terça-feira, 12 de maio de 2020

Helvio Rech, Franck Maciel Peçanha e eu - em tempo de pandemia

Conheci Franck em Uruguaiana, convidado por ele a participar de um evento na Unipampa. Fiquei por lá, expondo, por uns dias, atravessei a fronteira argentina pra experimentar uma cerveja com ele. Sentia tanto frio que mesmo vestindo todas as roupas que tinha levado, tremia. Penalizado com minha situação, Franck me deu um casaco pra frio congelante e o frio ficou fora. Esse casaco eu só uso de raro em raro, em alto de montanha no inverno.
O Hélvio fui conhecer na fronteira com o Uruguai, num evento centrado na união latinoamericana, a chamado do Franck. Ali, vi Pepe Mujica fazer uma fala e receber o único título honoris causa da Unipampa. Ele estava na mesa ao lado do mestre de vida, aparece no filme "Via Celestina", que a gente estava fazendo naquela viagem - o Hare como diretor-câmera-contra-regra. A cada fala certeira do Mujica, ele sorria. Bueno, estamos os três nesse papo de quase duas horas. Quem tiver paciência e interesse, que agüente. A quem der proveito, agradeço.
Ah, ia esquecendo, numa certa altura o Hélvio me situou no Tocantins, talvez por eu ter dito antes a ele que estava próximo à fronteira entre Goiás e Tocantins. Na verdade estou em Goiás.



domingo, 26 de abril de 2020

Desconfio



Desconfio que estou vendo um tabuleiro, um imenso tabuleiro cheio de peças sendo jogadas, todos de olho nas peças. Os movimentos de cada uma geram comentários, opiniões, debates, denúncias fundadas ou alucinadas. Conclusões são tiradas, previsões estabelecidas. “Está se armando pra ser presidente na próxima eleição”, “está se preparando pra dar um golpe de Estado”, nomes são sugeridos pra cargos, candidatos se posicionam, uns dentro do tabuleiro, outros prontos pra entrar, alguns outros na penumbra, em espera de ocasião favorável. No escuro dos bastidores, longe das luzes e dos olhares, os poderes que  movem as peças estudam suas jogadas. A platéia se agita diante do “espetáculo”, se divide nas torcidas várias, de diferentes linhas, idéias, opiniões, visões de mundo. Propostas, saídas e soluções são colocadas pra resolver todos os problemas. O “fim da corrupção” volta à baila. E não se vê a corrupção como regra fundamental do jogo. Como parte da estrutura social. Não aparecem os “jogadores”, não estão neles os holofotes das mídias empresariais, as peças são apresentadas como quem decide seus próprios movimentos. A mentira é pregada no inconsciente coletivo: o bom político serve ao povo, o mau político serve a si mesmo e a seu grupo. E não se vêem as forças tenebrosas que decidem as “políticas públicas”, o nível de atendimento à população, que determinam o modelo de ensino, dominam as comunicações e criam as mentalidades induzidas, em todos os níveis sociais e educacionais, que verão poder de decisão e autonomia nas peças do jogo. Os níveis se hierarquizando entre si, uns vendo e entendendo mais, outros menos, mas sobre a mesma ilusão. De tudo isso, desconfio.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

"É o fim do mundo...", diziam os mais velhos no meu tempo de criança

Em 24 horas, 407 mortes de coronavírus no Brasil. E as mortes por problemas respiratórios se multiplicaram sem se considerar a possibilidade. Sem exames, não contam esses mortos. Ao que me parece, a multiplicação de óbitos (mortes) por questões respiratórias está acontecendo em muitos lugares. Os registros oficiais de óbitos dão conta da multiplicação desses casos, em cemitérios e em cartórios. Ridículo não ligar as coisas.
Quando se fala nisso se ouve falar em conspiração, em torcidas, comunismos incríveis e outras superficialidades toscas, ignorantes ao extremo. Estamos chegando nos 50 mil infectados sem levar em conta os não examinados nem os mortos "por fora". Quanto mais vamos precisar pra essas pessoas silenciarem, raivosas e constrangidas, até que a raiva se transforme em medo, pânico, até que a covardia aflore e se negue tudo o que se disse e defendeu até então? Qual a força que obrigará a reclusão desse ódio nos corações que o abrigam e sua transformação em arrependimento e vergonha? Não serão todos, certamente. Mas serão muitos.
Quantas vezes ouvi os mais velhos do meu tempo de criança - por motivos hoje "triviais", como uma minissaia exagerada, uma briga de torcidas, um homem com feminilidade, um homem de brinco, biquinis e sungas na praia, desquites e divórcios... -, "é o fim do mundo!" E eu achava graça, criança que era. Agora sou eu a dizer "é o fim do mundo". Só que o fim do mundo, pra mim, é outra coisa.
Cada fim se liga a um novo começo, cada começo se destina a um fim. O fim de um mundo leva ao surgimento de um outro mundo. Esse "outro mundo possível" de que alguns falam, onde não existam a miséria, a ignorância, a fome e o abandono, onde a prioridade seja o ser humano como um todo, a prioridade esteja no atendimento de toda necessidade fundamental da vida, na eliminação de toda conseqüência da desumanidade de um sistema social onde a economia das empresas é mais importante que a vida, a saúde, a educação verdadeira, humanizada, direcionada à formação de seres humanos que se integrem com harmonia na sociedade, solidariamente, uma educação que tenha como objetivo a harmonia social. E não a formação de competidores implacáveis pro mercado de trabalho ou, muito pior, o mercado financeiro. Mercados pra quem a vida não vale nada, diante da ânsia de lucro, de riquezas e poder. 
Valuá diria que gosta do meu otimismo, porque ele vê péssimas possibilidades à frente, no sentido social. Eu não me sinto nem um pouco otimista, o que estou vendo é muito sofrimento pela frente, como é sofrimento tanto morte quanto parto. Serão gerações nessa lida, não é coisa de pouco tempo. Mas sinto a lapidação acontecendo, a partir de mim mesmo e no mundo à minha volta. Esse sentir está ligado ao alcance que posso ter de espiritualidade, onde as dimensões de existência são muitas - a material é apenas uma delas, o campo de provas e aprendizados onde podemos crescer e nos desenvolver - embora eu não tenha o atrevimento de "entender" ou "explicar". Não permito que minha razão se meta onde não tem alcance. Ali o que vai mais fundo é o sentir, a intuição, ainda sem a pretensão de chegar nem perto da totalidade, apenas vai muito mais longe que a razão na percepção da realidade. Valuá é ateu por completo.
A vantagem que tenho nessas discordâncias é saber que, se eu estiver certo, vou poder dizer pra ele, "viu? Não te falei? Eu te disse, eu te disse". Já ele, se estiver certo, não vai poder falar nada.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Eduardo Marinho ao vivo - aos 12 minutos o áudio melhora

Primeiro vídeo ao vivo, feito em Cavalcante, Goiás, no Hostel&Camping do mesmo nome. Foi ao vivo, mas foi gravado. E taí.

O áudio estava uma porcaria, sabe como é, a primeira vez costuma ser meio atrapalhada. Não que estejamos livres de novas trapalhadas, mas a possibilidade vai diminuindo com o tempo e a prática, né não? Depois de doze minutos entra o fone com microfone, porque as pessoas estavam reclamando nos comentários, dizendo que não estavam ouvindo direito. Aí o som melhorou.

Quem não tiver paciência ou não estiver mesmo escutando nada, pula pros doze minutos direto é minha sugestão. De resto, bom proveito.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

"Pequena coleta num artigo de hoje" ou "Pandemia" ou "Cegueira Bovina"

" Naquela mesma manhã, enquanto esperava a transferência para um hospital, postou em sua página no Facebook um relato desesperado.
“É horrível, uma tosse que não pára. Te impossibilita de respirar e te faz ter dores que você não imaginaria. Não aguento mais essas dores, ficar em uma sala de isolamento para poder melhorar e nada mudar. Qualquer coisa que você faça, já fica cansado, sem ar. Se cuidem, fiquem em casa, não é gripezinha. É real e está muito perto de todos.”
Foi a última mensagem de Diogo nas redes sociais, no último dia que a dona de casa Eromar Azeredo Polo Boz, de 55 anos, viu o filho.
Em Osasco, Eromar cuidava dos trâmites da liberação do corpo de Diogo, sem direito a velório nem enterro por causa do risco de contaminação. O jovem foi cremado. As cinzas, conta a mãe, serão entregues em 24 de abril à família, um dia depois da data que o rapaz completaria 28 anos.
“Vou ao supermercado e vejo gente falando que quer trabalhar, que a economia não pode parar. Eu preferia ficar na miséria do que ter perdido meu filho. Dinheiro, coisas materiais, a gente conquista. Meu filho não volta mais.” "
Sem muito a dizer. Com muito a sentir. Sem raiva. Com perplexidade. Não diante da pandemia, que dessa já me dei conta, é mundial, artificial ou não. Mas perplexo, espantado diante da renitência, da insistência, da não percepção da roubada que nos foi imposta a todos, pela manipulação mental, como a conseqüência não só da sabotagem por décadas da educação pública, como do enquadramento da educação privada, das classes médias e altas. A realidade não entra na carapaça mental criada pelos condicionamentos sociais. Há uma "realidade" fabricada em laboratórios de pensamento e implantada tão profundamente no inconsciente coletivo, que se cria um campo de força intransponível por qualquer evidência. E se a evidência for inegável, detona-se uma agressividade invencível, um rancor destrutivo, um ódio sem freio nem direção que explode em inconsciência, ignorância e destruição. Aqui eu uso essa palavra no mais profundo e sincero significado: triste.

Bom lembrar que tristeza não me leva à depressão ou à desistência. Leva, sim, à digestão dos primitivismos no meu meio, à reflexão, a outras compreensões e atitudes. Sempre na função do serviço. Vida e trampo são a mesma coisa.

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2020/04/diogo-azeredo-polo-morre-coronavirus.html?utm_source=push&utm_medium=social&utm_campaign=artigos

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O recurso da rifa



Parados em Cavalcante, uma cidadezinha ao norte de Goiás, no meio da Chapada dos Veadeiros, estamos sem poder vender, sem poder fazer eventos e exposições, gastando o que estávamos juntando na viagem pra chegar de volta em condições de pagar as despesas, comprar matéria prima – papéis, manta magnética, camisas, tintas, etc. – e se sustentar pelo tempo em que estivermos produzindo até juntar mercadoria outra vez. Não havia rolado nem metade da viagem quando a pandemia foi “decretada” no Brasil, pra nós foi primeiro em Brasília, depois em Goiás, até pararmos por aqui, a convite de Tiago Gaúcho, pra olharmos os acontecimentos e como se estavam encaminhando as coisas. Pra tomar pé da situação real, se informando por meios de comunicação mais confiáveis que a mídia. Então Palmas desmarcou o evento, dois dias depois o Ceará fechou as fronteiras e nós até pensamos em voltar pra casa, cruzando todo o estado de Minas. Mas era o período em que a pandemia tava no tempo de infestação, no período da contaminação – e aí não dava mais pra não ver, dava pra sentir que a coisa ia ser uma avalanche, embora não quisesse acreditar. Em cinco adultos e uma criança, decidimos ficar por aqui. Com uma sensação de apocalipse. Alugamos um quarto pro mês.
Como recurso pra bancar as despesas e não acabar a grana toda, Ravi e Satya sugeriram uma rifa, o que achei uma boa idéia. No momento, é uma forma de fazer frente às despesas inesperadas sem acabar com a grana toda, sem ficar a perigo geral. As coisas foram escolhidas hoje, conforme as fotos mostram. Só pra referência:
·         Três camisas, duas de sessenta reais (baby look G), uma preta de setenta (tamanho a escolher), total R$ 190.
·         Coleção completa do fanzine “Pençá”, dez reais cada um, total R$ 50.
·         Coleção dos livrinhos feitos à mão, tamanho cordel, 16 páginas, também dez cada, R$ 50.
·         A trilogia do povo caminhando, a família humana em direção à tomada de consciência, cada um custa 50 reais, o bondinho também a 50 e o “Loucos” a 60, total, R$ 260.
·         E os ímãs – chamados “de geladeira” – a 4 reais cada um, são cinco, total R$ 20.

   Dez reais cada bilhete da rifa. Serão, ao todo, duzentos bilhetes, vendidos no feicebuque, por mensagem na página 






Em 1996, quando eu morava em Santa Teresa, aprendi com Moisa a trabalhar com malha, fazendo camisetas desde a modelagem. Então fiz desenhos pra estampar as minhas próprias camisetas, enquanto trabalhava nas dela, em sociedade. Quando ela resolveu voltar ao Maranhão, seu lugar de origem, eu já tinha vários desenhos, entre eles essas pessoas caminhando. A idéia era que a humanidade caminha através do tempo e do espaço em direção à tomada cada vez maior de consciência. A consciência de que é uma família planetária, que chegaria junto com a consciência de que há infinitas famílias planetárias pelo universo afora. Durante anos imprimi e vendi esse desenho, em camisas e em papel pra emoldurar e “vestir” paredes nuas. Representam exceções na multidão condicionada, que caminha presa de padrões e valores comportamentais medíocres e impostos por uma sociedade mediocrizante.


Em 2003, levando em conta que as exceções chamam a atenção e que consciência contamina, fiz um segundo desenho sobre o mesmo tema. Mais pessoas caminham em direção à tomada de consciência, mais pessoas se destacam dos valores vigentes, vendo e sentindo mais por conta própria do que pelas imposições sociais, pelas lavagens cerebrais da educação, da cultura, da mídia, do jornalismo distorcedor. Mais gente percebendo a falsidade das propostas de vida que a sociedade apresenta e tomando iniciativas “loucas”, na visão convencional. Há mudança de pessoas, mas muitas permanecem. A lavadeira, com trouxa de roupa na cabeça, foi minha vizinha no Alto de São Francisco, na Boca do Rio, em Salvador. De mão dada com ela, o neto – ela cuidava dele enquanto a filha trabalhava fora, num emprego – e o cachorro que ia sempre com eles, quando ela levava pra entregar e trazia pra lavar mais.




Em 2010, finalmente, resolvi representar a humanidade como se fosse inteira, pra simbolizar um futuro ainda distante muitas gerações, num planeta mais evoluído, numa sociedade mais humana, onde não existam a fome, o abandono, a miséria, gente largada como lixo. Uma sociedade que priorize o bem estar de todos, incluindo bichos e plantas, equilíbrio social e ambiental, harmonia planetária. Aí, sim, poderemos desenvolver estágios superiores de existência. Nesse desenho eu me retratei e a meu filho Ravi, coloquei o Pepe – meu irmão peruano afro-asiático -, o Gandhi, numa humilde segunda linha, minha amiga Helena Cristina, com uma mecha branca no cabelo. A bruxa está nos três desenhos, representando a mística diferenciada, não convencional e perseguida por séculos de dominação cristã, com sua sabedoria resistente a toda tentativa de extermínio. Ela está caminhando voluntariamente – eu digo sempre que ela estava voando na vassoura que está carregando, viu a multidão e desceu pra participar da caminhada, em solidariedade humana. Tentei abranger o máximo de tipos humanos que pude me lembrar, nesse pouco espaço do papel. A intenção é representar a humanidade como um todo, caminhando junto como família que é.




Essa frase eu encontrei numa folha de papel de caderno amassada como uma bolinha, no chão de uma padaria de Salvador, em 83 – se me lembro bem. Brisa já era nascida, Adhara nasceria no fim do ano. A vontade de colocar no meu trabalho o que eu estava pensando, vendo e sentindo, da vida e do mundo, se desenvolvia. Descobri nessa época a gravura em metal, então com ácido nítrico, e comecei a colocar pensamentos, desenhos, coisas minhas, mais artísticas, no artesanato. Essa foi uma das primeiras frases. Na padaria, havia começado uma discussão no caixa e eu, entediado, “isso aí vai demorar...”, procurava com os olhos alguma coisa pra fazer quando vi a bolinha de papel no chão, perto do meu pé. Peguei e abri, a folha estava toda escrita com frases. Quando vi a dos loucos, a identidade foi imediata e inevitável. Fui chamado de louco quando saí do Banco do Brasil; fui chamado de louco quando pedi desligamento do exército; era chamado de louco porque passava dias na reserva florestal do Mestre Álvaro sozinho no meio do mato, ou viajando de carona nas férias, dormindo no chão e me expondo a “desconfortos”; fui tido como completamente pirado quando larguei a universidade pra lá e segui em busca sem saber bem do quê, satisfação em viver, eu dizia. Eu me senti elogiado na frase, identificado. Foi só em 98 que fiz o primeiro desenho em nanquim pra imprimir na serigrafia, em papel e em tecido. Naquela folha de caderno cheia de frases, na Bahia, constava o nome de Jean Paul Sartre como autor. Durante muitos anos vendi com essa autoria, até que, em Santa Teresa, na primeira década do milênio, um italiano protestou. Não era de Sarte, mas de Carlo Dozzi, “um italiano como io!” ele enfatizou. Aí tive que refazer as matrizes, pra corrigir a informação. Na verdade, creio que importa mesmo a reflexão, o pensamento. A autoria é bom saber, mas não é necessário. Antenas são importantes, na medida das mensagens. Mas são as mensagens a essência da comunicação, a antena é apenas a forma da comunicação. Enfim, no desenho que vai no pacote da rifa tá escrito Carlo Dozzi.




Esse desenho foi feito numa remessa decorativa, a pedidos insistentes pra que fizesse paisagens do Rio de Janeiro, que quase não havia no conjunto do trabalho, focado em pensamentos, reflexões, questionamentos, textos e frases. Encontrei uma foto em preto e branco, mais de quarenta anos de antiga, e copiei a nanquim. O motorneiro aí envelheceu dirigindo os bondes do bairro de Santa Teresa e morreu num acidente há seis ou sete anos atrás, onde morreram várias pessoas e dezenas ficaram feridas. O bonde perdeu o freio na descida, descarrilhou e bateu num muro de pedra. Nélson, o motorneiro, sabia que era precisos pular e ficou gritando praquele monte de estrangeiros pra pular. Os poucos brasileiros pularam, os gringos não. Nélson ficou tentando fazê-los entender até a batida, esqueceu de pular. Não resistiu aos ferimentos. Eu já tinha o desenho, havia conferido com ele mesmo, já mais gordinho, usando suspensórios, bigode já branco, mostrando pra e perguntando se não era ele. “Ih, rapaz, cê fez essa foto, isso tem mais de quarenta anos, olha eu magrinho, nem usava suspensório...” ele riu. Hoje, no total, a foto tem mais de cinqüenta, o desenho tem pouco mais de dez. O bonde não é mais o mesmo, nem passa nessa altura da avenida Almirante Alexandrino, espinha dorsal do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.


Pequenos pedaços dos livrinhos feitos à mão, tamanho cordel.


Página central de "O cinco estrelas e a periferia".









Ímãs chamados "de geladeira"





Então, somando tudo: 190+50+50+260+20 = total geral de R$ 470. A rifa será de dez reais. Tá incluído o correio pra levar seja onde for, daqui de onde estamos a tarifa é bem maior pra sul, sudeste e nordeste, onde meu trabalho é mais conhecido. Serão duzentos números, quem levar leva por dez reais tudo. Pra nós, um recurso de sobrevivência. Pra quem levar, fartura de textos, informações, pensamentos, reflexões, desenhos pra decorar as paredes e três camisas - por dez reais.
Caso dê resultado, faremos outros pacotes – e estamos aceitando sugestões que sejam apenas isso, sugestões. Exigências vão pra outro departamento, a cesta seção (é cesta mesmo, não sexta).

Dez reais cada bilhete da rifa. Serão, ao todo, duzentos bilhetes, vendidos no feicebuque, por mensagem na página 

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Récordes de mortos em 24 horas, nos EUA e no Brasil. Fora o que não é notificado.

O Estado mantém o controle, por cartórios, sobre nascimentos e mortes dos brasileiros, na intenção das "políticas públicas" e pra suspender os pagamentos de pensões, aposentadorias e benefícios que a sociedade é obrigada a prover à maioria da população, sabotada e roubada em seus direitos constitucionais, humanos e fundamentais. Isso dá possibilidade de se demonstrar, agora, a omissão, a ocultação do número de mortes pelo coronavírus. As autoridades tentam minimizar a epidemia do covid-19, no momento a serviço de interesses empresariais. Daí ser possível compreender como esses interesses são precários em humanidade, em solidariedade, em consideração pela vida.

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2020/04/cartorios-revelam-como-governo-nao-esta-contabilizando-mortos-por-coronavirus.html?utm_source=push&utm_medium=social&utm_campaign=artigos

Levando em conta os registros oficiais, ontem à noite se publicou o maior números de mortes em 24 horas no Brasil. Foram 114 mortos pelo coronavírus, do dia 6 à noite até ontem, 7, às 21:47h, momento da publicação. Os EUA, que são o "exemplo" seguido pelo mandatário nacional em subalternidade explícita, registraram também um récorde nefasto, 1.939 mortos em 24 horas, conforme boletim oficial também de ontem à noite.

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-08/brasil-registra-recorde-de-mortes-por-coronavirus-em-24-horas-e-busca-garantir-estoque-de-respiradores-com-a-china.html#?sma=newsletter_brasil_diaria20200408

https://www.cartacapital.com.br/mundo/eua-t%C3%AAm-quase-2-mil-mortos-por-coronavirus-em-24-horas/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_08042020&utm_medium=email&utm_source=RD+Station

Ao mesmo tempo, se vê a população circulando, depois de alguns dias de confinamento. Em vários centros comerciais pelos interiores as pessoas estão em quase normalidade, a preocupação dispersa pela necessidade imediata e com o estímulo governamental pra "ir trabalhar", de acordo com pressões patronais - uma força eleitoral deste "governo". Em um monte de cidades vejo comentários de que as pessoas não respeitam distâncias, procedimentos, a maioria sem máscaras, sem álcool gel, sem cuidados, como se o vírus fosse uma grande mentira. Não se sabe quantas mentiras há por trás do Covid-19, como de resto por trás de todo o jogo "político" encenado no teatro dos "poderes públicos", mas se vêem as consequências e é preciso tratar com elas. As cenas de terror vividas no Equador (depois que milhares de imigrantes retornaram da Espanha infestada), com cadáveres pelas ruas, sendo queimados, postos fora de casa por familiares, lotando necrotérios e hospitais a ponto de juntar nuvens de urubus atraídos pelo cheiro da putrafação cadavérica, deveria ser advertência suficiente para a gravidade da situação. Deveria ser suficiente pra modificar a disposição de ir pra rua e retomar a vida em nome da economia, porque isso seria também em nome da contaminação em massa e suas macabras consequências. Mas aí se esbarra na irresponsabilidade dos interesses econômico-financeiros, na alma anti-social desta estrutura social. É de se esperar a tragédia. Que deve esclarecer, da pior forma, os que tiverem ainda alguma sensibilidade entre os que apóiam esse "governo". Pelo que parece, não são muitos.

https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-04-08/interior-de-sao-paulo-relaxa-quarentena-e-acelera-contagios-13-polos-podem-espalhar-coronavirus-em-efeito-cascata.html#?sma=newsletter_brasil_diaria20200408

https://www.atribunarj.com.br/covid-19-sao-goncalo-registra-mais-duas-mortes/

Centro de São Gonçalo, ontem. Não tá tão cheio como costuma, mas não está vazio como recomenda a pandemia. 


domingo, 29 de março de 2020

Duas provocações de mangueio separadas por tempo e espaço



Salvador, 1984. Eu tinha 23 ou 24 anos, duas filhas, Brisa e Adhara, e morava na Aldeia de Arembepe. Estava mangueando em Itapuã, bares lotados, quiosques de praia abarrotados, sol forte, praias cheias. Eu ia de mesa em mesa, quer dar uma olhadinha?, alô, alguém quer ver?, licença, dá uma olhada aí... Na maior parte, ignoram, recusam, negam, alguns ainda contemporizam, muito bonito, mas fica pra outra hora, eu pensava a hora é agora, ou não é, e seguia, mesa em mesa, grupo a grupo, às vezes alguém parava pra olhar, eu esperava, de longe em longe uma venda. Eu entrava nos bares que não expulsavam, já conhecia da prática cotidiana, chegava nas mesas cheias, ia primeiro na pessoa mais velha, ou na que parecia estar no comando, pagando, quando percebia essa “hierarquia”, por uma questão de ética própria – ou defesa.  
Cheguei numa mesa que eram quatro mesas juntas, umas doze pessoas. Mostrei pra um dos caras, ele me dispensou com um gesto de impaciência, no meio do papo dele, sem nem me olhar. Eu fui mostrando pras outras pessoas, circundando a mesa, até que duas meninas me pararam. Uma encontrou seu nome escrito num brochinho de arame, perguntou quanto era, comprou. A outra reclamou, mas não tem o meu nome. Sem problema, eu respondi, posso fazer agora. Ela quis. O cara aquele, então, vendo que eu me preparava pra fazer um trampo, não gostou de me ver sorrindo com as meninas e começou a me atacar. Isso não é trabalho. Cês são um bando de vagabundo, tinha mais é que arrumar um emprego. Eu não dizia nada, só percebia a revolta dele por eu ter parado pra servir duas meninas bonitas que estavam na mesa dele. E continuou no mesmo tom, enquanto eu torcia o arame pra confeccionar o broche, calado. As pessoas na mesa foram silenciando, espantadas e constrangidas com o que ele tava falando. Eu respondi uma e outra vez, vagabundo? e mostrava a mão cheia de calos, ele não se dava por vencido, isso não quer dizer nada, e eu desisti de falar, continuei fazendo o trabalho calado, ele me esculachando. Não era novidade pra mim, eu só queria terminar, pegar meu dinheiro e seguir adiante, sabia ser inútil responder, que o confronto ali só me marcaria pro dono do bar não me deixar mais entrar pra vender. Sabia que frustrados covardes se aproveitavam da minha “inferioridade” social pra descarregar suas frustrações, consegui ficar calado até terminar. Quando finalmente entreguei o brochinho pra menina e recebi minha grana, percebi que não só aquele pessoal da mesa estava em silêncio, como outras mesas em volta haviam se calado, espantadas com tanta agressão e ofensa, na expectativa da minha reação. Enquanto enfiava o dinheiro no bolso, olhei pro sujeito bem nos olhos. Ele me encarava agressivo, como quem espera o confronto. Eu pensei não pode ficar assim, mas sem querer conflito. Com a grana no bolso, alicate e arame na bolsa, aproveitei que a mesa estava entre ele e eu e perguntei, calmo e em bom som, meu irmão, cê quer briga? A tensão no ar ficou densa, ele se levantou, olho arregalado, e gritou – por quê!? Eu respondi sem alterar a voz, porque eu saí de casa pra trabalhar, tenho duas crianças pequenas me esperando chegar com o sustento, não tenho tempo nem disposição pra ficar trocando sopapo com ninguém. O espanto era geral, ainda em silêncio. Eu continuei pra arrematar, mas pode ficar tranqüilo que tá cheio de gente que adora brigar, cê vai encontrar fácil alguém que se disponha, eu é que não posso, vai desculpando, preciso trabalhar, tá? Dá licença. E, ato contínuo, ofereci na mesa ao lado, quer dar uma olhadinha? As pessoas estavam ainda espantadas e balançavam a cabeça negativamente, sem dizer nada. Fui de mesa em mesa, oferecendo, em volta da mesa grande onde havia vendido, sem olhar pro cara mais nenhuma vez, pra ele não se sentir provocado, mas sem tirar do meu arco de visão periférica, pra não ser pego de surpresa por um ataque repentino. Que não veio. Na útima mesa do entorno daquela, um cara sozinho, que havia presenciado a cena toda, topou como um desafio ao dizer quero, eu quero ver o que você tem aí. Parei, ele olhou e parou nos brochinhos de placa, onde eu fazia as primeiras frases, pensamentos, propostas, desenhos, tudo gravado em relevo, na época com ácido nítrico, fez comentários, eu respondi, o papo ficou interessante, ele ofereceu cerveja, eu aceitei, sentei e fiquei um tempinho conversando enquanto ele escolheu uns quatro broches com pensamentos. Na hora de pagar pra eu ir embora, percebi que aquela mesa cheia havia esvaziado, a conta fora paga e eles tinham ido embora. Alívio. Segue a lida.

Belo Horizonte, 1990. Área da Savassi, noite, mangueio de fim de semana. Mesa cheia de novo, de novo a repulsa explícita de um convencional. Desta vez, ele se recusou a acreditar que era tudo feito à mão. Fui perguntado e conversava, explicando como usava o percloreto de ferro pra corroer, como isolava com tinta asfáltica as partes que ficariam em relevo, como fazia os fechos com o alicate e soldava atrás, o cara com um dos brochinhos na mão, balançava a cabeça, tu não faz isso à mão não. Eu dizia que ele podia não acreditar, era direito dele, mas eu sabia que fazia. Ele retrucava que eu comprava em São Paulo. Eu ria, sentia as pessoas acreditando em mim, apesar dele – quando a gente fala a verdade, parece que as pessoas honestas podem sentir -, até que ele apelou. Disse que tinha chegado de Sampa no dia anterior e que estivera na loja onde eu comprava. Pedi pra ele olhar bem as peças, pra não se confundir, ele confirmou a mentira, são esses mesmos, eu vi, igualzinho, numa loja lá da 25 de março. Eu parei, percebendo que ele tava mentindo descaradamente, tentando me desmoralizar ou me fazer assumir que comprava. Olhei bem pra ele, vi que não acreditava mesmo ser possível eu ter feito aquele trabalho à mão. As pessoas da mesa pararam de falar pra ver minha reação. Era uma clara afronta, um desafio. Mas, por outro lado, no fundo era um elogio. E respondi, cara... vou tomar como um elogio. Todo mundo se olhou, sem entender, eu expliquei. Tu ta achando meu trabalho tão bom que é impossível que eu tenha feito à mão, né isso? Os olhos do cara ficaram confusos, alguns sorriram, eu arrematei antes de ir embora, valeu, 'brigado. Também acho meu trabalho muito bom. Nem precisa acreditar.  E fui embora em paz. Tinha vendido dois broches naquela mesa.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Busca e encontro


A busca é inevitável, o encontro é casual. Eu colocava isso num broche, pra vender, entre outros tantos. Vivia disso, gravava no metal, fazia o fecho com fio de metal, soldava atrás.
Casual é por acaso. Pensando bem, é preciso  aspas em acaso. A busca é qualquer uma, espírito ou matéria, iluminada ou equivocada.
A busca é inevitável, o encontro é “casual”.
Porque acaso é uma palavra pretensiosa. Pretendemos saber a causa de tudo e, quando não sabemos, concluímos que não há causa. Que não existe porque não percebemos. E assim não desenvolvemos a percepção.
Pretensão pura. Quantas coisas acontecem e não sabemos as causas... É preciso um pouco de humildade pra admitir o pequeno alcance da razão humana – diante do todo universal – e, por conseqüência, aprender o que se pode e não explicar o que não se pode. Não conceber o inconcebível e se dedicar ao desenvolvimento possível.
O que precisamos aprender, o que está no imediato desenvolvimento da evolução de cada um é o que está ao alcance. A dedicação ao inalcançável, a pretensão de entender o que está além da capacidade humana de compreensão impede a percepção do que se pode perceber, impede o desenvolvimento possível.
Daí tanta arrogância entre os “evoluídos” – que não percebem que este sentimento de superioridade é a demonstração da sua precariedade evolutiva. Somos um nível evolutivo, como um grupo, como uma família humana, com diversidade mas em unidade.
Os que melhor enxergam o caminho se tornam mais responsáveis com a caminhada do grupo. Não melhores, nem superiores, apenas mais responsáveis. Em decisões, atitudes e exemplos. E com a obrigação de orientar, sempre que possível, os que pedem orientação.
Cabe desenvolver bem a percepção do possível. Não se plantam sementes no deserto. Ali se procura água.

domingo, 22 de março de 2020

Crise mundial em meio à viagem

Pores e nasceres de sol, no cerrado, são de uma amplidão esmagadora. Ali se sente poeira insignificante em meio à beleza. Aí era chegando em Goiânia, antes de Rio Verde e de Brasília.

Paramos pra apreciar a esplanada dos ministérios, no estacionamento da catedral de Brasília. Ganhei uma miniatura da estátua Candangos, do Niemáier, de um vendedor que me reconheceu e até escreveu meu nome na peça.

O Teatro Dulcina é um belo espaço. Levamos um pouco de música, um bocado de idéia e a exposição reflexiva.

Saída do Guará, rumo norte, caminho de Alto Paraíso de Goiás onde teve exposição e fala. De banho tomado.

A vista do cerrado e seu céu, pela janela de Celestina, a kombi.

A exposição foi na pousada Linda Flor. A fala também, só que não foi gravada.

Depois de Alto Paraíso, surgiu a pandemia. Ou melhor, se intensificou e espalhou. Fiquei meio incrédulo, claro, mídia privada não merece confiança, mas vi a tsunami dos acontecimentos. Resolvemos parar numa cidadezinha fim de linha, que não é passagem e chega quem vem pra ela, pra observar os acontecimentos, absorver os impactos e as impressões e decidir o que fazer. A foto, de Amanda Mara, simboliza bem como estávamos de espírito, nos preparando pra uma tempestade.


"Não sou exemplo pra ninguém" é uma afirmação que já fiz muitas vezes. Minhas atitudes são minhas, como são minhas as consequências. Não tenho o costume arrogante de aconselhar, de "saber" o que outros devem fazer, nunca pretendi "conscientizar e esclarecer" além de mim mesmo. Só com o passar das décadas foi que percebi a utilidade coletiva do meu trabalho, certamente pela inspiração além da minha capacidade de percepção, atribuída por mim à espiritualidade que sinto sem racionalizar, sem permitir que minha razão se meta a entender ou explicar. Sentir é mais que saber. Quando eu estiver pronto pra saber, saberei. Antes disso, nem pretendo, me basta sentir. Deixa acontecer.
Creio que o coronavírus é armação, sim. Talvez um tiro que saiu pela culatra, uma pedra atirada que virou uma avalanche. Mais uma arrogância humana, estratégia de dominação, de destruição por controle. Que poderes acima dos que conhecemos estão usando na lapidação da espiritualidade no planeta. Nada havia conseguido parar a "economia", prioridade mundial imposta pelo mercado econômico-financeiro ao mundo inteiro. Estamos acompanhados desde outras dimensões nessa experiência coletiva, nesta aula intensiva em que estamos todos imersos, mais ou menos conscientes. Os "poderosos" do mundo, sobretudo mega-banqueiros, mega-empresários, a casta mínima dos podres de ricos mundiais não é tão poderosa quanto pensa, diante da espiritualidade. Enquanto todo o sofrimento que produziram no planeta foi necessário à evolução do mundo, tiveram liberdade de o produzir. A estrutura social mundial é uma armação estratégica, desumana, escravista, anti-social e criminosa. Não dá pra confiar em poderes públicos, nas mídias empresariais, em bancos ou empresas.
Parece que é chegada um momento de mudança brutal. A economia, pela primeira vez desde a tal "revolução industrial", está indo pra segundo plano. Indústria, comércio, bolsas de valores, transportes, movimentos de gente e de mercadorias estão sob controle rígido, caminhamos pra fechar fronteiras e criar autonomias locais - em todos os sentidos. Cobram-se sentimentos mais evoluídos, solidariedade, cuidado com os mais frágeis, enfim, tudo o que deve se tornar rotineiro, mas que hoje ainda aparecem como "virtudes".
É a evolução planetária num momento de pico, de choque. Uma necessidade nossa no caminho do desenvolvimento verdadeiro, interno, de almas. A alma do planeta se modificando na pressão.
Estamos no meio de uma viagem, que pretendia subir ao alto Tocantins e cruzar o sertão por Balsas, Picos, Crato, Campina Grande até João Pessoa. Fomos interrompidos em Goiás pelas notícias da pandemia mundial, em Alto Paraíso. Diante da comoção geral, paramos em Calvalcante, aproveitando um convite do Tiago Minuzzi, pra nos situar e escolher o que fazer. A viagem mudou de rumo, não pode mais ser a mesma. Até a fronteira com o Ceará foi fechada. Eventos foram desprogramados em Palmas e no Crato. Eventos potenciais despotencializaram. Agora é rumo de casa, de volta à base.
Mas... vamos na função. O que encontrarmos, vamos gravando e repassando. O caminho passa pelo rio São Francisco, de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, até Três Marias, na beira da BR 040. Se até lá não se constituírem barreiras, seguimos por essa estrada de volta, passando por Beagá e Juiz de Fora, além de todas as cidades pelos caminhos. Só não vamos expor, tocar e falar por conta da contra-indicação de aglomerados.
O risco da contaminação existe, não nego. Mas muito cedo, há mais de quarenta anos, assumi riscos bem maiores, imediatos e cotidianos, por saber que liberdade é risco e segurança é prisão, além do que a maior segurança que existe é a da morte. Nascer é a garantia de morrer. O que me propus é viver enquanto isso da forma que mais me satisfizesse. Morte é apenas a porta pra outra dimensão, mais real até do que essa física em que claramente estamos de passagem. Essa epidemia nos pegou longe de casa, o que temos a fazer pelos caminhos de volta - eu nem voltaria, se não fosse tudo estar parado e a hostilidade de locais estar em desenvolvimento contra os forasteiros, vistos como ameaças de contaminação.
Em tempos de confinamento, temos mais de dois mil quilômetros pra percorrer. É claro que vamos dar proveito à situação que não esperávamos. Vamos passar por bons pedaços do Brasil profundo e vamos divulgando tudo o que pudermos, até a chegada.
Espero que a placa de Niterói e a explicação de termos sido pegos de surpresa no meio da viagem sejam bons passaportes em eventuais barreiras pelos caminhos. Dependendo das informações, escolheremos as estradas.



sexta-feira, 13 de março de 2020

Campanhas midiáticas escondem jogos de bastidores - ou "causas escondidas e efeitos aumentados" ou "intenções criminosas em jogo sujo".



Olhaí a mídia gastando dez, quinze minutos de jornal, várias vezes por dia, pra falar na “ameaça”, na “pandemia”, nas dezenas de milhões de mortos, um salve-se quem puder. Já levanto as orelhas, desconfiado. Todo mundo de olho preso no coronavírus, enquanto na economia o descalabro é planejado e, como sempre, perverso, nocivo, covarde, criminoso, manobras do punhado dos “por cima” de governos e parlamentos, o poder verdadeiro nos bastidores dos poderes ditos “públicos”, das autoridades governamentais, judiciárias e parlamentares. Os poderes públicos têm cheiro de podridão.
Falcatrua do caralho. Deviam mobilizar isso tudo de saúde pública era pra acabar com as mortes de crianças e idosos por tuberculose, pneumonia e diarréia. Além da fome. Isso tudo é curável e sanável e mata muito mais que essa merda de coronavírus, que só matou 2,3% dos infectados, uma mixaria perto do abandono médico, mixaria diante dos crimes de Estado contra a população, diários, cotidianos.
O trânsito mata coisa de um milhão e meio por ano, mutila, detona e seqüela outros tantos, mais do que qualquer guerra, mais que qualquer peste ou epidemia, mais de um milhão, todo ano. E ninguém fala nada, não sai na mídia empresarial, óbvio, empresas automobilísticas, de auto-peças, de pavimentação, petroleiras, não têm interesse nessa divulgação.
Madeireiros e garimpeiros estão detonando terras indígenas, enquanto as autoridades governamentais tratam de amputar e desfazer mecanismos de defesa e proteção aos territórios indígenas, aos povos originários. São pobres atacando, “limpando” a área pra grandes madeireiras e mineradoras gigantescas que, em sua ânsia de lucros a baixo custo, empestearão de venenos as terras, os ares e as águas, matando e adoecendo – eles moram longe e não têm nenhuma responsabilidade social, moral, humana. Em sua desumanidade, vale tudo pra obter lucros gigantescos.
Desde a manhã, a mídia gasta muito tempo martelando coronavírus, coronavírus, coronavírus nas orelhas e nas mentes, apavorando, prometendo apocalipses, fazendo a campanha de apavoramento, jogos obscuros do poder sobre os poderes, dominando mentes e corações.
A soberania nacional tá esculachada, o centro de lançamento de satélites e outros foguetes da área espacial foi entregue aos EUA e brasileiros só entram lá com permissão deles. Nem polícia pode entrar, é área estadunidense (eu me recuso a chamar de “americano” qualquer coisa que seja estadunidense), não brasileira. Entregue de mão beijada. É preciso prestar atenção no coronavírus, olha pra lá que lá vem a peste, a epidemia, o horror, não preste atenção em mais nada.
Direitos trabalhistas esmagados, cada vez mais zumbis desabrigados, drogados, zanzando pela noite. Cada vez mais violentas e intratáveis as forças de segurança, ao contrário de segurança, dão medo. Cada vez mais doenças curáveis matam, com a força da fome que se alastra como se alastra a criminalidade, a começar pelas cúpulas dos poderes e se estendendo por todas as áreas da sociedade, ela mesma criminosa contra a população.
É preciso enxergar, cada vez mais, as falcatruas sociais. Gerações vindouras levarão adiante o trabalho de esclarecimento. Só vendo o que acontece, percebendo em nós a colaboração inconsciente, mudando de postura, de comportamentos, de valores e de objetivos de vida, se pode trabalhar em mudar o mundo. Pra nós mesmos, em primeiro lugar, pra coletividade humana, por extensão. Sem pretensões arrogantes e na humildade do fazer em si mesmo.

Obs.: Devo deixar claro aqui a minha opção pelo risco. Desde sempre me expus. O último exame dito médico que fiz foi em 1978, saindo do Exército, por exigência protocolar. De lá pra cá, nunca mais. Não tenho nenhuma confiança no sistema de medicina, nos laboratórios da atualidade - porque um dia já tiveram intenções humanísticas, antes do poder econômico tomar conta - e tenho medo da medicina do Estado. Daí não ter tido nunca a iniciativa de procurar por estes "serviços". E ter me alimentado e aos meus filhos com os melhores alimentos de que tinha conhecimendo, integrais, orgânicos e sem química industrial.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A visão da perifa e a academia

Emicida diz "os boy conhece Marx, nóis conhece a fome", uma realidade inegável. Mas já se levanta a voz da academia, com sua distância do chão social, sua arrogância programada e sua "sensibilidade" a críticas, que se torna intolerância quando a crítica é contundente e não vem de acadêmicos, mas de periféricos. Há uma cadeira subliminar de arrogância, nas academias, na criação de sentimentos de superioridade que não resistem à prática cotidiana, à realidade de superação de dificuldades que a coletividade acadêmica nem imagina, nem suporta.
Os boy conhece Marx, mas não sabe o que fazer com esse conhecimento - há séculos. Sentem superioridade por aqueles que constróem sua casa, costuram sua roupa, produzem o alimento que mata sua fome, servem de base pra universidade onde eles estudam Marx e recebem sua carga de arrogância pra simularem revoluções que não chegam a lugar nenhum - ou pior, recrudescem a repressão sobre os sabotados sociais. É parte da programação social de dominação criar essa distância entre o saber e a sabedoria. Servir de conhecimentos os que tiveram seu direito de acesso negado, com humildade e espírito de serviço, não é "ajudar", "conscientizar", "organizar os trabalhadores" ou "ensinar os ignorantes". Muito menos "conduzir as massas". É compartilhar, servir de saber aqueles que têm acesso a uma sabedoria que a academia não reconhece. É preciso reconhecer pessoalmente. Os fortes são os que superam dificuldades imensas, criadas por um Estado criminoso que rouba direitos humanos, básicos e constitucionais. Apenas são impregnados pelo massacre midiático, publicitário, ideológico e convencidos de uma falsa inferioridade (da mesma forma que há criação de superioridade entre minorias protegidas e privilegiadas socialmente). Estes, os periféricos, são quem têm condição de construir uma sociedade justa. Justamente os mesmos que constróem esta sociedade da farsa. Uma questão de consciência, que deve ser alimentada de conhecimentos amorosa e respeitosamente, reconhecendo a estratégia de distanciamento pelos sentimento de superioridade, de um lado, e inferioridade, do outro.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

"Parabéns por ter enfrentado seus pais", alguém me disse.

Eu precisava enfrentar era o mundo, sem privilégios além dos que eu já carregava na minha formação, pra vivenciar o que vivenciei e fazer hoje o que faço. Não me vejo como exemplo pra ninguém, ao contrário, mas exerço minha visão de mundo no meu trabalho, desde décadas atrás, como consequência das minhas vivências. Perdi todas as garantias e considerações sociais e segui no risco, como todo mundo à minha volta, no abandono social - e sem reclamar, amarradão, atento às lições preciosas que a vida me apresentava. Enfrentar os meus pais foi um momento curto, lá no comecinho, como a chave pra abrir essa nova existência, tão cheia de aprendizados, que jamais seria assimilada por eles. E que não seria possível vivenciar, em vários momentos críticos, se houvesse alguma proximidade com eles. Eu estava só diante do aparato público, sem intermediários, sem proteção, no nível mais baixo da sociedade. Tinha que tratar com isso e desenrolar com as pessoas do aparato, quando necessário, tratar com o descaso, com a indiferença, com a falta de recursos e a má vontade institucional com a imensa legião de pobres que a sociedade necessita produzir, pra manter minorias em privilégios. Os meus privilégios sociais, escolas particulares "de qualidade", cursos, boa alimentação, esportes e movimentações que me deram resistência e saúde, os hábitos de buscar e analisar informações em jornais e informativos, ainda que empresariais, tudo isso então foi comigo buscar as vivências que os privilegiados não têm. Não têm e morrem de medo de ter, se sentiriam humilhados, frágeis. Vivências que exigem resistência e criatividade, que desenvolvem a capacidade de superação, a solidariedade, a disposição de encarar os riscos de viver sem proteção.
Ali que eu percebi que os privilégios fragilizam, que os fortes estavam ali, encarando todas as durezas com naturalidade, disposição, alegria, união solidária diante das dificuldades. Ali eu percebi a riqueza da pobreza, a humanidade mais desenvolvida - não por alguma superioridade espíritual, mas por necessidade de sobrevivência, de superação das dificuldades que esta estrutura criminosa de sociedade cria. Os fortes não sabem que são fortes sociais, se sentem fortes apenas nos seus afazeres, socialmente se sentem pequenos, frágeis, insignificantes, incapazes, como a própria ideologia social os faz crer, com todas as artimanhas de convencimento e sabotagem, de exclusão e acorrentamento a valores falsos e planejados pra evitar que se tome consciência da própria importância na sociedade, da própria força e capacidade. Não se trata de levantar disputas e apontar saídas, trata-se apenas de ver a realidade como ela é, não como nos é mostrada, tomar consciência dela progressivamente e construir suas próprias soluções e caminhos. Eu construí, na minha vida, no meu mundo, já que não podia fazer isso com o mundo. E foi essa atitude, esses caminhos e essas práticas que se tornaram útieis ao mundo.
Só pra concluir, o enfrentamento com meus pais durou coisa de dois meses. Com a estrutura social já lá se vão quarenta anos.

Produzindo pra viagem e pensando no mundo, na vida, na humanidade.

Sexta-feira passada, na oficina. Gravação por Amanda Mara.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Eduardo Marinho - Nem esquerda, nem direita, a força tá na periferia.

A dita "esquerda" pode ter uma proposta menos injusta, mais igualitária, menos perversa e mais solidária, mas não tem a condição prática pra fazer isso. Programada pelas induções sociais, se arroga a capacidade de determinar como transformar a sociedade, sem se perceber condicionada e muito menos fazer a necessária revolução interna que lhe daria humildade e esta lhe permitiria perceber que os mais capazes de construir uma sociedade nova são exatamente os que constróem a sociedade todos os dias. Mesmo que tenham sido induzidos a sentir inferioridade, incapacidade e desvalor, da mesma forma que os que tiveram acesso são induzidos a sentir superioridade, sem reconhecer a dependência completa do trabalho braçal, em todos os espaços da sua vida. Os mais fortes não são os apontados pela sociedade ainda desumana, esta é apenas mais uma mentira social. Os mais fortes são os que se sentem mais fracos, são os que superam dificuldades enormes na sua rotina de vida, que convivem com todas as sabotagens - na educação, na saúde, no transporte, no trabalho...- e encaram os piores trabalhos, os mais duros e mal remunerados. É uma questão de tomar consciência. Tanto entre os instruídos quanto entre os sabotados. Sentimentos de superioridade e inferioridade falsas são construídos estrategicamente no subconsciente coletivo, com a função de afastar o conhecimento da capacidade de resistência, de impedir o encontro do saber com a sabedoria. A arrogância ou a humilhação são muros intransponíveis. Mas não são indestrutíveis.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Espionagem e controle mundial é rotina oculta permanente

CIA espionou comunicações no Brasil e em mais de 120 países do mundo


Governos estrangeiros pagavam a empresa suiça Crypto AG pelo privilégio de ter suas comunicações mais secretas monitoradas pelas agências de inteligência

DAVID BROOKS
Nova York (Estados Unidos)

Durante meio século até 2018, mais de 120 governos ao redor do mundo, incluindo o México, confiavam em uma única empresa suíça para manter secretas as comunicações com seus espiões, militares, diplomatas e outros governos, mas nenhum sabia que os donos reais dessa empresa eram a CIA e sua contraparte alemã BND, revelou o Washington Post.

A empresa, Crypto AG, se converteu no principal fabricante de máquinas de cifrado, e ganhou milhões de dólares vendendo o equipamento a governos na Europa, nas Américas, na Ásia e na África. O Vaticano e a Organização das Nações Unidas também eram clientes.

“Mas o que nenhum de seus clientes jamais soube é que a Crypto AG era secretamente propriedade da CIA” e sua sócia a inteligência da Alemanha ocidental, revelou o Post em uma reportagem exclusiva em colaboração com ZDF, um meio alemão, os quais tiveram acesso a uma história classificada da CIA e informes alemães sobre a operação, bem como entrevistas com alguns dos participantes.

“Foi o logro de inteligência do século”, conclui o informe da CIA, agregando que “governos estrangeiros pagavam um bom dinheiro aos Estados Unidos e à Alemanha Ocidental pelo privilégio de ter suas comunicações mais secretas lidas por pelo menos dois (e possivelmente até cinco ou seis) países estrangeiros”, reporta o Post.

Desde 1970 até 2018, a CIA e a Agência de Segurança Nacional (NSA), controlaram todas as operações da Crypto, sem o conhecimento de seus clientes, e de quase todos os seus funcionários. 
A evolução dos produtos e a adaptação de novas tecnologias, estavam desenhadas para trair seus compradores. A empresa começou a funcionar durante a Segunda Guerra Mundial sob o comando de seu fundador na Suíça, o qual colaborou com a inteligência estadunidense e europeia, mas foi em 1970 que foi comprada pela CIA e sua contraparte alemã. Algumas empresas, como Siemens e Motorola participaram para melhorar os produtos.
Com isso, a CIA e a NSA estavam monitorando comunicações de Anwar El Sadat em 1978, dos iranianos em 1979, como de outros desde a Arábia Saudita à Coreia do Sul, desde a Argentina, à Venezuela, Colômbia, México e Brasil.
A reportagem aborda a forma como foi manejada a empresa para evitar que seus funcionários ficassem sabendo da relação com as agências de inteligência, das disputas burocráticas entre e dentro dos Estados Unidos e Alemanha, como o tipo de informação que se conseguiu obter. Leia esta reportagem clicando AQUI.
O National Security Archive, centro de investigações de relações exteriores e documentação oficial secreta, disse hoje que a reportagem do Post confirma que entre os países que empregaram as máquinas da Crypto para suas comunicações secretas estão os regimes militares da Operação Condor encabeçada pelo Chile, Argentina e Uruguai quando “realizavam atos de repressão e terrorismo regionais e internacionais contra figuras da oposição”. 
Com o uso dos instrumentos da Crypto, a CIA e a NSA tinham a capacidade de monitorar operações golpistas e de repressão dentro do Cone Sul, até atos terroristas como o assassinato de Orlando Letelier em Washington ou a derrubada do avião da Cubana de Aviación em 1976. Portanto, afirma o Arquivo, a reportagem gera novas interrogantes sobre quando e o que sabia o governo estadunidense sobre essas operações na América Latina. 
O arquivo observa que documentos desclassificados pelo centro revelaram anteriormente que, na começo formal da Operação Condor, por seus cinco regimes, em 1975, se chegou a um acordo para se estabelecer um sistema de criptografia que foi batizado como Condortel. O equipamento para essa rede de comunicação veio da Crypto AG.
Para acessar outros documentos clique AQUI.

*David Brooks é correspondente de La Jornada em Nova York, EUA.
**La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.
***Tradução: Beatriz Cannabrava

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.