quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Que democracia?




                         O estado democrático é uma falácia, um engodo, uma farsa, uma fraude. É a ditadura do poder econômico, o domínio das estruturas sociais pelo mercado financeiro e pelas grandes empresas. A administração pública, a começar pelos três poderes, executivo, legislativo e judiciário, está dominada pela influência de uma minoria ínfima da população, desviando as prioridades do estado para os seus interesses econômicos, negligenciando as funções principais de servir à coletividade como um todo.
                         Mantém-se o povo ignorante, desinformado, desmoralizado e amedrontado. Ignorante, negando-lhe uma educação que mereça esse nome. Desinformado pelo controle da mídia e das comunicações, distorcendo informações, omitindo, deturpando, de acordo com os interesses econômicos de poucos. Desmoralizado, pela criminalização e perseguição de qualquer movimento que agregue, esclareça, conscientize e defenda a maioria, pela divisão e isolamento das pessoas com a ideologia da competição e do consumo compulsivo, através de uma publicidade massacrante, repetitiva, insidiosa, desonesta. Amedrontado, entre o empobrecimento, a exclusão social e o aparato da “segurança pública”.
                         Periodicamente, alimenta-se a farsa, simulando-se eleições “democráticas”, obrigando à votação em massa, após campanhas publicitárias milionárias, mentirosas, onde o único compromisso que se pensa em honrar é com os financiadores dessas campanhas, esquecendo-se os eleitores. São estatísticas.
                         O povo, sabotado em instrução, em informação, em consciência, em dignidade, não consegue discernir para escolher, não percebe o jogo de interesses ao qual é submetido. Muitos entram no jogo, negociam vantagens, migalhas... e sustentam o controle do jogo. Outros, não querem “nem saber de política”, querem é consumir, desfrutar, possuir, ostentar, ainda que seja sua própria miséria, sua própria pobreza mal disfarçada, sua média classe, sua mediocridade. São os prisioneiros da publicidade, dependem de estímulos externos para sentirem alguma razão no existir. São a grande maioria das pessoas.
                         Há outros e muitos tipos, mas poucos interessados no que fazem nossos empregados – os políticos, executivos e funcionários públicos em cargos de chefia - e como controlá-los e mantê-los a serviço da coletividade como um todo, priorizando as situações de fragilidade e não os interesses dos mais ricos entre os mais ricos.
                         Que não me venham falar em democracia. A ditadura se impõe, insidiosa ou descarada, sobre a ignorância onde é mantida a maioria. O resto é jogo de cena.
                                                                                                                                        Eduardo Marinho

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Que vencedor, que nada




         Diante de uma sociedade que me obriga a coexistir com situações de extrema fragilidade e sofrimento, em que se aceita como "naturais" ou "inevitáveis" realidades como a fome, a miséria e a ignorância, se aponta como valores principais a propriedade, o consumo, a ostentação e se impõe a competição como forma de relacionamento entre as pessoas, só posso colocar minha vida em contraposição às correntes dominantes. Tanto em valores, quanto em comportamento e em objetivos de vida.
         É preciso revelar dentro de nós os valores induzidos pelos meios de comunicação de massa, pelo massacre publicitário, pela propaganda ideológica, psicológica, inconsciente, sub-liminar ou não. Pela pressão social daqueles que aderem aos valores artificiais e, na falta de convicção, precisam impor aos demais, compor grupos e discriminar os que não lhes apóiam valores que, por si, não se sustentam. Temos em nós estes condicionamentos, em maior ou menor grau. São valores-causas do desequilíbrio social - a cultura da competição, em que todos são adversários potenciais, e a do consumo, em que o objetivo principal da vida é consumir, possuir, desfrutar, alcançar o máximo da fartura material, entre a ostentação e o desperdício. São enormes e estratégicas mentiras.
         Não há competição onde há desigualdade de condições. Há covardia.
         A massa dos "derrotados" aumenta, os "vencedores" se empilham em pirâmides de poder e privilégios ascendentes. No topo, o pequeno grupo. Os donos das mega-empresas transnacionais, dos grandes bancos e corporações financeiras, interferindo e controlando as políticas públicas e a mídia para os favorecer e encher, mais ainda, de poder e privilégios, em prejuízo dos direitos básicos da população e das obrigações principais do Estado.
         Este é o sentido das minhas ações, do meu trabalho, da minha vida. Não tenho a ingenuidade de esperar ver o mundo conforme eu gostaria. Também não me é possível aderir a esses valores planejados e implantados como "a realidade", que fazem de irmãos, adversários e do objetivo da vida, o consumo excessivo, a posse, o conforto físico. Perdemos o contato direto com as necessidades abstratas, as principais do ser, o sentimento de integração, a sensação de utilidade ao coletivo, o eqüilíbrio emocional, as relações afetivas, a solidariedade, o senso de justiça, o desenvolvimento da consciência.
         Existe em mim a necessidade incontrolável de plantar idéias, valores, questões, sentimentos. Denunciar as mentiras em que tantos acreditam, os valores falsos, as necessidades artificiais, a mediocridade da vida e a mesquinharia dos objetivos oferecidos. Apregoar os valores do espírito, solidariedade, integração, consciência. Denunciar o egoísmo da mentalidade competitiva, a crueldade - ou indiferença - das minorias dominantes.
         Não espero colher os frutos das árvores que planto. E isso não diminui minha necessidade de seguir plantando, de trabalhar em direção contrária às correntes, aos valores vigentes, nocivos à grande maioria, embora - e por isso mesmo - a submetendo.
         A discriminação, a perseguição dos organismos repressivos da administração pública, o desprezo dos convencionais são, por outro lado, elogios a quem não se submete. Eu teria vergonha de aderir aos valores dessa sociedade perversa. De ostentar riqueza como falso símbolo de vitória. Não estou aqui pra competir. Privilégios me constrangem, desperdícios me dão repulsa e entristecem. Superioridade social é uma encenação ridícula, subalternidade humana é uma ilusão triste.
         Não compartilho dos valores vigentes. Não tenho como andar com as correntes. Sigo somente minha própria consciência. Minha "pobreza" é minha riqueza, minha "derrota" é minha vitória. Teria vergonha, neste mundo, de ser um "vencedor".
                                                                                                                                                    Eduardo



Eduardo

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Manifesto do Teatro Periférico



O texto pode ser aplicado, na minha opinião, a todas as artes, sem exceção, e sobretudo aos artistas.

Ele é uma criação coletiva. Três dos autores são de São Paulo, participaram do festival periférico, acho que em 2007. Eu o li num jornal e o achei muito bom. Tomei a liberdade de interferir, de minha parte, acrescentando aqui e ali, adequando acolá, pondo um pouco o meu jeito - já que iria executar um desenho com o texto. Agora me sinto um pouco autor, também, ainda que não conheça os caras que fizeram o texto que li.

Alguém que os conhece passou em Santa e comentou as modificações, positivamente. Gostou dos acréscimos e tirou uma foto pra levar pros caras. Levou o contato, mas nada. Bom, todos temos muito o que fazer. Se não tivessem gostado, na certa fariam contato, pra protestar.

A eles, minha saudação.

                                                                                                Ademir de Almeida, Claudio Laureatti, Euller Alves e Eduardo Marinho



segunda-feira, 2 de agosto de 2010




Largo do Guimarães, à noite. É onde costumo expor meus desenhos e textos, nos fins de semana, em geral, à tarde. Às vezes fico até a noite. O lugar é a parede que está por trás do bonde, embaixo da casa, com portas fechadas - elas não abrem, tem briga na justiça faz tempo. Chegando ao largo, não tem como não ver.

sexta-feira, 30 de julho de 2010







Objetivos e pontos finais importam menos. Aprender é mais urgente que armazenar informações. Os meios são os fins. A viagem é o destino.
Quando se percebe a vida como um processo, as velhas distinções entre vitória e derrota, sucesso e fracasso, desaparecem. 

Marilyn Ferguson


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ninguém nasce bandido



Tempos atrás, para chegar em casa, eu passava pelo meio do "movimento", no morro do Fogueteiro, subindo da rua Itapiru em direção a Santa Teresa. Todos me conheciam, morei por ali um ano. Uma vez, eu vinha subindo devagar, de noite, carregado de compras, mais o material de trabalho, quando de um beco sai um moleque pequeno e escuro, com uma bolsa atravessada e uma pistola cromada na mão. No escuro, o cromado aumentava o tamanho da arma e a desproporção com o garoto. Não o conheci e, por instinto, atentei em seus movimentos. Ele caminhou com desenvoltura em direção à turma do "plantão", falou com uns caras da boca, entregou ou pegou alguma coisa que tirou ou colocou na bolsa - não reparei - e saiu andando na direção de uma escada. Dois garotos pequenos jogavam bola perto de um poste mais acima e, nesse momento, deixaram a bola escapar pro lado de cá. Junto com a bola veio o grito - "pega aê!" A bola rolava na direção do menino com a arma e ele virou, levantou a bola com habilidade, matou no peito, fez uma embaixada com os dois joelhos, com os dois pés e devolveu pros meninos no exato local onde eles estavam.

Foi durante esse ato que percebi, meio espantado, ser um menino da idade do meu filho, talvez um pouco mais ou menos. E aí eu pude me dar conta da humanidade dele e da situação em que se encontrava. Tanto que morreu algum tempo depois, como outros que conheci, em tantos lugares.

No desenho eu pretendi inverter o processo de percepção, e escondi a pistola sobre um fundo escuro de uma cerca, para mostrar primeiro a humanidade do menino. Depois, o risco e as opções que lhe são postas, na vida, além de abstrações inatingíveis para a esmagadora maioria, roubada no ensino, na cidadania, na dignidade, nas oportunidades de desenvolvimento real, nos serviços "públicos" e em consciência.

Um outro menino, que chega da escola, de mochila, carregando compras com a mãe, que vem logo atrás, passa tranqüilo pelo fuzil encostado na mesa de sinuca, enquanto os caras do movimento se arrumam com suas mercadorias, funcionários do tráfico nas posições mais expostas e arriscadas, sujeitos a extermínios constantes, mas facilmente substituíveis em meio à miséria circundante. Nesses locais de exclusão, o Estado só se apresenta com a polícia e é quando o terror se implanta na forma mais aguda, pondo em risco a vida de todos na área, matando com triste freqüência envolvidos ou não com o tráfico.
 
Na birosca rola uma cerveja, uma cana, uma idéia, enquanto as mulheres penduram as roupas lavadas nos varais. Há algo de antigo na favela, de quando as casas ainda tinham quintais e espaço.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Resumo da minha vida (até há pouco tempo)



Meu pai era militar e minha mãe, funcionária pública, do IAPC, depois INPS, depois INAMPS, depois... Ele sertanejo (de Nova Cruz, fronteira entre Paraíba e Rio Grande do Norte), ela mineira (descendente de alemães e portugueses).

Nasci no Espírito Santo, saí de lá com um mês de idade, pro Rio de Janeiro. Mas minha primeira lembrança da infância é de Corumbá, no Mato Grosso. Soltei o freio de mão da kombi do meu pai (ele me deixou sozinho, por um instante) e ela desceu de ré a ladeira onde morávamos, indo bater num poste no meio de uma avenida lá embaixo, assustando um burro que puxava uma carroça de abóboras, que empinou e virou com a carroça, espalhando as abóboras e provocando uma confusão danada, com gritos e correrias. Abri um enorme berreiro, com o dedo na buzina (naquele tempo a buzina funcionava, com o motor desligado), até meu pai descer correndo a ladeira e me pegar no colo. Lembro que ele riu da minha cara apavorada e também de alívio. Hoje eu digo, pra descrença geral, que bati o carro do meu pai quando eu tinha três anos. Morávamos lá, em 64, enquanto davam o golpe "militar". Mudamos pro Rio em 66, onde estudei, com minhas irmãs, num colégio de freiras.

Em 68 fomos pra Feira de Santana, onde eu aprendi a comer com farinha (até hoje), moramos afastados da cidade, em área rural, na vila militar dos oficiais. Meu pai era o comandante do 35º Batalhão de Infantaria. Dali voltamos ao Rio, de 71 a 73, e eu fui para o Colégio Militar. Morávamos na Tijuca, ao lado do Clube Municipal. Eu já fazia vários esportes.

Em 74 fomos pra Brasília. Ali, com 15 anos, fiz concurso e entrei pro Banco do Brasil. Pedi demissão dez meses depois, pra espanto geral. Na época, quem entrava pro Banco dava graças a deus e não saía mais, até se aposentar. E foi justamente esta idéia que me apavorou, viver ali a vida toda me parecia um horror. Foi a primeira vez que me chamaram de louco. A próxima experiência foi o exército. Entrei (via concurso) pra escola preparatória de cadetes do exército, pra alívio da família, que imaginou que eu estava com a vida resolvida. Ali eu tomei ojeriza da hierarquia forçada, artificial e sem sentido. E do papel do exército dentro do conjunto da sociedade, depois que me peguei com um fuzil na mão, apontando pra uma manifestação de estudantes desarmados, em frente ao quartel. Havíamos chegado de um exercício de campo brabo, com campo de concentração e tortura, caminháramos 90 km pra chegar de volta no quartel, 2/3 da tropa caiu pelo caminho, o estado interno era deplorável, eu ia dormir quando tocou o alarme, me deram de volta o fuzil e as balas, eu deitei na barricada com a arma destravada e louco pra atirar. Eu era da equipe de tiro, acertava um alvo a 600 metros, a manifestação era, no máximo a 200 m, coloquei o cara do megafone na alça de mira e pedi ordem de fogo, "tenho o líder na mira, tenente". Ele não deu a ordem e eu fiquei puto. Depois, chegou a polícia de choque e dispersou a manifestação, gás lacrimogêneo, cacetetes, gritos, correria. E pudemos ir dormir. Quando acordei, lembrei e fiquei estarrecido comigo mesmo. Saí do exército, pra comoção geral na família.

Meu pai e minha mãe se aposentaram, meu pai foi trabalhar na Eletrobrás do Espírito Santo, e eu conheci o estado onde nasci. Ali, fui corretor de imóveis, mergulhador (captura e criação de lagostas), surfista, maconhófilo, capoeirista e estudante de direito. Na faculdade, conheci os filósofos (ótimos) e seus seguidores (péssimos). Ao ler Marx, disse "é isso!" Mas não durou muito tempo, os marxistas me deram no saco, era muita certeza pra minha cabeça duvidosa. Além do mais, novamente uma hierarquia ridícula se fazia presente. Eu vinha de um ano e meio de exército, tinha cortado um dobrado, vinha um bando de filhinhos de mamãe que tinham tudo na mão e nunca tinham ficado por conta própria querendo exercer superioridade, talvez por saber muito mais textos decorados e se suporem portadores da verdade. Eu desconhecia. Fiz algumas ações de sabotagem, cortei uns fios, pichei uns muros, contestei o sistema daquela maneira lá. Me desentendi com o movimento estudantil, na época controlado pelo PC do B (stalinista). Abracei o anarquismo, depois achei fraco, também, as pessoas eram superficiais. Pregavam, mas não viviam aquilo. Aí eu me desliguei da escola "não quero ser dotô", botei umas coisas na mochila (poucas) e fui experimentar o que é não ter nada, fui procurar um sentido pra vida. E a família me baniu, e não era uma metáfora. "Pode esquecer que teve família um dia", "você não faz mais parte da família", "não nos procure para nada, em nenhuma circunstância". Isso depois de passar por um psicólogo, um psiquiatra e um padre, de última, pra me exorcizar (se eu não tava desequilibrado, nem louco, só podia estar endemoniado). Foi um rompimento geral, não só pai e mãe, mas a família inteira. Eu tava com 19 anos. E aí começou a história...





...continuando...





Passei alguns anos só viajando, de cidade em cidade, às vezes só na estrada, dormindo nos acostamentos, sob as marquises dos postos de gasolina, em construções, casas abandonadas, ruínas. Quando tinha fome, pedia o que comer em casas, restaurantes, postos, onde tivesse, trocava em serviço ou pedia simplesmente, pra seguir viagem. Andava sem dinheiro nenhum, tranqüilamente. Logo nos primeiros tempos, perdi os documentos (que ainda me davam alguma proteção contra as investidas da polícia). Em seguida fui preso pela primeira vez. Acusação: vadiagem. Na verdade, tirei uma onda com uns PMs em Salvador, e eles não gostaram. Como a geral não revelou nada, vadiagem foi o pretexto. Sagrada prisão. Tive que lavar um camburão e fiquei conhecendo o motorista (ou melhor, ele ficou me conhecendo), com quem eu insisti pra abrir a caçapa. Queria lavar lá dentro, depois de lavar toda a viatura. Ele não abriu, mas achou a maior graça de eu fazer tanta questão de lavar lá dentro.

Meses depois ele me salvou numa geral de cana certa, eu carregava umas gramas pra uns gringos meus vizinhos esporádicos na ilha de Itaparica (estava morando em Mar Grande). 50 gramas de preto, de "massa" ou "chá", na Bahia da época.

Na Bahia, também, eu descobri que primeiro cê ouve o zumbido, depois o tiro, numa carreira desabalada ladeira abaixo, em outro "avião". Dessa vez os PMs tavam a pé, e os tiros foram um estímulo tão grande que eles me perderam de vista em seguida, pois eu saí voando. Eu já tinha uma filha, Brisa do Outono, que nascera numa passagem em Vitória. Depois dessa, parei de fazer avião.

Na Bahia tive outra filha, Adhara, quando morava na Aldeia de Arembepe, numa casa toda de palha, minha primeira casa própria, onde vivi dois anos, ao norte de Salvador.

Depois, morei na Boca do Rio, ainda em Salvador, durante uns seis meses ainda, de onde saí por falta de pagamento das contas, mas só depois de ficar sem água nem luz.

Pegamos a estrada e viemos descendo, pouco a pouco, até chegar no Rio, em 85/6. Morei em Saquarema, num sítio de um alemão da Lufthansa que só tinha latinoamericanos de língua espanhola. Depois passei um tempo nas ruas do Rio, morei numa ocupação em Jacarepaguá, depois em Petrópolis, onde perdi o pouco que tinha na enchente de 87 pra 88, e fui pruma comunidade alternativa em Montes Claros, MG, já durante a gravidez de Ravi.

Partimos quatro meses depois e passamos por muitas cidades, até chegar em Sete Lagoas. Ali, ficamos hospedados no Hotel Vitória, por um mês, a convite, sem pagar. Dali fomos a uma cidadezinha satélite de Sete Lagoas, Prudente de Morais, onde moramos por 4 anos (não havia morado tanto tempo num lugar só, ainda). Aí me separei e fiquei com três crianças, sem a mãe, por escolha delas. Fui pra Visconde de Mauá e me escondi no mato, saindo pra vender minhas coisas e bancar as pequenas despesas que tinha. As crianças foram crescendo, eu casei de novo (com uma cearence que hoje é juíza e mudou o nome do filho que nós tivemos, de Manu Moreno pra Emanuel) e mudei pro Rio, desta vez pra um apartamento em Copacabana, um conjugado. Ela me dispensou e voltou pras suas "regalias" de família rica, cansada da minha pobreza material, queria babá, creche, empregada, e me deixou no fundo do poço, de onde eu tirei aquela frase que vendo até hoje, “quem chega ao fundo do poço, precisa lembrar que o fundo é o melhor lugar do poço, pra se tomar impulso”. Morei em Santa Teresa um ano e depois, me estabeleci em Santa Rosa, onde moro até hoje. Aí, já fazendo desenhos a nanquim, pintura a óleo, cenários pra teatro, sempre focado em esclarecer, sensibilizar, questionar, conscientizar.

E estamos aí.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Raul Seixas

                                                                                                                                                                                                    


"Não que me sinta sozinho, quando caminho por entre toda essa gente, de cabeça baixa.
Lastimo e é só.
As ruas se desfazem, quando o caminho pra frente é percorrido.
Não há mais retorno.
Uns há que ficam, e são tantos...
Quero a mão dos que prosseguem.
Quero a certeza dos loucos que brilham,
pois se o louco persistir na sua loucura,
acabará sábio."

"Na casa da ignorância, não há espelho no qual se possa ver a alma."

"Ninguém tem o direito de me julgar, a não ser eu mesmo."



Bob Marley

Albert Einstein




"Não existe nenhum caminho lógico para a descoberta das leis elementares do universo.
O único caminho é o da intuição."

quarta-feira, 3 de março de 2010









"É possível acabar com a exploração dos pobres, não matando alguns milionários, mas esclarecendo os pobres para que deixem de colaborar com os exploradores"

"Sejamos a mudança que queremos no mundo"

"Saber e não fazer, ainda não é saber"

"Não há caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho"

Mohandas K. Gandhi, o Mahatma

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Carta a Isnard

Carta escrita a um novo amigo, de 73 anos, lúcido lutador por um mundo melhor. Aí tem um pouco da minha história.


Meu grande irmão (chamo de grande irmão ao mais velho que me inspira respeito, como de irmãozinho ao mais novo que percebo na busca).


A visão que tenho do mundo se deve a uma série de privilégios que o "acaso" me proporcionou. Nasci numa casa abastada, estudei em escolas particulares até o científico - ou segundo grau, ou ensino médio -, entrando, depois, numa universidade pública - caminho convencional burguês de qualificação profissional para a manutenção do patamar social.

Na minha casa era praticamente proibido questionar a situação social, não por adesão consciente aos valores capitalistas, mas pelo exercício dos condicionamentos planejados e implantados pelos reais poderes da sociedade. Desde a infância, diante das perguntas difíceis de responder, tive que ouvir coisas como "ninguém pensa nisso", "essas perguntas não se fazem", "sempre foi assim e sempre será", "não pense nisso, trate de se preparar para garantir o seu futuro", "ninguém pode mudar o mundo", etc, etc, às vezes com impaciência, "de onde esse menino está tirando essas idéias?", "com quem você anda conversando?".

Entrei para o Banco do Brasil, via concurso, em Brasília, com 15 anos, e em 10 meses pedi demissão - a primeira vez que me chamaram de louco -, angustiado pela falta de sentido daquela atividade, além da repulsa pelos valores com os quais estava convivendo, as razões da existência dos colegas, tidos como universais, e pela incompatibilidade pessoal com a ausência de sentido na vida, para mim, embora visse que fazia todo o sentido, para os outros.

Ainda na adolescência, entrei, também via concurso, na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (encurtando a história, para não ficar maçante), para alívio da família, que já estava me estranhando. Viram nisso a solução para minha vida, sem perceber que eu estava apenas experimentando, tentando me enquadrar, por causa deles mesmos. Quando saí, no segundo ano, a comoção familiar foi enorme. E, de novo, fui chamado de louco. Não teve uma voz que me apoiasse a decisão.

Com a fibra adquirida nos exercícios militares, viajei de carona, dormi nos matos, nos acostamentos, convivi com pessoas pobres. Depois, fui morar com minha família de novo, terminei o ensino médio e entrei numa faculdade pública. O meu meio social me constrangia. A soberba diante dos serviçais me envergonhava. Eu era tido, em alguns momentos, como um cara "muito estranho". Tentava me aproximar dos porteiros, dos garçons, dos faxineiros, com simpatia e respeito e era muito bem recebido, mas nunca como igual. Eu era apenas um "rico" legal. Tratavam-me bem, mas sem a igualdade com que se tratavam entre si. Reservavam-me as melhores porções, avisavam-me quando estava pra rolar alguma "uca", preveniam-me, ajudavam-me, protegiam-me. Mas não era o que eu queria.

Eu queria igualdade.

Quando peguei a estrada, absolutamente sem dinheiro, pedindo o que comer, dormindo sob marquises, em casas abandonadas, construções, ruínas, puteiros, periferias, tinha como objetivo achar algum sentido na vida, entender essa sociedade, alguma razão pra existência que não fosse me garantir materialmente, possuir, desfrutar, consumir. Perguntava, conversava, aprendia, ouvia histórias, me espantava, me emocionava, me comovia, me revoltava, me admirava, me encantava. Nessa época, vivia entre os mais pobres dos mais pobres, a marginália, os "malucos de estrada". Viajei de cidade em cidade, rodei grande parte do Brasil.

Demorou anos pra ser tratado como igual pelos mais pobres, custou muito esforço e alguns dentes.

No dia em que fui tratado com desprezo por um membro da minha antiga classe - não o conhecia -, eu ri. "Finalmente, perdi o cheiro, o aspecto, o astral da minha origem", foi o que pensei, orgulhoso.

Continuei me sentindo privilegiado, pois tinha informação. Mas já não parecia. Aprendi a viver como mendigo, como pária, como louco, como hippie. Aprendi os códigos dos excluídos. Aí pelo segundo ou terceiro ano de estrada, perdi os documentos, carteira do BB, do exército, de motorista, da universidade, tinha até uma em inglês - aquilo me dava alguma proteção contra a perseguição do estabelecimento social. A polícia passou a ser uma ameaça.

Percebi, aos poucos, como funciona o sistema, aprendizado que não termina, pelo menos no espaço de uma vida. Mas o básico é óbvio. O sistema se baseia em alguns pilares. A ignorância imposta à maioria. O excesso, o desperdício, a ostentação dos que podem consumir. A hierarquia social baseada no consumo e nas posses. O sentimento de inferioridade plantado no coração das maiorias, o de superioridade, no coração dos abastados.

"Como as pessoas podem acreditar em tantos absurdos?", questionava. "Como não enxergam o óbvio?"

Faço uma diferença entre propaganda e publicidade. Publicidade apresenta produtos e estimula o consumo; propaganda forma valores, crenças, objetivos de vida. Publicidade trata do concreto, propaganda, do abstrato. Claro que é uma arbitrariedade minha, mas eu me sinto no direito, não sou acadêmico, nem gostaria de ser. Quero ter os pés no chão e falar a língua da maioria, e não me restringir a essa linguagem hermética da academia, pra pessoas "estudadas", intelectuais. Na minha opinião, é isso o que afasta da população esses revolucionários de auditório, de entidades, tendências e agremiações, que alimentam, secretamente, um tremendo desprezo pela população, "tão ignorante", aderindo à velhíssima prática de culpabilizar as vítimas. Querem conduzir as massas - já horrorizei mais de um, dizendo que minha entidade é Oxóssi, minha tendência é heterossexual (sem preconceito) e que, se eles querem conduzir as massas, deviam ir entregar pizzas.

Concordo que as técnicas de propaganda e publicidade são ferramentas sem vontade própria, e que podem ser utilizadas tanto para libertar como para aprisionar. Mas como é que têm sido utilizadas? Como é que têm sido utilizados todos os conhecimentos guardados nas academias? Todos os recursos materiais do planeta?

Reformulo, graças a você, a frase "a publicidade é uma atividade criminosa", retirando o "é" e substituindo por "tem sido". Em Cuba há um autidór com a colocação "consuma apenas o necessário". É possível imaginar isso no nosso modelo de sociedade?

As necessidades mais importantes são abstratas - afeto, integração, solidariedade, utilidade ao coletivo, compreensão, o trabalho interno (e, basicamente, individual) nas grandes falhas (orgulho, egoísmo, soberba, medo,...), conscientização, desapego, a prática de compartilhar, a cooperatividade, o desenvolvimento do discernimento, senso de justiça e por aí vai. Tudo no sentido da evolução humana, individual e coletiva. Mas o foco da vida foi centrado na matéria, em "benefício" de uma minoria de zero vírgula uns por cento e na abastança de pouco mais de vinte por cento de "qualificados" que os servem. As técnicas de propaganda e publicidade estão na linha de frente, não só nos comerciais, como nos jornais, novelas, filmes, programas de tv, de rádio, nos carros, nos ônibus, nas estações, nas ruas, em toda parte - é um massacre.

Eu não diria que a maioria da população é idiota, imbecil, vazia. Diria que é idiotizada, imbecilizada, esvaziada, infantilizada, via técnicas publicitárias (agora, sim) criminosas, com a ajuda inestimável da sabotagem da educação pública e da interferência na educação privada, por pressão dos que controlam as marionetes políticas. Por que se chama os gastos públicos de "custo social" e não de "investimento na população"? Porque está plantado no inconsciente coletivo que "custo" é algo que precisa ser contido, cortado, diminuído ao máximo. Investimento pressupõe retorno. E, no caso, o retorno seria uma população educada, pensante, crítica, capaz de decidir seus caminhos e de perceber as falácias das elites apresentadas por seu porta-voz, a mídia privada. Tudo o que a classe dos dominantes não quer.

Acredito firmemente que, se cada um consumisse o que lhe fosse realmente necessário, o sistema capitalista ruiria, sem remédio. O socialismo seria implantado por conseqüência, com base no esclarecimento do povo. Não com esses socialistas com o rei na barriga, cheios de verdades imutáveis. Esses são uns imbecis, sabem das coisas mas, ao invés de se darem ao trabalho de esclarecer a maioria, ficam vociferando contra os que "representam" o poder e brigando entre suas tendências de esquerda. Pra falar a língua chula, estou com os bagos cheios desses revolucionários. E faço o que acho que deveria ser feito, a começar pela minha própria vida, seguindo a linha gandhiana de "sermos a mudança que desejamos no mundo".

Como você pode ver, minha tendência é bastante prolixa. Tento condensar, mas tenho dificuldade. Às vezes consigo, como no texto "A Mídia Mente - descaradamente", que está no blog e nas minhas serigrafias - das quais tiro meu sustento. Mas olho pro texto e sinto vontade de desenvolver cada parágrafo, pois cada um me parece um tópico a ser desenvolvido, com toda uma gama de idéias a perfilar. Preciso trabalhar no sentido de desenvolver a capacidade de síntese, você tem razão.

E vou terminando por aqui, pra esboçar alguma coerência com o que acabo de dizer.

Um grande abraço, e obrigado por me ajudar o pensamento.

Eduardo

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Por tão poucos terem tanto, é que tantos têm tão pouco








Em cima da palavra 'poucos' há um casal para representá-los, esses, que são 1% da população, ou menos. Chamei-os messiê Deboche e madame Arrogância. Classe das mega-empresas, os concentradores das riquezas, controladores dos mercados financeiros, sentam-se no topo da pirâmide social, vivem isolados da maioria, estão sempre dentro de algum lugar cercado, sentem-se donos. À direita da palavra há uma porta com um segurança, há sempre seguranças entre eles e a realidade. O garçom está num ambiente de pronto serviço, eficiência exigida por esses tipos e seus subalternos graúdos - as cadeiras se assemelham a tronos para simbolizar o sentimento de 'natural' superioridade que eles sentem e emanam, mas o morcego denuncia seu vampirismo social. Eles se sustentam no poder do mundo apoiados pela força das armas - inclusive da segurança pública -, por isso o chão é um fuzil, que divide a sociedade entre os poucos e os tantos, ao mesmo tempo apoiando os poucos que têm tanto e ameaçando os tantos que têm tão pouco, representados na forma urbana da favela, na parte inferior direita - as armas pairam sobre suas cabeças. Aí é o território de exclusão, a área da miséria, de ausência do Estado e da sociedade organizada. A estrada significa haver caminho de saída para esta situação, mas são tantas as dificuldades - as funções do Estado, determinadas pela Constituição, a "carta magna", são ignoradas e não cumpridas, saneamento, condições de vida digna, ensino público que mereça o nome, moradia, alimentação suficiente, higiene, informação, cidadania, nada disso existe para essa enorme parcela da população, muitas vezes nem estrutura familiar-, tantos impedimentos, que um caminhão carregado simboliza ser barra pesada, muito difícil sair por esse caminho. Vêem-se exceções, apontadas como exemplo da possibilidade pra todos, reduzindo a maioria à sensação de incapacidade, impotência e subalternidade.À esquerda inferior há um ambiente de cinema, são as pessoas que assistem à vida, olham o mundo como se fosse um filme do qual eles não participam. Seu pensamento é "sempre foi assim, não tenho nada com isso, cuido é de mim e dos meus", geralmente são pessoas em condições de se qualificar em escolas particulares - e universidades 'públicas'-, alcançam condições de ocupar cargos importantes na manutenção da sociedade como ela é. São entre 20 e 30% da população, hierarquizados organizadamente de acordo com os interesses dos 1%, e disputam as migalhas enormes e variadas da opulência. Como vivem das migalhas do poder, o rato à esquerda os representa com propriedade. São os ricos que o povo vê, ainda que à distância, os subalternos dos mais ricos, dominantes da sociedade e do Estado - esses são difíceis de se ver passar, andam de helicópteros ou, no máximo, em carros blindados, cercados de seguranças, em trajetos curtos. Acima, a escuridão que envolve uma pessoa - nitidamente mestiça - simboliza a ignorância, criada e mantida para envolver a maioria. A vela simboliza luz. Por menor que seja a luz, por maior que seja a ignorância, quando há interesse e vontade, a luz vence a escuridão. É o trabalho da conscientização. A árvore representa a tendência natural, nos vegetais, de ir para o alto e buscar a luz. Aqui há uma analogia com a evolução da consciência. Por isso das suas folhagens mais altas vão surgindo pessoas, subindo pela esquerda, até o alto do desenho, significando a tomada de consciência, quando as maiorias percebem a farsa da "democracia de mercado", com a mídia na linha de frente na formação de opiniões e valores sociais e individuais. Percebe-se, afinal, as falsidades da hierarquia social, a igualdade intrínseca de direitos entre todos. E, deixando de se sentirem inferiores, deixando de reconhecer superioridades artificiais, ocupam naturalmente os lugares que lhes pertencem por direito moral de seres humanos, em igualdade conquistada pela consciência da realidade. O olho representa não só a possibilidade de enxergar a realidade como a necessidade de tomar consciência da realidade, de buscar o porquê e o como de tanta concentração de poder, de tanta perversidade com as maiorias, de tanto egoísmo estimulado, de tanta infantilização e idiotização da esmagadora maioria, de tanta ignorância e, em última análise, tanto sofrimento provocado pela estrutura da sociedade. O olho fala de observar e absorver.



Contra-corrente

A superioridade que eles sentem                                              
e exercem de forma arrogante,
se soma à certeza absoluta                                 
da inferioridade do restante.

Entortam sua sensibilidade,
desdenham o alheio sofrimento
e, em sua sub-humanidade,
a própria crueldade é seu tormento.

Do outro lado é plantada a ignorância
e desejos impossíveis de consumo
fazem o povo de idiota ou de criança
e destróem a esperança em outro rumo.

Os poucos com acesso a demais
desfrutam do roubado à maioria,
alegando direitos tão boçais
que é clara e evidente a hipocrisia.

Usufruir de privilégios, ostentações,
que egoísmo, que vergonha, que maldade!
Apenas desejar tais condições
já demonstra o grau primário da vontade.

Se cada um quisesse e tomasse para si
da vida só o que lhe fosse necessário
ruiria o sistema do egoísmo, e aí
o mundo poderia ser mais solidário.

Com humildade e com dignidade
escolhe a humanidade o mal e o bem,
é preciso trabalhar a sociedade
pra que não se abandone mais ninguém

Se ainda não vivo um mundo assim,
não posso simplesmente ignorar,
não dá pra ver a vida só pra mim,
se quero ter valor no trabalhar.

Sem me conformar, muito menos aderir,
faço meu olhar bem mais profundo.
Observar, absorver, analisar, refletir
e expor tudo em meu trabalho sobre o mundo.

E se e quando eu for de arrasto na corrente poderosa
quero saber que eu andei ao contrário da corrente,
que não vivi atrás de uma vida cor de rosa,
ignorando a injustiça e o sofrer de tanta gente.

Quero saber que lutei o quanto pude,
que não me rendi a pressões nem seduções;
que mantive em minha vida a atitude
de não desejar mais do que preciso
e estar sempre solidário às multidões.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O primeiro vídeo...

Depois de trinta anos de trabalho na rua, dizendo o que penso, o que sinto e o que vejo no meu trabalho, apareceu a câmera de Rona e Arley, gravando os assuntos e a exposição.
https://www.youtube.com/watch?v=eiGZnYEnQoc

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.