar consciência. Tanto entre os instruídos quanto entre os sabotados. Sentimentos de superioridade e inferioridade falsas são construídos estrategicamente no subconsciente coletivo, com a função de afastar o conhecimento da capacidade de resistência, de impedir o encontro do saber com a sabedoria. A arrogância ou a humilhação são muros intransponíveis. Mas não são indestrutíveis.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
Espionagem e controle mundial é rotina oculta permanente
CIA espionou comunicações no Brasil e em mais de 120 países do mundo
Governos estrangeiros pagavam a empresa suiça Crypto AG pelo privilégio de ter suas comunicações mais secretas monitoradas pelas agências de inteligência
DAVID BROOKS
Durante meio século até 2018, mais de 120 governos ao redor do mundo, incluindo o México, confiavam em uma única empresa suíça para manter secretas as comunicações com seus espiões, militares, diplomatas e outros governos, mas nenhum sabia que os donos reais dessa empresa eram a CIA e sua contraparte alemã BND, revelou o Washington Post.
A empresa, Crypto AG, se converteu no principal fabricante de máquinas de cifrado, e ganhou milhões de dólares vendendo o equipamento a governos na Europa, nas Américas, na Ásia e na África. O Vaticano e a Organização das Nações Unidas também eram clientes.
“Mas o que nenhum de seus clientes jamais soube é que a Crypto AG era secretamente propriedade da CIA” e sua sócia a inteligência da Alemanha ocidental, revelou o Post em uma reportagem exclusiva em colaboração com ZDF, um meio alemão, os quais tiveram acesso a uma história classificada da CIA e informes alemães sobre a operação, bem como entrevistas com alguns dos participantes.
“Foi o logro de inteligência do século”, conclui o informe da CIA, agregando que “governos estrangeiros pagavam um bom dinheiro aos Estados Unidos e à Alemanha Ocidental pelo privilégio de ter suas comunicações mais secretas lidas por pelo menos dois (e possivelmente até cinco ou seis) países estrangeiros”, reporta o Post.
Desde 1970 até 2018, a CIA e a Agência de Segurança Nacional (NSA), controlaram todas as operações da Crypto, sem o conhecimento de seus clientes, e de quase todos os seus funcionários.
A evolução dos produtos e a adaptação de novas tecnologias, estavam desenhadas para trair seus compradores. A empresa começou a funcionar durante a Segunda Guerra Mundial sob o comando de seu fundador na Suíça, o qual colaborou com a inteligência estadunidense e europeia, mas foi em 1970 que foi comprada pela CIA e sua contraparte alemã. Algumas empresas, como Siemens e Motorola participaram para melhorar os produtos.
Com isso, a CIA e a NSA estavam monitorando comunicações de Anwar El Sadat em 1978, dos iranianos em 1979, como de outros desde a Arábia Saudita à Coreia do Sul, desde a Argentina, à Venezuela, Colômbia, México e Brasil.
A reportagem aborda a forma como foi manejada a empresa para evitar que seus funcionários ficassem sabendo da relação com as agências de inteligência, das disputas burocráticas entre e dentro dos Estados Unidos e Alemanha, como o tipo de informação que se conseguiu obter. Leia esta reportagem clicando AQUI.
O National Security Archive, centro de investigações de relações exteriores e documentação oficial secreta, disse hoje que a reportagem do Post confirma que entre os países que empregaram as máquinas da Crypto para suas comunicações secretas estão os regimes militares da Operação Condor encabeçada pelo Chile, Argentina e Uruguai quando “realizavam atos de repressão e terrorismo regionais e internacionais contra figuras da oposição”.
Com o uso dos instrumentos da Crypto, a CIA e a NSA tinham a capacidade de monitorar operações golpistas e de repressão dentro do Cone Sul, até atos terroristas como o assassinato de Orlando Letelier em Washington ou a derrubada do avião da Cubana de Aviación em 1976. Portanto, afirma o Arquivo, a reportagem gera novas interrogantes sobre quando e o que sabia o governo estadunidense sobre essas operações na América Latina.
O arquivo observa que documentos desclassificados pelo centro revelaram anteriormente que, na começo formal da Operação Condor, por seus cinco regimes, em 1975, se chegou a um acordo para se estabelecer um sistema de criptografia que foi batizado como Condortel. O equipamento para essa rede de comunicação veio da Crypto AG.
Para acessar outros documentos clique AQUI.
*David Brooks é correspondente de La Jornada em Nova York, EUA.
**La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.
***Tradução: Beatriz Cannabrava
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Espiritualidade não é religião
Não ter religião não significa de maneira nenhuma ser ateu. Significa apenas não acreditar nas interpretações religiosas sobre espiritualidade, arrogantes, repressivas, donas de verdades improváveis, que cobram crença sob ameaça de punição, de incorrer na "ira divina", expressão, a meu ver, ridícula, que atribui um dos piores sentimentos à divindade. É o ser humano projetado na imagem do "ser supremo".
Espiritualidade acima da média é amorosidade, generosidade, tolerância, respeito, senso de justiça, cooperatividade, além de humildade e espírito de serviço. Intolerância, julgamento, ameaça, irritação, acusação, preconceitos são característica da baixa espiritualidade, do primitivismo religioso, separatista, orgulhoso, atrasado, verdadeira âncora no desenvolvimento da humanidade.
Não preciso nem posso saber o que está fora do alcance da minha capacidade de compreensão. Tenho quase sessenta anos, não demora muito vou estar de cara pra essa realidade, sem intermediação de nada nem ninguém. E "alguma coisa" me diz que, se tenho uma consciência ativa, alerta, e estou de acordo com ela, em paz comigo mesmo e com o mundo a minha volta, estou bem espiritualmente pra encontrar as boas sintonias das outras dimensões. Saber, só assim mesmo. No momento, é intuição, sentimento e atuação na coletividade humana, minha família espiritual, primitiva e em desenvolvimento.
Arrogância como distância
Há uma produção
intensa e intencional de arrogância, via estimulação de egos, pela mídia e pelo
sistema social em geral. Vaidades, superficialidades, fragilidades são criadas, induzidas, estimuladas. Os motivos são simples, ligados à dominação da estrutura, da sociedade como um todo. A arrogância é o melhor
conservante pra ignorância e desinformação. Bloqueia qualquer tentativa de
esclarecimento com insultos programados e automáticos, de forma superficial e
grosseira. Afasta as pessoas e torna as relações superficiais.
Arrogância é um
recurso de domínio social, entre muitos outros. Induzida entre acadêmicos, é uma forma infalível de conter o
conhecimento entre poucos, os que se destinam ao controle, à administração da
maioria ignorante e desinformada, da massa explorável, escravizável, roubada em
seus direitos constitucionais, fácil de conduzir pela mídia, pelas redes
sociais, desarmada de senso crítico, de conhecimentos e informações, apesar de
ser a classe mais forte, mais resistente e que, pelas dificuldades com que trata rotineiramente, desenvolve a sabedoria das vivências e convivências, da
superação de obstáculos, problemas e dificuldades. Para o punhado de
dominantes, o saber não pode se aproximar da sabedoria, é uma "heresia", pros que dominam, a idéia
de instruir e informar, de verdade, a população. A ignorância é parte fundamental do
alicerce desta estrutura social, a superficialidade, a desinformação, a alienação são básicas pra existência da injustiça, da exploração, a competição, a
ânsia de consumo, o valor humano diretamente ligado e dependente do patrimônio,
da forma muito além do conteúdo, tudo são armações psicológicas, induções criminosas na formação da mentalidade geral. A arrogância é uma barreira, mais uma entre tantas, no caminho do saber.
A arrogância serve
também como capa, biombo pra esconder a insegurança pessoal, social ou afetiva. Afasta as pessoas e tornam as relações superficiais e distantes. Um esconderijo, um castelo de areia, uma capa de invisibilidade que só
convence os igualmente condicionados, induzidos a estes valores e procedimentos. Mesmo
assim, entre os que acatam a arrogância dos "superiores", muitos sentem alguma coisa no ar, algum desequilíbrio, alguma falsidade, encenação, alguma coisa por trás da situação, que passa despercebida,
embora intuída.
O que seria bom levar
em conta é que a arrogância cega, muitas pessoas deixam de perceber os sinais
sutis que a vida apresenta, os avisos e advertências diante de decisões e
escolhas. Perdem boa parte da capacidade de aprendizado, sobretudo dos que lhe
são “socialmente inferiores”, mais uma estupidez planejada. Arrogância diminui
a sensibilidade, a capacidade de percepção, o senso de justiça. As coisas
passam a ser analisadas de acordo com a própria conveniência, só se chegam a
conclusões convenientes, só se vê o que se quer e não há como se esclarecer a
respeito dos próprios erros. O arrogante tem enorme dificuldade em corrigir as
próprias falhas porque não as admite. Os que tentam mostrar o que não se quer
ver são desqualificados de imediato, quando não insultados e agredidos.
Arrogância –
freqüentemente ligada a egoísmo, a vaidade, a interesses materiais e
financeiros, a forma, a aparência, a superficialidade – é terra árida,
infértil, desértica, onde só crescem cactos e plantas agressivas, até pela
agressividade do meio. Quem tiver sementes pra plantar, melhor guardar pra
terras férteis, que estão sempre por aí. Sei que todo deserto tem seus oásis,
mas poucos têm condições de encontrar, melhor deixar pra especialistas, gente
com mais sabedoria que eu. Não gosto e não quero perder sementes. Quando
percebo a impossibilidade, a infertilidade, a hostilidade, a tranca, me calo,
sem ranço, sem mágoas, sem julgamentos.
Conheço o mundo onde
vivo, sei das fábricas de pensamentos e sentimentos rasteiros, atrasados,
conflituosos, percebo os planos de causar discórdias e confrontos, a
manipulação mental que acompanha a distorção da realidade pelo jornalismo
empresarial, a sabotagem de todo sistema de ensino, cada setor de uma forma
específica, na construção da sociedade onde vivo e das mentalidades que vigoram
nesse momento da eternidade. Um emissor ocasional de barbaridades e desumanidades ideológicas é
um repetidor de programações mentais, um papagaio de mídia, teleguiado e com
pequena capacidade de criação do seu próprio pensamento, da própria visão de
mundo. A própria sociedade é desumana e cria barbárie nas suas periferias. Eu sou igualmente condicionado se me aborreço com este repetidor, se o julgo e
condeno, decompondo a pessoa em fatores químicos tóxicos, insultando
e acusando. Ou mesmo se o responsabilizo pelo pensamento emitido. Sei que é produção em
massa, que são usados conhecimentos profundos de psicologia do inconsciente,
psicologia de massa, antropologia, sociologia, tudo quanto é estudo do ser
humano e da sociedade. Contratam-se as “melhores cabeças” por fortunas que
anestesiam as consciências, pra compor laboratórios de pensamento na intenção
de construir valores, comportamentos, desejos, visão de mundo, objetivos de
vida.
O mercado das
consciências movimenta muita, muuita grana pelo mundo afora, monitorando
academias e demais produtores de conhecimento. Salários altíssimos e garantias
sociais são anestésicos potentes pra consciências e sensibilidades. E a
arrogância é um ingrediente importante na composição desses anestésicos. Os
efeitos colaterais são aqueles mencionados lá atrás, de passagem: a tendência à
cegueira, à distorção da realidade, o desenvolvimento de egoísmo e de vaidades –
sobretudo simbólicas, que confirmem sua falsa superioridade –, a queda no
sentimento de solidariedade, a criação de isolamento, de
dificuldades afetivas... e por aí vai. O plantio é livre, mas a colheita é
obrigatória. Não como castigo, mas sim como conseqüência. A arrogância bloqueia a inteligência e impede que se tome consciência. Afasta e mantém distância.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2020
Guerra en América Latina (II): Receita para incendiar un continente
Por: Claudio
Fabian Guevara
Publicado 31 diciembre 2019
Um plano explícito e documentado se
foca em detonar uma conflagração na América Latina em torno de Venezuela e
Caribe. Agora se soma a transformação da Bolívia em um novo estado criminoso
que colabore com a geração da guerra. No horizonte, um caos de longa duração e
a subdivisão política do continente em unidades menores.
“Estados Unidos, em
vista do seu retroceso mundial, quer reordenar seu espaço geopolítico …() e afundar
Nuestra América num caos sem fim de ódios ideológicos implantados de fora”.
Miguel Angel Barrios
“A América Latina é,
mais uma vez, o território da disputa geopolítica de colonização ou
descolonização. Em todos os lugares – Bolívia, Chile, Argentina, Brasil,
Venezuela, Uruguai...- e assim, no mesmo padrão: os liberais pró Estados Unidos
(+ liberais de extrema direita) contra as forças de descolonização, em sua
maioria de esquerda”.
Alexander Dugin
As peças vão se juntando. Com o desmentelamento da UNASUR e das
instituições multilaterais que garantiam a paz e os projetos
de integração entre as nações sulamericanas, todas as fichas se movem em
direção a uma guerra induzida na América Latina. Nas duas últimas semanas,
todas as variáveis se aceleraram.
As principais hipóteses de conflito partem do cerco multidimensional à
Venezuela. Agora aparecem os perigos
de uma “ruandização” da Bolivia e sua transformação em um novo
estado criminoso que colabore com a geração da guerra, junto com Colômbia,
Peru, Equador, Brasil e Guiana.
As nações latinoamericanas não têm motivos históricos verdadeiros para
entrar em guerra. Um potencial conflito bélico só pode ser criado
artificialmente, a partir de denúncias falsas, ataques de falsa bandeira ou
decisões governamentais para queimar o continente no altar de uma quimera de
origem estrangeira, como “a defesa da democracia” na Venezuela, ou “a luta
contra o terrorismo” que alimenta o regime usurpador de La Paz.
Um plano detalhado para envolver um grupo de nações latinoamericanas em
um conflito deste tipo veio à luz no ano passado e seus primeiros passos estão
à vista.
A agenda profunda do “golpe de mestre”
No início de 2018, um artigo da jornalista Stella Calloni trouxe à luz
um documento de 11 páginas, com a assinatura do almirante Kurt Walter Tidd,
então comandante em chefe do Comando Sul (SouthCom) estadunidense: “Plan to overthrow the Venezuelan
Dictatorship – Masterstroke”. Ali se esboça a agenda profunda da
guerra contra a Venezuela que, em sua etapa mais avançada prevê uma operação
multinacional. O documento manda executar passos práticos com o objetivo de
desgastar o governo de Nicolás Maduro e forçar a sua queda:
- No plano econômico,
incrementar a instabilidade interna, intensificando a descapitalização do país,
a fuga de capitais estrangeiros e a deterioração da moeda nacional, mediante a
aplicação de medidas inflacionárias que acelerem essa deterioração. Obstruir
todas as importações e desmotivar os investidores externos. Sabotar a indústria
do petróleo. Generalizar o desabastecimento de comida, remédios e bens básicos.
Contribuir fazendo mais críticas à situação da população e fomentar o
descontentamento. Todas as calamidades vividas pela população serão exploradas
para “culpar o governo”.
- No plano social,
apelar a aliados internos e agentes externos implantados no país para provocar
protestos e atos violentos, gerar insegurança, saques e roubos. Promover os
seqüestros de embarcações para desertar do país. Estruturar um plano para
conseguir a deserção dos profissionais mais qualificados do país. Promover o
desgaste entre os membros do partido governante e seus seguidores.
- No plano midiático,
ridicularizar a figura de Maduro, fazê-lo cair em arroubos verbais e equívocos,
para provocar desconfiança à sua figura. Acossá-lo, ridicularizá-lo e apontá-lo
como exemplo de torpeza e incompetência. Minimizar sua importância
internacional. Expô-lo como marionete de Cuba. Exagerar as diferenças entre os
membros do grupo no governo.
- No plano militar,
instigar um golpe de Estado, continuar o fogo contínuo na fronteira com a Colômbia,
multiplicar o tráfico de combustíveis e outros bens, o movimento dos
paramilitares, incursões armadas e tráfico de drogas. Provocar incidentes
armados com as forças de segurança nas fronteiras. Também recrutar
paramilitares, principalmente nos campos de refugiados de Cúcuta, Guajira e no
norte de Santander.
Num primeiro nível de
leitura, o plano é uma explícita declaração de guerra e de interferência
descarada, que explica em grande parte os padecimentos da Venezuela hoje.
Num segundo nível de
leitura, o documento pode ser interpretado como um manual para o assédio e
controle das populações das colônias. Este conjunto de estratégias se aplicam
em outros cenários, contra outros povos.
Em um terceiro, é uma
instrução ideológica para os centros geradores de notícias. Os estereótipos e
construções verbais propostos pelo documento para desacreditar o “líder inimigo”
aparecem transversalmente na cobertura noticiosa sobre a Venezuela atual.
Preparação de una coalizão internacional
Enquanto se fomenta a
instabilidade interna, se traça um plano para obter a cooperação das
autoridades aliadas de “países amigos”: Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e
Guiana.
-As provisões das
tropas, apoio logístico e médico se realizarão a partir do Panamá. Se fará uso
das facilidades da vigilância eletrônica e dos sinais inteligentes, de
hospitais e instalações levadas a Darién (selva panamenha), o equipamento de
drones do Plano Colômbia, como também as terras das antigas bases militares de
Howard e Albrood (no Panamá), assim como as pertencentes a Rio Hato.
- Além disso se
utilizará o Centro Regional Humanitário das Nações Unidas, desenhado para
situações de catástrofes e emergências humanitárias, que conta com um campo de
aterrissagem e seus próprios armazéns.
- A operação militar
será desenvolvida sob bandeira internacional, patrocinada pela Conferência dos
Exércitos Latinoamericanos, sob a proteção da OEA e a supervisão, “no contexto
legal e midiático, do secretário geral (da OEA) Luis Almagro (SIC).
- É prevista uma
Operação Multilateral com a contribuição de Estados, organismos não estatais e
corpos internacionais, antecipando especialmente os pontos mais importantes em
Aruba, Puerto Carreño, Inirida, Maicao, Barranquilla e Sincelejo, em Colômbia e
Roraima, Manaus e Boa Vista, no Brasil.
- Se unirão ao
Brasil, Argentina, Colômbia e Panamá para contribuir com o número de tropas,
com a presença de unidades de combate dos Estados Unidos e destas nações, sob
comando geral do Estado Maior Conjunto, liderado pelos Estados Unidos.
Esta plano – pensa Stella
Calloni – “torna compreensíveis as recentes manobras militares de Estados
Unidos nesta região de fronteira entre Brasil e Venezuela (Brasil, Peru e
Colômbia), no Atlântico Sul (EUA, Chile, Grã Bretanha, Argentina), no caso
argentino sem autorização do Congresso Nacional”.
O “Golpe de Mestre”
previa acelerar os acontecimentos antes das eleições de maio de 2018. Não
conseguiu seus objetivos nos prazos anunciados. O almirante Tidd foi aposentado
poucos meses depois das revelações jornalísticas. Mas o plano continua sua
marcha.
Ultimas novidades na frente venezuelana
Internamente a Venezuela vive todos os ingredientes do plano previsto no
“Golpe de Mestre”: ao boicote da economia se somam um acúmulo de ações
desestabilizadores. Durante 2019, cinco
conspirações violentas da direita venezulana foram descobertas e desativadas.
O último incidente aconteceu em 23 de dezembro, com o ataque de
um grupo armado ao Batalhão 513 no estado sulista e
fronteiriço de Bolívar, onde morreu um militar das FANB (exército venezuelano –
n do T). O governo venezuelano informou o roubo de armamento de guerra,
supostamente com o propósito de realizar uma ação de bandeira falsa, para
provocar uma intervenção militar dos EUA contra a Venezuela.
Os governos da região, longe de impedir a propagação da violência,
mostram uma convergência com as linhas de ação previstas no plano do Comando
Sul. O ministro da informação da Venezuela, Jorge Rodríguez, disse que
Colômbia, Peru, Equador e Brasil facilitaram os movimentos do grupo armado
responsável pelo ataque ao Batalhão 513. Os fatos parecem lhe dar razão.
O presidente Maduro exigiu do Brasil a captura dos militares
responsáveis, que no entanto foram recebidos em território brasileiro, no marco
da “Operação Boas Vindas”. A chancelaria brasileira anunciou que os desertores
solicitaram asilo e lhes foi concedido.
Isto é, por um lado
há um estímulo à imigração, uma recepção “amigável”, inclusive se tratando de
elementos violentos.
Por outro lado, se
aponta o êxodo dos venezuelanos como um motivo de “alarme internacional”. No 11 de
setembro de 2019, 11 países das Américas (Argentina,
Brasil, Chile, Colômbia, El Salvador, Estados Unidos, Guatemala, Haiti,
Honduras, Paraguai, República Dominicana) resolveram convocar uma reunião do
TIAR (Tratado Inter Americano de Assistência Recíproca), com o argumento de que
a situação atual na Venezuela tem um "impacto desestabilizador" y
planeja una "ameaça para a paz e a segurança no hemisfério".
Esta reunião pode ser
a ante-sala de uma operação militar conjunta.
As veias abertas da América Latina
A guerra já começou há muitos anos, com o epicentro na Colômbia. Há mais
de meio século que a pátria de Gabriel Garcia Márquez é sangrada, com o Estado
ausente em muitos meios rurais, hoje nas mãos de narcotraficantes e
paramilitares. Colômbia, nas últimas décadas, registrou ao menos 260 mil mortos,
60 mil desaparecidos y mais de sete milhões de deslocados. Desde
a assinatura dos acordos de paz, em 2016, se registrou o assassinato
de 620 líderes sociales.
Neste clima, se teme que o presidente Iván Duque se aventure numa guerra
contra seu vizinho, Venezuela. Duque se somou à campanha contra a pátria
bolivariana, no início de 2019, com a operação de “assistência humanitária” em
Cúcuta, e em setembro, com um show lastimável na ONU, onde denunciou a
Venezuela por proteger guerrilheiros do Ejército de Liberación Nacional (ELN).
Mas Duque apresentou
como “prova” fotos falsas, e caiu em ridículo cuando a Agência France-Press o
colocou em evidência.
A fronteira colombiana-venezuelana é uma zona de permanentes atritos.
Desde junho em Cúcuta e Maicao, cidades fronteiriças com a Venezuela, há um
contingente de “capacetes brancos” da chancelaria argentina. Na Síria e em
outros cenários, os capacetes brancos têm sido responsáveis por operações de
falsa bandeira e fraudes noticiosas. A missão, mais que uma ação de assistência
sanitária, faz parte do cordão de pressão contra a Venezuela e pode detonar
episódios que sirvam de pretexto para o início das operações.
América Central é outra zona de tensões. Cuba e
Nicarágua estão advertidas mais uma vez que são um marco militar do Pentágono.
A fortaleza militar da ilha não parece haver diminuído, mas a Nicarágua deu mostras
de ter sido infiltrada com o ensaio de guerra híbrida em abril de 2018. A NED e a
USAID deram respaldo explícito aos estudantes/paramilitares nicaraguenses que
no ano passado mobilizaram protestos violentos que provocaram centenas de mortos
y feridos.
Bolívia é outro aríete contra a paz regional. O desgoverno de fato de
Jeanine Añez começa a fazer o papel de cão raivoso, ao estilo de Israel no
Oriente Médio. Há duas semanas houve uma incursão ilegal de miltares bolivianos
em território argentino. Agora se anuncia a potencial
invasão da embaixada do México em La Paz e a expulsão da
embaixadora mexicana e diplomatas espanhóis. Este incidente segue a matriz da
crise das embaixadas venezuelanas e o descrédito criado a partir do
reconhecimento, em alguns Estados, dos falsos representantes diplomáticos de
Guaidó. A política da Bolívia hoje é funcional à deterioração da
institucionalidade da região, uma linha de ação persistente do “pentagonismo”.
Trata-se de ridicularizar a ordem jurídica dos países da zona “não integrada”,
entronizar líderes de papel, desconhecer normas elementais de convivência entre
as nações e confundir a população com falsos debates.
Conclusões: os piromaníacos que se lancem ao fogo
Un
programa de guerra de longa duração, criado pelo Pentagonismo, tem
estratégias bem definidas para detonar uma conflagração na América Latina. O
novo mapa do Pentágono vai se perfilando com preparativos no terreno, condições
sociais longamente preparadas e uma narrativa que o justifica nos noticiários.
Trata-se de um conjunto de elementos de grande dinamismo, com diferentes
atores, capazes de entrar ou sair de cena, segundo o curso dos acontecimentos.
Esta receita para incendiar a América Latina não terá vencedores entre
as nações latinoamericanas. O desenho da guerra tem como objetivo uma ruína
generalizada, a imposição de um caos de longa duração, que facilite a
reconfiguração da região e a subdivisão política do continente em unidades
menores (a divisão
de Santa Cruz, a balcanização
da Venezuela e o desmembramento da Argentina figuram
na agenda globalista).
Assim vê Stella Calloni: “Estados Unidos estão armando um cenário de
guerra na Latinoamérica que depois ameaçará
a todos os países da região, inclusiive os que hoje se prestam aos
planos contra a Venezuela".
Em Caracas se dará uma batalha decisiva. Como disse Atilio Borón,
Venezuela é a nova
Stalingrado.
Tradução –
Eduardo Marinho
Tempestades à vista – nada de feliz ano novo.
Não quis, não fui, não saí de casa. Foi todo mundo, fiquei
sozinho pra não atrapalhar ninguém. Não quero ouvir “feliz ano novo”, repetidas
vezes, com os jargões de sempre, todo ano, todo “fim de ciclo”, um monte de
gente pedindo mudanças pras entidades, sejam quais forem, mudanças que só podem
ser feitas por escolha própria, mudanças de valores, de atitudes, por
percepções de si mesmo seguidas de mudanças de sentimentos, de disposições, de
objetivos, de desejos, de comportamentos, de formas de ver o mundo, os
acontecimentos, as pessoas, as coisas, a vida. Mas não, espera-se que alguma
coisa faça o nosso serviço pessoal e intransferível. Dá-se pulinhos, queimam-se
velas, joga-se arroz, castanhas, ervilhas, lentilhas, usa-se branco, preto,
amarelo, laranja, vermelho, roxo, todos os rituais, todas as mandingas, todas
as ilusões. A esperança é que alguma interferência externa melhore as coisas,
traga dinheiro, facilite a vida. Os mesmos pedidos, repetidos ano a ano, as
mesmas confianças e convicções, esquecer o passado, agora é tudo novo.
Esquecer o passado é o maior risco de repetir velhos erros. E
se não há mudança interna, percebida, assumida, escolhida, decidida e posta em
prática, não há mudança nenhuma além das que o tempo impõe a tudo, no seu ritmo
e do seu jeito. Os desejos, os mesmos produzidos em laboratórios de pensamento
e implantados pelo massacre publicitário-ideológico. A cegueira é palpável,
sedutoramente imposta, quase voluntária. Feliz ano novo.
O ano que termina viu o desmonte de tudo o que fazia alguma
defesa do meio ambiente, das terras indígenas, da agricultura familiar e
orgânica, dos direitos humanos. As instituições foram ocupadas por mentalidades
destrutivas, rasas, ignorantes, truculentas, orgulhosas da sua truculência e
ostensivas da sua ignorância. A indústria nacional foi destruída enquanto o
teatro político-partidário encenava a farsa tragicômica dos desencontros,
chamando a atenção pra si, ocupando os holofotes da mídia empresarial, enquanto
nos bastidores, nas casas legislativas, no poder judiciário, rola a destruição
de todo pudor no saque, na anti-socialidade, na criação de miséria, desemprego
e criminalidade. Os horizontes estão cheios de nuvens escuras, carregadas, a
miséria aumenta, os desabrigados se multiplicam sem controle, o crack, as
drogas, anestesias no abandono, sendo consumidos à destruição, os cortes na
assistência social esmoleira cria mais abandono e sofrimento, a violência se
armando, as forças de segurança sendo treinadas e incitadas pra guerra, pro combate
“ao crime” nas favelas, periferias e bairros pobres, a pobreza crescente
gerando mão de obra pro crime organizado, mais e mais violência. As atrocidades
do Estado refletindo nas atrocidades cada vez mais sem limites do crime,
penitenciárias sendo construídas e lotadas, especializando a criminalidade,
formando as forças inimigas num conflito social sem fronteiras ou limites, onde
a população é o campo de batalha exposto a todas as barbaridades da guerra. E
os empresários do crime proliferam junto ao Estado, financiam campanhas
eleitorais, saem nas colunas sociais com suas obras beneméritas entre a
população roubada nos seus direitos constitucionais, humanos, básicos,
fundamentais. (Feliz ano novo...)
Os assassinos dos povos originários, entre madeireiros,
garimpeiros, mineradoras, empresas agrícolas, ricos criadores de gado,
plantadores de soja e outras monoculturas extensivas (as tais comódities) estão
atiçados, rosnando indóceis, incentivados pelo governo e pela retirada dos
órgãos de defesa tanto das terras indígenas, quanto do meio ambiente. Os
assassinatos voltam a recrudescer, como na colônia, quando matar os indígenas
era a regra. Foi até criado o dia do fogo, quando milhares de peões foram pagos,
municiados de combustível e enviados de moto na missão de criar focos de
incêndio, a tal ponto que escandalizou o mundo.
A viagem que temos
planejada pra começar em janeiro, passando por Tocantins e Maranhão, passa
pelas terras indígenas onde foi assassinada a quarta liderança em dois meses.
Vamos encontrar histórias aí, na certa. De dor e resistência, de ameaças,
ataques e sobrevivência. Estamos do lado socialmente mais fraco, humanamente
muito mais forte. E é essa a força que tentamos captar e passar adiante, na
busca de consciência e solidariedade social numa estrutura construída pra ser
egoísta e indiferente ao sofrimento das multidões injustiçadas pelos poderes
falsamente ditos públicos, pois seqüestrados e dominados pelos poderes
econômico-financeiros, exercido nos bastidores da farsa.
Foram liberados este ano mais de 200 venenos agrícolas com
nomes nojentamente falsificados como “defensivos”, alguns dos quais proibidos
nos países dos próprios fabricantes. Estamos sendo conduzidos ao câncer e
várias outras doenças, pelas químicas não só agrícolas, mas também da indústria
alimentícia, que só tem esse nome pela criminalidade social em que vivemos,
pois é responsável direta pelo adoecimento compulsivo da atualidade, entre
outros fatores também sociais como vida estressante, pressões de mercado,
insegurança no trabalho, paranóias e medos intensificados (e mesmo criados) no
massacre publicitário-ideológico exercido permanentemente pela mídia
empresarial.
O rio Doce continua produzindo doenças degenerativas pelos
metais pesados, nos oitocentos e cinqüenta quilômetros da maior bacia
hidrográfica da região sudeste brasileira, empesteado pelos rejeitos da
mineração que desceram com o rompimento da barragem de Fundão, ao sul do
município de Mariana, MG. O litoral de ES, BA, RJ, SP e PR já têm infestação
dos metais pesados lançados em Regência, foz do rio Doce, há quatro anos no
oceano Atlântico. Os poderes públicos são cúmplices das mineradoras, não à toa.
Elas financiam campanhas tanto eleitorais quanto publicitárias, apoiando e
sendo apoiadas em seus interesses dentro dos poderes municipais, estaduais e
federais, em prejuízo da nação, do meio ambiente e da população. Agora mais que
nunca. Médicos foram retirados de locais onde sua necessidade cresce em ritmo
alucinado. As águas de banhar, de beber, de cozinhar, de usar, no vale do rio
Doce, estão todas contaminadas de metais pesados, altamente cancerígenos. E não
se fala nada, o silêncio cúmplice das empresas de comunicação é o mesmo dos
poderes falsamente públicos, o escândalo, os crimes contra a população são
escondidos, jogados debaixo do tapete, com medidas ridículas, cênicas,
hipócritas, cheias de demagogia e perversidade. Os venenos da mineração que
devastaram Brumadinho, das mesmas empresas, contaminam agora o vale do São
Francisco, que é vital pelo sertão adentro, fonte única de água pra inúmeros
municípios. Dessa vez não é avassalador como o rio Doce, é mais sutil, menos
escancarado, está contaminando aos poucos e, por isso mesmo, está passando
“despercebido” pela mídia, pelo Estado, pelos que cometem crimes sociais
permanentemente contra a nação brasileira e sua população. Esta, a população
ribeirinha, irá adoecendo lentamente, gradativamente, sem ter ligadas as causas
do aumento de ocorrência de doenças degenerativas, sobretudo cânceres, aos peixes
contaminados, à água de irrigação, aos poços de consumo doméstico.
O que vem se anunciando pelos fatos torna o “feliz ano novo”
ridículo. Não quero ser desmancha-prazeres, não quero ser o chato reclamão, não
quero cortar as alegrias que se fabricam no atacado por esta época do ano - não
por acaso. É a estratégia da superficialização do pensamento, da percepção,
criando ilusões de mudança pra que tudo permaneça como está, pra que não se
perceba as raízes, as razões dos enormes problemas sociais, nem as ameaças que
se mostram aproximar como nuvens de tempestades terríveis sobre todos nós. Por
isso passo a noite em casa, sozinho, tomando um vinho, enquanto se festeja a
“chegada de um novo ano, novas esperanças, ano novo, vida nova, tudo
novo”. Não tô pra isso, não dá. Não
consigo nem quero olhar pro outro lado.
Sociedade mafiosa, em todos os campos há máfias. O Estado é
uma entidade criminosa, dominado pelos poderes econômico-financeiros de um
punhado de parasitas sociais podres de ricos que ditam o modelo, o formato, a
estrutura da sociedade, o tipo de educação, os valores, os comportamentos, as
mentalidades. Parasitas que têm na mídia seu porta-voz, seu condutor de
pensamentos e mentalidades, seu deformador da realidade, seu criador de valores
e comportamentos sociais, com as melhores cabeças compradas nas melhores
universidades, consciências vendidas, pra constituírem laboratórios de
pensamento que criarão o que quer que seja pra enganar e conduzir a população,
como gado, usando psicologia do inconsciente e todos os recursos do
conhecimento sobre o ser humano.
Não se trata de ser pessimista ou otimista, se trata de ser
realista ou idiota. Feliz ano novo é o cacete. Não participo disso. Estamos em
tempos nefastos, desumanos, e o que se anuncia é colapso. Não tem “feliz”, não
tem “ano” e não tem “novo”. É tudo mentira. É preciso preparar o pé pra segurar
o tranco. Por gerações.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Segue a encenação
Eduardo Marinho - 20122019
A guerra entre globo e record continua, subterrânea
nos acontecimentos divulgados pela mídia. Agora que o "perigo
vermelho" está fora dos cargos de governo, se pegam entre si os caçadores
de cabeças. Esse tal "perigo vermelho" não é perigo e muito
menos vermelho. Apenas sinalizava, entre as gerações sucessivas, um caminho de
instrução e conseqüente tomada de consciência, com peso nas estatísticas da
população daqui a muitas gerações, a terem continuidade suas políticas sociais.
Pensavam que podiam compor com os banqueiros, os
senhores da escravidão, da violência e da criminalidade mundial. Mas eles têm
laboratórios de pensamento, têm controle da informação, da mentalidade, da
instrução e foram informados que gente feita pra ser explorada não pode ter
instrução de verdade, porque põe em risco a escravidão e o domínio dos vampiros
sociais, ainda que leve algumas gerações. Avisaram os patrões, que tomaram suas
providências. Difamação, calúnia, indução, programação mental generalizada, controle
das comunicações, do jornalismo, das redes sociais acabam controlando as mentes
em quantidade suficiente pra chegar onde querem. A ignorância é a base, o ódio
o combustível.
Antes derrubaram e prenderam sem provas. Agora há
provas até demais, mas não se toma atitude, porque os poderes verdadeiros não
estão se importando muito com essas provas. É preciso ficar mais descarado
ainda, como se fosse possível, pra derrubar essa quadrilha instalada nos
poderes ditos públicos. E ainda assim, pra colocar no lugar coisa bem
semelhante nos resultados, embora com mais polimento no trato. Não importam
muito as marionetes, além do estilo próprio de cada. Os poderes instalados
continuam instalados, claro, nos bastidores da farsa político-econômica.
Os resultados são o que temos a maioria esmagadora, vendo a quantidade
de desabrigados aumentando há anos, num ritmo lento e contínuo. A injustiça, a
miséria, a ignorância, a desinformação, a pobreza, a fome, o abandono levam ao
desequilíbrio, à revolta, à violência, à criminalidade, à produção de uma
segurança pública altamente repressiva, não pra provocar bem estar, paz e
segurança social, mas medo, agressividade, violência e destruição. É a evolução
do caos social já previsto e afirmado há muito, muito tempo, e abafado,
escondido, omitido pelos meios de comunicação, todos dominados por poderes
econômicos. Os fuzis e armamentos pesados, antes restritos aos grandes centros,
se espalham pelo país, a criminalidade alcança mais e mais lugares, espaços e
territórios.
Os direitos das pessoas no trabalho sumiram, criminalizados, apontados
como causa da “crise”, cortam-se então, eliminam-se, é cada um por si, “se o
trabalhador quer direito, não pode ter trabalho, se quer trabalho, não pode
exigir direitos” foi o que disse o agora capataz da vez, muito antes,
inclusive, de ser eleito. O desemprego cresce veloz, agonia de ver tanta gente
sendo despedida, fila de espera da demissão nos empresas, vários conhecidos
passaram por essa agonia e ainda passam. Agora se adaptam as estatísticas, o
que antes era visto como desemprego – a pessoa perde o emprego mas a vida
continua e é preciso dar seu jeito, arruma uma banca e vai vender sei lá o quê
nas calçadas, procura um lugar, às vezes disputa e se impõe ou se conforma e
encontra outro, agora sai da estatística, deixa de se considerar desempregado
nas estatísticas mostradas ao povo. O trabalho informal, último recurso do
desempregado pra sobreviver – antes do crime empresariado, passa a ser
considerado “emprego”. “Está melhorando, os empregos estão aumentando, os
índice de desemprego caem...” dizem os canalhas, os de consciência vendida, e os
ignorantes, os desinformados que se julgam informados por acompanharem o jornalismo
das empresas de comunicação, repetem, convictos, raivosos porque seus “argumentos”
não podem ser sustentados sem briga, sem insultos, sem poeira levantada.
A maldade assume os cargos sem disfarce. Antes ela vinha disfarçada,
entre a hipocrisia, a demagogia, a encenação bem treinada, com os “agrados”
populistas, com jogos de cena minimamente sedutores. A truculência se travestia
de delicadeza. Agora é a truculência assumida, sem constrangimento,
orgulhosamente se levanta a bandeira da violência e da maldade social, em nome
da pátria traída, entregue a poderes econômicos internacionais, saqueada e escravizada,
da família modelo, homofóbica, hipócrita e repressiva e de um deus de ódio e
intolerância, de agressividade e desamor, um deus que não reconheço.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Escolha sexual?
Quando eu morava em Minas e ia manguear em Belo Horizonte, nos bares, nas noites, tinha alguns percursos que eu fazia, encontrando os bares, as mesas nas calçadas, os lugares onde se podia entrar pra vender. Conheci muitas figuras interessantes, que me instruíram, sem perceber, a respeito da humanidade. Era entre 1988 e 1992.
Havia um bar com mesas nas calçadas - era uma esquina -, a última mesa quase em frente a um prédio, na sequência da avenida Brasil. Nessa última mesa conheci um moço dos seus vinte e poucos anos, que tinha capacidade reflexiva, que se identificava com meu trabalho questionador, cheio de idéias, denúncias, propostas, tiradas, ironias, enfim, ficamos quase amigos. Várias vezes ele comprou meus broches, gostava, dava de presente. Ele morava no prédio, tomava sua cerveja na mesa mais próxima.
Uma vez ele me perguntou, depois de questionar como eu chegava àquelas idéias e pensamentos, se eu não sentia uma solidão imensa. Eu nunca tinha pensado nisso. E naquele instante, eu percebi todas as solidões da minha vida, a quantidade de vezes em que eu estava sozinho no mundo, em estradas, em reservas florestais, em meio às multidões, nas periferias, cercado de gente também. Senti uma solidão imensa que me fez refletir, pensar e me modificar de várias maneiras. Vi espaços, sertões, estradas, solidões, em cidades, em idéias, em sentimentos.... Ele percebeu, na minha reação, toda uma divagação, passou muita coisa nos meus olhos de memória, até recuou, "não queria causar um sofrimento", eu o tranquilizei, tava só pensando, percebendo o que não tinha percebido.
Esse moço era bem feminino e se percebia fácil a sua homossexualidade. Eu nunca tinha falado nisso, até porque isso pra mim não tem a menor importância, além do desrespeito inaceitável e tão comum em nosso meio. Mas quando ele me tocou tão fundo e me fez refletir a respeito de mim mesmo, da minha vida, da trajetória até ali, já com três filhos... Acho que me senti na liberdade de questionar também, de minha parte.
E perguntei como era isso de ser homossexual. É escolha, opção sexual como a gente escuta por aí?Em princípio ele se incomodou com a abordagem direta, "mas é assim tão evidente?" Eu ri, era evidente demais, os modos eram totalmente femininos, mas disse "não, mas eu percebo" e ele relaxou, "ah, claro, você percebe, é natural..." Perguntei, é uma escolha, quando aparece, como tu fica sabendo? Ele riu, "escolha? Cê acha que alguém pode escolher ser homossexual? A gente sabe como o mundo trata os homossexuais, alguém pode escolher isso? Só se for masoquista." Achei óbvio.
E contou que era um menino normal de classe média, jogava bola com os amigos, quando foi chegando a idade em que os amigos falavam de meninas, ele se desinteressava, queria jogar bola, ir pra outras atividades. Até o dia em que, depois de uma partida de futebol, um amigo tomou um banho na sua casa e ele sentiu desejo por esse amigo. Entrou em pânico, "não posso ser viado", tentou namorar meninas, se enturmar em casais, só deu errado, só problema, não era sua onda, não era sua sexualidade. Nunca tinha sentido tanta solidão, não podia falar disso com ninguém, nem com a própria mãe, com quem se dava muito bem. Andou perdido, sem rumo, entre góticos, punks, até encontrar um coroa que disse a ele que ele era homossexual, que era preciso assumir, que toda a angústia vinha disso, da sua negação. E o levou pra redutos homossexuais, pra conviver com a homossexualidade naturalmente, pra se sentir humano, digno e respeitável.
Não é uma escolha, aprendi com a vida, com a observação, com a boa vontade, com a sinceridade. É um fato, uma situação, uma realidade, mas não uma escolha, uma opção. Se houvesse opção nesta sociedade primitiva e violenta, ninguém escolheria ser homossexual, seria, como disse meu amigo, masoquismo uma escolha dessa.
Havia um bar com mesas nas calçadas - era uma esquina -, a última mesa quase em frente a um prédio, na sequência da avenida Brasil. Nessa última mesa conheci um moço dos seus vinte e poucos anos, que tinha capacidade reflexiva, que se identificava com meu trabalho questionador, cheio de idéias, denúncias, propostas, tiradas, ironias, enfim, ficamos quase amigos. Várias vezes ele comprou meus broches, gostava, dava de presente. Ele morava no prédio, tomava sua cerveja na mesa mais próxima.
Uma vez ele me perguntou, depois de questionar como eu chegava àquelas idéias e pensamentos, se eu não sentia uma solidão imensa. Eu nunca tinha pensado nisso. E naquele instante, eu percebi todas as solidões da minha vida, a quantidade de vezes em que eu estava sozinho no mundo, em estradas, em reservas florestais, em meio às multidões, nas periferias, cercado de gente também. Senti uma solidão imensa que me fez refletir, pensar e me modificar de várias maneiras. Vi espaços, sertões, estradas, solidões, em cidades, em idéias, em sentimentos.... Ele percebeu, na minha reação, toda uma divagação, passou muita coisa nos meus olhos de memória, até recuou, "não queria causar um sofrimento", eu o tranquilizei, tava só pensando, percebendo o que não tinha percebido.
Esse moço era bem feminino e se percebia fácil a sua homossexualidade. Eu nunca tinha falado nisso, até porque isso pra mim não tem a menor importância, além do desrespeito inaceitável e tão comum em nosso meio. Mas quando ele me tocou tão fundo e me fez refletir a respeito de mim mesmo, da minha vida, da trajetória até ali, já com três filhos... Acho que me senti na liberdade de questionar também, de minha parte.
E perguntei como era isso de ser homossexual. É escolha, opção sexual como a gente escuta por aí?Em princípio ele se incomodou com a abordagem direta, "mas é assim tão evidente?" Eu ri, era evidente demais, os modos eram totalmente femininos, mas disse "não, mas eu percebo" e ele relaxou, "ah, claro, você percebe, é natural..." Perguntei, é uma escolha, quando aparece, como tu fica sabendo? Ele riu, "escolha? Cê acha que alguém pode escolher ser homossexual? A gente sabe como o mundo trata os homossexuais, alguém pode escolher isso? Só se for masoquista." Achei óbvio.
E contou que era um menino normal de classe média, jogava bola com os amigos, quando foi chegando a idade em que os amigos falavam de meninas, ele se desinteressava, queria jogar bola, ir pra outras atividades. Até o dia em que, depois de uma partida de futebol, um amigo tomou um banho na sua casa e ele sentiu desejo por esse amigo. Entrou em pânico, "não posso ser viado", tentou namorar meninas, se enturmar em casais, só deu errado, só problema, não era sua onda, não era sua sexualidade. Nunca tinha sentido tanta solidão, não podia falar disso com ninguém, nem com a própria mãe, com quem se dava muito bem. Andou perdido, sem rumo, entre góticos, punks, até encontrar um coroa que disse a ele que ele era homossexual, que era preciso assumir, que toda a angústia vinha disso, da sua negação. E o levou pra redutos homossexuais, pra conviver com a homossexualidade naturalmente, pra se sentir humano, digno e respeitável.
Não é uma escolha, aprendi com a vida, com a observação, com a boa vontade, com a sinceridade. É um fato, uma situação, uma realidade, mas não uma escolha, uma opção. Se houvesse opção nesta sociedade primitiva e violenta, ninguém escolheria ser homossexual, seria, como disse meu amigo, masoquismo uma escolha dessa.
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
O poder econômico domina o político
O promotor público diz que o Estado é cúmplice dos crimes
madeireiros. “O poder de cooptação do grupo é proporcional ao seu poder
econômico. Existe corrupção e cooptação de agentes públicos, como funcionários
de órgãos ambientais”, conta o promotor. Se o madeireiro precisa de documento
pra vender a madeira, o estado dá, se precisa legislação, o parlamento faz a
lei, se precisa de vista grossa e olhos fechados, distanciam pessoas de
processos decisórios ou fiscalizadores.
Ele ta falando de um caso municipal, talvez até estadual.
Imagine-se a nível nacional, continental, mundial, o tamanho das forças
econômicas, dos interesses gigantescos que se envolvem nos poderes públicos, no
controle das comunicações como força de pressão, de controle de opinião e da
visão de mundo, em todo o tecido social, em todas as áreas. Vivemos uma
colossal falcatrua social onde o ser humano está em plano secundário e em
primeiro plano estão os interesses parasitários de banqueiros e
mega-empresários de todos os ramos, uma casta de aristocratas, a nobreza da
atualidade. A estrutura social é em função destes e em prejuízo dos povos, das
populações como um todo, nos países ricos menos, nos pobres mais visivelmente,
escancarados prejuízos, miséria, ignorância, desinformação, violência e
criminalidade.
É preciso ver o mundo como ele é, ver a sociedade e suas
falsidades, pra não se deixar levar e poder escolher de vontade própria como
viver sem se frustrar com as mentiras publicitárias, empresaristas, estragando
o pouco tempo que temos pra viver com as ilusões fabricadas pelo massacre midiático-ideológico,
que visam manter a estrutura social injusta, perversa, desumana como ela é.
Entende-se a dívida pública que drena riquezas nacionais pra uma ficção
econômica que, sempre que foi auditada, investigada, revelou ilegalidades que
roubavam dinheiro público. A Auditoria da Dívida Pública tai mesmo, com todas
as informações a respeito, mundialmente conhecidas e estrondosamente omitidas,
escondidas pelo jornalismo empresarial.
Estamos numa sociedade totalmente enganosa. Ver permite se
soltar das suas falsidades.
Obs.: A citação do primeiro parágrafo faz referência a
reportagem de Diálogos do Sul - https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/meio-ambiente/61866/o-maior-desmatador-do-brasil-possui-120-madeireiras-na-regiao-norte-do-pais
terça-feira, 26 de novembro de 2019
Vida, passagem de "nascimorte".
Aos dezenove anos eu pensava que não viveria além dos trinta anos - "não chego nos trinta". Pela vida que eu vivia, tinha a convicção de que "minha hora" a qualquer momento "chegaria". Vi "chegar a hora" de várias pessoas e muitos bichos, vi mortes de muitos tipos, às vezes com a sensação de que não tinha sido minha vez a cada vez que escapava - às vezes "milagrosamente". Depois vieram os filhos e, da primeira vez que bala zumbiu na minha orelha em tempos de paternidade, o sentimento de gravidade foi grande, pela primeira vez. E os riscos, então, passaram a incomodar e serem evitados. A prudência ocupou o lugar da temeridade. Ainda que se possa por essa "prudência" entre aspas. Era só a negação do exagero, dos riscos desnecessários.
E a vida foi passando, crianças crescendo, décadas que se viveram, trinta, quarenta, cinquenta... pelo meio dessa década reparei que tinha vivido já muito mais do que imaginava, nos princípios. Num momento de tristeza, brinquei comigo, que que eu ainda tô fazendo por aqui, filhos criados, ninguém dependendo mais de mim pra viver, já tinha produzido tanta coisa, espalhado pelo mundo, já tava me repetindo demais, tudo já gravado por aí em vídeo, no iutube, nas redes, dito, redito e repetido até demais, não precisa mais d'eu por aqui, não. Minha condenação, pelo jeito, é bem maior do que eu imaginava. Devo ter cometido algum crime hediondo noutra passagem.
A vida como uma condenação, uma sentença, um castigo - uma brincadeira antiga, que transforma a morte num alívio, como contraponto à tragédia que se vê. A morte não é mais que a porta de saída, tudo o que nasce tem como destino a morte, tudo o que entra na matéria vai sair um dia, de volta à sua dimensão original. De volta à dimensão espiritual da sua sintonia, sua freqüência vibracional, seu nível espiritual. "Isso não é filosofia, é física", dizia Einstein, o gênio da física. "Sintonize a sua freqüência e esta é a realidade que você terá. Não tem como ser diferente."
Morte não é o contrário de vida, mas de nascimento. Porta de saída é oposto a porta de entrada. Vida é o espaço e tempo que temos pra passar de uma porta à outra. Se mantenho isso na cabeça, os falsos valores implantados pela sociedade em sua farsa se tornam cada vez mais evidentes. É uma passagem. Uma passagem rápida, vamos vendo à medida em que vai passando. Formando uma visão bem diferente da que é mostrada, percebendo necessidades outras, além da publicidade, das pressões do consumo como valor. A satisfação consigo mesmo, com as próprias atividades, a troca de afeto, a criação de laços afetivos, de solidariedade, a cooperatividade, o bem estar da alma, interno, a busca de harmonia coletiva e individual.
O conforto interno aparece mais importante que o externo, por passageiro que é. Estar bem consigo mesmo, com seus sentimentos e sua consciência, é fundamental, nessa visão da vida, por ser o que prevalece no bem estar verdadeiro. O bem estar material, o excesso apregoado pelo massacre cultural publicitário, midiático, ideológico, é uma ilusão angustiante, isolante, falsificada e falsificadora da realidade - muito além das formas e aparências. O excesso, o luxo, a riqueza exigem o sacrifício da alma, da consciência, da sensibilidade, do senso de justiça. Exigem conivência e cumplicidade, indiferença com o sofrimento de multidões e perversidade no proveito dos crimes sociais que criam mão de obra barata, roubando direitos constitucionais. Numa sociedade em desequilíbrio, qualquer privilégio é uma grande responsabilidade diante da sabotagem dos direitos de tantos.
A "consideração social" custa muito caro em espiritualidade. Percebi que pra manter essa consideração - nasci num meio socialmente bem considerado - teria que sacrificar meus sentimentos e minha consciência. Não aceitei, decidi outra coisa, diferente do esperado, do convencional. Escolhi a alma, o bem estar, o conforto interno. O resto foi como que automático, a desconsideração começou na própria família de origem e se estendeu por toda a sociedade. Tudo começou a me tratar pior. Menos os que, naquele momento, me pareciam os melhores e mais interessantes, justamente os perseguidos, os párias, a ralé, os de vida rica em acontecimentos, dificuldades e histórias. Perdi o respeito e a consideração pela sociedade, pelo seu modelo estrutural, onde os interesses econômicos valem mais que o ser humano, mais que a vida, onde se vale o que se tem. E, por conseqüência, perdi também qualquer necessidade de consideração da sociedade, com seus valores furados, superficiais, vazios, impostos pela própria sociedade, com a mídia, o modelo de educação empresarista, a cultura do consumo, utilizando em larga escala psicologia do inconsciente pra enquadrar mentes e corações, formar mentalidades e visão distorcida da realidade. Toda aquela consideração era falsa, condicional à cumplicidade com os crimes sociais. E a desconsideração é sinceridade. Melhor um pé na bunda sincero que um sorriso falso. Na minha opinião, claro, há quem prefira o contrário.
Na sociedade do patrimônio, dos interesses econômicos, da ânsia por bens, luxos e privilégios duvidosos, o bem mais importante e, ao mesmo tempo, mais esquecido, mais sacrificado, é o bem estar consigo mesmo, com a própria consciência, com o próprio sentimento em estar vivo nessa bagaça.
Na sociedade do patrimônio, dos interesses econômicos, da ânsia por bens, luxos e privilégios duvidosos, o bem mais importante e, ao mesmo tempo, mais esquecido, mais sacrificado, é o bem estar consigo mesmo, com a própria consciência, com o próprio sentimento em estar vivo nessa bagaça.
sábado, 19 de outubro de 2019
Coentro retira metais pesados do corpo
São tempos de metais pesados. Na água, no ar, na comida, pela pele adentro. Por isso é que se precisa do coentro. Ele retira metais pesados do corpo, do sangue, dos tecidos, é a informação que rola.
A passagem pelo rio Doce, duas vezes em dois anos, foi marcante. Reveladora dos valores nesta sociedade onde a vida está num plano tão evidentemente secundário que choca a sensibilidade mesmo havendo a consciência de tal disposição, de tal estrutura social, desumana, perversa, capaz de qualquer coisa "possível" em nome de interesses econômicos, empresariais. Inclusive transformando a política, a administração pública, os poderes do Estado em marionetes, em instrumento, em uma farsa institucional que trai cotidianamente a população, dominada nos bastidores, em círculos acima dos poderes públicos, a partir do mercado econômico-financeiro, do punhado de podres de ricos mundiais e seus cúmplices, agentes e beneficiários regionais e locais, elites privilegiadas que usufruem das injustiças e falcatruas sociais.
Na primeira viagem, a barragem de Fundão acabara de romper, havia menos de um mês, e nós começamos em Mariana, invadindo o distrito de Bento Rodrigues* - os acessos estavam embarreirados e a área estava sob controle da segurança da Samarco, mineradora testa da Vale, o terror dos povos originários e ribeirinhos, a população em geral do vale do rio Doce - e depois passando em todas as localidades ao longo do percurso dessa onda descomunal de rejeitos da mineração, metais pesados de todo o tipo, altamente cancerígenos. Desde o rio Gualaxo do Norte, coberto e destruído, passando pelo rio do Carmo, que continua "limpo" no centro de Mariana, mais de vinte quilômetros acima do despejo venenoso, segue ainda oitenta quilômetros serra abaixo até Barra Longa, depois mais dez, onde se junta ao rio Piranga pra formar o rio Doce*.
Em Barra Longa a maré do metal pesado cobriu a área de lazer da cidade, à beira rio. Chegamos à noite lá e no dia seguinte vimos tratores limpando, recolhendo, enchendo caminhões basculante que saíam pingando pelas ruas da cidade pra levar a lama tóxica até um espaço determinado pela prefeitura como depósito dos metais pesados. Claro, sem mencionar "metais pesados" em nenhum momento. Pensei neles, vendo escorrer pelas ruas, "isso vai secar, carros vão passar, a poeira vai levantar, cheia de veneno, pro povo respirar". Não deu outra. Dois anos depois, Barra Longa era "campeã" em doenças nas vias respiratórias, em todo o vale*. Doenças de pele, de esôfago, de estômago, garganta, intestino, pâncreas, fígado, em tudo, proliferaram e continuam proliferando por todos os mais de oitocentos quilômetros do rio Doce, hoje fonte de envenenamento. Não serve nem pra irrigar as plantações.
Bueno, tudo o que estou dizendo aqui já disse antes, a intenção agora é chamar a atenção pro coentro, como desmetalizador pesado de corpos, retira metais pesados que as... como dizer... "atribulações sociais", ou melhor, as mancomunações público-privadas da mineração espalharam em rios, mares, vales, montanhas, em proporção nunca vista. Informação necessária, não só pra ajudar os tratamentos, mas pra ligar sintomas desconhecidos à presença desses venenos, cádmio, chumbo, cobre, ferro, arsênio, etc, etc, etc, nas águas, terras, nos ares, na comida da atualidade.
São tempos de metais pesados. São tempos em que a necessidade do coentro, não só mas sobretudo, aumenta em importância medicinal. Chá de coentro, salada de coentro, coentro na manteiga, no queijo, no azeite, em tudo. Coentro!
http://observareabsorver.blogspot.com/2017/01/o-rio-doce-precisa-de-quelacao-urgente.html
*https://observareabsorver.blogspot.com/2015/11/o-apocalipse-de-bento-rodrigues.html
*https://observareabsorver.blogspot.com/2015/12/rio-doce-cidade.html
*https://observareabsorver.blogspot.com/2018/03/do-bento-barra-longa.html
A passagem pelo rio Doce, duas vezes em dois anos, foi marcante. Reveladora dos valores nesta sociedade onde a vida está num plano tão evidentemente secundário que choca a sensibilidade mesmo havendo a consciência de tal disposição, de tal estrutura social, desumana, perversa, capaz de qualquer coisa "possível" em nome de interesses econômicos, empresariais. Inclusive transformando a política, a administração pública, os poderes do Estado em marionetes, em instrumento, em uma farsa institucional que trai cotidianamente a população, dominada nos bastidores, em círculos acima dos poderes públicos, a partir do mercado econômico-financeiro, do punhado de podres de ricos mundiais e seus cúmplices, agentes e beneficiários regionais e locais, elites privilegiadas que usufruem das injustiças e falcatruas sociais.
Na primeira viagem, a barragem de Fundão acabara de romper, havia menos de um mês, e nós começamos em Mariana, invadindo o distrito de Bento Rodrigues* - os acessos estavam embarreirados e a área estava sob controle da segurança da Samarco, mineradora testa da Vale, o terror dos povos originários e ribeirinhos, a população em geral do vale do rio Doce - e depois passando em todas as localidades ao longo do percurso dessa onda descomunal de rejeitos da mineração, metais pesados de todo o tipo, altamente cancerígenos. Desde o rio Gualaxo do Norte, coberto e destruído, passando pelo rio do Carmo, que continua "limpo" no centro de Mariana, mais de vinte quilômetros acima do despejo venenoso, segue ainda oitenta quilômetros serra abaixo até Barra Longa, depois mais dez, onde se junta ao rio Piranga pra formar o rio Doce*.
Em Barra Longa a maré do metal pesado cobriu a área de lazer da cidade, à beira rio. Chegamos à noite lá e no dia seguinte vimos tratores limpando, recolhendo, enchendo caminhões basculante que saíam pingando pelas ruas da cidade pra levar a lama tóxica até um espaço determinado pela prefeitura como depósito dos metais pesados. Claro, sem mencionar "metais pesados" em nenhum momento. Pensei neles, vendo escorrer pelas ruas, "isso vai secar, carros vão passar, a poeira vai levantar, cheia de veneno, pro povo respirar". Não deu outra. Dois anos depois, Barra Longa era "campeã" em doenças nas vias respiratórias, em todo o vale*. Doenças de pele, de esôfago, de estômago, garganta, intestino, pâncreas, fígado, em tudo, proliferaram e continuam proliferando por todos os mais de oitocentos quilômetros do rio Doce, hoje fonte de envenenamento. Não serve nem pra irrigar as plantações.
Bueno, tudo o que estou dizendo aqui já disse antes, a intenção agora é chamar a atenção pro coentro, como desmetalizador pesado de corpos, retira metais pesados que as... como dizer... "atribulações sociais", ou melhor, as mancomunações público-privadas da mineração espalharam em rios, mares, vales, montanhas, em proporção nunca vista. Informação necessária, não só pra ajudar os tratamentos, mas pra ligar sintomas desconhecidos à presença desses venenos, cádmio, chumbo, cobre, ferro, arsênio, etc, etc, etc, nas águas, terras, nos ares, na comida da atualidade.
São tempos de metais pesados. São tempos em que a necessidade do coentro, não só mas sobretudo, aumenta em importância medicinal. Chá de coentro, salada de coentro, coentro na manteiga, no queijo, no azeite, em tudo. Coentro!
http://observareabsorver.blogspot.com/2017/01/o-rio-doce-precisa-de-quelacao-urgente.html
*https://observareabsorver.blogspot.com/2015/11/o-apocalipse-de-bento-rodrigues.html
*https://observareabsorver.blogspot.com/2015/12/rio-doce-cidade.html
*https://observareabsorver.blogspot.com/2018/03/do-bento-barra-longa.html
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