sábado, 17 de junho de 2017

Panorama da falsa república

Logo depois da "abolição" da escravidão, Monteiro Lobato apresentou ao senado brasileiro, recém republicano, um projeto de alfabetização das vítimas escravizadas por tanto tempo, numa forma de resgate desse crime social. E ouviu, na lata, algo como "ô, Lobato, tá maluco? Se alfabetizar essa negrada, quem é que vai pegar no cabo da enxada?" O projeto foi desprezado e a escravidão, desinstitucionalizada, permanece em essência até hoje.

Em 1954, Getúlio Vargas estava cercado, difamado pela mídia, ameaçado de golpe, o "manifesto dos coronéis", afinado com os interesses econômicos das elites estrangeiras e nacionais, ameaçava a derrubada inconstitucional do governo. Ele havia cometido várias "heresias" para essas elites - ensino público gratuito e obrigatório para todos os brasileiros (até então o analfabetismo grassava entre os mais pobres), atendido as já velhas reivindicações trabalhistas de oito horas de jornada de trabalho, férias remuneradas, licença maternidade e outros, revoltando os patrões e, heresia das heresias, mandado investigar a tal "dívida externa" que, reveladas as falcatruas, caiu pra 40% do seu total. Independente da sua índole centralista e tirânica, Getúlio catalizou o ódio das elites estrangeiras e sua subalternidade brasileira e, pra evitar o golpe, cometeu um suicídio político que acuou os golpistas com o levante revoltado das massas populares que o adoravam.

Em 61, Paulo Freire, durante o governo João Goulart, foi convidado pra fazer um programa piloto de alfabetização de adultos, no interior de Sergipe. Cinquenta lavradores analfabetos foram alfabetizados em seis meses, a ponto de lerem em voz alta. A partir daí ele foi chamado para o ministério da educação, pra realizar o mesmo programa a nível nacional, com a finalidade de extinguir o analfabetismo no território nacional. Heresia recebida com ódio pelas elites, somada a outras que levantavam a histeria dos parasitas podres de ricos, como o incentivo à formação de associações de trabalhadores e sua organização na defesa contra os abusos patronais, a lei que limitava a remessa de lucros para o exterior por empresas estrangeiras instaladas no país e, heresia das heresias, decretou a reforma agrária, desapropriando dez quilômetros de cada lado de rodovias e ferrovias federais pro assentamento de pequenos agricultores familiares, facilitando o escoamento da produção, ligando o produtor, que ganharia mais, ao consumidor, que pagaria menos, eliminando as figuras dos atravessadores que encareciam os alimentos. Os mesmos coronéis que ameaçaram Getúlio, então generais, deram o golpe planejado, conspirado e articulado na embaixada dos Estados Unidos pelo então embaixador Lindon Gordon, que fez a quarta frota estadunidense sair carregada de armamentos e soldados pra iniciar uma guerra no Brasil como a do Vietnam, contando com as ações das elites locais, sempre traidoras do seu país e desprezadoras do seu próprio povo. Jango, sabedor dessas ações e intenções, não reagiu ao golpe, "pra evitar o derramamento de sangue de milhões, numa guerra fratricida", como ele mesmo disse. Sozinho, rejeitado pela arrogância da esquerda - como latifundiário e "lacaio" do capital, incapaz das mudanças sociais que só ela seria capaz - não encontrou apoio e seu governo foi derrubado, como disse Darcy Ribeiro, "não pelos seu erros, mas pelas suas virtudes".

Os militares, instalados no poder governamental, cumpriram a agenda programada. Destruíram a educação pública, incentivando a privada, perseguiram e destruíram sindicatos, associações e organizações populares, varreram das universidades todos os professores que tinham alguma preocupação social, com as injustiças históricas, com a miséria, a pobreza, a exploração, a ignorância e a desinformação, com a formação verdadeira de um povo mais evoluído em suas percepções e relações sociais. E pra ocupar os vastos espaços vazios, a Fundação Ford, de conhecido banqueiro estadunidense, se instalou em território nacional na "boa" intenção de formar professores universitários. Foi daí que começou a se formar a mentalidade empresarial que hoje submete o ensino acadêmico, a desumanização dos cursos, a maldade explícita que favorece os favorecidos e sacrifica as multidões historicamente sacrificadas. Ao mesmo tempo se desenvolvia o império midiático, com a Time-Life equipando a Globo golpista desde sempre, destinado a formar mentalidades, valores, comportamentos, desejos, objetivos de vida, relações sociais. E determinar "inimigos", comunistas na época, "terroristas" atualmente, sempre inimigos pra justificar os crimes contra as populações.

(https://www.youtube.com/watch?v=SaU6pIBv9f4https://www.youtube.com/watch?v=AVCoVVpVMTo)

É demonstrativo perceber que, mesmo numa casa pobre onde se encontra dificuldade até pra comer, se encontra uma televisão, com toda sua psicologia do inconsciente, programando mentalidades. É a estratégia do controle mental, direcionado a cada classe social com seu linguajar próprio, especialidade da mídia que as esquerdas nunca tiveram. A mídia inimiga fala a língua do público, em sua sedução criminosa baseada em mentiras, distorções e induções.

Quando os militares começaram a apresentar nacionalismos "incômodos" - a iniciativa de povoamento da amazônia, o reconhecimento da independência de Angola, mesmo levada por uma guerrilha socialista, o investimento no desenvolvimento de tecnologias nacionais,... - , começou-se a armar a "redemocratização", na verdade a remontagem da farsa da falsa democracia de sempre, com as instituições todas sob controle, infiltradas e dominadas pelos poderes financeiro-econômicos anti-populares. Tudo corria dentro do previsto, inclusive quando foi eleito o partido dos trabalhadores, devidamente "esterilizado" da influência popular e lavado das suas correntes mais coerentes com o programa do partido, para conter os movimentos populares que, redivivos, estavam em efervescência. Como planejado, esses movimentos se acalmaram e acomodaram, na ilusão de que "chegamos ao poder", sem considerar que os governos, há muito, não são o poder, mas sim manipulados pelo verdadeiro poder, o do punhado de parasitas sociais podres de ricos internacionais e nacionais. Mas os efeitos colaterais - pobres nas universidades, ascensão de parte da pobreza à capacidade de consumo de classes médias, menos miséria e desabrigo, adesão ao princípio de integração latinoamericana, informações escapando do controle midiático,... - levaram à derrubada desse partido, descaradamente de forma ilegal, com o judiciário elitista dando nó e desprezando leis com malabarismos jurídicos incompreensíveis ao cidadão comum confundido com as campanhas de ódio e difamação pela mídia privada.

Agora estamos vendo a extensão do programa de subalternização acelerada da totalidade institucional, e o povo se ferrando sem entender o que acontece, ignorantizado, desinformado, inferiorizado e enganado. A coisa toda é muito simples e fácil de entender quando se olha a situação de degradação social em que nos encontramos.Fecham-se as portas do conhecimento pras classes "inferiores", exterminam-se programas de inclusão social, ataca-se o ensino público mais uma vez, eliminam-se vagas nas escolas, ao mesmo tempo em que se constróem presídios que se pretende privatizar pra gerar lucros com os milhões de presos que essas atitudes vão criar. O futuro se apresenta escuro. Mas é na escuridão que se percebe o valor da luz. O sofrimento programado está a caminho, para além do sofrimento cotidiano das multidões. Na minha opinião, isso não vai ficar assim. Questão de tempo pra assimilação da realidade, no seu cotidiano.

Estamos trabalhando, os humanos, contra a desumanidade dos vampiros sociais que, cegos em sua arrogância, não sabem com quem estão tratando. As periferias estão, muito pouco a pouco, se ligando e tomando suas atitudes, de forma embrionária e despercebida. São os debaixo, os formadores inconscientes do alicerce da sociedade, quem vai impor as mudanças necessárias à harmonização social. Em seu tempo, que leva gerações, o que desespera os apressados condicionados ao sentimento de superioridade que desejam "conduzir as massas", na permanente pretensão dos declarados "revolucionários", que temem as favelas e não entendem nada do povo de verdade, nem falam uma língua que se entenda no chão da coletividade.

Quando se enxerga o panorama histórico, não há "absurdo" ou "retrocesso", mas a continuidade do programa estabelecido pelos inimigos de sociedades justas, pelos exploradores e mantenedores fervorosos da ignorância, da miséria, da desinformação que permitem a exploração desenfreada da população e dos recursos nacionais, as poucas dinastias de podres de ricos, verdadeiros demônios da humanidade. É preciso enxergar a realidade antes de resolver como agir, como participar da maneira que se quer, e não da forma programada pra ser ineficaz, impotente e cênica.

Quem pretende mudar o mundo está induzido pelos condicionamentos do sistema social escravista, inoculado de sentimentos falsos de superioridade sobre o povo roubado em seus direitos fundamentais. É preciso quebrar esses pedestais de vidro, artificiais e segregadores, criadores de distâncias que impedem a união solidária do saber da academia com a sabedoria das vivências sabotadas, que tem origem no sofrimento e na superação de dificuldades que nenhuma outra classe tem.



19 comentários:

  1. Excelente texto Eduardo. É exatamente isso. Sigo o seu trabalho com afinco. Tenho enxergado cada vez mais a mente condicionada pelo sistema social e estou encontrando pouco a pouco um sentido para a vida. Um sistema que fabrica uma infinidade de doenças físicas e mentais e gera felicidade para a indústria farmacêutica. Um sistema que induz a competição e cria a ilusão da "importância de ostentar". Parabéns pelo trabalho de reflexão e criação de focos embrionários.

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    1. Eu diria que gera "grana" e não "felicidade" pra indústria farmacêutica. No mais, de acordo. Gracias.

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  2. Eduardo, já acompanho seu trabalho há um tempo e a cada vez que me deparo lendo os seus escritos, fico extremamente feliz por conhecer mais uma pessoa, que não se deixou ser influenciado pelas opressões da mídia. Já entro em concordância com você, a partir do momento em que você fala da escravidão desinstitucionalizada. Incrível esse trabalho, que você faz por meio dos textos com o intuito de informar e alerta a população que se encontra cegos pela influência da mídia elitista.

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  3. http://astravessias.org/quem-e-eduardo-marinho/

    Vi esse artigo sobre o Eduardo.

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    1. Uau! Um "olavete" me difamando. Nunca esperei tamanha importância... rsrs

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    2. Hahahahaha
      Você conseguiu ler tudo, Eduardo?
      Confesso que não tenho paciência pra isso...

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    3. Eduardo. Você já começou a incomodar algumas pessoas, e sabe que quanto mais incomodar, mais aparecerão imbecis condicionados por outros imbecis oportunistas que buscam seu lugar ao sol através da boa vontade alheia. Então amigo, força sei que não lhe falta, mas desejo boa sorte em seu caminho. As pessoas precisam ser alertadas. Que não acreditem uns nos outros, mas que ao menos abram os olhos para história que se repete década após década.
      Abçs.

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    4. Este comentário foi removido pelo autor.

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    5. O cara, autor do texto, é procurador da república: recebe alto salário, tem inúmeros privilégios, acumulados em razão do cargo. Se tem alguém que tem que ser criticado é ele, eu gostaria de vê-lo vir aqui explicar o que ele anda fazendo, reproduzir a ordem social injusta. A cara de pau dessa gente que é serviçal das elites é impressionante. Achava eu, Eduardo Marinho, que os olavetes ainda não tinham descoberto você. Gente despeitada quando é desmascarado é foda e quando pensa que superior é pior ainda.

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  4. É uma maquina de fabricar robos sem cerebros esse sistema,precisamos quebrar isso e o seu texto é perfeito nesse ponto,acredito como voce disse a mudança não ocorre de hoje para amanha e nem existe uma mudança brutal da situação e sim a conciencia do povo em não partilhar dos valores desse sistema.Aqui em meu bairro pobre ,toda a população é de operarios que ligam as maquinas e ja existem alguns grupos de pessoas se juntando para discutir ideias e conversando sobre a mudança de valores deixando de ser tão competidor e sim coletivo,ou não defender tanto um interesse proprio ou consumir algo desnecessario e sim fazer algo de bom para o bairro como juntar o lixo nas Matas daqui e conversar com as pessoas sobre a importancia da preservação.Acredito que ações assim estão aumentando e algum dia ,a mudança começe a ser mais nitida aos nossos olhos.

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  5. Nesse universo gigantesco, estamos vivendo um momento de transformação constante com grandes possibilidades. ( Risos ) palavra do momento "sensibilizar" nesses dias de transição✓

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  6. Eduardo. Um abraço desta parte da terra que chamam Côlombia. Com português errado queria lhe dizer que admiro muito vc. Consegueu seu ojetivo, tô reflechindo muito, demais. Vou morar no Brasil na primeira semana do agosto, ótimo um papo com português errado. Brigado!

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  7. Oi, Eduardo!

    Quanto ao Monteiro Lobato, em suas obras, identifica-se racismo, como a personagem Anastácia, serviçal submissa, ocupando o seu lugar de preta na história.
    Muitas vezes, quando ela contava histórias para a Emilia e os demais, recebia comentários diminuindo a relevancia do que contava.
    Em biografias do Lobato, ele teve simpatia pelo movimento higienista norte-americando que acreditava ser a raça branca superior e, portanto, deveria-se investir o embranquecimento. No início do século, o Brasil teve esse embranquecimento, pois maior parte da população era bem escura, poucos traços europeus. Então, viabilisou-se a imigração de italianos, alemães, outros, essas famílias recebiam uma terra - enquanto os afrodescendentes, descendentes dos que vieram para cá escravizados, muitos não tem onde morar até hoje.
    Com relação ao embranquecimento, deu certo. Hoje podemos ver muitos afrodescendentes de peles claras (comparados aos povos africanos) com traços europeus (nariz fino e cabelo não tão crespo). Racismo.

    Claro que não existe quem seja só mau nem só bom. O presidente Abraão Linconl que lutou contra a escravidão nos Estados Unidos e ajudou a terminar com esse sistema por lá, tem muitos comentários racista. Ele acreditava que os negros estavam mais para animais. Ele também era contra a exploração dos animais.

    Quer dizer, contribuir para abolição da escravidão negra e ser contra a exploração animal, isso é muito importante e contribui para o progresso de nossa espécie. Entretanto, ele era racista, infelizmente.

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  8. Ah, desculpe os eventuais erros.
    :)
    mas acho que deu para entender a mensagem.

    Beijo!

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Vou te chamar de filosofo antigo dos tempos modernos. Teu poder de gerar reflexão é gigantesco. Percebi por conta própria vários fenômenos sobre a nossa sociedade, sobre como a TV manipula as massa, sobre como boa parte da população é cega e está numa profunda bolha de trabalhar, consumir e publicar sua vida nas redes sociais... e me identifiquei quando vi teu documentario essa semana quando tu diz que tem gente que acha que é maluco por que ninguem entende o que quer dizer. E outra frase marcante, "se mudarmos a nos mesmos ja estamos mudando o mundo". Sou gaúcho e cultivo a tradição do nosso estado pois aprendi a dançar e musicar desde cedo, mas não concordo com todas as ideologias culturais do nosso estado. Estou no começo da vida e sei que tenho muito a aprender e evoluir, sempre quis ser sábio e ainda vou me largar no mundo como tu fez, pois sei a energia, a vibração boa que a rua e a convivência, troca de ideias na rua com muitas pessoas agregam na evolução pessoal. Seguirei te acompanhando e divulgando teus pensamentos. Um forte quebra costela.

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  11. Eu fico imaginando como seria se o brasil seria se fosse um relogio! Se nao fosse desviado nenhum unico centavo àquilo q fora destinado!
    Paraiso... pagamos os impostos da suecia, noruega, dinamarca e temos os beneficios da somalia, burkina fasso, uzberquistao...
    Se cada centavo destinado a educacao estivesse nela
    Se cada centavo destinado a saude estivesse nela
    Se cada centavo destinado a seguranca estivesse nela
    Quando isso vai mudar? Qualquer sinal de descontentamento com o sistema atual é destruido. A capacidade da midia manipular as informacoes e o alcance disso é de uma forca desproporcional, desligar a televisao ja nao é o suficiente.o brasil parece ser uma causa perdida, "por amor as causas perdidas, só a juventude pra toma-las nas maos"

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  12. Moço eu tento sempre melhorar minha compreensão das coisas seja intuitiva ou racional.. dps que vi seus vídeos percebi que as respostas para minhas perguntas estão bemmmmm longe e que tenho muito oque aprender e pensar talz ... vc é d+ moço 👏 . É tão raro

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